PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 15 de abril de 2024

O AMOR FELIZ DA POETA WISLAWA SZYMBORSKA

"a poeta deixa evidente a importância de dizer “não sei””


A partir da publicação do livro “Poemas”, pela Companhia das Letras, em 2011, no Brasil, a poeta Wislawa Szymborska deixou de ser uma desconhecida dos apreciadores de poesia no país. 

Esta poeta polonesa, que ganhou o Nobel de literatura em 1996, se tornou familiar ao leitor brasileiro de poesia e de literatura, pois este livro “Poemas”, repercutiu tanto entre estes leitores como na imprensa, e o resultado imediato foi aparecer mais uma tradução da poeta polonesa no Brasil, agora com o título de “Um Amor Feliz”, coletânea que reúne 85 poemas, a partir de uma seleção de livros publicados, originalmente, a partir de 1957 até o ano de morte de Szymborska, em 2012.

Este livro “Um Amor Feliz” tem a predominância de poemas da fase inicial da obra de Wislawa Szymborska, dos livros de 1957, Chamando Por Yeti, de 1962, Sal, e de 1967, Muito Divertido, além da fase final, abarcando os poemas publicados já no século XXI, incluindo a obra póstuma “Wystarczy” (Chega), lançado em 2012. 

A distribuição dos poemas é cronológica, dando uma ideia dos temas que a poeta abordou durante meio século de atividade literária. A lista de interesses da poeta podia ir, por sua vez, das ciências e da filosofia, passando por questões históricas da Antiguidade e do mundo contemporâneo, a vida cotidiana, donde se retirava sempre algo inaudito, e também se ligando a temas do micro e do macrocosmo. A linguagem de seus poemas também possuía um humor e uma leveza.

As tragédias do século XX, embora fossem temas sérios e tratados como tal, tinham também a fina ironia da poeta como fundo crítico. A vida em sua fragilidade e seu caráter efêmero também apareciam com riqueza em seus poemas, o silêncio indiferente do universo, ensimesmado em seu enigma, a incomunicabilidade entre as pessoas, dentre outros temas. 

Também se pode ver em sua poesia a condução de um olhar que não domina o saber em seu todo, mas que tem como valor a curiosidade de quem descobre a indagação fundamental, desestabilizando certezas arraigadas, pré-concepções de mundo, cosmovisões engessadas, e tudo o que impede o movimento do mundo, e isso através de perguntas fundantes e insólitas, o que também dá corpo a seus poemas filosóficos. É em seu discurso do Nobel que a poeta deixa evidente a importância de dizer “não sei” para fazer os seus poemas, pois isto abre novos modos de ser e de ver.

A poesia de Wislawa Szymborska, mesmo acessando profundidades através de questionamentos insólitos e inauditos, mantém a sua proximidade com o leitor, pois não vira um hieróglifo indecifrável ou algo de uma filosofia de fundamentação abstrusa. Ou seja, a poeta consegue salvaguardar a clareza de suas ideias, mesmo no enfrentamento contra certezas e aparências que tendem a simplificar o mundo de modo equívoco.

Os poemas de Szymborska começam de modo provocativo, partindo de perguntas aparentemente banais, ou observações e afirmações prosaicas, mas que logo avança para algo inaudito, imprevisível, mas que conclui tudo de modo claro e lógico. A proximidade destes poemas com o leitor comum, sem afetações enigmáticas ou abstrusas, caracterizam os poemas de Szymborska como distantes de qualquer lirismo elevado.

Em uma entrevista de 1975, a poeta conclui : “Parece-me que esses críticos que acham que eu às vezes escrevo como que novelinhas em miniatura, que são na verdade pequeninas histórias com alguma ação - talvez tenham razão”. 


Poemas : 

