PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

A QUEDA DE DORIA E A CRISE DO PSDB

“o PSDB sofreu um revés enorme”

João Doria Jr. teve uma trajetória política breve, marcada por contradições e excessos que tiveram como resultado o fim de sua inserção na política brasileira. De uma ascensão meteórica como prefeito da cidade de São Paulo, abandonando o cargo para se eleger e tomar posse como governador do Estado de São Paulo, Doria se viu encurralado e teve que capitular de suas ambições de ser candidato a presidente pelo PSDB.

Em tese, João Doria poderia ter condições competitivas na disputa presidencial, uma vez que foi quem primeiro trouxe a vacina contra a Covid-19 para o Brasil, num discurso oposto ao negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, que contribuiu para o atraso de vacinas.

Houve a negligência em relação às tratativas com a vinda da Pfizer, e a ideia estapafúrdia de negociar somente com uma fonte, num primeiro momento, que foi a AstraZeneca. Enquanto  que a CoronaVac foi viabilizada pelo então governador de São Paulo, João Doria, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan.

Contudo, a condução política do que deveria ser um bônus para João Doria, ao fim, não se demonstrou eficaz. João Doria tanto ganhou a desconfiança de parte do eleitorado como foi boicotado dentro do próprio PSDB. 

E as pesquisas eleitorais começaram a dar péssimos sinais, com a estagnação e redução das possibilidades de João Doria enfrentar a polarização política entre Jair Bolsonaro e Lula, sendo questionado como figura de proa para uma terceira via política, que se via fragmentada e atrasada em suas tratativas. 

Seu índice de rejeição, por sua vez, também não ajudava Doria como uma candidatura viável. Havia uma certa antipatia, e um excesso evidente no marketing político. O exagero de Doria para ter um protagonismo na vacinação contra a Covid-19 no Brasil foi entendido como oportunismo por parte do eleitorado. Portanto, ocorreu uma jogada de marketing que perdeu a mão e não teve o efeito esperado de sua ascensão como opção à polarização política e candidato legítimo da terceira via.

As hostes bolsonaristas, na internet, também foram fortemente responsáveis pelo sepultamento político de Doria. A marca de sua gestão, que foi o enfrentamento da pandemia, como contraponto ao discurso bolsonarista, não se desenvolveu de maneira eficaz entre o eleitorado como exemplo de realização. 

José Aníbal, ex-senador e ex-presidente do PSDB, chegou a afirmar que o ex-governador é “muito over”. Segundo ele : “A vacina foi uma iniciativa importante, mas ele politizou a tal ponto que a população acabou não reconhecendo tanto esse resultado”.

Segundo levantamento do Datafolha de abril deste ano, Doria deixou o governo de São Paulo com apenas 23% de aprovação dos paulistas, sendo que 36% avaliaram sua gestão como ruim ou péssima. 

A percepção política dos eleitores é a de que Doria não é uma figura leal, uma vez que ele rompe com Bolsonaro, depois de ter se alçado como governador de São Paulo ao associar a sua candidatura à imagem de Jair Bolsonaro, deixando seu padrinho político Geraldo Alckmin de lado, que também era candidato à presidente em 2018. 

Portanto, Doria passou a ser odiado pelo bolsonarismo e muito mal visto por parte do PSDB. Doria foi ganhando um caráter autocentrado e individualista, uma figura antipática que não se vinculava a compromissos com seus colegas de partido. 

Na chamada terceira via, o União Brasil abandonou o barco, sendo que era o partido com mais recursos dos fundos eleitoral e partidário, anunciando a candidatura de Luciano Bivar, que depois mudou para o lançamento de Soraya Thronicke como candidata. 

Foi tentada uma parceria entre Simone Tebet (MDB-RS) e Doria, mas, continuou o impasse para a terceira via, e logo em seguida dentro do PSDB, pois a candidatura de Doria, embora legitimamente escolhida em prévia partidária, passou a ser questionada por parte do PSDB.

