PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

SOBRE UM PESADELO

“nos meus oito ou nove anos de idade, eu tinha obsessão pelos diferentes nomes dados ao tinhoso”

Quando eu era criança, tinha pesadelos. Uma vez bem marcante, foi quando eu sonhei que tinha sido preso por matar o homem do cabelo branco do Jornal Nacional (depois me disseram seu nome: era o Cid Moreira).  E, no pesadelo, na cela em que eu estava preso, lá estava a figura de Freddy Krueger, com suas unhas de aço, me perseguindo naquele pesadelo. O filme se tornara realidade, eu estava no filme, igual ao filme, quando Freddy vem te pegar nos sonhos, no caso, um pesadelo.
Lembro que, na noite antes de dormir, ou nas noites anteriores, se não me engano, estava obcecado por uma figurinha que tinha o Diabo de um velho álbum do qual eu só tinha algumas figurinhas e não o álbum em si, de nome Impacto, que uma amiga minha tinha me passado. Lembro que, nos meus oito ou nove anos de idade, eu tinha obsessão pelos diferentes nomes dados ao tinhoso. Decorava todas as denominações com o signo Diabo possíveis. Cramulhão, pé-de-bode, tinhoso, capeta, diabo, satanás, demônio, lúcifer, etc.
Sei que, antes de dormir, fiquei visualizando a figurinha do Diabo e morria de medo, eu tinha gosto por filmes de terror, teve uma vez que tinha acordado com terror noturno de madrugada, pois estava sendo atacado por um lobisomem. Desta vez, na manhã seguinte, eu não me lembrava, quem me falou foi meu padrasto. Mas, voltando, me alimentei muito dos filmes do Freddy e do Jason, dentre outros, e até de umas revistas que vendiam na época, as histórias reais de lobisomem e as histórias reais de vampiro.
Então, foi que Freddy me pegou, e fiquei tão fascinado com este pesadelo, que falei para toda a minha família. Talvez, este sonho tenha sido o mais marcante da minha vida, logo um pesadelo com as marcas de todos os pesadelos, Freddy Krueger. E eu ainda era um assassino preso por ter matado o âncora do Jornal Nacional. Muito curiosa, tal trama.
Como o Freddy foi parar na cela para me perseguir? Só Deus sabe, ou todos os nomes que colecionava de diabos para me divertir. O medo é um prazer mórbido infantil, ao menos na minha infância, pois o terror tinha um papel importantíssimo nos meus exercícios de medo.
Penso que o medo, através do terror, e a simbologia do mal, tudo é fascinante na cabeça infantil, flertar com o medo nos educa para lidar com o inconsciente desde cedo. Freddy Krueger não conseguiu me pegar no sonho, só lembro da imagem dele rindo, com as unhas de fora, numa sombra lateral da cela em que eu estava enfurnado por ser um assassino. Tinha matado o Cid Moreira, meu Deus!
O medo, dizem, é um tipo de demônio. Ouvi isto, uma vez, em uma das pregações cristãs que via na TV, há uns tempos atrás. Logo, Freddy Krueger era o demônio do medo no meu pesadelo de criança. Mas, o medo nos impede de fazer coisas temerárias, o medo tanto educa para não nos machucarmos, como também é o demônio, o cramulhão, o pé-de-bode, o tinhoso, o lúcifer, o Mal metafísico da morte.
O medo é este que também nos dá a chave da sobrevivência e nos dá a morte como ameaça. A morte foi representada por Freddy Krueger naquele pesadelo, no filme ele representa a morte real de forma onírica, e talvez seja a maior das fantasias oníricas : o momento da morte de cada um.
O medo como um tipo de demônio? Boa perspectiva para pensar o medo. O pregador diz para não termos medo. Mas, como não se deliciar com o sofrimento do medo, ainda mais quando se é criança, e uma criança que amava filmes de terror? Então, o que eu fazia, quando era criança, ao colecionar todos os nomes de diabo possíveis, era nada mais que uma coleção de medos. Tentar ver a morte de perto, os medos como demônios.
Então, na minha visualização do próprio Diabo, numa reles figurinha da Impacto, antes de dormir, para ter meu encontro com Freddy Krueger, eu também me tornei outro demônio macabro, que tinha matado o Cid Moreira.  Para saber das coisas do medo, não se pode ter medo, agora entendi a pregação cristã de outro dia. O medo é um tipo de demônio.
Encarando por esta linha, não podemos cair na tentação do medo. Desafiar o medo era tentar não ter medo. Ver filmes de terror com a imaginação fértil também é tentar vencer o medo, tentar não cair na armadilha dos diabos que moram na gente. O medo é um tipo de demônio. Freddy Krueger? Jung explica. Coisas de criança.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/37740/14/sobre-um-pesadelo




terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT – PARTE II

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT E SUA LÍRICA

“a lírica schmidtiana tem palavras que se repetem como o mar, a flor, o pássaro e a noite”

Schmidt teve uma vida acidentada, abandonou a escola antes de terminar o secundário, órfão aos 16 anos, logo entrou na vida de trabalho duro como vendedor, caixeiro-viajante e empregado de serraria, sendo então, depois, dono de editora, lançando autores como Graciliano Ramos e Vinícius de Moraes, e ainda atuou como empresário e na vida política.
A obra poética de Schmidt, poeta que escreveu cerca de 700 poemas em sua vida, é um trabalho literário de tom declamatório, lírico, com certo profetismo, num ritmo vagaroso e que envolvia o leitor, com repetições sonoras, de palavras e de frases. Schmidt toma o tema da morte para si e produz uma poesia grave, confessional, sentimental, e que será então a poesia do autor aqui não apenas de uma repetição formal como também temática.
Quanto às imagens, a lírica schmidtiana tem palavras que se repetem como o mar, a flor, o pássaro e a noite, cujas ressonâncias são da tradição lírica da poesia como um todo, fundando aqui o poeta uma poesia natural e lírica, e que fará a ligação destas imagens-símbolo citadas com temas universais como o próprio Homem, o amor, a angústia existencial, e por fim desencadeando o tema central da poesia de Schmidt que será o da morte, eclodindo então o tema bíblico, sob influência da poesia de Paul Claudel e sobretudo da poesia de Charles Péguy.

POEMAS :

PÁSSARO CEGO (1930)

PÁSSARO CEGO : O poeta aqui já cai num mundo espiritual dorido, próprio ao poeta profundamente 
lírico que é, no que vem : “Sinto clamar em mim vozes tristes, chorando./Sinto gritar em mim longos martírios/Que não sofri.” (...) “Minha poesia é um pouco da queixa de homens errantes,/De homens sem lar e sem repouso.”. O poeta é um errante, mais do que um flâneur, que faz passeio e é feliz, o poeta é um errante aqui no sentido precípuo de desorientação, de perdição e que tem fuga na poesia lírica, no que segue : “Trago comigo a desolação da pátria abandonada/E a revolta de mil incompreensões e injustiças sofridas./Mas há em mim um infinito desejo de pacificação :” (...) “Sou como um pássaro cego voando na eterna escuridão./No entanto a escuridão está em mim somente./Sei que fora de mim há um clima diferente,/Sei que há céu azul, supremas claridades,/E que as trevas estão nos meus olhos apenas.”. O poeta junta aqui a lírica esperançosa de um pássaro que logo se desfaz, pois é um pássaro cego, perdido na escuridão, mas como pássaro que é, canta ainda um certo céu azul que o poeta aqui tem por intuição e luz possível depois da tormenta.

