PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A BATALHA ENTRE TRADERS E WALL STREET NO CASO GAMESTOP

“movimentação de jovens traders que estão numa espécie de batalha ideológica contra fundos de investimento”

Uma varejista de videogames chamada Gamestop foi, recentemente, objeto de um movimento especulativo no mercado financeiro, o preço de suas ações disparou mais de 120% nas negociações de 27 de janeiro de 2021,  em uma movimentação de jovens traders que estão numa espécie de batalha ideológica contra fundos de investimento. Consiste em uma batalha entre os profissionais de Wall Street e investidores que usam plataformas de mídia social como o Reddit.

A Gamestop teve suas ações infladas artificialmente, pois é uma empresa falida, o que não impediu este movimento intenso combinado via Reddit, de traders ligados a plataformas de negociação gratuitas e de baixo custo, como Robinhood. Outras empresas entraram neste jogo dos traders como Blackberry, AMC e Nokia. Numa batalha entre fundos e grandes investidores, de um lado, e estes investidores online que atuam no varejo do mercado de ações, de outro lado.

Um dos núcleos em que se deu o conflito está na chamada “venda a descoberto”, quando um fundo toma emprestadas ações de uma empresa de outros investidores na expectativa de que o preço das ações irão cair. Então este fundo vende as ações nos mercados a um preço, estas ações caem de valor, e este fundo compra novamente estas ações, embolsando a diferença de preços da oscilação, o que configura uma operação chamada de short selling, no jargão do mercado.

A Gamestop tem 30% das ações nas mãos de fundos de hedge, só que esta movimentação de investidores de varejo fizeram com que as ações desta empresa subissem muito, colocando estes profissionais dos fundos de hedge em maus lençóis, com a reação destes grandes investidores de Wall Street voltando ao mercado tentando limitar suas perdas, mas esta demanda empurrando as ações mais ainda para cima. E as discussões no Reddit retratam, em meio a este cenário, um  conflito aberto destes investidores varejistas contra Wall Street, num tipo de luta geracional, redistributiva.

Um dos incentivadores desta movimentação sem precedentes foi o bilionário Elon Musk, que tuitou a palavra "Gamestonk", junto com um link para o fórum de mensagens do Reddit que estava bombeando o estoque. Um dos entendimentos é que este grupo de investidores do Reddit representa uma mudança geracional na visão sobre dinheiro e uso de plataformas digitais e novas tecnologias, incluídas as mídias sociais, em que tais combinações se tornam possíveis. A ascensão destes traders desafia velhos paradigmas de Wall Street.

A operação combinada por estes traders no Reddit com as ações da GameStop é chamada de short squeeze, que representa um salto abrupto das ações que leva aqueles que apostavam contra os papéis a comprá-los rapidamente para evitar mais perdas, provocando a valorização maior ainda destas ações. Estes traders, que são operadores de varejo do chamados dumb money ("dinheiro burro", na expressão em inglês, se referindo à falta de experiência deles), membros da rede social Reddit. Na movimentação em torno da GameStop, estes traders tinham como objetivo prejudicar o fundo de hedge Melvin, que tinha um volume alto de posições vendidas na companhia.

Por sua vez, a plataforma Robinhood decidiu limitar a negociação de ações de empresas como a GameStop e a AMC Entertainment Holdings no dia 28 de janeiro de 2021, e depois de protestos de pequenos investidores e críticas do Congresso norte-americano, a plataforma afrouxou as restrições. A plataforma Robinhood ganhou uma popularidade e reúne fóruns online em que se pode planejar compras coordenadas de ações no intento de abalar Wall Street, num aglomerado de investidores “hardcore” e os casuais.

Nesta tentativa de restrição feita pela Robinhood, membros do subfórum Wall Street Bets, no Reddit, reclamaram que corretoras de valores, sobretudo a Robinhood, junto também com a Interactive Brokers, não estavam autorizando compras de ações no seu home broker. A Robinhood justificou o bloqueio devido à forte volatilidade, então, além das ações da Gamestop, papéis como AMC, BlockBuster e Nokia, também estavam inoperantes para a compra.

Por sua vez, reguladores de mercado já criticavam estas plataformas, como a Robinhood, por serem um modelo de negócios que não protegeria os operadores novatos e que incentivava comportamentos de risco, com a Robinhood usando estratégias como a gamificação para encorajar e atrair o uso contínuo e repetitivo de seu aplicativo de negociação, e isto, muitas vezes, sendo utilizado por investidores inexperientes ou com nenhuma experiência no mercado de ações.

Esta movimentação intensa em torno das ações da GameStop, contudo, não foi a primeira, foi precedida por altas exorbitantes de ações do Airbnb e DoorDash, empresas iniciantes não lucrativas, que tiveram este movimento especulativo no primeiro dia de negociações de suas ações no mercado. E empresas de fachada sem ativos operacionais levantaram rios de dinheiro graças a um fenômeno conhecido como "SPAC mania". SPACs são sociedade de propósito específico para aquisição.

As SPACs estão na moda, e saindo de Wall Street, grandes empresas, incluindo Virgin Galactic, DraftKings e Playboy, estão todas virando ou abrindo o capital por meio de SPACs. Coletivamente, as SPACs arrecadaram US$ 16 bilhões apenas nas primeiras três semanas de 2021, ultrapassando os US$ 13 bilhões levantados em todo o ano de 2019, e em 2020, quando esta moda pegou, 229 SPACs levantaram US$ 76 bilhões, e uma bolha pode estar se formando nesta moda das SPACs.

Estas movimentações abruptas são uma coisa anormal em que as taxas de juros muito baixas estão forçando os investidores a assumir riscos extraordinários, o que pode terminar mal. Pode haver a formação de uma bolha nesta movimentação especulativa, tanto na moda de SPACs, como nestas combinações coordenadas de traders em mídias sociais como a Reddit, traders orientados por plataformas online, como a Robinhood, em que estes tentam criar uma dinâmica social e um certo populismo nesta guerra contra Wall Street e seus paradigmas.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-batalha-entre-trades-e-wall-street-no-caso-gamestop 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE 3

“temos a figura lendária de Robert Johnson, que teria vendido a sua alma ao Diabo”

SYMPATHIES FOR THE DEVIL

A música sempre teve alguns pontos de polêmica e atritos com o status quo, sobretudo na religiosidade institucionalizada, podendo figurar como o principal ator deste embate o cristianismo vigente e cristalizado, com suas interpretações bíblicas e influências no comportamento coletivo e nos costumes.

