PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

GAY TALESE, EM VIDA DE ESCRITOR, É UM REPÓRTER - PARTE II

"''Escrever é como dirigir um caminhão de noite, sem faróis, errando o caminho e passando uma década numa vala''

Gay Talese, quando se tornou um jornalista que também era escritor, teve no Times, o que não surpreende, a sua ideia original, e que lhe renderia bons frutos, reconhecimento e fama como escritor e um dos expoentes do novo jornalismo, como ele relata em Vida de Escritor: “As referências ao sr.Ochs nas conversas entre Garet Garrett e meu pai deram-me a ideia de focalizar, como tema de minha dissertação de fim de ano, o dono do Times, que falecera em 1935. Eu teria gostado de entrevistar Garrett a respeito de seu antigo patrão, mas meu pai foi contrário à ideia, talvez por temer que minha intrusão lhe custasse um freguês. Mas eu havia anotado algumas coisas que tinha escutado, e depois encontrei informações sobre Ochs na biblioteca da cidade. Buscando informações sobre o sr.Ochs em biografias e enciclopédias da biblioteca, vim a acreditar que eu estava predestinado a escrever sobre esse homem, que em minha dissertação de cinco páginas eu chamaria de “O Titã do The Times””.
E tal dissertação viraria livro, finalmente, quando Gay Talese nos relata, mais uma vez: “Vinte anos depois, em 1969, eu pensaria nesse trabalho escolar como a gênese de meu manuscrito de 698 páginas sobre Ochs e sua dinastia. O livro foi publicado por uma companhia especializada em imprimir e distribuir Bíblias. Os editores da empresa ficaram satisfeitos com o fato de eu ter dado ao livro o título de O reino e o poder, por julgarem que, além do interesse que o livro pudesse ter para o público geral, talvez conseguissem vender muitos exemplares para leitores religiosos erroneamente convencidos de que a obra transmitisse uma mensagem espiritual. O livro foi o mais vendido nos Estados Unidos em 1970.” Ou seja, sucesso, Gay Talese se consolida como um jornalista que é também escritor, e não é só o reconhecimento de seu nome, como também alguém que vendia bem seus livros, “O reino e o poder” lhe coloca praticamente no olimpo do mercado literário norte-americano. Mas, em Vida de Escritor, que é uma narrativa sobre fracassos, Gay Talese também retrata como alimentou algumas obsessões, tais como a sua ideia sobre restaurantes, no que segue em seu relato: “Em diversas oportunidades, durante o longo período em que fui cliente do Elaine´s, considerei a possibilidade de escrever um livro sobre Nicola Spagnolo, Elaine Kaufman e os grupos de literatos e outras personalidades que ali conviviam todas as noites. Cheguei a acreditar que seria capaz de produzir uma versão nova-iorquina de Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, ou de Na pior em Paris e Londres, de George Orwell. (...) Se eu imaginava George Orwell como uma espécie de Dante a descrever um purgatório de panelas e frigideiras em seu livro Na pior em Paris e Londres, via a mim mesmo produzindo um Decameron de salões de jantar, banqueteando-me com histórias de clientes, de donos de restaurantes e seus funcionários, dando um jeito de fundir esse material numa narrativa coerente. Na década de 1970 comecei a escrever um diário sobre restaurantes, no qual anotava o que havia observado e escutado em minhas visitas noturnas ao Elaine´s e a outros restaurantes. Mantive esse hábito, de modo intermitente, durante os trinta anos seguintes. Na verdade, era sobre o mundo dos restaurantes que eu estava escrevendo durante o verão de 1999, quando assisti pela televisão à final da Copa do Mundo de futebol feminino entre China e os Estados Unidos.”
Gay Talese, a esta altura, tinha um problema de foco em seus trabalhos, pois se via envolvido com dois ou três projetos diferentes ao mesmo tempo, passando de um para outro quando um dos trabalhos empaca, achando mais sensato pôr de lado o que estava fazendo e reavaliando o material descartado em algum momento futuro. No que Gay Talese nos relata qual era a situação, então: “Em 1974 eu havia começado a descrever muitas cenas e situações por mim testemunhadas em restaurantes, mas elas pareciam demasiado fragmentárias e difusas. Por isso passei para outro projeto que já vinha acalentando, o qual eu finalmente consegui concluir em 1979. Esse livro foi Thy Neighbor`s Wife (A mulher do próximo) – um dos quatro que comecei e terminei entre 1965 e 1999. Mas durante esse período eu também havia começado vários outros livros, sem terminar nenhum deles. (...) Minha curiosidade me impele em várias direções, mas antes de ter investido muito tempo – meses, anos – não sei em absoluto se um assunto escolhido há de manter meu interesse. Às vezes jogo no lixo vários rascunhos que escrevi, mas em outras ocasiões ponho um trabalho de lado, arquivo-o, um ou dois anos depois releio o que fiz, às vezes reescrevo e volto a guardá-lo. Vez por outra, concluo que no fim das contas não vale a pena conservá-lo, e aí rasgo tudo e me liberto daquilo para sempre.”
Ou seja, os dilemas de Gay Talese eram produto de um interesse tão grande que se perdia em foco, e suas escolhas agora viam mais do que se descartava como enfadonho do que por uma escolha pelo melhor trabalho a realizar, e seu relato ganha a sua dimensão de um problema de escritores, quando ele nos diz: “Muitas vezes, escrever é como dirigir um caminhão de noite, sem faróis, errando o caminho e passando uma década numa vala. As coisas eram muito mais simples quando eu trabalhava como jornalista. Naqueles dias de juventude, um editor me mandava escrever uma determinada matéria, eu dispunha de um certo tempo para terminá-la e, estivesse ou não inteiramente satisfeito com o resultado, era obrigado a entregá-la, antes do prazo final, ao editor, que a passava ao copidesque, depois do que ela ia para a linotipia, e a partir daí eu não tomava mais conhecimento dela, até que a via na próxima edição do Times. No dia seguinte, o processo se repetia.” Ou seja, para ele, no fim das contas, as coisas funcionavam no ritmo veloz do jornalismo padrão, em que a demanda e o tempo ignoram qualquer preciosismo de um escritor cuidadoso ou demasiado profundo em seus trabalhos, pois ter uma coluna ou uma resenha não dava tempo de respiro, e por sua vez dava fôlego, o que ia contra o esmero de um escritor que quer chegar no âmago de algo que o jornalismo convencional simplesmente ignora, pois o que importa é entregar o texto, e não uma obra-prima.
Gay Talese prossegue no seu relato em Vida de Escritor: “O livro que, por contrato, eu deveria concluir na década de 1990, mas que até então não havia entregue a meu paciente e ansioso editor, deveria ser a segunda parte de Unto the Sons. Esse livro tinha como foco meus pais e minha ascendência italiana; já sua continuação deveria ser minha história, um relato autobiográfico de minha vida de semiassimilado nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX. Comecei esse livro em 1992, escrevi e reescrevi a abertura dezenas de vezes, mas nunca cheguei a ir muito longe. (...) O que me bloqueava, creio, era a imprecisão de minha persona e o fato de que eu não sabia onde ambientar minha história. Eu não fazia a menor ideia de qual era minha história. Nunca havia refletido muito sobre quem eu era. Sempre me havia definido através de meu trabalho, que sempre tratava de outras pessoas. No entanto, eu tinha um contrato para escrever um livro. Havia assinado o contrato para a continuação de Unto the Sons em 1992, e tinha também aceito do editor, na época, um adiantamento de seis dígitos, quantia que, presumivelmente, cobriria minhas despesas correntes durante o período de três anos, tido como suficiente para que eu pesquisasse, escrevesse e por fim entregasse à editora um manuscrito que merecesse ser publicado e se tornasse, oxalá, um best-seller.”
A condição criativa de Gay Talese, portanto, não era das melhores, no que ele nos dá a sua situação, que pode ser julgada, de vários ângulos, como impressionante, para o bem e para o mal: “No fim de 1995, não tendo entregado uma só palavra à editora – embora garantisse regularmente, em cartas e faxes, que estava avançando – eu me achava tecnicamente inadimplente em relação ao contrato. A editora poderia ter-me processado e exigido a devolução do adiantamento, mas eles nada me cobravam, nem mesmo quando meu atraso continuou ao longo de 1996 e entrou por 1997. O que me salvou de ser processado, creio, foi que a editora sabia que eu me atrasara quatro ou cinco anos para entregar Unto the Sons e A mulher do próximo, dois livros que foram best-sellers. Fosse como fosse, não me pediram que devolvesse o adiantamento, o que me deixou muito grato, pois no fim de 1997 eu já tinha gasto até o último dólar. Embora não se possa dizer que eu tenha ficado reduzido à miséria, pois podia recorrer a poupanças feitas com obras anteriores, sabia que não poderia continuar indefinidamente com meu método de passar de um projeto para outro.”
E Gay Talese, pressionado, tinha que tomar uma decisão, e ela veio, no meio de sua confusão de prazos e prioridades: “Assim motivado, decidi que a segunda parte de Unto the Sons seria ambientada num restaurante. Abri meu arquivo e tirei de lá uma pasta grossa, havia muito deixada de lado, com uma etiqueta que dizia “Restaurantes – obra em andamento”, que continha mais de noventa páginas datilografadas, que começara a se acumular na década de 1970, com notas esporádicas de 1980 e 1990. Depois que Unto the Sons foi publicado, em 1992, pensei em retomar minha investigação sobre o mundo dos restaurantes, mas me contive. Eu precisava de uma trégua na pesquisa, pensei; talvez devesse tentar escrever mais de memória e menos do ponto de vista de um observador e entrevistador. Em pouco tempo, estava esboçando um relato sobre minhas experiências na faculdade, entre os anos 1949 e 1953, na então branquíssima Universidade do Alabama, memórias que para mim prosseguiram em 1965, quando voltei, como jornalista do Times, para entrevistar a primeira formanda negra, e também para fazer reportagens sobre as manifestações pelos direitos civis na antiga comunidade algodoeira de Selma.” Ou seja, Gay Talese percebe que para ganhar em eficiência ele teria de passar de um documentarista obsessivo que não encontra um ponto final e nem inicial em seu trabalho, para o de um memorialista, coisa que ele tinha todas as condições de fazer, e foi fazer.
