PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

MEDO E DELÍRIO EM BRASÍLIA

“ o patriotismo perdeu de goleada”


A anomia do fascismo é um desejo de tutela contraditório. Agentes do caos querendo "ordem". A contradição nevrálgica é a falta de senso completo do desespero, do grito irracional, a falácia extremista quando sai da moita (o que ocorre na derrota). Por sua vez, a intervenção federal no DF é decretada por Lula contra os "intervencionistas" que sucumbiram à selvageria. Suprema contradição, sem trocadilho. 

Internacionalmente, como ninguém nasceu ontem, nem a Giorgia Meloni compra esse barulho. A tribo inteira vai deixar esta aberração agonizando na floresta. Mundo real é assim. E seguimos com a conduta inconcebível da segurança do DF (Distrito Federal) com o agora ex-secretário Anderson Torres que terá de se apresentar no Brasil para não entrar na lista da Interpol como foragido.

A república de Orlando agora se instala para não rodar, em meio aos crocodilos e iguanas. Culturalmente, temos as cenas de Palmira, na Síria, feitas pelo Talibã, que tiveram um ensaio cretino no DF (Distrito Federal): Di Cavalcanti retalhado, esculturas destruídas. E sim, isso tem DNA, logomarca, capital simbólico e responsabilidade política : Jair Bolsonaro. O bolsonarismo que manietou a Cultura e a Fundação Palmares. 

A invasão dos Três Poderes é a culminância de uma trama alucinatória que foi sendo cevada progressivamente por fake news, bolhas de WhatsApp e Telegram, e que intentou uma conspirata mambembe que resultou em fracasso retumbante e desmoralização para este pseudo-movimento. 

O culto da ignorância é resultante de um traço de personalidade (caráter) psicopata que inspirou estas falanges. O comportamento abjeto e o exemplo anti-vacina, da falta de decoro, etc. A História ocorrendo da pior forma. Triste. Destruindo-se Di Cavalcanti, Brecheret etc, vemos a manifestação da faceta do ignorante que odeia o que não entende. Ele não sabe que a sua raiva é do que não entende, ele ainda acha que é da obra. 

Por sua vez, a alienação QAnon “alt-right” ganhou terreno fértil no bolsonarismo, um universo paralelo que tem consequências materiais no mundo real. O ponto para suturar a sangria é identificar e punir quem financia. E a cena dantesca : defecar no Congresso é a síntese de que o bolsonarismo é uma merda. E como dizia Ferreira Gullar, o poeta : “Arte não é cocô.”

O clímax ou epítome do que representou a ascensão ao poder executivo brasileiro da figura de Jair Bolsonaro é este tiro pela culatra da ala mais alucinada do bolsonarismo, dos intervencionistas mambembes com um patriotismo de fancaria, destrutivo e autodestrutivo, uma cantilena que começou com a contestação, por parte do ex-presidente, sobre o resultado final das urnas. 

E esta cantilena, ladainha, se tornou estridente, aguda, com a marcha da insensatez, com escolta e tudo, rumo aos três poderes de Brasília, para cenas lamentáveis e revoltantes de vandalismo contra o bem público e patrimônio cultural do Brasil. Uma cena de destruição vestida de verde e amarelo, gritando as palavras Deus, Pátria, Família e Liberdade, e que, traduzidas, dizem o seguinte : “Destruição, Insensatez, Ignorância e Fascismo”.

O culto da ignorância, o desprezo pela cultura, tudo o que causou engulhos durante os últimos quatro anos, veio à tona com o inconformismo diante da derrota eleitoral por parte de pessoas que se perderam numa realidade paralela, histérica, de um chauvinismo insciente, embrutecido, anódino, e que através de um pensamento mágico, tiveram segundos de certeza, dentro de um Supremo devastado, de que tinham atingido o seu intento. Ou seja, se tratou de uma obra de incautos existenciais e cognitivos, e que logo teve a reação institucional à altura, e muitos foram detidos para a triagem dos culpados em Brasília.

