PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 4 de agosto de 2012

RITMADA DE IMPROVISO

Me esquecia dos mares mortos,
plácidos e rotos.
Nuvem na hora da vida,
estrela ferida
que rutila
indolor
no convés
do sol.

Azul cintilante,
como a cor da noite
na passada dura
do retirante,
como o castelo na capela
e o corpo de Florbela.

Restos das marés
na paz do vinho,
vícios de boreste
na luz do oeste,
certezas imorridas
de naus vividas,
eu saberia da vida
num ataque
de fúria
pelos poros
de toda anarquia,
eu veria o corpo rijo
de frio na floresta
nórdica em que
minh`alma dormia.

Lembro, ainda,
da pernoite estrelada
da máquina da memória,
lembrança iconoclasta
no mar fundo
como a rosa
sem par,
como o silêncio
sem o grito,
como o meu corpo
sem a dança.

Viveria o bandolim
na cratera de um violão
que flutua,
sustentando toda sombra
no inferno da percussão.
E, de um instante sem rumo,
olharia o convés de través
no ritmo inquieto
de castanholas
conversando com a luz
de um trompete,
enquanto a clarineta
dava pulos
depois do contra-baixo
bafejar
seu fundo
atônito
de poema
escuro.

02/08/12 Libertação
(Gustavo Bastos)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

POEMA PARTIDO

Entre cantos de vitória
em vão,
rasgo o poema num ato
de fúria,
sujeito e predicado
se partem
e se tornam
dois poemas
opostos,
de cada lado um osso,
um fêmur e uma mandíbula,
o caos e sua vida,
de cada lado
os dois sonhos,
um sujeito irritado,
e o predicado agonizando,
um verso ao meio
sem saber o porquê,
eu que canto e me espanto
com tal façanha,
um que ri e outro que chora,
um que nasce e outro que morre,
dois de um mesmo universo,
um para mim,
e outro para você.

11/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

MILAGRE OCULTO

O milagre putrefato
ascensão de Maria
vingou quedou
ruiu morfetizou
a vaga indecente
fez hora
e tudo partiu
no raio sonoro
da paisagem.

Oras com horas
alhos bugalhos
a bomba atômica
caiu sobre o relógio
as horas que se perderam
oras que tu oras
por um Deus-vinho
que canta alegre
e não mata ninguém.

Vozes de fuligem,
cartas secretas
de um jogo sujo,
e a puta que pariu
o seu primeiro
rebento.

11/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

POEMA ADORADO

O espanto nasce,
a vida renasce,
faz o amor alvo
da paixão,
o desamor corrosivo
doer de fogo
nas entranhas
de um pesadelo,
e a voz febril
ao telefone
dizendo
que eu sou sua
mas tu não é meu
que eu sou seu
sem ser minha
que duvidamos
de tudo
na noite parida
de sangria
derrota
descrença
vingança

A paixão devora,
o amor constrói,
a dúvida mata,
e os hipócritas
evitam o grito
mal sucedido
de toda poesia.

11/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

INFERNO DOS RITMOS

Certamente que rimos
sempre das mesmas piadas,
como pode um ser
rimar sem dar contas
à sociedade?
Como pode o poeta
ousar a escrita
se tudo desmorona?
Como entrar no sótão
da esqui    zo  fre nia
                   qual    música    oca
             ri  má   parida?
                              num
                       sem dor dolores amores
                                ó    dores?
como?
        lou   co     como louco?
                   ás da canastra
                   carta perdida
                      gênio gênio
                          gênio?

Pode a morte ser bela?
Pode ser a vida viável?
Pode a verdade?
Não pode?

Certamente que choramos
sempre dos mesmos dramas,
e tudo isso vai ao inferno
com todo o meu amor.

11/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)  

CANÇÃO ANÔNIMA

Eis que venho de estadia
num estado vário.
Donas doces do coração
liam o serviço dos jornais:
"O professor Rubens
se casou com uma virgem
chamada Zuleika,
lá na casa deles
só se come carne
aos domingos
e o cachorro
só come angú."

Passo adiante com a flor roxa
dos tempos de universidade.
"Parece que estão felizes,
Rubens faz questão
de ignorar a imprensa
e as notas nos jornais,
a propaganda farta
que fizeram
parece-lhe
um circo dos horrores."

Passaram-se anos e Rubens
teve uma filha demente
que foi treinada
para se tornar
atleta,
hoje ela estará disputando
as para-olimpíadas.

Outra crônica foi escrita
no mar de saudade,
Rubens, Zuleika e a filha
moram em Madureira
numa casa de um cômodo
com ratazanas passando
sob as camas
nas madrugadas
de chuva,
mas a imprensa
garante
que é uma família feliz
e que todos os dias
são ditosos
como num
carnaval.

11/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

A POESIA MISERÁVEL

Quais arcos do meio-dia
em solo pátrio
resistirão
à chama?
Notas musicais invadem
a pauta enegrecida
de tumores.
O vate sonha,
mesmo acordado.

Elêusis sopra o vento zéfiro
nos haustos do dia frio.
Corrói a tempestade no suicídio
de uma aranha morta.
Febre montada em holocausto
serve aos morfemas do castelo
de poesia,
um para cada
soluço,
e uma pontada cáustica
na última dor
e no último verso.

Será, das vagas sentimentais,
o poeta mais feliz do mundo?
Será feliz o triste na montanha
ou feliz estará no vale
sem saudades de nada?
Como não tenho nada com rima,
e nem com desilusão,
me mordo e me calo.

O forte sentido na cruz
da espada e do fogo
elege martírio
e espanto
na faca indolor.
E o poema resfria
o desespero
numa obra violenta
de nervos e canções.

Alamedas passam pelos
olhos tristes,
e a peça da nau azul
é a peçonha
de um náufrago.

Os mares sorrindo
são horizontes
onde a visão
se perde
em filosofia,
e os áureos tempos
de realeza
acabam
na miséria
absoluta
e na calma solene
de versos que se derramam
sem pensar.

11/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)