PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 12 de junho de 2016

FAUSTO DE GOETHE, UM POEMA DRAMÁTICO DA SEDE DE SABER E DE VIDA

“Obcecado pela sede do saber, Fausto firma um pacto com o demônio”
O CONHECIMENTO COMO PACTO
O conhecimento é motivo chave da aventura de Dr. Fausto diante da terrível presença de Mefistófeles, sabendo-se que o mais alto tesouro da sabedoria não se produz por um pacto, o momento-chave de que Dr.Fausto se serve das manhas de Mefistófeles, por sua vez, está relacionada ao conhecimento de si e da natureza, Dr.Fausto quer decifrar os mistérios que dormitam no universo, isto é, despertá-los, e isso tem um efeito que o pacto poderá tornar doloroso, sua alma é raptada por um desejo de tudo abarcar de ciência e filosofia. Para o dr.Fausto, o homem pode saber mais, muito mais. Nem que para isso seja necessário aliar-se a um anjo das trevas, o terrível Mefistófeles.
Dr.Fausto conhece muitas coisas: botânica, medicina, astrologia, agricultura, matemática. Estudando todas as ciências, descobriu tudo o que um simples mortal poderia saber em sua breve permanência na Terra, ele sente que precisa de mais, no entanto. Indo mais longe de que o engenho humano é capaz, num acordo espiritual que não passa de um artifício, visto que Dr. Fausto se dá com um demônio, seu conhecimento ainda não fora suficiente para decifrar todos os mistérios da existência. Obcecado pela sede do saber, Fausto firma um pacto com o demônio, cuja aliança o conduzirá aos prazeres do conhecimento, da vida e do amor.
ORIGENS DO MITO
O primeiro livro sobre Fausto outorgava-lhe, no frontispício, os títulos de Magister Georgius Sabellicus, Fausto, o Jovem, Fonte dos Negromantes, Astrônomo e Astrólogo, Segundo na Hidromancia, Conhecido Também Sob o Nome de Fausto, Philosophus Philosophorum, Semideus de Heidelberg e foi escrito por um obscuro autor alemão, Johannes Trithenius (1462-1516), no ano de 1530.
Na Europa, o mito de Fausto tornou-se tão popular que, no final do século XVI, começaram a surgir frequentes representações teatrais sobre a história desse homem – meio mago, meio cientista – considerado, na época, um charlatão. O inglês Christopher Marlowe (1564-1593), em A Trágica História do Doutor Fausto (1588), foi o primeiro dramaturgo a dar nova dimensão a esse herói, empenhado na luta de compreender o misterioso sentido da existência.
Goethe era um jovem de 20 anos quando se apaixonou pela história de Fausto. De 1797 1832, entregou-se à tarefa de escrever o seu Fausto. A peça acabou por se tornar a síntese das ideias e do estilo do autor, seu trabalho que ganhou a forma de todo o seu engenho poético, constituindo também uma espécie de suma poética da cultura do seu tempo. Goethe se afirma com Fausto um conhecedor profundo do que seu próprio tempo e época representava, tal obra Fausto, herdada da cultura e aperfeiçoada pela sua pena, ganha o verniz do grande autor de fôlego que foi Goethe.
O FAUSTO DE GOETHE
O Fausto de Goethe não deseja apenas dominar o conhecimento e a ciência, mas estender os limites da compreensão humana até o ponto de abarcar o universo inteiro. E, acima de tudo, Fausto aspira a viver a felicidade. Tão remota lhe parece essa possibilidade, que ele se dispõe a entregar a alma ao demônio em troca de uma vivência, embora breve, desse sentimento. A felicidade do conhecimento pleno do universo e da própria vida dão o ardor visceral do desejo de Fausto, tal peça escrita por Goethe é a trama e a aventura de um homem que tenta uma cultura a mais vasta possível, e fazendo valer isto por um pacto sinistro.
A primeira ideia de Fausto foi expressa por Goethe em 1775, em Urfaust, que é às vezes denominado de Fausto Primitivo. Em 1797 a ideia foi retomada segundo um plano completamente diferente: em nove episódios e sob forma dramática. Nela, Goethe trabalhou até 1806. A partir de 1808, sob a influência de Schiller, o dramaturgo resolveu continuar a obra, elaborando uma segunda parte, que na realidade tem pouca relação com o primeiro Fausto, mais conhecido e divulgado.
Historicamente, a primeira parte de Fausto é mais importante pelo papel que representou no movimento Sturm und Drang: a peça foi vista como um símbolo da alma moderna, a personificação da angústia que marcava o espírito da época.
SENTIDOS DE FAUSTO
Sabe-se que Goethe não foi o único autor alemão do século XVIII a descobrir a potencialidade trágica desse homem. Fausto, empenhado em decifrar o mistério da vida. Lessing também escreveu um Fausto, do qual restam apenas alguns fragmentos. A inquietação do dr.Fausto estava em consonância com o tipo de mentalidade rebelde do pré-romantismo. Todo o movimento tempestade e ímpeto surgia por um novo anelo de que a razão iluminista era incapaz de nutrir, o desejo do Homem acima de tudo ganha para o conhecimento a razão apaixonada de um Fausto pelas mãos habilidosas do escritor Goethe.
É como um herói insaciável e em conflito que Fausto é apresentado por Goethe. Sua sede de onipotência leva-o a dominar várias ciências, mas nenhuma delas o conduz ao mistério da existência. Fausto chega, assim, a perder a fé nas vias ordinárias da ciência. Anseia por conhecer mais e mais: vida, alegria, amor, magia. Anseia por transformar-se numa espécie de deus, com acesso ilimitado a todas as manifestações da natureza. A natureza, que em si comporta toda a felicidade e miséria, tem na vida e conhecimento de Fausto, o rapto de sua alma por um Mefistófeles ladino e até desbocado, Goethe certamente se diverte ao criar a sua versão da entidade nefasta.
No momento em que Fausto tem consciência dos seus limites, Mefistófeles entra em cena. O demônio se oferece para conduzi-lo a um novo universo, onde as emoções são íntegras, a sabedoria é infinita e tudo está em perfeita harmonia com a vontade. E principalmente Mefistófeles lhe propõe o prazer total e pleno da alegria e do amor, mas o dom de controlar os sentimentos e as pessoas como um mago, retendo nas mãos o tempo, e fazendo a natureza oscilar segundo seu próprio desejo. Gozando plenamente o ato de ser feliz. Fausto deverá, no entanto, pagar um preço a Mefistófeles: entregar-se a ele. Nesse instante, o diabo terá vencido Deus.
FAUSTO E MARGARIDA
O episódio Fausto e Margarida constitui o motivo central da peça. A jovem é a personificação da pureza e da candura, atraindo a paixão de Fausto desde o primeiro momento em que ele a vê saindo de uma igreja. Mas Mefistófeles não tem poder sobre ela para lançá-la aos braços de Fausto: Margarida está mais próxima de Deus pelas suas virtudes. Margarida é o anteparo de luz para um Fausto já comprometido por um pacto sem luz.
Fausto é insistente e Mefistófeles acaba por se comprometer, criando uma situação favorável. E esse demônio, humano na inteligência e no aspecto, insidioso, melífluo, mestre do jogo duplo, aproxima Fausto de Margarida. O herói aborda a jovem e consegue, por intermédio de Mefistófeles, penetrar em seu quarto. Mas invadido por uma onda de ternura, Fausto não consegue ter senão pensamentos nobres, e afasta-se antes de Margarida chegar.
DILEMAS DE FAUSTO
No monólogo “Floresta e Caverna” percebe-se nitidamente a realidade na qual Margarida foi colocada. Ela, que vivia na inocência dos seus pensamentos, como uma criança, está sendo lançada ao abismo, vítima do seu amor. Fausto gostaria de recuar antes de seduzir a moça, mas ele também carrega dentro de si o seu Mefistófeles, e  na medida que Margarida cresce em virtude diante dos seus olhos, aumenta seu desejo por ela. O amor que constituía, a princípio, uma expressão de felicidade, converte-se para Fausto num grande tormento interior. Fausto entra no dilema entre o seu pacto e a fonte divina que emana de Margarida com um tipo de culpa para ele.
Fausto acaba por seduzir Margarida, no entanto. Para poder possuí-la tranquilamente, Fausto dá a Margarida um sonífero, destinado à sua mãe. Na verdade, o sonífero era um veneno que Mefistófeles preparara e, em consequência, a mãe da jovem morrerá. Mas naquela noite, ébria de amor, Margarida nada vê, além de Fausto. E com a sua queda a ação rapidamente se precipita. Toda a trama se dará em função da condenação de Fausto, que quer salvar Margarida de seu pesadelo, e diante do mal em Mefistófeles, Fausto já tem o caminho traçado, não cabendo senão a Fausto assegurar a salvação divina de Margarida, quando de fato, ao fim, ela é salva e Fausto desaparece junto com Mefistófeles.
PRIMEIRO E SEGUNDO FAUSTOS
Na segunda parte da obra de Goethe, por sua vez, Fausto será uma personagem mais serena. Ao escrever essa segunda parte, Goethe estava mais velho e deixara de lado o romantismo dos tempos de Os Sofrimentos do Jovem Werther.  O segundo Fausto vai abandonar decisivamente a estrutura teatral, a progressão e tensão dramáticas, para se converter num vasto poema dialogado. No final da obra, Fausto consegue obter sua própria redenção, após descobrir que através de seu poder boa parte da humanidade poderia ser beneficiada. A mudança de rota do segundo Fausto não suprimiu o maior sucesso da primeira versão romantizada, a qual teve montagens teatrais mais frequentes.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/29147/17/fausto-de-goethe-uma-poema-dramatico-com-sede-de-saber-e-de-vida