Se inicia uma fase de negação por parte de Doria quando a sua candidatura a presidente começa, de fato, a dar água. Doria já tinha criado fissuras nas suas relações com o PSDB desde a tentativa fracassada de se apropriar do partido e de expulsar Aécio Neves do mesmo. 

Tais fissuras retornaram com mais força na sua relação conflituosa com o presidente do partido, Bruno Araújo, que começou o movimento final de boicote à candidatura de Doria, com uma pesquisa encomendada em acerto com o MDB para medir o potencial de votos de Doria e de Simone Tebet.

A partir do resultado desta pesquisa seria apresentado o argumento para a escolha do nome da terceira via. Doria então ameaçou judicializar caso uma eventual chapa da terceira via não tivesse ele como o cabeça de chapa. Ou seja, Doria tinha ligado o modo desespero, que era o de ser trocado por Simone Tebet como candidatura da terceira via. 

Doria tanto estava isolado dentro do PSDB como com intenções de voto pífias para presidente, enquanto acusava Bruno Araújo de uma tentativa de golpe contra a sua candidatura. O argumento era o de que o estatuto do PSDB não transferia o poder de decisão de candidatura após prévias internas para uma reunião de cúpula, portanto, caberia à convenção partidária referendar a candidatura entre 20 de julho e 5 de agosto passados. 

Caso não houvesse o reconhecimento pela esfera administrativa da candidatura, o pedido de reconhecimento se daria pela esfera judicial. Doria estava obstinado, até então, e a tensão no PSDB atingia o seu ápice.  No fim, Doria desistiu da candidatura e o PSDB sacramentou o apoio à candidatura de Simone Tebet (MDB) para presidente. Depois das eleições, o desfecho aconteceu, João Doria anunciou a saída do PSDB e a retomada de sua vida profissional na iniciativa privada, portanto, estava ceifada a sua curta carreira política. 

Por sua vez, o PSDB sofreu um revés enorme. Um partido que teve seu auge nos dois mandatos presidenciais de Fernando Henrique Cardoso, com a estabilização da moeda e o fim da hiperinflação, sofreu quatro derrotas sucessivas para o PT em eleições presidenciais, e em 2018 começou a sua decadência com o resultado pífio da candidatura de Geraldo Alckmin à presidência. 

Em 2022 foi a primeira vez que o partido não lançou candidato ao Planalto, mesmo após prévias, e o partido viu a sua bancada minguar, pois não elegeu senador, e virou um nanico na Câmara ao eleger apenas 13 deputados, que é a menor bancada de sua história. José Serra, que já foi candidato a presidente, desistiu de se candidatar a senador, para ser puxador de votos para deputado federal, contudo, não foi eleito à Câmara. Por fim, o partido deixará o Palácio dos Bandeirantes em 2023, após governar São Paulo por 27 anos.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-queda-de-doria-e-a-crise-do-psdb


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

SISTEMA

Os dias do mundo

têm sido duros,

mesmo com o vento

que farfalha o trigo

e acaricia os cereais,

no entanto, solavancos

ceifam o descanso,

atacam a vida em

tempos de cão,

matadouros de sonhos,

desvãos de derrotas,

poços sem fundo.


Projetos são deglutidos

por um Pantagruel

mimado e gordo,

e que, em um rompante

de tédio, em toada

anódina e abúlica,

arrota e peida, e dá

um muxoxo depois

de deixar suas

carcaças para trás.


07/11/2022 Gustavo Bastos        


A META

As coisas ditas são os veios

em que se escala o desejo,

o anseio e o anelo não 

são nada, vã ilusão,

sem uma vontade forte,

fundamentada,

que estabelece

a sua condição

existencial,


ou seja,

nunca vender

por pouco

o que lhe custou

muito para atingir,

não abrir precedente,

não fazer concessões,

até a meta ter sido

atingida, tal um dardo

no alvo, que atinge

seu desiderato 

com uma fúria

inclemente.


