PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 29 de março de 2015

HORA PROFUNDA

Féretro cor de âmbar,
meu claustro abunda
de filosofia.

Mais trôpego, sôfrego,
claudicante e avante.

Eis tédio sob rotina,
cotidiano armado
dos meus sais,
entrevero suicida
e pernóstico.

dança como tu vês:
ósculo da hora profunda.

28/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)


PROPAGANDA

Primeiro ato:
Ah, vamos colocar os prós!
Eis que tudo é o começo,
e o positivo é assim mais largo,
todas as virtudes estocadas
no teaser,
como uma efeméride de astúcia,
e que o automóvel seja
o corpo mais nobre,
e a bunda a cerveja,
e que nosso alvo-mestre
se sinta como uma alma
inteira, e seus versos caem,
e à inveja te matamos.

Segundo ato:
Ah, mas tem que elencar os defeitos!
Zás, vamos ao deleite imoral
com que nos brinda,
na mesma moeda!
(ousa dizer quem tem moedas?)

Sim, pois é necessário,
este negativo é contraponto,
tudo contra ele é necessário,
nossa teoria nasce
do seguinte:
"somos a massa crítica,
ninguém sai ileso.
(por quê?) (o lugar é privado)
Ah, por que sim, oras.
Nós não pouparemos
nem o movimento do corpo,
nem braços e pescoço,
muito menos a dança!
(obs: a posse do gesto é fundamental.)

Terceiro ato:
Ah, perdão, é só lágrima,
uma carta suicida,
tangida com o sangue do bardo
como carimbo de seu pulso.
Oh, ignomínia que fizemos!

Último ato:
eis que há silêncio.
eis que há trabalho.
O que faremos?
(o que resta é o chiste, patético balbuciar)

Nota explicativa:
a cada um de acordo
com suas aptidões,
sendo vedada
a interferência exógena
de almas sebosas.

20/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

PÂNDEGO

Ei, olha ali o estorvo,
qual visão que renitente
seduz,
às asas o mormaço
sevicia,
que hausto mais mágico,
que água sobre a cabeça!

Ei! Que ardor mais puro,
preclaro e vidente!

Dantes a figura mal dormia,
vítima do abscesso
morticida
que ao eterno viço
soçobra.

Quantas águas claras, puríssimas,
donde vem o mar e enseada,
de lá, outro ser mistério,
à margem oposta do coração,
que o poema, tardo, lasso,
desfalece em torpor.

20/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

SABERES DE CRIPTA

Sei de tudo e nada.
Abrem-se as cortinas:
é a mesma, sentimental e piegas,
admirável e sedenta.

Ai, que sufoco de armas
sobre as costas,
o dedo retilíneo dizendo "hoje"
que é um vácuo e invasão
de uma febre
que não é minha.

Ah, mas o maltrapilho,
este poeta reles e vil,
fundo de soberba e obra,
covil de putas
é o seu nome.

Sei de nada e tudo.
Fecha-se o óbvio:
de teus sabores, ó carne,
quanta lamúria,
e quanta anarquia
ao vento!

Eis que sabe-se de algo de tudo
que não há, pois do que há,
sabe-se tão pouco
ao ficcionista,
que de tua mão escorre poesia,
este corpo do indizível
como criptografia,
delírio pictórico
que a expressão verbal
obscurece, tão ávida,
com versos.

20/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

O SER-PARA-A-MORTE EM HEIDEGGER

“a morte é a possibilidade mais própria da presença.”