Livro : Chamando Por Yeti

Noite : O poema deste livro de 1957, início da atividade literária da poeta, já nasce com o tema bíblico extremo do sacrifício de Isaac para Jeová, mas que é suspenso em cima da hora como prova de fé, por parte de Abraão, no que temos : “Mas o que foi que o Isaac fez?/seu padre me diga.” (...) “Os adultos que durmam/um sono tolo assim,/esta noite/eu preciso vigiar até a aurora./A noite se cala,/mas se cala contra mim,/escura/como o fervor de Abraão”. A poeta encara a noite, tal como se esta se desse para ela com o mesmo fervor de Abraão, no que segue : “Onde vou me esconder,/quando em mim pousar/o olhar bíblico de Deus/como pousou em Isaac?/Antigos feitos se quiser/Deus pode ressuscitar./Por isso gelada de medo/cubro a cabeça com o cobertor.” (...) “Algo logo vai/embranquecer diante da janela,/encher o quarto com o zumbido/de um pássaro ou do vento.”. O temor mortal da poeta está presente no poema, como se fosse Isaac partindo ao sacrifício, no que segue : “Deus vai fingir/que voou para dentro por acaso,/que não era para estar realmente ali,/e depois vai levar meu pai/para a cozinha confabular sobre o caso/e com uma grande trombeta lhe soprar ao ouvido.” (...) “E quando amanhã bem cedo/meu pai pela estrada me levar,/vou, vou/enegrecida de ódio./Em nenhum amor, nenhuma bondade,/vou acreditar,/mais indefesa/do que as folhas de novembro.” (...) “Nem amar,/carregar um coração vivo no peito./Quando acontecer o que tem que acontecer,/quando acontecer,/vai me bater um fungo seco/em vez do coração.”. Parece que existe um destino inevitável, tal como o de Isaac, mesmo com este suposto Deus tendo entrado como um vento do acaso por ali, na presença da poeta e de seu pai, a grande trombeta parece soar ao ouvido da poeta, e isto a congela de medo da morte, no que segue : “Deus espera/e da sacada das nuvens espia/para ver se alta e bela/queima a fogueira/e verá como/se morre de teimosia,/porque vou morrer,/não vou deixar que me salve!” (...) “Desde aquela noite/além dos limites de um sono malsão,/desde aquela noite/além dos limites da solidão,/Deus começou/pouco a pouco/devagarinho/a mudança/do literal/para o metafórico.” Foi assim, que da noite e de seu temor, a metáfora nasceu da poeta, a indagação que vem do espanto, com a sua poesia que não se sabe se é destino ou tampouco acaso, apenas existe.

Ainda : A poeta fala aqui do holocausto, e retrata o transporte dos judeus nos trens para os campos de concentração e de extermínio do nazismo, no que temos : “Vão pelo país em vagões selados/os nomes transportados,/mas para onde vão assim,/será que a viagem terá fim,/não sei, não direi,/não perguntem.” As pessoas que são transportadas, todas, sem exceção, estão com medo de morrer, incertas quanto ao futuro, e Szymborska cita alguns de seus nomes, no que vem : “O nome Natan esmurra a parede,/o nome Isaac canta louco de fome,/o nome Sara pede água para o nome/Aarão, que morre de sede.” A poeta prevê que alguns destes condenados pelo regime nazista sobreviverão, e pede que tenham resiliência, que não desistam de viver, pois Davi, por exemplo, que pensa em se jogar do trem, ainda terá um filho no futuro, no que temos : “Não pule do trem, nome Davi./Você é um nome que ao fracasso condena,” (...) “Que teu filho tenha um nome eslavo,/porque aqui cada fio de cabelo é contado,/porque aqui o bom do mau/pelo nome e feição é separado.” Este lugar do extermínio, em que cada gesto é vigiado, toda gente registrada, em que características físicas e pretensamente raciais separam o bom do mau, em que o próprio maligno julga como maligna e amaldiçoada toda raça que não lhe seja espelho, num plano de solução final, não sabe que de sua tragédia ainda resta a esperança de um outro dia, quando isso tudo passar, no que temos : “Não pule do trem. Ainda não é hora./Não pule do trem. Será Lech o teu filho./Não pule. A noite como uma risada sonora/arremeda o rolar das rodas no trilho.” (...) “Uma nuvem de gente sobre o país seguiu,/ nuvem grande,/chuva pouca,/uma lágrima caiu,/chuva pouca,/uma lágrima/secura./Os trilhos dão em uma floresta escura.” (...) “Sim, é assim, segue pelos trilhos o trem./Sim, é assim. O transporte dos gritos de ninguém./Sim, é assim./Desperta na noite escuto/sim, é assim, o surdo martelar do silêncio.” O poema se conclui na obscuridade destes trens, com seu trajeto, seus trilhos e a floresta escura, os gritos de ninguém, em meio aos nomes que a poeta citou no mesmo poema.