A música, de outro lado, trazia certas composições que rompiam com esta bolha de conforto e conformismo cristão, apresentando um mundo livre e desafiador para valores engessados e medrosos. E, logo, temas infensos ao conservadorismo cristão, como ocultismo e satanismo, se desenvolveram durante a evolução temática da música, cristalizadas no rock.

Desde o início das músicas folclóricas da Antiguidade, e as reminiscências e heranças do paganismo, de um mundo pré-cristão, com histórias de magia, necromancia e superstição, saudando o vinho, as mulheres e a própria canção, tivemos uma reação da Igreja no campo musical, com iniciativas que levaram à criação de hinos para suplantar tais canções populares, e a tentativa de monopolização da música foi uma das estratégias da Igreja em determinado período.

No século XX, por sua vez, este preconceito musical atingiu diretamente o Jazz, como um estilo perigoso, aqui cito o livro Lords of Chaos se referindo a um livro escrito sobre os Rolling Stones, no que diz : “Em seu livro sobre os Rolling Stones, Dance With The Devil [Dança com o Diabo], Stanley Booth cita o jornal New Orleans Times-Picayune em 1918 : “para pessoas de certas disposições, o som alto e sem sentido possui um efeito excitante, quase intoxicante, como cores toscas e perfumes fortes, a visão da carne ou o prazer sádico do sangue. Para pessoas assim a música jass [sic] é uma delícia”.

No blues, por sua vez, na associação com aspectos nativos negros e o vudu, com canções que já faziam referências ao diabo, demônios e espíritos, temos a figura lendária de Robert Johnson, que teria vendido a sua alma ao Diabo em uma encruzilhada no delta do rio Missisippi, com Satã lhe dando uma habilidade especial e própria de tocar seu instrumento, num tipo de batida rítmica sui generis e misteriosa.   

Robert Johnson gravou apenas 29 faixas, em apenas duas sessões diferentes, se destacando canções como “Crossroad Blues” [Blues da Encruzilhada], “Me and the Devil Blues” [Blues sobre Eu e o Diabo] e “Hellhound on My Trail” [Cão Infernal no meu Caminho]. Robert Johnson que começou a sua vida nas plantations, ao que se seguiu as suas apresentações como músico em casas de show de periferia, conhecidas como juke joints. Com o fim de sua vida aos 27 anos, em 1938, envenenado em um bar, provavelmente pelo dono do estabelecimento que estava sendo traído por sua mulher com o músico.

Por sua vez, o trabalho musical de Johnson saiu do esquecimento na década de 1960, por reedições em LPs que saíram nesta época, e os músicos de blues rock desta época receberam esta obra com empolgação. Portanto, destas canções diabólicas do Delta Blues, podemos traçar uma linha direta que leva ao rock satânico.

Cito especialmente o renascimento do blues norte-americano por obra dos jovens ingleses das novas bandas de rock que surgiam por lá, um grupo de jovens músicos bem informados musicalmente, e que deram importância a um universo que tinha sido esquecido pelos próprios norte-americanos.

Por sua vez, do rockabilly de arruaceiros e delinquentes dos anos 1950, da juventude transviada de James Dean, ao uso sistemático de drogas pelas bandas da segunda metade da década de 1960, associado à experimentação musical, temos um certo simbolismo satânico que surge com os Rolling Stones, com músicas como Sympathy For The Devil e um álbum intitulado Their Satanic Majesties Request [O Pedido de Suas Majestades Satânicas].

Particularmente, a música citada, Sympathy For The Devil, entra num contexto trágico do festival de Altamont, o fim oficial da era hippie, sepultada por violentos Hell`s Angels, em 6 de dezembro de 1969, evento capturado pela filmagem do documentário Gimme Shelter, em que no começo da execução desta música começa uma grande confusão no público, resultando em uma facada fatal em Meredith Hunter.

Para quem não sabe, os Hell`s Angels são uma gangue conhecida de motociclistas, e estes faziam a segurança do evento de Altamont. Meredith era negro e estava armado, era o fim da utopia de paz e amor que tivera seu auge em agosto de 1969 no festival de Woodstock, com seu momento chave no chamado Verão do Amor de São Francisco em 1967.

A relação com o ocultismo e a magia negra começou a se desenvolver no rock, e dos Rolling Stones, tivemos evoluções do tema em outras bandas, ainda tendo no Flower Power da era hippie, este flerte com o misticismo oriental, cultos e seitas, numa relação mais próxima com a natureza, rompendo com as tradições dos “pais”, com uma juventude ávida por liberdade, e que culminou nas teses de expansão da mente e abertura das portas da percepção com experimentos com drogas, e a ascensão irresistível do LSD na segunda metade da década de 1960.

O ocultismo passa a viver um novo despertar, adormecido desde o início do século XX, e apareceu um tipo de fetiche com o bruxo inglês Aleister Crowley, chamado de “o mais perverso homem do mundo” pela imprensa nos anos 1930. Sua influência a partir deste renascimento do ocultismo já na década de 1960, e se expandindo na década de 1970, se tornou maior da que tivera em vida.

E temos filmes underground de Kenneth Anger, em que Crowley ganha proeminência, Mick Jagger, dos Rolling Stones, e Jimmy Page, do Led Zeppelin, assinaram trilhas sonoras para os filmes de Anger, inspirados na imagem de Crowley, filmes como Invocation of my Demon Brother [Invocação do meu Irmão Demônio] e Lucifer Rising [Ascensão de Lúcifer].

E o interesse e estudo de Jimmy Page sobre Aleister Crowley ganhou uma proporção de fetiche, com o músico guardando uma coleção de livros, e também possuindo manuscritos originais do bruxo inglês, sendo este seu acervo um dos melhores do mundo sobre Crowley.

Page tinha parte das ações da livraria ocultista Equinox (nome que está num periódico de “magicka” editado entre 1909 e 1914 por Crowley), e comprou e morou, num período, em Boleskine, antiga propriedade do bruxo inglês no Lago Ness, na Escócia. Em Lords of Chaos, temos : “O terreno seguiu perpetuando uma reputação sinistra sob seus novos donos, conforme cuidadores foram internados em sanatórios ou, pior, cometeram suicídio durante sua estadia”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/lords-of-chaos-parte-3 

 

 

 

 

domingo, 31 de janeiro de 2021

AS INFLUÊNCIAS POÉTICAS DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

“Sophia se dá a uma poesia que se solta em sua música da natureza”

A  poeta Sophia de Mello Breyner Andresen tem uma relação estreita com a poesia de João Cabral de Melo Neto, e como uma escritora de Portugal, tem influências que vão do cânon maior, Camões, e o bastião português mais recente, da poesia moderna, Fernando Pessoa, ainda temos o breve Cesário Verde, e Jorge de Sena.