Por outro lado, na sua passagem no Times, as coisas se lhe tornam favoráveis, no sentido de que seu estilo literário de jornalismo poderia, enfim, ter um lugar dentro do universo do jornalismo padrão das redações: “O diretor de redação do Times, Turner Catledge tinha anunciado sua expectativa de que a redação de notícias se tornasse mais vigorosa, pois a época do jornalismo “só de fatos” estava superada, agora que a televisão era primeira a atingir o público com texto e imagens das notícias de último momento. Em 1958, por sugestão de Catledge, eu tinha sido transferido da editoria de esportes para a geral, como parte de seu plano de dar mais ênfase ao texto e também às reportagens da seção principal do jornal. Mas as mudanças no Times ocorrem devagar, Catledge sabia que seria necessário uma boa dose de treino, paciência e tempo para imprimir uma marca sobre a mentalidade tradicional que predominava no centro nervoso do jornal, que era sua vasta redação, do tamanho de um quarteirão, e embora o publisher da época, Sulzberger, apreciasse e apoiasse Catledge, a velha guarda da redação era partidária dos colecionadores de relíquias que acreditavam ser uma temeridade retocar a fórmula de Ochs (ir direto aos fatos, sem firulas) para estimular talentos estilísticos mais apropriados à redação de nosso concorrente, o New York Herald-Tribune, à beira da falência.”
Em relação ao concorrente do Times e ao próprio Times, Gay Talese nos diz: “Esse último era conhecido havia muito como um jornal de escritores, dirigido no início da década de 1960 por celebridades como Tom Wolfe e Jimmy Bresli. O Times tinha sido sempre um jornal de repórteres, um jornal de registros. Em sua longa história, o Times nunca contratou astros do jornalismo com uma popularidade tão excepcional que pudessem tornar-se indispensáveis, fosse para garantir a bilheteria ou por qualquer outro motivo. O Times era um conjunto. E os tradicionalistas, que envelheciam e não davam importância às preocupações de Catledge com o futuro impacto do jornalismo televisivo sobre os leitores do jornal, acreditavam que a prosperidade do jornal no longo prazo estaria assegurada sempre que seus altos executivos e seus proprietários permanecessem fiéis às máximas do sr. Ochs. Por fim, o Times era uma empresa familiar. Nenhuma decisão importante sobre as políticas ou as práticas do jornal podia ser posta em prática sem o imprimátur da facção Ochs-Sulzberger que estivesse no comando.”
E em relação aos anseios de Gay Talese e a realidade, ele nos diz como as coisas eram no universo conciso e rápido da vida de jornalista, e não de literato: “Mas nada do que se publicava era mais perecível do que o que escrevíamos. Isso me incomodou quando eu era novo na redação. Como católico, eu tinha sido condicionado a pensar em termos de vida no além. Uma vez, quando eu estava suando em cima de uma matéria, com medo de perder o prazo, ouvi um repórter veterano que me chamava do outro lado da sala: ‘Vamos, rapaz, termine logo com isso! Você sabe que não está escrevendo para a posteridade’. Eu não sabia. Eu me atrasava habitualmente para entregar matérias porque as reescrevia com frequência, acreditando que o que eu escrevia seria preservado eternamente em microfilme nos arquivos do confiável jornalão de Ochs. (...) Eu me imaginava como um monge desenhando as iluminuras do Livro de Kells, um orgulhoso escriba à espera de que minha elegante prosa causasse uma impressão duradoura. Nós, jornalistas, na minha opinião, éramos os supremos cronistas dos acontecimentos contemporâneos, a infantaria para os historiadores. Com o tempo, no entanto, admiti a contragosto que a observação de meu colega mais velho era correta. Não escrevíamos para a posteridade. Nós, jornalistas, às vezes parecíamos mancomunados à indústria de fast-food, como preparadores de lanches para consumidores de informações e ideias servidas quase sempre meio cruas. O que escrevíamos às pressas era frequentemente incompleto, confuso e inexato.”
E uma ponta de esperança surgia no horizonte, mas por pouco tempo, como Gay Talese nos relata em seu Vida de Escritor: “Antes de minha viagem ao Alabama para o encontro de ex-alunos, tive contatos frequentes com a nova editora da New Yorker, Tina Brown, uma britânica de quarenta anos, loura e formada em Oxford, e num dia de verão de 1993, fiquei feliz e honrado quando ela expressou o desejo de que eu me tornasse colaborador permanente de sua revista. Eu teria meu próprio gabinete na redação, disse ela, e seria identificado pelo título de “livre-escritor”, que ela conferia a Norman Mailer quando ele trabalhou na Vanity Fair. O que me atraiu na proposta de Tina foi o alívio que me proporcionaria, pelo menos durante o ano em que estaria contratado pela New Yorker, de minha ridícula vida de autor prolífico de manuscritos inacabados.”
No entanto, a sua situação como escritor era a seguinte, segundo o próprio Gay Talese: “Apesar de todo o tempo que eu tinha dedicado a me familiarizar com personagens de restaurantes como Nicola Spagnolo, Elaine Kaufman e Robert Pascal, e não obstante meu mergulho na história da construção do azarado edifício Willy Loman no número 206 da rua 63 Leste – e de toda a minha pesquisa sobre os problemas do Alabama – eu não tinha nada que pudesse mostrar como um livro em andamento. (...) Se eu trabalhasse para Tina Brown não teria essa opção, nem teria muito tempo para ficar ruminando. Eu me tornaria parte de uma revista semanal de ritmo acelerado, dirigida pelos instintos infalíveis de Tina e por seu tirocínio a um só tempo jovial  experiente. No entanto, ela tinha direcionado a revista mais para atualidades e para o “agito”, e eu não estava certo de poder me enquadrar nesse esquema, principalmente se ela me escalasse para fazer perfis de pessoas que tinham acabado de ganhar fama ou, de qualquer outra forma, correspondessem ao conceito atual de celebridade. Em meados da década de 1960, um ano depois de sair do Times, gostei de trabalhar para o editor da Esquire, Harold Hayes, com contrato de um ano, mas a Esquire era uma revista mensal, e eu acreditava que com Hayes tinha tido mais espaço e tempo do que Tina Brown poderia me conceder agora, embora eu pudesse estar errado quanto a isso. Era certo, no entanto, que quando eu escrevia sobre gente famosa para a Esquire, essas pessoas já tinham passado de seu auge ou estavam descendo a ladeira do sucesso.”
E a face do fracasso logo levou Gay Talese de volta à realidade crua da rotina de jornalista, mais do que a dos devaneios de um escritor: “Na verdade, comecei a considerar escrever mais sobre o anonimato e o fracasso quando passei a me encontrar com Tina Brown. Todavia, achando que nada poderia ser menos interessante para ela, hesitei em falar sobre isso. Mas estava motivado pela ideia de que poderia sair do estado de indecisão e descontentamento em que me encontrava se escrevesse sobre os descontentamentos e a desesperança de outras pessoas, e achei que devia fazer isso imediatamente, e alegremente, num pequeno livro que poderia ser minha homenagem a Na pior em Paris e Londres, de George Orwell, ele trataria do fracasso, e não era um tema muito excitante para um publisher, mas eu achava que com tantos livros sobre o sucesso no mercado, seria interessante ler algo sobre pessoas que talvez tenham desenvolvido um talento singular para a derrota.”
Gay Talese, então, faz um apanhado geral de suas ciladas como escritor, quando nos relata sua situação concreta, no sentido do que ele tinha abarcado como material, de forma objetiva, para além de suas ideias e do que ansiava: “Passei a primavera e o começo do verão de 1999 voltando a meus arquivos de pesquisa, relendo minhas anotações e reescrevendo algumas das partes das várias obras em que tinha trabalhado mas nunca chegara perto de terminar. Havia 54,5 páginas sobre Frederick Schillinger e as origens do “edifício Willy Loman”. Havia uma introdução de quarenta páginas às minhas memórias, que começava com minha chegada à Universidade do Alabama em 1949. Havia sessenta páginas de um livro de viagens que contava minha primeira visita à Calábria, em 1955. Havia a sinopse de um livro e noventa páginas datilografadas de notas referentes aos problemas financeiros da empresa automobilística Chrysler, tema que eu tinha explorado em 1982, fazendo muitas entrevistas com executivos da Chrysler em Detroit e com seus sócios, da Mitsubishi, em Tóquio. Havia também em meu arquivo algumas pastas com a etiqueta “Os Bobbitt – Obra em andamento (1993-1994)”. Eu provavelmente teria jogado isso fora havia muito tempo se não fosse o conselho da editora da New Yorker, Tina Brown, para quem o tema poderia algum dia dar um livro curto.”
E a circularidade do livro Vida de Escritor finalmente se conclui, nas palavras de Gay Talese, pois é na dispersão que lhe vem mais uma ideia: “Em julho de 1999, quando estava em Nova York, tentando escrever e livrar-me do beco literário sem saída que havia feito minha vida profissional estagnar. Quando não estava lutando com palavras e parágrafos em minha mesa de trabalho, entregava-me a atividades tranquilizantes, dentre elas ver jogos de beisebol ou outros eventos esportivos em meu pequeno televisor. Para mim, aquele foi um verão de zapeamento. Foi quando pela primeira vez senti o impulso de voar para o outro lado do mundo a fim de entrevistar Liu Ying, a jovem chinesa que havia perdido o pênalti na final da Copa do Mundo feminina entre a China e os Estados Unidos, o que custara o título à sua equipe. Logo, eu estava num jato que ia para o Extremo Oriente. E cinco meses se passariam antes que eu voltasse para minha casa em Nova York.” E Gay Talese conclui o seu périplo, ele dá várias voltas e Vida de Escritor é um apanhado geral destas voltas e reviravoltas de seu trabalho como jornalista e escritor, de seus anseios e o conflito brutal entre o ideal e o real, que pode ser entendido como a fonte dos dilemas que perpassam todo o livro Vida de Escritor, e uma das razões da circularidade em que tal obra se consuma.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/30624/17/gay-talese-em-vida-de-escritor-e-um-reporter-parte-2

