PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 5 de dezembro de 2009

SINAIS DA TERRA PERDIDA VI

VI – FONTE DA SEDE SECA


Uns jazem loucos nas ribeiras,

A caravana sai ao deserto, a sede era o temor.

O vinho estava incandescente,

As luas nos hóspedes das noites fremiam ao espanto,

E o que calava na estrada era a santa imaculada.

As virgens invejavam a plenitude,

A caravana dos velhos regiam os céus grávidos de sol.



O corisco mandava matar-me à janela da liberdade.

Uns jazem loucos de sede odienta. É o tédio.

Eu rodeava os extermínios, que vulcões explodiam.

Fiquei estupefato e risonho.

Dei uma olhada aos ventos que ali planavam

Nas ribeiras, que descalço eu via.



A caravana dos odientos magos de estrelas

A caminhar, uns jazem nus pelo caminho.

Dou a guilhotina, o fuzil e a munição.



Para os alardes repentinos,

Um manancial de febres

Gritava, nem uma música acalmaria

Os tais viandantes.

Era tudo do vinho, e de uma fonte seca.

domingo, 29 de novembro de 2009

SINAIS DA TERRA PERDIDA V

V – LUZ


Essas brisas alegres relampejam, são luzes sortidas, vagam sob o sol, não se prendem.

São brisas róseas de verão, de sol firme, que invade o mormaço, que se funde à terra imaginada a óleo do pintor, que renascem sofridas dos ombros do trabalhador braçal. São brisas que levam fumaças, que a rua do ourives galanteia. Que a prataria toda queria como fogo.

Luzes dinâmicas e naturais. Brisas formosas que reluzem, relampejam, renascem nos ombros mortos-vivos do trabalhador braçal, braços na fábrica, braços viris.

Fico tonto, fico atônito.

Eu dou ao tempo um relógio de sol.

Caio na ressaca do tempo.

Eu finco bandeira na terra molhada, no pudor do cadáver, nas louras fêmeas morenas ruivas. Eu finco com os dentes!

Brisa cintila, relampeja. Luzes fêmeas rústicas, luzes fêmeas modernas.

Eu espero o verão, eu saio à noite atrás de mim. Atrás da fêmea.

Eu diria mesmo: Sou o soldado de vestes pagãs.

Anuncio: Os cordões de fogo, os labirintos dos matagais.

Bem seria uma beleza o Bem?

Estou na brisa, amante. Deveras.

É real o viço. Brisas quentes róseas floridas. Brisas frias róseas feridas. Estavam de vermelho. Estavam de branco. E um luto do avesso na estrela.

Eu derrubo a parede dos gigantes. Eu daria novamente este passo.

Se sofro, é por querer tudo. Se sofro, é por querer demais.

Aqui são sexos imaginados como fósseis raros. Eu puxo a alavanca. Sei muito bem o que é o amor. (Relampeja). Eu não durmo à espera. Se não veio nada, é porque nada esperei. Se veio ao menos uma Luz, eu a tenho em mim.

Brisas róseas floridas, feridas mordidas abertas, pulso.

Até o sangue é flor! Até o sangue, mesmo azul.

Do rio morto no mar eu aprendi que tudo é selvagem.

Não há edifício que suporte um toque de mágica.

Brisas etéreas róseas floridas, insônia criativa.

Bem é o Bem que seria?

Beleza também seria Beleza? E o Mal só uma festa de dançarinos?

A Besta 666 cai perante as asas. Ó facínora!

SINAIS DA TERRA PERDIDA IV

IV – SOMBRA


Renascer é o trovão que ecoa entre as asas da sombra.

Quem deita no trono da sombra é o olho do sol,

Eu deito e caio em mim num redemoinho de cegueira.

Ventava dentro da alma,

Rompia-se a lucidez no ar da tortura,

A mágica divina nos ínferos do sentir.

Um mar sobe sobre as asas,

A sombra me ataca,

Eu aguardei uma rosa desmaiada.



