PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

GIRASSÓIS NO CREPÚSCULO

Eu creio neste rouxinol

e a rouquidão da febre

cai no olvido,

na penumbra morre

o mistério que não 

existe,


eu canto os girassóis,

e de cada violeta

que se esparrama,

a rosa nova

se anuncia,


se foi a tormenta

e seu vício

e demência,

se foi a escuridão

e seu vicário

vil,


eu canto os girassóis,

e o sangue da poesia

é como um sol vermelho

no crepúsculo.


17-08-2022 Gustavo Bastos


PASSOS DO MÁRMORE

Um mergulho do albatroz e o peixe que vem

em seu bico, o totem que eu mirava

depois da ayahuasca, choviam 

as torrentes, os tostões voavam

e o vento era gelado

como a morte

de um mártir,


eu cresci neste absinto,

e meu coração, 

depois do aprendizado

do mármore,

sucumbiu

à noite

e seu 

verniz

de lua.


17-08-2022 Gustavo Bastos


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

A TRAGÉDIA FAULKNERIANA TRAÇA SEU CAMINHO EM SANTUÁRIO

“Santuário é um romance faulkneriano que se conduz, também, como uma tragédia moderna” 


Santuário foi um dos romances mais bem conceituados escritos por William Faulkner, este que foi um dos grandes escritores do século XX, pairando ao lado de Marcel Proust, Virgínia Woolf, James Joyce e Franz Kafka. O condado de Yoknapatawpha, por sua vez, no universo romanesco de Faulkner, tem um caráter de terra arrasada que revela toda a degradação sulista dos Estados Unidos de sua época.  

Um tipo de desespero espiritual, de desamparo existencial, de sensação de terror dentro da alma toma conta dos cenários e personagens do condado, em diversos pontos do universo romanesco de Faulkner, as coisas acontecem sob o influxo de um desencanto completo e nos limites éticos de uma vida pulverizada em demandas ásperas e fora de qualquer perspectiva auspiciosa.   

Santuário é publicado em 1931, e também retrata o condado de Yoknapatawpha, e conta a trajetória de Temple Drake, que passa por um processo progressivo de degeneração, Popeye tem uma presença forte durante o romance, e Horace Benbow passa por uma luta inglória por justiça. Um cenário de brutalidade se descortina neste romance sulista de Faulkner que, junto com o romance Absalão! Absalão! é considerado por alguns como o grande momento da obra de Faulkner. 

A narrativa conta a realidade inglória dos desvios de rota e das desrealizações, o material romanesco produzido por Faulkner em Santuário é um desenvolvimento sobre a realidade sulista e mais um giro pelo condado de sua ficção, o romancista coloca estas voltas ao mesmo ponto em diferentes romances e parece que seu leitmotiv ou tema-valise se metamorfoseia em diferentes romances, com diferentes estórias e um mesmo fundo comum existencial, a vida nestes romances giram no mesmo ritmo de desamparo, e isto perpassa toda a obra faulkneriana, diferentes gradações de uma mesma realidade de fundo comum a todos estes romances. 

O universo romanesco de Faulkner, que revela realidades terríveis, envolve tanto uma tradição romanesca norte-americana como da literatura universal, que podem vir das tragédias de Shakespeare, dos cenários desoladores de Joseph Conrad, e nos Estados Unidos, da vida degradada em Fitzgerald. A invenção humana em Faulkner é convincente, mesmo sendo produto ficcional absoluto, o romance de Faulkner, aqui também em Santuário, realiza os Estados Unidos sulista na versão própria do romance faulkneriano, a narrativa serve a si própria, mas cria este clima de uma realidade palpável do sul norte-americano. 

O prosaísmo das situações e as caracterizações de seus personagens tornam esta realidade romanesca faulkneriana bem convincente e bem semelhante à vida real, como ela se sucede dentro de certos limites, mas a riqueza da escrita e a produção ficcional ganham seu matiz próprio. Faulkner se serve de suas situações e personagens para a realização de sua literatura e, ao fim, ele é um romancista propriamente dito e não um documentarista social ou cultural. Seu retrato fiel dos Estados Unidos sulista aparece em perspectiva própria a um escritor, a serviço da imaginação criadora. 