   Martin Heidegger edifica no seu projeto filosófico uma busca pelo sentido do ser em geral. O que faz com que ele tenha que elaborar uma ontologia fundamental, mas, para isso, ele deve esclarecer, antecipadamente, o ser da presença segundo uma analítica existencial da presença, entendendo-se presença como o ente existencial que denominamos homem, mas que, em Heidegger, não se fundamenta como sujeito, o que demanda outra questão que não cabe aqui discutir.
   Uma vez que nós humanos, enquanto os únicos entes que se dão como presença, também somos os únicos entes para os quais se dá a morte, ontologicamente compreendida, somos então tal presença singular como um ser-para-a-morte. Não cabe aqui, pelas dimensões da resenha, levantar todas as hipóteses e categorias tematizadas em Ser e Tempo, mas sim nos concentrarmos no sentido possível que pode ser dado à presença a partir das definições do ser-para-a-morte, dadas por Heidegger no primeiro capítulo da segunda seção de Ser e Tempo.
   Quando Heidegger pergunta pela totalidade do ser da presença, ele está também, e ao mesmo tempo, perguntando pelo fim deste ser ou pela morte como fim deste ser. Ou seja, uma vez que a presença é o único ente que se dá num mundo ou como ser-no-mundo, ela, uma vez que pode antecipar seu ser-para-a-morte no anteceder-se-a-si-mesma que determina o seu ser, está diante da possibilidade extrema de sua existência, e que define a sua existência como finita, para além de sua constituição ôntica ou bio-fisiológica.
   A morte da presença é uma morte existencial, é a impossibilidade de todas as possibilidades, ou a possibilidade extrema da impossibilidade. Toda a existência da presença se determinará neste limite de seu fim no seu ser-para-a-morte.
   “No centro dessas considerações acha-se a caracterização ontológica do ser-para-o-fim em sentido próprio da presença e a conquista de um conceito existencial da morte” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.311). Portanto, Heidegger, ao tematizar a morte, considera que há a necessidade de uma compreensão existencial do fenômeno, uma vez que, para Heidegger, a morte está eivada de concepções difusas que não chegam ao cerne ontológico da questão, limitando-se, quando muito, no seu aspecto ôntico ou, por outro lado, numa metafísica da morte segundo teodiceias ou teologias da morte.
   Heidegger, ao analisar a morte da presença, constata que, para si mesma, a presença não pode fazer uma experiência concreta de sua própria morte. No entanto, a presença pode ter acesso objetivo em relação à morte dos outros, onde o findar de uma outra presença é experimentada por nossa presença, uma vez que toda presença tem uma de suas determinações como ser-com os outros.
   Portanto, a presença que deixou de existir no mundo ainda é mais do que um ser simplesmente dado, já que, no mundo circundante e passível de ocupação, tal presença que deixou a existência ainda está em relação com outras presenças, no culto que lhe é devido como um modo de uma preocupação reverencial dos que a presença morta deixou no mundo. Isto quer dizer que o ser-com os outros ainda está vigente, mesmo com a morte desta presença. Pois é “a partir do mundo que os que ficam ainda podem ser e estar com ela.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.312).
   “Esse ser-com o morto não faz a experiência do ter-chegado-ao-fim do finado. A morte se desvela como perda e, mais do que isso, como aquela perda experimentada pelos que ficam. Ao sofrer a perda, não se tem acesso à perda ontológica como tal, sofrida por quem morre. Em sentido genuíno, não fazemos a experiência da morte dos outros.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.313). A questão que se coloca é sobre o sentido ontológico da morte de quem morre. Temos que, então, para tal, nos voltarmos para a nossa própria presença, “ninguém pode retirar do outro a sua morte” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.314). “Cada presença deve, ela mesma e a cada vez, assumir a sua própria morte. Na medida em que é, a morte é, essencialmente e cada vez, minha. E de fato, significa uma possibilidade ontológica singular, pois coloca totalmente em jogo o ser próprio de cada presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.314)
   Então, a presença não pode compreender ontologicamente a morte dos outros entes dotados de presença, tal experiência ontológica está reservada no seu próprio ser-para-o-fim ou ser-para-a-morte que é inalienável de si mesma, a morte é de cada presença e não pode, portanto, ser compartilhada, uma vez que, em Heidegger, a morte é o fenômeno pelo qual a presença se singulariza e toma a morte como a morte dela e não de outros.
   Heidegger, a partir desta constatação, parte para o seu objetivo precípuo quando tematiza a morte, qual seja, a possibilidade de uma interpretação ontológica da morte. “O que cabe é buscar na própria presença o sentido existencial de seu chegar-ao-fim e mostrar que esse ‘findar’ pode constituir todo o ser desse ente que existe.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.316).
   Através da morte, Heidegger, quer chegar à totalidade do ser da presença, e o que ocorre é que com a analítica da presença como ser-para-a-morte chega-se à singularidade de cada presença, pois a morte é uma experiência única e da qual não se pode escapar. “O chegar-ao-fim encerra em si um modo de ser absolutamente insubstituível para cada presença singular.” (p.316) Esta é a conclusão lógica de Heidegger, como presença que sou, só posso ter a morte como a minha morte.
   “Há na presença uma ‘não-totalidade’ contínua e não eliminável, que encontra seu fim com a morte. Mas será que se deve interpretar como pendente o fato fenomenal de que esse ainda-não ‘pertence’ à presença enquanto ela é?” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.316) Ora, para Heidegger, o ainda-não da morte da presença não é necessariamente uma pendência, uma vez que o ser-para-a-morte define ontologicamente a própria presença no seu ser próprio. Então, somente podemos dar este ainda-não como pendência numa concepção imprópria do ser-para-a-morte da presença, o que se vê na cotidianidade que oculta a morte existencial.
     “A falta enquanto o que está pendente, não proporciona, de forma alguma, a determinação ontológica do ainda-não que, como morte possível, pertence à presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.317). “Esse ente não possui, absolutamente, o modo de ser do que está à mão dentro do mundo. ... A presença sempre existe no modo em que o seu ainda-não lhe pertence.” (Idem).
   A presença, segundo o que diz Heidegger acima, não se determina tal qual um ente à mão no mundo circundante das ocupações, portanto, não pode ser objeto de coisificação, nem ser tomado como ser simplesmente dado, interpretando-se erroneamente a sua morte como um ainda-não pendente e não como uma essência do ser da presença.
   Será que a morte, a que chega a presença, é uma completude? Com a morte a presença completou o seu curso? Mas terá a presença com a morte esgotado suas possibilidades específicas? Não lhe terão sido justamente retiradas estas possibilidades? A presença, na maior parte das vezes, finda na incompletude ou na decrepitude e desgaste. “Findar não diz necessariamente completar-se.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.319). Então, vem a questão: “Em que sentido a morte deve ser concebida como findar da presença?” (Idem).
   Heidegger afirma que a morte não é uma completude do existir do ser da presença, ou seja, ela não é um arremate de tudo o que se viveu enquanto presença, não há relação de necessidade entre a morte e a completude ou plenitude de uma determinada vida do ser da presença. Não há um fim do caminho percorrido pela presença, já que tal fim do ser-para-a-morte da presença se dá o tempo todo na sua existência. “Na morte, a presença nem se completa, nem simplesmente desaparece, nem acaba e nem pode estar disponível à mão.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.320).
   “Da mesma forma que a presença, enquanto é constantemente, já é o seu ainda-não, ela também já é sempre o seu fim. O findar implicado na morte não significa o estar-no-fim da presença, mas o seu ser-para-o-fim. A morte é um modo de ser que a presença assume no momento em que é.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.320). “Enquanto ser-para-o-fim, o findar reclama um esclarecimento ontológico haurido no modo de ser da presença.” (Idem). “A caracterização do fenômeno em questão (ainda-não ser, findar, totalidade) só terá êxito em se orientando, de forma precisa, no sentido da constituição ontológica da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.321). “A interpretação analítico-existencial positiva da morte e de seu caráter de fim deve obedecer ao fio condutor da constituição fundamental da presença” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.321).
   Como dito acima pelo próprio Heidegger, para se ter uma ideia ou uma compreensão adequadas da morte existencial da presença ou de seu ser-para-a-morte, é necessário que, para tal, tenhamos em conta uma analítica ontológica do modo de ser da presença, que é, por sua vez, fundamento para a compreensão de si mesma no sentido dado pelo findar ou pelo ser-para-a-morte como sua essência e totalidade. Tal afirmação não constitui petição de princípio, uma vez que o próprio Heidegger nos alerta em Ser e Tempo da circularidade dos raciocínios de seu empreendimento, não há, portanto, qualquer contradição em dizer que o ser-para-a-morte se compreende numa analítica existencial da presença e vice-versa, o modo de compreensão é unificado.
   “No sentido mais amplo, a morte é um fenômeno da vida. Deve-se entender a vida como uma espécie de ser ao qual pertence um ser-no-mundo.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.321). “No âmbito da ontologia da presença ... a análise existencial da morte subordina-se a uma caracterização da constituição fundamental da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.322). Temos aí, novamente, a relação do fundamento da presença como o seu ser-para-a-morte, a essência da existência em Heidegger se define, portanto, na morte existencial.
