PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O MAGO

Eu tiro as condecorações,
os efeitos alucinógenos
da flor,
eu retiro os postos e os privilégios,
eu pinto de verde o campo cinza,
eu que de meus miolos
tenho caro e claro
minha mágica,

eu tiro de um súbito uma iluminura,
tenho topázios e berilos
com cantos marcados
de cicatriz,

tenho os dias como presentes divinos
na sensaboria das zonas de guerra,
ouve-se o estampido à distância,
um exército fordista
produz a febre
destas máquinas
de poder,

eu tenho um tipo de surto astral
em meio ao lusco-fusco
das percepções,
foi quando desceu o mago
e teve este um encontro mercurial
com suas sete chaves que abriram
o sol em saturno.

09/11/2017 Gustavo Bastos

HISTÓRIA DE UM POETA

Atenazado o corpo foge de uma
alma desesperada,
consulto maria molambo
com um olho de astúcia
nos movimentos
das ondas,

passo ao fundo do ritual,
a pombajira me tem como
um abscôndito poeta
de livramentos,
um bissexto elegíaco
que morre de tísica
como um troglodita
das quedas das cascatas,

oh meu olho & meu absinto,
labirinto de odres cheios,
o karma & o corpo barrento,

bebo com um tonto de farda,
bebo com mais um de chapéu,
bebo o horizonte
dos mortos
como defumações
atávicas
de um totem
tribal,
ou ainda o corpo original
da horda,

atenazada a alma
se encontra
inteiriça,
rompe então
os grilhões
da loucura,
e qual borboleta
dá um salto
geométrico
de círculo
com gramatura
sólida
de um mensageiro
em monólitos
e granitos,

eu que sou este que vê,
eu que sou este que ouve,
tenho a sinestesia
própria aos loucos,
e danço na presença
da horda
o canto primal
dos trogloditas,

o corpo volta, no entanto,
e a alma inteira se
quer como estrela.

09/11/2017 Gustavo Bastos

ESTUDOS DO NOVO

E o fervilhar apoplético
me ensina na dura carne
sua lição de pedra,

eu babo e me lambuzo de mel,
eu que sou o átimo que pulula
com ventre e geofísica
das danças,

certo o ponto e o eixo,
o corpo se volta à altitude,
com um corpo todo arte,
com um corpo que é vinho,

é o eixo em que a força motriz
movimenta sua mecânica
de canto abissal,
é o poeta que azeita
as curvas da máquina
como um bufão,

eu bebo e me molho de mar,
uma saraivada de poetas
invade o balneário,
e eu ataco como um gavião
os seres pequenos de luz
que surgiam nesta noite
das fadas,

mando ao púlpito o que me livra
de mais uma lição de pedra,
esta que agora não rola
e se porta aziaga,
quero uma porta astral
para meus abismos,

sem pedra que fecha o templo,
sem lições pútridas
que já não fazem
sol.

09/11/2017 Gustavo Bastos

VIAGEM ORIENTAL

Derrubo um odre em Meca,
deambula o sono de haxixe
no canto de nênia
que exultava
bruxarias
no ermo
do deserto.

Fervia o beduíno com sua canção lilás,
eu tocava os sinos do átrio
como uma opereta bufa
de camelos endoidecidos
e sem água,

me voltei ao muro das lamentações,
uma nova jerusalém
pisava firme
como no velho templo
salomônico
em que as odes
eram sóis
de tramas
universais,

oh meu cabedal de letras mortas,
como um poeta nômade,
eu bebia junto aos errantes
de nínive um farol
no meio do calor.

09/11/2017 Gustavo Bastos

POLAROIDES LOUCAS

A manhã eu registro em polaroide
os ócios e a manha esportiva
dos antros criativos,
meio que moleque de dança,
eu, quando jovem doido,
bem avantajado
nas cordas vocais,
dando gritos
a esmo.

Perfilei os rostos diante do diafragma,
a distância curta me permitiu
distinguir todo o ambiente
e suas cores vivas,
como se eu tivesse
com um sexto sentido
automático,
e disparei.

Polaroides rotas, na carne o flash
é um tempo espiritual,
e ao fim da estória
temos estas visões
parasitárias
dos corpos
que são as
fotos.

09/11/2017 Gustavo Bastos

DEAMBULAÇÕES NO QUARTO

Que o quarto é uma batalha campal
isto não é novo,
tenho pilhas de cadernos idiotas,
monturos de papel aziago,
e livros que marcham
estupefatos para
a minha insciência.

Lota-se o quadro todo lusco-fusco,
e diante da luminária
um agudo luzidio e tenebroso
chamuscado de curto-circuito,
meu choque gutural
antes da densa
madrugada,

então tenho mesmo que antever
certas cascatas,
noites insones,
gases tóxicos,
manhãs ociosas.

Tenho que correr a mão na hora
do horror total
que são minhas
canções
dentro
da masmorra,
e o quarto é somente
silêncio à meia-noite.

09/11/2017 Gustavo Bastos

CASA DE TOLERÂNCIA

Não é aqui que acordo de um sonho,
poeta que navega sabe bem
que o delírio ruiu,
ele se sente bem,
conta seus prazeres
com a sua navalha.

Meio tonto, os coveiros brindam
meio a meio seus dividendos,
casas de tolerância anunciam
em neon a grande atração:
uma diaba loura,
toda enlutada.

Vai-te abra-te sésamo
das noites terríveis!
Compro um ingresso para ver
nosferatu e frankenstein,
tenho tremores
no fundo da tela,

eu, que tanto sonhei com vinhos
fosforescentes,
eu minto na casa de tolerância,
os anéis da cafetina
brilhavam contra meus olhos
zonzos de prazer,
e a sessão terrível
era bem pornográfica,
tocavam marchas fúnebres,

batia a manhã,
eu lia mary shelley
num espasmo,
a virgem de olhos doces
derretia nosferatu
de amores,

senti em noite de lupanar
eu também me tornar
monstro e vampiro,
numa fantasia atávica
de huno e troglodita,
com a face medonha
de um mongol.

09/11/2017 Gustavo Bastos