William Faulkner é um escritor e romancista que herda a tradição literária norte-americana e ocidental, e ele cria Yoknapatawpha como um herdeiro de um ambiente sulista que se encontrava em decadência, e seu estilo e método se moldam no fluxo de consciência, e os preceitos deste fluxo são desenvolvidos na ficção romanesca faulkneriana com personalidade própria, de um escritor original, que criou o seu próprio universo de situações e personagens, e que é laureado também por estas razões. O romance moderno, aqui em sua versão norte-americana, ganha musculatura e solidez no caminho literário faulkneriano. A solução de seu fundo comum, por fim, será sempre Yoknapatawpha. 

O hibridismo de técnicas no romance de Faulkner é tributário de diferentes fontes e tradições, quando falamos que o romance tradicional e linear, com o tempo, se revestiu de elementos polifônicos, estamos falando do surgimento do romance moderno, e que em Faulkner reúne uma tragédia grega modernizada, paráfrase da novela gótica, alegorias bíblicas, a vida industrial sulista norte-americana em versão romanesca, o que mudou nesta cultura que entrou em decadência, e diversos outros elementos laterais e seu elemento novo do fluxo de consciência, que foi a grande transformação empreendida pelos principais romancistas do século XX. 

A polifonia do romance faulkneriano quebra normas estabelecidas, a fluência de Faulkner não faz concessões ou obedece rigorosamente a tradições e ideias preestabelecidas, e não fazer concessões é uma virtude literária que cria uma produção original e nova, que leva a literatura a um novo patamar crítico e de atuação, o fato de Faulkner ter sido laureado em vida é fruto desta sua ousadia formal e temática. Santuário é um romance que não segue normas, Faulkner é um escritor livre. 

Santuário tem um foco especial nos personagens, e esta é uma característica do romance faulkneriano, o privilégio de cada personagem em seus romances tem um grande peso, Faulkner normalmente trabalha bem e se aprofunda no universo de seus personagens que, embora prosaicos e rústicos, vítimas de uma realidade áspera e pobre existencialmente, em suas descrições ganham nuances que nunca tornam tais personagens unidimensionais do ponto de vista estritamente literário. 

A intercalação de personagens em Santuário tem um caráter cruzado, pois personagens descrevem personagens, a perspectiva podendo ser tendenciosa ou justa, portanto, criando a versão que se faz deste personagem visto por um outro olhar, o olhar externo, com todos os seus juízos. Estes personagens são observados e julgados, o prisma é intersubjetivo sobre subjetividades que são circunscritas por juízos de outros personagens. 

Como consequência desta narrativa cruzada de perspectivas, temos as elipses que vão e retornam embaralhando as percepções que perpassam Santuário, uma ambiguidade de enredo, o resultado polissêmico é fruto destas perspectivas montadas e remontadas através de seus capítulos, e a desorientação do fluxo de consciência advém aqui justamente de seus dizeres e desdizeres, sem um eixo de verdade absoluta para estes personagens, que se contradizem entre si o tempo todo. 

Temple Drake, que foi violentada por Popeye, retrata essa casa que representou na verdade um santuário do mal, e nisto temos um hibridismo com diferentes aspectos interpretados pelas personagens do mesmo lugar, diferentes versões narrativas dentro da narrativa total do romance Santuário, em que podemos ter a metalinguagem como esta interpolação de narrativas que se podem se sobrepor umas às outras, com uma Temple que pode se apresentar aterrorizante, e Popeye como uma ambiguidade e uma incógnita. 

Santuário, por fim, não se funda apenas como um tipo de tragédia, é uma fábula do triunfo do mal, e Temple Drake ganha este aspecto sob influxo de Popeye. Popeye vira um trágico em que Temple Drake o conduz ao abismo faulkneriano que o próprio Popeye se propôs a explorar, Santuário é um romance faulkneriano que se conduz, também, como uma tragédia moderna.  


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-tragedia-faulkneriana-traca-seu-caminho-em-santuario


  

 


segunda-feira, 25 de julho de 2022

POEMA JOVEM

A semântica se estica toda

em poemas, seu alongamento

faz prosopopeia, do encanto

o verso surge estelar.


Vaga imensa que cobre a areia,

seu tutor Netuno golpeia

com o tridente, a massa

de água salgada

que invade

o campo.


Tenha isto, poeta da fortuna,

sua mão afaga e mata,

como um raio de bala

no peito.


25/07/2022 Gustavo Bastos 



DA PÁ VIRADA

Festa do nababo, a súcia está em festa!

Cada canto dobrado e um puto escárnio!


