PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

TV A CABO

Rogério assinava a TV a cabo Guide Combo, onde tinha TV, internet e linha de telefone, num dia qualquer seu serviço foi suspenso sem nenhuma explicação.
Rogério liga para o atendimento da Guide Combo:
(gravação)
__ Olá, seja bem-vindo assinante Guide Combo, vejo aqui seu nome e seu número de telefone, já podemos começar.
Para problemas com o sinal da televisão, digite 1.
Para problemas com o sinal da internet, digite 2.
Para problemas com a linha telefônica, digite 3.
Para sanar dúvidas quanto à sua fatura, digite 4.
Para adquirir algum serviço Guide Combo, digite 5.
Para mudança de endereço do seu Guide Combo, digite 6.
Para outras solicitações, digite 7.
Rogério digita 7, pois está com problemas de sinal no combo inteiro.
(gravação)
Entendi. Estamos enviando a sua solicitação para um de nossos atendentes, aguarde na linha para ser atendido.
(atendente)
__ Bom dia, eu falo com a Sra. Helena?
(Rogério)
__ Não, aqui quem fala é o Rogério, estou sem sinal aqui em casa.
(atendente)
__ Você poderia me informar o CPF da titular?
(Rogério)
__ 094354443-12
(atendente)
__ O Sr. é parente da titular da conta?
(Rogério)
__ Sou neto.
(atendente)
__ Só um minuto .... (passam 3 minutos)
__ Só mais um minuto, por favor. (mais 7 minutos)
__ Muito bem, verificamos que a assinatura do Sr. foi cancelada, o Sr. poderia anotar o n° de protocolo para futuras consultas?
(Rogério)
__ Mas ... ninguém cancelou a conta!
(atendente)
__ O n° de protocolo é 09932455729854557766123485947780043.
(Rogério anota o protocolo)
(atendente)
__ Como aqui consta que sua assinatura foi cancelada, o Sr. gostaria de reabilitá-la?
(Rogério)
__ Mas, moça, eu não cancelei a conta, paguei a última fatura há 5 dias, não sei o que houve.
(atendente)
__ Vamos estar verificando o que aconteceu, o Sr. por favor aguarde na linha por alguns minutos.
(passam 20 minutos)
__ É Sr., aqui consta que realmente a conta foi cancelada, estaremos enviando um técnico para ir aí na sua residência para reabilitar a conta do Sr., o Sr. gostaria? Podemos estar enviando um técnico aí em no máximo 3 dias.
(Rogério)
__ Eu gostaria de saber o porquê de minha conta ter sido cancelada sem a minha solicitação, a Sra. poderia me explicar?
(A ligação cai)
(Rogério)
__ Puta que pariu! Caiu a ligação, puta que pariu!
(Rogério disca de novo para o atendimento da Guide Combo)
(gravação)
__ Olá, seja bem-vindo assinante Guide Combo, vejo aqui seu nome e seu número de telefone, já podemos começar. Mas antes anote aí o seu n° de protocolo:
09932455729854557766123485947780157.
Para problemas com o sinal da televisão, digite 1.
Para problemas com o sinal da internet, digite 2.
Para problemas com a linha telefônica, digite 3.
Para sanar dúvidas quanto à sua fatura, digite 4.
Para adquirir algum serviço Guide Combo, digite 5.
Para mudança de endereço do seu Guide Combo, digite 6.
Para outras solicitações, digite 7.
Rogério digita 7, pois está com problemas de sinal no combo inteiro.
(E se pergunta para quê diabos n° de protocolo pois a cada ligação tem um número novo para anotar)
(atendente)
__ Eu falo com a Sra. Helena?
(Rogério)
__ Não, aqui é o Rogério, neto dela.
(atendente)
__ O Sr. poderia me informar o n° de CPF da titular?
(Rogério)
__ 094354443-12
(atendente)
__ Em que poderia ajudar Sr.?
(Rogério)
__ Eu tive a minha conta de combo cancelada sem aviso prévio e ninguém solicitou cancelamento da assinatura, eu já liguei agora há pouco para o serviço de vocês e a ligação caiu, eu quero a minha conta reabilitada imediatamente, quero um técnico aqui hoje para colocar o sinal ao qual tenho direito, acabei de pagar mais uma fatura do serviço de vocês e não posso ficar sem sinal, meu trabalho todo é feito em casa via internet, preciso de uma posição de vocês urgente, OK?
(atendente)
__ OK. Estaremos enviando uma visita técnica aí na sua residência em no máximo 3 dias ...
__ Mas, meu querido, eu quero o meu serviço combo funcionando e é hoje, eu paguei pra isso! Vocês não poderiam ...
(Cai a ligação novamente)
(Rogério)
__ Puta que pariu, puta que pariu, que merda, que inferno! Bando de incompetentes, que serviço de bosta!
(Rogério decide ligar novamente, será a sua última tentativa, senão mudará de serviço)
(gravação)
__ Olá, seja bem-vindo assinante Guide Combo, vejo aqui seu nome e seu número de telefone, já podemos começar. Mas antes anote aí o seu n° de protocolo:
09932455729854557766123485947780379.
Para problemas com o sinal da televisão, digite 1.
Para problemas com o sinal da internet, digite 2.
Para problemas com a linha telefônica, digite 3.
Para sanar dúvidas quanto à sua fatura, digite 4.
Para adquirir algum serviço Guide Combo, digite 5.
Para mudança de endereço do seu Guide Combo, digite 6.
Para outras solicitações, digite 7.
Rogério digita 7, pois está com problemas de sinal no combo inteiro.
(atendente)
__ Eu falo com a Sra. Helena?
(Rogério)
__ Não, aqui é o Rogério, neto dela.
(atendente)
__ O Sr. poderia me informar o n° de CPF da titular?
(Rogério)
__ 094354443-12
(atendente)
__ Em que poderia ajudar Sr.?
(Rogério)
__ Eu quero reabilitar a minha assinatura.
(atendente)
__ Para fazermos isso teria que falar com a titular da conta, ela se encontra?
(Rogério)
__ Não, ela mora em outro bairro, mas eu quero resolver isso, é a terceira vez que ligo e duas vezes caiu a ligação sem eu resolver o meu problema, já estou começando a ficar nervoso, acho que vou processar vocês ...
(Cai a ligação mais uma vez)
No mês seguinte chega uma nova fatura da Guide Combo, Rogério quebra o decodificador e o telefone, e quebra o roteador, tenta processar a Guide Combo mas é multado por atraso na fatura. Decide assinar outro serviço e manda o atendente à merda e cancela a assinatura depois de reclamar no PROCON.
(Esta é a lei do eterno retorno, meus caros, qualquer semelhança com fatos reais terá sido mera coincidência?)

