PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

BABY NOSFERATU

Na família Stevens tinha um ar aristocrático de tradição milenar, uns ingleses misturados com alemães e austríacos, e que agora, num núcleo particular, na cidade de Viena, em pleno século XX, mais exatamente em 1922, se desenrola a trama de um pai e de uma mãe de 12 filhos, dez homens, duas mulheres.
O pai de nome Joseph, a mãe, agora grávida de mais um menino, de nome Lia. Os dez homens: Richard, 30 anos, Selton, 29 anos, Douglas e Mark, gêmeos, 27 anos, Martin, 24 anos, Theo, 22 anos, Philip, 15 anos, Dan, 12 anos, Ludwig, 10 anos, Dagliev, 5 anos. As duas mulheres: as gêmeas Stephanie e Lea, 25 anos. Lia estava com 45 anos, Joseph, com 60 anos.
A família Stevens, abastada, era uma família de músicos, todos eles. Joseph tocava piano, sabia fazer partituras para concerto e orquestra, tinha uma obra reconhecida, embora nada que se aproximasse de um virtuose ou de algo que ficasse na História de Viena e do mundo da música erudita, era mais conhecido por apreciadores. Lia tocava flauta doce, dentro de casa, escreveu algumas partituras, mas era algo conhecido apenas dentro da família. As gêmeas Stephanie e Lea tocavam violino em orquestras de Viena, não faziam composição, as duas eram especialistas em Bach.
Richard era compositor com o piano, também fazia partituras para concerto, com um pouco mais de vulto que seu pai, quase um dos grandes, mas reconhecido apenas na Áustria. Selton era membro de orquestra e solista de violino, não compunha. Douglas tocava piano solo e para concerto, também não compunha, e junto com Selton e seu gêmeo Mark, especialistas em Beethoven.
Martin, fanático por Brahms, mas também especialista em Liszt e Chopin, aonde era um executor virtuose e um dos melhores intérpretes, tentava compor, mas não com a mesma desenvoltura de suas execuções de Liszt e Chopin ao piano. Theo era um bon-vivant, tocava violino por prazer, mas não quis se envolver no mundo da música, vivia da renda da família, assim como Philip, que era um amador no violino e no piano, e tentava arranhar algo no violoncelo, não tinha muito foco ou perseverança, o mais fraco dentre os filhos de Lia e Joseph na música.
Dan, outro pianista, seguia a trilha de Martin em Liszt e Chopin, com bom rendimento. Ludwig, com nome forte, honrava a herança na orquestra como flautista solista, não compunha, mas executava brilhantemente Beethoven, seu astro principal e seu estudo detido, já aos dez anos. E Dagliev, por fim, aos cinco anos, começava a aprender piano, e ia bem com Mozart, seria o primeiro especialista em Mozart da família.
Lia, com sua intuição, achava que o temporão que ia nascer seria então o esteio musical desta história familiar, todos eram muito unidos, e Richard também tinha a mesma sensação de que algo muito importante iria acontecer para eles, Lia era mística, e tinha sonhos de um menino virtuose compondo febrilmente, mas também, nestes sonhos, via sangue, mas não entendia o que aquilo significava.
O menino nasce em 1923, Lia aos 46 anos, um parto difícil, em que Lia delirava e dizia que via um espírito de um ancião todo de preto, com uma barba branca até os pés, e um cajado, e que se esvaneceu ao primeiro choro de vida do rebento, que levou o nome de Wolfgang, em homenagem a Mozart.
Wolfgang Stevens nasce, e Lia tinha um anseio que sabia que era real, o primeiro Stevens a romper o círculo austríaco e despontar para ventos mais amplos, algo que Joseph, o pai, via com ceticismo, pois não entendia aqueles delírios de grandeza de Lia e de Richard em relação a alguém que ainda era um bebê. O ceticismo de Joseph estava ligado a sua formação sólida no positivismo, algo que confrontava diretamente com o misticismo messiânico de Lia e da fé luterana de grande parte dos filhos, com exceção de Martin, que ganhou uma influência brutal do pai e era também da fé de Comte. Só que a verdade era a de que o sonho de Lia e a fé de Richard se tornariam, terrivelmente, algo real.
