PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

SINAIS DA TERRA PERDIDA VIII

VIII – OCULTADO


O que já se está esquecendo, é o que dói em mim.

Por ter havido o acontecido, eu só tenho a mágoa.

E, diante deste câncer que mata,

Não queria tê-lo sentido.



Pressinto no mesmo amargo coração

O que em mim se reveste – luto –

Que no alto conclama o ato por morrer.

Pois do alto desce e se quebra inteiro.



Lento, sabores deste sonho, o fogo apaga sem ter acendido. E no ato por ter tido um ato, é o ato que se deu por inevitável. Que fique a mácula, o câncer – não me dou por vencido – mas tenho estado frio, num momento eterno, o que do Infinito está ignorado.

Este último (Infinito), por Deus só, é notado.

sábado, 5 de dezembro de 2009

SINAIS DA TERRA PERDIDA VII

VII – OS COMPARSAS DA FORÇA


Deixando a terra nova, eu colho a fumaça do céu.

Os dias passam, há náufragos, há o desterro.

Estava a terra boa repleta de sedes espumantes,

Um ar de cristal na chuva da alma,

Os sais do tempo intratável,

Um ar de riqueza e sonhos prisioneiros,

As canções da noite iluminavam aquele céu.



Os corais diante desta terra

Eram as mãos do encanto,

O gatilho das esferas,

O som estridente da barbárie.

Estava o delírio renascido,

Um sol de rachar a cabeça,

As águas então evaporaram.



Eu caí na perdição da terra,

A mesma sede de sempre.

Os olhares estalavam,

O sol da noite era o fogo do desejo.

Eu via os deuses soprando

A névoa solitária da canção.

Os meus comparsas da noite

Traziam o suprimento.

Não haveria fome por um tempo.



À terra perdida, eu dou tiros.

À terra dos fortes, eu sou um soldado da força.

Deixando a terra nova, saíram os forasteiros.

Atrás do mundo morto, que as flores amam.

Na noite cadavérica dos sonhos frios,

Eu colho a fumaça do céu

Das infinitas angústias.

Se olho pelos lados, é para conter o barro,

O brio montanhoso, o pavio tortuoso,

Nos fins da estrada.



Num traçado de fogo, o qual era destino,

Levei a dança aos corais,

Aos apreços pela arte.

À terra perdida, encontro o fim dos fins,

O começo da felicidade.



Vejo em toda vida honrada:

Virtudes raras de força,

A coragem,

Um homem escasso

Em dias de covardia.

Sei que são virtudes de liberdade.

E os filhos do desterro, soldados,

Meus comparsas, caem na graça eterna.

É a guerra da vida.

É o grito. O motim.

O horizonte que há na fronte armada.

Há o vinho e o tempo.

E o céu sobre a terra perdida.

SINAIS DA TERRA PERDIDA VI

VI – FONTE DA SEDE SECA


Uns jazem loucos nas ribeiras,

A caravana sai ao deserto, a sede era o temor.

O vinho estava incandescente,

As luas nos hóspedes das noites fremiam ao espanto,

E o que calava na estrada era a santa imaculada.

As virgens invejavam a plenitude,

A caravana dos velhos regiam os céus grávidos de sol.



O corisco mandava matar-me à janela da liberdade.

Uns jazem loucos de sede odienta. É o tédio.

Eu rodeava os extermínios, que vulcões explodiam.

Fiquei estupefato e risonho.

Dei uma olhada aos ventos que ali planavam

Nas ribeiras, que descalço eu via.



A caravana dos odientos magos de estrelas

A caminhar, uns jazem nus pelo caminho.

Dou a guilhotina, o fuzil e a munição.



Para os alardes repentinos,

Um manancial de febres

Gritava, nem uma música acalmaria

Os tais viandantes.

Era tudo do vinho, e de uma fonte seca.

domingo, 29 de novembro de 2009

SINAIS DA TERRA PERDIDA V

V – LUZ


Essas brisas alegres relampejam, são luzes sortidas, vagam sob o sol, não se prendem.

