PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 13 de dezembro de 2020

DESCARTES E A MACONHA – FINAL

“seria menos grave para a grandiosidade francesa admitir que Descartes veio à Holanda experimentar maconha”

Descartes estava distante de uma França governada pelo cardeal-ditador Richelieu, onde a liberdade intelectual estava comprometida, desfrutando com seus amigos na Holanda de sua liberdade. No livro de Pagès temos novamente a posição de Tobie sobre o filósofo.

Na descrição de Pagès, temos : “Um ar de liberdade com algumas nuvens de fumaça ... Que efeito fazia sobre Descartes e seus amigos, esse “tabaco”, que pronunciavam “tabak”, como se usava naquele século? Tobie, o expatriado, diz que os colocava em um estado “estupefaciente””. No parágrafo seguinte, Pagès especula : “Não vejo ao que ele faz alusão. Procuro e me lembro de uma passagem da “Primeira Meditação” : “Meu espanto é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.”

Aqui coloco o trecho em que o autor Pagès refaz o percurso de Descartes na sua descoberta clássica do cogito : “Noto que essas Meditações Metafísicas, escritas em 1641, contam uma curiosa história. Um homem decide cortar progressivamente todo contato com a realidade exterior ao ponto de duvidar da existência das coisas. A obscuridade invade progressivamente sua consciência. Depois, de repente, um flash, uma iluminação, uma deliciosa certeza : eu existo. A revelação de um ponto fixo.”

Segue Pagès : “Lembro que meus mestres ensinaram que Descartes era o “filósofo da consciência” mas sem indicar com precisão qual. Consciência modificada ou consciência vigília? A do cogito é muito agitada.

É uma cena de teatro, com efeitos de ilusão, e mesmo sedutores (o Gênio Esperto enganador) onde o herói surge da sombra como uma faísca. Não precisa esperar Hegel e sua fenomenologia. Em Descartes a consciência é um drama, dividido em episódios. Seis atos, seis meditações ... Essa consciência tem sua história, sua aventura, suas “sombras” e suas iluminações.”

Pagès refaz a cena do quarto, em que Descartes fez as suas meditações : “Sei que avanço em terreno inimigo. Estupefação, iluminação ... Ainda estamos no campo do racional? Mas não posso deixar de pensar na célebre cena do quarto aquecido. Descartes conta esta história no Discurso, no início da segunda parte, porém muito brevemente : “Eu estava então na Alemanha ... Permaneci o dia todo trancado sozinho num quarto aquecido, onde tive todo o tempo de me entreter com meus pensamentos”.

Ora, esse dia de clausura não foi nada de sossegado, como permite supor este trecho. Uma tempestade! Um transe místico! É o que na realidade aconteceu. Sabemos disso por uma narrativa pormenorizada que Descartes faz desse dia numa obra da sua juventude intitulada Olympica, hoje perdida, mas que conhecemos graças a Baillet e Leibniz, que a leram.”

Pagès segue este relato impressionante desta iluminação de Descartes : “Que noite a de 10 de novembro de 1619! Nosso fidalgo alugou, nos arredores de Ulm, um “poêle”, quer dizer um quarto aquecido “à moda alemã”. Um fogão de faiança alimentado do exterior por um cômodo intermediário assegura um calor constante, sem fumaça, nem corrente de ar, e sem que o hóspede seja perturbado pelos criados carregados de lenha.

Naquela noite – pois a aventura é noturna - , Descartes teve visões, sonhos, alucinações : “Ele se cansou de tal forma que o fogo subiu-lhe ao cérebro, e ele caiu numa espécie de entusiasmo que afetou sua mente abatida e o colocou em estado de receber as impressões dos sonhos e das visões”, conta Baillet.”

Na narração de Pagès, foi nesta tempestade cerebral ou mental que Descartes encontrou a sua nova filosofia, a sua ciência admirável, aqui tal espírito cartesiano é praticamente um daimon, pode ser um djinn, um espírito da floresta alemã, o filósofo neotomista Jacques Maritain chamava esta noite de Descartes de “Pentecostes da razão”. Leibniz, contudo, não fez cópias deste Olympica de Descartes, pois uma obra de razão originada de um evento completamente irracional talvez lhe incomodasse.