A inspiração vinda da invasão do Capitólio nos Estados Unidos é evidente, e o influxo feito pela contestação das urnas também. A selvageria parecia um recreio dos horrores de gente tomada pela desinformação, adultos em surto com a visão infantilizada da realidade como uma questão de intervir de modo rudimentar e amador frente à frustração de uma derrota. Maus perdedores, a infância política de parte do país esteve à luz do dia, com pessoas perdidas na própria cegueira e cultivando absurdos, infâmias, ao mesmo tempo em que se auto intitulavam como patriotas.

Neste caso, o patriotismo perdeu de goleada. Pois, diante do Parlamento destruído, do Poder Executivo destruído, do Supremo destruído, a pátria, a de verdade, regurgitou como nunca antes na História deste país, diante de uma cena constrangedora que ganhou as manchetes internacionais. Sorte nossa, é a de que lá fora se sabia das causas, para a nossa vergonha não ser maior ainda. 

O Brasil está diante da necessidade de uma inflexão forte, de virar esta página triste, infeliz, das consequências da ausência de cultura e da falta de investimentos na educação, e que produzem bestas feras que, tomados de um voluntarismo ensandecido, quebram obras de arte com o fito de “salvar o Brasil”. E esta salvação do Brasil se contrapõe a esta malta bizarra, possessa, e que mancha de cinza um dia em Brasília, todos vestidos de verde e amarelo. 

O que causa revolta, engulhos, desolação, é a cena devastadora deixada para trás nos três poderes, um misto de gastura e choro, e de tentar entender, mais uma vez, que o país tem uma avenida gigantesca pela frente para evoluir como políticas de Estado e de maturidade civil. Os gritos desta primeira infância política, mimada, destrutiva, ainda estão no seu auge, um retrato infeliz, de uma versão provinciana, alienada, do Brasil, que mistura estações pela desinformação de que estão imersos.  

O outro Brasil, das políticas públicas, da iniciativa privada, do progresso social e cultural, agora tenta ver a luz do dia novamente, em meio a esta tribulação do bolsonarismo, quando o país deu vários passos para trás na sua evolução civil e política, e que agora pode retomar o fôlego e se fortalecer, num movimento de volta ao decoro, às falas e atitudes construtivas, de uma concertação que agora se trata não somente de uma virada cultural, civil e política, mas de reerguer o próprio processo civilizatório do Brasil.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/medo-e-delirio-em-brasilia

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

MOVIMENTO WOKE - PARTE II

"Fora do chamado "safe space", tudo passa a ser ofensivo e distorcido da realidade"


No Brasil, após os protestos de 2013, o PT perdeu o domínio que tinha sobre as pautas sociais e culturais da esquerda. Foi a partir das jornadas de junho de 2013 que surgiram movimentos e grupos autônomos, formados à revelia do PT, que até então adestrava os movimentos sociais e os sindicatos. Uma forma do PT tentar capturar novamente a agenda da esquerda como um todo, por sua vez, foi se inserindo na pauta identitária, que estava cada vez mais forte no Brasil e em parte do mundo. 

Nos anos seguintes criou-se uma prática de lacração em que tudo que soasse correto no sentido de avanço nas defesas de minorias ou ainda movimentos como pela inocência de Dilma Rousseff e pelo Lula Livre se amalgamaram neste caldo cultural que agora era dominado pelo identitarismo. E este ímpeto justiceiro e da lacração deve muito à influência do movimento woke norte-americano. 

No Brasil, por ter parte desta influência, aqui se herdou em alguns casos a tendência à intransigência e de ter uma propriedade absoluta da verdade que, por vezes, caracteriza o movimento woke, vide os cancelamentos feitos na base da histeria e da lacração. Ou seja, quando se chega ao extremo, o movimento woke interdita o diálogo, virando um monólogo da verdade inquestionável. 

Fora do chamado “safe space” do movimento woke tudo passa a ser ofensivo, e isso dá vazão a maluquices de todo o tipo, de pseudo-intervenções na realidade que são, na verdade, pífias, inócuas, produto de uma vontade equivocada quando se trata de senso de realidade e do que é praticável empiricamente. Ou seja, podem aparecer perfis francamente delirantes do ponto de vista da capacidade de interpretar e entender as fronteiras reais do mundo da vida, e de como as coisas funcionam e se tornam funcionais. 