De uma expedição não realizada ao Himalaia : A poeta aqui narra o trajeto feito por montanhistas no Himalaia, num poema que descreve imagens e sensações, no que temos : “Ah, então este é o Himalaia./Montanhas correndo para a lua./O instante da largada fixado/no rasgar súbito do céu./Deserto de nuvens perfurado./Um golpe no nada./Eco - mudo branco./Silêncio.” A poeta também traça o contraste entre a paisagem insólita do alto da montanha com o cotidiano que acontece no Yeti, ao pé do Himalaia, no que vem :  “Yeti, lá embaixo é quarta-feira,/tem abecedário, pão/e dois e dois são quatro/e a neve derrete./Tem rosa amarela,/tão formosa, tão bela.” Cabem aqui palavras de esperança da poeta, diante da contemplação da natureza, no que vem : “Yeti, não só crimes/acontecem entre nós./Yeti, nem todas as palavras/condenam à morte.” O mundo não herdará a morte, ainda temos esperança, no que segue :  “Herdamos a esperança -/o dom de esquecer./Você vai ver como damos/à luz em meio a ruínas.” (...) “Yeti, temos Shakespeare lá./Yeti, e violinos para tocar.” (...) “Aqui - nem lua nem terra/e a lágrima congela./Ó Yeti meio lunar,/pense, volte!” (...) “Entre as quatro paredes da avalanche/assim eu chamava pelo Yeti/batendo os pés para me aquecer/na neve”. Diante da avalanche, na iminência da tragédia, a poeta assim chamava pelo Yeti, cantando a esperança, dando à luz em meio às ruínas, em que a cultura shakespeariana se misturava à neve indiferente na qual a lágrima congela.

Sonho de uma noite de verão : Como numa peça shakespeariana, a das poções de amores ilusórios e efêmeros, como uma Titania, aqui se insinua a poeta Szymborska, no que temos : “Já se acende o bosque de Ardenas./Não se aproxime de mim./Tola, tola,/me meti com o mundo.” Ela alerta sobre o que pode representar um perigo, mas nada mais que o perigo natural do amor, que se enfrenta e do qual se usufrui, mesmo assim, no que vem : “Por isso cuidado comigo. Vá-se embora.” (...) “Vá-se embora, vá-se embora, mas não por terra./Navegue, navegue, mas não por mar./Voe, voe, meu caro, mas não toque o ar.” (...) “Fitemo-nos de olhos fechados./Falemo-nos com os lábios cerrados./Abracemo-nos através de um largo muro.” (...) “Dupla pouco divertida esta :/em vez da lua, brilha a floresta/e um forte vento, ó Píramo, inflama/o manto radiativo de tua dama.” A interação da natureza e do amor aqui revela dons de poesia e do teatro, o que pode se traduzir como fantasia. A poeta descreve o flerte em meio à radiação que isto envolve. 

Livro : Sal

Um instante em Troia : A poeta agora se volta à mitologia grega, mais especificamente na Ilíada, e descreve as suas chamadas Helenas, no que temos : “Menininhas,/magras e descrentes,” (...) “parecidas com o papai ou a mamãe,/e sinceramente assustadas com isso,” (...) “diante do prato, diante do livro, da frente do espelho/sucede serem raptadas para Troia.” (...) “Nos grandes vestiários de um pestanejar/se transformam em formosas Helenas.” O poema segue descrevendo a beleza, e o que esta provoca, entre os que tombam por estas Helenas, no que segue : “Ascendem as escadas reais/num sussurro de assombro e de sedas.” (...) “Sentem-se leves. Sabem que/a beleza é um descanso,/que a fala assume o sentido dos lábios” (...) “Seus rostinhos/que valem a demissão dos emissários/se projetam com orgulho de colos/dignos de um cerco.” (...) “Os morenos dos filmes,/os irmãos das colegas,/o professor de desenho,/ah, todos tombarão por elas.” E estas belezas inebriantes se fiam num cenário de hipocrisia, no que segue :  “As menininhas/torcem as mãos/num rito inebriante de hipocrisia.” Em meio a uma Troia em chamas, a tragédia se abre em seu lamento universal, no que segue : “As menininhas/contra o fundo da devastação/no diadema da cidade em chamas/e os brincos do lamento universal nas orelhas.” (...) “Pálidas e sem uma lágrima./Saciadas da visão. Triunfais./Tristes somente/de ter que voltar.” (...) “As menininhas/voltando.” O triunfo dos helenos e de suas helenas vence com frieza, e então só resta a tristeza do retorno da viagem.

