PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 11 de setembro de 2016

CAOS FUNDANTE

Bem ao bem quiser, que na verdade
tudo o que queiras somente assim.

E à beira, por certezas,
tendes de tudo o que
saber de si.

E por demasia o poeta,
saber quem sois
semeia o sol.

E, na alta torre,
à balada da meia-noite,
sou este de todo o corpo,
sou aquele que funda
o todo.

Bem ao não saber, pois filósofo
que dantes dantesco,
ao saber de si safo,
a posteriori compraz-se
de aurora.

E tudo ao cadafalso,
hora da estrela,
que em dia de azáfama,
um amálgama
brota caos.

11/09/2016 (Gustavo Bastos)

VERSOS COM SARÇA E SOL

A estirar-me no chão, espero o corpo manso
dos dias de remanso, olho ao derredor
com dentes de aço, levanto os braços,
arqueio, arfo, retorno às coisas mesmas.

Por sinais espero, e um lilás de estrela anuncia
em sua rotina matutina o vale sucinto,
eu tenho os livros das horas, as notas em debrum
dos acordes de aurora, as fitas marcadas com os dizeres
lapidares do sol, astúcias de um poeta.

Pois, da arte o miasma se esmera,
e mesmo em fincar os dentes de aço,
mesmerizo os vincos que são fulcros
da lei marcial que sois, estes desertos de música
sob o sol inclemente de beduínos.

Ao chão estirado, capturo os silêncios mordentes
que lancinam o coração em tua canção rente,
e os faróis ali, e os vinhos com corpos dóceis,
eis o luto febril que ataca a nuvem,
o céu pós-morte com suas campinas.

O poema estira-se, atira-se ao mar.
Leve o silêncio quer música, e os brados
sobre as esferas levantam os mortos,
luzes benfazejas serpenteiam a miragem,
levanto-me do torpor que por horas foi transe.

Adivinhos e videntes fazem as cartas de rito,
sua flechas, com dentes de aço, voam
tais setas certeiras ao coração contrito,
e os varões digladiam-se com brio.

Por todo o campo redondo, eis os círculos de giz,
os fundos de cena com vinhas e sarças,
retinas em miragem, pupilas em viagem,
a dose envenenada de sol, pulos ao karma
dançam, o espírito poético delineia o corpo.

Rente ao silêncio a música, e os corpos dançando
pela noite sem fim, os corpos sangrando pelo
sofrimento sem fim, os dias infindos que cortam
as paixões velozes, os linhos vetustos que
se costuram sob a lua macilenta.

Que mais, à pele de alabastro, com um vinho
de poetastro, poetaço, este que vos dá o edema,
hecatombe, hematoma, equimose, cicatriz,
este que fere o sol com flores de chuva.

Pois sou o que renuncia, o que tudo deseja,
sou o mistério de mim em uma fúria,
o mistério de nós em uma fuga,
sou a decifração da base lacunar,
a geometria dançante que volta a si,

sou o que sai de si, o que volta de sonhos intranquilos.

11/09/2016 (Gustavo Bastos)

sábado, 10 de setembro de 2016

P. B. SHELLEY E SEUS POEMAS DA ERA DO ROMANTISMO INGLÊS – PARTE IV

“uma poesia que tem muito em sublimidade, beleza e paixão”

AS OBRAS
Assim que a poesia de Percy Shelley veio à luz, ela sempre foi alvo de opiniões conflitantes e muitas vezes opostas e de extremos, para o bem e para o mal, com uma oscilação crítica como um pêndulo. E atualmente pende para o lado negativo, de desfavorecimento de uma poesia acusada de puramente musical e vazia de substância, o que vem dos detratores, sendo seus defensores do argumento de que isso é uma mera incompreensão de alcance da poesia shelleyana.
 A visão alternativa dele como poeta por excelência é ainda encontradiça. Uma das armadilhas comuns da atualidade é a famigerada generalização, em que concepções estanques simplificam o problema a favor de uma crítica puramente destrutiva. Embora haja pontos que incidem sobre alguns traços distintivos de sua poesia, mesmo assim tudo é feito na base de uma negligência. E neste ponto de destruição se esquece a crítica atual de levantar uma poesia que tem muito em sublimidade, beleza e paixão pelo bem, versos musicais sim, mas de pleno domínio de causa, e que tem conteúdo, apesar da forma esteta.
São três os fundamentos principais em que a poesia de Shelley pode ser vista com seu brilho. A eminência de Shelley pode se destacar em uma compreensão de que, por exemplo, ele não foi excedido em sua idealidade, em sua música e em sua importância. Em relação à idealidade, Shelley sempre teve um senso de justiça social, apesar de bem nascido, pois foi contrário a todo tipo de opressão e acreditava no ser humano.
Na sua relação intensa com a musicalidade poética, por sua vez, a música de sua poesia, essa não pode ser refutada nem mesmo pelos seus críticos mais destrutivos. Pode-se mesmo afirmar, sem embargo, que Shelley foi o poeta inglês, deste conjunto de notáveis da poesia inglesa, que tenha usado uma variedade de formas e medidas que veio a ter alcance maior do que todos estes outros, pois na sua aliança inarredável com a música o poeta se conferiu de uma habilidade que muitas vezes pode até mesmo ter antecipado o simbolismo, mesmo no romantismo, no seu quesito sonoridade, Shelley foi o mais habilidoso ao se utilizar destes recursos, é uma poesia rica de som, ainda mesmo em traduções.
Quanto à importância, Shelley possuía aquela chama de paixão intelectual que fazem os grandes poetas como ele, ele foi em relação ao seu tempo um poeta do futuro, ele apontava para o porvir, com um temperamento de renovador e mártir, esta chama que inundou a alma de todo grande poeta, reunindo no mesmo trabalho de alma poética a grandeza especulativa e filosófica e, como dito, uma fé na humanidade que se traduzia em um zelo humanitário num grau original no qual se busca até hoje algo semelhante, e sem precedentes.
É creditado pela crítica geral de poesia que, de seus poemas, o mais importante seja o “Prometeu libertado”. Mas sua poesia lírica também se destaca com alcances verdadeiramente altos, com poemas como o do coro final de Hellas ou a “Ode ao Vento Oeste”. Como dito, alguns detratores acusam a música de Shelley como vazia, mas isso pode ser um problema da leitura, tanto no sentido de interpretação de conteúdo como também, e não menos, no entendimento do jogo poético e da versificação, de como a criatividade funciona quando se fala e se lê poesia, como quando não se capta o que se contém na estrutura elíptica das sentenças de Shelley e neste momento se escapa pelos dedos seu sentido.
O coro final de Hellas, reminiscente de Isaías, lembra o impacto profético da Écloga messiânica de Virgílio: desenvolve-a em parte e alcança uma expressão que é sustentadamente firme – com o alcance e tirante a épica. Yeats não parece ter sido alheio à influência desse coro; o que diz muita coisa sobre a dimensão de Shelley na História. A “Ode ao Vento Oeste” é de alcance lírico incomparável, representando um acme cuja grandeza evoca a de Keats em suas grandes odes. O “Adonais” já é um poema diferente, uma elegia funeral, destinada a reverenciar a memória de Keats, e foi construída costeando Mosco e Bíon nos versos de partida.
O “Adonais” é de cepa simples, pois tem trinta e duas estâncias espenserianas que expressam não apenas a desolação do poeta com a morte de Adonais, mas a desolação de todas as forças naturais e imaginativas que ele fez belas em sua poesia. E as quinze estâncias seguintes reforçam a mesma piedade e tristeza, agora expressas pela Musa Urânia e por poetas irmãos, terminando com uma típica maldição shelleyana sobre o assassino (isto é, o crítico que atacou Keats), embora renunciando à vingança.
Nesse ponto (estância 38) descobre-se que a morte física não é realmente a extinção para os que são como Adonais, pois ele agora vive como parte da Natureza e também desse grande Espírito, a Beleza Intelectual, ou Amor, que eternamente modela todas as formas de vida a seus propósitos, tanto quanto possam sentir sua influência. E, é sempre bom lembrar, a única realidade última para Shelley era a Beleza Intelectual; a vida humana era real e duradoura apenas por se identificar com ela. Assim o poeta alcança um dos seus mais altos pontos de expressão no clímax de “Adonais”:
The One remains, the many change and pass;
Heaven`s light for ever shines. Earth`s shadows fly;
Life, like a dome of many-coloured glass,
Stains the white radiance of Eternity.
(O Um fica, os muitos vão-se; a luz é permanente
No Céu, na Terra as sombras passam brevemente;
A Vida, como um domo em vidro multicor,
Mancha da Eternidade o branco resplendor,)