Um exemplo acabado da faceta delirante do movimento woke é o revisionismo (que em psicologia pode ser chamado de onipotência) sobre obras como livros, filmes, peças de teatro, óperas, e a arte em geral, levando muitas vezes à tentativas de censura e de reescrever a História. Ou seja, temos que lidar com uma forma de interferência irrealista, desconjuntada, e que beira a idiotia. 

A ideia de apropriação cultural também ganha lugar na pauta do movimento woke que, a princípio, deveria ser algo a ser debatido dentro de proporções razoáveis, só que, no contexto woke, mais uma vez a coisa descamba para o irrealismo, que tenta se revestir de um purismo imaginário, isto é, só existente para esta versão depauperada do movimento woke. 

Sabemos que as diferentes culturas, historicamente, são intercambiáveis, e a ideia de apropriação cultural, se for levada ao pé da letra, como no caso do movimento woke, se tenta estabelecer algo que nunca existiu na História, isto é, a tese de culturas puras, imaculadas. Se for dar um exemplo do que chegou mais perto disso, talvez, foi o Japão Medieval, do Período Edo, que ficou isolado alguns séculos, até que houve a Revolução Meiji em 1868, e a consequente queda do Xogunato Tokugawa.

Por sua vez, pautas justas que vão de encontro ao racismo, machismo, homofobia, sexismo, misoginia etc, tomam uma proporção paranoica quando se trata de sua assunção pelo movimento woke, podendo ser até um desserviço para as reais necessidades das pautas minoritárias, e que não passam, por certo, pelas filigranas discutidas ad nauseam pelo movimento woke e seus pretensos tribunais virtuais de cancelamentos. 

A paranoia, quando não se trata de episódio psicótico, mas de uma forma de encarar o que é supostamente ofensivo, por fim, distorce a percepção da realidade. O movimento woke tem uma dificuldade enorme de lidar com o mundo empírico dos fatos. A distorção do real é o efeito de seu desejo de uma verdade categórica, em que tudo fica subsumido à vontade mimada e autoritária de uma moral evanescente, metafísica, fantasmagórica em sua pureza, que é a moral irreal do movimento woke.

O tribunal do cancelamento seria, se for falar de História, um pastiche do que era a condenação ao ostracismo que era praticada em Atenas, e que se referia a alguém proscrito por motivos políticos, de ameaça à democracia. Aqui, no caso do movimento woke, a pena é inútil, muitas vezes, mas quando funciona, pode acabar com a vida de uma pessoa. 

O pastiche se dá no sentido de uma histeria ou lacração que, a partir daí, não tem mais nenhuma comparação com o ostracismo ateniense. A diferença também está na fundamentação, que no caso do ostracismo ateniense era política, e no caso do cancelamento é inquisitorial, ligando-se ao que era a paranoia de um Torquemada e de um Savonarola, na Santa Inquisição, mais do que de uma motivação legítima de proteção a valores civilizatórios, como no caso do ostracismo ateniense.

Outra pauta em voga, relacionada ao lugar de fala, também ganha uma versão deslocada e exagerada do movimento woke. O protagonismo, a representatividade, acabam virando peças estanques, inamovíveis, mais uma vez, interditando o diálogo ou debate real. O lugar de fala, propriamente dito, descreve uma voz original, que tem a vivência do que diz, ou seja, além do conhecimento acadêmico ou livresco, a pessoa viveu e fala do que viveu, este sendo o sentido do lugar de fala, o que não abre o precedente de criar um interdito para outras vozes sobre o mesmo tema.

Um exemplo é sobre o antirracismo, que propõe ao próprio branco esta postura, ou seja, aqui o lugar de fala continua sendo respeitado, não existe contradição de termos que se excluem, a pauta antirracista é consciente tanto do lugar de fala como da necessidade de universalização do discurso para torná-lo mais robusto e combativo. 