Vai-te fumar ao escarro,

hipócrita leitor,

mon frère.

Ademais, na rua da noite

a boêmia é ríspida,

forte e vigorosa.


Pronto, este poema está feito,

uma vida de balada e bacanal,

uma vida em meio das vestais,

e um idílio vagaroso que sonha. 


Dose extra de fábula,

filhos da puta!

Agora a praça está lotada,

com o prisma do mote,

e o elenco da coda!


25/07/2022 Gustavo Bastos 


segunda-feira, 18 de julho de 2022

A TRAVESSIA DA FAMÍLIA BUNDREN

(ROMANCE : ENQUANTO AGONIZO) 

“além de ser um clássico da literatura norte-americana, é considerado um dos cem melhores romances em inglês do século XX” 


O FLUXO DE CONSCIÊNCIA NA LITERATURA   


William James, filósofo e psicólogo, norte-americano, foi quem primeiro teorizou o chamado fluxo de consciência, que definia como se dava esta característica contínua de nossos pensamentos, sua intercalação imprevisível, que se define, sobretudo, como fluxo, e que teve uma influência intensa na literatura moderna do século XX, com muitos herdeiros pós-modernos no século XXI. Historicamente, William James é o responsável pela expressão "fluxo de pensamentos" da psicologia, James usou esta expressão, primeiramente, no capítulo IX de seu livro "Princípios de Psicologia", proposta no fim do século XIX. 

Na literatura, temos uma associação direta do fluxo de consciência com a técnica literária do monólogo interior ou interno, em que a narrativa simula ou imita este fluxo contínuo de pensamentos, refletindo numa forma ou estilo literário de orações extensas e sem pontuação ou exatamente parágrafos. Tal técnica do fluxo de consciência, em literatura, varia em sua aplicação de acordo com o autor, e ainda entre diferentes obras de um mesmo autor ou de vários autores. A narrativa pode tanto aparecer em primeira pessoa, como com uma terceira pessoa onisciente, em que este pode ter acesso total aos pensamentos do protagonista, por exemplo. 

Na literatura, os principais expoentes desta técnica literária são James Joyce, da Irlanda, Virginia Woolf, da Inglaterra, T.S. Eliot, o poeta e editor, e William Faulkner (Faulkner que tematizarei aqui em seu romance “Enquanto Agonizo”), ambos dos Estados Unidos, e temos um grande monumento à memória em Marcel Proust, autor francês, em seus volumes de Em Busca do Tempo Perdido, e no Brasil podemos citar escritores como Clarice Lispector e Guimarães Rosa.  

Temos outros autores conhecidos que herdaram a técnica do fluxo de consciência como Albert Camus, Hermann Hesse, J. D. Salinger, o dramaturgo Samuel Beckett (herdeiro direto de Joyce), William Burroughs e vários outros autores da geração beat, Milan Kundera, Julio Cortázar, e muitos autores do chamado Boom latino-americano. No Brasil, podemos citar, ainda, depois de Clarice e Rosa, o poeta Paulo Leminski e o romancista Graciliano Ramos. 

Portanto, a literatura se apropriou da teoria de William James, e criou um tipo de ficção que coloca o psiquismo dos personagens em destaque, e que produz uma literatura psicológica que pode ser associada a esta ideia de James, mas também às descobertas sobre o inconsciente na psicanálise freudiana. Na literatura, o fluxo de consciência torna camadas mais profundas da mente em um tipo de pré-discurso. 

Robert Humphrey escreveu um livro intitulado “O Fluxo da Consciência (um estudo sobre James Joyce, Virgínia Woolf, Dorothy Richardson, William Faulkner e outros)” em que delimita com precisão o papel do fluxo de consciência na literatura destes autores, ele nos diz : “podemos definir o fluxo de consciência ficcional como um tipo de ficção no qual a ênfase básica está na exploração dos níveis de consciência pré-discursivos, com o propósito, principalmente, de revelar o ser psíquico dos personagens.”  

Os níveis pré-discursivos aqui tematizados podem ser definidos como algo que antecede o discurso verbal, num mundo mental em que não há censura e controle racional ou lógico. Humphrey demonstra um uso diferente do fluxo de consciência para a literatura, em que na ficção literária temos a fusão de um caráter psicológico originário, que agora se associa a um caráter epistemológico. 