PROFECIA I : O poeta aqui tem em seu estro o tom visionário próprio aos místicos, mas que ganha aqui tom religioso de profetismo, do fim do mundo e que tais, longe de um simbolismo de Blake, mais para um poeta religioso como Charles Péguy, no que segue : “Como o pássaro triste que anuncia a tempestade/Quero também, Senhor, chorar o triste momento,/O terrível momento que pressinto vir chegando!/A tempestade vem crescendo de longe/E cairá violenta sobre as nossas cabeças.” (...) “Tivesse eu mil braços e sacudiria todos eles,/Sacudiria os homens que estão distraídos e ausentes,/Os homens que não escutam e não querem escutar,/Os homens perdidos e desviados, amaldiçoados e loucos.”. Se no poema pássaro cego é o poeta que está perdido, aqui em profecia ele quer ser o guia dos cegos, um poeta apocalíptico e que conclama o povaréu a se prevenir do evento total que certo que vem, segundo o poeta, no que segue : “Avisarei a todos para que se previnam/E estejam tementes e atentos, porque grandes coisas,/Grandes e violentas, estão para chegar dentro em pouco.” (...) “As casas tremerão nas bases, os edifícios enormes/Que se erguem vaidosos para o céu alto/Ruirão apavorando os homens desprevenidos.”. Um terremoto, parece, vai eclodir, e o poema segue, em seu drama espiritual e poético, no que temos : “Nos palácios, os ricos – senhores absolutos do mundo –/Tremerão mais do que os servos humildes achados em falta/Os homens formarão massas, unidos para o grande fim.” (...) “O Senhor me mandou avisar, mandou porque me feriu/Sem que eu visse como, e me fez olhar/As coisas tremendas que ainda não se realizaram.”. As coisas grandiosas já são anunciadas, e o poeta logo ganha este estro religioso, a ideia de falta lhe aflige os nervos, e ele como profeta nos aponta a saída, a justiça dos eleitos, estes que logo estarão no seio divino, no que o poema faz sua pregação final : “Escutai, pois! E orai para serdes justos./Aos justos o Senhor abrigará no seu seio!” (...) “Rasgai como eu todas as vossas vestes/E ajudai com as vossas vozes a minha voz,/Para que nem um só homem fique desprevenido/Dos momentos terríveis que estão para chegar.”

PROFECIA II : Aqui mais um poema religioso, mais do que visionário, um poema de religião e ecos bíblicos de um pastor que delira o fim, no que temos :“É tarde para contemplares a beleza dos céus./É tarde para sentires o perfume das flores./É tarde para te embriagares com as paisagens,/Porque o tempo passou e toda a beleza é inútil.” (...) “Tens uma missão a cumprir e foi o Senhor que te escolheu./Deixa, pois, bem distante de ti toda a poesia:”. A poesia se afasta, pois aqui temos o missionário, no que segue o poema, com ardor : “Espalha a notícia da tempestade avassaladora/Que se levantou muito longe e caminha segura/Para, em breve, envolver todas as coisas.”. A visão do fim, o delírio do castigo logo vem, pois, no que segue :  “Teu castigo será o maior dos castigos, porque estás marcado/E o Senhor te confiou uma missão terrível e triste.” (...) “Tua voz terá a nitidez dos clarins estridentes./Deves evitar que a perturbem os sons mais suaves,/Porque vens para ferir o coração dos homens/E a música adormece os corações pecadores.”. O pecado aqui, mais uma vez, para um religioso, é o que deve ser combatido, no que segue o peso do mundo que tenta guiar o destino universal de todos os humanos, no que temos o drama espiritual aqui como poema religioso e missionário, que logo tem uma sina de deixar a volúpia do corpo e tentar despertar os dons do Espírito, que aqui é um poema como uma pregação religiosa de pureza e que nos diz que o mundo é inútil, no que temos, por fim : “Sobre os teus ombros, tão fracos, pesam infinitos destinos –/Destinos de homens que são teus irmãos.” (...) “Fortifica bem o teu espírito atormentado,/Tira da tua fraqueza o teu grande heroísmo./Abandona toda a poesia do mundo, que é inútil –/Pois a beleza distrai os homens e os diminui./Deixa teu corpo fechado para todas as volúpias./Que a noite abandone o teu corpo cansado,/Porque o teu papel é maior do que tu mesmo – e o precisas/cumprir!”

SONETOS IV : O soneto tem uma temática simples, uma memória cara ao poeta, no que segue : “Noites, estranhas noites, doces noites!/A grande rua, lampiões distantes,/Cães latindo bem longe, muito longe.” (...) “Vozes falando, velhas vozes conhecidas./A grande casa; o tanque em que uma cobra,/Enrolada na bica, um dia apareceu.”. Aqui temos um poema cotidiano, descritivo, calmo, com sua lembrança prosaica de uma inconsciência feliz, antes do poeta grave que se tornaria Schmidt, no que temos : “As grades do jardim. Os canteiros, as flores./A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz./Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre./A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores/Só eu sou o mesmo, ainda : não mudei!”. O poeta aqui não mudou, mas sua doce descrição de uma felicidade de um mundo com frescor, como ele nos mostra, é de um mundo que já não existe mais.

PRESSÁGIO : O poeta acorda de um pesadelo em que tinha visto sua musa morta, e o poeta aqui acorda angustiado, atônito, no que temos : “Sonhei que não estavas mais :/Que sonho horrível!/Sonhei que tinhas partido,/Sonhei que estavas dormindo/O Grande Sono/E que o meu choro,/E que os meus gritos,/Não te poderiam mais acordar./Sonhei que estavas morta!/No entanto estavas esquecida, há muito/Estavas ausente./Estavas na minha lembrança, imóvel/Porque a vida te separou de mim./No entanto a ilusão de que tinhas partido/Te acordou de novo/No meu coração.”. A musa já partiu, no entanto, e o poeta aqui é um tonto que ainda nutre esperanças vãs de retorno, no que segue : “Só porque sonhei que não estavas mais/O meu amor voltou num instante :” (...) “No entanto estavas perdida,/Estavas perdida no fundo do meu cansado coração./Agora/Meu coração está cheio de presságios :/Quem partiu fui eu!/Em breve minha memória ficará gelada/E a calma infinita me sepultará.”. E vai aqui seu coração de poeta à sepultura, sem mais.

DESAPARIÇÃO DA AMADA (1931)

DESAPARIÇÃO DA AMADA : O tema da morte aqui é o eco contínuo da poesia schmidtiana, que aqui se consuma como a suprema lírica da musa desaparecida, no que segue : “Vem a noite caindo descendo a ladeira/Da velha cidade aonde cheguei./Meus pés tão cansados só pedem parar!/Parar! Ah, deixar-me ficar na cidade pequena onde estou!” (...) “A noite está fria./A amada perdida jamais acharei/E fico chorando sentado nas lajes da rua tão escura./A amada perdida meu tédio expulsava/Minha febre acalmava, cuidava de mim.” (...) “Que vão desamparo! Ah, voltar à floresta e vê-la outra vez!/Caminhos fechados que nunca abrirei.” (...) “Onde está? Que destino teve ela esta noite?” (...) “A amada está morta.” (...) “Que estranhos rumores –/É o meu coração!” (...) “Que tédio no mundo! Que dor sem igual!/Meu Deus, um consolo que ando perdido/Chorando minha amada que um dia fugiu!”. E o poeta segue chorando seu infortúnio, como um perdido que sucumbiu ao próprio coração.

POEMAS :

PÁSSARO CEGO (1930)

PÁSSARO CEGO

Sinto clamar em mim vozes tristes, chorando.
Sinto gritar em mim longos martírios
Que não sofri.

Sinto que sou a forma, o lamento, a expressão
De mil tormentos mudos abafados.
De mil tormentos sem voz.
Mil tormentos sem voz!

