PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 18 de outubro de 2014

LAMENTO DO ESCRAVO

Bento, senhor da matéria,
tem ouro em bloco,
tem ouro em pó.
Prataria de toda estirpe,
com sua genealogia do caos,
seus capangas e suas mortes.

Bento matou o próprio sorriso
em busca de pedra,
matou o mar
sonhando a areia.

Senhor também das águas:
morreu o mártir
na sua mão de fogo,
morreu o vinho
e o pão
em sua masmorra.

Leve tudo,
doutor da morte,
leve meu coração
embora
que ele só quer nuvem
e tu me dás
o rochedo.

17/10/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

CROSTA MORTALHA

Brota do chão o corpo de crosta,
imune castelo do pavio aceso.
O fumo, dentro da crosta,
enfumaça o solo, firme.

O quente que sai da arma,
em pulso, com a mão na mortalha,
mata o passaredo na paisagem.

Onde o mar escava a rede de pesca,
num ar manso de pedra,
a gaivota e sua garra
dão ao peixe o fim,
da garra da boca e do frio,
congela o coração
o mar dentro do osso.

Do chão, defronte ao mar,
a crosta da serpente
refina o fundo da visão,
paisagem de crisálida,
com o nervo exposto.

O corpo ao mar de enlevo,
que na baía recorda do próprio esgar,
afunda em areia acidentada,
embora sua morte
seja de planície,
com o revés do chão.

17/10/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

COSMOS LÍQUIDO

Bruma do coração, resta à palavra
a demão de bruto calor e queda.

Bruma límpida do cosmos,
os planetas brumosos
serão descobertos
em outras galáxias,
com os países como
os daqui,
com gente tão igual
como as daqui,
sente o coração no pulsar,
o vinho seco
do fim do dia,
tantos sóis como na aurora,
de frente ao infinto.

15/10/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

FIM DA ACADEMIA

Tão duro como o primeiro inverno,
a cabeça tonta
não para.

Volta e dá meia volta,
contorna o quarteirão,
sofre como um pássaro
de canto e asas cortadas.

Tão linda como a primeira primavera
é a liberdade, canoro ao tempo
esculpido de marca d`água,
numa cédula de espanto.

Leve o rouxinol daqui,
está tendo uma guerra,
e os doutores das letras
foram assassinados.

15/10/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

FUNDO BERRANTE

As mãos estão postas, ao alto.
Com os dentes sempre prontos,
o alvo é certeiro,
semente do caos
no eflúvio da chama.

Corre o náufrago, um berro
estalado, em todas as coisas
do mundo está o centro de tudo.

Alvo, da paz de vultos, na guerra
o eterno urro.

Ventila demasiado, nas horas
descidas em ventre vulgo.
Temerá teu capítulo final
o dia?

Pois, da arma posta,
o mês findo,
e alma morta ...
restará daquela dança
o grito exultante
de vitória.

15/10/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

HAUSTO RITMADO

Versos atrapalhados, desses que descem ofegantes.
Carne que se espatifa sonora,
como uma sinfonia,
o sexo.

Como se dá mesmo esta canção?
Eis nada demais, como o contorno
da esfera que deságua
além-mundo ...

Dois chifres encontram o inferno,
se o poeta devaneia,
dando seus saltos nos pórticos,
vem uma flecha e corta de sangue
a têmpera do asfalto.

Por fora o dia cresce, na mesma onda
estão os serventes ao nada.
Como é a canção?
Versos estanques de dores amantes.

Por coisas assim, que o hausto
aflora, o peito rumoreja
a estrela como um
solo de guitarra,
e nada ao claro enigma
o estro desconhece.

15/10/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

SESMARIA

Logo a noite fugirá em meu espectro de morte,
tez de alabastro, como o mago
inquieto que dorme na passagem
de Caronte.

Eis, que o novilúnio, contemplando daqui,
requer o espírito clarividente,
em todo o seu esplendor.

E o sol fervente,
dentro do coração amassado,
ressurge como a glória faustosa,
retoma os direitos
ao corpo inerme,
soterra a paixão de caldo viril,
solfeja uma atração gravitacional
entre os sexos astutos
de filosofia,

delimitei este campo fértil:
quinze mil côvados,
tenho talentos e dobrões
aos montes,
do templo à arca,
tudo medido em ponta de cimitarra,
das terras que conquistei,
guarnecidas de maná
e bebida forte.

09/10/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)