O resto : No teatro shakespeariano, aqui diante do clássico Hamlet, temos a personagem Ofélia, a irmã do príncipe que acaba se suicidando, numa peça em que a filosofia do suicídio tem seu primeiro esboço, bem antes de Camus ou Cioran, no que temos : “Ofélia acabou de cantar cantigas loucas/e saiu de cena preocupada :/será que o vestido não amarrotou, o cabelo/caiu nos seus ombros do jeito que devia?” (...) “Para cúmulo da verdade, lava o cenho do negro/desespero e - como filha de Polônio que é -/para ter certeza conta as folhas tiradas do cabelo./Ofélia, que a Dinamarca perdoe a mim e a ti :/morrerei com asas; sobreviverei com garras práticas./Non omnis moriar de amor.” A poeta, contudo, contraria o cenário niilista e sobrevive, sem morrer de amor.

Bodas de ouro : A poeta descreve como o amor conjugal pode surgir e se desenvolver, mas, claro, envolvido na metáfora poética e um olhar sui generis de descrição e compreensão, no que temos : “Devem ter sido diferentes um dia,/fogo e água, diferindo com veemência,/sequestrando e se doando/no desejo, no assalto à dessemelhança.” (...) “Um dia a resposta antecipou a pergunta./Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro/pelo tipo de silêncio, no escuro.” Na dessemelhança, depois do nadir da sexualidade, semelhanças aparecem mais, e a confluência se dá de um modo mais elevado, no que vem : “O sexo fenece, os segredos se consomem,/na semelhança as diferenças se encontram/como todas as cores do branco.” E a questão está em quem se conserva como é, ou quem foi engolido, como num jogo de duplos, em que se multiplica a pergunta por quem é quem e como se gêmeos surgissem da interação mais aprofundada pelo tempo, em que já não se faz distinção nenhuma, nem entre os filhos, e a pomba pousa, então, nas bodas de ouro, tudo idêntico, em que se juntaram as formas e temperamentos, por fim : “Qual deles está duplicado e qual aqui está faltando?/Qual sorri com um duplo sorriso?/A voz de quem ressoa nas duas vozes?” (...) “Quem arrancou a pele de quem?/Quem vive e quem morreu/enredado na linha - de qual mão?” (...) “Devagarinho, de tanto olhar, nascem gêmeos./A familiaridade é a mais perfeita das mães -/não faz distinção entre os seus dois filhos,/mal recorda qual é qual.” (...) “No dia das bodas de ouro, dia festivo/uma pomba vista de forma idêntica pousou na janela.”

As mulheres de Rubens : A poeta agora descreve as mulheres pintadas por Rubens, o pintor brabantino de estilo barroco, no que temos : “Herculinas, fauna feminina,/nuas como um ribombo de barris./Aninham-se em leitos pisados/dormem de boca aberta para cocoricar./Suas pupilas fugiram para o fundo/e penetram no interior das glândulas,/donde os fermentos se infiltram no sangue.” (...) “Filhas do barroco. Incha a massa na gamela,/banhos soltam vapor, vinhos enrubescem,/galopam pelo céu leitões de nuvens,/trombetas estrondeiam o alarme físico.” A pompa e o detalhe rebuscado da pintura barroca se reflete neste poema, em que a poeta faz uma imitação de tons e variações da pintura de Rubens, no que segue : “Ó aboboradas, ó desmesuradas/e duplicadas pela renúncia das vestes/e triplicadas pela violência da pose,/pratos gordurosos de amor!” (...) “Suas irmãs magras levantaram mais cedo,/antes que clareasse no quadro./E ninguém viu quando seguiram em fila/do lado não pintado da tela.” (...) “Banidas do estilo. Costelas à mostra,/pés e mãos de pássaros./Tentam voar nas espáduas salientes.” (...) “O século treze lhes daria um fundo dourado./O vinte - uma tela prateada./O dezesseis não tem nada para as retilíneas.” As mulheres magras ficam ao lado, o gosto estético da época de Rubens privilegia as formas bojudas, e a poeta descreve esta distinção de gosto que evolui e muda com a História, no que temos : “Porque até mesmo o céu é bojudo/bojudos os anjos e bojudo o deus -/um Febo bigodudo que num corcel suado/cavalga para a alcova fervente.”