Minha poesia é um pouco da queixa de homens errantes,
De homens sem lar e sem repouso.
De homens que foram meus avós.
Deles herdei a angústia infinita,
Deles herdei o tédio de todas as paisagens,
A inquietação de todos os momentos.

Sou a última folha de uma árvore infeliz
Que o vento rude desprendeu.

Trago comigo a desolação da pátria abandonada
E a revolta de mil incompreensões e injustiças sofridas.
Mas há em mim um infinito desejo de pacificação :

O ódio de meus avós não está comigo,
Ficou apenas a indecisão
Ficou apenas a instabilidade.

Sou como um pássaro cego voando na eterna escuridão.
No entanto a escuridão está em mim somente.
Sei que fora de mim há um clima diferente,
Sei que há céu azul, supremas claridades,
E que as trevas estão nos meus olhos apenas.

PROFECIA

I

Como o pássaro triste que anuncia a tempestade
Quero também, Senhor, chorar o triste momento,
O terrível momento que pressinto vir chegando!
A tempestade vem crescendo de longe
E cairá violenta sobre as nossas cabeças.
Tivesse eu mil vozes e gritaria com todas elas,
Gritaria para avisar que o instante tremendo não demora.

Tivesse eu mil braços e sacudiria todos eles,
Sacudiria os homens que estão distraídos e ausentes,
Os homens que não escutam e não querem escutar,
Os homens perdidos e desviados, amaldiçoados e loucos.

Chegou o momento em que deixei de ter pejo,
Em que deixei de ter vergonha do meu desespero.
Avisarei a todos, amigos e inimigos, estranhos e indiferentes,
A todos os que a minha voz fraca e apagada alcançar.

Avisarei a todos para que se previnam
E estejam tementes e atentos, porque grandes coisas,
Grandes e violentas, estão para chegar dentro em pouco.
Eu fui o escolhido para avisar, porque em mim,
No meu pobre eu dolorido e mesquinho,
A fraqueza é maior do que em todos os seres,
Porque sou o mais fraco e sensível dos homens.

Como a árvore débil e solitária vibra ao contato,
Ao contato mais longínquo, do vento, eu vibro também
Ante o tufão que já começou na distância
E de nós se aproxima horroroso e medonho.
As casas tremerão nas bases, os edifícios enormes
Que se erguem vaidosos para o céu alto
Ruirão apavorando os homens desprevenidos.
O sol mergulhará no espaço para, sempre,
O sol deixará de brilhar, generoso e magnífico,
Obedecendo às iras do Senhor agravado.

Os gemidos apenas ressoarão dentro da noite,
Dentro da noite que todas as estrelas abandonarão :
Serão gemidos de mães separadas dos filhos pequenos.
Nos palácios, os ricos – senhores absolutos do mundo –
Tremerão mais do que os servos humildes achados em falta
Os homens formarão massas, unidos para o grande fim.
O desassossego aos poucos silenciará todas as vozes,
Todas as vozes ficarão geladas diante do horror.

Eu estou aqui para avisar. Despi minhas vestes,
Abandonei as glórias do mundo, as doçuras do tempo,
Porque a verdade como um raio aclarou os meus olhos.

Dentro em pouco todos serão iguais na desdita.
Os mais fortes se ajoelharão ante os mais fracos.
Será tarde, porém, para a vida do mundo :
Os dias estarão acabados para o sempre.

Dentro em pouco os mais sãos e formosos
Procurarão os leprosos para abraçar.
O mar rugirá com violência medonha.
Só os mortos sorrirão, no fundo dos túmulos.
Porque a eles nada mais amedronta
E porque os vivos deles se esqueceram totalmente
E não honraram as suas memórias nem cumpriram as suas
promessas.

O Senhor me mandou avisar, mandou porque me feriu
Sem que eu visse como, e me fez olhar
As coisas tremendas que ainda não se realizaram.
O Senhor me mandou avisar, porque perdi inteiramente o pejo
De parecer mais temeroso do que os outros.
O Senhor me mandou avisar, porque meu coração secou para
a alegria.

Porque perdi o sorriso fácil de todos os outros,
Porque não corri diante do riso zombeteiro dos homens
Que ouviram os meus avisos dilacerantes e sinceros.
O Senhor me mandou avisar, porque me purifiquei
E esqueci a glória fácil que a vida oferece.

Escutai, pois! E orai para serdes justos.
Aos justos o Senhor abrigará no seu seio!
Abandonai vossas esposas, concubinas e filhas.
Deixai as festas que embriagam os sentidos
E enodoam a brancura das almas,
E ouvi meus gritos que rasgam os ouvidos :
Ouvi meus gritos pejados de horror!
Rasgai como eu todas as vossas vestes
E ajudai com as vossas vozes a minha voz,
Para que nem um só homem fique desprevenido
Dos momentos terríveis que estão para chegar.

II

É tarde para contemplares a beleza dos céus.
É tarde para sentires o perfume das flores.
É tarde para te embriagares com as paisagens,
Porque o tempo passou e toda a beleza é inútil.
Caminharás apenas para espalhares as verdades,
Não mais te poderá invadir a doçura das estradas
Com cigarras cantando nas tardes lentas e preguiçosas.
Tens uma missão a cumprir e foi o Senhor que te escolheu.
Deixa, pois, bem distante de ti toda a poesia:
Não te deixes embalar pela sua emoliente sedução,
A poesia enfraquece os corações e precisas ser forte.

Fortifica teu espírito diante das desgraças que se aproximam.
Pensa na maldição eterna que cairá sobre as cabeças,
Sobre todas as cabeças dos homens desprevenidos.
Espalha a notícia da tempestade avassaladora
Que se levantou muito longe e caminha segura
Para, em breve, envolver todas as coisas.
Faze com que todos estejam bem certos dos grandes
acontecimentos
Que se sucederão terrivelmente e que a tudo aniquilarão.
Que a verdade apenas saia dos teus lábios,
Porque não é mais tempo de cantares inutilmente
E toda a tua liberdade de viver não mais existe.

Fortifica teu espírito na austeridade das más novas.
E cuida de ti também, porque na verdade és capaz
De te distraíres com os outros e perder o temor –
Porque quem comunica o seu temor muitas vezes o perde.
É preciso usares de prudência para que teu coração
Não fique vazio como os dos homens que abandonaram o
Senhor.

O mar não foi feito para que o olhes assim :
Deixa que a lua espalhe a sua luz macia
Sobre as águas infinitas onde navios passeiam,
Deixa que as ondas solucem nas praias, desesperadas.
Tu tens a tua missão a cumprir e muito bem a conheces.

Abandona, pois, todas as seduções da beleza.
Teu castigo será o maior dos castigos, porque estás marcado
E o Senhor te confiou uma missão terrível e triste.
Vê como os cães perseguem a tua figura,
Latindo nos caminhos por onde passas apressado!
Os homens investirão mais violentos ainda contra ti,
Porque a tua missão é de terror e piedade.
Não fites com carinho as habitações perdidas
Longe das cidades, nem demores os teus olhos
Nas filhas do país – que te chamam com os olhos,
Com os olhos que prometem todas as felicidades terrenas.

Tua voz terá a nitidez dos clarins estridentes.
Deves evitar que a perturbem os sons mais suaves,
Porque vens para ferir o coração dos homens
E a música adormece os corações pecadores.
Longe de ti qualquer impureza porque foste o Escolhido.
Deixa que a brisa que agita os ramos das árvores
Te convide ao longo descanso dentro da noite calma :
Teu coração deve ser mais forte do que o aço,
Teu espírito deve abandonar todo interesse,
Teu corpo deve estar fechado para todas as fraquezas –
Porque tu és mais fraco do que todos os seres.