07/11/2022 Gustavo Bastos 


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

MIRAGEM

Pela câmara de eco

o som ganha corpo

e tem na sinestesia

um senso de ar,


veloz o vento

cadencia seu sopro

pelo canto que ondula.


O mar rebate, seu marulho

encanta a sereia,

que rouba o navio

com Ulisses preso

ao mastro.


Desta vez,

a ilha do tesouro

estava longe,

um oásis brilhava

com suas cores

no deserto de Kilimanjaro.


Sem água, o beduíno

viu este oceano

em volta de seus 

camelos, e o som

da sereia soprava

este oásis,

miragem,

ficção,

que a poesia

tentou decifrar

em vão. 


04/11/2022 Gustavo Bastos 


DA VITÓRIA CONTRA O VAZIO

Não sinto pelos pretensos déspotas

que agora choram na chuva,

não lamento a queda

do pau de arara

e de todos os seus vicários.


A poesia, que se ilumina

na noite dos uivos 

e rangidos,

tem na fina flor

de sua dicção,

um antídoto

contra

o ódio.


Vai-te ao inferno

o mesmo que do

mal hauriu em seu 

peito o coração vil 

das maldições.


Os poderes de luz

batem e contorcem

de dor a hipocrisia

de falsos lumes,

profetas do nada,

do vazio e do sepulcro.


Eu matei a sevícia

no nascedouro,

seu choque

não me matou,

eu venci seu 

calendário

de lodo

e de morte.


04/11/2022 Gustavo Bastos


quarta-feira, 2 de novembro de 2022

FUTURO DO PAÍS

 “O final patético deste governo é a sua nêmesis”


Terminaram as eleições mais importantes da História recente do Brasil. Estava em jogo o futuro da Nova República, do compromisso firmado pela Constituição Federal de 1988, dos movimentos democráticos que tanto lutaram pela liberdade civil, pelos direitos amplos de cidadania. Pairou desde as eleições de 2018 uma sombra, esta que se revestiu de lemas do velho fascismo brasileiro integralista, por sua vez, inspirado nos camisas pretas do fascismo italiano de Benito Mussolini.

O fato é que dos escombros de uma má gestão da democracia, o ovo da serpente pode ser gorado e eclodir. O pós-guerra de um  Tratado de Versalhes de 1919 dacroniano deu azo a um surgimento de radicalismos que levou a um dos episódios mais sangrentos do século XX, a Segunda Guerra Mundial, este que foi o século chamado por Eric Hobsbawm de "A Era dos Extremos". 

Por sua vez, no Brasil, este renascimento de tendências soturnas, que se inspiram no obscurantismo para tentar usar a democracia para caminhar até uma autocracia, buscava o pretexto para se expandir. A falta de um discurso popular que desse conta da queda recente do poder petista, que tomasse as rédeas de uma alternativa às ruínas da Lava Jato, do impeachment de Dilma Rousseff, deixaram um rasgo, um clarão, e este espaço vazio foi ocupado rapidamente por um deputado midiático do baixo clero, conhecido por declarações absurdas, e a direita liberal ficou para trás, surgindo uma extrema-direita que, aparentemente, poderia atender aos clamores contra a corrupção, de um antipetismo que atingia o seu clímax histórico. 

Desta feita, a Nova República viu ser eleito presidente Jair Bolsonaro. E este foi um governo de baixa densidade intelectual, dominado por um provincianismo que ascendeu ao poder e começou a se instalar em cargos de ministérios, no Congresso Nacional, e nunca se viu tantos discursos anacrônicos sobre costumes, modos de vida, sinais trocados sobre liberdade, inversões comuns em que se chocavam cosmovisões opostas e conflitantes. O atrito ficou insuportável, dois mundos colidiram e somente um poderia vencer, se o outro perdesse. 

A mediocridade, a falta de decoro, o fim da picada, foi esta visão dantesca que tomou conta de uma Nova República que ficou em suspenso, com a respiração presa. Até estas eleições de 2022 estávamos em meio a um circo trágico de 700 mil mortos, de sacos pretos encomendados para Manaus, em uma eugenia de testes off label canalha e sinistra. 