Nesta brilhante imagem Shelley condensou quase todo o espírito dos Triunfos de Petrarca. Desde 1818 Shelley tinha admirado Petrarca como um dos maiores poetas. Em seus Triunfos a Eternidade é a única perfeição duradoura; a vida terrena, à luz da Eternidade, é um cortejo de sombras vãs. O diário de Mary de 7 de setembro de 1819 mostra Shelley lendo o triunfo da Morte de Petrarca em voz alta. Aqui Petrarca diz que a Morte é chamada assim apenas pelos desavisados e que Laura, morta, está realmente viva ao passo que seu amante vivo está em verdade morto. Tão completamente Shelley se apropriou dessa ideia que a expressou numa imagem sugerida pelo Macbeth de Shakespeare que ao mesmo tempo expressa o significado do poema de Petrarca e a própria crença de Shelley.
Peace, peace! he is not dead, he does not sleep –
He has awakened from the dream of life –
“Tis we, who, lost in stormy visions, keep
With phantoms na improfitable strife
And in mad trance strike with our spirit`s knife
Invulnerable nothings ...
(Calma, ele não morreu, ele não está dormindo,
Ele acordou da vida, simples sonho findo;
_ Nós, os perdidos em visão tempestuosa,
Mantemos com fantasmas luta desvaliosa,
E, com a faca do espírito, a louquear golpeamos
Invulneráveis nadas.)
E as três estâncias que encerram o Poema transmutam o desânimo pessoal do autor em algo como êxtase. Uma vez que suas próprias esperanças terrenas estavam mortas, por que hesitar em juntar-se a Adonais numa Vida eterna?
A verdadeira essência dessa Eternidade é a Beleza Intelectual, o Um que permanece fixo num universo de mudança e decadência. Na estância 54 Shelley exprime apaixonadamente tanto o poder da Beleza Intelectual como da maneira pela qual ela opera:
That Light whose smile kindles the Universe,
That Beauty in which all things work and move,
That Benediction which the eclipsing Curse
Of birth can quench not, that sustaining Love
Which through the web of being blindy wove
By man and beast and Earth and air and sea,
Burns bright or dim, as each are mirrors of
The fire for which all thirst; now beams on me,
Consuming the last clouds of cold mortality.
(Aquela Luz cujo sorriso o Mundo aclara,
A Beleza em que tudo opera e em que não para,
Aquela Bênção que a eclipsante Maldição
De nascer não estingue, aquele Amor-sustentação
Que na trama do ser teceu bem cegamente
Com homem a animal e terra e ar e mar
Arde obscuro ou brilhante: tudo é um espelhar
Do fogo, sede universal; em mim luzente,
As nuvens últimas do que é mortal ei-lo a apagar.)
O Epipsychidion, que é um poema de amor intelectual, tem início meio críptico, mas julga-se que a Lua nele referida seja Mary. De qualquer forma, o poema é dirigido a Emilia Viviani, com a qual Shelley imagina alguma fuga para a ilha do Egeu. E o excerto da fuga do poema, cujo título é um desafio, pode equivaler a “manual da alma” – ecoando o encheiridion, isto é, “manual” do século XVII.
O “Hino à Beleza Intelectual”, de composição anterior a todos os já considerados, expõe a descrença de Shelley quanto a comunicar-se com as almas dos mortos, e manifesta sua confiança na Beleza Intelectual, que é algo atemorizante. É um dos primeiros poemas de Shelley prenunciadores dos que ostentam sua plena capacidade de expressão.
“Ozimândias”, além de ser um poema em si mesmo bem realizado, tem outra característica, que é o arranjo não canônico de rimas. Seu esquema é ABAB/ACDC/ODE/FEF, o que era aventuroso e novo para o soneto. De sua “Ode ao Vento Oeste” diz-se também que deveria ser impressa, o que nem sempre acontece, como uma sequência de cinco sonetos de esquema rimático ABAB/CBCD/CDE/DEE.
Quanto ao coro do v.197 de Hellas, esclarece Shelley, em nota:
“As noções populares do cristianismo são representadas neste coro como verdadeiras em sua relação com o culto que substituíram, e aquele que segundo todas probabilidade elas substituirão, sem considerar seus méritos numa relação mais universal. A primeira instância contrasta a imortalidade dos seres viventes e pensantes que habitam os planetas, e para usar uma frase comum e inadequada “vestem-se com a matéria”, com a transitoriedade das manifestações mais nobres do mundo externo. Os versos finais indicam um estado progressivo de existência mais ou menos exaltada, segundo o grau de perfeição que cada inteligência distinta pode ter atingido.”
Dos versos “A uma cotovia” – um dos mais famosos de Shelley – afirma-se que poucas vezes na vida do poeta um símbolo de alegria poderia ter sido mais bem-vindo para ele. “Desde a primeira linha do poema a cotovia é tal símbolo: ‘Pássaro nunca foste’. Ele é de um poeta, um poeta feliz que o mundo ouvirá.”
Os outros poemas apresentam cada um seu interesse específico. Podemos citar o “Hino a Pã” e o “Hino a Apolo”, o primeiro embalador, o segundo majestoso, o excerto do “Prometeu libertado”, com seu final prenunciador do simbolismo, poemas de interesse biográfico, como o escrito em depressão, perto de Nápoles, e outros que aproveitam intensamente as plantas, como “A pergunta”, ou que falam nas injustiças do mundo.
EPIPSYCHIDION:
O poema abre como uma mensagem: “Emília,/Um navio flutua agora na enseada,/Um vento paira sobre os montes, na cumeada;/Há um caminho no pavimento azul do céu,/Quilha nenhuma este caminho antes venceu;” e segue ao convite: “Velejarás comigo, irmã do coração?/O nosso barco é um albatroz, e o ninho seu/É um éden do oriente que empurpureceu;/Pousemo-lhe entre as asas, quando Noite e Dia/Prosseguem voo, e a Tempestade, e a Calmaria,/Nossos ministros, sobre o mar ilimitado/Pisam o calcanhar um do outro, sem cuidado./Bem debaixo do céu da Jônia unia ilha vela,/Qual resto de naufrágio do Paraíso bela;/E porque as enseadas sejam más e não seguras,/Conheceria a solidão e suas agruras,/Não fosse um povo pastoril dali nativo,/Que do ar elísio e resplendente e de ouro vivo/Respira o último espírito da áurea idade,/Simples mas animado; audaz e sem maldade./A azul Egeu circunda esse lar de eleição,”. Aqui o poeta tem já seu lugar de eleição, na velha Hélade de todos os sonhos, de todos os poetas e filósofos, lugar natural, de ventos elísios, uma ilha do paraíso, um idílio, de um povo que respira o último espírito da áurea idade, oh, a nostalgia da idade de ouro, o mar, em que se conheceria a solidão e suas agruras, sentimento de solitude, no entanto, que leva Emília em suas quilhas, ou ainda poderia ser Mary, o poeta dirige-se como carta, e tal roteiro é náutico, em direção a uma ilha, um paraíso perdido, onde mora o auge da civilização, e segue o poema: “Todo o lugar povoa-se de doces ares;/O ambiente leve e claro de que a ilha é mansão” (...) “E uma ilha entre Céu, Mar, Terra, Ar embalada/E num sossego luminoso projetada;/Luzente como o Éden Lúcifer a errar,/Lavada pelo Oceano azul do jovem ar./Murcha ou escassez – é uma favorecida terra –/A Pestilência, o Terremoto, mesmo a Guerra/Não pousam em seus píncaros, abutres cegos,/Velejam para longe em seus fatais navegos.” É um lugar de fuga, que é a universal fuga da dor e do sofrimento, em que se embeleza de mar toda a nostalgia do mundo perfeito.