Não ter medo de falar, ser franco, direto, também é ampliar a voz debatida para que a sociedade civil como um todo fique a par do que se está combatendo.  Temas controversos, com discordâncias e dúvidas, no espaço público, é uma necessidade contemporânea, para levar a uma transvaloração dos costumes e práticas sociais e culturais, e a uma reforma da percepção, criando um mundo melhor e mais justo, com mais inclusão e menos preconceitos.

O processo de idiotização por parte do movimento woke, contudo, distorceu um debate importante, um movimento imerso numa fábula de perfeição imaculada, de virtudes absolutas de um politicamente correto neurótico, paranoico, posando de descolado, e virando tema de mídia social lacradora, de influencers ou artistas deslumbrados, com novilíngua, tentativas de moldar o gosto do público, e outras baboseiras que empobrecem pautas importantes. 

A pauta identitária, por exemplo, acaba virando o que condena, um identitarismo que condena o estereótipo de modo absoluto, o que é bem estereotipado. O combate ao rótulo, que é necessário, ganha uma versão exagerada no identitarismo e temos, mais uma vez, as distorções da realidade produzidas pela herança do movimento woke. E a estereotipia que tenta ser cool, descolada, vira a caricatura de novilíngua que perdeu o fio da meada do combate real aos inimigos da liberdade, que estão ocupando os espaços reais de poder, e não fazendo ginástica linguística como se fosse uma revolução. 

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/movimento-woke-parte-ii

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

MOVIMENTO WOKE - PARTE 1

“movimento imerso numa fábula de perfeição imaculada, de virtudes absolutas de um politicamente correto neurótico, paranoico”

 

Woke é uma palavra inglesa que significa “acordei” e que ganhou um sentido cultural contemporâneo que herdou tiques do que nos anos 1990 se chamava de politicamente correto. No caso do movimento woke, o exagero de uma pretensa virtude pode descambar para posições caricaturais sobre o certo e o errado, numa construção moral exacerbada e que tenta realizar uma patrulha irreal de escrutínio linguístico e com o famigerado cancelamento, que é a imagem cristalizada de um viés irrealista, de falta de conhecimento do mundo real, da vida como ela é.

Verdadeiros estetas do mundo, a superioridade do movimento woke é esboroada, parecendo um pastiche involuntário de palmatória do mundo. A origem do uso da palavra woke em contexto cultural surgiu na comunidade afro-americana, como um modo de estar alerta em relação à injustiça racial. 

O editor de notícias e cultura Elijah Watson, do website de música norte-americana Okayplayer, que escreveu artigos sobre a origem do termo woke, por sua vez, afirma que o termo foi cunhado pelo romancista William Melvin Kelley. Este romancista publicou, em 1962, um artigo com o título If You`re Woke, You Dig It (Se você estiver acordado, entenderá). 

Na última década o movimento Black Lives Matter fez ressurgir o termo, e que foi criado para denunciar a violência policial contra pessoas negras. Contudo, seu uso se ampliou e ganhou os contornos do que se chama movimento woke. Em 2017, finalmente, o dicionário Oxford definiu o termo woke como “estar consciente sobre temas sociais e políticos, sobretudo, o racismo”. 

O termo woke pode ser motivo de orgulho ou ser usado como insulto, dependendo da interpretação dada. As ideias progressistas do termo woke, portanto, podem representar uma quebra de paradigmas, e sua deturpação produzir pessoas que se sentem moralmente superiores, querendo impor suas ideias aos demais.

A crítica principal sobre o que se chama de movimento woke recai sobretudo no exagero de patrulha do uso de expressões linguísticas e na prática de cancelamento que ocorre nas redes sociais, sempre em relação a polêmicas que nem sempre existem, mas que na interpretação woke ganha contornos de julgamento moral e que levam a boicotes sociais e profissionais. O policiamento da linguagem, por sua vez, se refere a expressões consideradas homofóbicas, racistas ou misóginas, dentre outras..

Da esfera cultural podemos passar à realidade política, em que o termo woke pode se relacionar às pautas afirmativas de igualdade racial ou social, como o feminismo, o movimento LGBTQIA+, o ativismo ecológico e do direito ao aborto, a vacinação, o uso do gênero neutro na linguagem, o multiculturalismo etc. 