Em breve apenas o gelo final envolverá a face da terra
E o Senhor apenas aos justos abrigará.
Sobre os teus ombros, tão fracos, pesam infinitos destinos –
Destinos de homens que são teus irmãos.
Deixa que a noite convide o teu corpo cansado
Para a reparação justa dos sonos sem fim;
E não podes dormir mais na terra.

As horas que restam são poucas, bem poucas,
E a tua voz é mais fraca do que o canto,
Mais fraca do que a voz das aves noturnas, dos pássaros tristes
de agouro,
Mais fraca do que o amor, tão débil, dos homens!

Se não obedeceres à escolha do Senhor, será melhor
Que os animais ferozes dividam teu corpo em pedaços,
Que o mar te atire de encontro aos rudes rochedos
E desabem sobre tua cabeça todas as desditas.
Fortifica bem o teu espírito atormentado,
Tira da tua fraqueza o teu grande heroísmo.
Abandona toda a poesia do mundo, que é inútil –
Pois a beleza distrai os homens e os diminui.
Deixa teu corpo fechado para todas as volúpias.
Que a noite abandone o teu corpo cansado,
Porque o teu papel é maior do que tu mesmo – e o precisas
cumprir!

SONETOS

IV

Noites, estranhas noites, doces noites!
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.

Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.

A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.

Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda : não mudei!

PRESSÁGIO

Sonhei que não estavas mais :
Que sonho horrível!
Sonhei que tinhas partido,
Sonhei que estavas dormindo
O Grande Sono
E que o meu choro,
E que os meus gritos,
Não te poderiam mais acordar.

Sonhei que estavas morta!

No entanto estavas esquecida, há muito
Estavas ausente.
Estavas na minha lembrança, imóvel
Porque a vida te separou de mim.
No entanto a ilusão de que tinhas partido
Te acordou de novo
No meu coração.
E viveste em mim violentamente.
Solucei a tua ausência, desesperado,
Os olhos dentro da noite sem fim :
Solucei como um náufrago na solidão das águas,
Solucei como um perdido a tua distância sem remédio.

Só porque sonhei que não estavas mais
O meu amor voltou num instante :
Lembrei teu corpo em flor, menina ainda ...
Lembrei os teus cabelos e os teus olhos ...
Chorando abracei tua imagem esquecida.

No entanto estavas perdida,
Estavas perdida no fundo do meu cansado coração.
Agora
Meu coração está cheio de presságios :
Quem partiu fui eu!
Em breve minha memória ficará gelada
E a calma infinita me sepultará.

DESAPARIÇÃO DA AMADA (1931)

DESAPARIÇÃO DA AMADA

Vem a noite caindo descendo a ladeira
Da velha cidade aonde cheguei.
Meus pés tão cansados só pedem parar!
Parar! Ah, deixar-me ficar na cidade pequena onde estou!

A lua redonda é um furo no céu.
Que vaga tristeza n`antigas moradas.
A velha a uma janela um instante :
Olhei longamente suas mãos engelhadas.
Passaram correndo risadas de moças –
Ficarei? Quem sabe. A noite está fria.
A amada perdida jamais acharei
E fico chorando sentado nas lajes da rua tão escura.

A amada perdida meu tédio expulsava
Minha febre acalmava, cuidava de mim.
A amada perdida minha noiva e minha irmã
Tão pura e tão quente, tão doce e louçã.

Que vão desamparo! Ah, voltar à floresta e vê-la outra vez!
Caminhos fechados que nunca abrirei.
Caminhos fechados, quem é que os descobre?

No mar infinito minha amada se perde.
Seu corpo nadando nas águas do mar

Vai aos poucos fugindo dos olhos humanos,
Só o vento de leve batendo em meu rosto
Recorda as carícias das mãos de minha amada.

Onde está? Que destino teve ela esta noite?
Estrelas fugindo, buscai-a pra mim!
Ó Tempo fugindo, buscai-a pra mim!
Ó nuvens fugindo, buscai-a pra mim!

A amada está morta.
Destino bem rude bateu-lhe na porta,
Chamou-a com um gesto e pegou-a pla mão.
A amada está morta. Quem bate em tambores?
Que estranhos rumores –
É o meu coração!

Ó velha que a morte levou,
Cuidai de minha amada
Tão rara, tão linda, que o vento da morte –
Que fero destino – de mim separou!

Que tédio no mundo! Que dor sem igual!
Meu Deus, um consolo que ando perdido
Chorando minha amada que um dia fugiu!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

 


  

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

CONTO CARNAVALESCO

“Qual é o sentido do carnaval para você?”