ADONAIS: ELEGIA PELA MORTE DE JOHN KEATS:
O poema, uma elegia, abre com versos de dor: “Choro por Adonais! Choro, que ele morreu!/Chorai por Adonais! O pranto vosso e meu/Em sua fronte não derreta a geada embora!/E tu – eleita dentre os anos, triste Hora,/Para prantear tal perda – a tuas irmãs obscuras/Dize, e a melancolia tua lhes ensina:/“Eu levei Adonais; até as eras futuras/O passado esquecerem, sua fama e sina/Serão um eco – e luz – que à eternidade se destina!”” (...) “Onde eras, forte Mãe, quando ele adormeceu/E a seta que nas trevas voa se embebeu/Em teu filho? A infeliz Urânia onde ia estar/Quando Adonais morreu? Com seu vendado olhar,/Lá no seu Éden, entre mais um Eco atento/Ela sentava; um destes, com paixão no alento,/As melodias que se esvaem reanimou,/Com as quais, flores a rir de um corpo macilento,/O vulto próximo da Morte outrora ele ocultou.” O poeta vê Adonais em Keats, e na sua fusão de mitologia descobre em Urânia o centro nervoso da dor pranteada, e na forma do mito, Shelley mais uma vez dá seu grito lancinante: “Ele morreu, morreu! Chorai por Adonais!/Acorda, triste Mãe, acorda e esvai-te em ais!” (...) “Oh, não sonhes que o Abismo, sendo-lhe amoroso,/Inda o restaure para o ar vital, oh não;/De sua mudez nutre-se a Morte, e ri-nos da aflição.” (...) “Morto o que era o mais jovem e querido teu!” (...) “Chorai por Adonais! – As Ilusões douradas,/As agentes da ideia, de paixão aladas,/Eram os seus rebanhos, que ele alimentava/Junto às águas do espírito, e lhes ensinava/O amor que era sua música;” (...) “Ele não mais acordará, oh nunca mais!/Grita a Miséria: “Acorda, mãe sem filho! Com ais/E pranto apaga, bem no fundo de teu peito,/Um ferimento mais feroz que o nele feito.”/E os Sonhos todos que de Urânia velam o olhar/E os Ecos todos que a irmã deles, a cantar,/Silenciara, bramiram: “Ergue-te!” Ligeira/Saltou de seu repouso a Luz, Luz passageira,/Qual Pensamento que a Memória, serpe, foi picar.” Eis a tortura da memória, Musa Urânia e seus ais, e a morte inexorável, fato consumado, na qual o pranto não ressuscita o pranteado, mas Shelley, neste poema, logo inverte o jogo, e dá mais uma vez à existência, a sua fé intelectual, a fé na humanidade de um ateu: “Calma, ele não morreu, ele não está dormindo,/Ele acordou da vida, simples sonho findo;” (...) “Ele vive e vigila – a Morte é que morreu;/Não choreis Adonais.” E professa a sua Beleza Intelectual: “Ele se uniu à Natureza: nesta é ouvido/O que ele diz com melodia,” (...) “Vida e amor lutam nele, pelo que será/Sua sina terrena: os mortos vivem lá/E andam no ar bravo e escuro como ventos de clarão.” (...) “O Um fica, os muitos vão-se; a luz é permanente/No Céu, na Terra as sombras passam brevemente;/A Vida, como um domo em vidro multicor,/Mancha da Eternidade o branco resplendor,/Até que a Morte o pise e quebre.” (...) “Varando o íntimo véu do céu mostra-se ardente/A alma de Adonais, como se fosse estrela,/E esplende ao alto na morada onde os Eternos são.” A Eternidade aqui não tem fundo místico ou espiritual, mas sim como imagem poética, como ideal intelectual perseguido por Shelley e intuído na música natural do mundo.

EPIPSYCHIDION
[Excerto]

Emília,
Um navio flutua agora na enseada,
Um vento paira sobre os montes, na cumeada;
Há um caminho no pavimento azul do céu,
Quilha nenhuma este caminho antes venceu;
Chocam alciões em torno às ilhas sem espuma;
O oceano abjurou os dolos que costuma;
Os marujos são livres, e arrojados são;
Velejarás comigo, irmã do coração?
O nosso barco é um albatroz, e o ninho seu
É um éden do oriente que empurpureceu;
Pousemo-lhe entre as asas, quando Noite e Dia
Prosseguem voo, e a Tempestade, e a Calmaria,
Nossos ministros, sobre o mar ilimitado
Pisam o calcanhar um do outro, sem cuidado.
Bem debaixo do céu da Jônia unia ilha vela,
Qual resto de naufrágio do Paraíso bela;
E porque as enseadas sejam más e não seguras,
Conheceria a solidão e suas agruras,
Não fosse um povo pastoril dali nativo,
Que do ar elísio e resplendente e de ouro vivo
Respira o último espírito da áurea idade,
Simples mas animado; audaz e sem maldade.
A azul Egeu circunda esse lar de eleição,
Com som sempre mudando, espumas e clarão,
Beijando a areia fina e as furnas a alvejar;
E os ventos todos pela praia a vaguear
Ondulam como as vagas que a ondular se agitam:
Faunos silvestres na floresta espessa habitam;
Muita lagoa existe e arroio e manancial
Tão claros como o diamante elemental
Ou o ar sereno da manhã; e muito além
Musgosas trilhas de cabras e gamos vêm
(Uma só vez por ano as seguem os pastores)
Dar em caramanchões, cavernas, corredores
Construídos com hera; os saltos d`água os alumiando
Com um som que nunca falha, vão acompanhando
Os rouxinóis ao meio-dia em seus cantares;
Todo o lugar povoa-se de doces ares;
O ambiente leve e claro de que a ilha é mansão
Pesa com o grave odor das flores de limão
Que paira, névoa cheia de chuva invisível
E cai nas pálpebras, qual sono perceptível;
Violetas e junquilhos dentre o musgo espreitam
E odor qual seta ou dardo em nossa mente deitam
Até quase esmaiardes com essa doce dor.
E cada movimento, e luz, e tom, e odor,
Com aquela grave música está em união
Que é uma alma dentro da alma – aparentando estão
Ecos de um sonho pré-natal, bem anterior. –
E uma ilha entre Céu, Mar, Terra, Ar embalada
E num sossego luminoso projetada;
Luzente como o Éden Lúcifer a errar,
Lavada pelo Oceano azul do jovem ar.
Murcha ou escassez – é uma favorecida terra –
A Pestilência, o Terremoto, mesmo a Guerra
Não pousam em seus píncaros, abutres cegos,
Velejam para longe em seus fatais navegos.
(Obs: o poema continua, e como é bem extenso, aqui está somente o seu começo como uma introdução)

ADONAIS: ELEGIA PELA MORTE DE JOHN KEATS

I
Choro por Adonais! Choro, que ele morreu!
Chorai por Adonais! O pranto vosso e meu
Em sua fronte não derreta a geada embora!
E tu – eleita dentre os anos, triste Hora,
Para prantear tal perda – a tuas irmãs obscuras
Dize, e a melancolia tua lhes ensina:
“Eu levei Adonais; até as eras futuras
O passado esquecerem, sua fama e sina
Serão um eco – e luz – que à eternidade se destina!”