sábado, 4 de junho de 2016

FRIEDRICH HÖLDERLIN E SEUS POEMAS DA ERA PRÉ-ROMÂNTICA – PARTE I

Hölderlin, poeta fundamental da História alemã e mundial, mostra à posteridade duas frentes para a análise de sua poesia. O poeta Hölderlin pode ser encarado como um emissor do fenômeno de seu tempo e de seu país, ele que foi o contemporâneo dos pré-românticos alemães do Sturm und Drang, e que com eles contrapôs o entusiasmo do gênio criador e apaixonado ao status conformado do bom gosto, a espontaneidade do estado natural de Rosseau às afetações da sociedade aristocrático-burguesa, as demandas do sentimento aos limites do despotismo da razão, ao mesmo passo em que fazia tinha na Natureza um fenômeno central e absoluto, como suprema potência criadora e destruidora, de cujas instâncias seriam, todas elas, outras tantas manifestações do Divino, colocando a Natureza num pedestal celeste e sobrenatural, no idealismo que parte de Rosseau para um panteísmo de fusão com tudo que é natural, há este Hölderlin que parte da Grécia Antiga e se funde à Natureza.
Outro aspecto, este histórico, é o de que Hölderlin, na sua obra, tem um papel sui generis na evolução literária da Alemanha, pois ao pré-romantismo não se seguiu, de imediato, como poderia parecer, o romantismo propriamente dito, mas sim um classicismo revigorado e renovado, que envolvia vultos como Schiller e Goethe, e que teria a sua sede espiritual no principado de Weimar. Como esses dois fanáticos da Antiguidade clássica, Hölderlin também cultuou a Grécia como um ideal de arte e de vida, sem deixar de lado, e atuando, simultaneamente, na sua valorização e exaltação da cultura alemã, a qual se afirmava então com bastante vigor na literatura, na filosofia, na teoria estética e em toda investigação erudita.
E quando se ousa chamar Hölderlin de antecipador do moderno, isto se dá na perspectiva histórica que foi adiante a partir dele, ou seja, a importância do poeta e sua influência nos tempos posteriores de sua obra. Hölderlin atua como inovador que, sem deixar de estar ligado à sua circunstância histórica, nesta dupla frente de Antiguidade clássica e cultura alemã, conseguiu se projetar além desta circunstância na direção do futuro para anunciar os vindouros caminhos da poesia do Ocidente. Hölderlin não antecipou apenas o estilo rítmico de um Nietzsche, a lírica de um Verlaine, um Baudelaire e um Swinburne, mas tudo o que hoje forceja por encontrar a poesia mais moderna.
E de acordo com Wilhelm Dilthey, um dos primeiros críticos alemães a perceber a grandeza de Hölderlin, o poeta contrapôs “poesia e história, linguagem e sociedade” e ao ver na poesia o “ponto de interseção entre o poder divino e a liberdade humana, o poeta como guardião da palavra que nos preserva do caos original”, antecipou ele, também, no dizer de Octavio Paz, “os temas centrais da poesia moderna”. E Hölderlin teve também, como influências literárias, escritores como: Klopstock, Schiller, Young e Ossian, autores canônicos do pré-romantismo então vitorioso.
A vocação poética de Hölderlin começa já então sob a influência de suas leituras de Platão, nas quais ele se afastava cada vez mais da fé protestante. Os poemas dessa fase traem o magistério de Klopstock, o que inclui não somente o uso dos metros antigos, como nas referências religiosas e nas invocações patrióticas, mas também o gosto pela pintura de paisagens melancólicas banhadas de luar e por devaneios amorosos repassados de notas tumulares, lugares poéticos exaltados e abissais em que deixa claro o magistério de Ossian e Young. Mas a influência da lírica ideológica de Schiller é que irá levar o jovem Hölderlin à conquista de uma dicção própria, na qual o “ritmo interior”, caracterizado por Dilthey como aquele “que exprime o desenvolvimento do processo anímico através da ordenação e combinação de períodos” e que se sobrepõe à regularidade da métrica convencional, conduzirá ao “estilo rítmico”, que o mesmo Dilthey tem por distintivo da lírica hölderliniana, nele vendo inclusive uma antecipação dos rumos futuros da poesia europeia.
O tema de “Os carvalhos”, por sua vez, apresenta o contraste entre a natureza domesticada dos jardins, que é símbolo usual do espírito rococó, e a natureza titânica das florestas, como tal cultuada pelo espírito pré-romântico de forma quase mística. No poema de Hölderlin, à livre individualidade natural dos carvalhos, “um mundo cada um de vós, (...) cada qual um deus” se opõe a escravidão da civilização, a “vida gregária” de que o próprio poeta aspirava a libertar-se. Mas não podia, pois o poeta se encontrava preso pelos “laços do amor” – o amor de Diotima-Susette que o fazia resignar-se à condição servil de preceptor, olhado de cima pelos frequentadores da casa do banqueiro Gontard. Ou seja, o aspecto biográfico e simbólico se fundem numa mesma música neste poema, e que Diotima como Susette será grande vulto nestes conhecidos poemas que comporão o chamado Ciclo de Diotima.
O ímpeto ascensional dos carvalhos se torna essência em “Ao éter”, que nos dá a medida do que pretendia o “politeísmo da imaginação e da arte” proposto no “Programa” de 1795, o primeiro programa do idealismo alemão, feito por Schelling, mas com orientação decisiva de Hölderlin. O éter, em grego aither, tem a acepção de “céu” em Homero, de “ar” em Empédocles e de “o elemento divino da alma humana” em Filóstrato, feito divindade alegórica, surge na Teogonia de Hesíodo como um dos filhos da União entre o Ar e o Dia, juntamente com a Mãe-Terra e o Mar. Trata-se, pois, não de um verdadeiro mito ligado ao sistema religioso arcaico, e sim de uma elaboração filosófica, mais bem adequado, por isso mesmo, ao tipo de “nova mitologia da razão” sonhada por Hölderlin. O éter sempre aparece como algo onipresente em toda a atmosfera universal, tal como um fluido em que se cerca a realidade natural e do universo. Tal tem sentido tanto místico como puramente físico.
Diotima: poema escrito na época ditosa de sua ligação com Susette Gontard; nele, como em outros de igual título que também inspirou, ela aparece sob o seu cognome platônico, tal que é a sábia de O Banquete. Escrito em dísticos elegíacos, um verso de seis pés seguido de outro de cinco, nos quais ainda se trai a influência de Klopstock, a estrutura ternária do poema se ostenta na oposição da tese – a “antiga natureza do homem”, que pode ser tanto a do homem natural de Rosseau quanto a do ateniense de outrora, saído “belo de corpo e alma” das mãos da própria Natureza – com a antítese da “agitação dos tempos” de derrocada do Antigo Regime vividos pelo poeta e sua musa. Esta surge como intermediadora entre os imortais e os mortais, pois vem trazer aos últimos “os tranquilos acordes do céu” que vão instaurar a síntese – o reinado da utopia, a nova idade de ouro, sob a égide não mais do terror e sim da paz. O Ciclo de Diotima, por sua vez, será uma das fases de abertura de toda a poesia de Hölderlin, que se dá de forma promissora e que, ao fim, culminará na sua fase decadente dos poemas de loucura, o que tratarei adiante nesta série.