No Brasil, ainda podemos citar diálogos com Manuel Bandeira, Jorge de Lima, a que citei no primeiro texto sobre Sophia, esta sua relação estética que se irmana com Cecília Meireles, e temos também Murilo Mendes.

Do mundo helênico e latino antigo, temos também uma presença constante deste mundo antigo na poesia de Sophia, que nos traz Homero e Horácio, e a isto, falando do outro extremo, a contemporaneidade de Sophia, aí podemos citar os temas mais politizados, com uma voz poética libertária e anticolonialista, com um tipo de trajeto diverso e nômade, em que a poeta pode entrar numa temporalidade que é fugaz e também universalista, de um tipo de comunhão com o mundo.

Um projeto poético sólido, íntegro, compõe todo o trabalho de obra realizado pela poeta Sophia em vida, projeto realizado e legado histórico, com uma largueza temática, uma diversidade imagética, e leitmotivs como a presença ou onipresença do mar em toda a sua poesia. E também temos a presença da cidade, como num tipo de contraponto eventual a esta sua obsessão marítima.

No diálogo com João Cabral, há algo de contraste também, pois da frieza e da dureza calculada da poesia cabralina, temos uma poesia da portuguesa Sophia mais afeita aos atavios estéticos e ondulantes, de uma musicalidade mais fluida que tem parentesco brasileiro conhecido com Cecília Meireles.

De uma rigidez clássica de um parnaso que poderia virar pastiche, a escrita que alucina não nos deixa na ilusão de um mundo controlado, pois a poesia mais musical tem um certo clima espiritual que não se petrifica num modelo racional, seja este em sua aparência, como no ritmo de relógio suíço de uma poesia cabralina, por exemplo.

Então, Sophia se dá a uma poesia que se solta em sua música da natureza, em sua integração e fusão existencial ao mundo natural originário, é um canto, também um som.

POEMAS :

DE NO TEMPO DIVIDIDO :

VIII : O chamamento feito pela poeta é um convite de abraço, ou ainda, de abrir os braços, seu sentido maior : “Não te chamo para te conhecer/Eu quero abrir os braços e sentir-te/Como a vela de um barco sente o vento” (...) “Peço-te que venhas e me dês/Um pouco de ti mesmo onde eu habite”. Como estando num mar diante do vento, Sophia quer o frescor do encontro.

IX : Sophia aqui se estranha com a sua liberdade, e se coloca num tipo de reflexão : “Como é estranha a minha liberdade/As coisas deixam-me passar” (...) “Como é estranho viver sem alimento/Sem que nada em nós precise ou gaste/Como é estranho não saber”. De seu estranhamento ela chega à sua raiz, o seu não saber que funda esta sua reflexão.

SEM TÍTULO : A poeta Sophia aqui lamenta ter perdido a liberdade originária fornecida pelos deuses, que ela esperou, mas se quebrou, no que temos : “A liberdade que dos deuses eu esperava/Quebrou-se. As rosas que eu colhia,/Transparentes no tempo luminoso,/Morreram com o tempo que as abria.”. A sua colheita luminosa, portanto, se foi e morreu com este tempo que a abria.

POEMA DE AMOR DE ANTÓNIO E DE CLEÓPATRA : O poema evoca em seu título o poder político, e este domina o mundo, no que temos :“Pelas tuas mãos medi o mundo/E na balança pura dos teus ombros/Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.”. Este poema político que, na verdade, é de amor, esta ideia de poder aqui se funde neste casal e esta vista privilegiada que se teve deste encontro.

SONETO DE EURYDICE : A poeta busca aqui a sua imagem, o seu próprio rosto, como em uma jornada de identificação : “Eurydice perdida que no cheiro/E nas vozes do mar procura Orpheu:” (...) “Assim bebi manhãs de nevoeiro/E deixei de estar viva e de ser eu/Em procura de um rosto que era o meu/O meu rosto secreto e verdadeiro.”. Aqui a poeta segue em sua busca que se dá como perdida : “Porém nem nas marés nem na miragem/Eu te encontrei.” (...) “E devagar tornei-me transparente/Como morta nascida à tu imagem/E no mundo perdida esterilmente.”. Esta busca de si e de um outro são duas frentes simultâneas de completude, estar pleno em si e se encontrar em uma felicidade com o outro, aqui neste poema nos aparece como uma jornada perdida, Sophia falha neste poema, falha em sua aventura.

NO TEMPO DIVIDIDO : A poeta clama em sua distância dos deuses, estes que um dia conheceu, e aqui ela se afasta, e sofre : “E agora ó Deuses que vos direi de mim?/Tardes inertes morrem no jardim./Esqueci-me de vós e sem memória/Caminho nos caminhos onde o tempo/Como um monstro a si próprio se devora.”. Seu conflito existencial aqui tem seu ponto nevrálgico com o tempo, este se esvai, ou ainda, aqui neste poema é como um monstro que se esgota em si mesmo.

PRECE : A ideia de pureza guia este poema : “Que nenhuma estrela queime o teu perfil/Que nenhum deus se lembre do teu nome/Que nem o vento passe onde tu passas.” (...) “Para ti criarei um dia puro/Livre como o vento e repetido/Como o florir das ondas ordenadas.”. O ideal da poeta é criar a este seu interlocutor um mundo puro e livre, em que até as flores estão em ordem, como numa harmonia plena.

DE MAR NOVO :

SEM TÍTULO : A justiça aqui se perde em seu desvio, a poeta lamenta : “Senhor se da tua pura justiça/Nascem os monstros que em minha roda eu vejo/É porque alguém te venceu ou desviou/Em não sei que penumbra os teus caminhos”. A poeta aqui vê uma divisão, como se esta justiça tivesse se esquecido de si mesma : “Muito tempo antes de eu ter vindo/Já se tinha a tua obra dividido” (...) “E em vão eu busco a tua face antiga” (...) “Por muito que eu te chame e te persiga.”. E a poeta busca esta justiça em vão, esta se perdeu ou não se sabe achar.

ENCRUZILHADA : As parcas aqui aparecem em versão fúnebre, no que temos : “Onde é que as Parcas Fúnebres estão?/_ Eu vi-as na terceira encruzilhada/Com um pássaro de morte em cada mão.”. E a imagem de morte se confirma, a coda é fatalista, com uma imagem poética de pássaros mortos.

