PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 21 de março de 2024

O ANARCO-CAPITALISMO DE MILEI

Milei se projetou como um personagem histriônico e excêntrico”

Javier Milei foi eleito presidente da Argentina num movimento eleitoral que rompeu com a política recente e tradicional do país, o que inclui o peronismo, sua versão kirchnerista e a última versão liberal de governo realizada no governo Macri. 

Milei apareceu no cenário político argentino eleito deputado, como um outsider, mais exatamente como um anarco-capitalista, o que pode ser entendido como mais uma liderança populista de extrema direita latino-americana, em versão ultraliberal. Foi eleito, por fim, como presidente, pelo partido A Liberdade Avança, vencendo o peronista Sergio Massa, ministro da Economia do governo anterior de Alberto Fernández.

O peronismo, que representa um amplo espectro da política argentina, vem dos anos 1940, e defende o estado de bem-estar social, incluindo bandeiras de justiça social e do trabalhismo. No século XXI tivemos a versão kirchnerista do peronismo nas figuras de Néstor e Cristina Kirchner, produzindo subgrupos como o La Cámpora, organização política juvenil de apoio ao kirchnerismo, e depois a Alberto Fernández, que governaram a Argentina de 2003 até 2015, numa reação à crise liberal do “corralito”. 

Em 1989, embora seja de cepa peronista, o Partido Justicialista elegeu Carlos Menem, que acabou sendo um presidente liberal, vendendo as maiores estatais argentinas. Conseguiu reerguer a economia e se reelegeu em 1995. Problemas sociais, no entanto, foram a derrocada de Menem. Javier Milei, desta vez, encarna o ultraliberalismo, no que se chama de anarco-capitalismo, que tem origem em seu fundador teórico Murray Rothbard, um seguidor de Von Mises, que nos anos 1970 escreveu o livro “A ética da liberdade”, dando origem a este movimento que prega a liberdade do capital sem a intervenção do Estado, com a sua consequente extinção.

Javier Milei, ao se colocar como um anarco-capitalista, também se posiciona como antiperonista e anti kirchnerista, que propôs em sua campanha eleitoral a extinção do peso e a dolarização da economia argentina, mesmo com o país tendo parcas reservas da moeda norte-americana. Milei também se declara admirador de Domingo Cavallo, que guiou a economia no governo Menem e foi o idealizador do corralito sob o governo Fernando De la Rúa, numa tentativa de salvar os bancos argentinos através da intervenção do Estado. 

A medida drástica do corralito adveio de uma queda contínua da economia argentina, chegando em 2001 com uma dívida externa de 144 bilhões de dólares, sofrendo sanções do FMI (Fundo Monetário Internacional), sob medo de calote argentino. O corralito foi o estabelecimento de um limite semanal de saques nos bancos argentinos, com aposentadorias sendo parceladas em até 12 vezes, gerando uma onda de saques comércios locais. 

O resultado desta corrida de saques foi a convulsão social nas ruas, o chamado estallido social, num união da classe média agora falida, com os salários derretendo, e os piqueteiros, que fazem barricadas nas ruas. Em consequência da crise, Domingo Cavallo renuncia ao ministério da Economia em dezembro de 2001 e De la Rúa renuncia e foge de helicóptero da Casa Rosada, dias depois, dando lugar a 12 dias em que a Argentina teve cinco presidentes diferentes, até que Néstor Kirchner foi eleito presidente da Argentina nas eleições de 2002.

Com a crise argentina se alternando entre governos liberais e peronistas, a última versão foi o do neoliberal Mauricio Macri (em 2018, estive em Salta, e num muro estava pichado “Macri Basura”, cheguei a fotografar a pichação), que deu lugar a Alberto Fernández, peronista. Nenhum deles deu solução ao problema argentino, e a população elegeu Milei, num voto antissistema, disruptivo.

Depois de propor a chamada “Lei Ônibus”, texto-base de um superpacote de 664 artigos, Javier Milei se deparou com derrotas em questões como as envolvendo as privatizações das empresas estatais. Depois dessas derrotas, a “Lei de Bases e Pontos de Partida para a Liberdade dos Argentinos”, apelidada de “Lei Ônibus”, foi reduzida a um conjunto de 382 artigos. A chamada “Lei Ônibus” também sofreu protestos nas ruas, com uma grande greve geral que afetou toda a Argentina, com manifestantes que tomaram a Praça do Congresso argentino. As manifestações reuniram ativistas culturais, sindicatos e trabalhadores. 

Por sua vez, o fim do imposto sindical, um dos pontos polêmicos do superpacote, que tinha sido suspenso pela Justiça Trabalhista da Argentina em 3 de janeiro, teve decisão confirmada pela Câmara Nacional de Apelações do Trabalho da Argentina em 30 de janeiro. 