   “A interpretação existencial da morte precede toda biologia ou ontologia da vida. É ela que fundamenta qualquer investigação histórico-biográfica e psico-etnológica da morte. (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.322). Temos aí, então, que a ontologia da presença como uma interpretação existencial da morte precede toda cognição acerca de seu conteúdo ôntico. Ou seja, a morte existencial precede na compreensão heideggeriana as suas implicações cotidianas ou da natureza de um conhecimento constituído.
   “Caso se determine a morte como fim da presença, isto é, do ser-no-mundo, ainda não se poderá decidir onticamente se, ‘depois da morte’ um outro modo de ser, seja superior ou inferior, é ainda possível.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.323). “Interpretando-se o fenômeno meramente como algo que se instala na presença enquanto possibilidade ontológica de cada presença singular, a análise da morte permanecerá inteiramente ‘neste mundo’.” (Idem). “A interpretação ontológica da morte ligada a este mundo precede toda especulação ôntica referida ao outro mundo.” (Ibidem). “A análise existencial precede as questões da biologia, psicologia, teodicéia e teologia da morte.... A morte é uma possibilidade privilegiada da presença.” (Ibidem).
   Nas citações heideggerianas acima fica evidente que o pensamento de Heidegger é anterior no sentido ontológico do termo, sua análise existencial antecipa-se em relação aos significados ônticos ou cognitivos possíveis, sendo então uma analítica ontológica radical da presença e sua relação constante com a sua morte existencial.
   “Por outro lado, a análise não pode ater-se a uma ideia da morte, cogitada ao acaso e arbitrariamente. Somente uma caracterização ontológica prévia do modo de ser em que o ‘fim’ se instala na cotidianidade mediana da presença é que pode guiar este arbítrio.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.323).
   “A morte é uma possibilidade ontológica que a própria presença sempre tem de assumir. ... Nessa possibilidade, o que está em jogo para a presença é pura e simplesmente seu ser-no-mundo. Sua morte é a possibilidade de poder não mais ser presença. Essa possibilidade mais própria e irremissível é, ao mesmo tempo, a mais extrema. Enquanto poder-ser, a presença não é capaz de superar a possibilidade da morte. A morte é, em última instância, a possibilidade da impossibilidade pura e simples da presença. Desse modo, a morte desvela-se como a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável. ... Essa possibilidade existencial funda-se em que a presença está, essencialmente, aberta para si mesma e isso no modo de anteceder-a-si-mesma. Esse momento estrutural da cura possui sua concreção mais originária no ser-para-a-morte.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.326).
   Heidegger deixa claro que há uma necessidade existencial da presença assumir o seu ser-para-a-morte como o único caminho possível para uma compreensão de sua essência e determinar, deste modo, como a presença deve lidar de forma adequada com esta possibilidade extrema da morte, uma vez que na cotidianidade isto é ocultado na impessoalidade.
   Ser-para-a-morte: em existindo, a presença já está lançada nessa possibilidade, portanto, a morte não é algo suplementar ou ocasional. Ou seja, a existência autêntica e plena reconhece o fato da morte existencial como indispensável tanto para a compreensão do que é a presença como, uma vez compreendendo o ser da presença, nos encaminhemos, com isso, para a compreensão do sentido do ser em geral, já que este é o grande projeto filosófico heideggeriano.
   “É na disposição da angústia que o estar-lançado na morte se desvela para a presença de modo mais originário e penetrante. A angústia com a morte é angústia ‘com’ o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. O próprio ser-no-mundo é aquilo com que ela se angustia. O porquê dessa angústia é o puro e simples poder-ser da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.326 e 327). Ou seja, tal angústia é a própria certificação da morte como algo inexorável e, portanto, é como se a angústia fosse a chave para a compreensão do ser-para-a-morte propriamente dito. Isto é, com a angústia toda fuga da morte se desvanece.
   “Que, numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, muitos de fato não sabem da morte, isso não pode ser aduzido como prova de que o ser-para-a-morte não pertença de maneira geral à presença. Isso apenas mostra que, numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, a presença encobre para si mesma o ser-para-a-morte mais próprio em dele fugindo.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.327) (Obs: na decadência de um empenhar-se no mundo das ocupações anuncia-se a fuga da estranheza, isto é, do ser-para-a-morte mais próprio). “Existência, facticidade e decadência caracterizam o ser-para-o-fim, constituindo, pois, o conceito existencial da morte.” (Idem).
   “Pertencendo originária e essencialmente ao ser da presença, o ser-para-a-morte deve também ser comprovado na cotidianidade – embora numa primeira aproximação, de maneira imprópria.” (Ibidem).
   O próprio da cotidianidade é o impessoal, constituído na interpretação pública expressa na falação. ... O teor público da convivência cotidiana conhece a morte como uma ocorrência que sempre vem ao encontro, ou seja, como ‘casos de morte’. ... ‘A morte’ vem ao encontro como um acontecimento conhecido, que ocorre dentro do mundo. ... A fala pronunciada sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre, mas, de imediato, não se é atingido pela morte.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.328)  Ou seja, uma vez que a compreensão cotidiana do ser-para-a-morte encobre o seu sentido originário e cabal de fim existencial, temos que o impessoal invade tal reflexão e determina a morte como a morte de ninguém, não há um pensar na morte como algo irremissível, a morte é algo banal do qual não se tem o sentido, morre-se o tempo todo no mundo circundante mas isto não atinge a presença enquanto tal.
   “O impessoal não permite a coragem de se assumir a angústia com a morte ... o que cabe é a tranquilidade indiferente frente ao fato de que se morre. A elaboração dessa indiferença superior aliena a presença de seu poder-ser mais próprio e irremissível.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.330). Fica claro aqui o sentido alienante em relação à morte existencial da cotidianidade para Heidegger.
   “Numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, a presença se atém faticamente a um ser-para-a-morte impróprio. Como se haverá de caracterizar ‘objetivamente’ a possibilidade ontológica de um ser-para-a-morte em sentido próprio? (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.336). “Ser-para-a-morte em sentido próprio não pode escapar da possibilidade mais própria e irremissível e, nessa fuga, encobri-la e alterar o seu sentido em favor da compreensão do impessoal.” (Heideggger, Ser e Tempo, 2006, p.337). O que Heidegger quer dizer nestes trechos é que a fuga para o impessoal da cotidianidade é inútil em relação ao sentido próprio do ser-para-a-morte, podemos postergá-lo, mas não evitá-lo, podemos ignorá-lo ao máximo, mas um dia tal situação existencial tomará o que lhe é próprio e devido na sua irremissibilidade.  Lembrando que “a morte enquanto algo possível não é um manual e nem algo simplesmente dado possível, e sim uma possibilidade de ser da presença.” ( Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.338).
   “O ser para a possibilidade enquanto ser-para-a-morte, no entanto, deve relacionar-se para com a morte de tal modo que ela se desvele nesse ser e para ele como possibilidade. Apreendemos, terminologicamente, esse ser para a possibilidade como antecipar da possibilidade.”(Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.339). (obs: morte = possibilidade da impossibilidade da existência). “Enquanto antecipação da possibilidade, o ser-para-a-morte é que possibilita essa possibilidade e que a libera como tal.” (Idem).
   “Ser-para-a-morte é antecipar o poder-ser de um ente cujo modo de ser é, em si mesmo, o antecipar. Ao desvelar numa antecipação esse poder-ser, a presença abre-se para si mesma, no tocante à sua possibilidade mais extrema. Projetar-se para seu poder-ser mais próprio significa, contudo: poder compreender-se no ser de um ente assim desvelado: existir. A antecipação comprova-se como possibilidade de compreender seu poder-ser mais próprio e mais extremo, ou seja, enquanto possibilidade de existir em sentido próprio.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.339/340). Enfim, “a morte é a possibilidade mais própria da presença.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.340). Portanto, é através desta antecipação que é possível para a presença se desgarrar do impessoal, é no seu sentido próprio de ser-para-a-morte irremissível que a presença supera a letargia existencial da ignorância do impessoal.
   “A morte não apenas pertence de forma não indiferente à própria presença, como reivindica a presença enquanto singular. A irremissibilidade da morte, compreendida no antecipar, singulariza a presença em si mesma.” (Idem). Entende-se, aqui então, que a presença se singulariza através de sua morte, é a sua essência como ser-para-a-morte que lhe dá uma identidade existencial diferente de todas as outras e imune da homogeneidade medíocre do impessoal.
    “Ao se delimitar no projeto existencial o antecipar, tornou-se visível a possibilidade ontológica de um ser-para-a-morte em sentido próprio. Com isso, surge também a possibilidade de a presença poder-ser toda em sentido próprio, mas somente como uma possibilidade ontológica.” (Heidegger, Ser e Tempo, 2006, p.344). “Apesar disso, esse ser-para-a-morte existencialmente possível permaneceu, do ponto de vista existenciário, uma suposição fantástica. A possibilidade ontológica de a presença poder-ser toda em sentido próprio nada significa, porém, enquanto não se demonstrar, a partir da própria presença, o poder-ser ôntico que lhe corresponde.” (Idem).