domingo, 18 de setembro de 2016

LORD BYRON, UM DOS MAIORES POETAS INGLESES – PARTE I

“Os dois primeiros cantos de Childe Harold foram publicados em fevereiro de 1812”

ORIGENS
George Gordon Byron nasceu em Londres, em 22 janeiro de 1788, filho do capitão John Byron e de Catherine Gordon de Gight. O avô de Byron, o almirante John Byron, era conhecido como Jack Mau-Tempo, pois alguns diziam que ele vivia em perpétuas tempestades no mar. Seu irmão William, o 5º Lord Byron, que detinha a abadia de Newstead, era um homem de disposição excêntrica, que chegou a matar em duelo um vizinho, crime do qual foi em parte absolvido, e ocasião em que o lorde invocou seus privilégios e retirou-se para as suas propriedades. Também era conhecido como o “Lorde malvado”.
O pai do poeta foi antes casado com Lady Camarthen, Condessa Conyers, da qual teve uma filha, Augusta. Viúvo, John Byron casou-se com Catherine Gordon, que se orgulhava de descender de Jaime I da Escócia, Byron passou a infância na Escócia. E muito se tem falado do defeito de Byron, perceptível em seu andar, mas ele não tinha externamente nenhuma deformidade no pé, segundo o testemunho da Condessa Guiccioli, e sim, ao que parece, um defeito de articulação.
Por sua vez, a sorte para Lord Byron bateu a porta, pois como o neto do “Lorde malvado” tivesse sido morto, Byron passou a herdeiro de Newstead e do título, ao qual ascenderia aos 10 anos, por morte do tio-avô. Mudou-se com a mãe para Nottingham, depois de ter visitado Newstead, que estava arruinada e em desordem.
INÍCIO DE SUA OBRA
Em 1804, quando se mudou para Southwell, Byron, aos 16 anos, iniciou correspondência com sua meia-irmã Augusta. Em outubro seguinte ingressou no Trinity College, em Cambrigde. No outono de 1806 ausentou-se da universidade, para só voltar em 1807. Nadava, cavalgava e atirava bem. E suas amizades de Cambrigde foram duradouras. Em 1807 publicou seu livro de estreia, Hours of Idleness, que ainda não o revelava de todo. O livro teve duas edições, mas foi violentamente atacado em 1808, na Edinburgh Review (por Brougham). Byron enfureceu-se com a crítica, injusta e pesada, e isso deu origem, dois anos depois, a uma sátira, English Bards and Scotch Reviewers, e por causa desse poema, Southey e Byron se tornaram inimigos por toda a vida.
Em 1808 colou grau, e em 1809 sua maioridade foi celebrada em Newstead: no dia 13 de março tomou assento na Câmara dos Lordes. Data desse ano, também, o famoso encontro de Newstead, no qual se bebeu vinho numa taça feita de caveira encontrada no jardim da Abadia e que foi polida e montada: nessa reunião obtiveram-se por aluguel roupas de monges e objetos sagrados, sendo Byron, naturalmente, o abade. O moço escreveu um poema sobre a taça, poema esse que sugestionou nossos românticos, como Castro Alves, que o traduziu.
VIAGENS DE BYRON
Byron resolveu fazer uma viagem ao Oriente, tendo partido da Inglaterra em junho de 1809. Nascia, com esse Byron viajante, o Childe Burun, depois Harold, assim descrito no poema Childe Harold`s Pilgrimage, I, II: “Outrora na ilha de Álbion vivia um jovem/que não encontrava prazer nos caminhos da virtude;/mas passava os dias nas desordens mais estranhas/e importunava com alegria o sonolento ouvido da Noite./Ah! Em verdade ele era um personagem sem pudor,/muito dado à orgia e ao júbilo profano;/poucas coisas terrenas encontravam favor a seus olhos,/exceto concubinas e companhia carnal,/e libertinos ostentosos, de alta e baixa condição”. O tipo estaria na raiz do byronismo que contaminou quase todo o Ocidente em literatura. Provocaram-no não só o Childe Harold como suas repetições posteriores, com outros nomes, mas sempre figuras com a face imaginária e romântica do poeta.
Em março de 1810 estava com Hobhouse em Esmirna, onde continuou a composição do Childe Harold, depois de ter visto os campos de Troia, rumo a Constantinopla, atravessou a nado os Dardanelos, feito sobre o qual compôs um poema, tomando como paralelo o lendário feito de Leandro em busca de Tisbe, Byron já havia praticado façanhas semelhantes de nado no Tâmisa e no Tejo. Em Atenas compôs os Hints from Horace. A remoção dos mármores do Pártenon e outros por Lord Elgin provocou em Byron (março de 1811) “The Curse of Minerva”, poema em que o ato é condenado.
Estabeleceu duradoura amizade com o poeta Thomas Moore, já popular com sua poesia lírica na sociedade britânica. Os dois primeiros cantos de Childe Harold foram publicados em fevereiro de 1812, o êxito do livro foi imenso, segundo o próprio Byron – e isso aos 24 anos – “certa manhã acordei e descobri que estava famoso”. Tomava-se o poema como autobiográfico. Byron começou a frequentar a sociedade londrina dos whigs.
POEMAS:
AS ILHAS DA GRÉCIA, AS ILHAS DA GRÉCIA!: O poema começa exclamativo, hiperbólico: “As ilhas da Grécia, as ilhas da Grécia!/Onde a ardente Safo amou e cantou,/Onde a arte da guerra e a da paz cresceram,/E Delos surgiu, que a Apolo abrigou!” E logo as referências míticas e históricas da Hélade estouram, estes poetas românticos que evocam e invocam os deuses em seus poemas, tal é Byron, e tal era também, e não menos, Shelley, aqui segue o roteiro dos amantes da cultura originária deste grande Ocidente: “Nelas, a musa de Quios e de Teos,/A harpa do herói, o alaúde do amante,/A fama acharam que não dão agora;” (...) “E sonhei, uma hora lá sozinho,/Que livre a Grécia poderia estar;/Pois de pé sobre o túmulo dos persas,/Escravo eu não podia me julgar.” E a guerra contra a Pérsia, cantada pelos próprios gregos, agora são cantadas pelos poetas novos, e segue Lord Byron, em seu canto mítico e histórico, como a lamentar: “Em tuas praias já sem voz/O canto heroico não ressoa agora/E já não bate o peito dos heróis!/Tanto tempo divina, deve a lira/Em mãos como estas decair após?” (...) “Pois que deixou o poeta aqui? Aos gregos/Rubor, à Grécia a lágrima sagrada.” Seu choro cai sobre a antiga Hélade, da qual agora sumiram seus heróis e o poeta com sua lira, reflexo que se apagou na história posterior, aos vindouros, Byron apenas é nostálgico, ou ainda, se faz poeta por lamentar a idade de ouro, e neste caso a poesia romântica ganha este espírito de resgate cultural, que tem na Hélade a sua obsessão.
A THOMAS MOORE: O poema é simples, e se coloca como uma homenagem: “Está na praia o meu bote,/Meu navio está no mar:/Mas antes que eu vá, Tom Moore,/Quero em dobro te brindar!” (...) “Com esta água e com este vinho,/A libação que eu verter/Será – paz aos teus e aos meus/E a ti, Tom Moore, vou beber.” A beberagem tem seu dileto em Tom Moore, uma amizade de poesia e de copo, à taça brindar o poeta e a poesia, e com vinho este brinde se faz com mais charme, pois da beleza o vinho tem de poesia tanto quanto os poetas que dele bebem. 
A DESTRUIÇÃO DE SENAQUERIBE: O poema começa com este canto oriental, do berço da civilização, já em seu grau assírio: “Tendo ouro e tendo púrpura a brilhar em suas cortes,/Desceram os assírios – lobo em busca do redil:/Luziam suas lanças como estrelas pelo mar” (...) “Pois os Anjos da morte as asas na rajada abriram;/No rosto do inimigo, perpassando, eles sopraram;” (...) “E os ídolos quebraram-se nos templos de Baal,/E as viúvas de Assur em prantos erguem seu clamor,/E o poder do infiel, sem que o tocasse a espada ao menos,/Qual neve derreteu-se ao pôr-lhe os olhos o Senhor!”. É a queda dos ídolos, guerra entre a cultura bíblica e os deuses de antanho, a cair Baal, e subir a soberania do Senhor, e Lord Byron a ser o retratista de eras passadas, em sua poesia que era nova para seu tempo, os românticos mais uma vez como pequenos historiadores em versos, mas apontando para seu estilo novo de canto, poesia de qualidade no serviço cultural e erudito de fazer entender quem somos e de onde viemos.
POEMAS:
AS ILHAS DA GRÉCIA, AS ILHAS DA GRÉCIA!
(obs: Don Juan, canto III, LXXXVI.) (Consta de Don Juan, III, depois de LXXXVI. Este hino, escreve Byron, devia ou podia ser cantado assim pelo grego moderno, isto é, de antes da independência, em “tolerável verso”) (LXXXVII).
I
As ilhas da Grécia, as ilhas da Grécia!
Onde a ardente Safo amou e cantou,
Onde a arte da guerra e a da paz cresceram,
E Delos surgiu, que a Apolo abrigou!
Um eterno verão as doura ainda,
Mas tudo, exceto o sol, já descambou.
II
Nelas, a musa de Quios e de Teos,
A harpa do herói, o alaúde do amante,
A fama acharam que não dão agora;
A pátria deles muda está, perante
Sons que passam as “Ilhas dos Felizes”,
Para ecoar no oeste mais distante.
III
As montanhas contemplam Maratona
E Maratona olha para o mar;
E sonhei, uma hora lá sozinho,
Que livre a Grécia poderia estar;
Pois de pé sobre o túmulo dos persas,
Escravo eu não podia me julgar.
IV
Um rei sentou-se na rochosa borda
Que encara Salamina, dom do mar;
Naus, aos milhares, viam-se lá embaixo,
E nações, que eram dele, iam lutar!
Ele contou-as ao nascer do dia,
E ao pôr-do-sol quem as iria achar?
V
E onde estão eles? Minha pátria, onde
Estás? Em tuas praias já sem voz
O canto heroico não ressoa agora
E já não bate o peito dos heróis!
Tanto tempo divina, deve a lira
Em mãos como estas decair após?
VI
Na carência da fama, é alguma coisa,
Preso embora entre raça agrilhoada,
Sentir que uma vergonha patriótica,
Mesmo se eu canto, em minha face brada;
Pois que deixou o poeta aqui? Aos gregos
Rubor, à Grécia a lágrima sagrada.
VII
Só devemos chorar os belos dias?
Chorar? – Deram seu sangue os nossos pais.
Terra! devolve de teu seio uns poucos
Dos espartanos mortos – uns, não mais!
Para novas Termópilas fazermos,
Dá-nos três dos trezentos imortais!
(obs: o poema continua, aqui está sua primeira metade)
(obs2: Verso 4: “E Delos surgiu, que a Apolo abrigou!”: Em Delos nasceram Apolo e Ártemis: a ilha acolhera a errante e perseguida Leto, que lá os deu à luz no monte Cinto. Verso 7: “Nelas, a musa de Quios e de Teos”: Em Quios supunha-se ter nascido Homero; Teos, cidade marítima da Jônia, era a pátria de Anacreonte. Verso 11: “Sons que passam as “Ilhas dos Felizes””: Assinala Byron que as “nesoi macáron” (Ilhas dos Bem-aventurados) dos poetas gregos supõe-se que tenham sido as ilhas de Cabo Verde ou Canárias.)