A festa de Momo me reserva surpresas, tenho uma amiga fissurada, vai em todos os blocos, eu como cronista e outsider, gosto de blocos, e sou torcedor do Império Serrano, acho as escolas tradicionais mais românticas, ganho muito com esta visão que vai do mais pobre ao mais rico num mesmo esbaldar que une todo mundo, nem que seja por uma semana.
Desde os mascarados de Veneza, quando tudo começou, até este desenvolvimento de mercado que vai do Rio de Janeiro, em sua versão de marchinhas e sambas-enredo, até a Bahia, Salvador, com seus trios gigantes, e isso também falando de Pernambuco, o Brasil tem o melhor carnaval do mundo, e como disse, tenho uma amiga fissurada em blocos, e disse ter conhecido o seu pirata há dois anos atrás, ele estava com sua cerveja, ela com um sacolé de vodka, eu como documentarista, me meti a besta numa dessas, e fui num bloco em que se misturava rock e samba.
A história eu conto : comecei meu périplo pela manhã, tinha um desfile de crianças fantasiadas, me lembrei que quando tinha seis anos me fantasiei de Popeye, tinha uma latinha de espinafre que era na verdade um punhado de cartas verdes picotadas, tinha o meu muque para dizer que eu era pequeno, mas era fortão, meu irmão pequeno tinha ido de gugu, minha irmã mais velha de Olívia, e meu pai de Brutus, minha mãe, por sua vez, foi com uma fantasia própria que era uma espécie sui generis de pedrita.
A família era meio louca, ainda é, e me lembro de que tenho cinco fotos deste dia no meu álbum da época em que estudava no Santo Agostinho no Leblon, fui criado com liberdade, e registro uns curtas deste retorno dos blocos, também tirei novas fotos, e bebo socialmente depois de registrar foto e vídeo do que me interessa, um de meus curtas se intitulou “cachaça filosofal”, em que eu entrevistava os foliões que estivessem mais bêbados para registrar a relação do álcool com a loquacidade. (Já volto ao desfile das crianças e como terminou este dia).
Posso citar de cabeça, neste mini doc filosófico, o “cachaça filosofal”, tiradas existenciais etílicas de um humor rascante, como esse de 2015 de Plínio, um paulista que estava nos blocos nesta ocasião : Perguntei : “Qual é o sentido do carnaval para você? Fale tudo o que vier à cabeça, por favor.” No que Plínio, o folião e turista desandou a falar de diversão num tom político, no que me disse : “A beleza é que rege tudo, me vejo aqui bem louco, mas minha percepção não está perdida, como dizia Chico Science, eu bebo antes do almoço pra ficar pensando melhor, cato uma danadinha com toda a educação, não sou bruto, mas não gosto de pagar de foderão, meus amigos todos me respeitam, como dizia Jorge Ben, e sempre tô bem na foto, isso vai para o seu documentário? Ah, registra aí que sou dentista, que amo meu trabalho, e que existe profissão para tudo, e que tem gente que tem curiosidade por arcada dentária, como eu, que estudei pra cacete para poder viajar no carnaval com um bom emprego que me garante a minha tranquilidade, bebo um tanto pois hoje sou de Momo, o deus mais camarada da folia, o deus que joga ao lado de Baco, o carnaval é minha luz, e o Rio de Janeiro continua lindo”.
Minha amiga, foliã profissional, se rolou de rir com este primeiro depoimento que mostrei para ela, ela me disse que não sabia que tinha dentista que era poeta e filósofo, ah, o nome dela é Cláudia, mora na Lapa, vive trabalhando no circo e cuspindo fogo em eventos eletrônicos, gosta de beber vodka com limão, conheci a Cláudia quando era criança, e ela às vezes me indica uns points para gravar meus vídeos, ela é meio que minha olheira particular para me apresentar figuras exóticas também para meus causos espetaculares, o caso de Plínio, contudo, eu descobri sozinho, depois de ver que ele dançava diferente no meio da folia, e pensei “este cara vai dar uma boa sacada, certeza”, e não deu outra. A questão filosófica dele com Jorge Ben e Chico Science é o resultado do encontro da cultura brasileira com o folião de rua, que os intelectuais acham que são alienados, mas que são verdadeira matéria antropológica e documental que eu aproveito como um maníaco nas minhas produções fragmentárias e avant-garde.
E em 2016 a Cláudia me apresentou um figura que ela conhecia e que este sim era filósofo e já tinha tomado birita a tarde toda, seu nome era Omar, ele descendia de um pai libanês, vivia na pindaíba, e vendia bolo que ele mesmo fazia por demanda, ele gostava de fazer bolo de coco e de laranja, já tinha dado aulas particulares de filosofia, mas não se adaptou muito, pois tinha a graduação na UERJ, mas nunca exerceu de fato nada ligado a magistério ou na área, somente estas aulas particulares para três alunos que duraram um único semestre.
Omar já tinha seus trinta anos, e pagava seu quitinete com bolo que fazia com prazer, era um tanto caótico o lugar em que ele morava e trabalhava, como me disse Cláudia, mas o cara era uma figura típica de um documentário do Sr. Thompson, como me disse Cláudia, e fui encontrar tal figura neste 2016 de fevereiro num bloco perto da Lapa, e me apresentei, no que ele me disse que a Cláudia já tinha falado do “cineasta” para ela.
Entrevistei Omar rapidamente, com a mesma pergunta que fiz para Plínio : ““Qual é o sentido do carnaval para você? Fale tudo o que vier à cabeça, por favor.” No que ele desandou seu linguajar solto e muitas vezes confuso, mas riquíssimo em imagens, no que ele me disse : “Cara, gosto de tudo, liberdade, saca? Minha vitória é ter tudo sem precisar de nada, pois eu não tenho nada, mas tenho tudo, que é liberdade. Essa história de ficar rico é pra engravatado, porra, uma pá de doido não tem onde cair morto, saca, bicho? Eles acham que é tudo vagabundo, mas é tudo livre, come bolo de laranja, velho, já provou meu bolo? É bom pra tudo, e ainda acham que sou doido, eles é que tão lutando por dinheiro, doido é eles, cara, tu é cineasta, né? A Cláudia me falou de você, e tu é calmo, cara, eu sou nervoso, mato barata todo dia no meu cafofo, já fiz caça a marimbondo, entoquei uma ratoeira na porta do meu cafofo, bicho, o carnaval que você perguntou, né? Ah, só é da liberdade, muito louco, sabe? Eu fiz filosofia achando que ia virar gênio, mas tô aqui fazendo bolo, agora eu sou o gênio do bolo, e sim, amo carnaval, sou Mangueira doente!”.
Voltando ao desfile das crianças, este foi pela manhã, logo ao meio-dia começou o esquenta em que tamborins soaram, e o diretor do bloco já providenciou o carro que ficaria ali, com as caixas de som, as marchinhas começaram, eu empunhei minha câmera de filmar, e fui buscar mais figuras para um novo mini doc, no estilo fragmentário que não me consagrou, mas que tem espaço nos cine clubes de camaradas que eu conheço e respeito, pois nada como cineclubistas para cineastas libertários como eu que não são diretores de cinema nem nada, apenas um curioso, cronista da vida urbana, e que agora registrava tudo com uma câmera à mão e várias ideias na cabeça.
Eu certamente encontraria mais figuras exóticas e outras normais, loucos, trabalhadores, bebedores, foliões, vendedores, carroceiros, mulheres de diabinha, homens de pirata, um cara com um chuveiro, uma moça de mulher-maravilha, um cara de hulk, outro cara fantasiado de bambu, uma mulher fantasiada de trepadeira, um cara fantasiado de super-homem, uma mulher fantasiada de fada, e eu registrando tudo, e novas histórias sendo contadas, sem pressa, no caos potente deste nosso carnaval brasileiro.

Guilherme Thompson, cronista e outsider.
(pseudônimo periódico da coluna)

(obs : Caros leitores, a coluna retornará dia 21/02, bom carnaval a todos, aproveitem!)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37567/14/conto-carnavalesco








quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

ASSÉDIO SEXUAL E O FAHRENHEIT 451

“uma resposta do feminino frente ao descaso e mentira que sempre cercou o assédio”

AS VIRTUDES DA MORAL

Nos casos recentes de assédio sexual que se tornaram públicos se acendeu uma chama interessante de debates e punições, e tais revelações de abusos vão muito além do que se costuma chamar de politicamente correto ou o que o manifesto francês encabeçado por figuras proeminentes como Catherine Deneuve tentou simplificar como puritanismo e combate feminista da liberdade sexual (leia-se : a prerrogativa de predador natural que muitos homens até hoje gostam de divulgar como uma grande glória).
Muitos destes casos (escândalos) como o divulgado do produtor Harvey Weinstein, que participou, dentre outros filmes, de Pulp Fiction, não foram casos pontuais de deslizes, abordagens inadequadas e fora de hora ou do tom, mas revelam casos repetidos e sistemáticos de uso da hierarquia e do poder para subjugar mulheres, pois julgo que um exercício de poder é mais grave do que um erro pontual que pode ser corrigido e o sujeito reeducado sem mais grandes consequências.
O que é tratado aqui vai muito além disso, é o assédio sexual agressivo como poder e hierarquia, o uso de uma posição privilegiada para atuar nos bastidores que só agora veio à tona como num efeito dominó que trouxe um debate com pontos e contrapontos, mas, voilá, isto está sendo discutido, o assédio, corrigindo casos mais sutis e punindo casos graves, e assim a sociedade vai esclarecendo este ponto que sempre foi obscuro e tirando os monstros até então ocultos da sombra e rediscutindo o que é de fato o exercício da masculinidade e quais são seus limites.
Hollywood, e uma grande aliança do quarto poder, a mídia ou imprensa, deram um gás fenomenal a tudo isso, e agora estamos em meio de um turbilhão que ganha muito da aparência de caça às bruxas, mas que tem sim uma resposta do feminino frente ao descaso e mentira que sempre cercou o assédio, e isto por décadas, como no caso específico das denúncias em torno de Harvey Weinstein, recapitulações como no caso de Kevin Spacey, exageros como no caso de Woody Allen (ainda em andamento), e o maior escândalo de todos, que envolveu o esporte, do médico Larry Nassar, que se trata de pedofilia e que soma denúncias de cerca de 90 ginastas americanas. E o resultado midiático mais visível é o uso da hashtag #MeToo para as mulheres que sofreram assédio ou abuso sexual compartilhar suas histórias.