São brisas róseas de verão, de sol firme, que invade o mormaço, que se funde à terra imaginada a óleo do pintor, que renascem sofridas dos ombros do trabalhador braçal. São brisas que levam fumaças, que a rua do ourives galanteia. Que a prataria toda queria como fogo.

Luzes dinâmicas e naturais. Brisas formosas que reluzem, relampejam, renascem nos ombros mortos-vivos do trabalhador braçal, braços na fábrica, braços viris.

Fico tonto, fico atônito.

Eu dou ao tempo um relógio de sol.

Caio na ressaca do tempo.

Eu finco bandeira na terra molhada, no pudor do cadáver, nas louras fêmeas morenas ruivas. Eu finco com os dentes!

Brisa cintila, relampeja. Luzes fêmeas rústicas, luzes fêmeas modernas.

Eu espero o verão, eu saio à noite atrás de mim. Atrás da fêmea.

Eu diria mesmo: Sou o soldado de vestes pagãs.

Anuncio: Os cordões de fogo, os labirintos dos matagais.

Bem seria uma beleza o Bem?

Estou na brisa, amante. Deveras.

É real o viço. Brisas quentes róseas floridas. Brisas frias róseas feridas. Estavam de vermelho. Estavam de branco. E um luto do avesso na estrela.

Eu derrubo a parede dos gigantes. Eu daria novamente este passo.

Se sofro, é por querer tudo. Se sofro, é por querer demais.

Aqui são sexos imaginados como fósseis raros. Eu puxo a alavanca. Sei muito bem o que é o amor. (Relampeja). Eu não durmo à espera. Se não veio nada, é porque nada esperei. Se veio ao menos uma Luz, eu a tenho em mim.

Brisas róseas floridas, feridas mordidas abertas, pulso.

Até o sangue é flor! Até o sangue, mesmo azul.

Do rio morto no mar eu aprendi que tudo é selvagem.

Não há edifício que suporte um toque de mágica.

Brisas etéreas róseas floridas, insônia criativa.

Bem é o Bem que seria?

Beleza também seria Beleza? E o Mal só uma festa de dançarinos?

A Besta 666 cai perante as asas. Ó facínora!

SINAIS DA TERRA PERDIDA IV

IV – SOMBRA


Renascer é o trovão que ecoa entre as asas da sombra.

Quem deita no trono da sombra é o olho do sol,

Eu deito e caio em mim num redemoinho de cegueira.

Ventava dentro da alma,

Rompia-se a lucidez no ar da tortura,

A mágica divina nos ínferos do sentir.

Um mar sobe sobre as asas,

A sombra me ataca,

Eu aguardei uma rosa desmaiada.



À terra perdida dos desejos ínferos,

Aos torturadores dos anjos,

À sombra que desce,

Ao ar que falta,

Uma louca cantava para mim.



Eu descia, longe da terra perdida,

Tanto que me perdia, com o tesouro que fugia.

Eu que digo: Sou a batalha nas trevas.

Esqueço que um dia fui alma.

O olhar se perde, a alma desce, desce ...

Eu quero a minha sorte,

Os olhos querem sede, têm sede,

São os olhos das trevas,

As mortais campanhas,

Que descem, que descem ...



Eu perco a visão,

Estou cego e só vejo a sombra.

Mais nada virá,

Somente fantasmas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SINAIS DA TERRA PERDIDA III

III – INCENDIÁRIOS


As naus combatem nas fontes ígneas, e o capitão dá o colo à princesa.

Bem-aventurados, as mesmas tropas de outrora, que buscavam nos salões de vidro o sal morto e a viva canção das fúrias, com brios intempestivos que comiam as máquinas, com os motores de válvulas velhas do poema como um rasgo de existência.

Não procurei no horror dos salões de uma nau o que estive a procurar, o salgado mergulho, ou as bocas fêmeas idólatras da fadiga do meu honroso combate.

Eu vi a doce bruxa da estrada morder o meu delírio, e as naus das fontes se cobriam daquele calor familiar da paixão. Esperei a tal bruxa invadir os meus pesadelos, ela que era a mais bonita de tal estadia nas fontes de fumaça, ígneas fontes das naus perdidas, que no mar gritavam, levadas ao calabouço da tragédia, e o mar se agigantou – a própria tragédia.

