PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

VERSO DA CHUVA

Abro este estro
e finda a estrofe
explanando sua coda
de vulcão,

brota da flor potente
meu diapasão,
é o ritmo e sua melodia
que faz timbre com
os ossos e os dedos,

brota da floresta o poema,
um dedilhado enquanto
cai a chuva,

um poema torrencial
de água, água pura
de uma chuva que
faz verso.

22/07/2020 Gustavo Bastos

LITERATURA DO DESATINO

Haverá o dia da verdadeira literatura, com os vincos da enorme paisagem que se abre, os cantos de malditos nas tabernas, eu vi desde Anacreonte e Safo aos libelos de Whitman, ao dias que lendo as suratas um ardor se ouvia do Anjo, ele assinava seu nome de anjo sobre a pedra de Roseta, traduzi meus versos infames para o aramaico para ver este Deus castanho de rio, este Deus verde de mar, este universo que pinta meu labor com as cores da Biblioteca que ergui com meus braços de aço.
Obra esta que tem um certo vínculo irrefreável que dialoga diretamente com Ginsberg e se publica com os laços de Ferlinghetti, sim, pois na verdade austera de T.S.Eliot, tocava no rádio Nirvana e dizia “I don`t have a gun” ou “teenage angst has paid off well” etc. Clicava no ícone das startups, tomava xarope syrup roxo e ficava doidão, já gostei de certos ares de maconha, hoje curto mais ficar na Heineken vendo anos 60, hora que vejo anos 60, ah, flower power e o hábito de chamar as outras pessoas de bicho ao invés de cara, ou, sei lá, chamar de psiu.
Lembrei, depois de beber um Pera Manca, que gosto de tocar violão apenas rock, ou ainda lembro que toco as escalas com afinco, mas volto e brinco de power chord, ah, bem divertido é saber tocar acordes, C/G/B, volto e faço deste poema um canto solar, vou à praia e bato tambores com todo o sol que tem pela frente. O sol, este Deus verdadeiro de Amón, Akhenaton quis nomeá-lo Aton, e vi que Rá era soberano num Templo de Karnak ou na selva dura em que as cataratas levavam a Anúbis perto dos etíopes e talvez no reino perdido da Líbia, caí em crateras, fiz mapa da lua e suas fases, elenquei os signos e abri as lâminas do Tarot de Marselha, vi o enforcado, o louco e a fortuna, ah, ri muito, sofria de gota e de esquizofrenia, li minha carta maior, o arcano me dizia o seguinte : não sei bicho, vai na tua.
Certo, certo, reli Michel Foucalt, vi a diferença entre o frenesi e a mania, e como a melancolia entrava numa amálgama geral em que tudo era classificado a esmo dentro das estultícias, ou melhor, asneira, opa, insensatez? Não, era a classe da nau dos insensatos que virou desatino, tudo era desatino e nada era desatino, até que virasse cultura médica e não hospital geral de higiene social, sim, eu passei pela cultura médica e pela cultura mediúnica, me senti mago e doente mental, claro, depois virei sábio da montanha e comediante que faz ponte com o outro mundo, este mundo imaginário dos personagens brutais que se fingem de loucos e acabam enlouquecendo.
Como este poema se abre como rosa, delicada rosa, certa bruma me possui, eu vejo entre o que já foi escrito, mais uma frente de ideias para realizar, jogo buraco, jogo pôquer, não sei muito, royal straight flush? Ah, mesmerizo mesmo no rock, tem agora um tal de streaming, discos que viram streaming, lançamentos de álbuns que viram streaming, tudo virando playlist, eu também faço, vou atrás e os poemas podem entrar na playlist, listo alguns poetas, pode ser Neal Cassady, Bob Dylan, Renato Russo, Cazuza, pode ser Ana C., pode ser eu mesmo, e faço coda com som de guitarra, Hey Joe, where you goin' with that gun in your hand? Ou : Evil man make me kill ya/Evil man make you kill me. E finalizo, meu poema vive, e vive bem.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Poema em Prosa – 22/07/2020


DESERTOS MÁGICOS

Peça ao arcanjo Miguel
sua lança contra
a sombra, o caduceu
sorri entre os verões
dos mares,

sei, de Netuno a face náutica,
eu vejo que do Saara
ao Deserto da Líbia,
ando na caravana
com os beduínos,
vejo o oásis
e penso no éden,

sim, por sua vez,
com o delta do Nilo
entrevejo a Biblioteca
de Alexandria e o reino
de Saís no final
quando Cartago
foi salgada e morta,

vi Moloque descer
às ruas, como um touro
bravo e cego que
bebia sangue
na hora que vi
este poema
virar uma bomba.

22/07/2020 Gustavo Bastos

PORVIR

Eu já sabia que teria
de minhas artes
um tempo hábil
de vida,

coroar o estro este é meu
emblema

veja :
anotar cada gesto entre
os hinos da fumaça,
pensar neste tear
furioso que encanta
a imaginação,

sim, tem um tempo de colheita
aos que plantaram, da raiz
à seiva e a copa densa,
seus frutos e suas flores,
e uma floresta vasta
e imensa pela frente.

22/07/2020 Gustavo Bastos

A PALAVRA

Preste atenção na palavra,
seu efeito e sua causa,
sua estrutura,
sua ossatura,
seu sentido,
sua ambiguidade,
seu engenho,
sua latitude,
sua longitude,

ouça esta palavra,
repita, torne-a
seu mantra, lhe
depreenda os
hemistíquios,
seu segredo,
seu oráculo,
sua obviedade,
suas letras,
sua composição,

olhe esta palavra,
não a deturpe,
não a subverta,
conduza esta
palavra a seu
lugar, mesmo
que esteja
em um
verso.

22/07/2020 Gustavo Bastos

POEMA DOS NOMES

Eu anotei um nome
entre a flor e a
espada

um nome que diz
a que veio
entre seu ar
e a poluição

nome próprio
que diz o que
veio fazer
fazendo

eu escrevi em notas
cada letra do nome
e anotei seus olhares
anotei seus gestos
anotei sua intenção

eu guardei meu nome
favorito dentro
da rosa vivente

22/07/2020 Gustavo Bastos

QUERERES POÉTICOS

I want my pistol
to kill the stone,
porra, eu dei uma
de doido na noite feliz,
putz! que cara de
tonto fiz na festa,
voltei com este
ar bêbado de agora,

I feel my stone
against the wall,
quebrei meus potes
de ouro e roubei
um tesouro de fortuna
roubada, era o
grito de um ladrão
a esmo,

sim, eu mesmo entrei
entre os luares do sonho,
fiz seresta e sarau,
e pintei o sete
pela funda diversão
de um poeta.

22/07/2020 Gustavo Bastos