PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

AS COISAS ETERNAS

Sei de coisas imorredouras
que faz da campanha da luta
os girassóis do surto,
e como sóis em loucura,
ficam tontos e morrem
vivem delirantes.

Se estas coisas eternas
são enumeradas em infinito,
o sonho as derrete
e vira delírio,
este delírio vermelho
que pinta de rubro
seu debrum de sangue,
este delírio que tem
em si sua fuga
e encontro,
uma filosofia
do eterno.

30/09/2019 Gustavo Bastos

CÉU LONGÍNQUO

Resta em um cantinho de nuvem
os sonhos infantis,
lembro de um jogo de amarelinha
e cordas de chicote queimado,
não pulava, eu caía,
e sentia em meu peito
que era poeta do absurdo,

longe, lá no canto matinal
d`aurora, vejo em sinal
de alerta as cores de poesia
pintar meu rosto
para a guerra,

ah, e que dia findo para a noite!
e que noite de patuscada
em que os ébrios anunciavam
em canções rotas,
a visão de um céu
longínquo e enigmático,

venho lhes dizer que os terrores
e as fortunas são o jogo duro
e voraz da selva do destino,
e nós somos os donos
de nossa sorte.

30/09/2019 Gustavo Bastos

UMA MULHER EM CINCO ATOS

Uma mulher em cinco atos :

primeiro ato :
surge da imponência de uma chuva
com as cartas na manga
e o doce de sua língua
como delírio de formas
e espírito livre.

segundo ato :
passeia, em seus meneios,
e delira com o sol
tal uma fada rosa.

terceiro ato :
cai de uma queda que tonteia,
risca com o giz o chão
de mármore, e chora lágrima
em seu futuro brilhante,

quarto ato :
da paixão que renasce, sente
o peito em tempestade,
e se veste em bruma
para seu coração
acalmar,

quinto ato :
pinta em seu acorde de luz
cinco estrelas em passos largos
de felicidade eterna.

30/09/2019 Gustavo Bastos

RITOS ANTIGOS

Das coisas atávicas eu tenho
um meio de decifração
de esquemas e regateios,
pago com ouro em espécie,
prata mordiscada
e um aço de bronze
em cobre e estanho,

certo, da promessa com fulcro
em missas sagradas,
os santos cantam em
uníssono o som
da harpa dourada,
como um delírio.

Me tenho por inteiro, com o corpo
batizado em chuva e estrela,
e no tilintar das cores
um som sinestésico
em que o verde vem agudo
e o azul grave,
o vermelho em tom maior,
e vejo lilases como
melismas de erudição,

das coisas atávicas tenho
a mais profunda alucinação,
como um ídolo do canto primevo
das dores e dos amores
e danças entre os fogos,

gemidos da terra inculta
aparecem entre estas hordas,
até que o sacerdote da
primeira era pega seu
cajado e funda a língua tribal
que dará aos ritos perdidos
uma fundação sagrada,
o panteão de novos deuses
e sua poesia feérica
de sol.

30/09/2019 Gustavo Bastos

A POESIA VITORIOSA

O combate que as palavras travam
é a fonte de um riso imortal
que enuncia a alvíssara
de uma aurora eterna,

regente em saturno, tua terra
vem com o monte e a vida
funda e intensa de um
fogo batismal,

a poesia, infensa ao fracasso
dos burocratas, decreta
em seu sangue a sua
vida, traça em grito
seu estilo de vida,
a poesia burilada
como máquina,
a poesia estrelada
em ritos sumários
de possessão.

30/09/2019 Gustavo Bastos

RELVA ESOTÉRICA

As folhas caem na relva
com os olhares perdidos
de um estupefaciente,
as notas que caem
sobre o grande
vulto do coração,
é a emoção sentida
da vitória,

mas, com o olor das flores
na relva verdejante,
o poeta se embriaga
e vira nuvem,
desaparece magicamente
dentro de um sol
rachando a terra
e queimando
a morte,

pois, da morte à vida,
ressurrecto está
teu canto azul,
e se vira em sete pontas
como um símbolo
perdido de pendores
esotéricos.

30/09/2019 Gustavo Bastos

TRAÇADOS DE RAPSÓDIA

Traçando uma linha imaginária,
vou ao fogo que mora no absinto,
e sem recuos, na febre exilada,
tento me libertar.

Os olhos, como poços de piche,
alardeiam os calabouços e as masmorras
aonde jaz a razão,
e um ímpeto de louco
toma a face da poesia.

Desde muito, nos cantos primevos
e antigos, as fadas rubras sorriam
sob um manto azul cobalto
de magos adoradores
de ervas,

na fauna atrevida dos sonhos,
sete magos de bruma
visitavam o palácio
arborizado da poesia,

pois, quando da queda do anjo,
a harpa tocava a poesia
de rapsodo com o brilho
de um canto silvestre,

venho lhe dizer o mistério :
a sorte é um escudo
que nos rodeia.

30/09/2019 Gustavo Bastos