Água : A poeta descreve neste poema, de forma rica e bonita, a água, e tudo o que poeticamente pode ser pensável e metaforizado em poesia, e a maleabilidade própria da água se revela aqui na forma literária, mais especificamente, poética, no que temos : “Uma gota de chuva me caiu na mão/extraída do Ganges e do Nilo,” (...) “da geada ascendida ao céu no bigodinho de uma foca,/da água dos potes quebrados nas cidades de Ys e de Tiro.” (...) “No meu dedo indicador/o mar Cáspio é um mar aberto,” (...) “e o Pacífico flui dócil para o Rudawa/o mesmo que flutuava como nuvenzinha sobre Paris” (...) “no ano setecentos e sessenta e quatro/em sete de maio às três da manhã.” (...) “Não há bocas suficientes para proferir/teus nomes fugazes, ó água.” A descrição de lugares e os nomes que a água recebe, regiões, etc, é tão rico, que o poema enfim sucumbe como num afogamento, no que segue : “Alguém se afogou, alguém que morria te chamou./Foi há muito tempo e foi ontem.” (...) “Extinguias o fogo de casas, arrastava casas/como árvores, florestas como cidades.” (...) “Estavas nas pias batismais e nas banheiras das cortesãs./Nos beijos, nas mortalhas.” (...) “Roendo pedras, alimentando arco-íris./No suor e no orvalho das pirâmides, dos lilases.” (...) “Como tudo é leve numa gota de chuva./Com que delicadeza o mundo me toca.” (...) “O que quer que, quando quer que, onde quer que/se passou, está escrito na água de babel.” Aqui temos a chuva, a água, e sua imensidade, por fim, como uma babel.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/cultura/o-amor-feliz-de-szymborska

quarta-feira, 10 de abril de 2024

A PRAIA DO SONHO

Vigia ao fim da estrada, 

onde o deserto seca a pele,

e a sede quer o mundo da água, 

a mais líquida de rio,

de lagoa, de um mundo terrível 

de chuva, de tempestade.


Sim, bateu o casco no fundo, 

na ponta da pedra,

na hora do musgo, 

na ilha dos peixes,

na ira do murro, 

em que o capitão deu

um tiro na cabeça.


O marujo bebeu rum

e caiu de cima do convés, 

o todo deste mundo de

vinho e viração, no estalido,

virou um tombo barulhento, 

em que a caravana morria, 

quando foram retiradas

as carrancas das proas,

neste cenário do mar.


Em canto radical,

agitado, intempestivo,

violento neste painel

da morte e da vida,

veloz como o sonho,

terrível neste marulho

que atordoa, se joga

o último idiota.


Na plenitude de sol

que seca e queima

a pele, morre de 

insolação o viajante,

já na areia.


Este homem doente caiu,

com os ossos ressequidos,

as vértebras estouradas,

o coração rijo, os membros

espatifados, e um poema

louco nasceu de sua espada,

e outro poema de seu escudo.


De sua carcaça, ao fim,

já no crepúsculo da praia,

surgiu este livro de sol e mar,

testemunha ocular

destas histórias.


10/04/2024 Gustavo Bastos 

DESBUNDE

A serventia dos sabujos, 

na lida imunda,

como se a lógica 

da riqueza corroesse

a honra.


Demite e vem de viés,

enquanto o esquadro 

amplia o facão.



E tome passaralho, 

um chocalho.


E tome demissões 

sumárias,

neste mar 

de lacaios,

ao som 

da chibata 

e do grito.



A aventura é pobre, anarquista,

não se sabe mais onde irá parar,

a bem da verdade 

é viajante.


Eis o mundo da vida 

como um atlas lisérgico, 

um sonho psicodélico,

que mandou um foda-se 

e não volta mais.


10/04/2024 Gustavo Bastos 

A TRANSIÇÃO DO SNI PARA A ABIN

“ o desmonte do SNI pelo novo regime democrático não seria trivial”


O SNI (Serviço Nacional de Informações), desde o início do processo de redemocratização no Brasil, depois do período da ditadura militar, que tinha durado 21 anos, e durante os dias em que ocorreu a posse do presidente civil José Sarney, produziu relatórios sigilosos que buscavam informações sobre a atuação de agências de inteligência em democracias e também nos regimes totalitários, diferenciando o que numa democracia poderia envolver ações proibitivas, tais como métodos que levassem a violações do direito individual e práticas de atos abusivos.