Pagès então conhece uma filósofa belga, de nome Bonnie S., amiga de Tobie, e vem a conversa sobre Descartes e sua descoberta meditativa, depois que Pagès expôs seus argumentos, temos o seguinte : “Bonnie escutava fumando um cigarro; Tobie, fechando os olhos, querendo me fazer acreditar que dormia. O que não era verdade, pois me interrompeu quando evoquei o “estupor” descrito nas Meditações.

_ Sabe que, ao duvidar da existência dos homens que ele vê passando na rua e se perguntar se não se tratam de manequins de chapéu, Descartes tem o mesmo raciocínio dos psicóticos? Evitei a digressão e continuei minha exposição. Quando expliquei que Descartes tinha provavelmente fumado tabaco mas que, quanto a maconha, ainda era preciso encontrar provas, os olhos de Tobie piscaram com um clarão mefistofélico : _ Você está perdido! Caiu na ratoeira! À partir do momento em que admite que Descartes fumou tabaco, está admitindo que ele fumou maconha!”

Pagès segue então a obsessão de Tobie, e nos narra : “Tirou do bolso um livro intitulado L`Embarras des Richesses, abriu-o numa página já marcada e leu o seguinte : “O costume que tinham os cervejeiros de adicionar aos seus produtos substâncias alucinógenas ou suscetíveis de provocar transes, tais como as sementes de memendro preto, de beladona a maçãs espinhosas, remonta pelo menos ao fim da Idade Média ...

Roessingh, o historiador da indústria holandesa do tabaco, não afasta a possibilidade de que uma parte da mercadoria poderia ser “temperada” com Cannabis Sativa, bem conhecida dos holandeses, que tinham viajado ao Oriente e à Índia.” Esse trecho foi extraído de um livro respeitado e sério, concluiu mostrando-me a capa do livro de Simon Schama.”

Pagès segue ao final de sua narrativa, nas palavras da filósofa belga, que lhe diz : “Gosto de Descartes, pois escrevia só ocasionalmente. Vocês censuram sua obra por ser fragmentária. De fato, ele não perdeu seu tempo construindo um sistema e estava com razão. A posteridade se encarregou disso.

Compreendo sua saída, seu adeus àquela mundanidade parisiense que engole o intelectual e o transforma em saltimbanco. A liberdade de pensamento não é somente aquela concedida pelo Estado, mas aquela que você mesmo toma em relação a si mesmo, a seus mestres, a seus semelhantes.

A partir de um certo nível de notoriedade, não se pensa mais. O sucesso faz bem ao ego mas prejudica o cérebro. Prestamos serviço pós venda. O pensamento que precisa de amadurecimento e de solidão é impossível na sua ilustre balbúrdia. Os intelectuais que se deixam fascinar por Paris devem abandonar toda e qualquer esperança.”

Então Tobie se dirige a Pagès : “_ No final, ao fazer as contas, seria menos grave para a grandiosidade francesa admitir que Descartes veio à Holanda experimentar maconha. Quando se procuram outras razões, é mais desastroso ainda.”

(FIM)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/descartes-e-a-maconha-final 

 

 

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

MILÍCIAS ARMADAS NOS ESTADOS UNIDOS

“Os Proud Boys enfrentaram antifas em muitos protestos violentos nestes últimos dois anos.”

Nos EUA, o movimento paramilitar é avalizado pela Segunda Emenda da Constituição. Ratificado em 1791, o texto diz : “Sendo necessária uma milícia bem ordenada para a segurança de um Estado livre, o direito do povo a possuir e portar armas não poderá ser violado.”

WOLVERINE WATCHERS

Este grupo foi o que fez o fracassado plano de sequestrar e derrubar a governadora democrata do Estado de Michigan, nos Estados Unidos, Gretchen Whitmer, que foi impedido e desbaratado pelo FBI (polícia federal americana), em que esta milícia buscava nisto um movimento civil maior, uma guerra civil.