18/02/2013 (Da peça de sketches Paranoide)
(Gustavo Bastos) 




domingo, 17 de fevereiro de 2013

AS FICÇÕES DE BORGES

"Os contos que compõem a obra Ficções vêm confirmar a criatividade de Borges de simular certos dados como se fossem legítimos"
  Jorge Luís Borges foi um dos maiores expoentes da literatura argentina e latino-americana, atuou como escritor, poeta e ensaísta, dentre outras coisas, e se destacou no que se chama de literatura fantástica. Sua obra literária foi mais reconhecida em duas áreas: contos e ensaios. Ele deixou duas obras principais de contos: Ficções e O Aleph.
   Na obra Ficções, seus contos seguem o filão da literatura fantástica, onde temos estórias fictícias que se revestem de um modo de escrita que nos faria crer que Borges fala de coisas reais, se não fossemos advertidos de que as informações ali contidas são todas do universo ficcional. Os contos que compõem a obra Ficções vêm confirmar a criatividade de Borges de simular certos dados como se fossem legítimos, o que dá um caráter único aos seus contos fantásticos.
   Da edição de Ficções que tenho em mãos, vários contos se destacam como fonte de reflexões e que têm uma composição complexa, formando um universo de conhecimento, embora se trate, como diz o título do livro, de ficções. Desses contos maravilhosos, destaco dois: Pierre Menard, autor do Quixote e A Biblioteca de Babel.
   No conto Pierre Menard, autor do Quixote, Borges começa o conto fazendo de seu personagem Menard um romancista, e feito isto, primeiro enumera a obra visível de Menard, uma enumeração que não chega e ser enfadonha, mas que prepara o terreno para o tema do conto: a reescritura do Quixote de Cervantes, o que se torna um empreendimento histórico e também um tanto difícil, mas Borges considera a tarefa possível nas mãos de seu fictício Menard. A parte de Quixote, em Menard, se torna a parte mais importante de sua obra, "a subterrânea, a interminavelmente heroica, a ímpar." (Borges, Ficções) E é nessa empreitada literária que Menard realiza um feito, ele se projeta do século XX ao XVII de Cervantes.
   Mas, para Borges, Menard supera Cervantes, o que foi escrito antes por Cervantes, se torna mais grandioso e complexo na versão de Menard, que afirma: "Meu propósito é simplesmente assombroso". E Borges, por fim, resume um dos sentidos deste conto: "... a verdade, cuja mãe é a história, êmulo do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro." Este trecho está igual em Cervantes e em Menard, mas o que Menard realiza é, segundo Borges, o impossível, Menard é Cervantes.
   Num dos contos mais famosos de Borges, A Biblioteca de Babel, temos uma estória que é, na verdade, sobre uma utopia, ou seja, a de uma biblioteca que abarcasse todos os livros do mundo, e não só, que tivesse nela toda a sabedoria humana, uma utopia que busca uma linguagem universal, mas que esbarra na desordem de Babel.
   No jogo de espelhos dos hexágonos desta biblioteca fictícia, Borges procura um alfabeto universal, busca a Ordem, mas o que é visível é a desordem, as combinações infinitas, e não uma noção universal de todos os saberes através de uma "obra completa do mundo". O paradoxo deste conto de Borges é este: podemos ter um instrumento universal de linguagem, as letras são finitas, mas a grande dificuldade de tal projeto (utopia) é realizar o intento de tudo reunir num lugar que, para Borges, se configura como infinito, o que é nada mais que a infinitude do universo. E, uma vez que para o entendimento da vida, julgo eu, não podemos resumi-la através dos livros, ficamos no mesmo círculo existencial de toda a vida humana, num linguajar vulgar: "a cobra morde o rabo."
   A estrutura caótica da Biblioteca de Babel, em que se busca uma chave universal de conhecimentos ou sabedoria em vão, é mais um labirinto de toda a experiência humana, a utopia só funciona como ideia, não como realidade, e esta ideia só pode mesmo se fundar em ficção, o que em Borges se torna um de seus contos mais famosos. Tudo se conclui, então, no último parágrafo do conto: "A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajor a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem)."
   O que fica deste livro de contos de Borges, Ficções, é que lendo seus contos temos um tanto de imaginação que, paradoxalmente, se disfarça de verdade, se conduz como um tipo de conhecimento, e talvez aí esteja a lição de sabedoria em Ficções: nem tudo que parece, é. Mas, como numa ficção tudo é o que se parece, temos uma verdade literária em Borges, ainda que, enquanto realidade, seus contos são fruto de uma imaginação engenhosa.