Quanto a DNU (Decreto de Necessidade e Urgência), este abarca medidas de reforma da organização do Estado argentino, sobretudo na economia, mas foi fortemente criticado pela oposição, levando à judicialização de alguns temas. Para tentar acabar com as disputas jurídicas, Milei propôs a tramitação do DNU no Congresso. 

O DNU é diferente da Lei Ônibus, pois se trata de um decreto, ou seja, vale automaticamente depois de anunciado. Contudo, tópicos relacionados à justiça do trabalho, com propostas de desregularização, acabou sendo questionado judicialmente pela CGT (Confederação Geral do Trabalho), a principal central sindical da Argentina, que derrubou seis artigos do DNU.

Milei se projetou como um personagem histriônico e excêntrico, que recebe mensagens de seu falecido cachorro Conan, e que tem clones vivos. Um louco que parecia ouvir vozes durante a campanha, usando o símbolo de um Leão, agitadíssimo, fanfarrão, mais uma figura populista, destas que ganham eleições no grito, prometendo rupturas épicas e milagres titânicos. Parece que sua Lei Ônibus, contudo, de tão exagerada, poderia não curar o doente, mas envenená-lo de vez e matá-lo, o que foi limitado pelo Congresso, que se mostrou mais realista, e deteve a sanha reformista de Milei.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : O anarco-capitalismo de Milei - Século Diário (seculodiario.com.br) 





segunda-feira, 18 de março de 2024

A VIDA DOS LOUCOS

Eu escrevi este poema bobo,

tonto de bebedice,

pois gosto de besteirol.


Faz poema desta piada,

longe da secura, da sisudez

dos acadêmicos, faz este 

poema feliz, como a ode

de um louco, de um 

mártir.


Faz este poema bem doido,

com a loucura e a febre

dos visionários.


18/03/2024 Gustavo Bastos  

O JARDIM ESTRUTURADO

 Existe esta possível solidez dos planos,

que um dia em rarefeitos sonhos

foram se condensando em ações.


Este grande futuro de anelo,

tanto mais a vontade se firma,

seu ás e seu ápice realiza.


Este poeta estava na fuligem das fábricas,

cortando com martelos, arames e esquadros

um suor de ferro soldado em fogo de fel.

Mais ainda, um pretenso canalha,

na sombra da moita, caiu qual

ferrabrás em seu tombo sem base.


Da vida magmática daquele ferro gusa,

mais para frente, pude imaginar,

já livre daquela foice em brasa,

o campo e seu éden, a contemplação

beatífica do que sonhei

como este jardim, esta flor

e o mar logo ali.


18/03/2024 Gustavo Bastos 



quinta-feira, 14 de março de 2024

O BARDO DO SOL

O bardo cantou na febre seus lagares.

Dos notáveis herdou a espada e a flor,

e seu combate se batia com guerra e amor.


O bardo, desta história vulcânica,

em que os corpos se golpeiam

em desejos e anelos, e a alma

sonha vária um cume solar,

tem na hora determinada

seu fastígio, seu hino glorioso.


O bardo canta tonto e bebum

os vinhos de um canto báquico,

pronto ao bosque e às fortunas

sátiras dos panegíricos

sobre os reis da vida.


14/03/2024 Gustavo Bastos  

CANTO DO DESTERRO

 Eis o canto do desterro, 

a palavra que sucumbiu à fera

dos mares, nas vidas 

navegadas dos abismos.


Eu escrevia o baile, 

e o vigor de uma turgidez explosiva,

os potes de ervas, de caldos, 

os unguentos, e a sorte sem viés 

dos que sabem acertar o alvo.


O canto do desterro, do poeta suicidado,

desconhece este signo de fortuna,

dos símbolos ocultos da riqueza,

dos ídolos que ascenderam ao topo.


Os versos do desterro

são uma melodia que

cai do peito dos

degredados, e a vinha

que vai ao rés-do-chão

está à flor da pele,

esperando a chuva.


O poeta do degredo

canta este desterro.

Ele se perdeu no mar

de seus delírios,

com o girassol

de seu estro

alucinado.


14/03/2024 Gustavo Bastos 

quarta-feira, 13 de março de 2024

FALANDO COM VAN GOGH

“O evento do Museu D`Orsay se chama Bonjour Vincent”


Fiz uma viagem incrível, recentemente, para o Museu D`Orsay, para ir atrás do burburinho em torno da versão de inteligência artificial que fizeram de Vincent van Gogh, um dos meus pintores preferidos, e que foi o responsável por apontar o caminho do futuro da pintura mundial, sobretudo para o movimento expressionista, que tiveram vultos como Kandinsky e Edvard Munch.

