PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O CERTO


As coisas idas, já se foram
com o tempo que mudou.
O apreço pelas pessoas queridas
é sem preço,
um prazer imenso.

O amor, muitas vezes escondido,
é aberto à felicidade
de encontrar
sempre uma boa conversa,
e o vento que bate em volta
nos apraz.

Talvez o certo, ao se amar
amigos e família,
seja a paciência de não se importar
com o que possa estar errado,
de erros se faz a vida,
o que é certo é consertar,
e não olhar para a escuridão,
é preciso ver luz em cada olhar.

15/11/2010 Poemas de Amor e Outros Verões
(Gustavo Bastos)

OS RÉUS DO VINHO


(soneto decassílabo sáfico)

Os corpos vão ver nas manhãs dos céus
auroras férteis de bordéis antigos,
como mortais cantorias más de risos,
em que sonhar seria ganhar troféus.

Dos dias sonhados, eu vou morto e mórbido,
conhecer tórridas paixões de vícios,
como estrela da vida astral em lírios
que acordam vozes do mistério do óbito.

A vida desta descoberta é nada
para os que vão sempre viver leveza,
além do dia negro do fundo d`alma.

Eu serei vítima do resto em vinho
que embebedar todos os réus da mesa,
para onde vários estarão no exílio.

11/11/2010 Sonetos da Eternidade

A ESPAÇONAVE


Numa espaçonave
vou viajar o universo
em busca da felicidade.

Vamos desenhar nuvens
do infinito
com meus lápis de cor,
marcando com um giz
o dia da alegria
quando brincamos
de tudo
sem hora
para nada.

A espaçonave vai
para os planetas
e as estrelas,
veremos outros mundos
neste imenso
desenho do universo,
a vida será um sonho
colorido para brincar.

11/11/2010 O Poema Azul
(Gustavo Bastos)

domingo, 14 de novembro de 2010

TÉCNICA DAS COMBINAÇÕES INTENSAS

Primeira regra:
   O poema tem como matriz poética 4 palavras diferentes, cada palavra é um verso formando uma estrofe, então, de 4 versos. Tal regra limitadora de palavras para apenas 4 palavras se deve ao fato de que combinações mais complexas de 8 ou 16 palavras, por exemplo, seriam enfadonhas, e também que tais tipos de combinações seriam inexecutáveis, esta regra de 4 palavras é um princípio de economia e coerência.
   Uma vez definida a matriz poética de 4 palavras, sua combinação completa incluindo nisso todas as ordens e sequenciais possíveis dá um total de 24 combinações, tais combinações serão chamadas de intensas e deverão ter a mesma unidade de sentido independente da ordem ou sequência da combinação, tal princípio deve seu cálculo à análise combinatória e a unidade de sentido obedece a uma regra de clareza, pois aqui se trata de um minimalismo semelhante ao haicai, mas aqui as regras são diferentes, não tem métrica ou rima, o verso pode ser livre e branco, até pelo limite extremo de espaço de escrita aqui proposto. Por fim, então, um poema de combinações intensas terá 24 estrofes de 4 versos com 4 palavras combinadas de forma completa (nas diferentes ordens ou sequências), lembrando do respeito à unidade de sentido independente da combinação.

Segunda regra:
   O poema será composto das seguintes classes gramaticais: verbo, substantivo e adjetivo. Não se pode usar artigos por razões de dificultar a regra de concordância. Dentre as 4 palavras que compõem o poema de combinações intensas, uma é verbo, uma é substantivo e uma é adjetivo, sendo o quarto elemento ou palavra facultativo entre essas três classes gramaticais, dando-se preferência a um segundo verbo. Lembrando-se que o guia principal de sentido do poema de combinações intensas é o verbo, é ele que vai determinar a concordância das 4 palavras das estrofes, sendo que o substantivo e o adjetivo devem concordar em gênero entre si e em número com o verbo e entre si também.
Observação: é mais fácil usar poemas com palavras no singular, mas isto não é uma regra.
(ESTA É A INSTRUÇÃO NECESSÁRIA PARA UM POEMA DE COMBINAÇÕES INTENSAS)

Segue abaixo a regra numérica que é só substituir por palavras:
1/2/3/4
1/2/4/3
1/3/2/4
1/3/4/2
1/4/2/3
1/4/3/2
2/1/3/4
2/1/4/3
2/3/1/4
2/3/4/1
2/4/1/3
2/4/3/1
3/1/2/4
3/1/4/2
3/2/1/4
3/2/4/1
3/4/1/2
3/4/2/1
4/1/2/3
4/1/3/2
4/2/1/3
4/2/3/1
4/3/1/2
4/3/2/1

Segue o poema-modelo que eu fiz evidenciando as regras acima:

Pressa

corpo
anda
ligeiro
correndo

corpo
anda
correndo
ligeiro

corpo
ligeiro
anda
correndo

corpo
ligeiro
correndo
anda

corpo
correndo
anda
ligeiro

corpo
correndo
ligeiro
anda

anda
corpo
ligeiro
correndo

anda
corpo
correndo
ligeiro

anda
ligeiro
corpo
correndo

anda
ligeiro
correndo
corpo

anda
correndo
corpo
ligeiro

anda
correndo
ligeiro
corpo

ligeiro
corpo
anda
correndo

ligeiro
corpo
correndo
anda

ligeiro
anda
corpo
correndo

ligeiro
anda
correndo
corpo

ligeiro
correndo
corpo
anda

ligeiro
correndo
anda
corpo

correndo
corpo
anda
ligeiro

correndo
corpo
ligeiro
anda

correndo
anda
corpo
ligeiro

correndo
anda
ligeiro
corpo

correndo
ligeiro
corpo
anda

correndo
ligeiro
anda
corpo

14/11/2010 Combinações Intensas

TRIBULAÇÕES E RECOMPENSAS


Rosas caem sobre as vestes do homem velho.

