PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 17 de abril de 2023

ESCOLHAS

A posse de seu lumiar

não vem de outro,

de outros,

do mundo,

do além,

vem de nada além 

de si, de sua força

motriz, mais de fé

que de anseio,

mais de senso

que de anelo.


Frases retas,

ações retas,

o traçado

de um trançado

coerente

fecha

toda a 

equação

num sorriso

de felicidade.


17/04/2023 Gustavo Bastos 


SOBRE A LIBERDADE

Se a asa alça voo para a liberdade, 

quando pousa, descansa, e quando

bate, viaja.


Assim se vê as gentes que a buscam,

a liberdade, onde ela viceja, ou se 

perdem, onde o abismo se abre.


A liberdade, esta vida que bate forte,

em seu coração de sol,

tem que ser entendida,

sua busca direta

leva ao sonho,

ou ao fracasso.


Quem pensou que a liberdade

era fácil, num flerte langue,

num salto permissivo,

alopra e morre.


Quem a entendeu, a liberdade, 

profundamente, já não teve 

medo da tempestade,

se liberou, com astúcia e esforço,

de correntes e tenazes,

enfrentando a loucura e a morte,

e agora vive pleno e feliz.


Seu enigma é simples : 

o ser livre aprecia o sol

pois conhece a tempestade.


Gustavo Bastos, 17/04/2023


segunda-feira, 10 de abril de 2023

ILUSIONISMO

Os olhos contemplam a luz,

a palavra imita o som

do verbo e a luz 

na matéria.


O plasma da escrita

tenta uma vã alquimia,

com os ventos sacados

à sorrelfa, num canto

súbito de alegria.


Tanta arte, pretensa alquimia,

faz um espanto exangue

de tíbia filosofia,

uma religião de 

malucos que 

nos versos

e na prosa

sonham belos

sonhos,

em paraísos

de latão,

mas com

todo o ouro

e a prata

da imaginação.


10/04/2023 Gustavo Bastos 


FOLIA MALUCA

Na janela ficaram os temas

tocados da turba

que passava na rua.

Uma procissão atabalhoada,

o cheiro de mijo,

o suor da tarde de sol,

andarilhos caindo 

de bêbados,

a velhinha ainda 

fumava na janela,

coçando o queixo,

e uma menina fazia

careta na direção dela,

pulava, girava o cabelo.


Nada, a janela,

escancarada,

curtia o sol da tarde,

o cheiro de mijo

e o barulho insano

da turba que encenava

o carnaval de rua.


10/04/2023 Gustavo Bastos 


CAMINHOS DA SABEDORIA

Sente o vento na face 

em que o sol doura

na plêiade poética.

Com um cartaz

está o desenho 

que se vende

como uma turnê ácida.


O que está mais perto do coração?

Perguntava a cotovia no vento

que bailava entre as folhas.

O coração está perto da esperança,

que mora na coragem,

disse a águia.


E o vento se deliciava de contemplação

nos planos de Deus e nos cânticos

dos anjos que flutuavam na abóbada.


Vem meu coração, vem minha esperança,

sortida de coragem e de fortaleza,

em que a poesia vê seu sol

como meta e horizonte.


O que mais quer o coração?

Perguntou o bem-te-vi.

No que a patativa logo disse : 

O coração ama

e não sofre 

quando

sabe

viver.


Depois restou 

ao mar ver 

seu albatroz

mergulhar,

e finda

estava

a jornada

do poeta.


10/04/2023 - Gustavo Bastos 


segunda-feira, 3 de abril de 2023

ARTE DE VIVER

É como está no coração do mundo

o que você fez e não fez, 

tudo o que foi produzido

foi inscrito na pedra,

não antes e nem depois,

foi na hora do estalo,

em que o pensamento

com seu corpo executa,

e a retina lacrimosa

registra sua própria 

vida na arte de viver.


03/04/2023 Gustavo Bastos 


A CARTA DAS ORIGENS

Foi encontrada a carta das origens, 

no fundo do mar, em uma garrafa

de vinho, num navio naufragado,

em que os desígnios eram definidos

de modo ontológico e teológico :  

“Está feito o mundo,

pulsa a natureza 

como esta nave

guiada por Deus

e sua emanação,

o ser e seus atributos,

por sua vez, os modos

e as categorias inumeráveis,

a processão dos seres todos,

seus acidentes lutando

como acasos, as necessidades

fundando fatalidades,

e o jogo de contradições,

querelas, universais

em contrapontos

particulares e singulares,

e o hino divino

dos pássaros, 

a senda dos peixes,

a colheita dos víveres,

a plenitude do caminho

virtuoso, a temperança

na qual a coragem se

agiganta em sabedoria,

e a prudência cuja

fortaleza é sua precisão.

Por fim, a justiça em que 

tudo se equilibra,

os desejos interiores

e os desígnios sobrenaturais,

em que se sucede

a beleza da vida, 

e o poeta, levado

de roldão pela admiração,

pelo espanto, é o 

esteta que flutua

nesta nuvem, e que 

vive nesta terra

vasta de finitude

e infinito, de morrer

e de ressurgir

na glória espiritual

da eternidade”.


03/04/2023 Gustavo Bastos