À terra perdida dos desejos ínferos,

Aos torturadores dos anjos,

À sombra que desce,

Ao ar que falta,

Uma louca cantava para mim.



Eu descia, longe da terra perdida,

Tanto que me perdia, com o tesouro que fugia.

Eu que digo: Sou a batalha nas trevas.

Esqueço que um dia fui alma.

O olhar se perde, a alma desce, desce ...

Eu quero a minha sorte,

Os olhos querem sede, têm sede,

São os olhos das trevas,

As mortais campanhas,

Que descem, que descem ...



Eu perco a visão,

Estou cego e só vejo a sombra.

Mais nada virá,

Somente fantasmas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SINAIS DA TERRA PERDIDA III

III – INCENDIÁRIOS


As naus combatem nas fontes ígneas, e o capitão dá o colo à princesa.

Bem-aventurados, as mesmas tropas de outrora, que buscavam nos salões de vidro o sal morto e a viva canção das fúrias, com brios intempestivos que comiam as máquinas, com os motores de válvulas velhas do poema como um rasgo de existência.

Não procurei no horror dos salões de uma nau o que estive a procurar, o salgado mergulho, ou as bocas fêmeas idólatras da fadiga do meu honroso combate.

Eu vi a doce bruxa da estrada morder o meu delírio, e as naus das fontes se cobriam daquele calor familiar da paixão. Esperei a tal bruxa invadir os meus pesadelos, ela que era a mais bonita de tal estadia nas fontes de fumaça, ígneas fontes das naus perdidas, que no mar gritavam, levadas ao calabouço da tragédia, e o mar se agigantou – a própria tragédia.

Passeava atrás dos tesouros perdidos, da terra perdida, do sonho fugidio, na estrada dos calores; imerso ou afogado, estupor e orgia me levavam. O que era bem esperado por mim, não veio. Eu esperei, passeava em busca da riqueza, da matéria mais limpa, do ouro mais vasto. Eu degluti a espera. Esperei e morri. Mas que vida mais insípida tive que viver. A bruxa era uma princesa que eu sentia bem próxima, poderia ser até uma libertina.

Mas, voltei à terra. Os incendiários desceram das naus, aqui entre os portos de uma terra enevoada dos delírios, do viço titânico das armas, e a solda das quenturas ígneas de uma tal fonte invisível.

Já que eu era um tal soldado, saía caçando a beleza. Eu também deveria dizer: uma princesa será minha, um encanto será meu, e todas as muralhas cairão perante o fogo.

As naus descansam já em cinzas. E as cinzas são o sangue que eu derramo, não livrando o pecado ou o crime de todas as mortalhas do impossível.

Era tal caminho próprio ao meu lar, sou o mesmo poeta que incendiou as almas do inferno, que nas naus combatia como um visionário, e que da loucura tomou a vitória. Depois de toda tragédia, do alarme da podridão, e dos gritos enfeitiçados de sonho.

Eu levei um tal incêndio que dormia em mim. Não fico com o que buscava. O tesouro da existência não foi achado, pois é apenas um oásis, ou seja, fontes ígneas de ilusão.

SINAIS DA TERRA PERDIDA II

II – DILACERADOS


Bem dispostos estão os brutos, superadas estão

a sensibilidade e a dilaceração.

Estamos ao mundo, e as orgias

são festanças intermináveis.

Como direi aos belos corações um vinho

e uma fagulha de amor na antecâmara do caos?

Não perguntei por estes ovos de serpente,

Nem há o que comer em tais embriões.

O que de ódio vive, lá no intenso sopro corria.



Ao ver-te, minha dama, senti a melhor inspiração.

Mas vem a Vênus tardia. (Vozes do Mito).

Eu brinco de fazer castelos, pelas palavras adiante.

Devaneios são o infortúnio que eu criei de teimoso,

À vivificante dilaceração!



Em que obrar, a não ser dizer?

A língua é que julga o que nos rodeia.

Somos capazes de reconhecer na beleza

Um pouco de tragédia.

É das árvores de copas vermelhas que o outono se vê,

E em si mesmo se fere.