Nos Estados Unidos temos a presença do termo woke na política, que tem crítica do Partido Republicano, e no Partido Democrata, por sua vez, existem críticas por parte de Barack Obama, porém, ganhando aderência na parte mais radical do partido, em figuras como os congressistas Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. 

No mundo empresarial o debate woke levou a alguns casos marcantes, como da campanha da Gillette, em 2019, em que se condenava a masculinidade tóxica, contra o sexismo, o bullying e o assédio sexual. A campanha foi bem vista por muitos, mas no YouTube levou a um boicote contra a marca, e a empresa dona da marca, a Procter & Gamble, sofreu um golpe econômico e ainda teve que lidar com um meme que se popularizou na direita política : “Get woke, go broke” (“vire woke, vá à falência”).

O que se vê é que jovens progressistas, que no começo da década passada se levantaram contra a Grande Recessão, ocupando as ruas (Occupy Wall Street), e trazendo à baila a obra de Thomas Piketty, Teoria das desigualdades econômicas, mudaram, e agora vemos a juventude tomada pelo termo woke, com questões raciais e de gênero sobrepondo pautas econômicas. 

O exagero woke, contudo, leva à autocensura universitária, a questionamentos em escalações de filmes, tem influência na publicidade, no jornalismo se começa a citar o supremacismo branco, etc. No movimento woke, um fato mais irrealista se dá na tentativa de interferir em obras literárias, peças de teatro, e demais obras que foram feitas em outras épocas, com contextos de costumes e comportamentos antigos em que o movimento woke pode detectar diversos problemas e pedir uma revisão no texto, em desfechos e desenlaces etc.

O maniqueísmo do movimento woke tende a entender os próprios valores como absolutos, inquestionáveis, e a hipersensibilidade é uma característica que leva a estas ondas de cancelamentos e de controle quase delirantes da linguagem. O crivo do ativismo woke, portanto, atua com um moralismo irreal, revisionista, meio que palmatória do mundo, e intolerante para com erros supostos e imaginários. Ou seja, o movimento woke, quando se torna deturpado e exagerado, perde o contato com a realidade mais elementar, de que há gradações na realidade e de que nem tudo é condenável ao menor deslize.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O BRILHO DO MAR

Creia-me, sempiterno poema,

que as juras são quebradas

no mar, se jura eternidade

não terás nem o que 

se vê defronte,


a vida real está

apenas no simples

canto de flor,


nos braços

que remam

felizes,

e que 

o coração

tem em si,


sem mistérios

supremos,

com o gozo

da vida

somente.


19/12/2022 Gustavo Bastos 


CAMINHOS PARA VENCER

Leia-se toda nota sobre

provérbios existenciais,

o que se tem de fundo

na sabedoria dos seres,

e o que o universo

guarda para si,

nos desafiando

em sombras

e penumbras

de sentidos,

escreve toda

a bruma,

tenta entender

a chuva,

tenta apreciar

o sol,

tenta,

tenta,

vença.


19/12/2022 Gustavo Bastos 


TERCEIRO MUNDO

Prece famélica que fila a boia,

embrulha o arroz com feijão,

desenhando o lar feliz,

a criança sonha

acordada e coloca

um sorriso no seu 

sol.


Nada mais importa, 

cai a meleca,

não se tem dinheiro,

caixa de fósforo

é carrinho,

isqueiros

são bonecos,

e o que sobrou 

foi macarrão

com salsicha.


19/12/2022 Gustavo Bastos 


EDUCAÇÃO PELA PEDRADA

Quebra a pedra idiota, pateta

que nem moleque, se arrebente

na rua, não tenho que ver

com suas impropriedades,

apenas lute na luta 

e se dane no ferro

e fogo.


Eu passo ao largo

desta lamúria,

o rio das piranhas

vai à labuta

ou morre

na noite.


Não existe fachada arguta,

quem tem astúcia 

deixa a luz do dia

cair inclemente

sobre a farsa,

como golpe 

de martelo

e saraivada

de flecha.


19/12/2022 Gustavo Bastos