PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

terça-feira, 10 de julho de 2012

PENSANDO RITMO

A cria de Jazz
é um sonho azul
de heroína.
Parque do romance
na lua da praça
de velhos.

A filosofia não compreende
a noite boêmia
do álcool na voz
mutante
de Billie Holiday.

Eu chorei olhando
a minha cabeça nua
e a minha língua
anestesiada de cocaína.
Passo em frente
ao portal de todos os seres
no cais de Miles Davis
conversando sobre flutuações
de seu "Sketches Of Spain",
uma voz bruta cantava
pelo tantra vassalo
da corte de saxofonistas,
o trompete pleiteava
o cérebro do sopro,
e Monk e Mingus
viravam a noite
depois da morte
de Charlie Parker.

Meus camaradas falavam
sobre ventanias
no sonho da marijuana,
fazendo sons desconexos
de esperança.

A noite azul do cavalo
subia à mente
com o encanto
das mulheres.
Cortava o som do pub
um monte de bêbados
anarquistas
sobre cinzeiros.

O palco das cantoras suicidas
era coberto da fumaça
de marijuana,
e os olhos cintilavam
na filosofia boêmia
daquele Jazz
eterno
que vivia os deuses
em cada tragada
de charuto.

Esperava a nova geração
da poesia na porta
dos entendedores de tudo
prontos a mergulhar
no nada do verso.

Allen Ginsberg me chamava
para dar uma volta
pela orla em seu carro.
A gasolina era patrocínio
dos estetas
que vendiam heroína
aos músicos.
E os jardins de papoula
já eram plantados
na cabeça
que produzia
"Kind Of Blue"
com trouxas
de marijuana
na boca do lixo
que ouvia
Sganzerla e Glauber
confabulando
as suas próximas
empreitadas.

Eu gastei cem reais
em uma noite,
nada demais para
um homem
que se julga
atravessado
de dívidas impagáveis,
tomei água à beira do lago
ao ritmo de Billie Holiday
esperando o tédio da manhã.

Os lutadores armaram
uma confusão
no baixio da fúria
para mostrarem
os seus músculos,
e eu sorri bêbado
com medo de cair
sem ver a polícia chegar
e tomar cachaça
com os mendigos,
eu era um ser caçado
por fotografias
de planos retilíneos
de um caminho curvo
e delirante
que não amava
a aurora mais
que a madrugada.

10/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

ORAÇÃO FAUSTOSA

Naufrágio do convés
pelas cimitarras
das invasões
do campo rico.

As naves vingam
as pedras,
as pedras vingam
os mares,
os mares vingam
os poetas.

Eu vivi na morte
como na vida ferida,
eu vivi na cidade
com toda a infinitude
em meus olhos,
eu sonhei com a alegria
na catedral das almas
bondosas,
eu caí e desmaiei
no vício das horas
de ócio,
e vi com o meu corpo falso
a minha memória
na centelha divina
da dadivosa chama
que chorava
as rosas e as orquídeas
do jardim que era
vivo.

Pelas estradas eternas
caminhei sem dó
dos vigiadores
do caos,
sem olhar a iminência
do fim no palco da dor,
sem rimar o amor farto
da nuvem que se dissipava
na eternidade
que sonhava
sem culpa,
eu acreditava na vigília
da alma rediviva
como temporal
que rugia
pelos ventos de desejo
pelos corpos,
ouvia o amor das formas
nas vozes da carne,
o amor informe
nas vozes da alma,
dizia meu coração
a saudade que sentia
do paraíso desmanchado
na maldade,
a saudade das plácidas
orações na saudade
das canções,
a saudade do coração
que explodia no grito
da redenção.

10/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

POMBA BRANCA

Pousa a pomba branca
na cabeça do esquife
como premonição
de salvação.

Os olhos flamejam
dores taciturnas.
Já dizia "eureka"
na tempestade
de um sino,
o canto se dobrava
de honras no ópio
da voz exangue.

As águas fluviais emanavam
o miasma das nereidas
no sonho do navegante
em vil traição.

As águas bentas beatificadas
canonizadas de céu,
das águas virulentas
do castiçal em chamas,
as águas de marés
nas ondas dramáticas
do proscênio.