O FBI relata que seis homens dos treze detidos planejavam realizar um julgamento por traição contra Whitmer, que virou alvo dos negacionistas do coronavírus, pois a governadora tinha estabelecido medidas rigorosas de controle e mitigação da pandemia, medidas estas que acabaram sendo derrubadas por decisão de um juiz.

Segundo o FBI, o Wolverine Watchers discutia a derrubada de governos estaduais que, segundo eles, violavam a Constituição dos Estados Unidos. De acordo com o FBI, a milícia queria reunir 200 homens para invadir o prédio do Capitólio local e fazer reféns, incluindo a governadora, e tal plano se daria antes das eleições presidenciais norte-americanas. A milícia também tinha planejado ataques com coquetéis molotov contra policiais, e compraram uma arma de choque, também levantando fundos para obter explosivos e equipamento tático.

Os acusados do plano contra a governadora de Michigan tinham realizado treinamento em vários Estados, usando armas, e tentando criar bombas. A procuradora-geral de Michigan, Dana Nessel, disse que, eles não são acusados apenas de sequestro, mas também de afiliação a gangues e que davam apoio material a terroristas. A expectativa principal destes milicianos, por fim, era estabelecer uma guerra civil.

PROUD BOYS

A milícia Proud Boys foi fundada em 2016 pelo militante de extrema-direita canadense-britânico Gavin McInnes, como um grupo de extrema direita, contra os imigrantes e com integrantes exclusivamente masculinos, realizando um histórico de violência contra grupos de esquerda, ganhando fama em confrontos políticos, usando de violência, sobretudo, contra ativistas negros. Os Proud Boys enfrentaram antifas em muitos protestos violentos nestes últimos dois anos.

O nome Proud Boys se refere a uma citação que aparece no musical Aladdin, da Disney. Eles usavam as camisas polo Fred Perry e bonés vermelhos com a inscrição "Make America Great Again", slogan da primeira campanha de Trump à presidência dos Estados Unidos.

Os Proud Boys elaboraram uma plataforma que inclui propostas como fechar fronteiras, armar a população norte-americana, acabar com as políticas de bem-estar social. Depois de diversos incidentes, o Facebook, Instagram, Twitter e YouTube baniram o grupo de suas plataformas, com o grupo migrando para redes sociais menores.

A Fred Perry, marca inglesa, por sua vez, anunciou que decidiu eliminar a peça mais conhecida de seu catálogo após vendê-la por mais de 50 anos. A icônica camisa polo preta com duplas de faixas amarelas na gola e nas mangas se tornou desde 2016 uma espécie de uniforme informal dos Proud Boys.

REDNECK REVOLT

O Redneck Revolt é um grupo político norte-americano de extrema esquerda, e que é composto por membros que vêm sobretudo da classe trabalhadora branca, que defende o porte de armas, e seus membros usam armas ostensivamente, com posições contra o capitalismo, e são também antirracistas. O grupo foi fundado no Kansas em 2009, como um desdobramento do John Brown Gun Club, um projeto de treinamento de armas de fogo e defesa da comunidade que foi fundada em Lawrence, Kansas em 2004. O membro fundador é Dave Strano.

O site do grupo inclui declarações contra o capitalismo, o Estado-nação e a supremacia branca. O site também defende a necessidade de revolução. O grupo inclui anarquistas, comunistas, libertários e republicanos. Não há uma declaração do grupo nem como liberal e nem como parte da esquerda, a definição dada é a da prática de um socialismo libertário, não se considerando um grupo antifa.  

NOT FUCKING AROUND COALITION

Not Fucking Around Coalition (NFAC) é uma organização paramilitar dos Estados Unidos, uma milícia supremacista negra, e o grupo nega a sua associação tanto com os Panteras Negras, como com o movimento Black Lives Matter. O grupo tem a liderança reivindicada por John Jay Fitzgerald Johnson, conhecido como Grand Master Jay.