MARINHEIRO SEM MAR : O poema se estende no drama do marinheiro sem mar, que se perdeu na cidade, e todo este poema usa das imagens marítimas para contrastá-las e as fazerem ir de encontro aos caminhos obscuros e frios de uma cidade concretada, no que temos  : “Longe o marinheiro tem/Uma serena praia de mãos puras/Mas perdido caminha nas obscuras/Ruas da cidade sem piedade” (...) “E ele vai baloiçando como um mastro/Aos seus ombros apoiam-se as esquinas”. A riqueza das imagens produz este contraste de um fundo temático que entrechoca estes contrários, a realidade marinha e a cidade que a desfaz, no que vem : “Nas confusas redes de seu pensamento/Prendem-se obscuras medusas/Morta cai a noite com o vento”. O marinheiro agora é um ente errático, mais perdido do que flanando, ou seja, um errante, sim, e longe de ser um flâneur, seu drama existencial é ter perdido o mar e sua visão de horizonte, no que continua a poeta Sophia : “E sobe por escadas escondidas/E vira por ruas sem nome/Pela própria escuridão conduzido/Com pupilas transparentes e de vidro” (...) “Vai nos contínuos corredores/Onde os polvos da sombra o estrangulam/E as luzes como peixes voadores/O alucinam”. Seu estado mental se deteriora, ele é presa de uma alucinação, pois tudo secou e se apagou, no que vem : “Porque ele tem um navio mas sem mastros/Porque o mar secou/Porque o destino apagou/O seu nome dos astros” (...) “E é em vão que ele se ergue entre os sinais/Buscando a luz da madrugada pura/Chamando pelo vento que há no cais”. O marinheiro busca em vão retomar esta sua realidade marinha, e Sophia segue em seus versos : “Nenhum mar lavará o nojo do seu rosto/As imagens são eternas e precisas/Em vão chamará pelo vento” (...) “Ele morrerá sem mar e sem navios/Sem rumo distante e sem mastros esguios/Morrerá entre paredes cinzentas/Pedaços de braços e restos de cabeças/Boiarão na penumbra das madrugadas lentas.”. A poeta Sophia vaticina a morte fria e vazia deste marinheiro sem mar, no que segue : “E ao Norte e ao Sul/E ao Leste e ao Poente/Os quatro cavalos do vento/Sacodem as suas crinas” (...) “E o espírito do mar pergunta :/ Que é feito daquele/Para quem eu guardava um reino puro/De espaço e de vazio/De ondas brancas e fundas/E de verde frio?”. O mar pergunta do marinheiro, pois não mais o vê, e este pobre espírito perdeu a sua eternidade, seu mar, ele é um errante pelas ruas, num tipo de vazio existencial : “Ele não dormirá na areia lisa/Entre medusas, conchas e corais/Ele dormirá na podridão/E ao Norte e ao Sul/E ao Leste e ao Poente/Os quatro cavalos do vento/Exactos e transparentes/O esquecerão” (...) “Porque ele se perdeu do que era eterno/E separou o seu corpo da unidade/E se entregou ao tempo dividido/Das ruas sem piedade.”.

SEM TÍTULO : A poesia aqui neste poema da poeta Sophia, por dizer assim repetidamente este jogo de palavras, a poeta aqui tem o destino de uma luz que se perde na penumbra, a luz original das letras, muitas vezes, vem de um gozo de uma existência que pode ser pálida no mundo duro e real das coisas concretas, no que temos : “A bela e pura palavra Poesia/Tanto pelos caminhos se arrastou/Que alta noite a encontrei perdida/Num bordel onde um morto a assassinou.”.

AS TRÊS PARCAS : As parcas do destino tecem maus caminhos, o fado que é mais fatalista que livre, e esta imagem de angústia vem desta concepção micênica, que inundou o mundo helenista logo em seguida neste espírito do mito, sobretudo no surgimento do fado teatral com o advento das tragédias, no que temos : “As três Parcas que tecem os errados/Caminhos onde a rir atraiçoamos/O puro tempo onde jamais chegamos/As três Parcas conhecem os maus fados.”. O cego tateia, e as parcas tecem, e segue o poema : “Por nós elas esperam nos trocados/Caminhos onde cegos nos trocamos/Por alguém que não somos nem amamos”. E todas as promessas se esboroam nesta visão fatalista da qual o que se anelou se perde neste tempo impassível comandado pelo fado de parcas que enganam : “E nunca mais o doce vento aéreo/Nos levará ao mundo desejado” (...) “Será o nosso rosto conquistado/Nem nos darão os deuses o império/Que à nossa espera tinham inventado.”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/as-influencias-poeticas-de-sophia-de-mello-breyner-andres

 

 

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

IDEIAS E AÇÕES DE GRUPOS ARMADOS NOS ESTADOS UNIDOS

“Tais homens destes grupos diversos pertencem ao chamado movimento patriota”

INTRODUÇÃO

Nos Estados Unidos temos uma porção de grupos armados, estes que podem aparecer com roupas de combate e portando armas de uso militar. Temos, entre os grupos mais conhecidos, os que citei em um texto anterior desta coluna, e acrescento agora grupos como Oath Keepers (Mantenedores do Juramento, em uma tradução livre), Three Percenters e ainda o Posse Comitatus (Força do Condado, em uma tradução livre, e que também é o nome de uma lei americana que autoriza um agente da lei a recrutar um civil para auxiliá-lo na manutenção da ordem).

Tais grupos são independentes e não têm relação com as Forças Armadas ou de segurança dos Estados Unidos. Tais homens destes grupos diversos pertencem ao chamado “movimento patriota”. Tal movimento se fortaleceu muito a partir dos anos 1990, todos estes grupos sendo alimentados mentalmente por teorias da conspiração e ideias extremistas.

A existência destas milícias armadas vem desde a fundação da democracia independente norte-americana, quando os imigrantes chegaram aos Estados Unidos e ainda não havia forças militares ou de polícia estabelecidas, então estas pessoas tiveram que criar seus meios de defesa.

No caso destes grupos armados modernos, que se intensificou nos anos 1990, estes se originam em grupos racistas ou antissemitas que surgiram nos anos 1970 e 1980, como o Christian Identity, e o citado acima, Posse Comitatus.

OATH KEEPERS

O Oath Keepers  é um grupo extremista de direita, que defende o juramento feito por policiais e militares de defesa da Constituição Americana, isto contra inimigos estrangeiros ou domésticos.

A mentalidade do grupo vai de um ímpeto antigovernamental, e passa, também, por teorias conspiratórias e planos de ataque bastante perigosos, como a ideia de criar milícias localizadas. A parte ideológica do grupo passa, também, de ideias jurídicas ligadas ao movimento do cidadão soberano e ligadas ao movimento supremacista branco, do já citado Posse Comitatus.