OS VÍCIOS DA MORAL

Agora vamos para os pontos nebulosos destas investidas morais que começam como virtudes, mas que, no extremo, acabam prestando uma homenagem involuntária e quase cômica ao vício, e que é o pior de todos, o que se acredita e se vende como virtude. A ópera Carmen do compositor francês Bizet teve seu desfecho alterado na sua apresentação num teatro de Florença, na Itália. Aqui temos uma obra original de 1875 sendo alterada, reescrita, isto mesmo, pasmem.
Pois a Carmen de Bizet é morta a punhaladas pelo amante frustrado Don José, e para denunciar o feminicídio histórico na sociedade, alguma ou algumas almas muito boas, iluminadas e virtuosas decidiram retalhar o final de uma obra de ópera de mais de um século. Agora o final é glorioso, e ao invés de Carmen ser assassinada, ela é a assassina, como se a face da moeda fosse censurável e seu reverso também violento trouxesse algum alento, pois agora se mata Don José e não mais Carmen, troca-se um crime pelo outro, e a isto se dá o nome de virtude e de revisão ou justiça histórica.
Tal revisão histórica, se levada a sério, pode ter um choque ao ler autores violentos, tais como o Marquês de Sade, e talvez reescrever 120 Dias de Sodoma, rever o final da Divina Marquesa em que a infortunada morre a machadadas, e queimar o nome do Marquês em praça pública assim como fizeram os seus contemporâneos de séculos atrás, podendo até mesmo mudar seu nome ou apagá-lo da História, num impulso de Torquemada que prega para convertidos que não sabem a diferença entre contextualização justa de uma obra e seu retalhamento literal.  
Polêmicas históricas que vêm à baila, como a entrada da obra de Adolf Hitler para domínio público, trazem este debate para um plano ambíguo, em que se confunde uma justa edição crítica e com diversas ressalvas, da simples proibição, o que passaria por um Fahrenheit 451 (filme de François Truffaut baseado na obra de Ray Bradbury de mesmo nome em que se vive numa sociedade em que se queima todos os livros que existem) às avessas, agora não mais com fogueiras nazistas, mas com a higienização contra ameaças que, se forem bem explicadas, são matéria de estudo histórico, e não mais de lavagem cerebral a favor de ideologias putrefatas como o nazismo.
E temos casos ainda em que se mistura a infâmia com a genialidade, como é o caso mais conhecido do autor Ferdinand Céline, que apoiou a ocupação nazista na França, um paradoxo ambulante valorizado intelectualmente por figuras como o cineasta Jean-Luc Godard, mas execrado por suas ideias racistas, acusado de traição pelo Estado francês ao fim da Segunda Guerra Mundial, e se refugiando na Dinamarca até sua anistia em 1951.
E a relação nem sempre fácil entre arte e moral envolve outros casos polêmicos como a incidência da palavra “nigger” na obra de Mark Twain, expoente histórico da literatura norte-americana, com algumas reedições em que a palavra é trocada por “slave”, sendo a palavra original extremamente agressiva para o inglês norte-americano como um todo.
No Brasil temos a polêmica em torno do nosso autor infantil Monteiro Lobato, como as referências racistas presentes na obra Caçadas de Pedrinho. Contudo, como dito, casos históricos devem ser no máximo contextualizados, pois a realidade de uma época não se altera por decretos morais. A escrita da História deve ser fiel ao que aconteceu, e não ao que muitos gostariam que fosse, pois senão teríamos que também, no caso do Brasil, de revisar por completo as teses antropológicas racistas de um Nina Rodrigues, por exemplo, e não encará-lo como ele é hoje, um documento histórico, de uma época.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37479/14/assedio-sexual-e-o-fahrenheit-451



segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT – PARTE I

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT, O POETA SINGULAR DO MODERNISMO

“este poeta vai revitalizar o estro romântico, com um acento mais grave”

O poeta nasceu em 1906, no Rio de Janeiro (RJ), onde faleceu em 1965. O poeta integrou historicamente o período modernista, mas nunca participou de nenhum movimento, tendo a sua obra sido uma influência para a geração de poetas que surgiu na década de 1940. Augusto Frederico Schmidt também foi editor e empresário, tendo ainda feito parte do governo de Juscelino Kubitschek.
Augusto Frederico Schmidt realizou uma grande obra poética, estreando na literatura brasileira, em 1928, com seu livro de poesia “Canto do Brasileiro”, cujo tema principal era o da morte, e que trazia uma tendência messiânica, contribuindo com a nova poesia brasileira, naquele tempo que era o da afirmação do movimento do Modernismo.
No caso de Augusto Frederico Schmidt, este poeta vai revitalizar o estro romântico, com um acento mais grave, tornando-se o poeta, então, dentre os pares de seu tempo, uma figura singular, pois Schmidt tinha um estilo ainda simbólico que nem sempre ecoava o cotidiano e o coloquialismo que surgia de forma plena na corrente poética modernista.
No cenário posterior da poesia brasileira, e falando do mercado editorial, o poeta se encontra numa espécie de limbo, sem grandes edições, quando muito, o conhecimento que temos do poeta é pela via antológica, e muito se perde de um poeta que atravessou com sua obra grande parte do século XX, de 1928 a 1964, sendo sempre um poeta forte e original.
Augusto Frederico Schmidt, entre os pares de seu tempo, na poesia, estabelece um corte, e que é ao mesmo tempo a sua marca, sua diferença, e seu isolamento num estilo em geral diverso do que vinha sendo feito pelos modernistas. Desde sua estreia em 1928 com o Canto do Brasileiro, seu estro avançava para outro domínio de expressão e estilo que não era o do poema modernista que era praticado naquelas década de 1920.
Os poetas do Modernismo eram mais coloquiais, com poemas-piada, retratando um Brasil local e arcaico. E no caso de Schmidt tínhamos um canto do brasileiro com estilo mais simbólico, o que então em sua obra posterior também se revelará, como dito, nos pendores românticos, colocando Schmidt num lugar próprio e sensível, na verdade instável, talvez sendo um dos motivos de sua obra ter tido menos reedições do que os modernistas mais standard.
Esta bifurcação do poema modernista, entre os mais modernos, e poetas mais tradicionais como Augusto Frederico Schmidt, no entanto, refletia o próprio projeto de pesquisa da poesia modernista, não era uma contradição, pois a liberdade de cada poeta para realizar as suas próprias experiências reforçava um dos legados principais do movimento modernista, que era o de uma pesquisa estética permanente e infindável, como irá afirmar em conferência de 1942 o poeta Mário de Andrade.
Schmidt, então, será o poeta que vai inaugurar um poema moderno com fundo simbolista, que tinha certos eixos coloquiais, mas que se fundava mesmo era numa linguagem poética mais séria e formal, num tema que ia para o fantástico e o lírico para escapar da angústia cotidiana. Mas, como dito, Schmidt foi pouco lido, se o compararmos aos poetas mais conhecidos do Modernismo, e outros tiveram até destino pior, pois ficaram num esquecimento histórico, poetas como Emílio Moura, Dante Milano e Henriqueta Lisboa.
Os temas líricos, de um mundo invisível, da poesia de Schmidt, se distanciava do que era concreto, sendo um caso único no Modernismo, numa busca de universalidade para a linguagem poética moderna que se tornou, no entanto, uma singularidade que hoje habita um lugar estranho no cenário geral dos poetas que fizeram parte das gerações do Modernismo.