Que ouço na ausculta
do fundamental?
O amor resoluto
e sem paixão,
o vidro espatifado
na fronteira do meu
sangue,
o calor do corpo vivo
na paz espiritual
de uma alma em floração,
o riso semeador
da comédia
no lindo dia
de verão,
o sonho vertido
no canto solar
de um mecenas
febril,
a poesia inflamada
na miragem de seus
devaneios,
a lágrima regida
por uma música
de intensidade
e densidade,
a arte sentida
nos remansos
da calma solene.

E o amor vigora,
o amor pacífico
de um corpo
de glória
na vida que se vive
afinal.

10/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)


ETERNIDADE VERTIDA

Atenas sitiada, vozes da penumbra
na noite azul da dança.
Quantas são as hordas
do fim do mundo?
Vejo em minha manta
o sujo estupor
do gládio,
pelos ventos vorazes
na alta silente rubra flor.

O alvo está morto,
os estertores da fúria
golpeiam o meu ventre,
a cápsula do temor
vinga o solo do sol
no rancor da fera.

Outrora festa, presente macabro,
as velas se acendem
no caos do espírito,
corre nas sombras
a luz ferrenha
nos haustos
do penedo.

Honra e destemor
vagueiam
nas obras
inacabadas
do torpor.

Aleluias velam pelo corpo
na cor vicejada
de diamante.
Correntes são puxadas
na escada do infinito,
na palma inquieta
que lê.

Olhos malvistos, castelos
na noite celebrada.
Vultos no sonho do poeta
que fugia de seu céu
na idade de uma virgem.

O solo fértil retinha
o tremor arcaico
de funda poesia,
desídia na vingança
era o tédio
com ardor
pelos cantos
de febre
na infinita
dor, quando
eu sabia
de todos os acordes
de tenores
numa volta
de drama
pelo ato final.

Restava o céu furioso
nas vigas da eternidade.
Época de sonho
pelo vinho
que navega
nos ares
de ácidos
e juramentos
redivivos.

A praia ventava
como sentimento
de um animal maldito
como negror de morte.
Sobrevida era o emblema
no socorro das almas
em profunda vitória.

A tela era claustro
e emoção no rasgo
de verdade,
no livro que feria
de rigor e tripudiava
do algoz na noite
do fogo embriagado.

Regia o maestro
debilitada orquestra
quando renasceu
toda a eternidade
na ponta da pena.

10/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

ROSAS DEMUDADAS

Sentimento esparso no
canto do rouxinol,
arrumei os afazeres
desta época lamentável,
os acordes soam
emocionais em demasia,
queria um ritmo bruto,
não uma flor.

Ossos quebram na voz do trovão,
com rosas demudadas
em visões extáticas,
alma em cantata viciada,
algo acontece na letra do céu,
um livro revira a noite astuta,
eu compro ingressos
para ver poesia falada
enquanto tomo
a bebida de brisa
no tomo final
da obra.

Quantos róseos violáceos
anuncia?
Quantos rumores sobre
a mídia no chão?
Energia vital é um bem
que não se dissipa à toa,
a vida regenera sem
ser só de estrelas,
mas de terra farta.

03/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

BOITATÁ

Eu fui jovem
comedor de ópio,
natureza espantada,
eu nasci morrido
vivendo,
eu lutei a vida inteira
pela voz do encanto,
corri o mundo inteiro
no sustento dos meus
fatos irrisórios,
notas soltas
em noites revoltas
onde andava
pelo caos
abduzido
por um boitatá
na floresta
viral
dos prazeres.

03/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

DIÁRIOS DISTRAÍDOS

Festança sonora
na lua bonita,
vem de um torpor
de carros,
ferraris, porsches,
fuscas, opalas,
morte.

Eu compro com dez reais
uma dose de veneno,
uma liturgia demoníaca,
um farol apagado,
uma boa promessa
desfeita.

O sangue tipo AB+
vicia em heroínas,
virulentas febres,
pratos de carne,
fatias de pão,
água benta,
metais acrílicos,
laxativos
de cores,
filmes B
para distrair
e um diário
sobre segredos
existenciais.

03/07/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)