PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

HAICAI - XXIV

Em toda poesia
não existe na noite triste
o que feliz ria.

27/04/2011 Livro de Haicais
(Gustavo Bastos)

Passeio Sem Destino

Passei por dias exatos
que eu perdoei.
Naquelas canções atávicas
um pastor de ovelhas
balindo
acordou-me
de minha overdose,
eu sonhei com um lobisomem
que cantarolava
"Sympathy for the Devil"
quando eu disse
que iria morrer.

Passei náufrago e risonho
por dias descabelados
em que uma onda hippie
makes me happy again,
mas não trouxe notícias
de uma nova guerra.

Eu pequei porque se peca
quando vivemos,
e não há asno que me
convença do contrário,
de que tudo é perfeito
e de que não somos
maus.

27/04/2011 Delírios
(Gustavo Bastos)

Eudaimonia (Parte II)

(soneto alexandrino)
Afogo as lanças do meu pátrio poder quando
não tenho forças e bravura nos meus olhos,
que vêem paixões sombrias de féretro tão santo,
da divindade que aparece como fogos.

Eu não descanso da mortífera ilusão,
na profundeza dos delírios da caçada
que mata e come restos em ardis em vão,
toda promessa que será logo tomada.

A religião virá dos brios dos povos brutos,
em que nos vemos na pocilga dos cadáveres,
que redivivos do horror sofrem escorbutos.

Dias de suplícios que terão os cães lazarentos,
tão sufocados em motins das mortais lápides,
estas sutis carnes então vão soprar ventos.

27/04/2011 Sonetos da Eternidade
(Gustavo Bastos)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Tributo à Alex DeLarge

Teu tenebroso sonho
ecoa ubíquo
no sol violento
de leite e sadismo
no encontro
de Beethoven
enciumado
com os ventres
cortados

Alex DeLarge semeia
ódio às devotchkas
que ele tanto ama!

Clockwork Orange ...
that`s enough!
I can see my eyes
burning in a head
of lies!

Behaviorismo no teu crânio
em fotogramas de ultraviolência
te fazem pirar ...

Quanto será da tua dor
a mesma triste sina
em que a Lei se vinga
de tua luxúria
e de teu cinismo,
ponha-te de volta
à noite dos tcholkos
de moloko vellocet.

25/04/2011 Delírios
(Gustavo Bastos)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Oceano Improvável

A boca trêmula sente sede
sabida de sua sábia condição
de verbo.
A palavra se dissolve na paisagem,
o horizonte é o termo em que afunda
o olhar iluminado de sol.

A carta que escrevo à posteridade
nunca será lida por uma caterva
de vivos, estarei morto
em minha solidão
quando a notícia
de minha vida
ecoará nos tímpanos
da velha estória
de mares sem fim.

O olhar permanece calmo
sob o invólucro da desolação,
a praia com que se alcança
o fim dissolvido na areia
é o castelo que a onda
engolfa com sua fome de caos
que volta ao enigma beatífico
do oceano e suas quedas.

20/04/2011 Delírios
(Gustavo Bastos)

A Paixão Descoberta

Quando eu desejo o teu desejo
tu me desejas ardentemente.
Quando tu me tens em tuas mãos
cálidas de fogo bruto,
eu acordo e canto,
num alvo do espanto,
quão bondoso é o amor
das vísceras
em sombras
do inferno
em céus
esquecidos.

Eu tenho o que tenho
em mim a minha jornada,
eu quero o teu querer
do que quero mais e mais.

Outras armadilhas gritam
pelo meu socorro.
E a minha dor afundada
em lágrimas é o tesouro
que o poema traz
em seu bojo
de anarquia
de verso
de tempo
de morte
de tudo que ruiu
na cidade do vento
a paixão.

20/04/2011 Delírios
(Gustavo Bastos)

domingo, 17 de abril de 2011

O Poeta em Conflito

Para calar a verdade
do pouco que sei,
digo mentiras e bobagens
para desviar do mundo
tudo aquilo que é oculto
aos olhos da sabedoria.

Piso no silêncio do coração
contrito de tristeza,
entro e saio de minha razão.

O que sobra de valentia e coragem
é o terreno complexo e tortuoso
do verso que se firma no alto
de tudo que vejo,
e não haverá firmamento sólido
no deserto da canção.

O sonho se veste ou fica nu,
basta ao poeta
decifrá-lo
ou matá-lo
em seu coração
de ilusões
e imaginação.

O poeta pode calar-se
ou gritar,
pois o fundo de sua existência
é o paradoxo de um sol
na escuridão.

17/04/2011 Delírios
(Gustavo Bastos)