II
Onde eras, forte Mãe, quando ele adormeceu
E a seta que nas trevas voa se embebeu
Em teu filho? A infeliz Urânia onde ia estar
Quando Adonais morreu? Com seu vendado olhar,
Lá no seu Éden, entre mais um Eco atento
Ela sentava; um destes, com paixão no alento,
As melodias que se esvaem reanimou,
Com as quais, flores a rir de um corpo macilento,
O vulto próximo da Morte outrora ele ocultou.

III
Ele morreu, morreu! Chorai por Adonais!
Acorda, triste Mãe, acorda e esvai-te em ais!
Mas para quê? Apaga em seu fervente leito
Teu pranto em fogo, e o coração a soar no peito
Um sono guarde igual ao dele, e silencioso;
Que ele se foi aonde vão sábio e formoso;
Oh, não sonhes que o Abismo, sendo-lhe amoroso,
Inda o restaure para o ar vital, oh não;
De sua mudez nutre-se a Morte, e ri-nos da aflição.

IV
Tu, a mais harmoniosa das que choram, chora!
Urânia, ele morreu! Volta a chorar agora,
Ele, o monarca de uma raça imorredoura,
Cego e ancião, quando o brio que sua pátria doura,
O clero, o escravo, o destruidor da liberdade,
Pisaram-na, zombando com ritual odiado
De cio e sangue; o vórtice da morte, ousado,
Buscou; mas seu Espírito de claridade
Reina inda na terra; o terceiro pela luz gerado.

(trechos seguintes, em resumo):
VI
Morto o que era o mais jovem e querido teu!
IX
Chorai por Adonais! – As Ilusões douradas,
As agentes da ideia, de paixão aladas,
Eram os seus rebanhos, que ele alimentava
Junto às águas do espírito, e lhes ensinava
O amor que era sua música;
XV
Entre as montanhas senta-se Eco desnorteada
E nutre a dor com a rima de Adonais,
XVI
Louca de mágoa, a Primavera derrubou
Os seus botões, pensando ser Outono,
(...)
Jacinto a Febo caro assim não veio a ser
Nem Narciso a si próprio, como tu, Adonais,
XXII
Ele não mais acordará, oh nunca mais!
Grita a Miséria: “Acorda, mãe sem filho! Com ais
E pranto apaga, bem no fundo de teu peito,
Um ferimento mais feroz que o nele feito.”
E os Sonhos todos que de Urânia velam o olhar
E os Ecos todos que a irmã deles, a cantar,
Silenciara, bramiram: “Ergue-te!” Ligeira
Saltou de seu repouso a Luz, Luz passageira,
Qual Pensamento que a Memória, serpe, foi picar.

XXXIX
Calma, ele não morreu, ele não está dormindo,
Ele acordou da vida, simples sonho findo;
_ Nós, os perdidos em visão tempestuosa,
Mantemos com fantasmas luta desvaliosa,
E, com a faca do espírito, a louquear golpeamos
Invulneráveis nadas.

XLI
Ele vive e vigila – a Morte é que morreu;
Não choreis Adonais.

XLII
Ele se uniu à Natureza: nesta é ouvido
O que ele diz com melodia,

XLIV
Vida e amor lutam nele, pelo que será
Sua sina terrena: os mortos vivem lá
E andam no ar bravo e escuro como ventos de clarão.

LII
O Um fica, os muitos vão-se; a luz é permanente
No Céu, na Terra as sombras passam brevemente;
A Vida, como um domo em vidro multicor,
Mancha da Eternidade o branco resplendor,
Até que a Morte o pise e quebre.

LIV
Aquela Luz cujo sorriso o Mundo aclara,
A Beleza em que tudo opera e em que não para,
Aquela Bênção que a eclipsante Maldição
De nascer não estingue, aquele Amor-sustentação
Que na trama do ser teceu bem cegamente
Com homem a animal e terra e ar e mar
Arde obscuro ou brilhante: tudo é um espelhar
Do fogo, sede universal; em mim luzente,
As nuvens últimas do que é mortal ei-lo a apagar.

LV
(obs: final do poema)
Varando o íntimo véu do céu mostra-se ardente
A alma de Adonais, como se fosse estrela,
E esplende ao alto na morada onde os Eternos são.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/30515/17/pb-shelley-e-seus-poemas-da-era-do-romantismo-ingles-parte-iv






quarta-feira, 7 de setembro de 2016

SABER O AMOR

Anoiteço por me poetizar.
Com um sinal na carne
de que sofri.
Com um fino trato do coração
acusando que amei.

Não me trate aos malditos insultos,
aquele que não sabe amar
bem aprende a odiar,
pois deste carvão lhe faz
o desdém.

As impuras ilusões do voo,
ah, estas gaivotas!
Como pulam a orquestra
e rondam os abutres,
como amam aos que
odeiam!

07/09/2016 (Gustavo Bastos)

VANGUARDA NOTURNA

Assim me revelo, nas noites de vanguarda,
com a espada atravessada na garganta,
emito notas dissonantes de meu
pedal astuto.

Assim me detenho, com passos largos e imprevisíveis,
com as minhas rubricas e signos
tonteando as balas.

Na vida de vanguarda, como um mercador
que anota as cintilações das estrelas,
o que navega desperto sobre
o mar da fortuna.

Assim o sonho estoura a champanhe,
bebe o vinho.
Assim o sonho vem
e se derrama.

Assim me revelo, poesia fausta
com olhos de ilusão,
nas noites de vanguarda
do meu coração.

07/09/2016 (Gustavo Bastos)

domingo, 28 de agosto de 2016

GAY TALESE, EM VIDA DE ESCRITOR, É UM REPÓRTER – PARTE I

“Talese faz um trabalho de louco de miudezas e enorme de repórter como ele é.”