(DO CICLO DE DIOTIMA – 1795-1798)
OS CARVALHOS
Saindo dos jardins, vou até vós, oh! filhos da montanha;
Dos jardins onde, paciente e caseira, a Natureza convive
Com os homens diligentes, cuidando e sendo deles cuidada.
Mas vós vos ergueis, altivo povo de Titãs, em meio
A mundo mais dócil, só de vós mesmos dependentes,
E do céu que vos nutriu e educou, e da terra que gerou-vos.
Nenhum de vós frequentou jamais a escola dos homens;
Jubilosos e livres, desde a robustez das raízes,
Vos lançais para o alto, em tropel, com braço vigoroso
Conquistando o espaço, como a águia à presa, e para as nuvens
Voltando as vossas copas amplas, joviais, ensolaradas.
É um mundo cada um de vós; como os astros do céu,
Viveis em livre associação, cada qual um deus.
Tolerasse eu ser escravo, jamais invejaria
Essa floresta e me sujeitaria à vida gregária.
Não estivesse meu coração cativo dessa vida
E do amor, quanto me agradaria viver à sombra vossa!

AO ÉTER

Ninguém, entre os homens e os deuses, foi-me tão fiel
E bom como o foste, Pai Éter; antes já que minha mãe
Me tomasse nos braços para aleitar-me em seu seio,
Tu me enlaçaste com meiguice e me verteste no peito
Infante a poção do céu e no ouvido o sacro sopro teu.

Não é só de alimento terrestre que vivem os seres,
Mas és tu que os nutres a todos com teu néctar, Pai!
De tua fonte sempiterna corre e flui por todos
Os condutos da vida teu ar vivificante.
Por isso os seres te amam e forcejam para o alto,
Buscando-te o tempo todo em ditoso crescimento.

Celeste! não te procura a planta com seus olhos,
E o arbusto rasteiro não te estende os braços tímidos?
Para encontrar-te é que a semente reclusa rompe a casca;
Por ti vivificada, e para banhar-se em tuas vagas,
É que o bosque sacode de si, roupa excessiva, a neve.
Os peixes também sobem à tona e saltam anelantes
Por sobre o espelho do rio, como que fugindo
Do seu berço para ti; os nobres animais terrestres
Amiúde ganham asas quando a ânsia impetuosa,
O secreto amor por ti, os impele para cima.

O soberbo corcel desdenha o chão; aço em arco, busca
Com o pescoço as alturas, mal toca a areia com os cascos.
Como a brincar, o pé do gamo roça o talo de relva
E transpõe, zéfiro, o riacho a espumejar impetuoso,
Saltando-o uma e outra vez, visível a custo entre os arbustos.
Mas os favoritos do Éter, os pássaros ditosos,

Vivem e brincam no sempiterno pórtico do Pai!
Há lugar para todos. De nenhum a senda está marcada.
Pequenos e grandes se movem livres pela casa.
Alegra-me tê-los sobre a cabeça, e o coração,
Num prodigioso anseio, voa até eles; pátria amável,
O Éter me chama lá do alto, e aos cimos dos Alpes
Eu quisera subir para gritar à águia apressada
Que, como outrora o menino eleito aos braços de Zeus,
Me levasse do cativeiro ao pórtico celeste.

Néscios, vagamos de um para outro lado; como a vide
Errante que, sem esteio, cresce no rumo do céu,
Alastramo-nos pelo solo e, extraviados, em vão
Vagamos pelas zonas da Terra, oh meu Pai Éter!
Anseios de morar no teu jardim conosco vão.
Às ondas do mar nós nos lançamos, em planícies mais livres
Fartamo-nos, e brinca a infinda vaga com a nossa quilha
E se alegra o coração com o poder do deus do mar.
Mas isso não basta, oceano mais fundo nos seduz,
Onde a vaga se move mais ligeira – oh! quem pudesse
Às costas de ouro impelir o nosso barco errante!

Mas enquanto anseio por essas lonjuras esfumadas,
Onde tua vaga azul envolve as praias ignotas,
Múrmuro, do alto das árvores floridas do pomar,
Vens tu mesmo, Pai Éter, aplacar-me o coração,
E, propenso como outrora, vivo entre as flores da Terra.

DIOTIMA

Vem, oh delícia da celeste Musa, tu que os elementos
Outrora irmanaste, vem acalmar o caos do tempo;
Com os tranquilos acordes do céu, amansa a luta irada
Até no peito dos mortais a discórdia apagar-se
E a antiga natureza dos homens, imponente, serena,
Ressurgir, força e júbilo, da agitação dos tempos.
Volta, vívida beleza, aos carentes corações do povo!
Volta de novo à mesa hospitaleira, volta ao templo!
Pois, tal como as tenras flores de inverno, Diotima vive
Rica do seu próprio espírito, mas buscando o sol.
Todavia, o sol do espírito, o mundo mais belo se foi
E na fria noite raivam somente os furacões.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:   

  http://seculodiario.com.br/29028/17/friedrich-holderlin-e-seus-poemas-da-era-pre-romantica-parte-i

domingo, 29 de maio de 2016

OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER, ROMANCE EPISTOLAR DE GOETHE

“o herói romântico tem a sua nêmesis plantada por si mesmo ao, no prazer do amor, traduzi-lo em puro sofrimento”

INTRODUÇÃO
Para Goethe, o amor por Charlotte fora breve, mas inspirou-lhe um romance, “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, publicado anonimamente em 1774. A história de Werther comoveu uma geração inteira. A juventude imitava o sôfrego personagem, vestindo calças amarelas e coletes azuis, e suicidando-se por amor, como o herói. A infelicidade tomou os corações, e o amor e a morte, temas da poesia, do teatro e da vida, converteram-se no binômio mais corrente da época. Goethe ficou conhecido internacionalmente como o “autor de Werther”, epíteto que o acompanhou durante muitos anos, até ele se tornar o “autor de Fausto”.
“Os Sofrimentos do Jovem Werther” é um retrato perfeito da era pré-romântica alemã na literatura e na arte, e que já era uma anunciação do que viria a ser o manifesto artístico Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto) que era sobretudo o movimento literário que abriria o caminho para o que viria a ser o romantismo alemão logo a seguir. Tal epíteto vinha da obra de Maximilian von Klinger, Tempestade e Ímpeto, um drama, e que exprimiria de maneira exemplar a nova mentalidade entre os jovens literatos alemães, os quais se libertariam das amarras do classicismo reinante, sobretudo nas dimensões estanques do tempo e do espaço do teatro, com um cheiro de liberdade criativa que teria amplitude semelhante ao que fora, em tempos atrás, o teatro elisabetano.
ESTÓRIAS DE AMOR E DE PAIXÃO
A estória de paixão, amor e decadência perpassam o ímpeto e sofreguidão do jovem Werther ao ser acometido de um amor impossível por sua adorada Carlota, percurso que começará no céu do amor novo e que logo cairá no desespero final de um inferno que Werther cava com as próprias mãos ao se obsedar por algo que já estava como ruína, ao ver que Carlota tinha um noivo.
Werther tinha uma amplitude intelectual, era, de certo modo, um literato, lia muito Homero, cairia de amores por Ossian, mas seu amor fatal seria Carlota, que o tinha por estima, mas que era aquela espécie brutal para um apaixonado, a clássica relação fraternal em que o jovem vê nela sua atenção, energia e vida inteiras, o impulso do amor eterno que, quando dá errado, é o inferno eterno, e isto como disse se dá de maneira muito previsível, pois, adivinhem, Carlota só poderia considerar Werther como a um irmão, ruína maior e mais brutal do enamorado clássico, aqui no contexto pré-romântico alemão, mas já podendo se dizer que Werther já era da cepa do herói romântico, vítima da desdita, e feitor de sua própria tragédia.
No início do romance podemos ver que o jovem Werther ainda carregava em si uma doce iluminação, o que levaria ao seu amor eterno, mas que seria, por outro lado, tal iluminação a fonte de seu desespero. Posteriormente, podemos ver nas suas primeiras cartas deste romance epistolar, no qual ele se dirige ao seu amigo e irmão Wilhelm: “A vida humana não passa de um sonho. (...) Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência (...) Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas.” Aqui Werther dá a sua imagem de ser iluminado, quase extático, admirador da natureza, espírito romântico, ainda de bem com a vida, mas já presente no seu conflito com os hábitos humanos, natureza espiritual sem senso prático, como é comum aos iluminados, e que de luz e céu constantes, ainda não sabia que flertava com o abismo.