Passeava atrás dos tesouros perdidos, da terra perdida, do sonho fugidio, na estrada dos calores; imerso ou afogado, estupor e orgia me levavam. O que era bem esperado por mim, não veio. Eu esperei, passeava em busca da riqueza, da matéria mais limpa, do ouro mais vasto. Eu degluti a espera. Esperei e morri. Mas que vida mais insípida tive que viver. A bruxa era uma princesa que eu sentia bem próxima, poderia ser até uma libertina.

Mas, voltei à terra. Os incendiários desceram das naus, aqui entre os portos de uma terra enevoada dos delírios, do viço titânico das armas, e a solda das quenturas ígneas de uma tal fonte invisível.

Já que eu era um tal soldado, saía caçando a beleza. Eu também deveria dizer: uma princesa será minha, um encanto será meu, e todas as muralhas cairão perante o fogo.

As naus descansam já em cinzas. E as cinzas são o sangue que eu derramo, não livrando o pecado ou o crime de todas as mortalhas do impossível.

Era tal caminho próprio ao meu lar, sou o mesmo poeta que incendiou as almas do inferno, que nas naus combatia como um visionário, e que da loucura tomou a vitória. Depois de toda tragédia, do alarme da podridão, e dos gritos enfeitiçados de sonho.

Eu levei um tal incêndio que dormia em mim. Não fico com o que buscava. O tesouro da existência não foi achado, pois é apenas um oásis, ou seja, fontes ígneas de ilusão.

SINAIS DA TERRA PERDIDA II

II – DILACERADOS


Bem dispostos estão os brutos, superadas estão

a sensibilidade e a dilaceração.

Estamos ao mundo, e as orgias

são festanças intermináveis.

Como direi aos belos corações um vinho

e uma fagulha de amor na antecâmara do caos?

Não perguntei por estes ovos de serpente,

Nem há o que comer em tais embriões.

O que de ódio vive, lá no intenso sopro corria.



Ao ver-te, minha dama, senti a melhor inspiração.

Mas vem a Vênus tardia. (Vozes do Mito).

Eu brinco de fazer castelos, pelas palavras adiante.

Devaneios são o infortúnio que eu criei de teimoso,

À vivificante dilaceração!



Em que obrar, a não ser dizer?

A língua é que julga o que nos rodeia.

Somos capazes de reconhecer na beleza

Um pouco de tragédia.

É das árvores de copas vermelhas que o outono se vê,

E em si mesmo se fere.

Há de ter uma lógica natural,

Quando caem os estimulantes dos olhos,

E as bruxarias acordam com risos estridentes.

Quem diz que é certo ao lado de fora?

Pois lá não é mundo. É de lá que tudo aqui se sustenta.

De onde? Do além que não se vê,

Tais sentidos físicos, não alquímicos.

Dilacerados. Matança!

Já era mortalha nos vales da Babilônia.

Ou um Minotauro de Creta que era uma tumba.

Quem quer ver ouro e morre?

São os ditos pagãos.

Eles não comem hóstia.



Regimento. É hora de partir!

Com a rua aniquilada eu dou o veredicto terrível.

Mais que o regimento, as horas do soldado da noite.

No rufar dos tambores se anuncia:

Guerra aos generais!

A sensibilidade requer uma força sobre-humana.

Que me ferve, ó anjo da sede!

Senão as paixões? Pois ela é dita uma dama.

Pois tem paixões, no singular, como seria tal mulher.

Ela bem sabe que o paganismo

Está mais próximo da lógica natural,

Que a tragédia grega eleva o espírito.

Já não se tem piedade?

Ó mártir! Te quero o meu refém. Belo Cristo é este danado!

Os deveres da compaixão também seguem a cruz.

Tão vivo é o pagão e tão comovente é o cristão!

Eu não sei de nada que seja inoportuno.

Quem dá o sinal da terra perdida?

Ela nunca existiu!