VIDA DE ESCRITOR, O LIVRO
“Vida de escritor” é um dos livros mais controversos de Gay Talese, pois traz em si um conceito de unidade espalhado, na verdade um conjunto de fragmentos que foram unificados numa narrativa circular, mas sua qualidade é que para quem quer entender a vida de um jornalista e escritor, este livro é um prato cheio. Não se trata de uma narrativa bem-sucedida, o que poderia se pensar de algo que também possa funcionar como uma autobiografia. Não há, portanto, o conflito clássico e afetado entre a genialidade e a incompreensão do mundo “medíocre”, em que o herói romântico triunfa no fim.
A NARRATIVA DO FRACASSO
O livro, e este é seu mérito, não faz concessões ao sucesso, pois trata com esmero a narrativa do fracasso. Pois começa com um pênalti perdido na frente de milhões de pessoas, e termina com o mesmo fracasso, o mesmo fato e imagem, revolvendo-se em sua narrativa circular. Como se diz que na psicologia a neurose é a repetição, temos com “Vida de escritor” a reiteração obsessiva do malogro, do fracasso, e isso como um conjunto que se forma a partir de restos de escritos de Gay Talese que tiveram de se consumar juntos para tornar-se um livro. “Vida de escritor”, portanto, tem no fracasso a linha de narrativa e é formada de livros que nunca foram feitos ou concluídos, isto é, fracassos literários e de reportagem de Gay Talese.
No lado de jornalismo, ao mostrar as frustrações do ofício de apurar e relatar, Talese fala a verdade sobre grande parte desta profissão, um lugar em que um literato deve ficar permanentemente insatisfeito, e esse é também um dos conflitos do perfeccionista Talese e as demandas imediatistas de seu ofício. E como escreve Mário Sérgio Conti no posfácio ao livro: “Repórter com pretensões a autor, Talese se achava um estilista rematado. Ou seja: era um repórter típico. Volta e meia, brigava com os redatores encarregados de reescrever o que fazia.”
TALESE E O NOVO JORNALISMO
E tal conflito prossegue no trabalho de Talese no Times, que era um jornal que tinha como dogmas os parágrafos curtos, objetividade, e uma negação de narrativas impressionistas e subjetivas. Ou seja, Talese não conseguia chegar ao clímax de sua forma, pois era incapaz de transmitir a sua mensagem dentro dos limites estilísticos do jornal, que era nada mais que seu trabalho árduo que significava nada mais que aquilo que tirava de seus personagens, nos seus trabalhos de repórter, por ter o desejo de um tempo maior de apuração que não estava disponível.
Quando deixou o Times, Talese foi trabalhar em revistas, se adaptando bem à Esquire, lugar em que ele tinha liberdade para ser original, sendo aí que publicou alguns de seus perfis mais elogiados, como o de Joe Dimaggio e o de Frank Sinatra. E esse estilo de expressão, a posteriori batizado de “novo jornalismo”, era um conjunto de pesquisas aprofundadas e exaustivas, mantendo ao mesmo tempo o rigor com os dados factuais, mas com uma narrativa que se utilizava de recursos da ficção, notadamente o romance. Por sua vez, o chamado novo jornalismo era uma nomenclatura de escopo amplo que ia dos delírios gonzo-alucinógenos de Hunter S. Thompson, assim como também envolvia o neonaturalismo de Tom Wolfe, e também nomes como Truman Capote.
TALESE E OS LIVROS
Mas, seus trabalhos em revistas foram o antecedente do que viria a ser seu trabalho com a produção de livros. Pois com Talese dispondo de tempo suficiente de apuração e com um espaço de centenas de páginas para preencher, o livro passou a ser seu novo e ideal veículo de trabalho. Lugar que, contudo, também trouxe desventuras a Talese, repleto de conflitos e falta de rumo, uma dispersão que só acabou resolvida forçadamente com seu “Vida de escritor, de 2006, livro de Talese que teve pior recepção nos Estados Unidos, e no qual o resultado não passou de um pot-pourri com restos de livros que goraram; num conjunto de narrativa frágil e despedaçada, que teve na circularidade um modo artificial de encerramento e conclusão.
Dentre os malogros que formaram o livro “Vida de escritor” temos a extensa apuração da história da jogadora chinesa que perdeu o pênalti, que não rendeu um livro como ele planejava. Outro fato que não se tornou um livro foi o escabroso caso de Lorena Bobbit, que cortou o pênis do marido e o jogou no mato. Com tal texto de Talese sendo recusado com rapidez humilhante pela diretora de redação da revista The New Yorker, Tina Brown. E por fim, seu malogro maior, a sua tentativa de transformar em livro a saga do terreno na rua 63, em Manhattan, lugar que tinha todas as condições de abrigar um restaurante de sucesso e, no entanto, tudo resultou em fracasso.
VIDA DE ESCRITOR
Forma, então, o livro “Vida de escritor”, um conjunto arbitrário, porém com um requinte por reunir uma boa narrativa, fragmentada, forçada, mas com o ofício de jornalista de Gay Talese bem exemplificado e com o título do livro sendo justificado do início ao fim, pois a estrutura de “Vida de escritor” é um solavanco, não lhe falta a emoção, não tem a calma ou a solenidade de uma obra clássica. O livro é um labirinto autoquestionador, fragmentado – sendo moderno por não ser uma narrativa que se condensa em algo de natural ou automático. Como dito, o livro é mesmo uma construção arbitrária, um conjunto de sobras para formar um único livro. Sendo a sua unidade o fato de ser o trabalho verdadeiro de um repórter.
O ESTILO DE GAY TALESE
O início da carreira de Gay Talese é retratada no livro, em que o autor admite que seu texto “parecia ter uma queda precoce para artifícios de retórica e circunlóquios”, e que “minha atitude em relação ao jornalismo foi fortemente influenciada, durante todos os meus anos de secundário, por um rebuscado romancista chamado Frank Yerby, um negro nascido na Geórgia que mais tarde se radicou na Espanha e que escrevia prolificamente sobre mulheres de anquinhas e cobertas de joias, com tantos excessos eróticos que, não fosse o floreado estilo de sua prosa, seus livros teriam sido censurados em todos os estados americanos. (...) Além disso, não teria tentado imitar, em minhas tentativas de encobrir falhas dos atletas da escola, a facilidade de Yerby para usar eufemismos.” Ou seja, a forma impressionista e rebuscada já despertava os dotes de Gay Talese para uma narrativa inusual até então para o jornalismo profissional.
Em junho de 1956 Talese aceita um emprego de repórter no departamento de esportes do New York Times, já tendo trabalhado lá antes, recomendado ao jornal por um colega e amigo da universidade, cujo tio de Mississippi, o jornalista e editor Turner Catledge, se tornara diretor de redação do Times em 1951. Foi ele quem mais tarde propôs que Talese trabalhasse na editoria de esportes, que, segundo o autor “ele criticava abertamente devido ao que considerava uma tendência para cobrir eventos esportivos do mesmo jeito sério e enfadonho que na época o Times dispensava a todos os demais assuntos.”
Catledge escolheu a editoria de esportes como a primeira a ser reformada, dando a entender que os textos ali poderiam ser mais leves, originais e mais divertidos. E Talese afirma nesta altura: “Não obstante, como jovem e ambicioso jornalista esportivo, continuei a ler e ser influenciado principalmente por ficcionistas, embora meus gostos já se afastasse da literatura licenciosa que havia esquentado meus hormônios no curso secundário. No Alabama, eu havia lido romances e contos de escritores como William Faulkner, Thomas Wolfe e outros autores sulistas. Como agora eu estava lendo suplementos literários e assinando a revista The New Yorker, começava a perceber que mesmo alguns ficcionistas de renome de vez em quando tratavam de eventos esportivos e de atletas em seus romances e contos. Ao ler exemplos dessa literatura, eu sempre tinha em mente que estava ante um texto que tinha sido imaginado, que aqueles textos eram, afinal, classificados como “ficção”.”
GAY TALESE E SEU MÉTODO
No entanto, Gay Talese era um jornalista esportivo, e não um ficcionista, mas se conseguisse se aproximar o suficiente de alguns daqueles atletas, obtendo deles a confiança para ter suas confidências, talvez poderia escrever reportagens pessoais factualmente corretas, mas muito reveladoras, sobre atletas de primeira linha e usando seus nomes reais, e depois conseguir que essas histórias fossem publicadas no convencionalíssimo New York Times, já que Catledge estava tentando tornar mais solta a área em que Gay Talese trabalhava. E Gay Talese diz, neste contexto: “Além disso, sem falsear os fatos, minha postura jornalística seria ficcional, com muitos detalhes pessoais, ambientação, diálogos e uma completa identificação com os personagens escolhidos e com seus conflitos.”
E Gay Talese ganha seu estatuto de escritor, segundo o próprio: “depois de deixar o Times em 1965, para trabalhar como colaborador freelance de revistas e escrever livros,”, em que ele exemplifica seu périplo: “passei grande parte do tempo entre meados da década de 1960 e parte da de 1970 morando em hotéis e apartamentos em várias cidades da Califórnia: em Beverly Hills, para fazer um perfil de Frank Sinatra em seus anos outonais; em San Francisco, para escrever sobre Joe DiMaggio, então com 51 anos e ainda de luto por Marylin Monroe e também perplexo com o que estava acontecendo com os Yankees; em San José, onde completei a pesquisa para um livro sobre a exilada família Bonanno, expulsa de Nova York por grupos rivais da Máfia em fins dos anos 60., e em Topanga Canyon, perto de Malibu, no condado de Los Angeles, onde várias vezes passei algum tempo, entre 1971 e 1973, a fim de entrevistar nudistas livre-pensadores e casais adeptos do amor livre, numa comunidade chamada Sandstone, que foi um dos locais que utilizei para pesquisar e escrever um livro sobre as tendências históricas e sociais que, acredito, tornaram os Estados Unidos, na década de 1970, um país bem mais permissivo e menos pudico que nos tempos de minha juventude, depois da guerra e antes da Playboy.”
GAY TALESE E SEU LABIRINTO
Mas, Talese também se coloca como pesquisador malogrado, um jornalista que, invariavelmente, juntava informações e se perdia numa falta de foco que o levava por vezes a verdadeiros labirintos de coisas inacabadas, em que ele diz que seu tempo é utilizado “para procurar e reunir informações, que obtive em bibliotecas, arquivos privados e públicos e com várias pessoas que procurei e entrevistei. Creio que o contato face a face é necessário porque desejo não somente um diálogo, como também uma sensação visual dos traços pessoais e maneirismos dos entrevistados, além da possiblidade de descrever a atmosfera do local em que se deu o encontro. Apesar de importantes, as ideias e informações obtidas dessa maneira muitas vezes custam-me quantias consideráveis em transporte e diárias de hotel, assim como em jantares e vinho para as fontes, e com frequência o que é dito e visto nessas entrevistas não contribui com absolutamente nada para o avanço do livro.”
Talese tinha a vontade de se aprofundar em tudo que abordava, mas sua pesquisa era fragmentária e várias vezes errática, própria de um jornalista que considera tudo a sua volta, e daí a sua sofreguidão de repórter, como ele testemunha sobre si mesmo: “É importante reconhecer que durante os quarenta anos de minha carreira como escritor-pesquisador eu investi pesadamente na perda de tempo. Já gastei semanas negociando entrevistas com pessoas recalcitrantes que, quando finalmente resolveram falar comigo, nada revelaram de interessante. Já viajei centenas e milhares de quilômetros seguindo pistas que por fim não me levaram a parte alguma. Das informações que recolho de pessoas, 80% terminam na cesta de lixo. Ainda assim, eu não teria conseguido descobrir os 20% úteis sem abrir caminho através dos outros 80%. Que acabam virando lixo.” Talese, portanto, reúne uma infinidade de inutilidades para tirar suas pepitas que podem, talvez, virar livro. Ou seja, Talese faz um trabalho de louco de miudezas e enorme de repórter como ele é.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/30307/17/gay-talese-em-vida-de-escritor-e-um-reporter-parte-1 
 