O grupo foi fundado em março de 2009 por Elmer Stewart Rhodes, e suas ideias se tornaram mais radicais nos últimos tempos, afastando alguns do Oath Keepers. O apelo do grupo se dirige, sobretudo, a membros do exército e da polícia, já fazendo a conexão do juramento constitucional americano, misturando isto a teorias conspiratórias. O Oath Keepers insufla militares e agentes da lei a impedir supostos planos de uma Nova Ordem Mundial.

THREE PERCENTERS

O Three Percenters é um grupo que constitui um movimento libertário que envolve membros dos Estados Unidos e do Canadá, e defende a posse de armas e a resistência da intromissão do governo federal americano em assuntos locais, e diz em seus estatutos que os xerifes do condado são "a lei suprema do país".

O nome do grupo vem da alegação de que três por cento dos colonos, apenas, portavam armas contra os ingleses na Revolução Americana. O grupo foi fundado em 2008 e se fortaleceu muito durante o governo Obama, pois houve muitas questões contra este governo, sobretudo em relação a porte de armas.

O Three Percenters está neste espectro mais amplo do movimento patriota. O grupo foi cofundado por Michael “Mike” Brian Vanderboegh, do Alabama, que era um membro do Oath Keepers, grupo do qual o Three Percenters é aliado, e ao qual é comumente associado.

A ideia do grupo de resistência é um pouco fantasiosa, esta crença de que cidadãos armados podem ter capacidade militar contra forças oficiais, pois os três por cento que eles alegam ter lutado armados contra os ingleses e vencido é uma parte da História, pois a luta se concentrou nas regiões costeiras, aonde predominava a atuação das forças inglesas, e ainda devemos lembrar o apoio francês a estes colonos.

Em 2017, um homem de Oklahoma de 23 anos, Jerry Drake Varnell, foi preso acusado de planejar um atentado a bomba em um carro na direção de um banco no centro de Oklahoma City, numa inspiração ligada a um ataque na mesma região, em 1995. Varnell se identificou ao movimento dos Three Percenters, e em março de 2020 ele foi condenado a 25 anos de prisão.

Em 2018, três homens foram presos pelo atentado ao centro islâmico Dar Al-Farooq em Bloomington, Minnesota, num bombardeio que acabou não matando ninguém, e um dos envolvidos era o ex-xerife Michael B. Hari, que tinha ligação com o Three Percenters.

E, durante a investigação do plano de sequestro de Gretchen Whitmer, governadora democrata do Estado de Michigan, um dos presos é identificado como o segundo no comando da filial de Wisconsin do Three Percenters, sem confirmação ou negação desta informação pelo grupo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/ideias-e-acoes-de-grupos-armados-nos-estados-unidos 

sábado, 23 de janeiro de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE 2

“Este livro de Moynihan e Soderlind anuncia aqui um extenso programa de pesquisa que foi muito bem realizado”

O black metal, desde os anos 90, virou um mosaico que mistura suicídio com tiro de espingarda, queimas de igrejas e assassinatos com arma branca, este trio macabro que se firmou nesta década mais delinquente deste estilo de rock e metal, sobretudo na Noruega. Isto foi alimentado por uma retórica que vai do satanismo ao fascismo, num tipo de ID psíquico de sinceridade fatal, sem qualquer freio ou censura.

O visual do black metal então se funda num tipo poser e o estilo de vida é algo semelhante ao de lunáticos, um grupo de pessoas que pode reunir verdadeiros demônios ou personagens de desenho animado, a caricatura poser se destaca, e temos, também, o gestual típico que tem a floresta de fiordes como um tipo de fetiche ligado a um culto de origem ancestral.

O desafio ao status quo, aos valores consolidados, o confronto direto com a tradição cristã, numa versão neopagã, tais são os pontos de que parte as contestações feitas por figuras ligadas a este movimento musical, e nas palavras do livro Lords of Chaos : “tudo isso é alcançado ao som militante do próprio black metal – uma cacofonia estrondosa de dimensões atordoantes.

O black metal adota a estrutura básica de um dos subgêneros mais pesados do heavy metal  e a reduz a uma força áspera e venenosa de ódio auditivo. Como se com o objetivo de confundir ainda mais o ouvinte desavisado, algumas bandas decidiram também gravar faixas que podem com tranquilidade ser descritas como “belas”, e se arriscaram nos territórios da música eletrônica ambiente, do folk tradicional europeu e até da música neoclássica.”

E segue o relato do livro : “No extremo norte do continente, a natureza incendiária do metal extremo se encontrou com os climas gélidos da Noruega e da Suécia, e o resultado foi uma criação de proporções explosivamente voláteis : o black metal. O norte, rigorosamente controlado pelos elementos da natureza, suas estações dominadas pela escuridão e o frio, ironicamente ofereceu o ambiente desolado que acenderia a faísca para o black metal reunir forças e levantar armas na guerra profana que estava por vir.

O rock and roll já é há muito tempo um adversário de vários dos princípios básicos do cristianismo, mas o heavy metal underground levou isso ao seu extremo. Para esses, o cristianismo não deveria ser gradualmente erodido por constantes incursões de crescente imoralidade, mas deveria, sim, ser abruptamente arrancado e incinerado até seu último suspiro. O black metal forneceria os soldados dispostos  a se atirar de cabeça na batalha, com tochas nas mãos, para iluminar com chamas as catedrais e igrejas da Europa.”

Em uma mistura de satanismo, em muitos casos, e outros em que se empreende um projeto de neopaganismo e de combate anticristão, há uma vontade de resgate de tradições que teriam sido ofuscadas e até extintas pela invasão cristã no continente europeu. O livro Lords of Chaos seguirá uma análise cultural e musical, descrevendo o black metal em seus aspectos musicais e os contextos culturais que estão neste influxo, as origens em que se baseia tal militância que mistura música e resgate de tradições perdidas ou eclipsadas dentro da Europa.

Segue o relato do livro : “A conexão entre esses eventos reincidentes é turva, seus detalhes obscurecidos pelas névoas dos mitos e alegorias pré-cristãos. O black metal tomou o fogo de Loki e o usou de combustível, o reagente de uma via de mão única para o inferno. Será que os deuses antigos despertaram novamente, sedentos por sangue após anos de sono? Ou seria essa sua última resistência, um Götterdämerung de proporções wagnerianas, enquanto eles suplicam antes de a cortina se fechar?