18/02/2013 Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

Link da Século Diário: http://www.seculodiario.com.br/exibir.php?id=4995&secao=14

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

TEMPLO DOS GURUS

   A carne medita no anzol de sua fogueira, há tempos um sofrido campo rememorava sua noite, carne funda do topázio, névoa sem destino no ar pestilento do sol, regimento da azul cintilante trevas nos sons de sombra malquista, horizonte tétrico da penumbra em dia de sevícias sob a alta altiplano rebordosa de heroína fumada. Vem o mar de Apollinaire turvar a visão mística de Ginsberg, eu bebo rimas mortas de um sândalo vertical de minha fome, nada era exato na alucinação do peiote de Tenochtitlán, mouros passeavam no sol com a flor de Granada em dó maior, Pharao is the time of your death, Amón vigiava o templo de Salomão, os alcaguetes mordiam as coronhas com a voz embargada de um terrorista de Deus.
   Lutei em vinte esferas de socorro, a galáxia de Órion mostrava sete flechas de veneno mortífero apontados para o peito da morte súbita, os lenhadores cantavam Dionisos em vinhas de sátiros num coro de Ésquilo, matraqueava a mulher insossa das cavalgaduras da vida dura, um mar se desenhou na íris do tempo, lancinou a dor com mortal ferro e aço, com o mal sobreposto no grito de um trompete, Jazzy era louco, ele lutou com um gigante cíclope na linha de ataque do exército vermelho, a KGB perseguiu o louco até as antenas de uma rádio em Los Angeles, Jazzy rateou o dinheiro de um banco e fugiu com outros para o Egito, lá encontrou uma mourisca e se casou com o nome de Ferdinand, o mesmo que provocou a guerra de um ator da Jovem Sérvia. Atrás de seus comparsas estavam os senhores da nau sincopada de um horse bem notívago, claustro em nome de Oxalá, Jazzy virou maçom e leu o Alcorão até ter a memória maometana em todos os seus gestos, o teatro era feito em Luxor com requinte e ele era o novo poeta de Omar Kayhan, incorporou Aleister Crowley e teve uma overdose de haxixe.
   Contando os dólares deste sonho eu rumei com meus pertences rumo a Luxor para encontrar o Livro das Esmeraldas, Paracelso, Agrippa, Papus, Flamel. Toda a horda mascarada era como na tragédia anterior de Ésquilo, só que agora viam etíopes com um velho karma de espíritos da floresta, numa nuvem de haxixe os poetas entravam em transe e ritmavam com tambores a prosa infinita, loucos de peiote desciam os astecas da visão de Jazzy como num luar azul da noite profunda das almas da terra, tudo era povoado por fantasmas, a noite parecia o ar misterioso da Alquimia, Crowley tinha ido embora depois do ritual, a flor mourisca fornicou com os galantes de Luxor e a flor de Lótus nasceu de sua boca como uma deusa de perfume de sândalo.
   Não havia mais teor alcoolico naquelas andanças, tudo cheirava a haxixe e os alquimistas sonhavam com a flor mais bela do canto alvissareiro de Gita e suas sinfonias. Apollinaire se manifesta no corpo de Ginsberg, Jazzy era o mentor de ambos os poetas, Lao-Tsé era o guia de Jazzy com o livro secreto da sociedade ametista, vários morreram de doenças misteriosas depois de lerem o dito livro, desta mitologia restaram fragmentos e ecos perdidos em Heráclito, o demiurgo platônico foi apenas um adendo da vinha de Atlântida na dor espantada da Maçonaria, o segredo de Blavatsky era apenas um remendo dos ritos hindus, os fantasmas do Bon foram disciplinados pelos budistas tibetanos, Jazzy depois fugiu de Luxor e foi meditar no Cantão com confucionistas moralistas, os mouros herdaram sete escritos seus: Vida Amón, Bruma do Poder, Sete Horizontes e quatro volumes sobre os mistérios de Elêusis em versos hexâmetros, o ditirambo foi a paixão dos argonautas e Dionísio sempre fez o rito de passagem para os homens vermelhos do deserto, um deserto de chumbo com aço fervendo.