O CÉU E O INFERNO
Tal céu de abismo podemos ver nas suas primeiras impressões em relação ao seu novo amor, Carlota: “Sinto-me contente, feliz (...) É um anjo! (...) é-me impossível dizer a você o quanto ela é perfeita (...) Só isto basta: ela tomou conta de todo o meu ser. (...) (E a prima dela avisa) : _ Não vá apaixonar-se. __ Por quê? __ Porque ela já está prometida a um belo rapaz. Ele está de viagem, a fim de regularizar os seus negócios, pois acaba de perder o pai. E também para arranjar um bom emprego.
E Werther apenas diz: Tudo isso deixou-me indiferente. (Carlota era a moça). E prossegue: “Enquanto ela falava, como eu me deleitei em fitar os seus olhos negros! Como toda a minha alma era atraída pelos seus lábios cheios de vida, suas faces frescas e animadas! Quantas vezes, absorvido em minha admiração pelo sentido das suas frases, sequer cheguei a ouvir as palavras de que ela se servia!”. Aqui temos um Werther hipnotizado, sem senso crítico, todo seu ardor, toda a sua alma, agora tinha uma ocupação exclusivamente romântica, sua idealização de seu objeto de amor será a fonte de sua felicidade inicial, mas que terá um preço, já anunciado na presença do noivo de Carlota, o contido e sóbrio Alberto.
Numa dança, Werther já delira, simulando seu ciúme, com tais ideias: “jurei a mim mesmo que, se amasse uma jovem e tivesse qualquer direito sobre ela, preferia fazer-me matar a consentir que ela valsasse com outro”. E Carlota se dirige a Werther: “Alberto, um belo rapaz, é meu noivo faz pouco tempo.” E Werther volta-se ao seu interlocutor epistolar: “Meu caro Wilhelm, arquitetei toda sorte de reflexões a respeito do desejo que o homem sente de dilatar o seu horizonte, fazendo novas descobertas, errando a aventura e, além disso, a respeito do sentimento que o leva a acomodar-se numa existência limitada, e a caminhar com os antolhos do hábito”, e diz de Carlota: Ela me censurou o interesse apaixonado que tomo por todas as coisas e que acabará – disse – por me consumir!” De fato, um espírito demasiado impressionável como o de Werther poderia ter um futuro brilhante ou um fim trágico, dependendo de sua evolução, e do andar de sua natureza excessiva para um tipo de austeridade ou pelo caminho oposto da autodestruição, em que seu excesso de ser curioso e impressionável volta-se contra si mesmo como uma nêmesis pelo seu descuido dos sentidos, isto é, a morte ou a loucura.
WERTHER E SUA OBSESSÃO
E a obsessão de Werther já era clara, todas as suas reflexões refinadas tinham um endereço único, e o perigo já se avizinhava, como podemos ver na continuação de suas cartas: “Ali estava sem outro pensamento que não fosse para ela! (...) Não, meu coração não é assim tão corrompido! Ele é fraco, sim, bem fraco! (...) Ela me é sagrada. Todo desejo emudece em sua presença. Não sei o que sinto quando estou junto dela; é como se toda a minha alma estivesse subvertida.”
E segue, diante da visão de sua musa: “Nada do que os antigos contam sobre o poder sobrenatural da música me parece inverossímil. Como esse pequeno canto toma conta de mim. E como ela sabe fazer-se ouvir a propósito, sempre no momento em que me vem vontade de meter uma bala na cabeça! ... O delírio e as trevas se dissipam na minha alma e respiro mais livremente.” Nestes trechos já podemos ver os ecos sutis de seu fim trágico, de forma que suas cartas já demonstram, nesta altura, seu pendor de coração fraco e impressionável, mas que está num prazer quase místico na sua adoração de Carlota como a uma deusa, ou melhor, como um anjo ao qual ele deve toda a sua alma e devoção, sua natureza, como ele mesmo diz, está subvertida, e a música é mais um pretexto para a sua idealização que ganha agora contornos visionários.
E segue o romance epistolar, e a febre de Werther só aumenta, seu temperamento joga contra ele mesmo, e a presença de Alberto seria sua ruína terrível: “Vou vê-la! Foi esta a minha primeira exclamação desta manhã, quando me levantei e meus olhos procuraram alegremente o sol. Vou vê-la! E, durante o dia inteiro, não tive outro desejo. Tudo, tudo foi absorvido por essa perspectiva.” Dá para ver que Werther não tem mais outra ocupação para o seu coração, sua vida prática, por sinal, passava por uma experiência de trabalho com um embaixador, mas Werther pede exoneração depois de ser discriminado pela alta sociedade.
E Alberto aparece como uma verdadeira senha que o infortunado Werther era, àquela altura, incapaz de decifrar: “Todavia, não posso recusar minha estima a Alberto. Sua calma exterior contrasta vivamente com o meu caráter inquieto (...) Eis o que você me disse (dirigindo-se a Wilhelm): ‘Ou você tem alguma esperança de obter Carlota, ou não tem. Assim, no primeiro caso, faça todo o esforço para realizar essa esperança e chegar ao cumprimento dos seus votos; no segundo, tome uma resolução viril, procurando livrar-se de um sentimento funesto que consumirá inevitavelmente todas as suas forças’
WERTHER E SUA ARMADILHA
E segue Werther nas cartas, se enredando na sua própria teia: “Não compreendo que outro a ame, que outro tenha o direito de amar essa criatura, quando eu a amo, eu somente, de um amor tão ardente, tão completo! Quando não conheço ninguém, não sei nada, não possuo outra coisa a não ser Carlota! (...) Ai de mim! Que vazio horrível sinto em meu peito! Quantas vezes digo a mim mesmo: Se você pudesse uma vez, ao menos uma vez, apertá-la contra o coração, esse vazio seria preenchido. (...) Quantas vezes tenho vontade de rasgar o peito e estourar o crânio vendo que somos tão pouca coisa uns para os outros! Ah! O que trago em mim de amor, alegria, calor e embriaguez só de mim depende, não me poderá ser dado por outrem, e o coração transbordando de felicidade, não poderei fazer feliz esse outrem, se ele permanece frio e sem força diante de mim. (...) Tenho-a toda em mim, e o sentimento que experimento por ela absorve tudo. Tenho-a toda em mim, e sem ela tudo é para mim como se não existisse.”
E Werther, aqui, cai na armadilha mais que conhecida de ser o único no mundo capaz de amar Carlota como ele (por suposto) poderia amá-la, e a senha principal do enamorado, de que ele queria fazê-la feliz, código apaixonado que não reconhece, por estar com os sentidos comprometidos, de que o egoísmo da felicidade sempre parte do apaixonado e não para o objeto da paixão, no caso.
 E já no final do processo desta paixão de Werther, ele já não se sente tão bem como no começo, já dá sinais de fadiga, e parte para o seu fim trágico: “sinto-me profundamente infeliz. Oh! Se eu pudesse mudar de humor, entregar-me ao tempo, a isto ou aquilo, ao insucesso de uma inciativa qualquer, ao menos o fardo dos meus aborrecimentos não pesaria tanto. Que desgraçado que sou! Sinto-me perfeitamente o único culpado”. Werther não tem mais tempo para outra coisa, e talvez esta sua obsessão lhe roubara o tempo útil em que ele poderia, como a própria Carlota advertiu, por exemplo, de buscar outra moça para os seus préstimos românticos. O que não ocorreria neste romance de Goethe, cujo final deixo em aberto, mas que já deve estar subentendido pelo leitor.

TRAGÉDIA
Werther entra então em sua filosofia do desespero: “Não, não sou culpado, mas é em mim que está a fonte de todos os meus males, como outrora a fonte de toda a minha felicidade. Não serei mais o homem que então nadava num mar de rosas, e a cada passo via surgir um paraíso, e cujo amor era capaz de abranger o mundo inteiro? Mas o coração que assim pulsava está morto, não produz mais os arrebatamentos de outros tempos; (...) Como a sua imagem me persegue! Quer vele, quer sonhe, ela enche a minha alma inteira!” Werther, por fim, não é vítima de Carlota, ele é presa de seu pendor desmedido, o herói romântico tem a sua nêmesis plantada por si mesmo ao, no prazer do amor, traduzi-lo em puro sofrimento, os sofrimentos do jovem Werther.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/28915/17/os-sofrimentos-do-jovem-werther-romance-epistolar-de-goethe 


domingo, 22 de maio de 2016

W.B.YEATS, O MAIOR POETA DE LÍNGUA INGLESA DO SÉCULO XX – PARTE IV

“Yeats, além da sabedoria, conquistou e construiu uma obra inigualável, romântica e moderna”