A lua conversa com as estrelas

numa canção da noite nua.



Eu vi nas malhas da lembrança

o delírio ventando nas naus e nas barricadas.

Como se fossem pássaros ou mísseis

desciam os degredados à terra formosa

chamada destino.



Degredados de poucas roupas e baixos salários,

homens valentes em canoas e montados em jumentos,

homens fortes como o aço.

Deram a eles trabalhos forçados

num vil propósito de edificar qualquer palácio.



E de noite entregam-se à beberagem.

Ó sabor inescrutável da delícia da preguiça!

Serão estes braços infinitos da ronda

os que veneram a vida atribulada?

Pois todos, sem exceção, passarão por tribulações.

Pois deste caldo é de que é feita a vida.

Não serão estes homens servis

a máquina dolorosa da sociedade?



Rosas são as miríades da terna companhia

de uma mulher inteligente,

o homem velho já fez a sua tribulação,

já passou pelos vários dias felizes

e por todas as desditas possíveis.



E os degredados serão como ele,

no fim da existência

que tem a paga de uma vida confortável.

Também serão eles homens felizes

como o velho que caminha para a sua morte

num túmulo coberto por rosas rubras

de um homem que se recusou

a viver na penumbra.



21/03/2009 Gustavo Bastos

PARA SENTIR O PERDÃO

Dei-me o sincero calor, obra póstuma

de que hei sentir, na vida como na morte

o céu e a terra furiosos.



Ali estava a semente das árvores

e aves planavam sobre o meu pensamento.



Donde vens estrela matutina?

Os corvos também comem a minha carne,

os abutres pegam os restos

e a pomba canta a paz.



Dei-me o sincero calor, sem lástima,

sem rancor, perdoando a todos

os que mentem,

perdoando como assim quer Deus,

vou jogando o passado às serpentes,

e o tempo da coragem acorda em mim

como sete espadas brandidas

do perdão cristão de setenta vezes sete.



Disse o ancião:

Tu és a tua própria aurora,

sangue de rio caudaloso

passando pelas montanhas e vales,

és o fim de tua violenta paixão,

és a nau sentimental

no calor que buscas em teu poema.

E assim se faz a música

de teu coração,

música da harpa de Davi.



18/03/2009 Gustavo Bastos

O FOGO POÉTICO


Calcinado e ferro em brasa

trago os ouropéis de poeta antigo

qual longe o abismo e o sol

estou em todos os relógios

que perguntam

por suas horas

perdidas



Calcinado e ferro em brasa

dou-me de todo ao meu verso

caindo sem resposta e navegando

vou entrando nos versos súbitos

da pena que não tem pena de ninguém

volteando as ideias e as parcas do destino

qual cozido e holocausto

figuras sintonizam a minha arca e o meu vento



Calcinado e ferro em brasa

vou à Europa decifrar Paris

vou à China falar mandarim

e perco as estribeiras

no vão da epopeia de comidas típicas

um desfile de filosofias e dúvidas carnais

sou o tempo em meu hausto e desespero

sou o homicida do homem racional animal

Aristóteles é o grande e a compilação máxima

e Sócrates é o pensador sem escrita

a maldita escrita dos escritores

eu sou poeta e me refiro ao mundo

eu sou poeta e canto as dores e as vitórias



Calcinado e ferro em brasa

vou embora numa ambulância

sou resgatado depois de rasgar

as minhas vestes porque hei pecado

e me arrependo

do batismo que me ungiu

poeta devastado



Calcinado e ferro em brasa

sou a fogueira desejosa sequiosa

arma e pedra e paus para barricadas

enfermo

deserto

sem eiras

devoto das colinas

eu sou a coisa pensante

o que pensa

e o que se faz poema



Calcinado e ferro em brasa

não temerei a existência

não ouvirei a tristeza

darei vivas para toda felicidade que existe

e num momento qualquer
vou com minhas asas voar


vou viver planando volteando insurgindo



Calcinado e ferro em brasa

serei a marca de minha época

o poeta e seus segredos

o poeta e sua canção

o poeta simplesmente poeta

o que é simplesmente poeta

o poema que poetiza a poesia

o poeta da montanha

o poeta do vale

o poeta da curva

o poeta da pele

o poeta do osso

o poeta do corpo

o poeta da alma

o poeta da morte

o poeta da vida

o poeta poeta

calcinado e ferro em brasa



16/03/2009 Gustavo Bastos