 


  

P. B. SHELLEY E SEUS POEMAS DA ERA DO ROMANTISMO INGLÊS – PARTE III

“a cotovia aparece preenchendo o mundo com seu canto e seu voo”

DADOS BIOGRÁFICOS – PARTE III
Em 7 de novembro Shelley estava em Ferrara, onde visitou a biblioteca e viu manuscritos de Ariosto e Tasso. Dois dias depois já se achava em Bolonha e passou uma semana em Roma, dirigindo-se depois para Nápoles. Escalou o Vesúvio e visitou Pompeia. Não estava bem de saúde. Conheceu Paestum e foi de lá para Roma, onde iria ficar três meses. Frequentava de noite a casa da sra.Dionigi, que escrevia e pintava, e visitou alguns ingleses como Lorde Gilford e Sir William Drummond. Conheceu também um tipo excêntrico, o coronel Finch. Presenciou os festejos por ocasião da visita do Imperador da Áustria a Roma, bem como viu o Papa nas cerimônias em São Pedro.
Em Roma, nas termas de Caracala, continuou o “Prometeu libertado”, cujo primeiro ato fora completado em Nápoles e ao qual juntara agora mais dois atos (abril de 1819). Logo os Shelleys se mudaram para Livorno. Lá Shelley recebeu a Nightmare Abbey, de seu amigo Peacock, que o retrata num dos tipos do livro, Scythrop Glowry. Lê Calderón de la Barca, em espanhol, que aproxima-o de Shakespeare. Escreve a peça de cinco atos em versos brancos, The Cenci, tendo por tema a tragédia que se abateu sobre essa família em 1599, com a morte do pai incestuoso e desumano por Beatrice, que sofre as penas da lei. Escreveu um poema político, “Men of England”, que só seria publicado anos mais tarde.
Em outubro de 1819 Shelley se encontra em Florença, onde alugou apartamentos por seis meses. Um dia, ao longo do Arno, perto da cidade, ele escreveu a “Ode ao Vento Oeste”, poema eloquente e belo. Escreve o quarto ato de seu poema capital, o “Prometeu libertado”. Diz Blunden que o poema encerra trechos que serão citados ainda por longo tempo como as profecias da raça porvindoura. Amelia Curran pinta-lhe o retrato, do qual, mesmo inacabado, se diz que é o mais conhecido de qualquer poeta inglês, exceto o Shakespeare, de Droeshout. Devido a padecimentos físicos, resolveu ir para Pisa, onde poderia consultar o célebre dr.Vacca. Em 26 de janeiro, vai pelo Arno para aquela cidade. Em Pisa o médico lhe aconselhou que esquecesse os frascos de remédio e no fim de maio fosse para Banhos de Lucca. Escreve versos a uma cotovia, bastante populares. Compõe em três dias o poema “The witch of Atlas”, em oitava rima. Escreve o Édipo Tirano, tragédia em dois atos.
Dirige-se por carta a Keats, convidando-o, também em nome de Mary, a passar o inverno em Pisa, salientando que o poeta, em atenção a sua saúde, deveria ir à Itália. Shelley se dá em Pisa com alguns intelectuais italianos, como o padre e professor de física Francesco Pacchiani, que os outros pisanos julgavam louco, mas falava um italiano tão belo que encantava Mary; outro era o poeta Tommaso Sgricci, que improvisava dramas poéticos. Por intermédio do primeiro ouve falar na Contessina Teresa Emília Viviani, que estava no convento de Sant`Ana, internada pelo pai, para afastá-la do amante da mãe. Shelley e os seus se encontram com a moça de 19 anos, que era de uma beleza clássica. O poeta viu-a pela primeira vez em 5 de dezembro de 1820 e por ela concebeu um amor platônico que iria expressar no Epipsychidion (publicado por Ollier em 1821). Em setembro de 1821 a moça casou-se. Não foi feliz. Quando Medwin, o primo de Shelley, a visitou na idade de 35 anos, ela estava doente, solitária, e curtia necessidade.
Shelley e Mary conhecem o príncipe Alexandre Mavrocordato, da Grécia, e sua prima, a princesa Argyropoli. O príncipe, em exílio, só pensava na libertação de sua pátria. Mary dava-lhe lições de inglês e recebia de grego. Em junho de 1821 Mavrocordato partiu para a Moreia, a fim de juntar-se ao exército. Shelley lhe dedicaria Hellas, um drama lírico, famoso por seus coros, principalmente o último. Shelley estudava árabe, possivelmente com vistas a futura viagem. Escreveu a Defence of Poetry, que tem reflexões memoráveis sobre o tema, como a seguinte: “A poesia ergue o véu da oculta beleza do mundo, e faz objetos familiares serem como não familiares”.
Shelley manda nova carta a Keats – cujo Hyperion admirava sobremaneira – convidando-o a hospedar-se em Pisa, mas os planos de Keats já estavam feitos para Roma, onde viria a falecer em 23 de fevereiro de 1821. Shelley só soube dessa morte em meados de abril; informou Byron. Escreveu o que ele próprio tomou como “uma altamente trabalhada obra de arte”, o conhecido “Adonais”, elegia pela morte de Keats, inicialmente inspirada nos bucólicos gregos Mosco e Bion. O poema foi completado em início de junho, e logo impresso, pois dele Shelley muito esperava. O poeta, até morrer, sempre confiou em que a poesia de Keats triunfaria. Por outro lado, Shelley a essa altura julgava Byron muito superior a todos os poetas do dia, pois criava algo inteiramente novo e “selava cada palavra com imortalidade”.
Em agosto de 1821 escreveu a Leigh Hunt renovando proposta de Byron no sentido de que Hunt deixasse seu jornal, The Examiner, e fosse para Pisa a fim de se incumbir, junto com Shelley e Byron, de um novo jornal. Hunt e família se alojariam no térreo do palácio de Byron. Edward e Jane Williams retornaram a Pisa e encontram acomodações no térreo da morada dos Shelleys, os Tre Palazzi. Shelley, por essa ocasião, era apto a atirar, correr, hábil no remo, iatismo, bilhar; conhecia a caça à raposa e à lebre e assuntos agrícolas em geral. Desiste de ir à Arábia. Caim, de Byron, é publicado, e Shelley e Mary julgam-no a obra-prima do lorde.
