PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

CAVALGANDO COM O DIABO

Face à lira que flui no horizonte,

e os lírios que ressoam no vento,

ao campo mais longínquo

dos anelos e desejos,


vem toda brisa deitar a alma nua,

na vinha e no trigal e no laranjal

e em toda grande deusa natural

dos sonhos e dos delírios.


O livro encontrado, ressecado,

um grimório com imprecações,

conjurações, invocações,

 

receituários de unguentos,

batismos de sangue,

pactos sinistros,

cantorias luciferianas,


rituais com absinto,

beladona e mandrágora,


mandava o poeta 

versar insanamente, 


e a lira tremia, em timbre

riscado e ritmo frenético,

até a exaustão do 

grande gênio,

do virtuose,


da morte

de uma

obsessão.


31/08/2023 Gustavo Bastos 


CAMINHO KEROUAC

On the road, quilômetros de rodagem,

pela rota 66, pela rota da vida,

procurando tudo ao mesmo tempo, 

este satori búdico e lisérgico,

o poema que corre alto.


Na letra mais trocada,

a escrita automática

ferve todos os humores,

como o caleidoscópio

que colore o verso

na sua feitura e leitura.


Beat, jazz sincopado,

progride em quintas,

com as danças soltas

da kundalini, da sorte,

do bom karma.


O incenso de sândalo

compõe a paisagem,

sempiterna, o sol

refletido na água clara,

o vento suave que é brisa,

e o coração enfim em paz

do poeta e de sua poesia.


31/08/2023 Gustavo Bastos 


BESTEIROL HOBBESIANO

Foda-se, ao arrepio da Lei, senseless, fearless,

que bacana, trouxe o tesouro na mão, colares,

pulseiras, relógios … ah, gozando na prateleira

os bens mais valiosos da terra,

com o olhar baço insosso

da batida pós regabofe,

ah, a matilha chegou, a cachorrada,

a casa caiu, sr. … bem, eu quis fingir,

não falava nada, fiz o mudo,

mas agora vou falar chefe,

porra, eu tô fodido,

vou falar, vou delatar porra!

Aqui é casa de mãe joana,

o paraíso do costa larga,

e uma saraivada de apupos

cai sobre o ex-líder

da patuleia, momices,

fanfarras, piadas de caserna,

nada resistiu a uma trama

burlesca de vereador

de granja e de alcateia,

homo homini lupus.


31/08/2023 Gustavo Bastos 


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

TERRAS VASTAS DA VISÃO

A terra que abre a estrada recebe a lufada,

o vento mais forte do ar selvagem,

a casa isolada em que o fogo do gás

ainda persiste no alvorecer,

o tear é ligado, as fendas das rochas

brilham em ocre, os pássaros

matutinos avizinham a janela

da senhora centenária

que costura uma roupa de bebê,

o cenário é vasto, o plano aberto,

e o olhar se perde num 

horizonte verde e azul,

e que fica laranja na aurora.


Nada lembrava a sevícia

dos filhos da guerra,

dos meninos que morreram

no abismo com espingarda

e fardão, nem se lembrava

aquela senhora da viuvez,

apenas de que sua neta,

esperta no trabalho

daquela terra bruta,

engravidara de um 

homem rústico,

que matava cabritos,

descamava peixes,

andava de cavalo árabe,

marchava com a boiada

para o lago e para o estábulo,

media as distâncias daquele

mundo selvagem e sem fim,

esta senhora que já enevoava

a vista, da catarata que crescia,

e costurava o futuro

com alegria, um bebê

na roça incógnita

que veria o sol e 

a chuva e a terra

e o fogo, que 

teria esta vida

cândida ao 

se levar de vento

e sabedoria.


Quem sabe o desenho

das nuvens neste

alvorecer não diga

a verdade divina

apenas com reflexos

de sol e com os veios

das montanhas esta

cresça em onipotência,

um Deus selvagem

feito de vento

e de sopro,

com o hausto

sagrado da vida

naqueles campos

infinitos.


Gustavo Bastos, 03/08/2023 


segunda-feira, 31 de julho de 2023

COMETA

Andei pelo lodo da rua, 

périplo da rima e do ritmo,

em que a insanidade 

flerta com o caos,

e a letra dançante 

surge qual cometa.


Vem o canto 

como dom canoro,

dá de ombros 

ao néscio, ao pascácio,

dá de dez e nó em pingo d`àgua

o poema que não ficou refém

destas pregas farsescas,

destes ódios

pegajosos, 

destes ritos fúnebres

de burocracia,

teia escamosa

deflorada pela

liberdade plena.


Quiseram um dia prendê-lo,

o poeta da fuga e do verso.

E hoje o elogio é postiço,

dos mesmos vicários

que estavam na moita

na hora da tempestade.


Qual nada! 

Veste-se a rigor,

com o plano definido 

da honra,

e tem neste 

investimento espiritual

o dom, a força 

e a moral astuta

dos vencedores.

Este que é poeta,

e do sangue e do mar 

é mensageiro.


31/07/2023 Gustavo Bastos 


quarta-feira, 26 de julho de 2023

GOLPISMO INELEGÍVEL

“É fato a sucessão de fracassos das tramas bolsonaristas.”

 

No mês de junho deste ano a revista Veja teve acesso ao relatório da PF (Polícia Federal) sobre celular de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro. Neste celular os peritos escrutinaram mensagens de WhatsApp, áudios, backups de segurança e arquivos armazenados.