   No trecho acima fica evidente que o projeto filosófico heideggeriano, no que concerne à morte existencial, que é, por sua vez, um findar ontológico, precisa de uma confirmação ôntica, o que demanda uma outra reflexão que não cabe aqui demonstrar, uma vez que a própria reflexão heideggeriana não se esgotou na obra Ser e Tempo que, como muitos sabem, é um projeto inacabado, mas é a sua abertura existencial ou ontológica, sua obstinação por edificar uma ontologia fundamental, que torna tal obra indispensável para a reflexão da filosofia contemporânea.
   Feita uma reflexão acerca do sentido do ser-para-a-morte na analítica existencial da presença em Heidegger, temos que, no modo em que ela se dá, ela é uma contribuição valiosa para que possamos ir além do ôntico e do cognitivo quando se fala de existência ou do que é humano como presença e não como sujeito cognoscente.
   O grande avanço de Heidegger, no tocante aos seus questionamentos, é que ele vai além dos antigos e dos modernos no sentido ontológico, o que não quer dizer que Heidegger seja infalível, uma vez que seu projeto ficou por se completar, o que não é um demérito, mas um motivo para que não fiquemos satisfeitos com Ser e Tempo, já que o sentido do ser em geral, que era o projeto original de Heidegger, terminou no início do longo caminho de uma ontologia fundamental, qual seja, a analítica existencial da presença.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://www.seculodiario.com.br/22048/14/o-ser-para-a-morte-em-heidegger

domingo, 15 de março de 2015

SUPERTRAMPO

“As revoluções dos versos vão de encontro com uma muralha inexpugnável, na qual a forçação de barra vai ao limite, tornando-se intolerável.”