A vivência humana, na literatura do fluxo de consciência, aparece para além de uma atividade puramente mental, mas como testemunho de uma vida espiritual, onde aparecem as faculdades da intuição, da visão, e toda uma carga de histórias dos personagens, o que se reflete em seus estados mentais e espirituais, e que resulta neste grande edifício da literatura do fluxo de consciência erguido durante o século XX. O fluxo de consciência, na literatura, transforma o inconsciente em material discursivo e estético, com o uso de diversas técnicas verbais, alcançando este estilo literário o status de um verdadeiro objeto estético. 

O fluxo de consciência foi utilizado primeiro, em literatura, por Édouard Dujardin em 1888, e temos que, ao fim, diferenciar o fluxo de consciência do monólogo interior, que já tinha sido utilizado, anteriormente, por autores como Dostoiévski e Tolstói. Por exemplo, Raskolnikov, do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski, tem uma intensa vida mental, e conflitos psíquicos dolorosos. 

O autor russo reúne o conhecimento científico de sua época e produz um personagem psicologicamente complexo e conflitante, que se julga num estado de superioridade moral e intelectual que se encontra subjugada na mediocridade de uma vida comum. Em Dostoiévski podemos dizer que o fluxo de consciência está em crisálida, num estado embrionário, com Raskolnikov temos mesmo é o monólogo interior. 

Alguns autores informam que o fluxo de consciência é também o monólogo interior. Contudo, diversos autores separam os dois conceitos, em que o monólogo interior é uma camada da mente humana, e o fluxo de consciência vai mais fundo, como uma radicalização do monólogo interior, em que o leitor pode se colocar dentro do puro ato de pensar do personagem, em um fluxo imprevisível de pensamentos. 

O ROMANCE “ENQUANTO AGONIZO” DE WILLIAM FAULKNER 

O romance “Enquanto Agonizo” de William Faulkner, publicado em 1930, além de ser um clássico da literatura norte-americana, é considerado um dos cem melhores romances em inglês do século XX, pelo júri especializado da editora Modern Library (atual Random House). Faulkner produziu uma obra composta por dezenove romances e mais de setenta e cinco contos.  

William Faulkner escreveu “Enquanto Agonizo” em oito semanas sem mudar uma palavra, e antes de escrever o romance, disse a si mesmo : “Eu vou escrever um livro graças ao qual, em caso de necessidade, eu possa me manter ou cair se eu nunca tocar na tinta de novo”. A única tradução disponível, no Brasil, deste romance, está na edição para livros de bolso da L&PM. 

William Faulkner recriou o sul americano em toda sua decadência, com todas as implicações socioeconômicas da herança da Guerra de Secessão, nos apresentando um quadro vasto da condição humana, contudo, a partir de uma matéria simples, a vida comum em versão literária, ganhando contornos profundos de conflitos humanos mergulhados na demonstração destes personagens pelo fluxo de consciência, transformando a vida comum sulista norte-americana em um conflito psicológico que revela as entranhas da alma humana enfrentando diversas intempéries.  

William Faulkner manipula com maestria as diversas vozes de diferentes personagens, com contrastes constantes, e nutrindo tudo isto com uma riquíssima capacidade de rememoração, que nos conduz na complexidade narrativa do fluxo de consciência até o desenlace do romance. Harold Bloom deu uma boa definição da força desta obra : “De todos os romances americanos do século XX, o que tem o começo mais brilhante é Enquanto Agonizo… o começo pressagia a originalidade do livro que mais surpreende de seu autor.” 

Enquanto Agonizo” é um título retirado da Odisseia, de Homero, que começa com o fim trágico da matriarca da família Bundren, no início deste romance já sabemos que ela está moribunda e que irá morrer, em que ela pede para ser enterrada em Jefferson, sua terra natal, ao lado de seus parentes. Então, seguimos a peregrinação dos Bundren até Jefferson e todos os conflitos e intempéries que eles enfrentam neste caminho. 

A narrativa começa abruptamente num clímax, já com um corte seco, que vai desvelando, em seguida, feridas pretéritas dos personagens, com marcações de idiossincrasias de cada personagem, e o começo abrupto se resume no seguinte : alguém lamenta que uma mulher desistira de comprar uns bolos que foram encomendados. E isto poderia ter dado um mísero dinheiro para auxiliar a família Bundren no enterro da mãe, este é o começo de Enquanto Agonizo

O romance pode ter uma certa aparência de narrativa epistolar, pois cada capítulo revela o monólogo de um personagem, contudo, aparecem relatos isolados e contrastantes, com cada visão particular de um personagem conflitando e contrariando outras. Cada capítulo leva o nome de um personagem e carrega uma versão da realidade, e a personalidade de cada um é delineada pelo "outro", pois nenhum deles fala de si mesmo.  