POEMAS :

CANTO DO BRASILEIRO (1928)

CANTO DO BRASILEIRO : O poema que dá título ao livro de Schmidt nos dá um panorama do 
cenário do Brasil como um lugar evitado por uma fuga ao mundo, sendo então aqui o poeta aquele que vai descrever muito mais as suas próprias sensações do que um retrato cotidiano da paisagem que talvez evoque o título do poema antes de nos debruçarmos sobre ele, no que temos : “Não quero mais o amor,/Nem mais quero cantar a minha terra./Me perco neste mundo./Não quero mais o Brasil”. O poeta meio que se rebela contra o Brasil, mas nem tanto, como se vê no poema que exala uma contradição radical entre impulsos fortes e opostos entre si, no que segue : “Quero é perder-me no mundo/Para fugir do mundo.” (...) “Sou uma confissão fraca/Sou uma confissão triste/Quem compreenderá meu coração?!/O silêncio noturno me embala./Nem grito. Nem sou./Não quero me apegar nunca mais/Não quero nunca mais.”. As decisões dramáticas e radicais revelam um temperamento poético já ultrapassado, mas que ganha nota modernista, pois o poeta é um estranho no ninho, mas não é um ser incompreensível, no que temos : “O mundo pesa em cima de mim/Não quero mais carregar ele./Nem filosofias/Nem nada./Sou o homem que chora”. O peso do mundo, com toda a sua carga que faz filosofar desesperadamente, faz o poeta chorar, e segue : “Meu coração!/Nas vielas escuras – meu Deus que mistério!/Nos portos tão longe/Tristezas tão grandes!/Me perco no mundo” (...) “Agora, a tristeza/Cidades tão lindas/Agora, a saudade/Cidades tão grandes./Nas matas de casas me perco meu Deus!”. E agora a angústia recorre a Deus, este ponto ou lugar oculto ou salvação do tormento do mundo, no que temos : “Meu Deus que te ocultas em tudo o que existe,/Tirai-me a tristeza que lenta sufoca/O meu coração.” (...) “Eu tenho saudade de luares estranhos –“ (...) “_ Minha pátria é bem longe/Minha pátria é mais longe/Fujamos daqui./E a onça é o mistério/Tem febre nos olhos –/Tem sol concentrado no seu coração./_ Minha pátria é aqui mesmo!/Lembrai-vos dos prantos/Que os rios levaram/De alguém que partiu.”. O poeta tem um exílio perturbado, e o poema demonstra a confusão de uma alma errante.

NAVIO PERDIDO (1929)

A PARTIDA : O poema evoca a noite como o cenário ideal da morte do poeta, no que temos :“QUERO morrer de noite –/As janelas abertas,/Os olhos a fitar a noite infinda.”. E temos a descrição precisa do desenlace de sua alma do corpo, e a cena geral de um velório, no que segue : “Irei me separando aos poucos,/Me desligando devagar./A luz das velas envolverá meu rosto lívido.” (...) “E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos./Os que virão, os que ainda não conheço,/Estarão em silêncio,/Os olhos postos em mim.”. E seu destino após a morte também é descrito, a fuga para a distância, no que segue : “Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo./E quando todos souberem que já não estou mais/E que nunca mais volverei/Haverá um segundo, nos que estão/E nos que virão, de compreensão absoluta.”. Uma alma que nunca volverá, e aos que ficam se gera o milagre da compreensão absoluta.

LEMBRANÇA : O poema levanta a ideia da consciência da finitude, um tipo de memento mori (pensar na morte) pessimista que invade o entretenimento feliz de uma sessão de cinema, no que temos : “TODOS os que estão neste cinema agora,/Neste cinema alegre,/Um dia hão de morrer também :/Nos cabides as roupas dos mortos/penderão tristemente.”. E o poeta nos lembra ainda que a morte é universal, no que segue : “E todos os homens medíocres/se elevarão no mistério doloroso da morte./Todos um dia partirão –/mesmo os que têm mais apego às coisas do mundo :”. E enfim o poeta continua a nos lembrar da morte, esta que os frequentadores da sessão de cinema esqueceram, a ignorância é feliz, e o poeta é um angustiado, no que termina o poema : “No entanto parece que os frequentadores deste cinema/Estão perfeitamente deslembrados de que terão de morrer/- Porque em toda a sala escura há um grande ritmo de/esquecimento e equilíbrio.”.

NOTURNO I : O poeta aqui tem medo do trovão e da chuva, ele lembra de sua infância, e seu refúgio é a memória, mas também está nela a origem de seu medo, e nesta contradição vai o poema, que evoca a chuva e o escuro da noite, e que tematiza o medo através da memória infantil, no que temos : “EU tenho medo da chuva/E do raio, do trovão –/Fica menor, quando chove,/Meu coração./Quando os raios riscam rápidos/O escuro do firmamento –/Que saudade se apodera/De mim, do meu pensamento!/Me lembro de um tempo longe/Que não volta nunca mais :/Eu era bem pequenino/E eram vivos os meus pais.” (...) “_ Minha mãe, que medo eu tenho/Do escuro da noite enorme!/Quanto menino pequeno/Anda no mundo, sozinho,/Que tem medo e que não dorme!”.

CANTIGA : O poema traz um poeta que tem medo da solidão e de perder o amor, e este parte e lhe deixa aos seus lamentos, no que temos : “Ficarei sozinho,/Não partas assim!/É longo o caminho,/Longo e tenebroso.”. Um caminho longo e grande se abre, o poeta o encara como um abismo, que muitos chamam de vazio da alma, e este gera o medo, e o poeta aqui é um refém exangue de seu próprio coração, no que temos : “Ficarei sozinho/Numa angústia enorme,/Ficarei sozinho/Numa tal tristeza/Que – ai de mim! –/Jamais os meus olhos sentirão beleza/Nas coisas mais belas deste mundo assim.”. Temos neste poema um exemplo do estro romântico em pleno modernismo, aqui Schmidt é intenso, como um bom romântico chorão, no que segue : “Nunca mais o mundo me será risonho,/Nunca mais a vida sorrirá pra mim./Não partas assim!” (...) “Fica mais um instante!/Não me deixes pobre/Neste isolamento,/Nesta casa escura/Ouvindo o lamento/- Ai de mim! –/Deste meu tormento/Que não tem mais fim!”. Eis a ideia de que o tormento não tem fim, quando na verdade tudo passa e finda sempre, mas o poeta está com o coração transbordando, e sucumbe, no que segue o poema : “Ficarei chorando de desesperança/Como em terra estranha chora uma criança/Sem amparo algum./Ficarei sozinho .../Não partas assim!”.

IMAGEM : Um encontro se foi, o cruzamento dos destinos se deu uma única vez, e o poema lembra atônito um fato radical, que é o fato irrepetível do qual o destino é mestre, e pertence a quem o decifra, sem mais. Mas, aqui o poeta é mais uma vez um refém, um ingênuo que sofre em vão, no que temos : “AQUELA despedida para nunca mais./As mãos se apertaram num gesto rápido./Os olhos se encheram de lágrimas –/Nunca mais, como um soluço, nunca mais./Destinos que se cruzam rapidamente./Quem sabe se de novo, um dia ...?/Havia um pressentimento, uma certeza quase, porém,/De que nunca mais, nunca mais ...”. É o poema que deseja o nunca mais, que é o vazio da alma que se apega e que tem o coração oprimido do poeta, com um peso que lhe apunhala o peito, e o poema finda, então : “No coração opresso, os apitos eram punhaladas longas./E aquele olhar, e aquele olhar triste e molhado./E aquelas mãos morenas a dizer adeus ...”.

POEMAS :

CANTO DO BRASILEIRO (1928)

CANTO DO BRASILEIRO

Não quero mais o amor,
Nem mais quero cantar a minha terra.
Me perco neste mundo.
Não quero mais o Brasil
Não quero mais geografia
Nem pitoresco.

Quero é perder-me no mundo
Para fugir do mundo.