Nos primeiros anos, Wolfgang foi treinado no piano, e na leitura de partituras, mas logo começou a ter hábitos estranhos aos 3 anos, como o de brincar de morder seus irmãos e os cachorros do grande quintal da casa. E o choque foi quando Lia viu um pombo dentro da boca de Wolfgang, no que ela bateu nele e disse para ele parar com aquela “brincadeira”.
Algo acalmou por um tempo, e Wolfgang avançou velozmente na composição já aos cinco anos, nas cordas e no piano, no órgão, ele abarcava tudo num galope de dar calafrios, e seus hábitos noturnos aos seis anos já eram tolerados por Lia, que depois viria a descobrir que ele caçava pombos pelo quintal e os mordia arrancando-lhes a cabeça, o que Lia via como maldade infantil e não como um distúrbio hematófago de que a criança sofria.
Ao sete anos, Wolfgang, pela sua precocidade, já compunha concertos para o piano e entrou como intérprete solista de Mozart ao piano e membro de orquestra, e ele priorizou o piano e órgão na sua composição, com músicas sinistras, que não eram de muito agrado ao gosto médio, mas que tinham um grau de virtuosismo incomuns. Wolfgang passou então para os cuidados de Richard, o irmão mais velho, que começou a compor junto com ele, mas logo não teve fôlego para acompanhá-lo, deixando-o seguir a sua própria intuição, o que valeu para Richard como uma licença para a glória, Wolfgang era voraz, mas sabia o que estava fazendo, não se perderia, tanto que suas composições tétricas de início passaram a composições doces e suaves, como numa viagem ao paraíso.
Mas o inferno estava dentro de Wolfgang, e ele iria no rastro de Strauss e Stravinski, depois aos dez anos virou um vanguardista, mas um certo dia chegou esbaforido na direção de Richard e lhe disse que precisava de muita ajuda, no que Richard descobriu o distúrbio de Wolfgang por sangue, que até então só era conhecido por Lia.
E Wolfgang disse para Richard manter segredo em relação a isso, e convenceu Richard a roubar sangue num banco de doação em Viena, o que Richard conseguiu de um jeito mais fácil, subornando os enfermeiros de uma casa de saúde, o que virou algo sistemático, pois Wolfgang passou a beber dois litros de sangue por dia, o que em dois anos passou para três e quatro litros diários, e Richard descobriu que aquilo aumentava a produção criativa de Wolfgang, no que teve certeza de que aquele segredo entre ele, Wolfgang e Lia era muito importante, vital para o trabalho que estava em realização.
E os enfermeiros, que eram dois, já chamavam Wolfgang de o “vampirinho” que Viena tinha como músico. A vanguarda de piano agora virava partituras de sinfonia, dez em dois anos, Wolfgang com quinze anos, com algo que iria explodir na sua puberdade. Aos dezesseis foi atrás de uma moça para mordê-la, mas esta fez um escândalo, e Wolfgang declinou da ideia de atacar virgens por um tempo, mas sabia que sua voz interior dizia que o sangue de virgens o fariam um novo Beethoven ou um novo Mozart, algo que ele ainda almejava, e que era um sonho impossível, mas não para ele.
Aos dezessete, Wolfgang tem uma ideia, vai atrás de sangue jovem no próprio banco de sangue, e decide priorizar o sangue O negativo, que para ele era um néctar. Mas logo ele não se contém e realiza o seu primeiro ataque a uma menina de quinze anos, mordendo-lhe o pescoço e as nádegas, mas sem matá-la ou violá-la, e ela sai correndo com as saias empapadas em sangue, e o pescoço roxo, sem atingir, no entanto, veias ou artérias vitais.