   Charles Peixoto é poeta e roteirista, e se firmou na década de 1970 como um dos expoentes da poesia marginal, e membro do coletivo Nuvem Cigana, que deu o que falar em pleno auge da ditadura no Brasil. Sua estreia como poeta se deu ao lançar o livro mimeografado “Travessa bertalha 11”, ao que se seguiu “Creme de Lua”, “Perpétuo socorro”, “Coração de cavalo” e “Marmota platônica”. Na década de 1980, Charles Peixoto começou a atuar como roteirista na Rede Globo, o que incluiu seu trabalho para a lendária série Armação Ilimitada, ícone da década de 1980, e depois com a novela teen Malhação.
   Charles Peixoto é considerado um dos fundadores da chamada “geração mimeógrafo”, grupo de poetas que trouxe à poesia, através da denominação de poesia marginal, e com a contribuição da Nuvem Cigana, a linguagem coloquial, cotidiana, tirando a poesia de seu gabinete, e levando, através de uma expressão mais coletiva do que de autor, a poesia para as ruas e a declamação.
   A linguagem pop também seria uma das marcas dos poemas de Charles Peixoto. O que, mais recentemente, o levou a ser um dos escolhidos para a conhecida coletânea “26 poetas hoje”, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, que tirou os poetas marginais do underground e os trouxe para o mainstream.
   E, por sinal, dos livros de Charles Peixoto, podemos dizer que seu primeiro lançamento comercial, de fato, foi em 1985 com “Marmota platônica”. Livro que reunia material novo e obras anteriores do poeta. E, depois de um hiato de quase três décadas sem publicar, Charles Peixoto reaparece em 2011 com o livro de poesia “Sessentopeia”. E agora, com “Supertrampo”, temos o livro que reúne a obra do poeta desde seu primeiro livro, também incluindo, até, poemas esparsos recolhidos da imprensa e outros inéditos.
   A chamada poesia marginal, nos anos 1970, teve como epicentro a zona sul do Rio de Janeiro. E os poemas de Charles Peixoto refletirão, em geral, uma poesia de concisão, objetividade, e o romantismo de Charles terá referências heterodoxas, tais como os crimes passionais, os dramas familiares, os casos de polícia, tudo num conteúdo urbano e numa forma que coloca a rapidez das expressões breves como a urgência deste ser que está, em plena década de 1970, entre o sol de Ipanema e as sombras da ditadura militar.
   A poesia marginal é engajada, e mesmo dentro do contexto do desbunde, há uma expressão política, que mescla tal contracultura com o compromisso da arte de perturbar o status quo, não só com diversão, mas também com o necessário e preciso pendor para refletir sobre a devastação do mundo político e real. Os poemas de Charles Peixoto têm este teor de urbanidade, brevidade, exigência do coloquial e do mundano, poesia de rua, feita para a rua, e que, com a Nuvem Cigana, tem no coletivo de rua, e não no autor de gabinete, o seu sentido maior. E, em Charles Peixoto, isso se traduzirá com o desregramento social e afetivo, com um artesanato das coisas cotidianas, o mundano mais fundamental do que o estrito pendor literário.
   É com o lançamento recente de Supertrampo que temos toda a poesia de Charles Peixoto reunida, o que vai do ano 1971 até 2014. Os livros do poeta são elencados cronologicamente neste livro, o que começa, então, pelo Travessa bertalha 11, e que tem versos como: “você podia sentar/acender um cigarro/conversar sobre a sorte das pessoas/sobre como elas perderam tantas coisas/sobre o que eles perderam/eles não entenderiam/ ... que moral e imoral não são deus e o diabo/que as pessoas nascem sem saber de nada” (travessa bertalha 11, pg.15, Supertrampo). Charles Peixoto, nestes versos, coloca o destino coletivo na frente, o sentimento de perder, que é comum a muitos, e além disso, o termo moral e imoral como criação humana, demasiado humana, em que Deus e o Diabo não estão em guerra, mas o Homem. E o termo deste conflito está na sensação básica, racional se citarmos Sócrates, de que o Homem nasce sem saber e morrerá sem saber. O tudo que sei é que nada sei, então, corrobora este sentimento de perda, que é ausência, e que se configura como destino, a sorte das pessoas que perdem e não sabem o porquê, todos nascem com esta fratura da incompreensão, como fator humano por excelência.
   Continuando a leitura de Travessa bertalha 11, aparecem, em seguida, versos como: “eu detestava olhar pras pessoas/sempre no mesmo lugar ... aí enchi o saco e fui ser deus” (travessa bertalha 11, pg.21, Supertrampo). Da constatação do destino inexorável, da fratura existencial que coloca o Homem como ignorante, temos agora a esfera da decisão, Charles Peixoto entra então num sentimento de inconformismo, e como poeta passa a detestar a acomodação das pessoas, “sempre no mesmo lugar”, e decide de um súbito ser Deus. O poeta escreve para alcançar a divindade, e sai assim do lugar comum das pessoas, lugar inscrito na fratura existencial de uma dimensão única: o ser igual e comum que nada apronta, como diria Waly Salomão. E a decisão de ser Deus é o entendimento de que a poesia salva, pelo menos os poetas.
   Em Creme de Lua, temos os versos: “o poeta é um atravessador de paredes/fantasma de si mesmo” (creme de lua, pg.38, Supertrampo). E agora, Charles Peixoto sai de sua divindade, a poesia é um simulacro do que os deuses veem ou uma ideação de ser deus que não livra o poeta da fratura existencial, e que se coloca como fantasma de si mesmo. O sobrenatural seria, no caso da poesia e do poeta, mais uma ilusão do que uma realidade, e quando Charles Peixoto decide ser deus na Travessa bertalha 11, agora vê que é um fantasma no livro Creme de Lua.
   Em Perpétuo socorro, a aventura de Charles Peixoto dá seguimento: “na minha cabeça não tem ideia de mofo/nem farsa modernista/ tem minhocas oportunistas/empapuçadas de terra”, e que segue, “sou mais chegado ao escracho que ao desempenho/mais chegado à música que à porrada/mais chegado ao vício que à virtude/” (perpétuo socorro, pg.43, Supertrampo). Aqui temos mais dilemas, e novas decisões. O poeta se revolta com o mofo das ideias antigas. A geração da poesia marginal terá este fastio como marca, e Charles Peixoto se afirma agora como poeta de vícios. A virtude da divindade é invertida, a música ao menos o redime da porrada, e o humor, o escracho, são maiores que qualquer deus da “grande obra”.
   O saco cheio do poeta se traduz, agora, como um ser mundano. Seu lugar é novo, diverso das pessoas que sempre ficam no mesmo lugar, mas a realidade é a mesma, a amplidão é só o cotidiano, a poesia é seu simulacro de vida, mais mundano, é a Nuvem Cigana na rua, e o poeta como deus do ordinário.
   Ao que segue, ainda em Perpétuo socorro, os versos: “nenhuma compaixão/paixão é perpétuo socorro” (perpétuo socorro, pg. 50, Supertrampo). A compaixão é vertida em paixão, o socorro do poeta sai do ideal compassivo (divino), e mais uma vez se coloca na dimensão mundana, em que a ilusão da poesia se dá bem com uma ilusão maior ainda, a paixão, e isso como seu socorro, perene, perpétuo.
   Na abertura de Coração de cavalo, pg.55 de Supertrampo, temos um dos trechos mais bonitos do livro: “a poesia alimenta revoluções/é o vira-lata esperto na mira da caça/a poesia é a criação mais barata/a situação mais delicada/o tombo mais alto/porque os palhaços pensam que têm/cabeça de borracha”. A mira da caça é o poeta, o vira-lata é o poeta, a revolução é o poeta, e isso numa criação barata, e num alçar voo inconsequente, pois do tombo, o poeta pensa que sai ileso, tem a cabeça de borracha. É palhaço, fantasma, divino, e aqui o cotidiano é delicado, o fio da navalha encarna a revolução que é mais barata que tudo, e ainda tá na mira, como caça, como provocação.
   Ainda em Coração de cavalo, temos: “cansado de tanta interferência/por um pouco de calma/eu lembro de quando tinha muito menos forçação de barra” (coração de cavalo, pg.78, Supertrampo). O poeta quer fazer seu simulacro, quer se realizar na ilusão, é um fantasma, um palhaço, consciente de que a fratura existencial das pessoas que não saem do mesmo lugar podem prejudicá-lo. Pois agora o conflito vira guerra, e a tática do homem unidimensional é a interferência. As revoluções dos versos vão de encontro com uma muralha inexpugnável, na qual a forçação de barra vai ao limite, tornando-se intolerável. E o poeta a denuncia.
   Em Coração de cavalo, a denúncia segue, mais clara que água: “abaixo a linha dura/qualquer linha/o que der na telha/deixa a gente feliz/bazta nazi manzanas” (coração de cavalo, pg.80, Supertrampo). Aqui, a ditadura militar é citada, e a interferência ou forçação de barra ganha nome e endereço: a linha dura. Aqui o nazi é a resistência do homem unidimensional que torna o político em autoridade, o grito de liberdade em afogamento, num verbo em que a palavra livre se esquiva e fala baixinho para não morrer.
   O “forçador” é máscara, e o fantasma do poeta assombra com suas revoluções o seu ser deus que tem a tarefa de denunciar a fratura ignorante que é a farsa da ordem. Denúncia da mentira como virtude que não sai do lugar, e o poeta, enquanto isso, e apesar disso, faz o que der na telha, provocação e libertação denunciam a letra unívoca da verdadeira cabeça de borracha: a ditadura militar, aonde que tem cabeça é preso.
   Já no primeiro lance comercial de Charles Peixoto, o Marmota platônica, aparecem versos desta estirpe: “mais uma vez pulei dentro da minha nave sonâmbula/intitulada marmota platônica/e fiquei julgando ouvir estrelas” (marmota platônica, pg.102, Supertrampo). A ilusão do poeta, seu simulacro, evoca um dos ases da poesia antiga, Olavo Bilac, o senso comum é derrotado pela loucura de ouvir estrelas.
   O poeta marcha na sua insensatez sensata de colocar a ilusão na ordem do dia, e aqui sai do mesmo lugar de sempre do homem unidimensional, e se realiza verdadeiramente, levando uma vida mais autêntica, em que saber do próprio talento, tê-lo como ofício, faz do simples simulacro um projeto de vida, e com a palavra verdade como diferença, afirmação.
   A marmota platônica, seu mundo de ideias, torna o mundo diferente, em que ser sonâmbulo e ouvir estrelas é normal, e mais que isso, esta ausculta se faz como lugar de senso crítico que não vê só o que se apresenta como tangível. A nova visão sonâmbula é a visão do transe, em que a verdadeira vida eclode. Enquanto o simulacro cabe mais, agora, ao homem unidimensional que ao poeta, o qual já vê a luz, as estrelas, e, veja que ousadia, ouve tudo, como se o transe fosse o átimo de sentido que falta ao mundo que não sai do lugar.
   Em Sessentopeia, livro de Charles Peixoto lançado em 2011, aparece novamente este estado alterado da mente, que é sonho, delírio e transe: “sessentopeia/sacripanta sensual a se insinuar através do tempo/sonhos selvagens/paixões suicidas/noites de loucura ... sessentopeia/sismograma de um cérebro em surto/páginas da biografia secular de um recém-nascido” (sessentopeia, pg.121, Supertrampo). Aqui, a noite de loucura em que se ouve estrelas tem a imagem firme do renascimento. O poeta, agora recém-nascido, olha o novo mundo, a loucura é a performance de uma realidade que o estreito caminho do homem unidimensional sequer suspeita, pois foi adestrado no tangível, e acha que o simulacro é a realidade.
   A marmota platônica, a alegoria da caverna, é colocada novamente em Sessentopeia, e o neologismo é criação de simulacro, só que com mais pé no real do que o senso comum dos que não saem do lugar. O cérebro em surto faz as cores do novo mundo, e nada será mais tão conforme ao que o idiota da objetividade espera, pois a poesia não se ocupa do simulacro da unidade conforme ao preestabelecido. A poesia cria a ausculta, na poesia se ouve estrelas, e o mundano tem mais cor e som do que imagina (não imagina?) o homem unidimensional.
   Já nos poemas novos de Charles Peixoto, o Supertrampo propriamente dito, temos: “assim vigora o temor febril/evidente que não fazemos parte dessa galáxia/extratelurianos são compatíveis/nada improváveis/polêmica relação entre poetas e lunáticos” (pg.187). E que finaliza o trajeto com : “poesia é bom/eleva o espírito/burila o sentimento/traduz a amplidão/e o que de tão pequeno/evapora no fim da tempestade” (pg.193). Charles Peixoto encerra seu Supertrampo com o diálogo surreal entre o poeta e o lunático. Estes são extratelurianos de outra galáxia, em que o senso comum é uma piada, e o sensato mora nas estrelas e tem ausculta nobre e diz que poesia é bom, como seu último pecado e blasfêmia contra o homem unidimensional.  