Chegamos enfim aos poemas da grande fase da maturidade, contidos principalmente nos volumes A Torre (1928) (já citado na matéria anterior) e A escada em espiral e outros poemas (1933). Neste livro, Yeats, já com um fôlego renovado e outra abordagem de poesia, sentiu a necessidade de reformular os pontos de vista expressos em “Velejando para Bizâncio”, e o resultado foi “Bizâncio”, onde o antigo ideal é apresentado com viés espiritual, ao contrário de suas preocupações estéticas do período anterior.
Neste poema “Bizâncio” temos uma perspectiva que se apresenta como algo além, isto é, o mundo após a morte, simbolizada pelo “grande gongo em catedral”. Reproduzindo fielmente os elementos do poema anterior, Yeats faz a descrição do contato da alma desencarnada com os instrutores do além (“paira uma imagem ante mim, homem ou sombra”), e ainda temos a perfeição da beleza (novamente relacionada com o pássaro dourado) e a purificação da consciência (“um flamejar que nem sequer chamusca a manga”).
Mas, no final, o poeta exulta não com o mundo espiritual, mas sim comunga junto ao  mar que parece querer invadi-lo, que é o mar do tempo, atormentado pelo “gongo” da vida a anunciar a reencarnação, eis o tempo como ciclo, ruptura, viagem. E aqui, também, a valorização do conflito, “das complexidades que há no sangue ou lama”, uma fonte inesgotável de confronto demasiado humano, muito distante do ideal espiritual, que nos coloca mais jogado ao mar do que num sossego paradisíaco, pois tanto o mar como as chamas da consciência nos dão a vida como ela é, no velho confronto de Yeats entre sonho e realidade, que conduziu grande parte de sua obra de poesia.
O surpreendente em Yeats nessa sua idade final é o apego à vida, demonstrado em seus estudos (como o súbito interesse pela poesia profana de John Donne), nos seus escritos e no seu cotidiano. Sua abordagem do sexo fica mais patente, refletindo-se nos Últimos poemas (1936-9). Nesses versos, caracterizados pela inteligente fusão da linguagem coloquial com a literária, e pela estrutura que se dá em seções fragmentárias unidas, como também fazia T.S.Eliot, se tem uma ligação de elos mais psicológicos que lógicos, com o tema predominante da “alegria trágica” que permeia a condição humana, forma de tragédia, que começa a sentir o rocio da morte, um sopro que afirma vida, mas que já está no estertor, e quando vem a morte em hora boa, não ruim, o poema se dá mais vida como nunca antes.
Assim, no ilustre poema “Lápis-lazúli”, o poeta contrapõe à atitude histérica diante do eclodir da destruição do mundo pela guerra, que estava iminente, à atitude tranquila e serena dos grandes artistas plásticos, escritores e músicos. A arte reagia com canto e encanto diante do pavor da guerra, e o poema faz este contraponto entre a histeria do senso comum com a placidez de uma arte que progredia. Em todas as artes, como o ilustram as tragédias de Shakespeare, a história das esculturas de Calímaco e a melodia imaginária sugerida por uma delicada peça chinesa em lápis-lazúli, o que sobressai não é a dor da destruição, mas a alegria do eterno recriar.
E a realidade é o assunto em “A deserção dos animais do circo”, em que, declarando-se abandonado pelos velhos temas, onde Yeats já havia feito a sua transição poética, e faria logo a seguir a sua transição final para o mundo dos mortos, tais velhos temas – que são seus ‘animais de circo’ – Yeats os vai recapitulando, remonta em boa-nova imagens antigas. E no meio do processo, descobre o segredo de seu ato criador, o qual leva do real ao sonho, do sonho ao símbolo, e assim por diante, até que a obra adquira autonomia, sua poesia progride para fora, sai de seu casulo antigo e cai e levanta novas imagens, a fronteira final do símbolo recria a sua poesia de modo que sua maturidade de poeta experimentado vem à tona, não era mais o mundo do sonho somente, era toda uma estrutura consolidada para fazer de seu canto poético suas palavras finais em seu Últimos poemas.
Mas sua partida é sempre o lugar pouco inspirador no qual o poeta se vê e se descreve no momento, o seu único momento, de fato: a feia realidade cotidiana, a “loja de osso e trapo da emoção”. É daí que partem todas as suas escadas; é daí que o homem começa a elevar-se na direção de todos os ideais, o mundo como ideia precisava de um escadaria ascensional para fazer poesia, mas Yeats sabia, muito bem, em nunca ter negligenciado as portas que também se abrem no seu cotidiano.
Com esse poema, dir-se-ia que o círculo se fechou e que Yeats, de volta ao ponto de partida, está pronto para sair outra vez em busca do sonho, Yeats move um círculo entre ideia e mundo, e a poesia participa deste viés cindido o tempo todo, não só Yeats. Mas não de todo verdadeiro, também esta evolução não se fez em círculo, mas em espiral, o movimento hipnótico também participa deste fazer poético, daí a imagem de Yeats com escadas e espirais, na fronteira entre o mundo espiritual, o mundo do sonho, o mundo real e o mundo cotidiano, que eram nada mais que o trânsito do poeta por estes mundos o tempo todo em sua vida e em sua poesia.
 Ao longo do itinerário, Yeats conquista a sabedoria. A sabedoria de quem descobriu o que a vida vale e, por isso, a aceita como ela é. Nada de muxoxos para quem tem talento e dom, nada de murmúrio para quem tem a vocação suprema. Foi um árduo trajeto, durante o qual, passando de conflito a conflito e de um estilo para outro, Yeats, além da sabedoria, conquistou e construiu uma obra inigualável, romântica e moderna, atual e permanente, cujo simbolismo abrange tanto a Irlanda como o mundo, abrangendo, nesta aventura, o indivíduo e toda a humanidade. Uma obra que lhe garante o lugar de maior poeta da língua inglesa no século XX, e um dos maiores em todos os tempos. Yeats cria sua história, e faz História.

BIZÂNCIO

Toda imagem do dia, impura, se desfaz;
Embriagada a Imperial Guarda dorme em paz;
Da noite o ecoar se esvai, notívago coral
Após o grande gongo em catedral;
Em estelar ou lunar cúpula há desdém
Por tudo da humanidade,
A mera complexidade,
A fúria e a lama que nas veias o homem tem.

Paira uma imagem ante mim, homem ou sombra,
Mais sombra que homem, mais imagem do que sombra;
Pois com faixas de múmia o carretel
De Hades estende a estrada em espiral;
Pode uma boca sem alento e ressequida
Convocar bocas sem alento;
O sobre-humano eu cumprimento;
E chamo-o vida-em-morte e morte-me-vida.

Milagre, pássaro ou dourado artesanato,
Mais milagre que pássaro ou artesanato,
Sobre o galho estelar dourado ele se planta
E como os galos de Hades então canta,
Ou, amargo da lua, em alta voz difama
Em glória de eterno metal
Pétala ou ave normal,
E essas complexidades que há no sangue ou lama.

À meia-noite, risca o chão do Imperial Paço
Flama a fulgir que não inflamam lenho ou aço,
Nem tormenta perturba; é flama de outra flama,
Que espíritos do sangue a si conclama;
E estes, sem mais complexidades de ódio ou zanga,
Morrem aos poucos numa dança,
Em uma agonia de transe,
De um flamejar que nem sequer chamusca a manga.

Montada sobre a lama e o sangue do golfinho,
Alma após alma vem! Quebram o torvelinho
As áureas forjas imperiais com sua pujança!
Quebram os mares da pista onde se dança
Esse ódio da complexidade, amargo e longo,
As imagens que no seu lugar
Novas imagens vêm gerar,
O mar que o delfim rasga e que atormenta o gongo.

LÁPIS-LAZÚLI
(Para Harry Clifton)

Dizem que histéricas mulheres têm horror
A esses poetas sempre na alegria,
A violino e paleta de pintor,
Pois todo mundo sabe (ou deveria ...)
Que, se nada de drástico for feito,
Zepelim e aeroplano nos invadem
E suas bombas de Rei Billy deitam
Até que arrasem a cidade.

Cada qual desempenha a sua tragédia:
Lá vai Lear, aqui Hamlet se empertiga;
Aquela é Ofélia, esta é Cordélia.
Quando, porém, a última cena chega,
Quando a cortina está para tombar,
Só quem o seu papel não avalia
Corta a declamação para chorar.
Existe em Lear e Hamlet alegria,
E essa alegria ao medo transfigura.
Todos nós encontramos e perdemos;
Vão-se as luzes; na mente o Céu fulgura:
É a tragédia levada a seus extremos.
Embora Hamlet rosne e Lear se irrite
E o pano caia sobre todo drama
Que há nesses palcos todos sem limite,
Não cresce ela um milímetro ou um grama.

Vieram de navio, a pé, montadas
Em camelo, em cavalo, em asno, em mula,
As civilizações mortas a espada.
Sua sabedoria então se anula:
E nenhum artefato de Calímaco,
Que o mármore tratou como se bronze fosse
E cujo drapejar se erguia anímico
Como ao sopro da brisa, permanece;
Sua manga de candeeiro, lembrando hastes
Tênues de palma, só durou um dia;
Todas as coisas caem e são repostas,
E quem as reconstrói sente alegria.

Talhados em lápis-lazúli,
Dois chineses, e um outro mais distante;
Em cima ave pernalta, que se isola
E que a longevidade representa;
O terceiro, sem dúvida um criado,
Carrega um instrumento musical.