Um historiador germanista escreveu que “Não há somente um Crepúsculo dos Deuses, há uma noite profunda, escura e impenetrável”. Com o brilho ardente de lâminas de espadas reais ou imaginadas, as legiões do black metal conduziram suas próprias tentativas desesperadas de iluminar a escuridão. Suas armas são a blasfêmia e o fogo, aliados à artilharia sônica pesada e instigados por íntimos e poderosos impulsos infernais.”

Esta descrição em Lords of Chaos que cotejei e citei aqui é intitulada “preâmbulo : escuridão adentro”. Este livro de Moynihan e Soderlind anuncia aqui um extenso programa de pesquisa que foi muito bem realizado e que é um registro de aspectos que vão de conceitos filosóficos ou pseudo-filosóficos, muitas vezes num caldo de mistificação e teorias de conspiração açodadas, e a descrição de uma geração muito jovem que explodiu no black metal norueguês e de alguns outros países, num tipo de niilismo bem nascido que buscava impacto em meio a um frio nórdico em que a vida parecia bem estabelecida.

Esta miscelânea entre música extrema, e ideias também extremas sobre a realidade, resultaram nos inúmeros eventos que chocaram a sociedade durante a década de 1990, o auge em que tais ações diretas e radicais se deram, tudo isto perpetrado por gente muito jovem e com um tipo de senso de contestação bem questionável e que era uma visão repleta de imoralidade e de concepções que iam de encontro a marcos civilizatórios muito caros e firmes para qualquer modelo de sociedade civil e de instituição. O black metal, nos anos 1990, desafiava interditos que foram pelos ares com esta juventude que entrava, muitas vezes, no submundo da delinquência.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/lords-of-chaos-a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-2 

 

 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A CASA INVADIDA (MINICONTO)

“tentavam fazer gestos como num tipo de língua estranha feita para alienados”

Existia um morador de uma casa, esta tinha alguns cômodos, uma sala, uma cozinha e um banheiro, ele vivia na casa meditando e vendo coisas que lhe faziam pensar. O dono desta casa era ele e seus sonhos, ele via coisas e as anotava em seu caderno. Estava fazendo um livro e tinha anotado várias ideias para outros livros. Certo dia, em uma destas suas meditações ele teve uma intuição e divulgou como uma carta náutica para o mundo, seu mundo de ideias agora estava circulando por outras paragens, houve um burburinho, ele pensou que poderia ser algo, mas depois preferiu deixar para lá.

A movimentação estranha se deu, na primeira semana, com um evento perto de sua casa, um canto esganiçado de maus cantores, eles cantavam frases sem sentido, passavam várias pessoas fazendo gestos inusuais, e este dono desta casa via tudo pela janela, um dos cantores fingia estar bêbado, olhava para a janela com um ar irônico, este dono da casa pensou, olhou bastante para aquele conjunto de maus cantores, mas voltou para seu quarto, e foi escrever pensamentos sobre a vida e de como tudo poderia transcender a qualquer momento.

Passaram-se uns meses, o dono da casa ouvia uns barulhos estranhos perto de sua janela, eram garotos jogando bolas de tênis na parede da casa, o dono da casa ficou aliviado que não eram pedras, pensou que aquilo era muito estranho, os garotos riam e tacavam aquelas bolas, durou uma tarde inteira, tanto que o dono da casa não conseguiu terminar o que estava escrevendo, foi fumar na cozinha e comeu uma banana.

Mais meses se passaram, o dono da casa sentia que seu trabalho escrito estava progredindo, ele se empolgava com tudo o que lia e escrevia, não parava, era um bom vício, ele gostava de ficar no seu quarto fumando, e gostava de escrever ouvindo muita música, fumava, lia e escrevia, ouvindo música. A casa se iluminava, ele escreveu algo extraordinário enfim, seu júbilo foi máximo, havia um tipo de luminosidade sobrenatural tomando-lhe naquele quarto enfumaçado, e seus escritos brilharam como nunca.

Mais um mês se passou, o dono da casa bebeu um bocado num dia, passou uma tarde bebendo e disse uns impropérios, logo no dia seguinte nem se lembrava mais, tinha sido um festim de bêbado quando lembra de alguma coisa e depois esquece de novo. Passou mais um mês deste dia e apareceram uns motociclistas fazendo ameaças diante de sua janela, o dono da casa não entendeu nada e desafiou a turba dando baforadas de seu fumo, e ao grupo de motociclistas se juntou outra turba de delinquentes juvenis portando facas e canivetes, o dono da casa riu daquilo tudo, fechou a janela e foi ler.

Ele passou muitos dias lendo desde aquele dia estranho daquela turba enlouquecida, e anotou mais algumas ideias, e depois se mandou para a boêmia, voltava para a sua casa sempre com um ar superior e glorioso, de uma juventude sem fim. Aquela turba nunca mais tinha aparecido, o dono da casa não tinha entendido muito bem aquela barulheira perto de sua casa, e não lhe importava, ele nem sabia se lembrava bem, dava baforadas em seu fumo, e estava tudo bem.

Contudo, num dia de calor, bem estranho, apareceu um sujeito armado, atirou na janela de sua casa, só que não bateu na janela, o atirador acertou a parede, e logo foi contido por policiais, ele foi detido e não se sabe de seu paradeiro, na hora deste tiro o dono da casa estava fumando, depois foi ouvir música, e se mandou novamente para a boêmia, voltando com o mesmo ar superior e glorioso de sua juventude sem fim. Ele escreveu mais umas coisas, passou uma semana e o dono da casa percebeu que sua parede tinha mesmo era marca de tiro e mandou degolar o infeliz.

Passou mais uma semana e parecia que estavam fazendo uma festa louca perto de sua casa, o dono da casa não entendeu quase nada, mas sabia que tinha coisa boa no ar, foi novamente para a boêmia, viu uns amigos, botou o papo em dia, voltou para a sua casa e foi fumar. Ele então olhou para seus escritos, e lembrou de recolher aquelas suas iluminações que tinha escrito em transe, salvou suas pérolas e se pudesse colocaria num cofre. Ele começou a vislumbrar de fato um livro que estava surgindo, e continuou o seu trabalho escrito, foi ler e estudar, e conseguiu um trabalho para poder beber na noite.

Passaram-se daí vários meses, de vez em quando apareciam uns malucos perto de sua casa fazendo libras ou gestos idiotas, ele sempre entendia aquilo como piada, e continuava escrevendo, pois sempre tinha malucos na rua, parecia ser já algo normal e corriqueiro. Volta e meia, pintavam quadros e passavam uns malucos perto da janela de sua casa e faziam sinais com as mãos.