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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segunda-feira, 9 de março de 2015

A FÁBRICA DE MONSTROS

   Bob Gil, Ricardo e Lúcio eram três amigos, todos na faixa dos dezoito e dezenove anos. Nas noites, gostavam de sair para pichar muros, todos no subúrbio, eles tinham nesta atividade lúdica seu passatempo, identidade e afirmação. Logo, depois de uma noitada em que Bob Gil, o líder dos três, subiu um paredão enorme de um prédio para deixar a sua marca, piche que era Commando em letras estilizadas, e com a sigla do grupo abaixo, T.T. (Tormenta Total), ele foi pego pela polícia, foi levado no camburão.
   Os outros dois, Ricardo e Lúcio, tentaram avisá-lo que havia chegado a viatura, mas, vendo que não daria tempo, correram embora. Ricardo e Lúcio resolveram então ir ao outro quarteirão e deixar suas marcas nos muros de uma casa: Ricardo era “Esnobe” e Lúcio tinha um nome sem sentido “Clacks”.
   Eles ficaram de ir atrás de Bob Gil mais tarde, quando amanhecesse. Foram a uma boate e pegaram a mesma mulher, a qual já conheciam, Norma, mais conhecida como Norminha, que já tinha passado na mão de todos os pichadores do bairro. E para os dois era satisfação garantida, até porque eles não tinham muito tesão por mulheres que ficam dificultando muito, pegavam as piranhas que davam para todos, pois dava menos trabalho.
   Norminha chamou os dois para a casa dela, ela tinha 32 anos e era viciadaça em cocaína. Lúcio tirou no palitinho com Ricardo quem seria o primeiro a comê-la naquela madrugada. Lúcio venceu, durou dez minutos, saiu do quarto dela todo suado, Ricardo então desistiu de comer Norminha, tinha dado um teco e ficou paranoico achando que Norminha que tinha mandado prender Bob Gil. Os dois saíram sendo estapeados por Norminha logo após, e deram no pé. Norminha era imprevisível, e como os dois não gostavam de dificuldades, viram que o preço da piranhagem tinha acabado de ficar alto para eles, que foram dormir numa sacada abandonada, para de manhã saírem atrás de Bob Gil.
   Naquela manhã, Bob Gil passou por um interrogatório surreal: “Quem é você? Um intruso do submundo? Vou mandá-lo para o inferno, conhece o inferno? Você fez pacto de sangue com o diabo? Como você achou este muro? Por que você sobe prédios? Qual é o nome do artista que disse que pichar é legal? Você gosta de comer sal? Vou enfiar um saco de sal na tua boca!”
   E, então, Bob Gil foi torturado por dois jovenzinhos aspirantes da delegacia, a tortura do sal. Ele engoliu um saco inteiro, e depois os jovenzinhos ficaram com garrafões de água na frente de Bob Gil, sem deixá-lo pegar a água. Deram um banho de gordura de porco em seu corpo, obrigaram-no a comer comida do chão, podre, depois que Bob Gil já estava com a cara preta da noite anterior por causa do piche como punição. Logo após, os dois aspirantes, já cansados da diversão, deram chutes em Bob Gil, que saiu a pontapés da delegacia, e então Bob Gil estava livre, na rua novamente.
   Bob Gil voltou à sacada em que Lúcio e Ricardo dormiam, eles tinham brigado com os pais e ficavam zanzando pelas ruas, só Bob Gil tinha uma condição abastada, morava de frente para a praia, mas sempre preferiu se aventurar no subúrbio, aonde seu pai lhe alugou um quitinete, mais para se livrar de Bob Gil do que para prestigiá-lo.
   Bob Gil tinha trabalhado de office-boy uns meses, mas foi mandado embora depois de chegar chapado de maconha no trabalho e de ter cuspido na cara do chefe. Enfim, já na manhã, Lúcio e Ricardo procuravam Bob Gil que procurava Lúcio e Ricardo. Os três se trombaram na praça principal do bairro pobre em que moravam, já ao meio-dia. Bob Gil pediu aos outros dois um banho na cara para tirar o piche, Norminha passou na praça e decidiu dar mais uma chance para Ricardo e Lúcio, pois ela queria mais uma sessão de sexo com Lúcio, mais do que os dez minutos daquela correria da madrugada anterior. Norminha levou Bob Gil para sua casa e lhe deu um banho até tirar o piche, depois de um boquete e tudo resolvido. Mas, Bob Gil não achou seu trabalho bom e saiu sem agradecer, ela ficou puta.
   Depois daquele dia, Norminha sabia que Lúcio, Ricardo e Bob Gil não prestavam um níquel e arrumou um pobretão caidinho que vivia bêbado pelas ruas como seu iniciado do sexo. Enquanto isso, Bob Gil queria se vingar dos dois aspirantes que tinham lhe torturado, falou do ocorrido na delegacia com Lúcio e Ricardo. Os três conheciam um mestre de jiu-jitsu com uma suástica tatuada no braço direito, que quebrava todo mundo que se metia com ele no bairro, foram lá fazer a caveira dos aspirantes que, por acaso, eram conhecidos do mestre, o faixa preta de jiu-jitsu tinha o codinome de Brutal, o que tinha herdado de seus tempos de pichador e queimador de erva, isso antes de se dedicar à luta para ser alguém na vida e ter ficado careta só comendo vegetais, e além do jiu-jitsu, praticar ioga e meditação. A suástica no seu braço era um exibicionismo de seu tempo de muros pichados, ele agora era budista e descobrira que tal símbolo também era budista, o que amainou a sua consciência.
   Brutal, que como iogue, era teoricamente um cara pacífico, contudo com qualquer coisa errada ele partia pro pau, era um bipolar que beirava à demência quando deixava a cartilha budista e virava o lutador da suástica no braço. Tanto que, depois de dois anos morando no bairro, ninguém mais mexia com ele, pois sabia que era perda total. Já havia, então, um ano que ele não brigava mais por causa própria, só quando algum amigo tinha sido humilhado ou coisa parecida. Seu senso de justiça era torto, ele era um monge até estourar, e aí, já sabendo disso, Bob Gil já tinha pensado nele desde que estava de manhã comendo sal com os dois aspirantes metidos a valentes quando as coisas estão fáceis.
  Depois de uma conversa com um tal de “Velhinho”, cara que conhecia cada palmo e pessoa do bairro, Brutal já sabia os endereços dos dois aspirantes que, por sinal, moravam perto de sua academia. Bob Gil ficou com um sorriso perverso de canto de boca, seria sua surpresa para os dois valentes quando Brutal fizesse o serviço. Bob Gil queria a forra logo, mas Brutal disse para esperar três dias, para sacar o movimento dos caras. “Nada se faz com raiva” disse Brutal, (olha quem dizia), mas tinha sentido, Brutal sempre foi calmo mesmo estourado, o que era um paradoxo, mas ele tinha tanta força que, quando brigava, parecia que estava fazendo um movimento de sua rotina, como quem almoça ou toma banho, portanto, sua agressividade era calculada, como quem tem um bisturi e sabe o que está fazendo.
   Passaram os três dias. O primeiro da lista era o que morava na quadra seguinte da academia de Brutal, aspirante que, Brutal descobrira, tinha sido seu aluno de jiu-jitsu há poucos meses antes de virar polícia, sabia seu nome, Everaldo. O outro era o Matias, que era um valentão do bairro, também conhecido de Brutal, e que, um ano antes, tinha levado uma garrafada do tal “Velhinho”, que não brincava em serviço, o que deu a Matias uma cicatriz na testa.