Na pedra cada ponto descorado,
Cada ranhura ou fenda acidental,
Parece alude ou rio que se despeja,
Ou declive altaneiro em que ainda neva,
Embora a ameixa adoce, ou a cereja,
A casinha para onde a estrada leva
Pela encosta os chineses, enquanto eu
Os imagino enfim sentados lá;
Lá, fitam eles a montanha e o céu,
E a cena trágica que em torno está.
Uma hábil mão começa a dedilhar,
Pois alguém pede triste melodia.
Seu olhar enrugado, seu olhar,
O antigo olhar, cintila de alegria.

A DESERÇÃO DOS ANIMAIS DO CIRCO

1
Busquei um tema que não foi achado;
Por seis semanas procurei, ou mais.
Talvez eu pare enfim, velho e alquebrado,
Mesmo sabendo que meus animais,
Verão e inverno, até chegar a idade,
Tenham estado todos em cartaz:
Jovens pomposos, reluzente biga,
O leão e a mulher, e Deus que o diga.

2
Que mais que velhos temas lembraria?
Primeiro Oisín, levado de roldão
Por ilhas e visões de alegoria,
Prazer vão, luta vã, repouso vão,
Temas do amargo coração, diria,
Próprios de verso antigo e cortesão;
Mas que importava a mim que o pus na estrada
E só queria o peito de sua amada?

E A condessa Cathleen desponta agora
Com a contraverdade a encher a peça;
Louca de pena, joga sua alma fora,
Embora o Céu imperioso o impeça.
Com todo o fanatismo que a devora,
Julguei meu bem capaz de ação como essa,
E isso gerou um sonho e, de repente,
Ocupou-me tal sonho o amor e a mente.

E quando o pão roubaram Cego e Idiota,
Cuchulain combateu o mar medonho;
Mistérios que há no coração; de fato
Encantou-me, porém, o próprio sonho:
Um caráter marcado por um ato
Que ergue o presente e que a memória ganha.
Palcos e atores foram meus problemas,
Não as coisas de que eram os emblemas.

3
Se a imagem imperiosa, em si completa,
Cresce na mente, de onde é originada?
De rua suja e monte de detrito,
Lata velha, chaleira arrebentada,
Ferro, ossos, trapos, a rampeira abjeta
A controlar a caixa. Sem a escada,
Fico onde toda escada sai do chão,
Na loja de osso e trapo da emoção.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/28829/17/wb-yeats-o-maior-poeta-de-lingua-inglesa-do-seculo-20-parte-4


segunda-feira, 16 de maio de 2016

A FÊNIX ISLAMISTA PELO OLHAR DE LORETTA NAPOLEONI

''Não surpreende, portanto, que muitos sunitas iraquianos vejam al-Baghdadi e o Estado Islâmico como uma Fênix Islamista, renascida das cinzas da jihad de Abu Musab al-Zarqawi''
 