Em regimes totalitários, por sua vez, tais agências podem atuar com desembaraço e sem impedimentos legais, pois a opinião pública está subjugada e os partidos políticos de oposição proibidos ou extintos. Tais constatações, por sua vez, envolvem documentos inéditos que foram encontrados no acervo do SNI pela Agência Pública, que tem atualmente a custódia no Arquivo Nacional. 

Tais relatórios revelam como o SNI tentava manter intactos seus mecanismos de arapongagem, mesmo após a saída do último presidente militar, general-ditador, da Presidência da República. O SNI, que foi criado imediatamente após o golpe de Estado de 1964, atuou como o centro do complexo sistema de repressão que se estruturou com os militares no poder. 

Instituído pela Lei n°4.341, de 13 de junho de 1964, tinha como objetivo oficial atuar como uma assessoria da presidência da República, atuando nos movimentos de informação e contra-informação, o que significou que o SNI se vinculou à repressão política do regime ditatorial, isto é, participou de  operações nas ruas e sessões de tortura.

O SNI foi idealizado pelo general Golbery do Couto e Silva, que foi um dos principais articuladores do golpe de 1964, e que foi chefe do órgão desde o início do regime e que depois foi sucedido por militares que chegariam à presidência da República, tais como Emílio Garrastazu Médici e João Baptista de Oliveira Figueiredo. 

Durante o regime, por sua vez, foi conferido grande poder ao SNI, o que favoreceu a sua grande expansão, criando tentáculos pelo Estado, incluindo ministérios civis, empresas públicas, universidades, além de sua articulação com outros serviços de informações, como do Conselho de Segurança Nacional, as secretarias de segurança estaduais, além dos órgãos das três Forças Armadas.

A capilaridade e a autonomia da arapongagem do SNI resultaram deste poder instituído pelo regime militar para o desembaraço de suas ações, e o monitoramento de ameaças à segurança nacional se tornou uma das prioridades do regime militar, incluindo a chamada Doutrina de Segurança Nacional.

Esta doutrina refletia o padrão paranoide e autoritário de manutenção da ditadura militar, com esta doutrina representando o substrato ideológico deste estado de espírito perturbador do regime e que favoreceu a espionagem em todos os setores da sociedade civil.

Com o fim do regime, ficou a questão do que fazer com o SNI, em que Golbery soltou uma afirmação que ficou registrada na História do Brasil : “Criei um monstro”. Tal afirmação de Golbery refletia que o desmonte do SNI pelo novo regime democrático não seria trivial. 

Nos relatórios agora revelados do SNI, a preocupação principal do órgão passou a ser com a própria imagem, isto incluindo as críticas feitas na imprensa nacional em que muitos se perguntavam pelo destino deste órgão criado pela repressão política do então acabado regime militar, uma vez que sua criação se deu sob este regime em que a censura perdurou até 1977, período em que o SNI ficou imune às críticas da opinião pública.

As iniciativas para a extinção do SNI, através de projetos de lei, por exemplo, ações de reconhecimento da violência praticada na ditadura e reformas institucionais, por sua vez, preocupavam também o órgão, sendo monitoradas, ficando evidente que o SNI deveria passar por adequações para atuar no regime democrático, o que contrariava seus agentes, levantando mais uma vez que tais iniciativas eram feitas por “subversivos”. 

Reportagens da Veja e do Estadão foram listadas em dezembro de 1987, por exemplo, pelo SNI, e viraram mais uma fonte de preocupação do órgão com a própria imagem, uma vez que foram a público a atuação do SNI durante a década de 1970, como um aparelho de repressão política da ditadura. Portanto, ao invés de se adequar ao novo regime democrático, as ações do SNI buscavam salvaguardar a própria imagem do órgão. 

Durante a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), por sua vez, o SNI procurou parlamentares que integravam a ANC para apresentar propostas legislativas para serem incluídas na nova Constituição, sendo que muitos destes parlamentares constituintes foram espionados pelo SNI durante a Assembleia Nacional Constituinte. 

Por sua vez, Ricardo Fiúza, parlamentar próximo dos militares, ficou responsável pelo colegiado que discutiria os temas de inteligência e de defesa, já na fase das comissões temáticas da ANC. Portanto, nada que contrariasse o SNI foi aprovado por tal comissão.

