PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 13 de junho de 2010

PALAVRAÇÃO

Os mares fogos teatro lampejante touro fecundo, morte de tronos asfaltos brasas terras de pompa austera. Que da lua crateras correm sol, faz-se do ar cada dia débil das coisas póstumas. Que bela viagem dos ouros bronzes climas trópicos infernos casa de praia. Cigarros na janela, à porta os jornais de anteontem, os lixos espalhados na cozinha, o chulé do chinelo, as minhocas e as moscas e as formigas, pobre podre anjo suicídio, progresso da festa, calças compridas de inverno incenso cola de sapatos cheiradas para ver duendes, que as mortas putas lambidas são carne de gado. Perfume. Fogo. Sambacanção e esferas. Lilases sonhos doenças faro nariz, desejos desejos fornalhas desventuras. Ponte até o nada. Cidade-motriz-força-sem métrica, confuso sonho se tivesses teu deleite. Confessionário do sexo, léxico da história do mundo em língua morta. Fedendo a eternidade, neuroses do século, febres do milênio, vulcão do tempo, relógio em que penso, porcos vorazes, revoluções de imbecis, insurreição polêmica tarde nababesca. Busco o dia, busco bando de bandos verrugas cicatrizes suvacos cotovelos feiura bebida vômitos, busco beleza corpo dinheiro roupas cheques firmamento segurança trapaça bênçãos, por onde ando é o que pensei, seria monge, seria prostituta, seria presidente frade rabino rabo rabada roubada com joias armas olhos bocas ouvidos ignorância profunda e filosofia, seria poeta, oh sim! Poeta dos piores, experto, impertinente, agressivo, parvo, um dândi antes fosse, marginal das quimeras, bárbaro mendicante dos uivos dos laivos das deusas, incoerente avesso fantasma chefe porteiro viciado estrume salada cachorro verme extintor.



Sabeis vós todos:

Detive-me detento sol sol

Do éter, pouco se sabe

Da ressaca do bêbado

E da conquista do poeta,

Sol comarca estaleiro

Palavra pronta na madrugada.



Perfeito mundo da ideia motocicletas atalhos recheios filas de impostos grávidas, perto perfeito mundo oceano torre flagelo mordida, falarei de trabalho outro dia, conseguiremos amizade, amor e fama, consegui brigas bares cerveja barata choca mofada, bengaladas dum velho, xingamentos velozes. Eia! Eia! Já passa o cometa, tiro fotos de cadáveres, passeio co’os olhos defumados de maconha íris púrpura pupila tosses petróleo usina nuclear.



Canto porque existo sempre

E canto porque sinto sempre

E canto porque é a hora

Escrever escrever escrever

Morrer deitar frutos

Favela vela abandono

Corre o sangue, já voei sem ser divino,

Se é mistério

O meu mistério

Monástico mito metamorfose auréola diabos.

Conquiro, ergo sum!

Aos mares! Vos digo:

Sabeis devorar o tempo

Sabeis gozar o instante

Que se exaltem segredos divertimentos

Calvários chamuscados ventos bucetas.

É puta das mais putas: poeta.

POEMATA

A inquietação de quantos ares

Borra no sol mudo do revólver

Dispara, no entanto

Jaz nuvem da sexta-feira

Prima da luxúria

E os bagos

Volteiam násdegas



ÓCIO (belo desfazer-se)

Quem assusta mais que nada

Deu no MESMO

Com bananas d’água na terra

Descansam

Olhos

Furos

Findada caótica ditatorial

Da preguiça



Mártir de Marte guerreia a morte

Imundo fariseu depoente

Dos cachos de sulcos

Pompa faraônica

Ônix

Ópio

Society to kill

My music

De tantas tantas vezes tantas

Coisas-nada

Já é sexta-feira, ócio-inquietação

De sol-revólver-baleado



Dos bagos bostas expeliram carne

Esperma de fetos (que era ovo)

Espera de fatos

Devaneio do cuspe

Absorto quand’ando

De quantas

Físicas crepusculares

E contra-matérias pró-espíritos

Cavando covas pró-esqueletos

Dançando contradanças

Das cornetas cornucópia

Plêiades fênix desmorre



VÊNUS sexóloga

(atrás EROS flechado)

E de quantos em tantos

Pomares de alvo.

continuação

IMPROVISO




Tem uns olhos que entardecem,

noite que se prenuncia.

Mas o seu corpo amanhece,

claro como a luz do dia.



Há qualquer coisa de torre

na sua altura dourada.

E de alto a baixo lhe escorre

a palavra "Apaixonada".



É bela como o silêncio

e ardente como as mãos presas.

A cada adeus, ela vence-o

com amorosas certezas.



Nos seus seios, vejo a vida

rebentando de desejo -

pois sua alma enfebrecida

mora na carne que eu beijo.

continuação

O REI E O REINO




Aqui nós dois a nossa vida

longe do mundo construímos

no que antes ela era perdida.



Teu corpo nu (pétala de ouro)

povoa a solidão em que ontem

eras em sonho meu tesouro.



E eu te conduzo a manhãs claras

que não havias suspeitado,

nas noites frias e de raras



luzes, em que eras só espera

de um incerto acontecimento:

inesperada primavera.



Agora, tudo é já passado

e (estranho!) tudo é só futuro,

no sonho em verdade tornado.



E assim, apenas porque és minha

nesse reino que é nossa cama,

eu sou o Rei e és a Rainha



na graça plena de quem ama.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

VIAGEM PARA O FUNDO

A casa mal amada dos olhos meus

está na neblina do olvido.