Mas, Wolfgang recua de seu ímpeto, e decide ficar um tempo com o sangue O negativo do banco de sangue, que era raro, se contentando, macambúzio, com AB muitas vezes. Richard sabia que aquela loucura uma hora seria descoberta e que isso seria um escândalo, pois Wolfgang já era famoso como compositor, e os enfermeiros, dito e feito, começaram a chantagear Richard atrás de mais e mais dinheiro, no que ele pediu ajuda a Lia, que se desesperou, e disse que Wolfgang não era mais problema dela, ele só poderia contar com Richard, que ainda tentava manter um castelo em ruínas.
Depois de dois anos vivendo de banco de sangue, a coisa estourou para todos os lados, Wolfgang entra esbaforido no banco de sangue para matar os enfermeiros chantagistas com mordidas, mas é contido e internado imediatamente num hospício, o que dura três meses, pois lá ele se contém e bebe sangue de pombos escondido no pátio para sobreviver sem pirar ou ficar deprimido, e fazendo o jogo certo de manter as aparências, é liberado e volta para as mãos de Richard, que não sabe o que fazer, e decide pedir ajuda a Selton, que fica chocado com a descoberta de um irmão hematófago.
Mas Selton hesita um pouco, dizia que aquilo tinha que ir aos ouvidos de Joseph, mas Richard começa a chorar e explica que o trabalho todo de Wolfgang dependia, infelizmente, de sangue. Lia já tinha abandonado o barco e se degradava progressivamente nas trevas da loucura, com as visões do tal ancião perturbando-lhe diariamente de dia e de noite. E ela dizia que o ancião não falava nada, e Joseph não entendia absolutamente nada do que se passava, e a realidade, neste contexto, poderia ultrapassar tudo o que um positivista convicto como ele poderia conceber, mas logo o choque viria, com direito a trovoadas.
O ancião assediou tanto Lia que ela ficou catatônica, sendo alimentada por sondas, no que num espaço de seis meses a levou para a morte. E, então, desesperado, Richard revela o segredo para Joseph de que Wolfgang era hematófago, o que é recebido com ceticismo por Joseph, que só depois de algumas provas cabais é convencido, no que Joseph, ambicioso do trabalho de Wolfgang, também decide guardar aquele segredo, agora junto com Selton e o guardião de Wolfgang, Richard.
Mas tudo estoura num escândalo de graus colossais, pois Wolfgang, finalmente, mata uma moça de sua idade com uma mordida no pescoço, à luz do dia, numa praça com pessoas passando, no que ele é preso, e seu trabalho interrompido talvez para sempre, o escândalo do vampiro vira o caso de polícia que a imprensa passa a tratar como o caso “Baby Nosferatu”, que era a idealização do enfant-terrible com uma obra de vulto para vender. Tudo ao gosto do espetáculo, mas que resulta na abstinência de Wolfgang por sangue numa cela de solitária, onde não havia pescoços e nem pombos, só uma sopa de vegetais servida duas vezes ao dia.
Wolfgang quase enlouquece, treme e delira por sangue, mas ganha um processo gigantesco, pois o caso do banco de sangue também é descoberto, já que os enfermeiros dão com a língua nos dentes, pois já não temiam ser atacados por Wolfgang, que estava preso, condenado para três anos de reclusão. E os enfermeiros são processados por corrupção junto com Richard, pois o que fez os dois enfermeiros falarem, apesar de serem punidos, era o de tentar imputar prisão perpétua para Wolfgang por ameaçá-los, o que não ocorreu até o dia do ataque, pois quem buscava o sangue era Richard e não Wolfgang.
E, embora o escândalo tomasse proporções avassaladoras em Viena, as composições de Wolfgang já eram quase standard no universo conhecido da música erudita, criando um imbróglio ético que muitos apreciadores decidiram ignorar, pois aquilo já estava no gosto deles, Wolfgang, o prodígio, era um paradoxo ambulante de arte e crime.
Até que Richard consegue convencer o juiz do caso de que Wolfgang sofria de um distúrbio, o que foi comprovado depois por um psicólogo, e Wolfgang passou o resto da pena num manicômio judiciário, onde ele podia morder pombos escondido, saindo da abstinência que para ele era semelhante a de um heroinômano.