14/02/2013 Libertação
(Gustavo Bastos)

SEMENTE DO CAMPO

Ventila a semente incógnita,
de seu suco a árvore medita,
do galho intercalado
ela é ametista.

A semente, com dor de gesta,
funde-se à carne-cor do solo,
marrom de chumbo morde o sol,
brinca com a terra a morte-vida.

Deixa-se, no recanto dela,
uma floresta.
O campo, dito poema,
traz à margem sua flor
de hipnose.

Doida e varrida,
da semente a planta
cai folhada,
da semente o espanto
da vida,
e do fruto
o sabor
merecido.

14/02/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

MONTE MERU

A sedução é sóbria,
marca a terra este enunciado,
fardo bruto de tez alva.

A fonte é breve e retira
do chão a água que corre,
desanda em ondas,
e chega ao mar.

As frases, como castelos,
denotam a erva do campo,
deleitam em suas sinuosidades
o sentido requerido.

O corpo, estranho em sua pausa,
retoma do lugar preciso
o semblante de uma paz quista,
e denodo ou fracasso
recaem de medos alheios.

Não há poder transfigurado
que mude o lugar do monte,
ele é sempre o mesmo
desde a fundação
dos mundos.

14/02/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

MITOLOGIA NUA

Nunca amei o profícuo
como dancei prolífico,
rearrumei Hefesto em festa,
destilei soberba com maestria.

Olor de lilás, corpo de cinzas,
eu lutei com o mel da boca em brasa.

A língua estupefaciente
virava fome de litros de sol,
e o sol revestia a possessão
dos anátemas em poção de mar.

Ferve a nobre estrela do caos,
veste preto em Hades,
funde-se à rocha de Prometeu,
traz fogo em seu nariz
de ser eterno
com a terra devastada
de um pária
e de um iconoclasta,
traz no bojo o ritmo de Vênus
com seu desejo
mortificado
de anjo.

14/02/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

VENTO DE GIRASSÓIS

Matéria densa do colar de ossos,
veste a nau funda furibunda.
Com meu silente horror
eu pus o homem nu.

Os corpos que se sobressaem
são os saltitantes,
num mesmo som de fúria
recorda o atonal da flor.

Vi em cada estranho olhar
o lótus perfeito
de uma noite verde,
vi o terremoto emoldurar
a espécie humana
em monturos de apocalipses.

A sombra maestra tilintava
com o coração supremo
de notas hendrixianas,
cada filete da pena
fervia em tom
de susto.

No lar do descanso do sol
ventava o cheiro da rosa
em disfarce de girassol,
e a flor retumbava
feito grito
de primavera.

Eu levantei no horóscopo
de uma praia cabalística,
saturno plêiade
rosnava em lua
de satélites e guitarras.

Vento de meu drama incorruto,
a sarça enfim delira
na carne das lágrimas,
e o totem sacrificado
ressuscita no fel
de bruma e amor.

14/02/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)