Byron e Shelley tinham encarregado um amigo de Trelawny, o capitão Daniel Roberts, de construir barcos para eles, um menor e aberto para Shelley, outro maior e com convés para Byron. O barco de Shelley foi chamado Don Juan por Byron, embora Shelley preferisse denominá-lo Anel. O de Byron era o Bolívar. Em 12 de maio o Don Juan chega de Nápoles, e muitas viagens são feitas no Don Juan, que Shelley achava rápido e bonito.
Em 13 de junho o Bolívar foi trazido à baía de Lerici por Trelawny e Roberts. Coisas estranhas estão sucedendo: Shelley vê o espírito de Allegra, Jane vê Shelley passar quando ele não estava passando ali. Shelley escreve “Time triumph of life”, que deixa incompleto. O novo jornal, por sua vez, era denominado Hespérides, mas sairia com o título The Liberal, e deveria ter os lucros divididos por Hunt, Byron e Shelley.
De Pisa Shelley volta a Livorno. Em 8 de julho é aconselhado a esperar um dia para fazer-se ao largo, rumo a Lerici, pois suspeitava-se de mau tempo. O Don Juan velejou e desapareceu na neblina da tempestade próxima. Pereceram Shelley, Williams e o grumete Charles Vivian. Trelawny pôs-se a procurá-los. O mar devolveu os cadáveres, desfigurados. O de Williams foi encontrado na embocadura do Serchio; o de Vivian em Nasa; o de Shelley flutuou para a praia perto de Via Reggio; tinha no bolso uma edição de Sófocles e o último volume de Keats, que continha o Hyperion e havia sido emprestado a Shelley por Leigh Hunt. Os corpos foram enterrados nos locais onde encontrados, jogando-se cal viva nas covas. Fez-se a pira de Shelley e, com muito sol, incenso, sal, vinho e óleo, o corpo do poeta foi cremado, jogando-se nas chamas o livro de Keats como oferenda aos mortos.
A VITÓRIA DA VIDA:
O poema tem versos que se abrem otimistas: “Como um espírito a voar para missão/De luz e bem, e alegre com o seu fulgor/O sol pulou, e a máscara da escuridão/Caiu da terra despertada” (...) “a prece despertou do mar, à qual/Uniram as canções os pássaros e as fontes.” (...) “E na devida sucessão a ilha, o mar,/O continente, e tudo o que em si próprio ostente/A forma e a natureza do húmus que perece,/Se levantaram como o sol, seu pai ardente,” a vida aqui se afirma como no título do poema, vitoriosa, a terra despertada, tudo se levanta como o sol, o poema é visionário, cheio de emoção, de luz e bem o sol que ilumina o mar e o continente, e o poeta não deixa de sorver seus eflúvios e sentir na sua própria mente os efeitos dessa invasão: “Estranho transe me tomou o pensamento:/Não era sono; a sombra que espalhou defronte/Tinha tal transparência que mostrou a cena/Tão clara como, quando um véu de alumbramento/Se puxa, à tarde os morros mostram luz serena;”, Shelley sente a luz serena, ela abre toda a sua intuição, e lhe torna visionário, e o verso corrobora o sol como esta verdade que o poema enuncia.
HINO À BELEZA INTELECTUAL:
O poema tem nos seus versos os exemplos do benefício do intelecto, e como em poesia ele se forma e assim dá outras formas ao mundo, como Shelley vê e descreve: “A tremenda sombra de uma força não visível/Mesmo invisível entre nós flutua – a visitar/O mundo com asa tão volúvel e sensível/Qual vento de verão de flor em flor a rastejar -,” (...) “Espírito do Belo, que consagras o que ungiste/Tudo sobre o que brilhas, quer do pensamento/Humano quer da forma – para onde tu partiste?/ Por que perpassas por, e deixas nosso aforamento,/Este vale de lágrimas, vazio e desolado?” A esta luz, Shelley encara como uma passagem, que voltará a deixar órfão o mundo, com suas tristezas e escuridões, como Shelley pressente nos inevitáveis versos: “Por que o temor e o sonho e a morte e o nascimento/Lançam na luz do dia desta terra, num momento,/Tais tristezas? por que o homem tanto se abalança/Por ódio e amor, por desespero ou esperança?” (...) “Nenhuma voz de mundo mais sublime deu/Jamais essas respostas nem a sábio e nem a poeta/- Portanto os nomes de demônio, alma, céu,/Permanecem registros de um esforço, não de meta./Débeis palavras mágicas – o encanto seu não há de,/De quanto vemos ou ouvimos, separar/O acaso, a dúvida e a instabilidade.” E o cético, o ateu Shelley sabe que tal passagem de iluminação não volverá os acasos e fraturas sem fim que nomes pomposos como céu e alma são sinais imprecisos de uma realidade dura de dúvida existencial e desamparo, nem a sábio ou poeta se dá uma chave que a intuição mais poderosa poderá decifrar seja com poema ou filosofia, seja assim um conjunto de mágicas, palavras que contêm sugestões, esperanças, mas que mantém toda a angústia do não-saber fundamental de uma existência em aberto e que tem como sina terminar, oh paradoxo, inacabada, um fosso em que o Homem vem com seus símbolos para se sentir um pouquinho melhor, e Shelley que fica bem demais com seus versos.  
A UMA COTOVIA:
O poema mais lírico de Shelley, é simples, sereno, musical, ecoa e canta como e com a cotovia, com tais versos: “Salve, espírito contente!/Pássaro nunca foste, certamente;/Do Paraíso, ou a tocá-lo de raspão/Derramas o teu pleno coração/Em melodias de arte não premeditada.” (...) “Cantando voas alto, e voando sempre cantas.” (...) “Como estrela noturna/Na vasta luz diurna,/És invisível, mas eu te ouço a voz aguda.” (...) “Sonoros ficam terra e ar/Com tua voz a soar,”. Aqui a cotovia aparece preenchendo o mundo com seu canto e seu voo, nada mais poético para um Shelley da era romântica, com seus mitos e imagens idílicas, o poeta e a cotovia se encontram em forma chamada poema.