Portanto, o que se viu foram mensagens e documentos que criavam um roteiro para anular as eleições de outubro do ano passado. Indo além, tal anulação eleitoral poderia dar o ensejo para uma intervenção militar, levando, consequentemente, a um golpe de Estado.

Tal documento de autoria desconhecida sugeria ao então presidente Jair Bolsonaro o envio para os comandantes das Forças Armadas de um relato das inconstitucionalidades praticadas pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em seguida seria nomeado um interventor com poder absoluto até o restabelecimento da ordem constitucional dentro de um prazo definido.

A minuta, por sua vez, intitulada “Forças Armadas como poder moderador” criticava decisões de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) que também atuavam no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), expondo a atuação abusiva do Poder Judiciário para tentar justificar uma ação militar, o que incluía como ponto de partida a suspensão da diplomação de Lula.

Com a eleição de Lula, a barafunda bolsonarista foi imediata, pois, em uma das mensagens do celular de Mauro Cid, temos o subchefe do Estado-Maior do Exército, Jean Lawand, em que ele dizia ao ex-ajudante de Bolsonaro que se precisava dar uma ordem para os militares agirem.

Esta já era a segunda minuta golpista, depois da encontrada em janeiro no apartamento do ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, em Brasília, e que visava um decreto de Estado de Defesa na sede do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Contudo, não há relação comprovada entre as duas minutas, mesmo que tenham teores e ideias semelhantes.

No celular de Mauro Cid ainda temos material com a tese falaciosa do advogado e professor emérito da Universidade Mackenzie Ives Gandra Martins, em mais um tentativa de distorcer o sentido do artigo 142 da Constituição Federal, em que o advogado alega um precedente para a intervenção das Forças Armadas em caso de conflito entre os três Poderes. Ives Gandra alegava ativismo judicial e aparente ilegalidade por parte de decisões tomadas por ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que contrariavam o Princípio da Moralidade Institucional.

O texto do advogado sugere : “Diante de todo o exposto e para assegurar a necessária restauração do Estado Democrático de Direito no Brasil, jogando de forma incondicional dentro das quatro linhas, com base em disposições expressas da Constituição Federal de 1988, declaro o Estado de Sítio; e, como ato contínuo, decreto Operação de Ganatia da Lei e da Ordem”.

Por conseguinte, no ofício enviado ao STF (Superior Tribunal Federal), a PF (Polícia Federal) afirmou que os estudos de Ives Gandra e o apócrifo pretendiam servir de fundamento para a confecção de uma minuta de decretação de Estado de Sítio e de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), tudo contido no aplicativo WhatsApp de Mauro Cid.

Em seguida a esta descoberta de uma nova trama golpista, estavam se dando a CPMI do 8 de janeiro, em que Mauro Cid fez um depoimento nulo à comissão, em que ficou mudo. Além disso, tivemos uma trapalhada do senador Marcos Do Val, que fez um depoimento desastroso em fevereiro deste ano à PF (Polícia Federal).

Do Val alegava ter participado de uma reunião golpista com Jair Bolsonaro e o ex-deputado Daniel Silveira para tentar gravar escondido o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Superior Tribunal Federal). Contudo, o senador Do Val, nos meses seguintes, apresentou diversas versões da mesma história, o que levou ao descrédito e a uma zombaria natural sobre a figura exótica que se tornou o senador entre seus pares. 

Diante do que foi revelado pelo celular de Mauro Cid, também estava sendo encaminhado o julgamento, enquanto isso, por parte do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), da possível inelegibilidade de Jair Bolsonaro, o que foi aprovado por maioria de votos, 5 a 2, pelo Plenário do tribunal, em que Jair Bolsonaro ficará inelegível por oito anos, contando a partir das eleições de 2022.

A inelegibilidade de Jair Bolsonaro foi aprovada baseada na reunião extemporânea realizada com embaixadores estrangeiros no dia 18 de julho no Palácio Alvorada, em que se configurou abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Tal reunião que servira como pretexto para o então presidente tentar, mais uma vez, desacreditar a legitimidade das eleições brasileiras, pois as urnas eletrônicas não garantiriam a segurança dos dados e a lisura dos resultados. Bolsonaro ainda poderá recorrer ao próprio TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ou ao STF (Supremo Tribunal Eleitoral), e sua defesa já sinalizou que pretende recorrer de eventual condenação.

É fato a sucessão de fracassos das tramas bolsonaristas. O país, depois de ser castigado por uma escolha eleitoral desastrosa, coincidindo com o período trágico da pandemia da Covid-19, passou a ser afortunado pela baixa capacidade intelectual e estratégica do bolsonarismo. A coleção recente de fracassos do bolsonarismo se estendem das eleições de outubro de 2022, passando pela conspirata mambembe do 8 de janeiro de 2023, até as descobertas dessas minutas caricaturais de hostes improvisadas buscando o golpe que não aconteceu, culminando com a inelegibilidade do mito deles por oito anos, depois de um convescote que subverteu qualquer ideia diplomática fundamentada.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimentoblogspot.com

MELQUÍADES

Fala qual diabo

o pilantra, não 

se entendia 

patavinas

da tresloucada

fuga.


Tocava reco-reco,

roubava no bilhar

e no jogo de três e

um, fumava que 

nem uma caipora,

bebia cachaça

e comia jiló

em conserva.


Diabo torto,

um homem 

torpe, e que

foi a maldição

dos otários.


Andava

na praça

dos malandros,

e na roda de samba,

devoto de pelintra,

sócio de Exu,

sumiu no mundo,

com uma maleta

de dinheiro para 

a boêmia.


26/07/2023 Gustavo Bastos