O dono da casa estudou e trabalhou bastante, lia e escrevia muito também, e seguiam estes sinais estranhos, e que tinham um mesmo padrão de repetição. Eram malucos desavisados que passavam perto de sua janela sem bem saber o que estavam fazendo de fato, era um bando de desocupados que, de vez em quando, ainda tentavam fazer gestos como num tipo de língua estranha feita para alienados. Doutra vez, colocaram um outdoor em frente à janela do dono da casa, e nada do que estava desenhado ali fazia qualquer sentido.

Passou agora um tempo longo, e depois do dono da casa ter tomado uma decisão drástica, apareceu uma turbamulta revoltada tacando ovos no vidro de sua janela, ele limpou a janela e avisou o guarda da rua para ficar de olho naqueles vândalos e tomar as medidas cabíveis se for o caso. A coisa logo acalmou, o dono da casa começou a preparar seus livros, ele tinha feito um acordo de trabalho pleno com tudo o que acreditava, a defesa de seus valores, custe o que custar, e não foi caro, a casa estava limpa, o caminho estava aberto, ele abriu a janela e olhou para um céu azul e limpo, ele ia dar um mergulho no mar.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-casa-invadida-miniconto 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 16 de janeiro de 2021

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, POETA PORTUGUESA DE EXCELÊNCIA

“Este livro novo que reúne a produção mais relevante da poeta Sophia leva o título de “Coral e outros poemas”.”

A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen tem um estilo lírico de poesia, comparável aqui no Brasil com poetas como Cecília Meirelles, talvez um dos melhores paralelos desta dicção lírica em que a poesia de Sophia está imersa.

A presença da natureza na poesia de ambas também se relaciona a este aspecto lírico que domina tanto a poesia de Cecília como de Sophia, e na poeta portuguesa temos uma presença de um mundo mineral, com uma forte referência ao mundo líquido, à água, que podemos ver em livros intitulados Dia do mar, de 1947, ou As ilhas, de 1989, em que tal elemento está bem presente.

A poeta portuguesa estreou em poesia em 1944, mas o Brasil só recebeu uma seleta de consistência de sua produção poética em 2004, com Poemas escolhidos, trabalho realizado por Vilma Arêas.

Agora, a mais recente, material com o qual trabalho esta série aqui sobre a poeta portuguesa, temos o volume organizado pelo poeta Eucanaã Ferraz, com uma boa seleção e uma apresentação esclarecedora sobre a poesia de Sophia, em seu estudo introdutório que abre o livro, o texto “Breve percurso rente ao mar”. Este livro novo que reúne a produção mais relevante da poeta Sophia leva o título de “Coral e outros poemas”.

Podemos dizer que Sophia não traz novidades de estilo ou técnica, não faz experimentos inéditos, mas toma da forma clássica de expressão poética, de um predomínio lírico em sua dicção, para descortinar um mundo natural que pulsa e se funda em sua visão que vai deste olhar direto sobre a natureza, o mar, por exemplo, aos temas mitológicos, que muitas vezes se relacionam com esta sua temática do mar.

Em sua estreia como poeta, no seu livro Poesia, de 1944, já temos a presença de uma dicção poética amadurecida, com a temática marítima e mitológica já apontando o caminho de Sophia dentro do universo da poesia.

Nesta sua estreia temos o contexto da Segunda Guerra Mundial, mas não há uma referência direta do evento neste livro, mas um certo ambiente desta realidade pode ecoar no breve poema que abre o livro, que no primeiro verso enuncia : “Apesar das ruínas e da morte.”

Em seu segundo livro de poesia, Dia do mar, de 1947, temos novamente a presença soberana e forte do mundo natural, talvez numa busca da poeta de restituição deste mundo original pela poesia face ao mundo civilizatório que se distanciou desta origem que a poesia de Sophia tenta retomar.

No livro que se segue, Coral, de 1950, os temas e os procedimentos formais do livro anterior serão mantidos, com poema concisos e breves, o mar continua dominando o espaço de expansão da poesia de Sophia. O mar, um tema que é obsessão de muitos poetas, aqui com a poeta portuguesa é o próprio eixo temático central de sua lírica.

A busca de um mundo inaugural, original, permanece, e pode ser que esta busca seja a busca de uma revelação, uma visão que restitui e revela, e que coloca a poesia de Sophia diante de uma luz de um mundo natural sem mediações. A visão direta da poeta diante de uma imensidão natural que pode lhe aparecer como uma revelação, e que sua poesia tenta traduzir.

Ao fim, estas três primeiras obras de Sophia podem muito bem ser chamadas de um tríptico de abertura, é a apresentação da lírica de Sophia para a História da poesia portuguesa e mundial.

Sophia de Mello Breyner Andresen foi poetisa, tradutora, ensaísta, ficcionista, dramaturga. Em 1999, foi a primeira escritora portuguesa a ganhar o Prêmio Camões. No ano de 2003, intitulava-se “Rainha Sofia”, numa involuntária homenagem à majestade de sua poesia. Sophia faleceu aos 84 anos, em 2004.

DE POESIA :

SEM TÍTULO : A poeta aqui talvez ecoe indiretamente o ambiente de guerra da época em que este livro foi escrito, a sua estreia em poesia : “Apesar das ruínas e da morte,/Onde sempre acabou cada ilusão,/A força dos meus sonhos é tão forte,/Que de tudo renasce a exaltação/E nunca as minhas mãos ficam vazias.”. A poeta, diante da morte e de sua inevitabilidade, evoca a força dos sonhos, esta força que tudo vence e nos coloca numa dimensão de indestrutibilidade.

O JARDIM E A NOITE : A poeta tenta se unir à noite, no que temos : “Atravessei o jardim solitário e sem lua,/Correndo ao vento pelos caminhos fora,/Para tentar como outrora/Unir a minha alma à tua,/Ó grande noite solitária e sonhadora.”. O peso do mundo, no entanto, atenta contra este seu sonho lírico, no que vem : “Mas sob o peso dos narcisos floridos/Calou-se a terra,/E sob o peso dos frutos ressequidos/Do presente/Calaram-se os meus sonhos perdidos.”. E a operação de linguagem da poeta agora tenta restituir a esta linguagem algo originário, não a dicção literária, mas os encantamentos que soam nas fórmulas de magia, a linguagem original de um mundo totêmico, no que temos : “Entre os canteiros cercados de buxo,/Enquanto subia e caía a água do repuxo,/Murmurei as palavras em que outrora/Para mim sempre existia/O gesto dum impulso./Palavras que eu despi da sua literatura,/Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,/De fórmulas de magia.”.  E a busca da poeta de saber do segredo da noite se torna impossível, esta harmonia perfeita que a poeta busca lhe escapa em seu desconhecimento desta noite inatingível, no que temos : “Docemente a sonhar entre a folhagem/A noite solitária e pura/Continuou distante e inatingível/Sem me deixar penetrar no seu segredo./E eu senti quebrar-se, cair desfeita,/A minha ânsia carregada de impossível,/Contra a sua harmonia perfeita.”. Ela via o mundo pulsando, vivo, mas esta sua grande experiência de êxtase estava para sempre perdida, no que vem : “Tomei nas minhas mãos a sombra escura/E embalei o silêncio nos meus ombros./Tudo em minha volta estava vivo/Mas nada pôde acordar dos seus escombros/O meu grande êxtase perdido.” (...) “Só o vento passou pesado e quente/E à sua volta todo o jardim cantou/E a água do tanque tremendo/Se maravilhou/Em círculos, longamente.”.