SURGIMENTO DO ESTADO ISLÂMICO E NOMENCLATURAS
A escalada do poder da organização armada que, em junho de 2014, adotou o nome de Estado Islâmico foi rápida. Nos últimos anos, esse grupo mudou de nome várias vezes. Originalmente parte da organização al-Tawhid wal-Jihad, comandada por Abu Musab al-Zarqawi, tornou-se depois o Estado Islâmico do Iraque (EII), grupo que acabou se fundindo com a facção da Al-Qaeda no Iraque. Em 2010, quando Abu Bakr al-Baghdadi se tornou seu líder, o grupo voltou a usar sua antiga denominação de Estado Islâmico do Iraque. Em 2013, após uma fusão com um braço da Frente Jabhat al-Nusra, um grupo jihadista sírio filiado à Al-Qaeda, a organização mudou seu nome para Estado Islâmico do Iraque e do Levante (al-Sham), mais conhecido pelo acrônimo EIIL (ISIL ou ISIS, nas siglas em inglês). Por fim, pouco antes do anúncio da criação do Califado por seus líderes, e EIIL tornou-se o Estado Islâmico. Na Síria, contudo, desde o início e atualmente no Iraque também, o grupo é conhecido como al-Dawlat, ou o Estado.
Os muçulmanos consideram o Estado Islâmico original, o primeiro Califado, cuja criação se deu no século VII pela ação do profeta Maomé e seus companheiros, uma sociedade perfeita governada por um mandato divino. E o nascimento do moderno Estado Islâmico apenas um dia antes da proclamação do Califado, significa o alcance de um importante novo estágio na criação de um Estado nacional, o processo de recriação das circunstâncias que, no século VII, levou à busca do estabelecimento da sociedade islâmica ideal.
E a transição do Al-Tawhid wal-Jihad para o status de Estado Islâmico no Iraque coincidiu com a decisão do grupo armado de al-Zarqawi de concentrar esforços no Iraque para restringir sua jihad a esse país, para alcançar, logo adiante, o objetivo último da organização: a restauração do Califado, na intenção deste grupo de ser bem-sucedido na reedição do Califado do século XXI. Pela primeira vez desde a Primeira Guerra Mundial, uma organização armada está redesenhando o mapa do Oriente Médio configurado no passado por franceses e britânicos, o Estado Islâmico está apagando as linhas de fronteira determinada pelo Acordo Sykes-Picot, estabelecido em 1916.
A EXPANSÃO DO ESTADO ISLÂMICO
Hoje, a bandeira preta e amarela do EI tremula sobre um território maior do que o Reino Unido ou do Texas, uma região que se estende das praias mediterrâneas da Síria até o coração do Iraque, a área administrada pelos sunitas. Desde o fim de junho de 2014, essa região é conhecida como o Califado Islâmico, denominação que deixara de existir com a dissolução do Império Otomano pelas mãos do general Ataturk, em 1924. Quanto ao Estado Islâmico, o que diferencia essa organização de todos os outros grupos armados que a precederam – incluindo os que militaram durante a Guerra Fria – e o que explica seus enormes sucessos são a sua modernidade e seu pragmatismo. Além disso, seus líderes demonstram uma compreensão sem paralelo das limitações enfrentadas pelas potências contemporâneas num mundo globalizado e multipolar.
Por exemplo, o EI entendeu, antes que a maior parte de seus oponentes conseguisse fazê-lo, que uma intervenção estrangeira conjunta do tipo que realizaram na Líbia e no Iraque não seria possível na Síria. Foi nesse cenário que os líderes do Estado Islâmico conseguiram explorar em benefício próprio o conflito na Síria, uma versão contemporânea da guerra por procuração mantida por muitos patrocinadores de conflitos e grupos armados. Desejosos de uma mudança de regime na Síria, kuaitianos, catarianos e sauditas têm se mostrado dispostos a financiar uma série de organizações armadas, das quais o EI é apenas uma. No entanto, em vez de travar a guerra por procuração bancada por seus financiadores, o Estado Islâmico tem usado o dinheiro fornecido por eles para estabelecer seus próprios bastiões territoriais em regiões financeiramente estratégicas, como nos ricos campos de petróleo do Leste da Síria.
A ESTRATÉGIA DO ESTADO ISLÂMICO
Por baixo do verniz religioso e das estratégias terroristas, jaz, porém, uma máquina político-militar totalmente empenhada na criação de um Estado nacional com políticas sociais e de gestão que garantem uma coesão relativa da população. Para muitos, o principal objetivo do Estado Islâmico é ser para os sunitas o que Israel é para os judeus: um Estado instalado em seu antigo território, restaurando nos tempos modernos um poderoso Estado teocrático que os protege onde quer que eles estejam. O que leva, por conseguinte, a uma eficiente mensagem à juventude muçulmana desprovida de direitos, que sobrevive no vácuo político criado por fatores conturbadores e dissolventes, tais como a corrupção generalizada, a desigualdade socioeconômica e a injustiça reinantes nos modernos Estados islâmicos, tais como a ditadura cruel de Bashar al-Assad, a recusa do governo de Nuri al-Maliki de integrar os sunitas na contextura da vida política iraquiana e acabar com a perseguição imposta a eles pela máquina de opressão política de Bagdá.,Mensagem que também seduz os que vivem no exterior, a deserdada juventude muçulmana na Europa e na América.
Graças a uma ampla e profissional utilização de redes sociais, o Estado Islâmico criou também mitos falsos para fazer proselitismo, recrutamento e levantamento de recursos financeiros pelo mundo islâmico, tendo ainda uma máquina de propaganda usada para fabricar o mito de al-Baghdadi e do novo Califado. O Islã sustenta-se, ademais, no mistério da volta do Profeta. Assim, ao mesmo tempo que o EI aterroriza os ocidentais com trucidações de uma barbaridade chocante, o grupo leva seus aliados e financiadores muçulmanos a acreditar que o profeta voltou à Terra nas vestes carnais de al-Baghdadi. Usando o aguilhão da violência e os códigos legais da xariá, juntamente com a vergasta propagandística das mídias sociais e uma série de programas sociais populares destinados a melhorar as condições de vida da população sunita aprisionada no Califado, o EI revela o profundo pragmatismo de que é senhor.
A RESTAURAÇÃO DO CALIFADO
Nos últimos três anos, o Estado Islâmico obteve sucessos sem precedentes. Com meios brutais e fria sagacidade, ele pode alcançar o historicamente inalcançável: a reconstrução do Califado. No período posterior à Segunda Guerra Mundial, nenhum grupo armado conseguiu apoderar-se de um território tão grande. No auge de sua militância, a OLP, de longe a maior organização armada do Oriente Médio, controlava apenas uma fração das terras que o Estado Islâmico governa hoje. De modo geral, essa façanha é vista como consequência do conflito na Síria, considerada a incubadora de uma nova espécie de terrorismo.
Sem dúvida, em meio às dores de parto de uma guerra civil pós-Primavera Árabe e com as entranhas infestadas de insurgentes islâmicos, os acontecimentos na Síria proporcionam oportunas bases explicativas para a exclusão da ideia da existência de um elo comum ligando o Estado Islâmico aos atentados do 11 de Setembro e à invasão americana do Iraque em 2003. O Ocidente e o mundo se aferram à ideia de que a realidade terrível no Iraque e na Síria atuais não tem precedente histórico, que não somos responsáveis pelos correntes acontecimentos no Oriente Médio. Assim, em contraste com as determinadas e resistentes forças da Al-Qaeda no Afeganistão ou o exército suicida de al-Zarqawi no Iraque, o Estado Islâmico é retratado como uma nova espécie: uma organização capaz de gerar enormes recursos financeiros, atuando como uma multinacional de violências, comandando um exército vasto e moderno e bancando soldados perfeitamente treinados.
Portanto, ao contrário do Talibã ou da Al-Qaeda, o Estado Islâmico administra vastos recursos financeiros, gerados em parte pela anexação de centros de produção, tais como campos de petróleo e usinas elétricas espalhados pela Síria. A área em que o EI supera de fato organizações armadas do passado encontra-se na esfera das proezas militares, na manipulação das mídias, em programas sociais e, sobretudo, na construção de um Estado e formação de uma identidade nacional. Aliás, esses avanços provém da capacidade do Estado Islâmico de adaptar-se a um ambiente pós-Guerra Fria em rápida transformação.
Hoje, atuamos em um mundo multipolar de alianças instáveis, abundante em terrorismos bancados por algumas nações. Foi por isso que o Estado Islâmico conseguiu estabelecer seu Califado numa vasta região fervilhante de conflitos religiosos, financiados por várias nações patrocinadoras de guerras. Por conta dessa atitude ousada, ele vem enfrentando mais de um inimigo – os exércitos sírio e iraquiano, a Frente Islâmica, uma coalizão de grupos jihadistas, os rebeldes sírios e até milícias xiitas e as forças curdas Peshmerga, todos empenhados em lutas numa multiplicidade de frentes de combate.
PROCESSO HISTÓRICO
E Abu Musab al-Zarqawi, por sua vez, foi um dos mais brilhantes e enigmáticos estrategistas da jihad moderna, um homem que desafiou abertamente a liderança histórica da Al-Qaeda, e que, como veremos, reacendeu o antigo e sangrento conflito entre sunitas e xiitas para usá-lo como um fator tático fundamental para o renascimento do Califado. Já o conflito na Síria proporcionou uma oportunidade única, uma plataforma de lançamento, para os que haviam assimilado a mensagem de al-Zarqawi e que desejavam concretizar o sonho dele, entre os quais Abu Bakr al-Baghdadi, o novo Califa. E o salafismo é o credo adotado pelo Estado Islâmico.
Em 2000, em Candaar, Afeganistão, al-Zarqawi encontrou-se com Osama bin Laden pela primeira vez. Numa atitude ousada, o jovem jihadista recusou um convite do saudita para ingressar na Al-Qaeda. Al-Zarqawi não estava preparado para lutar contra os Estados Unidos, o inimigo de terras distantes. Ao contrário disso, ele queria empenhar-se na luta contra o inimigo próximo, o governo jordaniano, e fundar um Estado verdadeiramente islâmico na região.  Aliás, a entrada de al-Zarqawi na arena de luta iraquiana foi marcada pelos primeiros ataques suicidas no país.
Em agosto de 2003, muitos ocidentais acreditavam que o conflito no Iraque era, de um lado, uma luta bilateral entre forças de coalizão e seus aliados e, de outro, entre a milícia xiita de Moqtada al-Sadr e os fiéis seguidores de Saddam. Pelo movimento jihadista internacional, porém, a mensagem foi bem compreendida e assimilada. Al-Zarqawi havia sinalizado que o conflito no Iraque tinha duas frentes: uma contra as forças de coalizão e outra contra os xiitas. E sua principal tática terrorista eram missões suicidas.
Do fim de agosto de 2003 até dezembro de 2004, quando Osama bin Laden reconheceu-o oficialmente como o chefe da Al-Qaeda no Iraque, os jordanianos lideravam um grupo de jihadistas conhecido como Tawhid al-Jihad, cujo nome foi mudado mais tarde para Estado Islâmico no Iraque (EII, ou ISI, na sigla em inglês). Bin Laden, contudo, desaprovava a estratégia do EII de provocar uma divisão entre as insurgências de sunitas e xiitas, já que não compartilhava do receio de que um movimento de resistência nacionalista unificado pudesse surgir na condição de vitoriosa frente secular no Iraque, marginalizando assim os jihadistas.