A THOMAS MOORE
(obs: Este poema foi escrito em 1817. Thomas Moore (1779-1852), conhecido poeta, foi amigo de Byron.)
Está na praia o meu bote,
Meu navio está no mar:
Mas antes que eu vá, Tom Moore,
Quero em dobro te brindar!

Eis um suspiro aos que me amam,
Aos que odeiam, um sorriso;
Qualquer o céu que me cubra,
Enfrento o que for preciso.

Ruja o oceano em torno a mim,
Em suas águas irei;
Um deserto me rodeie,
Nele a fontes chegarei.

Só uma gota no meu poço,
E eu nas bordas a ofegar:
Antes de ir-se o meu espírito,
A ti é que a vou tomar.

Com esta água e com este vinho,
A libação que eu verter
Será – paz aos teus e aos meus
E a ti, Tom Moore, vou beber.

A DESTRUIÇÃO DE SENAQUERIBE
(obs: Originalmente de Hebrew Melodies (1815), o poema figura nas traduções dessas Melodias por Costa Meireles (1869) e Oliveira Silva (1875). O ritmo ternário do texto inglês desmereceria, por martelante demais em português, a equivalência que fosse mantida.)
Tendo ouro e tendo púrpura a brilhar em suas cortes,
Desceram os assírios – lobo em busca do redil:
Luziam suas lanças como estrelas pelo mar
Quando na Galileia, à noite, rola a onda anil.

Como as folhas no bosque quando o estio reverdeja,
Com bandeiras, ao pôr-do-sol, o exército surgia;
Como as folhas no bosque quando o outono se adianta,
Um dia após, sem viço e esparso, o exército jazia.

Pois os Anjos da morte as asas na rajada abriram;
No rosto do inimigo, perpassando, eles sopraram;
E os olhos dos dormidos se apagaram, regelados,
E, após arfar uma só vez, os corações pararam.

Lá jazia o corcel, jazia, ventas dilatadas,
Porém por elas não passava o alento de seu brio;
Branca na grama a espuma via-se de seu ofego,
Fria tal como a onda ao borrifar no penedio.

E lá jazia o cavaleiro contorcido e pálido,
Tendo orvalho na fronte, e com a armadura enferrujada;
E as tendas silenciosas, e as bandeiras já largadas,
As lanças não erguidas, a trombeta não tocada.

E os ídolos quebraram-se nos templos de Baal,
E as viúvas de Assur em prantos erguem seu clamor,
E o poder do infiel, sem que o tocasse a espada ao menos,
Qual neve derreteu-se ao pôr-lhe os olhos o Senhor!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/30618/17/lord-byrn-um-dos-maiores-portas-ingleses-parte-1
  


domingo, 11 de setembro de 2016

CAOS FUNDANTE

Bem ao bem quiser, que na verdade
tudo o que queiras somente assim.

E à beira, por certezas,
tendes de tudo o que
saber de si.

E por demasia o poeta,
saber quem sois
semeia o sol.

E, na alta torre,
à balada da meia-noite,
sou este de todo o corpo,
sou aquele que funda
o todo.

Bem ao não saber, pois filósofo
que dantes dantesco,
ao saber de si safo,
a posteriori compraz-se
de aurora.

E tudo ao cadafalso,
hora da estrela,
que em dia de azáfama,
um amálgama
brota caos.

11/09/2016 (Gustavo Bastos)

VERSOS COM SARÇA E SOL

A estirar-me no chão, espero o corpo manso
dos dias de remanso, olho ao derredor
com dentes de aço, levanto os braços,
arqueio, arfo, retorno às coisas mesmas.

Por sinais espero, e um lilás de estrela anuncia
em sua rotina matutina o vale sucinto,
eu tenho os livros das horas, as notas em debrum
dos acordes de aurora, as fitas marcadas com os dizeres
lapidares do sol, astúcias de um poeta.

Pois, da arte o miasma se esmera,
e mesmo em fincar os dentes de aço,
mesmerizo os vincos que são fulcros
da lei marcial que sois, estes desertos de música
sob o sol inclemente de beduínos.

Ao chão estirado, capturo os silêncios mordentes
que lancinam o coração em tua canção rente,
e os faróis ali, e os vinhos com corpos dóceis,
eis o luto febril que ataca a nuvem,
o céu pós-morte com suas campinas.

O poema estira-se, atira-se ao mar.
Leve o silêncio quer música, e os brados
sobre as esferas levantam os mortos,
luzes benfazejas serpenteiam a miragem,
levanto-me do torpor que por horas foi transe.

Adivinhos e videntes fazem as cartas de rito,
sua flechas, com dentes de aço, voam
tais setas certeiras ao coração contrito,
e os varões digladiam-se com brio.

Por todo o campo redondo, eis os círculos de giz,
os fundos de cena com vinhas e sarças,
retinas em miragem, pupilas em viagem,
a dose envenenada de sol, pulos ao karma
dançam, o espírito poético delineia o corpo.

Rente ao silêncio a música, e os corpos dançando
pela noite sem fim, os corpos sangrando pelo
sofrimento sem fim, os dias infindos que cortam
as paixões velozes, os linhos vetustos que
se costuram sob a lua macilenta.

Que mais, à pele de alabastro, com um vinho
de poetastro, poetaço, este que vos dá o edema,
hecatombe, hematoma, equimose, cicatriz,
este que fere o sol com flores de chuva.

Pois sou o que renuncia, o que tudo deseja,
sou o mistério de mim em uma fúria,
o mistério de nós em uma fuga,
sou a decifração da base lacunar,
a geometria dançante que volta a si,

sou o que sai de si, o que volta de sonhos intranquilos.

11/09/2016 (Gustavo Bastos)

sábado, 10 de setembro de 2016

P. B. SHELLEY E SEUS POEMAS DA ERA DO ROMANTISMO INGLÊS – PARTE IV

“uma poesia que tem muito em sublimidade, beleza e paixão”