   Brutal disse para Bob Gil, ao meio-dia, para só aparecer depois que Everaldo tivesse com a cara vermelha, para ele ficar na esquina e não “perturbar” seu trabalho. Brutal tocou a campainha da casa de Everaldo, e quem atendeu foi sua esposa. Brutal disse que tinha um recado para dar ao seu marido. Everaldo apareceu na porta, abriu e reconheceu o antigo mestre de jiu-jitsu, nem deu para ele dar o primeiro pio e levou uma cabeçada no queixo, Everaldo viu estrelas e perdeu os sentidos. Brutal, então, não fez mais nada, e chamou Bob Gil.
   Quando Everaldo voltou a si, viu a cara de Bob Gil e tomou um susto. Brutal disse para Everaldo pedir desculpas à Bob Gil, o que mexeu com o orgulho de Everaldo, mas ele não tinha saída, pediu desculpas e garantiu à Brutal que não faria mais nada com Bob Gil, que ele poderia dar os seus rolés de pichação sem ser incomodado dali para a frente. Brutal então disse para Everaldo que tinha ficado barato, mas ele tinha conseguido o que queria, ninguém mexer com ninguém, que era o lema de Brutal.    
   Logo, Bob Gil ficou atordoado, queria ir logo na casa do outro aspirante, Matias, que era o mais insano da tortura, e desta vez Brutal prometeu a Bob Gil que o trabalho seria mais ríspido do que com Everaldo. Só que ordenou para que Bob Gil se acalmasse, e disse para Everaldo não ter contato com Matias nas próximas duas horas, pois senão levaria outra cabeçada. Everaldo nem pensou, teve um ardil, disse nada para Brutal, mas ligou para o delegado e falou um monte de abobrinhas. O delegado mandou um investigador atrás de Brutal e Bob Gil.
   Na casa de Matias a coisa ficou feia, ele subiu no telhado, Brutal e Bob Gil escalaram a telha, mas Bob Gil, apesar da experiência em subir edificações, caiu dentro da casa e quebrou a perna. Brutal decidiu suspender a sua ação e desceu junto com Matias do telhado, disse que não faria nada com ele se o mesmo levasse Bob Gil para o pronto-socorro, no que Matias pegou seu carro, e foram os três, Brutal, Matias, e Bob Gil gritando de dor para o hospital.
   Lá, Bob Gil teria de ficar de molho por uns dias, e no terceiro dia recebeu um diagnóstico de louco por um médico que não gostava de vagabundos como ele, foi enviado para uma clínica psiquiátrica, e lá encontrou Lúcio e Ricardo, que foram enviados para lá depois de uma briga de que não participaram, e foram pegos como boi de piranha. Os três agora estavam juntos novamente, no meio de um bando de alienados, e o investigador enviado por Everaldo disse a ele que “os caras já tão lá”.
   Dr. Ronaldo tinha um acordo com o delegado do bairro para pegar todos os vadios das redondezas e dar injeções para acalmá-los. Ali havia uma política velada de combate à vadiagem, coisa que só se tinha há cem anos, mas a polícia já estava de saco cheio dos pichadores que brotavam como uma hidra de lerna pelo bairro todo.  
   Não era Dr. Ronaldo que iria contestar a posição do delegado, ele tinha uma política sanitária ordenada pelo prefeito de pegar os zumbis das ruas e empilhá-los em qualquer canto. Mas, lá não era uma clínica de verdade, o que se tinha neste lugar era uma seita de combate a vagabundos, era coisa orquestrada pelo estado de polícia, não tinha medicação nem nada, era algo ilegal para combater a ilegalidade, e Dr. Ronaldo era só uma fachada para dizer que ali as pessoas estavam em tratamento.
   Brutal, que não devia nada, foi capturado por uma força-tarefa orquestrada por Everaldo e Matias, que agora estavam fazendo a vingança da vingança, o olho por olho que todos sabem vira uma bola de neve e acaba sempre mal. Everaldo e Matias, com mais dez homens, tiveram dificuldades para pegar Brutal. Três saíram com hematomas, mas conseguiram botá-lo no camburão, e ele caiu naquele lugar que era uma fachada de clínica, mas que funcionava como máquina de tortura e alienação.  
   Não havia enfermeiros, eram membros do estado de polícia que comandavam aquele lugar oculto da sociedade, o ímpeto era pegar vadios e enlouquecê-los. Só saía dali alguém, só quando este alguém estivesse em frangalhos, incapacitado de reagir. O delegado era o um dos líderes da seita que era chamada de “Purificação”. A prioridade era acabar com Brutal, que era o mais forte.
   Depois de dois meses com ardis psicológicos e físicos, o que incluiu, no caso de Brutal, sede e fome, ele finalmente saiu de lá, mas não era mais o mesmo, tinha sido doutrinado, e logo entrou para a força-tarefa para pegar vadios, foi incorporado à seita, não tinha mais livre-arbítrio, coisa que era negada pela teoria da “Purificação.”
   Brutal agora mudara de nome, seu nome era Plácido, e seu semblante abobalhado se tornou o veículo fundamental de expansão daquela limpeza social. A Purificação atuava externamente como uma igreja neopentecostal, A Igreja da Nova Luz. E os novos crentes, dentre os mais fervorosos, eram pinçados para a chamada “sala secreta”, que era a incorporação de neófitos para a força-tarefa oculta da “Purificação”.
   Dr.Ronaldo cuidava da Purificação, e seu irmão mais velho, pastor Dias, atuava exotericamente com a lavagem cerebral pseudo-bíblica de tipologias de auto-ajuda, com os crentes emocionados e caindo hipnotizados pelos passes magnéticos do novo líder da Igreja da Nova Luz. Norminha agora era uma das sacerdotisas, uma das concubinas do pastor Dias, e foi logo incorporada à força-tarefa da Purificação. Lá encontrou Lúcio e Ricardo entoando mantras sem sentido, estavam sendo doutrinados, mas não poderiam fazer parte do culto ou da força-tarefa, pois já tinham perdido o juízo completamente. Enquanto isso, Bob Gil estava num curso para virar pastor. Brutal, agora como Plácido, distribuía santinhos da Igreja da Nova Luz pelo bairro, tinha emagrecido e já não botava medo em ninguém.
   Na doutrinação, os mais alienados, como Lúcio e Ricardo, dentre outros que a Purificação chamava de “bestas”, estes ficavam entoando mantras ordenados por um guarda, o que incluía também três horas de uma sessão de cambalhotas para ficarem tontos e ouvirem a palavra “Idiota” gritada em seus ouvidos pelo mesmo guarda. A idiotia era o objetivo para com os chamados “bestas”. Lúcio e Ricardo estavam tão chapados que nem lembraram de Norminha quando a viram. Ela estava numa túnica azul e com os cabelos até os pés, como uma fanática que gritava Deus e Aleluia para os que estavam sendo encaminhados para a escola de pastores. Quanto aos “bestas”, ela gritava “Idiota” junto com o guarda às vezes. A situação clínica de Lúcio e Ricardo era indefinível, a lavagem cerebral os tinha inutilizado para a vida social, suas rotinas se resumiam a mantras, gritos de Idiota e cambalhotas, mais nada.
   A Purificação logo seria “revelada” aos crentes da Igreja da Nova Luz, como o cume da montanha, o ideal social que levava embora os bestiais, e que tinha nos chamados “bestas” a pureza dos que nunca retornarão. Os “bestas” seriam os novos anjos da Igreja, e já seriam apresentados à multidão de crentes do pastor Dias.
   A doutrinação, que havia exotericamente com a Bíblia, sobretudo o Velho Testamento, viraria uma coisa só com o esoterismo da Purificação, um plano de dominação social e psicológica idealizadas pelo Dr.Ronaldo, o delegado e o pastor Dias, que, a esta altura, depois de unidos, já começavam a olhar torto um para o outro, o que configuraria em breve numa disputa de poder insana pela liderança do capital e do nome da Igreja da Nova Luz e pela seita da Purificação.