POEMAS:

A VITÓRIA DA VIDA
(PRIMEIRA PARTE)
Como um espírito a voar para missão
De luz e bem, e alegre com o seu fulgor
O sol pulou, e a máscara da escuridão

Caiu da terra despertada; em seu candor
Os altares sem fumo dos nevosos montes
Flamearam sobre as nuvens rubras; com o albor

Do dia, a prece despertou do mar, à qual
Uniram as canções os pássaros e as fontes.
A flor que descerrou em campo ou matagal

Trêmulas pálpebras ao ósculo do dia,
A balançar o seu turíbulo no ar
Com o incenso do oriente luminoso ardia,

Ardia inextinguivelmente e devagar,
Enviando soluçantes ais ao ar que ria;
E na devida sucessão a ilha, o mar,

O continente, e tudo o que em si próprio ostente
A forma e a natureza do húmus que perece,
Se levantaram como o sol, seu pai ardente,

Para fazer o seu trabalho, que ele outrora
Tomara para si, antes que a eles o desse;
Mas eu os pensamentos silencio agora,

Os quais me mantiveram vígil, como estrelas
A ornar a noite; ora que estão adormecidos,
Meus membros estirei sob as ramagens belas

De um velho castanheiro em flanco de Apenino;
Diante de mim, a noite em voos foragidos;
Atrás, o dia que se ergueu; o mar divino

Achava-se a meus pés, o céu por sobre a fronte.
Estranho transe me tomou o pensamento:
Não era sono; a sombra que espalhou defronte

Tinha tal transparência que mostrou a cena
Tão clara como, quando um véu de alumbramento
Se puxa, à tarde os morros mostram luz serena;

Eu soube que o frescor sentira dessa aurora,
Fronte e cabelos eu banhara neste orvalho
E num declive eu me sentara como agora,

Sob a mesma ramada, ouvindo como aqui
Manterem pássaros, mais fontes, mais o mar,
Conversas musicais no enamorado ar:
Depois uma visão na mente percebi.

HINO À BELEZA INTELECTUAL

I
A tremenda sombra de uma força não visível
Mesmo invisível entre nós flutua – a visitar
O mundo com asa tão volúvel e sensível
Qual vento de verão de flor em flor a rastejar -,
Qual luar que chove atrás da serra de pinheiros
Visita a sombra, com inconstante relancear,
O coração dos homens, seus semblantes passageiros;
Qual cores e harmonias de uma noite a principiar,
Tal como à luz de estrelas muita nuvem espalhada,
Como a lembrança de uma música evolada,
Tal como o que por sua graça possa ser amado
E pelo seu mistério ainda mais prezado.

II
Espírito do Belo, que consagras o que ungiste
Tudo sobre o que brilhas, quer do pensamento
Humano quer da forma – para onde tu partiste?
Por que perpassas por, e deixas nosso aforamento,
Este vale de lágrimas, vazio e desolado?
A luz do sol, por que não para eternamente
Tece arco-íris no rio da montanha despenhado?
Por que murchar, passar o que já foi florente?
Por que o temor e o sonho e a morte e o nascimento
Lançam na luz do dia desta terra, num momento,
Tais tristezas? por que o homem tanto se abalança
Por ódio e amor, por desespero ou esperança?

III
Nenhuma voz de mundo mais sublime deu
Jamais essas respostas nem a sábio e nem a poeta
- Portanto os nomes de demônio, alma, céu,
Permanecem registros de um esforço, não de meta.
Débeis palavras mágicas – o encanto seu não há de,
De quanto vemos ou ouvimos, separar
O acaso, a dúvida e a instabilidade.
Somente a luz – qual bruma nas montanhas a pairar
E a música efundida por noturno vento
A usar as cordas de algum tácito instrumento,
Ou luar à meia-noite em águas de fugida
Dão graça e dão verdade ao sonho inquieto desta vida.

IV
Cedidos por alguns momentos, vão e vêm
Como nuvens o anseio, a egolatria, o amor.
Onipotente fora o homem, e imortal também,
Se ignota como és, e de inspirar temor,
Tu te firmasses dentro de seu coração.
Mensageira que és de simpatia,
Que aos olhos dos amantes cresces, diminuis,
Que para o pensamento humano és nutrição,
Tal como as trevas para a chama que a morrer reluz.
Não partas que a tua sombra chegou fria,
Não partas não, a menos que devesse a sepultura
Ser como a vida e o medo, realidade escura.
(obs: o poema continua, aqui está sua parte inicial)

A UMA COTOVIA
Salve, espírito contente!
Pássaro nunca foste, certamente;
Do Paraíso, ou a tocá-lo de raspão
Derramas o teu pleno coração
Em melodias de arte não premeditada.

Voando mais alto e cada vez acima,
Deixas da terra o clima
Como nuvem de fogo;
O mar azul percorres logo;
Cantando voas alto, e voando sempre cantas.

No relâmpago dourado
Do sol tombado,
Sobre o qual as nuvens brilham nuas,
Vagas e flutuas
Alegria incorpórea a principiar corrida.

A tarde púrpura palente
Funde-se em torno de teu voo ardente;
Como estrela noturna
Na vasta luz diurna,
És invisível, mas eu te ouço a voz aguda.

Penetrante como é a muita seta
Da esfera de prata seleta
Cuja lâmpada forte se reduz
Na claridade da alvorada que reluz,
Até mal vermos – nós sentimo-la, está lá!

Sonoros ficam terra e ar
Com tua voz a soar,
Como, quando a noite está sozinha,
De uma solitária nuvenzinha
Chove a lua seus raios a se inunda o céu.

Quem és que não sabemos?
Mais igual a ti o que acharemos?
Das nuvens com arco-íris não podem chover
Gotas tão brilhantes para ver
Quanto de ti uma chuva cai de melodia.

Como um poeta se oculta e ganha alento
Na luz do pensamento,
E hinos espontâneos cantando
O mundo à simpatia vai levando
Com medo e esperanças de que não cuidava;

Como uma virgem muito bem nascida
Em torre de palácio protegida
Conforta a alma de amor repleta,
Numa hora secreta,
Com música tão doce como o amor, a qual se espraia;

Como um vaga-lume dourado
Num valezinho orvalhado
Despercebido espalha o ardor
De sua etérea cor
Entre as flores e a grama, que da vista o escondem;
(obs: o poema continua, aqui está sua parte inicial)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/30308/17/pb-shelley-e-seus-poemas-da-era-do-romantismo-ingles-parte-iii