AS OBRAS
Assim que a poesia de Percy Shelley veio à luz, ela sempre foi alvo de opiniões conflitantes e muitas vezes opostas e de extremos, para o bem e para o mal, com uma oscilação crítica como um pêndulo. E atualmente pende para o lado negativo, de desfavorecimento de uma poesia acusada de puramente musical e vazia de substância, o que vem dos detratores, sendo seus defensores do argumento de que isso é uma mera incompreensão de alcance da poesia shelleyana.
 A visão alternativa dele como poeta por excelência é ainda encontradiça. Uma das armadilhas comuns da atualidade é a famigerada generalização, em que concepções estanques simplificam o problema a favor de uma crítica puramente destrutiva. Embora haja pontos que incidem sobre alguns traços distintivos de sua poesia, mesmo assim tudo é feito na base de uma negligência. E neste ponto de destruição se esquece a crítica atual de levantar uma poesia que tem muito em sublimidade, beleza e paixão pelo bem, versos musicais sim, mas de pleno domínio de causa, e que tem conteúdo, apesar da forma esteta.
São três os fundamentos principais em que a poesia de Shelley pode ser vista com seu brilho. A eminência de Shelley pode se destacar em uma compreensão de que, por exemplo, ele não foi excedido em sua idealidade, em sua música e em sua importância. Em relação à idealidade, Shelley sempre teve um senso de justiça social, apesar de bem nascido, pois foi contrário a todo tipo de opressão e acreditava no ser humano.
Na sua relação intensa com a musicalidade poética, por sua vez, a música de sua poesia, essa não pode ser refutada nem mesmo pelos seus críticos mais destrutivos. Pode-se mesmo afirmar, sem embargo, que Shelley foi o poeta inglês, deste conjunto de notáveis da poesia inglesa, que tenha usado uma variedade de formas e medidas que veio a ter alcance maior do que todos estes outros, pois na sua aliança inarredável com a música o poeta se conferiu de uma habilidade que muitas vezes pode até mesmo ter antecipado o simbolismo, mesmo no romantismo, no seu quesito sonoridade, Shelley foi o mais habilidoso ao se utilizar destes recursos, é uma poesia rica de som, ainda mesmo em traduções.
Quanto à importância, Shelley possuía aquela chama de paixão intelectual que fazem os grandes poetas como ele, ele foi em relação ao seu tempo um poeta do futuro, ele apontava para o porvir, com um temperamento de renovador e mártir, esta chama que inundou a alma de todo grande poeta, reunindo no mesmo trabalho de alma poética a grandeza especulativa e filosófica e, como dito, uma fé na humanidade que se traduzia em um zelo humanitário num grau original no qual se busca até hoje algo semelhante, e sem precedentes.
É creditado pela crítica geral de poesia que, de seus poemas, o mais importante seja o “Prometeu libertado”. Mas sua poesia lírica também se destaca com alcances verdadeiramente altos, com poemas como o do coro final de Hellas ou a “Ode ao Vento Oeste”. Como dito, alguns detratores acusam a música de Shelley como vazia, mas isso pode ser um problema da leitura, tanto no sentido de interpretação de conteúdo como também, e não menos, no entendimento do jogo poético e da versificação, de como a criatividade funciona quando se fala e se lê poesia, como quando não se capta o que se contém na estrutura elíptica das sentenças de Shelley e neste momento se escapa pelos dedos seu sentido.
O coro final de Hellas, reminiscente de Isaías, lembra o impacto profético da Écloga messiânica de Virgílio: desenvolve-a em parte e alcança uma expressão que é sustentadamente firme – com o alcance e tirante a épica. Yeats não parece ter sido alheio à influência desse coro; o que diz muita coisa sobre a dimensão de Shelley na História. A “Ode ao Vento Oeste” é de alcance lírico incomparável, representando um acme cuja grandeza evoca a de Keats em suas grandes odes. O “Adonais” já é um poema diferente, uma elegia funeral, destinada a reverenciar a memória de Keats, e foi construída costeando Mosco e Bíon nos versos de partida.
O “Adonais” é de cepa simples, pois tem trinta e duas estâncias espenserianas que expressam não apenas a desolação do poeta com a morte de Adonais, mas a desolação de todas as forças naturais e imaginativas que ele fez belas em sua poesia. E as quinze estâncias seguintes reforçam a mesma piedade e tristeza, agora expressas pela Musa Urânia e por poetas irmãos, terminando com uma típica maldição shelleyana sobre o assassino (isto é, o crítico que atacou Keats), embora renunciando à vingança.
Nesse ponto (estância 38) descobre-se que a morte física não é realmente a extinção para os que são como Adonais, pois ele agora vive como parte da Natureza e também desse grande Espírito, a Beleza Intelectual, ou Amor, que eternamente modela todas as formas de vida a seus propósitos, tanto quanto possam sentir sua influência. E, é sempre bom lembrar, a única realidade última para Shelley era a Beleza Intelectual; a vida humana era real e duradoura apenas por se identificar com ela. Assim o poeta alcança um dos seus mais altos pontos de expressão no clímax de “Adonais”:
The One remains, the many change and pass;
Heaven`s light for ever shines. Earth`s shadows fly;
Life, like a dome of many-coloured glass,
Stains the white radiance of Eternity.
(O Um fica, os muitos vão-se; a luz é permanente
No Céu, na Terra as sombras passam brevemente;
A Vida, como um domo em vidro multicor,
Mancha da Eternidade o branco resplendor,)

Nesta brilhante imagem Shelley condensou quase todo o espírito dos Triunfos de Petrarca. Desde 1818 Shelley tinha admirado Petrarca como um dos maiores poetas. Em seus Triunfos a Eternidade é a única perfeição duradoura; a vida terrena, à luz da Eternidade, é um cortejo de sombras vãs. O diário de Mary de 7 de setembro de 1819 mostra Shelley lendo o triunfo da Morte de Petrarca em voz alta. Aqui Petrarca diz que a Morte é chamada assim apenas pelos desavisados e que Laura, morta, está realmente viva ao passo que seu amante vivo está em verdade morto. Tão completamente Shelley se apropriou dessa ideia que a expressou numa imagem sugerida pelo Macbeth de Shakespeare que ao mesmo tempo expressa o significado do poema de Petrarca e a própria crença de Shelley.
Peace, peace! he is not dead, he does not sleep –