O que havia de cômico para a diplomacia internacional, um país que tinha virado pária e republiqueta bananeira com um presidente exótico, parecendo algum sketche involuntário da América Central, havia de trágico para quem viveu a pandemia em meio ao atraso das vacinas e de uma seita de Jim Jones que pregava uma ficção chamada cloroquina. O padrão delirante deste governo era o do negacionismo anticientificista, pré-iluminista, e que ganhou contornos assassinos com o descaso e as declarações sem empatia de um presidente que não esteve à altura do desafio de enfrentar uma tragédia nacional sem precedentes, com números de corpos (pessoas, biografias) que pareciam o de uma guerra. 

O final patético deste governo é a sua nêmesis. A eleição de Lula (PT), uma ressurreição política de um roteiro feito pelo imponderável, é uma das viradas mais fortes de uma liderança popular que teve a sua concorrência mais difícil, em um momento crucial, andando no fio da navalha, em que o contrato social democrático estava em jogo, e pela primeira vez contra outra liderança popular, de vulto, e não a oposição do PSDB, no nível da civilização, da normalidade.

Era uma luta civilizatória e pela sobrevivência da Nova República, pois um segundo mandato de Jair Bolsonaro seria fatal para o que foi erguido na Constituição Cidadã de 1988. A conquista da maioria plenária no STF (Supremo Tribunal Federal) abriria caminho para uma autocracia e o país sofreria um estresse tão absurdo e bizarro como foi o da tragédia da pandemia. Contudo, a generosidade do destino, com suas leis insondáveis, consumou o resultado matemático, o que determina o futuro do Brasil. 

Foi realizada uma concertação, em que diversos quadros se uniram neste segundo turno, revelando que o liberalismo e o lulismo, nos momentos em que estão em jogo a democracia e suas instituições, dialogam e se entendem, pois o republicanismo é um instinto de sobrevivência e a qualquer sinal de alerta, forças discordantes se aliam no que concordam, sobre o pacto social firmado a partir da retomada da democracia, do fim da ditadura, um contrato social erguido em valores da liberdade civil e da afirmação da civilização contra a barbárie.

Por pouco, muito pouco, tudo vai por água abaixo, a ruína e a esperança lutaram e os valores democráticos estão salvaguardados de uma tragédia política e cultural, de um retrocesso que foi barrado na hora certa, desta gangue de bandoleiros, de um Roberto Jefferson (PTB) que teve o seu tiro saindo pela culatra, e ao invés de mártir, é novamente presidiário, e de uma Carla Zambelli (PL-SP) que deveria ter sido presa em flagrante e ter seu mandato cassado.  

Precisamos reerguer o Ministério do Meio Ambiente, recriar o Ministério da Cultura, criar o Ministério dos Povos Originários, proporcionar um tratamento fino ao Ministério da Educação, retomar o que ficou suspenso nestes quatro anos de um clima de seita lunática e de um pacto pela ignorância. A nêmesis da derrota, da não reeleição, vem como ferida narcísica, de um presidente que foi incompetente, tanto como governante, como para realizar o seu projeto de segundo mandato, perdeu. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/futuro-do-pais 


segunda-feira, 24 de outubro de 2022

PATAS FASCISTAS

A garra do fascismo se desespera,

plutocrata o lança-granada

tenta espatifar o próprio vício,

com porretes se deu o putsch,

quebraram-se as mesas e as cadeiras,

tiros de carabina na noite,

espancaram e mataram 

velhos comunistas,

a rua estava cheia de sangue,

o escrutínio acontecia

com uivos e ranger de dentes,

não há caudilho no horizonte,

foi morto o rei na guilhotina,

mataram os déspotas 

na roda, ficou o cianureto

matando o cachorro louco

em seu bunker de ópio.


24/10/2022 Gustavo Bastos