Uma vez apresentados os personagens, o foco se volta ao mote e leitmotiv do romance, o caminho para Jefferson para enterrar a mãe, em que a família Bundren, mesmo sem dinheiro, parte em uma carroça que caía aos pedaços e enfrenta percalços e intempéries diversas como pontes caindo, incêndios e cavalos sendo levados pela correnteza. Não temos qualquer ideia de redenção neste romance, a penúria dos personagens revela um mundo embrutecido e sem perspectiva de superação material ou psicológica, com a viagem ou travessia para Jefferson podendo ser livremente associada à nossa travessia de leitor deste romance.  

Nos referindo ao fluxo de consciência, Enquanto Agonizo (As I Lay Dying), publicado em 1930, é um dos melhores trabalhos literários que empregaram esta técnica literária, com seus parágrafos complexos de extensas orações, com uma clareza de fundo na narrativa, no entanto, que veio da intensa preparação prévia de anotações que Faulkner fez antes de começar este trabalho, ao contrário da concepção dispersa de outros trabalhos literários do autor.  

No romance de Faulkner também temos a tensão entre o que é pensado e o que é dito, a riqueza narrativa dos pensamentos dos personagens contrasta com a pobreza da comunicação entre eles, com a assertiva de Addie de que 'palavras são apenas palavras', em que a fala nunca expressa totalmente as ideias e emoções, refletindo este clima de desconfiança do romance em relação à comunicação verbal. Os diálogos do romance são, em geral, breves, hesitantes, irrelevantes e inconstantes. Ao passo que os monólogos interiores, enriquecidos pela técnica do fluxo de consciência são, mais uma vez, o motor do romance, em que versões da realidade se entrechocam e se contradizem.  

JAMES FRANCO E SEU FILME “AS I LAY DYING  

Em 2013, o ator e diretor James Franco fez uma adaptação do livro para o cinema, As I Lay Dying (em português traduzido como Último Desejo). O filme reproduz o livro, não se trata de uma adaptação, e se revela problemático em sua intenção e ambição, pois a contemplação dos fluxos de consciência e os contrastes do romance original aparecem na filmagem como objeto de técnicas, como a do split screen, que se revelam problemáticas na compreensão da trama filmada. Outro ponto a salientar é que James Franco teve que transformar as várias vozes dos personagens do livro em uma única voz que narra o filme.   

O filme, em que James Franco dirige e atua, coloca uma narrativa linear, cortando personagens secundários, e o espírito do romance de Faulkner é todo diluído numa tentativa pretensiosa que resulta em algo forçado para narrar o romance, colocando os atores como títeres que declamam o texto diante das câmeras. James Franco, por fim, reduziu o romance à sua anedota, que é a narrativa da viagem de uma família pobre do Sul dos Estados Unidos para enterrar sua matriarca.  


Link da Querido Clássico : https://www.queridoclassico.com/2021/04/enquanto-agonizo-faulkner.html  


Gustavo Bastos, filósofo escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-travessia-da-familia-bundren-romance-enquanto-agonizo


  

 


sexta-feira, 15 de julho de 2022

MONTAGEM PIRATA

A vendeta funda

a comédia

dos costumes

degenerados,

um chiste faz 

troça e o poema

bamboleia,


o passo bêbedo

gira e sua girândola

faz panaceia

e placebo

com ilusões,


alucinado, o poeta

fala que é vidente

e fica fora de si.


Barafunda, uma azáfama

açodada invade o tablado,

no proscênio a cabeça

cortada de Maria Antonieta

e brioches espalhados 

pelo chão.


Nada mais, o poeta

faz careta e gestos 

obscenos com 

os dedos da mão,

um guarda noturno

lhe dá uns sopapos,

e a troça fervilhava,


logo adiante,

a plateia urrou

e um rei todo bobo

que se dizia imperador

no meio daquele

caos de teatro

do absurdo

soltou 

impropérios

e foi levado

ao hospício,


o diretor

daquela

farsa

então 

sucumbiu

e tomou

um porre

de vinho.


Após a montagem,

o poeta voltou

e devorou

aqueles brioches

com manteiga.


15/07/2022 Gustavo Bastos