He has awakened from the dream of life –
“Tis we, who, lost in stormy visions, keep
With phantoms na improfitable strife
And in mad trance strike with our spirit`s knife
Invulnerable nothings ...
(Calma, ele não morreu, ele não está dormindo,
Ele acordou da vida, simples sonho findo;
_ Nós, os perdidos em visão tempestuosa,
Mantemos com fantasmas luta desvaliosa,
E, com a faca do espírito, a louquear golpeamos
Invulneráveis nadas.)
E as três estâncias que encerram o Poema transmutam o desânimo pessoal do autor em algo como êxtase. Uma vez que suas próprias esperanças terrenas estavam mortas, por que hesitar em juntar-se a Adonais numa Vida eterna?
A verdadeira essência dessa Eternidade é a Beleza Intelectual, o Um que permanece fixo num universo de mudança e decadência. Na estância 54 Shelley exprime apaixonadamente tanto o poder da Beleza Intelectual como da maneira pela qual ela opera:
That Light whose smile kindles the Universe,
That Beauty in which all things work and move,
That Benediction which the eclipsing Curse
Of birth can quench not, that sustaining Love
Which through the web of being blindy wove
By man and beast and Earth and air and sea,
Burns bright or dim, as each are mirrors of
The fire for which all thirst; now beams on me,
Consuming the last clouds of cold mortality.
(Aquela Luz cujo sorriso o Mundo aclara,
A Beleza em que tudo opera e em que não para,
Aquela Bênção que a eclipsante Maldição
De nascer não estingue, aquele Amor-sustentação
Que na trama do ser teceu bem cegamente
Com homem a animal e terra e ar e mar
Arde obscuro ou brilhante: tudo é um espelhar
Do fogo, sede universal; em mim luzente,
As nuvens últimas do que é mortal ei-lo a apagar.)
O Epipsychidion, que é um poema de amor intelectual, tem início meio críptico, mas julga-se que a Lua nele referida seja Mary. De qualquer forma, o poema é dirigido a Emilia Viviani, com a qual Shelley imagina alguma fuga para a ilha do Egeu. E o excerto da fuga do poema, cujo título é um desafio, pode equivaler a “manual da alma” – ecoando o encheiridion, isto é, “manual” do século XVII.
O “Hino à Beleza Intelectual”, de composição anterior a todos os já considerados, expõe a descrença de Shelley quanto a comunicar-se com as almas dos mortos, e manifesta sua confiança na Beleza Intelectual, que é algo atemorizante. É um dos primeiros poemas de Shelley prenunciadores dos que ostentam sua plena capacidade de expressão.
“Ozimândias”, além de ser um poema em si mesmo bem realizado, tem outra característica, que é o arranjo não canônico de rimas. Seu esquema é ABAB/ACDC/ODE/FEF, o que era aventuroso e novo para o soneto. De sua “Ode ao Vento Oeste” diz-se também que deveria ser impressa, o que nem sempre acontece, como uma sequência de cinco sonetos de esquema rimático ABAB/CBCD/CDE/DEE.
Quanto ao coro do v.197 de Hellas, esclarece Shelley, em nota:
“As noções populares do cristianismo são representadas neste coro como verdadeiras em sua relação com o culto que substituíram, e aquele que segundo todas probabilidade elas substituirão, sem considerar seus méritos numa relação mais universal. A primeira instância contrasta a imortalidade dos seres viventes e pensantes que habitam os planetas, e para usar uma frase comum e inadequada “vestem-se com a matéria”, com a transitoriedade das manifestações mais nobres do mundo externo. Os versos finais indicam um estado progressivo de existência mais ou menos exaltada, segundo o grau de perfeição que cada inteligência distinta pode ter atingido.”
Dos versos “A uma cotovia” – um dos mais famosos de Shelley – afirma-se que poucas vezes na vida do poeta um símbolo de alegria poderia ter sido mais bem-vindo para ele. “Desde a primeira linha do poema a cotovia é tal símbolo: ‘Pássaro nunca foste’. Ele é de um poeta, um poeta feliz que o mundo ouvirá.”
Os outros poemas apresentam cada um seu interesse específico. Podemos citar o “Hino a Pã” e o “Hino a Apolo”, o primeiro embalador, o segundo majestoso, o excerto do “Prometeu libertado”, com seu final prenunciador do simbolismo, poemas de interesse biográfico, como o escrito em depressão, perto de Nápoles, e outros que aproveitam intensamente as plantas, como “A pergunta”, ou que falam nas injustiças do mundo.
EPIPSYCHIDION:
O poema abre como uma mensagem: “Emília,/Um navio flutua agora na enseada,/Um vento paira sobre os montes, na cumeada;/Há um caminho no pavimento azul do céu,/Quilha nenhuma este caminho antes venceu;” e segue ao convite: “Velejarás comigo, irmã do coração?/O nosso barco é um albatroz, e o ninho seu/É um éden do oriente que empurpureceu;/Pousemo-lhe entre as asas, quando Noite e Dia/Prosseguem voo, e a Tempestade, e a Calmaria,/Nossos ministros, sobre o mar ilimitado/Pisam o calcanhar um do outro, sem cuidado./Bem debaixo do céu da Jônia unia ilha vela,/Qual resto de naufrágio do Paraíso bela;/E porque as enseadas sejam más e não seguras,/Conheceria a solidão e suas agruras,/Não fosse um povo pastoril dali nativo,/Que do ar elísio e resplendente e de ouro vivo/Respira o último espírito da áurea idade,/Simples mas animado; audaz e sem maldade./A azul Egeu circunda esse lar de eleição,”. Aqui o poeta tem já seu lugar de eleição, na velha Hélade de todos os sonhos, de todos os poetas e filósofos, lugar natural, de ventos elísios, uma ilha do paraíso, um idílio, de um povo que respira o último espírito da áurea idade, oh, a nostalgia da idade de ouro, o mar, em que se conheceria a solidão e suas agruras, sentimento de solitude, no entanto, que leva Emília em suas quilhas, ou ainda poderia ser Mary, o poeta dirige-se como carta, e tal roteiro é náutico, em direção a uma ilha, um paraíso perdido, onde mora o auge da civilização, e segue o poema: “Todo o lugar povoa-se de doces ares;/O ambiente leve e claro de que a ilha é mansão” (...) “E uma ilha entre Céu, Mar, Terra, Ar embalada/E num sossego luminoso projetada;/Luzente como o Éden Lúcifer a errar,/Lavada pelo Oceano azul do jovem ar./Murcha ou escassez – é uma favorecida terra –/A Pestilência, o Terremoto, mesmo a Guerra/Não pousam em seus píncaros, abutres cegos,/Velejam para longe em seus fatais navegos.” É um lugar de fuga, que é a universal fuga da dor e do sofrimento, em que se embeleza de mar toda a nostalgia do mundo perfeito.