O psicólogo tenta um tratamento alternativo com sangue de porco para “salvar” Wolfgang, e consegue a liberação da justiça para amenizar o sofrimento de Wolfgang, que já não aguentava pombos, e que, para sua sorte, ainda tinha a ajuda de Richard, que levava bolsas de sague humano escondido para ele no manicômio, o que ele conseguiu no mesmo banco, subornado agora o diretor-executivo e médico de lá.
Wolfgang não teria paz por muito tempo, pois entre doses extáticas de O negativo, ele se contentava com a receita de porco medicinal e terapêutica, numa tentativa do psicólogo de reverter seu distúrbio hematófago paulatinamente, pois tinha percebido que o consumo de sangue para Wolfgang era como uma droga, da qual ele tinha que se libertar. Richard viu aquilo como a luz no fim do túnel, pois pensou: “Isso é só uma droga para ele, é só desintoxicá-lo!”.  
E o exame de raiva dá negativo, Wolfgang poderia estar caminhado para a sua liberdade, seja da prisão, seja do consumo de sangue. O psicólogo, de nome Arnold, já tinha certeza que aquilo era como uma droga, e teria que trabalhar para que a criatividade de Wolfgang não esvaísse sem aquele sangue. Ele tem a ideia de dar transfusões, duas, para equilibrar o PH de Wolfgang, e tem sucesso. Logo, em dois meses, o sangue de porco é suspenso, e Richard, aconselhado veementemente por Arnold, suspende o sangue humano.
Wolfgang passa a aprender a viver sem o distúrbio, e lhe são ministrados calmantes para suportar os sinais semelhantes a de heroinômanos por sangue, Wolfgang queria agora se redimir e leu a Bíblia inteira na sua reclusão, queria agora compor músicas sacras para salvar a própria alma e toma aversão pela cor vermelha, o distúrbio logo se inverte, e Arnold sorri e diz que o tratamento é um sucesso, pois Wolfgang passa agora a ter aversão pela cor vermelha e tem náuseas ao sentir cheiro de sangue, sua dependência hematófaga é invertida e superada, Wolfgang começa a compor novamente, mas já tomando distância dos temas tétricos, e uma nuvem mística de benevolência lhe toma o coração, e ele passa a bendizer sua arte, de que seu passado estava enterrado, e de que seu distúrbio tinha sido uma provação para ele e Richard se unirem na causa da arte, a qual agora já não dependia nem de sangue humano e nem de pombos. Sua vida eterna seria garantida por seu novo protestantismo e não pela lenda de vampiro.
Aliás, a má fama de Wolfgang já se invertia também, pois o exagero da imprensa no caso se voltou contra si mesma, e a execração pública de Wolfgang logo é debelada por declarações contundentes de Richard, acabando com aquele circo dos horrores. Wolfgang era doente, e estava curado, um distúrbio tão grave foi combatido por um psicólogo que entrou na hora certa para entender que a droga leva pouco tempo para fazer efeito, e quando viu o sorriso extático de Wolfgang depois de uma dose de O negativo, entendeu tudo de súbito, matou a charada.
E a fama de Wolfgang ficou dividida entre apreciadores e detratores, mas a moral da imprensa tinha sido destruída pelo sensacionalismo, a guerra de Richard contra ela tinha sido vencida, não havia mais surtos de moralismo por onde ele rondava, Richard era de fato o guardião do trabalho de Wolfgang, que depois de sair do manicômio, ainda era chamado de assassino, vampiro, morcego e quejandos no meio da rua, mas tinha no meio de apreciadores da música erudita uma romantização de sua história, que agora se redimia longe do espetáculo midiático, numa cultura refinada de concertos e sinfonias, e o tempo foi passando, e a formação de Wolfgang foi ficando sólida, ele se tornou também pastor luterano, sem renegar o passado, ainda ouvindo piadas da imprensa marrom sobre o “vampiro crente que toca piano”, às vezes.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