Há de ter uma lógica natural,

Quando caem os estimulantes dos olhos,

E as bruxarias acordam com risos estridentes.

Quem diz que é certo ao lado de fora?

Pois lá não é mundo. É de lá que tudo aqui se sustenta.

De onde? Do além que não se vê,

Tais sentidos físicos, não alquímicos.

Dilacerados. Matança!

Já era mortalha nos vales da Babilônia.

Ou um Minotauro de Creta que era uma tumba.

Quem quer ver ouro e morre?

São os ditos pagãos.

Eles não comem hóstia.



Regimento. É hora de partir!

Com a rua aniquilada eu dou o veredicto terrível.

Mais que o regimento, as horas do soldado da noite.

No rufar dos tambores se anuncia:

Guerra aos generais!

A sensibilidade requer uma força sobre-humana.

Que me ferve, ó anjo da sede!

Senão as paixões? Pois ela é dita uma dama.

Pois tem paixões, no singular, como seria tal mulher.

Ela bem sabe que o paganismo

Está mais próximo da lógica natural,

Que a tragédia grega eleva o espírito.

Já não se tem piedade?

Ó mártir! Te quero o meu refém. Belo Cristo é este danado!

Os deveres da compaixão também seguem a cruz.

Tão vivo é o pagão e tão comovente é o cristão!

Eu não sei de nada que seja inoportuno.

Quem dá o sinal da terra perdida?

Ela nunca existiu!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SINAIS DA TERRA PERDIDA I

SINAIS DA TERRA PERDIDA


I – O DELÍRIO DAS ROSAS

Há de convir, caros amigos, que a noite urge de ideias mágicas.

Parado ao poste um soldado toca o trombone,

E seu ímpar ar de guerreiro assume as formas da noite.

Pega um cigarro, e de um breve toque, diz à amada

Os seus anseios de fortuna.



Medra entre as cavalarias o toque de recolher.

O bom soldado há de ser um cavalheiro,

Cortejando uma boa dama para a sua felicidade,

Num rio esbelto que molha

Os chifres de um tão belo demônio.



Com o sinistro rei dos pórticos, à espera da nuvem preta,

Ele tem de carregar os cânceres mesquinhos,

Na morbidez insana do amor mal falado

De seus delírios,

Quando roubava uma flor do jardim que havia no céu.



De má fama vivem os anzóis,

Com as fardas sujas de sangue coagulado,

Que beijam a carcaça do soldado

À meia-noite.



Tudo é belo, e o mais belo é o cantor da noite,

Temendo que a lua escape ao sino das trovoadas.

Há de convir, caros amigos, que a noite urge de ideias mágicas.

Como num sonho alto e súbito,

Pus-me a escrivinhar sob a lareira,

E os inúmeros e infindáveis calores

Tomavam a forma de um capataz.

Os trabalhos da pedregosa estrada,

Longe dos mosteiros,

E perto dos silvícolas,

À base de chicotes e mármore,

A tudo apinhado de pedregulhos,

Que os sentinelas ulcerosos

Brotavam das telas daquele cenário desolado.



Era uma noite sitiada dos mistérios milenares,

Que o Tarô, e nem mesmo as Runas,

Ou tais patifarias de bolas de cristal,

Poderiam decifrá-la.



Eis-me soldado, que de rugas converte a juventude.

Pois dava o sinal para os marginais:

“Está tudo sitiado, tomamos a várzea.”

Eram as mulheres, um atoleiro bem prazeroso.

Estando as casas em volta do cerco,

Pura ruína, puro sol carcomido,

De velas derretidas,

Queimando a barbárie dos anos.



Óbvio é o meu prisma,

E dei um tanto de virgens,

Mais um tanto de vagabundas,

Mais outro tanto de esposas,

E um amontoado de solteironas

Atrás de maridos cruéis.



Ó tropa! Fui soldado da quermesse.

E o delírio cai severo, o amor

É todo este mistério.

Meus senhores, minhas senhoras,

Divirtam-se!

É meia-noite, sim!