ADONAIS: ELEGIA PELA MORTE DE JOHN KEATS:
O poema, uma elegia, abre com versos de dor: “Choro por Adonais! Choro, que ele morreu!/Chorai por Adonais! O pranto vosso e meu/Em sua fronte não derreta a geada embora!/E tu – eleita dentre os anos, triste Hora,/Para prantear tal perda – a tuas irmãs obscuras/Dize, e a melancolia tua lhes ensina:/“Eu levei Adonais; até as eras futuras/O passado esquecerem, sua fama e sina/Serão um eco – e luz – que à eternidade se destina!”” (...) “Onde eras, forte Mãe, quando ele adormeceu/E a seta que nas trevas voa se embebeu/Em teu filho? A infeliz Urânia onde ia estar/Quando Adonais morreu? Com seu vendado olhar,/Lá no seu Éden, entre mais um Eco atento/Ela sentava; um destes, com paixão no alento,/As melodias que se esvaem reanimou,/Com as quais, flores a rir de um corpo macilento,/O vulto próximo da Morte outrora ele ocultou.” O poeta vê Adonais em Keats, e na sua fusão de mitologia descobre em Urânia o centro nervoso da dor pranteada, e na forma do mito, Shelley mais uma vez dá seu grito lancinante: “Ele morreu, morreu! Chorai por Adonais!/Acorda, triste Mãe, acorda e esvai-te em ais!” (...) “Oh, não sonhes que o Abismo, sendo-lhe amoroso,/Inda o restaure para o ar vital, oh não;/De sua mudez nutre-se a Morte, e ri-nos da aflição.” (...) “Morto o que era o mais jovem e querido teu!” (...) “Chorai por Adonais! – As Ilusões douradas,/As agentes da ideia, de paixão aladas,/Eram os seus rebanhos, que ele alimentava/Junto às águas do espírito, e lhes ensinava/O amor que era sua música;” (...) “Ele não mais acordará, oh nunca mais!/Grita a Miséria: “Acorda, mãe sem filho! Com ais/E pranto apaga, bem no fundo de teu peito,/Um ferimento mais feroz que o nele feito.”/E os Sonhos todos que de Urânia velam o olhar/E os Ecos todos que a irmã deles, a cantar,/Silenciara, bramiram: “Ergue-te!” Ligeira/Saltou de seu repouso a Luz, Luz passageira,/Qual Pensamento que a Memória, serpe, foi picar.” Eis a tortura da memória, Musa Urânia e seus ais, e a morte inexorável, fato consumado, na qual o pranto não ressuscita o pranteado, mas Shelley, neste poema, logo inverte o jogo, e dá mais uma vez à existência, a sua fé intelectual, a fé na humanidade de um ateu: “Calma, ele não morreu, ele não está dormindo,/Ele acordou da vida, simples sonho findo;” (...) “Ele vive e vigila – a Morte é que morreu;/Não choreis Adonais.” E professa a sua Beleza Intelectual: “Ele se uniu à Natureza: nesta é ouvido/O que ele diz com melodia,” (...) “Vida e amor lutam nele, pelo que será/Sua sina terrena: os mortos vivem lá/E andam no ar bravo e escuro como ventos de clarão.” (...) “O Um fica, os muitos vão-se; a luz é permanente/No Céu, na Terra as sombras passam brevemente;/A Vida, como um domo em vidro multicor,/Mancha da Eternidade o branco resplendor,/Até que a Morte o pise e quebre.” (...) “Varando o íntimo véu do céu mostra-se ardente/A alma de Adonais, como se fosse estrela,/E esplende ao alto na morada onde os Eternos são.” A Eternidade aqui não tem fundo místico ou espiritual, mas sim como imagem poética, como ideal intelectual perseguido por Shelley e intuído na música natural do mundo.