22/02/2016 – Contos Psicodélicos.  

sábado, 20 de fevereiro de 2016

BERTOLT BRECHT, O POETA (PARTE III)

Brecht demonstra em seu poema “Canção do escritor de peças” como ele se revela como dramaturgo, pois sua poesia, o chão em que seu teatro invariavelmente pisa, neste poema, ao contrário, temos seu teatro sendo equacionado pela poesia, ou melhor, pelo que este poema, em particular, afirma. Portanto, o que na dramaturgia de Brecht, temos nela, o serviço prestado da poesia, aqui neste poema o serviço do teatro entra como definição dos próprios versos deste poema. “Eu sou o escritor de peças”, diz Brecht na abertura do poema, e evolui seu compasso com exemplos do que pode ser definido como o que é e o que sustenta como tese em seu teatro, tal como versos assim: “Aquilo que vi. Nos mercados dos homens/Eu vi como o homem é tratado.” Ou ainda: “Como ficam nas ruas e esperam/Como preparam armadilhas uns para os outros”.
Pois Brecht tem no Homem sua tese de teatro, as relações humanas com densidade social e política, muitas vezes até panfletária, e o homem que ama, também pode ser, dada as circunstâncias, algo hobbesiano como o homem é o lobo do homem, como se diz em um dos versos que citei deste poema, no caso das emboscadas e armadilhas que uns preparam para outros, nesta nossa vida regida por leis, mas que é selvagem mesmo assim. Brecht dá tratamento ao homem miserável, no mercado e nas ruas o homem é o exemplo, a demonstração e, por fim, a tese. E neste poema, fica o sentido do teatro de Brecht, o escritor de peças, em que toda sua sustentação vem da poesia.
Já no poema “O pão do povo” Brecht volta com sua demanda social, de sua formação socialista, mas aqui sem panfleto político explícito, mas como tese abundante de seu cabedal de proposições sociais, o que em Brecht une sua poesia e seu teatro. Versos como: “Alimentado do pão da justiça/Pode ser feito o trabalho/De que resulta a abundância.” Neste poema do pão, o trabalho deve se vincular diretamente à justiça. E de que se trata? Nada mais do que a justiça social, força propulsora de grande parte do ofício de arte de Bertolt Brecht. A arte que fala do povo, fala de seus desejos de justiça, como no verso exclamativo: “Fora com a justiça ruim!” E que culmina com sua tese aqui de socialismo implícito, nos versos: “Deve o pão da justiça/Ser preparado pelo povo.” Por fim, é o povo a justiça para o povo, quem faz toda a justiça é quem quer a justiça, e a justiça dita ruim é a que não deixa o pão ao povo, e quando o pão é do povo e não há mais fome, a justiça cai nas mãos dos que fazem todo o trabalho, a divisão social dá lugar à abundância, uma das promessas de vitória do teatro e da poesia de Brecht, com viés político umas vezes, mas sobretudo como tese social e ideia de sociedade, que tem na palavra justiça seu eixo de demanda e lutas.
CANÇÃO DO ESCRITOR DE PEÇAS
Eu sou o escritor de peças. Eu mostro
Aquilo que vi. Nos mercados dos homens
Eu vi como o homem é tratado. Isto
Eu mostro, eu, o escritor de peças.

Como entram uns nas casas dos outros, com planos
Ou com cassetetes ou com dinheiro
Como ficam nas ruas e esperam
Como preparam armadilhas uns para os outros
Cheios de esperança
Como marcam encontros
Como enforcam uns aos outros
Como se amam
Como defendem seus despojos
Como comem
Isto eu mostro.

As palavras que gritam uns aos outros, eu as registro.
O que a mãe diz ao filho
O que o empresário ordena ao empregado
O que a mulher responde ao marido
Todas as palavras corteses, as dominadoras
As suplicantes, as equívocas
As mentirosas, as inscientes
As belas, as ferinas
Todas eu registro.

Vejo tempestades de neve que se anunciam
Vejo terremotos que se aproximam
Vejo montanhas no meio do caminho
E vejo rios transbordando.
Mas as tempestades têm dinheiro na carteira
As montanhas desceram de automóveis
E os rios revoltos controlam policiais.
Isto eu revelo.

Para poder mostrar o que vejo
Leio as representações de outros povos e outras épocas.
Algumas peças adaptei, examinando
Com precisão e respectiva técnica, absorvendo
O que me convinha.
Estudei as representações das grandes figuras feudais
Pelos ingleses, ricos indivíduos
Aos quais o mundo servia para desenvolver a grandeza.
Estudei os espanhóis moralizadores
Os indianos, mestres das sensações belas
E os chineses, que retratam as famílias
E os destinos multicores encontrados nas cidades.

E tão rapidamente mudou em meu tempo
A aparência das casas e das cidades, que partir por dois
               anos
E retornar foi como uma viagem a outra cidade
E as pessoas em grande número mudaram a aparência
Em poucos anos. Eu vi
Trabalhadores adentrarem os portões da fábrica, e os
                portões eram altos
Mas ao saírem tinham de se curvar.
Então disse a mim mesmo:
Tudo se transforma e é próprio apenas de seu tempo.

Portanto dei a cada cenário seu emblema
E em cada fábrica e cada edifício gravei em fogo o seu ano
Como os pastores gravam números no gado, para que seja
                reconhecido.
E também às frases que lá eram faladas
Dei-lhes seu emblema, para que se tornassem como as
                   sentenças
Dos homens efêmeros, que são registradas
Para não serem esquecidas.