A cidade está tomada.



Os cadáveres são os meus amores.

Eu vejo a mão da guerra nas minhas visões.

Uns mais esbeltos, são soldados românticos.

A sinistra forma da beleza

É uma receita de ilusões brilhantes.



O que brilha à noite?

Não resistam aos cantos.

Oráculo desolado.

Os Tarôs, e os ciganos videntes?

Não, meus amigos, tais cartas

Não decifram a noite,

Esta noite maravilhosa!

Vos digo: A cidade está tomada,

Já dispersei os demônios que dançavam.

Vou beber cerveja.

Vou fumar cigarros.

Falar asneiras impopulares.

Teorias sem começo ou sem rabo.

Tropeçar no farol da alegria.

Ó mundana canção!

É a noite da saturnal!



Meus calores hão de suar.

Estive farto de toda magreza.

Quero encher a taça!

Meus troféus são papéis queimados.

Poemas cuspidos no bueiro dos azares.

(Eu, que sou a noite eterna).



Teria o mistério à noite se revelado?

Mas tudo se guarda.

À noite, uns impostores sem gládio morrem,

Guerreiros mártires cheios de sonhos e ambições.

Uns outros beberrões.

À beberagem, meus comparsas!



Eu? Me satisfaço no sabor oportuno.

Há de convir, caros amigos, que a noite urge de ideias mágicas.

Sai o batalhão por esta noite tumultuada,

São os rincões a ver navios.

O Bem se cria, neste asfalto deprimido.



A cidade está tomada,

Meus anjos, meus marginais,

Meus doutores!

Última miragem no castelo,

Última sensação.

Eu que nem fui um homem,

Pois que sou fantasma.



A cidade está tomada,

Digam os mordazes e os loucos.

Tudo silencia ou tudo grita?

À meia-noite tudo está tomado de prazer.

Eis-me aqui:

Soldado que não acredita em baralhos.

Pois viria então, a peste que diz:

“O louco”.

Eu esqueceria.

Mas, vem me dizer este último choque de mitologia:

“Está esperando tua amada sem se dar conta,

Está esperando tua amada na dor da busca,

Está esperando o que sempre quis ...

Tua linda amada que flutua na noite.”

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CONFERÊNCIA

CONFERÊNCIA


Acidente é o instante como nunca dantes,

E o tempo é insistente e o que me deixa

Além de mim e de mundos concêntricos.

Atrás da noite na urdidura,

A disciplina e o método e o uso do verso.



Não há nascente tão legítima que ilumina

Tão poucos reféns, não há silente momento

Em que escuto nada.

Em vez de me divertir no óbvio,

Sairei em outros mares,

Sairei ao que não conheço,

Estando astuto, estando ao encontro da noite além de mim,

Que sou pessoa indigente ou identidade sem contexto,

Que sou o mesmo dos diferentes elementos,

Que sou o que nunca será o que foi antes,

E que não foi o que é agora instante.



São cortesias do fio da meada, o instante que é vigor do tempo,

O instante que é o coração, e as mesmas questões,

E as tão exíguas esperanças de mudança,

Mesmo que se mude o tempo inteiro

O que é por fim nada.

E o que me devora é o tempo sem volta das mesmas questões,

E as tão vastas sementes do que virá.

Se é o que não sei o que virá, mas que virá.



Empresto o meu trabalho ao ócio, o meu trabalho é o ócio.

Das mãos saem obras majestosas, além de tudo que é vago,

E que é mistério do instante criativo.

Eu vi, sem mais delongas, a estrela viandante

Que vai e vai e vai ...

Ser o que é, ser o que não é, mistério ficcional.



Além de mim não estou, e sem lugar não poderia ir neste que não sou.

Posto que sou o mesmo, tempo e carne, mudança e tormento

Do mesmo que se multiplica.

O uso do verso é o uso do viver, o tempo de ser o que é

E de querer ser o que não é.

Como nunca dantes navegados mares que já naveguei,

Singradura e sangria, composição e toque,

Poema de sonho, poema de poema dentro de mim.