CIDADE : A poeta aqui tematiza a cidade, no que temos : “Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,/Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,/Saber que existe o mar e as praias nuas,/Montanhas sem nome e planícies mais vastas/Que o mais vasto desejo,”. Ela tenta restituir o mundo natural, em que sua alma poderia voltar a seu habitat, esta alma da poeta que anela pela natureza em sua plenitude, mas que é levada e arrastada por um mundo sombrio de paredes, no que temos : “Saber que tomas em ti a minha vida/E que arrastas pela sombra das paredes/A minha alma que fora prometida/Às ondas brancas e às florestas verdes.”.

DE DIA DO MAR :

SEM TÍTULO : A poeta aqui, mais uma vez, evoca o mar, e o poema quebra na areia como uma onda que vira espuma e se esvai na praia : “As ondas quebravam uma a uma/Eu estava só com a areia e com a espuma/Do mar que cantava só para mim.”.

MAR SONORO : O poema tem uma lírica extasiante, e as imagens aqui fundam uma visão poética do mar em toda a sua plena feição de profundidade e homenagem, no que temos : “Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,/A tua beleza aumenta quando estamos sós/E tão fundo intimamente a tua voz/Segue o mais secreto bailar do meu sonho,/Que momentos há em que eu suponho/Seres um milagre criado só para mim.”. A coda fecha a ideia de uma individualidade da poeta que possui um milagre, o mar lhe pertence exclusivamente.

NAVIO NAUFRAGADO : O poema descreve o navio que naufragou, tenta discernir o que lhe ocorre neste fundo desconhecido de água salgada : “Vinha dum mundo/Sonoro, nítido e denso./E agora o mar o guarda no seu fundo/Silencioso e suspenso.”. Aqui continua a especulação poética, numa descrição que funde natureza e sonho, no que temos : “É um esqueleto branco o capitão,” (...) “Tem algas em vez de veias/E uma medusa em vez de coração.” (...) “E os corpos espalhados nas areias/Tremem à passagem das sereias,/As sereias leves de cabelos roxos/Que têm olhos vagos e ausentes/E verdes como os olhos dos videntes.”. O sonho da vidência das sereias, em que o delírio da poeta vê no mar um portal para este mundo mitológico.

UM DIA : A busca de restituição de um mundo original pela poeta Sophia continua, no que temos : “Um dia, mortos, gastos, voltaremos/A viver livres como os animais/E mesmo tão cansados floriremos/Irmãos vivos do mar e dos pinhais.” (...) “O vento levará os mil cansaços/Dos gestos agitados, irreais,”. E aqui temos a poeta tentando vaticinar este mundo restituído e seu sentido profundo : “Só então poderemos caminhar/Através do mistério que se embala/No verde dos pinhais, na voz do mar,/E em nós germinará a sua fala.”.

DE CORAL :

SONETO À MANEIRA DE CAMÕES : A poeta aqui tenta uma imitação adrede de Camões, se sai bem, e tematiza a lírica amorosa com fluência, no que temos : “Esperança e desespero de alimento/Me servem neste dia em que te espero”. Toda a carga simbólica, histórica, deste Camões, presente aqui, e esta dicção fantasiada de uma poesia camoniana, nos dá um objeto curioso da poesia de Sophia, no que temos:  (...) “Daquilo que te peço desespero/Ainda que mo dês – pois o que eu quero/Ninguém o dá senão por um momento.” (...) “Mas como és belo, amor, de não durares,/De ser tão breve e fundo o teu engano,/E de eu te possuir sem tu te dares.” (...) “Amor perfeito dado a um ser humano :/Também morre o florir de mil pomares/E se quebram as ondas no oceano.”. Fecha-se o soneto, como a fazer uma galimatia de uma chave de ouro camoniana que todo sonetista deve saber fazer.

CORAL : O poema, lacônico, faz da pergunta de Sophia esta imagem direta que se conclui como um raio, os nomes das coisas, no que vem : “Ia a vinha/E a cada coisa perguntava/Que nome tinha.”.

PIRATA : A poeta aqui é um pirata e descreve neste seu poema os seus gestos vestida desta personagem, todo o desprezo de um marginal saqueador, no que temos : “Sou o único homem a bordo do meu barco./Os outros são monstros que não falam,/Tigres e ursos que amarrei aos remos,/E o meu desprezo reina sobre o mar.”. Sua alma erra pelos mares, seu desapego fatalista dá ao mundo apenas um sentido utilitário, nada sobra, este pirata mira o efêmero e não detém nada e nem é detido, seu mar é um mar aberto, não lhe importa as paradas e suas memórias, a poeta aqui veste um pirata em sua postura distante de um bandido do mar : “A minha pátria é onde o vento passa,/A minha amada é onde os roseirais dão flor,/O meu desejo é o rastro que ficou das aves,/E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.”.

SEM TÍTULO : A poeta cobra da poesia aqui seu quinhão, no que temos : “Ó Poesia – quanto te pedi!/Terra de ninguém é onde eu vivo/E não sei quem sou – eu que não morri/Quando o rei foi morto e o reino dividido.”. A poeta se sente desprovida de seu ser, não sabe bem o que fazer, neste mundo de um reino que foi dividido.

PENÉLOPE : O tecido de Penélope que se desfaz na espera eterna de Ulisses, o poema homérico aqui numa versão breve que fala da distância e da proximidade, este paradoxo da peripécia amorosa até esta se concluir em júbilo : “Desfaço durante a noite o meu caminho./Tudo quanto teci não é verdade,/Mas tempo, para ocupar o tempo morto,/E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

 Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/sophia-de-mello-breyner-andresen-poeta-portuguesa-de-excelencia