EPIPSYCHIDION
[Excerto]

Emília,
Um navio flutua agora na enseada,
Um vento paira sobre os montes, na cumeada;
Há um caminho no pavimento azul do céu,
Quilha nenhuma este caminho antes venceu;
Chocam alciões em torno às ilhas sem espuma;
O oceano abjurou os dolos que costuma;
Os marujos são livres, e arrojados são;
Velejarás comigo, irmã do coração?
O nosso barco é um albatroz, e o ninho seu
É um éden do oriente que empurpureceu;
Pousemo-lhe entre as asas, quando Noite e Dia
Prosseguem voo, e a Tempestade, e a Calmaria,
Nossos ministros, sobre o mar ilimitado
Pisam o calcanhar um do outro, sem cuidado.
Bem debaixo do céu da Jônia unia ilha vela,
Qual resto de naufrágio do Paraíso bela;
E porque as enseadas sejam más e não seguras,
Conheceria a solidão e suas agruras,
Não fosse um povo pastoril dali nativo,
Que do ar elísio e resplendente e de ouro vivo
Respira o último espírito da áurea idade,
Simples mas animado; audaz e sem maldade.
A azul Egeu circunda esse lar de eleição,
Com som sempre mudando, espumas e clarão,
Beijando a areia fina e as furnas a alvejar;
E os ventos todos pela praia a vaguear
Ondulam como as vagas que a ondular se agitam:
Faunos silvestres na floresta espessa habitam;
Muita lagoa existe e arroio e manancial
Tão claros como o diamante elemental
Ou o ar sereno da manhã; e muito além
Musgosas trilhas de cabras e gamos vêm
(Uma só vez por ano as seguem os pastores)
Dar em caramanchões, cavernas, corredores
Construídos com hera; os saltos d`água os alumiando
Com um som que nunca falha, vão acompanhando
Os rouxinóis ao meio-dia em seus cantares;
Todo o lugar povoa-se de doces ares;
O ambiente leve e claro de que a ilha é mansão
Pesa com o grave odor das flores de limão
Que paira, névoa cheia de chuva invisível
E cai nas pálpebras, qual sono perceptível;
Violetas e junquilhos dentre o musgo espreitam
E odor qual seta ou dardo em nossa mente deitam
Até quase esmaiardes com essa doce dor.
E cada movimento, e luz, e tom, e odor,
Com aquela grave música está em união
Que é uma alma dentro da alma – aparentando estão
Ecos de um sonho pré-natal, bem anterior. –
E uma ilha entre Céu, Mar, Terra, Ar embalada
E num sossego luminoso projetada;
Luzente como o Éden Lúcifer a errar,
Lavada pelo Oceano azul do jovem ar.
Murcha ou escassez – é uma favorecida terra –
A Pestilência, o Terremoto, mesmo a Guerra
Não pousam em seus píncaros, abutres cegos,
Velejam para longe em seus fatais navegos.
(Obs: o poema continua, e como é bem extenso, aqui está somente o seu começo como uma introdução)

ADONAIS: ELEGIA PELA MORTE DE JOHN KEATS

I
Choro por Adonais! Choro, que ele morreu!
Chorai por Adonais! O pranto vosso e meu
Em sua fronte não derreta a geada embora!
E tu – eleita dentre os anos, triste Hora,
Para prantear tal perda – a tuas irmãs obscuras
Dize, e a melancolia tua lhes ensina:
“Eu levei Adonais; até as eras futuras
O passado esquecerem, sua fama e sina
Serão um eco – e luz – que à eternidade se destina!”

II
Onde eras, forte Mãe, quando ele adormeceu
E a seta que nas trevas voa se embebeu
Em teu filho? A infeliz Urânia onde ia estar
Quando Adonais morreu? Com seu vendado olhar,
Lá no seu Éden, entre mais um Eco atento
Ela sentava; um destes, com paixão no alento,
As melodias que se esvaem reanimou,
Com as quais, flores a rir de um corpo macilento,
O vulto próximo da Morte outrora ele ocultou.

III
Ele morreu, morreu! Chorai por Adonais!
Acorda, triste Mãe, acorda e esvai-te em ais!
Mas para quê? Apaga em seu fervente leito
Teu pranto em fogo, e o coração a soar no peito
Um sono guarde igual ao dele, e silencioso;
Que ele se foi aonde vão sábio e formoso;
Oh, não sonhes que o Abismo, sendo-lhe amoroso,
Inda o restaure para o ar vital, oh não;
De sua mudez nutre-se a Morte, e ri-nos da aflição.

IV
Tu, a mais harmoniosa das que choram, chora!
Urânia, ele morreu! Volta a chorar agora,
Ele, o monarca de uma raça imorredoura,
Cego e ancião, quando o brio que sua pátria doura,
O clero, o escravo, o destruidor da liberdade,
Pisaram-na, zombando com ritual odiado
De cio e sangue; o vórtice da morte, ousado,
Buscou; mas seu Espírito de claridade
Reina inda na terra; o terceiro pela luz gerado.

(trechos seguintes, em resumo):
VI
Morto o que era o mais jovem e querido teu!
IX
Chorai por Adonais! – As Ilusões douradas,
As agentes da ideia, de paixão aladas,
Eram os seus rebanhos, que ele alimentava
Junto às águas do espírito, e lhes ensinava
O amor que era sua música;
XV
Entre as montanhas senta-se Eco desnorteada
E nutre a dor com a rima de Adonais,
XVI
Louca de mágoa, a Primavera derrubou
Os seus botões, pensando ser Outono,
(...)
Jacinto a Febo caro assim não veio a ser
Nem Narciso a si próprio, como tu, Adonais,
XXII
Ele não mais acordará, oh nunca mais!
Grita a Miséria: “Acorda, mãe sem filho! Com ais
E pranto apaga, bem no fundo de teu peito,
Um ferimento mais feroz que o nele feito.”
E os Sonhos todos que de Urânia velam o olhar
E os Ecos todos que a irmã deles, a cantar,
Silenciara, bramiram: “Ergue-te!” Ligeira
Saltou de seu repouso a Luz, Luz passageira,
Qual Pensamento que a Memória, serpe, foi picar.

XXXIX
Calma, ele não morreu, ele não está dormindo,
Ele acordou da vida, simples sonho findo;
_ Nós, os perdidos em visão tempestuosa,
Mantemos com fantasmas luta desvaliosa,
E, com a faca do espírito, a louquear golpeamos
Invulneráveis nadas.

XLI
Ele vive e vigila – a Morte é que morreu;
Não choreis Adonais.

XLII
Ele se uniu à Natureza: nesta é ouvido
O que ele diz com melodia,

XLIV
Vida e amor lutam nele, pelo que será
Sua sina terrena: os mortos vivem lá
E andam no ar bravo e escuro como ventos de clarão.

LII
O Um fica, os muitos vão-se; a luz é permanente
No Céu, na Terra as sombras passam brevemente;
A Vida, como um domo em vidro multicor,
Mancha da Eternidade o branco resplendor,
Até que a Morte o pise e quebre.

LIV
Aquela Luz cujo sorriso o Mundo aclara,
A Beleza em que tudo opera e em que não para,
Aquela Bênção que a eclipsante Maldição
De nascer não estingue, aquele Amor-sustentação
Que na trama do ser teceu bem cegamente
Com homem a animal e terra e ar e mar
Arde obscuro ou brilhante: tudo é um espelhar
Do fogo, sede universal; em mim luzente,
As nuvens últimas do que é mortal ei-lo a apagar.

LV
(obs: final do poema)
Varando o íntimo véu do céu mostra-se ardente
A alma de Adonais, como se fosse estrela,
E esplende ao alto na morada onde os Eternos são.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/30515/17/pb-shelley-e-seus-poemas-da-era-do-romantismo-ingles-parte-iv






quarta-feira, 7 de setembro de 2016

SABER O AMOR

Anoiteço por me poetizar.
Com um sinal na carne
de que sofri.
Com um fino trato do coração
acusando que amei.

Não me trate aos malditos insultos,
aquele que não sabe amar
bem aprende a odiar,
pois deste carvão lhe faz
o desdém.

As impuras ilusões do voo,
ah, estas gaivotas!
Como pulam a orquestra
e rondam os abutres,
como amam aos que
odeiam!

07/09/2016 (Gustavo Bastos)

VANGUARDA NOTURNA

Assim me revelo, nas noites de vanguarda,
com a espada atravessada na garganta,
emito notas dissonantes de meu
pedal astuto.

Assim me detenho, com passos largos e imprevisíveis,
com as minhas rubricas e signos
tonteando as balas.

Na vida de vanguarda, como um mercador
que anota as cintilações das estrelas,
o que navega desperto sobre
o mar da fortuna.

Assim o sonho estoura a champanhe,
bebe o vinho.
Assim o sonho vem
e se derrama.

Assim me revelo, poesia fausta
com olhos de ilusão,
nas noites de vanguarda
do meu coração.

07/09/2016 (Gustavo Bastos)