   Os três, Dr.Ronaldo, o delegado e o pastor Dias tinham um projeto, quando da união de Igreja da Nova Luz e da seita da Purificação, o nome da nova organização seria Último Dia, e todos deveriam estar em túnicas ao entrar no novo templo, tudo com temática e estética do Velho Testamento. Era a ideia de recriar o Templo de Salomão, que era a verdadeira obsessão do pastor Dias, e que ordenou uma força-tarefa para sumirem com o delegado e o Dr.Ronaldo, mas Brutal (Plácido) ficou sabendo e disse ao seu mestre e mentor Dr.Ronaldo para ele fugir.
   Só o delegado foi pego, e levado para o estado de polícia da Purificação que ele mesmo tinha tramado. Lá, Norminha começou a gritar Idiota junto com o guarda, a intenção do pastor Dias era eliminar o delegado através da alienação por mantras e hipnose, na qual ele era mestre.
   O pastor Dias era o mais ambicioso dos três líderes, Dr.Ronaldo queria se vingar do irmão, e foi direto ao ponto, deu uma ordem para Brutal (Plácido) matar o pastor Dias, lhe deu um revólver e mandou acabar logo com aquilo, o Templo de Salomão seria agora ou do pastor Dias ou do Dr.Ronaldo.
   O delegado, depois de uma sessão ininterrupta de hipnose de alienação, já estava catatônico, e não oferecia mais perigo aos planos do pastor Dias, o delegado havia recebido um passe magnético do pastor Dias e agora imaginava que era um cachorro, mijando e cagando no chão no pátio da seita da Purificação, lugar que seria demolido quando da revelação da Purificação aos crentes emocionados da Igreja da Nova Luz.   
   Pelos planos do pastor Dias, Lúcio e Ricardo seriam as primeiras “bestas” apresentadas aos crentes da igreja, como uma introdução sutil ao mundo alienado que era o mundo puro e que deveria ser o ideal dos crentes dali para a frente. Claro, com um toque de hipocrisia, na igreja não seria escutada a palavra secreta “Idiota”, mas a idiotia era o plano de dominação social, financeira e psicológica do pastor Dias. O comando magnético já tinha mudado para “Puro” quando da entrada de Lúcio e Ricardo à Igreja da Nova Luz.
   Então, chegou o dia das “bestas” ou “puros” (na linguagem exotérica) serem apresentados aos crentes emocionados da igreja. A Igreja da Nova Luz teria, só naquela semana, e já divulgado pela publicidade da igreja, 57 puros que tinham, segundo o relato fictício do pastor Dias, passado pelo batismo nas águas do Rio Jordão, como os novos anjos, ideal de pureza, “bestas” (na linguagem esotérica). “Puros” (na linguagem exotérica).
   Aquela semana foi de festa, Lúcio e Ricardo repetiam a palavra “Puro” e “Anjo” o tempo todo. As “bestas” logo foram apresentadas naquela semana turbulenta, e os crentes emocionados se jogavam no chão, falavam em línguas e gritavam “Glória Deus” e “Aleluia”, num rito hipnótico em que havia desde sessões de descarrego até pregações doutrinárias calcadas sobretudo no Pentateuco, com Levíticos e Deuteronômio sendo citados pelo pastor Dias entre gritos de “Puro” e “Anjo” dos chamados “bestas” (linguagem esotérica).
   Os 57 “bestas” ou “puros” então são banhados numa grande bacia com “águas do Rio Jordão” para então gritarem, sob novo comando magnético: “Purificação!” E os crentes emocionados caíam aos montes, numa orgia magnética em que seria anunciada a construção do novo Templo de Salomão e a mudança do nome da igreja para Último Dia.
   Os anjos, como eram chamados os bestas pelos crentes, receberam uma verdadeira procissão, o pastor Dias disse aos crentes que quem tocasse nos “anjos” ou “puros” teriam a cura e a vitória, pois ali haviam almas abençoadas pelas águas do Rio Jordão, e que eram tão puros que de suas bocas só saíam agora a palavra “Purificação”.
   Entrementes, Plácido (Brutal) já estava à paisana para cumprir a ordem do Dr. Ronaldo para matar seu irmão, o pastor Dias. Só que o tiro saiu pela culatra, Norminha tinha ouvido a história de Plácido e avisou o pastor Dias da trama de Dr.Ronaldo. O pastor Dias avisou ao guarda da Purificação para prender o Dr.Ronaldo, e que, mesmo sendo subalterno do mesmo, quem mandava de verdade na Purificação era o pastor, e ele, o pastor Dias, seria o ungido do Templo de Salomão da nova igreja Último Dia.
   O guarda capturou o Dr.Ronaldo, enquanto Plácido era hipnotizado e imobilizado pelo pastor Dias. No dia seguinte o pastor Dias, junto com o guarda e Norminha, fizeram os passes de alienação em Plácido e Dr. Ronaldo e os transformaram em novas “bestas”. Logo apresentados à igreja como mais dois “puros”.
   E agora todos os crentes emocionados queriam também ser puros, e o agora pastor Bob Gil, de tão doutrinado na escola de pastores, já era considerado o sucessor natural do pastor Dias. Bob Gil era agora um dos que passaram a trabalhar na inauguração do Templo de Salomão, enquanto o pastor Dias lançava outro pastor candidato a prefeito da cidade.
   Só que havia um delator, um dos funcionários da Purificação, que agora seria demolida, e tinha perdido o emprego, denunciou as barbaridades cometidas naquele lugar à Justiça. E a Polícia Federal foi acionada e chegou a tempo de ver cerca de 150 bestas dentro da Purificação, antes da demolição.
   Um jornalista ficou sabendo e publicou uma denúncia de que o pastor Dias tinha esquemas de lavagem de dinheiro e lavagem cerebral. Logo, o nome do pastor estava envolvido num escândalo de proporções gigantes, mas, mesmo assim, com a denúncia vindo à luz do dia, os crentes saíram em passeatas em volta do novo Templo de Salomão contra a prisão do pastor Dias.
   O pastor, então, vem com uma plêiade de advogados, e deixa o Templo de Salomão ao cargo de Bob Gil, neste ínterim. Norminha vai junto com o pastor Dias para protegê-lo dos fotógrafos. Bob Gil agora já vislumbrava o pastor Dias fora de seu caminho, ele não tinha escrúpulos, e sua pose de sucessor era para fascinar o pastor Dias até que a casa caísse para o mesmo.
   Com o escândalo público, as chamadas bestas foram encaminhadas por assistentes sociais para uma escola de ressocialização, o que foi um trabalho brutal, e que duraria uns cinco anos, sem resultados efetivos. Lúcio e Ricardo, por exemplo, deixaram de falar “Puro” e “Anjo” para “Eu sou idiota”, como uma ressonância dos gritos dentro da Purificação.
   E, enfim, a demolição da Purificação foi feita, mas pelo Corpo de Bombeiros, engenheiros, e com a vigilância da Polícia Federal, para que nenhum crente emocionado entrasse lá. Os bens do pastor Dias foram confiscados, e o Templo de Salomão, agora com o julgamento do pastor Dias, que levaria a uma condenação de oito anos de reclusão, estava nas mãos de Bob Gil que, apesar de pastor, parecia que tinha recobrado a consciência, e resolveu acabar com aquilo tudo, queria vender o Templo de Salomão, faturou uma grana com isso, e então, ao encontrar velhos amigos da pichação, viram que estes agora estavam envolvidos no grafite, e então tornou o Templo num centro cultural, o local foi então chamado de Povo da Rua, e ele largou a Bíblia para virar grafiteiro.

09/03/2015 Contos Psicodélicos
(Gustavo Bastos)