O evento do Museu D`Orsay se chama “Bonjour Vincent”, uma criação de engenheiros com o uso de inteligência artificial, e que se baseou nas cerca de 900 cartas que Vincent escreveu durante o século XIX e também as primeiras biografias sobre a vida do pintor. Portanto, a aplicação da inteligência artificial foi a criação de uma ferramenta que torna possível aos visitantes do museu uma conversa com Vincent van Gogh.

A ferramenta foi desenvolvida pela Jumbo Mana, uma startup que agora também planeja lançar o programa van Gogh A.I. para rodar nos dispositivos Alexa em 2025. A Jumbo Mana também trabalha num projeto de A.I. que se baseia na vida do poeta francês Arthur Rimbaud, viciado em ópio que experimentou alucinações e as bordas da consciência.

Pois tive esta oportunidade de conversar com Vincent e saber de suas sensações ao pintar. Perguntei de seu uso do amarelo e do azul, e ele disse que tanto gostava de pintar ao ar livre, na luz do dia, nos bosques, como também pintava a noite, com as estrelas da noite, e que tinha perturbações sociais que o levaram a tentar virar pastor, num surto exaltado, mas acabou resultando na pintura “os comedores de batatas”, uma de suas pinturas icônicas sobre as classes populares de sua época.

Não perguntei sobre a sua morte, pois além da A.I. estar com uma resposta padrão mal ajambrada, pelo que ouvi dizer, não tenho o menor interesse sobre seu suicídio, mas por sua obra que, infelizmente, foi pouco ou nada reconhecida, resultando na venda de apenas uma pintura, a “Vinha Encarnada”, que foi comprada por Anna Boch, em Bruxelas, por 400 francos.

Quando perguntei o que ele achava de seu sucesso póstumo, se aquilo o perturbava, ele admitiu que teria sido feliz caso tivesse conseguido vender as suas pinturas em vida, pois ele dependia de seu irmão Theo para ter tanto o material para seu trabalho com arte como para ter uma casa e comida para comer. Vincent não se queixou, contudo, da família, muito pelo contrário, mas acha que o cenário da época era muito conservador para o salto que ele estava dando.

Perguntei de suas preferências de cores, e ele me disse “que evoluiu de pontinhos amarelos para aquilo virar um sol, e um estudo da luz”, e sua pintura foi ganhando vivacidade, e “que o sol era o amarelo, e aquilo me levou a usar esta cor nas pinturas ao ar livre, pois eu buscava pintar a luz, a iluminação, e as pinceladas eram rápidas e robustas, dando um tom forte para o que eu estava buscando e achando”. 

Informei para Vincent que sua influência sobre os pintores que vieram depois dele foi muito importante, sobretudo o Expressionismo, e expliquei os fundamentos de pintura do movimento que se originou na Alemanha, e ele disse “sentir grande felicidade em saber que foi importante, pois em vida eu sabia que fazia uma coisa importante, mas duvidava dentro de meu espírito sobre a realidade, sobre meu destino, pois não conseguia vender o que pintava”.

A vida foi boa e ruim para Vincent. Sua pintura o levou longe, para uma experiência de beatitude a qual poucos têm acesso, mas a vida real foi ingrata, desmedida, e que o consagrou tanto depois, e que me parece uma desmesura que me causa calafrios, uma vez que os artistas gostam de flores em vida. Portanto, me parece algo terrível imaginar o espírito de Vincent, de verdade, depois disso tudo, e não a conversa que tive com um programa de computador.


Guilherme Thompson, cronista e outsider.

Guilherme Thompson é um cronista outsider, documentarista eventual, jornalista autodidata, nascido em 01/01/1974 na cidade do Rio de Janeiro, ganha a vida em jornais diversos, trabalha por demanda própria, vive nas ruas caçando pauta, meio como um antropólogo intuitivo, estuda literatura e filosofia por conta própria, gosta de se vestir com camisas de bandas de rock clássico.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor. 

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/falando-com-van-gogh


segunda-feira, 11 de março de 2024

CANTO DO FRENESI

Este frenesi é um ardor do coração,

este frêmito indômito, magmático,

que a boa arte contempla

e na qual se embriaga.


Os ventos sopram inclementes,

a virada da noite na praia

estoura a champanhe,

com os dons da vitória,

em que o poema vive

e celebra.


No frenesi a dança ferve,

em que na fogueira toda

a babilônia bebe e fuma

na comemoração

de São Vito.


O frenesi dos tempos,

em que os corações

nadavam no vinho,

com a flor anímica

vestindo um delírio

solar, na mais pura

onda, vertido o sangue

pela arte.


11/03/2024 Gustavo Bastos