Na primavera de 2004, o receio de al-Zarqawi foi confirmado quando a revolta xiita liderada por Moqtada al-Sadr despertou a admiração de insurgentes sunitas, que afixaram pôsteres do imã em muros das edificações de bairros sunitas. Pelo visto, Bin Laden estava errado. Foi nessa ocasião que os sauditas decidiram incorporar o grupo de al-Zarqawi à Al-Qaeda, batizando-o com o nome de Al-Qaeda no Iraque, para que se unisse a ela em sua guerra religiosa. Como emir da Al-Qaeda no Iraque, al-Zarqawi conseguiu atrair um número de seguidores e recursos suficientes para enfrentar as forças americanas, enquanto prosseguia com uma série implacável de atentados a bomba suicidas contra xiitas que estava empurrando o Iraque para a beira do precipício de uma guerra civil. Sua morte, num ataque aéreo americano em 2006, impediu a eclosão de um conflito religioso no Iraque e incapacitou temporariamente sua organização.
De 2006 em diante, porém, surgiu uma disputa pelo poder para a conquista do controle da Al-Qaeda no Iraque. Ao mesmo tempo, com o advento de um movimento que ficou conhecido como o Despertar Sunita, anciãos convenceram a população a voltar as costas aos jihadistas, passando a considerá-los estrangeiros e inimigos. Isso, combinado com a operação de reforço da estratégia militar americana, resultou no enfraquecimento de todos os grupos jihadistas no Iraque. Somente em 2010, quando Abu Bakr al-Baghdadi se tornou o líder do que sobrara do braço da Al-Qaeda no Iraque, as coisas começariam a mudar.
AL-BAGHDADI
Liderado por al-Baghdadi, o grupo voltou a adotar o nome original de Estado Islâmico no Iraque e, embora houvesse continuado a atacar alvos americanos no país, começou a distanciar-se da Al-Qaeda. Al-Baghdadi estava ciente da impopularidade da marca Al-Qaeda entre sunitas iraquianos após o Despertar e buscou projetar na mente do povo uma imagem com traços mais familiares e nacionalistas. Ele sabia também que, para a população sunita, o governo xiita, chefiado pelo primeiro-ministro Maliki, era ainda mais impopular que a Al-Qaeda. Consequentemente, ele atacou alvos xiitas, atiçando assim o conflito religioso.
Mas logo ficou patente que essa estratégia não produziria os frutos desejados, porquanto o EII era pequeno e fraco demais para provocar mudanças. Assim, al-Baghdadi viu no conflito sírio uma oportunidade para remodelar o grupo e fortalecer sua organização. Em 2011, al-Baghdadi despachou um pequeno grupo de jihadistas para a Síria, e a guerra por procuração na Síria serviu não apenas para fornecer aos membros do EII treinamento militar, mas proporcionou também os recursos financeiros para a remodelação do grupo, transformando-o não apenas em mais uma das muitas organizações jihadistas armadas, mas num participante de importância fundamental no jogo dos conflitos regionais, com sua própria fortaleza territorial e máquina militar.
E ao contrário dos líderes da Al-Qaeda, que evitavam lançar-se em conquistas territoriais para concentrar-se no combate ao inimigo de terras distantes, ou seja, os Estados Unidos, al-Baghdadi comungava na crença de al-Zarqawi de que, sem uma grande e forte base territorial no Oriente Médio, sua luta estaria fadada ao fracasso. O sonho acalentado por ele era tão ambicioso quanto o que al-Zarqawi alimentara: recriar o Califado de Bagdá por meio de uma guerra de conquista contra os inimigos próximos – as elites oligárquicas e corruptas que governavam a Síria e o Iraque, os xiitas.
A CONSOLIDAÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO
Depois de um avanço e um recuo por volta de 2007, em 2014 al-Baghdadi conseguiu reinstalar seu formidável exército, na conquista do chamado Cinturão de Bagdá, ficando mais perto do estabelecimento do Califado. Não surpreende, portanto, que muitos sunitas iraquianos vejam al-Baghdadi e o Estado Islâmico como uma Fênix Islamista, renascida das cinzas da jihad de Abu Musab al-Zarqawi. Como califa, al-Baghdadi consolidou alguns baluartes na Síria e atraiu para suas fileiras combatentes do exterior empreendendo uma hábil campanha de propaganda.
Em 2013, o EII orquestrou uma fusão estratégica com membros da Frente al-Nusra. Essa aliança deu origem a uma nova organização: o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (al-Sham). Isso provocou, todavia, a cisão de vários comandantes da al-Nusra – que rejeitaram a fusão – e desencadeou reações de encarniçada rivalidade no seio da insurgência na Síria. Apesar das semelhanças ideológicas entre a Frente al-Nusra e o EII, muitos observadores encararam a fusão com desconfiança. Pois, enquanto o antigo grupo vinha se empenhando em ações para derrubar o governo de Assad, o EII sempre se concentrara nos objetivos de conquista de seu próprio território.
A fusão do grupo de Baghdadi com a al-Nusra deixou os dirigentes da Al-Qaeda furiosos. Ayman al-Zawahiri decidiu intervir na questão: ele reprovou a fusão e ordenou que al-Baghdadi voltasse para o Iraque, declarando que os comandantes da al-Nusra eram os verdadeiros representantes da Al-Qaeda na Síria. Assim como em 2003 al-Zarqawi ignorara as críticas da Al-Qaeda, em 2013 a resposta de al-Baghdadi às ordens de Zawahiri foi desafiadora: “Se tenho que escolher entre o governo de Deus e o governo de al-Zawahiri, escolho o governo de Deus.” Essas palavras simples confirmavam o crescente enfraquecimento da Al-Qaeda, em comparação com a estrela em ascensão da liderança do Estado Islâmico.
Apesar de tanta brutalidade, o Estado Islâmico e al-Baghdadi propuseram um programa que satisfaz os anseios de sunitas perseguidos. Essa nova entidade é apenas um Estado-fantasma, um corpo com a infraestrutura socioeconômica de um Estado, mas desprovido da alma do reconhecimento político e da identidade nacional de uma verdadeira nação. A restauração do Califado é um sonho dos pregadores da revivescência islâmica desde pelo menos 1950, e Abu Bakr al-Baghdadi é o primeiro líder islâmico, desde o 31° Califa, Abdülmecid I (1823 -61), a reivindicar esse título e a buscar a materialização da nostalgia de um mundo perdido, uma sociedade associada com o período áureo do Islã, quando, sob a liderança dos primeiros quatro califas, sucessores do profeta, o Islã se expandiu territorialmente e prosperou culturalmente.
Por sua vez, ao contrário do Talibã, que repelia tudo que envolvia tecnologia, no Estado Islâmico a propaganda ideológica é uma atividade que envolve alta tecnologia, administrada por profissionais qualificados, incluindo alguns ocidentais com alto nível de instrução. A propaganda ideológica do Estado Islâmico tem se mostrado muito sedutora para potenciais jihadistas, principalmente no Ocidente. Uma possível resposta para esse fenômeno intrigante está no conflito sírio. Ao contrário da Líbia ou do Iraque, a presença do Estado Islâmico na Síria representa um dilema diplomático para o Ocidente. (onde entram relações com a China e a Rússia, ou ainda a conciliação com o Irã, um xadrez). E foi somente quando o EI entrou no Iraque que o Ocidente começou a se interessar pelo conflito sírio e pelo Estado Islâmico.
Na Síria, bem como no Iraque, a competência de al-Baghdadi e de seu grupo no empenho de fazer os sunitas acreditarem que eles podem ser bem-sucedidos nos cometimentos em que todos fracassaram é uma façanha notável, por seu caráter de modernidade. No passado, nenhum grupo jihadista chegou sequer a ter os meios e o aparato para governar um Estado real. Essas deficiências, que vimos no Afeganistão com o Califado do mulá Omar, decorrem da visão medieval de sociedade esposada e difundida pelos adeptos do salafismo radical.
Embora o sonho do movimento jihadista sempre fora o de recriar o Califado, isso não passava de uma ideia vaga, romântica, totalmente inexequível nos tempos modernos, visto que os profitentes do salafismo rejeitavam a construção de um Estado moderno. Em vez disso, os sequazes do salafismo radical cristalizaram o conceito de sociedade ideal na forma de sua manifestação na Arábia do século VII. Para eles, todas as conquistas e adventos subsequentes são supérfluos e perigosos, desde a infraestrutura do Estado hodierno aos recursos da tecnologia moderna, tal como evidenciado pelo banimento da fruição das amenidades da música, do rádio e da TV imposto pelo Talibã.
OS MITOS DA GUERRA
Considerando as circunstâncias, o que al-Baghdadi fez, criando os próprios enclaves do Estado Islâmico do Iraque na Síria e administrando essas comunidades como autoridade política, com todos os instrumentos do Estado moderno, é realmente excepcional. Por outro lado, a fabricação do mito de al-Zarqawi foi bem-sucedida porque, após os atentados do 11 de Setembro, houve a necessidade urgente de se arranjar mais de um culpado pelas atrocidades cometidas pela Al-Qaeda, e Saddam Hussein, um ditador muito odiado, se encaixava nesse perfil.
Enquanto isso, Bush e Blair eram bem-sucedidos nas mentiras que contavam ao mundo e aos seus próprios governantes, que achavam inconcebível a possibilidade de que estavam sendo enganados. Os formadores da opinião pública mundial ainda se aferram à crença absurda de que, nos modernos Estados nacionais, a batalha diária na política é travada entre o bem e o mal. Aqueles que não se tornaram vítimas dessa fantasia sabiam, porém, que não havia nenhuma ligação entre a Al-Qaeda e Saddam Hussein e que a invasão do Iraque acabaria desestabilizando a região inteira.
Hoje, essas mesmas pessoas estão denunciando a fabricação de outro mito absurdo, não no Ocidente, mas no mundo islâmico, o do Califado e de seu líder, al-Baghdadi, estão testemunhando, ademais, por meio das mídias sociais, a paulatina concretização de outra tragédia anunciada. Após décadas de guerra e destruição pelas mãos da elite local, apoiada pelas potências ocidentais, os árabes sunitas e os muçulmanos querem muito acreditar que, finalmente, das cinzas de um mundo extinto há muito tempo, renasceu uma fênix magnífica. Ou seja, um Estado e um líder que lhes dará a longamente esperada libertação do presente infernal.
AL-QAEDA E ESTADO ISLÂMICO
Entre os feitos da Al-Qaeda, nada chegou perto sequer da criação de um Califado, e tampouco a organização envolveu-se diretamente nesse tipo de empreitada. Até porque seus líderes estavam ocupados demais com maquinações contra os Estados Unidos. “A Al-Qaeda é uma organização e nós somos um Estado”, explicou um combatente do estado Islâmico. Essa declaração resume as diferentes funções que os dois grupos armados desempenham aos olhos de muitos muçulmanos e o diferente tipo de ameaça que cada um deles representa para o mundo.
De acordo com essa definição de papéis, os atentados do 11 de Setembro foram um murro na cara dos ocidentais, ao passo que o estabelecimento do Califado foi um nocaute aplicado em seus principais aliados do Oriente Médio. Retrospectivamente considerado, o absurdo dos ataques contra o inimigo distante é óbvio. Mas Osama bin Laden tinha os recursos para maquinar os atentados do 11 de Setembro numa época em que outros jihadistas mal tinham dinheiro para a própria subsistência. Hoje, as coisas são diferentes. Enquanto o Estado Islâmico administra o Califado no solo histórico do Islã, o núcleo histórico da Al-Qaeda foi destruído, Bin Laden está morto e a organização que ele fundou foi reduzida a símbolo de mera panaceia jihadista genérica.
(obs: o texto é um resumo adaptado do livro “A Fênix Islamista – o Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio, da autora Loretta Napoleoni)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor|
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