As estradas são largas
As estradas se estendem
Me falta é coragem de caminhar.

Sou uma confissão fraca
Sou uma confissão triste
Quem compreenderá meu coração?!

O silêncio noturno me embala.
Nem grito. Nem sou.
Não quero me apegar nunca mais
Não quero nunca mais.

Vem calma fresca do vento bom
Abanar minha febre!

Vem beija minha ferida
lua tão branca!

Vem matar minha sede
água tão pura!

O mundo pesa em cima de mim
Não quero mais carregar ele.

Nem filosofias
Nem nada.

Sou o homem que chora
O silêncio chora também
Tudo chora
A noite chora
Os bois choram perdidos no alto do morro.

Meu coração!
Nas vielas escuras – meu Deus que mistério!
Nos portos tão longe
Tristezas tão grandes!

Me perco no mundo
Me perco nas vidas
Me rasgo de raivas inermes e enormes.

E a terra era pura
E puros os homens
E tudo tão puro!

Nos galhos as frutas maduras pendiam
E os rios corriam tão puros cantando
E a vida corria no leito dos rios
Nas noites – tão trêmulas – mulheres erguiam
Mulheres erguiam os olhos pra lua
Pra lua tão branca, tão pura no céu.

E a lua chorava seu choro macio
E a lua deitava seu óleo oloroso
Na pele tostada das lindas mulheres.

E as cobras se erguiam nas matas escuras
Sagradas e lindas – bandeiras estranhas
Mil cores sombrias corriam no chão.

Depois no silêncio da noite serena
Os homens pensavam nas lutas e guerras
Nas pescas e caças – que vida meu Deus!
Mas se as tempestades tombavam medonhas
E raios riscavam o céu sempre azul
Que medos sombrios! Castigos medonhos!
Que medos tamanhos sentiam então!

Agora, a tristeza
Cidades tão lindas
Agora, a saudade
Cidades tão grandes.
Nas matas de casas me perco meu Deus!

Me sinto sozinho

E vieram cantando cantigas tristonhas
Morcegos escuros olharam para eles –
Se encolhem os ombros nos suores tragédias.

De noite as esquinas das ruas dos bairros –
Dos bairros longínquos –
A luz é mortiça.

Ah, são os primários!
Ficaram grudados no povo bem fundo.

E a voz chama ele
De dia é moleque

Escuro e safado
De noite o mistério da voz chama ele
E muda-se em trágico anseio o seu grito
Macumba!
E ele é o mistério também.

Está tudo minado
Ah são os primários!

Meu Deus!
(nem precisão de mundo ...)
Meu Deus que te ocultas em tudo o que existe,
Tirai-me a tristeza que lenta sufoca
O meu coração.

Meu Deus a inocência primeira trazei-me,
São Jorge na lua!
Meu Deus explicai-me que eu vivo tremendo!
Meu Deus aclarai-me!

Eu tenho saudade de luares estranhos –
Eu tenho nos olhos paisagens estranhas –

Paisagem estranhas de frios intensos
Cegonhas tremendo no alto das torres
Visões de distâncias tão raras – tão raras –
Nos mundos estranhos, que voz se ergue então?

_ Minha pátria é bem longe
Minha pátria é mais longe
Fujamos daqui.

E a onça é o mistério
Tem febre nos olhos –
Tem sol concentrado no seu coração.

_ Minha pátria é aqui mesmo!
Lembrai-vos dos prantos
Que os rios levaram
De alguém que partiu.

(Obs : o poema continua, aqui está a sua primeira parte).

NAVIO PERDIDO (1929)

A PARTIDA

QUERO morrer de noite –
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Quero morrer de noite.
Irei me separando aos poucos,
Me desligando devagar.
A luz das velas envolverá meu rosto lívido.

Quero morrer de noite –
As janelas abertas.
Tuas mãos chegarão aos meus lábios
Um pouco de água.
E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos.
Os que virão, os que ainda não conheço,
Estarão em silêncio,
Os olhos postos em mim.

Quero morrer de noite –
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará um grande dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada ...

Quero morrer de noite –
As janelas abertas.
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.

E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais volverei
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.

LEMBRANÇA

TODOS os que estão neste cinema agora,
Neste cinema alegre,
Um dia hão de morrer também :
Nos cabides as roupas dos mortos
penderão tristemente.

Os olhos de todos os que assistem
às fitas agora,
Se fecharão um dia trágica e dolorosamente.
E todos os homens medíocres
se elevarão no mistério doloroso da morte.
Todos um dia partirão –
mesmo os que têm mais apego às coisas do mundo :

Os abastados e risonhos
Os estáveis na vida
Os namorados felizes
As crianças que procuram compreender –
Todos hão de derramar a última lágrima.

No entanto parece que os frequentadores deste cinema
Estão perfeitamente deslembrados de que terão de morrer
- Porque em toda a sala escura há um grande ritmo de
esquecimento e equilíbrio.

NOTURNO

I

EU tenho medo da chuva
E do raio, do trovão –
Fica menor, quando chove,
Meu coração.

Quando os raios riscam rápidos
O escuro do firmamento –
Que saudade se apodera
De mim, do meu pensamento!

Me lembro de um tempo longe
Que não volta nunca mais :
Eu era bem pequenino
E eram vivos os meus pais.

Alguém, num canto, cosia
À luz de um bico de gás –
Forte trovão sucedia
A um relâmpago fugaz.

Alguém, num canto, cosia.
E a chuva chorava forte
Na rua escura e vazia,
Num tal silêncio de morte.

_ Minha mãe, que medo eu tenho
Do escuro da noite enorme!
Quanto menino pequeno
Anda no mundo, sozinho,
Que tem medo e que não dorme!

CANTIGA

FICAREI sozinho.
Ficarei sozinho,
Não partas assim!
É longo o caminho,
Longo e tenebroso.
Ficarei sozinho.

Ficarei sozinho
Numa angústia enorme,
Ficarei sozinho
Numa tal tristeza
Que – ai de mim! –
Jamais os meus olhos sentirão beleza
Nas coisas mais belas deste mundo assim.

Ficarei sozinho,
Ficarei tristonho
E – ai de mim! –
Nunca mais o mundo me será risonho,
Nunca mais a vida sorrirá pra mim.
Não partas assim!

Ficarei sozinho
Num silêncio grave,
Num silêncio tal
Que – ai de mim! –
Todos pensarão cheios de piedade,
Cheios de piedade,
Que chegou meu fim.

Ficarei sozinho,
Não partas assim!
É feio o caminho
Cheio de mistérios –
Tem pena de mim!

Fica mais um instante!
Não me deixes pobre
Neste isolamento,
Nesta casa escura
Ouvindo o lamento
- Ai de mim! –
Deste meu tormento
Que não tem mais fim!

Ficarei sozinho.
Ficarei perdido,
Minha Mãe de Deus!
Ficarei chorando de desesperança
Como em terra estranha chora uma criança
Sem amparo algum.

Ficarei sozinho ...
Não partas assim!

IMAGEM

AQUELA despedida para nunca mais.
As mãos se apertaram num gesto rápido.
Os olhos se encheram de lágrimas –
Nunca mais, como um soluço, nunca mais.

Destinos que se cruzam rapidamente.
Quem sabe se de novo, um dia ...?
Havia um pressentimento, uma certeza quase, porém,
De que nunca mais, nunca mais ...

Fazia frio. Homens de sobretudo, as golas levantadas.
Um chalé de madeira, perdido, muito longe.
E a montanha espetando o céu cinzento.

No coração opresso, os apitos eram punhaladas longas.
E aquele olhar, e aquele olhar triste e molhado.
E aquelas mãos morenas a dizer adeus ...

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.