O que a mulher em avental de trabalho disse
Nesses anos, debruçada sobre os panfletos
E como os homens de bolsa falaram com seus empregados
Ontem, chapéus atrás da cabeça
A isto marquei com o sinal de impermanência
De seu ano.

Tudo entreguei ao assombro
Mesmo o mais familiar.
Que uma mãe deu peito ao filho
Isto relatei como algo em que ninguém acreditará.
Que o porteiro bateu a porta ao homem morrendo de frio
Como algo que ninguém jamais viu.
O PÃO DO POVO
A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.

Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.

Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.

De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e nos felizes.
O povo necessita do pão diário
Da justiça, bastante e saudável.

Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?

Quem prepara o outro pão?

Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça
Ser preparado pelo povo.

Bastante, saudável, diário.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/27394/17/bertolt-brecht-o-poeta-parte-iii

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

NÉVOA DE NARDO

Giz de cera, bruma azul
lampeja, qual furibundo
dia, o poema golpeia.

Ataca a composição
o traço marcado:
como numa revolta,
sim, como a rebelião!

Peça de comédia bufa
é o canhão e a pólvora,
peça de tragédia
este vil coração!

Dai ao golpe da letra
seu terrir de fardo,
dai ao poeta
seu porvir de nardo.

18/02/2016 Gustavo Bastos

ESPANTO FRIO

Gerações ao espanto frio,
eu tinha muita sorte
no grito destemido.

As lutas das literaturas rotas
são frouxos de riso,
as lutas dos artistas brutos
são de estética e vinho.

O poema, como uma dose de veneno,
eis que de karma e música
enfada o homem prático,
eis que de dança e delírio
exalta o homem dissipado.

Contas de colares do frasco madrepérola:
o poema, nota bruta, fábrica da pedra,
regenera o fraco de seus vícios,
e enobrece o forte de suas ambições.

Estética da vinha, por mim mesmo:
o tanino é denso
como madeira de lei,
não enverga
no espanto,
não deplora
a viagem da vida.

18/02/2016 Gustavo Bastos

NOTÍVAGO DA FADA VERDE

Luzidio frasco de absinto,
com karma de indolor esfera,
às notas rotas que pressinto,
qual dharma que dormita fera.

Azedume dos folguedos vãos,
quais descansos de risos frouxos,
às mais claras vinhas dos sãos,
são risos e escárnios de brutos ocos.

Ah, pois mesmerize fada azul,
ah, pois catalise a manta de verdor,
ah, que nada me espante ao debrum,
ah, e nem me encante o albor!

Luzidia razão dos nobres,
pois do mundo vão aos vinhos,
que são obras dos fortes,
e caem bem em sonos de linhos.

Absinto do frasco alucina,
já bêbado de alta miragem,
que sinto absorto na vil sina,
ao estar no encanto selvagem.

18/02/2016 Gustavo Bastos

FIM DO POEMA

Assim, de carne e veste envolvida,
a estrela de chumbo tonteia,
pois mais seca e densa neblina,
às amarras do coração bombeia.

Pois, do canto mais solar,
como o verão de cal e sonho,
a mais funda estrela polar
cai como luva no caldo risonho.

Das trevas enuncia luz,
como uma jarda longínqua,
que enternece o que supus,
por mais alta sala contígua.

Assim, de sol e lua à carne dura,
sonha vinha assim de mel,
pois à arma fruto de sal e luta,
sonha o fim do mundo e do fel.

Pois de chumbo estrela escarlate,
lá no alto com albor de carmim,
que da branca nuvem tudo arde,
do fim ao fim deste sonho de fim.

18/02/2016 Gustavo Bastos

HAXIXE MARROQUINO

Ah, quão longe flor de flora!
Que meus pés já não sentem,
que meus olhos só veem!

Atrás da big band,
atrás dos cacos
de fumo.

Um ar de fumaça toma o trompete,
psiconáutico flor morfema,
que as vinhas seviciadas
de mosto aos pés
embriaga!

Ah, quão longe o caminho
da espera matreira!

Atrás da música solista
o kaaos on the hills,
pois because of you
I have been mad.

Haxixe marroquino
nos tímpanos:
oh como é doce o pecado
das cores e dos sons
quando se está
em êxtase!

18/02/2016 Gustavo Bastos