PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

CONVOCAÇÃO DOS FOGOS

Sentindo o aperto no peito,

os ossos tremerem e baterem,

e o sono invadindo qual Morfeu.

Contudo, caminhemos.


Se tem na carta náutica

um atlas pesado, e o olhar rígido 

diante da forma bojuda do tanque,

da armada, e de toda a fúria

em que a pele trisca

no arame farpado.

Contudo, caminhemos.


Na ânsia, no estado de morte,

com o coração explodindo,

o suor gelado, e no frio,

com os vícios que se atropelam.

Contudo, caminhemos.


Como está o poeta?

Não havia morrido?

Oh, temos este caderno

carcomido, não é?


Pois, uma letra do povo

está assinada

com o sangue

da caneta.

Um azul sombrio,

espatifado de seu

cano estourado.


A poesia é esta

chama indômita,

que a todos 

conclama : 

“Vamos ao mundo!

Vamos à vida!

Nada restará

à flor e aos

cacos.

Toda poesia vive

e morre

vendo

dor e amor

em tudo.”


10/02/2023 Gustavo Bastos 


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

OS NÚMEROS DA FACHADA

Fachada ridícula, 

o teatro dos bonecos 

fazia seus  

números patéticos,

suas momices 

de entrudos

aparvalhados.


Rezavam os néscios,

olhavam para Deus,

para cima, ao céu,

como se a Criação 

tivesse sido

feita por um 

panaca.


06/02/2023 Gustavo Bastos 


SÉCULO DO TERROR

Foi assim o terror da meia-noite

em que a espada de Átila ceifou

a vida dissipada, de carteados

romanis, de festões, de túnicas

folgazãs, e o santuário embebido

em vinho de odres rabiscados.


Já vai toda a turba ao 

Campo de Marte,

com os ritos de que Júpiter 

brotava como o senhorio

das centúrias que 

avultavam com cânticos

herdados dos espartanos.


Tais os temidos lacedemônios

de invasão dórica,

como se matassem

hilotas ao fio

da espada,

hunos eram 

da ira os

heróis. 


06/02/2023 Gustavo Bastos 


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

ODE DA BESTA-FERA

Alvo preferencial,

o poema bica

tua cara de bobo,

dá pontada

que nem faca

na sevícia

dos idiotas,

como um pastelão,

uma mixórdia 

de barafunda,

uma azáfama

de burburinho,

não doura

a pílula,

cospe 

fogo.


03/02/2023 Gustavo Bastos 


CHARQUEADA

Brota a vinha do paraíso,

com meu chope e desdém

na nuvem de fogo,

abrir o céu com espada

e a fome bruta

que voa paramentada,

da grei o loa das seitas,

e a alma mundi 

que toda a lida

estorva, tonitruante,

à rés-do-chão,

e arranca as toras,

numa maçada

de fogueira

e carne.


03/02/2023 Gustavo Bastos


ASAS DO ARCHOTE

No verbete se encontra o fulcro

da filologia, na poesia a metonímia

se esboroa em canto ácido,

os corpos derretem

na imaginação que arde.


As asas sonham voar,

o voo sonha as suas asas.


Cada pássaro é este poema

e seu estro, desta doida vida

que faz e refaz caminhos,

do amor estourado

que queima

sua chama.


O vate, bardo, rapsodo,

da ode o primor

do metro de trova.


Tonteia a armada,

o ferro e o aço,

de chumbo a mão 

forte esmurra

a lida bruta.


Eis do poema

sua força

e seu voo,

pois peleja

e voa,

bate, rebate,

e ama.


03/02/2023 Gustavo Bastos 


CORAÇÃO FELIZ

Perto do coração feliz pulsa a flora 

e o vigor da dança,


espero a este canto de esperança

ter elencado, sem mazelas,

o idílio e minha doce

profanação.


As flores rezam na chuva,

do orvalho a plena pena

se faz verso.


Tiram-se as tenazes 

dos braços,

e o corpo baila

ao profundo.


03/02/2023 Gustavo Bastos