PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 20 de março de 2023

NOITE ESTRELADA DA FOME

Através da floresta o espelho remonta

a imagem da vida em face crua,

não há a saída para a água doce

na morte mercurial da serra,

em que o escravo morre neste feudo

fétido defronte aos montes de mortalhas

na calada da noite.


Na terra ressecada

que grita junto ao urubu,

vem o bruto calor de um mensageiro,

este Sebastião renascido,

com a medalhinha do santo 

e o grunhido da porca do mato

que foi sacrificada e salgada

para a festa dos sertanejos.

Lá se fumava o pango

na noite estrelada

do cordel.


20/03/2023 Gustavo Bastos 


FANTASIA - A CANÇÃO DO ALBATROZ

Bem que o dia se estende nos trigais,

a faca passa rente ao canto do corvo,

um girassol se serve de todo o calor,

e o poeta ferve a sua pena como

um rouxinol, mergulhando que 

nem um albatroz

e pescando seu porvir

com o encanto

prolífico em que 

se fundiram

seus versos

com o coreto

da fantasia.


20/03/2023 Gustavo Bastos 


EVOLUÇÃO DA FORÇA

Para cerzir, puxar, cortar,

torcer, abalroar,

nascer, todo o cinzel,

a goiva, o facão,

remove a pústula

da preguiça,

demove a paixão

folgazã de sua 

moleira amarfanhada. 


Volta e meia um viço

de civilização não 

temerá seus futuros.

Os domínios e impérios 

são o governo

da força, um leviatã

que ergue seus halteres

e ganha o tempo

da vitória.


Move o mundo

a harmonia celeste,

pois se move

a translação e a 

rotação, pois se 

move todo o corpo

que não morreu,

que não sucumbiu,

e que venceu.


20/03/2023 Gustavo Bastos 


ODE À VALENTIA

Valente, tome cuidado

com a faca e seu dente,

tua face doída

e o dia que chove

de chofre.


A tua aguardente

não anestesia,

teu coração

deprime e chora,

tua valentia

é de esponja,

bêbedo é

como um sonhador

dando porrada

no ar e caindo

na sarjeta.


Fala sozinho na rua,

teu nome é cachorro

louco, aquele bicho

velho e sarnento,

que delira e que 

já perdeu uma 

órbita em briga

de faca.


20/03/2023 Gustavo Bastos 


REMANSO DE ENSEADA

Se canso na estrada, a língua seca

e o peito oprimido, na vila sem vintém,

a cara no chapisco, como um indigente,

não esmoreço, o osso duro de roer,

o muque de tomar à frente da ribalta,

e o pensamento que não hesita,

não desliza, não titubeia,

decide.


Pois o poema resiste,

a força aberta, 

a medida do tempo

e seu intento,

com cada camada

de verso.


Bom, o viajante desnuda

a paisagem,

crê no sol

e na praia,

viaja bem longe,

ao fim da enseada,

com o sorriso

na face alegre,

tal o palhaço

da feira e o

acrobata

do mar.


20/03/2023 Gustavo Bastos 


quinta-feira, 9 de março de 2023

O DOM DA RESSURREIÇÃO

Tenho o fogo, este vira o mundo

na noite de fumaça e o dia

em meu sol bruto.


Logo, se mancha o tema

com o incêndio

do poema.


Fica seu monturo,

versos em cinzas,

como o pó de estrela

ao qual retornarei.


No entanto, que venha 

o dom de fé,

como o cântico da lagoa,

em minha ressurreição,

e que faça surgir

o cometa azul,

de meus poemas 

que brilham na tela,

com o dom que 

vive eterno

e presto,

qual a lida

e a luz

que me

ilumina. 


09/03/2023 Gustavo Bastos


O PLANO DA VERTIGEM

Enquanto a espera é a saga noturna

da expectativa e do anelo,

o poema se faz denso,

intenso como uma

nuvem.


O estro não sucumbe ao cadafalso,

não é um hino tétrico, uma elegia.

Faz mais ditirambo e ainda troça

da magia.


Pois o encanto deste dom

vem das fontes e dos rios,

dos mares e dos

ventos.


O poema espera 

e acha sua 

morada,

tudo o que

deseja

é vertigem.


09/03/2023 Gustavo Bastos