Quero ferir o coração

em tenebrosa nuvem escura,

e dardejar o pranto

com o eclipse do tempo

mal contado do relógio.



Sou o trigo desta terra bendita.

Caio num sopro pelo infinito

de navios e cais.

Tenho em minha varanda

o sol sempre sonoro

de uma lama vermelha

do crepúsculo final.



O ventre de uma vil fêmea

não me fez alegre e nem homem

viril.

Sou vítima do ardil suicida

da tempestade da bomba,

um serviçal do agouro

para a metafísica das sombras,

o exílio fumegante

da dor carnal esquartejada

pelo ódio dos soldados

ao pé da montanha negra

dos meus ares imaginários.



Cada queda fazia o meu poema,

e eu vivia de onde o mar era oceano.

Pelo canto fatal eu não dormia,

e era a manhã de um cinza pálido

que depois a aurora cobriria

de arrebol em todos os lares,

e as antenas e satélites

tomariam fôlego

para a imagem etérea do dia

e o fim funesto da noite.



Eu queria como queria deitar

na várzea sob um signo de espanto,

e matar os bois para um apetite

devorador e eterno.



Não terei que me fazer poeta

por estes estertores e devaneios,

sendo isto, a sombra transcendente,

o meu silêncio para o nada.



Desta casa e desta varanda,

sonho com um coração imenso

donde se tem uma visão da praia

em que posso beijar o mar,

e deste imenso da imensidão,

mergulhar para o profundo

do qual ninguém sabe voltar.



07/06/2010 Gustavo Bastos

domingo, 6 de junho de 2010

OFERENDA

A tormenta vaza aos sentidos,

Dou uns trocados para os bárbaros,

Segredo enfadonho de todo verso,

Crítico estourado, indigente das fábricas.

Paraíso deste mundo vagabundo,

Potrancas se organizam e se balançam.

Noite de dançarinos vorazes,

Milagre das oferendas,

O que os deuses comem,

Esses manjares de ócio.

Há muito tempo está escrito,

Na praia de todas as almas,

Velas de umas rezas levantadas.

O que sobra aos batuqueiros,

Danças dessas moças.

Em torno dos altares que fulguram.

Belas vestimentas, alvas de tão puras.

O que é certo avulta no desfecho da obra.

Ao que é de morte gritou a vida.

Pelo que a esperança professa,

Tenham no coração o espírito da verdade.

Que o poema não seja apenas um jogo,

Pois a vida é que se revela.

O canto das perdições, das dores ocultas.

A divindade que me pegou era um orixá.

Tenham lenha para a fogueira,

As danças marcam os trabalhos,

Vamos fazer uma oferenda,

Para a vida da floresta.

Que batam os tambores!

AS COLINAS

Alturas intensas dos ares gelados,

Outrora de uma maravilha,

Júbilo e encantamento esperado.

As colinas em que se perde o olhar.

A fortuna da vida de poeta,

Que grita na alma,

Nos vários ritmos do poema.

Esta nuvem em que mora a volúpia.

Os demônios da paixão que morrem.

Amores e desastres da beleza.

Os outonos da morte, a paranoia do caos.

Os mares aflitos do coração,

Que acordam a metamorfose do tempo.

Pelos céus que encontro nesses montes.

Quando se revelam tais versos,

Pelas trilhas das orações.

Os desertos cantam outras eras,

Deserto de trigo, deserto de tomilho.

O que sinto plenamente é o porvir.

Depois das matanças, um retorno ao bem querer.

Atrás das colinas, esse sol que tanto procuro.

Dos sonhos que imaginava,

Vertia o sangue, beijava o fulgor.

Terras distantes em meu delírio,

Já abria as portas do espírito bondoso.

Em minhas mãos uma mulher morta,

De tal terrível desejo.

As colinas, as colinas ...

Passeios por mundos vicejantes,

Nas loucuras do amor intenso.

Por onde me criei, sou jovem e esperançoso.

A malícia deste verso

Eu faço com honra e ironia.

Minhas primaveras, meus sóis,

O verão de um longo fervor.

Que as chamas levem os fantasmas.

Vejo o rincão do descanso, leve nostalgia.

Lá onde estou pleno,

Doce pássaro de nobreza e candura.

Os ricos campos verdejam de tanto êxtase.

Em volta das colinas, as doces colinas.

Alturas que refulgem, raios estupendos,

Uma formosa névoa me regenera.

Rios de exuberância, plena exuberância.

As longas viagens de uma vida.

Belas contemplações, os olhos que miram.

Pinturas pungentes do coração.

Floresta tão amada,

As almas nativas e adoradas

Deste meu poema, que vive a terra nativa.

Nas colinas moram os anciãos,

Meus sábios monges,

Minhas douradas iluminações.

O que a esfera azul me servia,

As estrelas da constelação da magia.

Ao que o verso se referia,

Dou o sangue pela arte.

Espero o magnífico da morte,

E a tão louvada fraqueza de poeta,

Se apaixonar pela natureza.

Desespero de poeta, saber que é vulnerável

Ao tempo e à paixão. Tenebrosos caminhos,

Dos mil levantes da alma poderosa.

Os beijos malditos que sonhavam,

Mares deste sonho, lua amorosa.

Este amor é o veneno da sedução.

Volto-me aos encantos perdidos,

Volto à selva em que um dia dormiria.

Estes céus em que moram as colinas ...

Eleva todo espírito que se torna poesia.