No colegiado em que seriam discutidos os direitos fundamentais, tais como a Comissão da Soberania e dos Direitos do Homem e da Mulher, em debates que envolveriam artigos para garantir os direitos à privacidade, ao sigilo de correspondência e ao habeas data (instituto que prevê que todo cidadão pode requisitar informações sobre si aos entes públicos do Estado), temos tentativas de interferência do SNI. 

O SNI atuou, por exemplo, para retirar a salvaguarda de autorização judicial sobre o sigilo de correspondência e das comunicações em geral, isto para que o SNI continuasse interceptando comunicações privadas. Depois de sugerir a exclusão do artigo que previa o habeas data, o SNI passou a atuar para a implementação de uma estratégia de lobby para a defesa de seus interesses.

Já nos trabalhos da Comissão de Sistematização do ANC, que visava apresentar o primeiro anteprojeto de texto para a nova Carta Magna, temos o SNI detalhando o lobby organizado pelo órgão em novo relatório, promovendo articulações com diversos Senadores e Deputados Federais, na defesa de seus interesses. 

E seguiu o trabalho do SNI de tentar alterar artigos da nova Carta Magna, se aliando ao Centrão e às Forças Armadas, com a esquerda como principal adversário de seus interesses. E o SNI também seguiu atuando na etapa derradeira da Constituinte, que era a fase de Plenário, quando o SNI buscou, até os últimos instantes, eliminar do texto constitucional salvaguardas para a instituição de um novo Estado de Direito, agora sob regime democrático.

O SNI sobreviveu, contudo, à mudança de regime, apesar da Carta Magna ter trazido garantias que o órgão tentou eliminar. Portanto, a transição política para um regime de poder civil e democrático foi insuficiente para promover a extinção do SNI, o que só veio a ocorrer em 1990, nos primeiros dias do governo Collor.

A criação da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), por sua vez, não foi marcada por um debate profundo do tema, pois, até a sua criação em 1999, consistiu numa sequência em que o governo Fernando Henrique Cardoso tentou estabelecer a nova agência por Medida Provisória em 1995, e diante de críticas do Congresso, apresentou um Projeto de Lei em 1997, com poucos debates realizados até a sua redação final.

A falta de um aprofundamento do debate teve como resultado algo mal definido, de escopo amplo sobre do que se trata a atividade de inteligência, dando azo para distorções de interpretação, seguindo a Abin ainda sob certa influência dos termos definidos na Doutrina de Segurança Nacional da ditadura, em que ainda temos, por exemplo, uma percepção do indivíduo, do cidadão, como inimigo, e que é passível de ter seus direitos violados.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/transicao-do-sni-para-abin


segunda-feira, 8 de abril de 2024

AS PEÇAS DE DIONÍSIO

O poema do pântano 

traz a remela 

e os mosquitos,

um canto coaxante 

de batráquio, com estes

versos alambicados 

de um proboscídeo,

de estro gorduroso, 

opíparo.


Vestais dançam 

com o frenesi

em transe, São Vito 

desce e se manifesta 

nos corpos, Dionísio 

e os pícaros sonham 

nus um sonho

numa noite 

de verão,


bem astuto, o poeta

ensaia o grand guignol,

os teatros burlescos,

os fantoches e a farsa,

além da balalaica, e dos 

encômios e panegíricos 

dos senhores que 

bebem vinho.


E na galeria, 

lá estava Munch, 

liquidado, e Van Gogh,

sem eira e nem beira, 

como se leu no hieróglifo 

físico e mecânico 

de Artaud.


08/04/2024 Gustavo Bastos 

CADÊNCIA DA IMAGEM

E o espelho d`água, que não se estilhaça

com o agito e o movimento, apenas

distorce, na imagem refletida,

a refração em sismos, é a claridade

d´água que toda leveza se permite,

pois no ventar dos poemas,

o livro não cabe em si,

o peito o mesmo,

e se avança rumo

ao alegre campo

da visão.


Pois o rumo dos versos,

em pontos cantados,

registros festivos,

e o grande sol

que nos frita

a carne e a pele,

revela no verão

os istmos, um atol,

um arquipélago,

e a lógica evolutiva

das nuvens.


Gustavo Bastos - 08/04/2024 

BOA VIDA

Eu vejo no vento as estações, e no salto

da vida, a cada mudança, o vívido campo

floresce, pois o dia, na estrela nascida,

quer estar ao sol, deitado no fogo e no céu,

nadando no mar, ao som do marulho

e das gaivotas, vendo o mergulho

do albatroz.


Gustavo Bastos - 08/04/2024