O NFAC tem a sua primeira aparição documentada num protesto em 12 de maio de 2020, perto de Brunswick, Geórgia, sobre o assassinato em fevereiro de Ahmaud Arbery, mesmo que tenham confundido o grupo com os Panteras Negras. Em 4 de julho de 2020, a mídia local informou que cerca de 100 a 200 membros da NFAC, em sua maioria armados, marcharam pelo Stone Mountain Park perto de Atlanta, Geórgia, pedindo a remoção de um monumento confederado. Em 25 de julho de 2020, por sua vez, foi informado que mais de 300 membros do grupo estavam reunidos em Louisville, Kentucky, para protestar contra a falta de ação contra os oficiais responsáveis pelo tiroteio de março de Breonna Taylor.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/milicias-armadas-nos-estados-unidos

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

MARÍLIA GARCIA EM SEU DESLOCAMENTO POÉTICO

“A complexidade poética opera através de colagens, sobreposições, reiterações, criando este looping que dá voltas em si mesmo, num leitmotiv vertiginoso”

O trabalho poético de Marília Garcia tem um caráter híbrido de uma prática formal bem elaborada e um instinto experimental, um misto de domínio do código linguístico com um universo de colagens e transposições, como, por exemplo, colocar notícias reais em perspectiva poética e realizar um verdadeiro jogo com estes elementos tão objetivos.

Em Câmera Lenta, Marília retoma um acabamento estético presente em seu livro inaugural, e mantém a pesquisa ou caminho teórico e empírico de seus livros posteriores. Neste livro Câmera Lenta, agora, Marília estabelece um diálogo intenso com referências internacionais, e ainda com a escrita não criativa de Kenneth Goldsmith, e na poesia brasileira, seu diálogo evidente é com Ana Cristina César, como disse em textos anteriores, tendo também ecos de Manuel Bandeira.

Numa contemporaneidade que rompe com uma realidade constante e homogênea, agora num espaço fragmentado e em que reina a descontinuidade, o híbrido criado entre estas transições do mundo real e do mundo virtual, feita numa velocidade vertiginosa, opera uma nova percepção da realidade que, na poesia de Marília, aparece como a mediação dos dispositivos eletrônicos nesta modificação da percepção e da velocidade dos acontecimentos.

Os poemas de Marília Garcia, em seu livro Câmera Lenta, tem uma voz lírica que monta e remonta discursos próprios e de outros, operações de colagens, deslocamentos, transposições, fazem uma geografia acidentada e metódica, ao mesmo tempo, nesta construção poética deste livro, uma usina que parece o mecanismo de uma indústria, imagens duplicadas, uma percepção da realidade em modo vertiginoso e numa espécie de looping para ficar tonto.

Esta voz lírica de Câmera Lenta coloca repetições, formulações inéditas de estrutura, reiterando a liberdade de pesquisa da poesia atual, como nunca houve na História, e o mosaico criado em Câmera Lenta reverbera, como uma câmara de ecos, rebatendo palavras e situações, recursos heterogêneos de composição poética operando numa complexidade que tenta espelhar de modo metódico e fragmentado, ao mesmo tempo, a realidade contemporânea.

Nesta prática poética de Marília, portanto, além do tema das máquinas e da velocidade, aparecem pequenas imagens obsedantes, como a hélice, por exemplo. A complexidade poética opera através de colagens, sobreposições, reiterações, criando este looping que dá voltas em si mesmo, num leitmotiv vertiginoso. Um cenário particular ganha densidade de percepção, e as ideias de lugar e de deslocamento também são os caminhos da obsessão temática de Marília Garcia.

POEMAS :

EPÍLOGO

ESTRELAS DESCEM À TERRA (DO QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE UMA HÉLICE)

1. : Marília inicia este poema imenso, feito em várias partes, já colocando em evidência o tema e a obsessão particular que será demonstrada, a hélice, e tudo que isto implica, no que temos : “queria terminar falando de uma hélice/que eu vi na semana passada” (...) “era uma hélice grande demais/para o tamanho do avião e eu nunca/tinha visto na vida um avião de hélice”. Marília objetiva a sua curiosidade, no que vem : “uma hélice serve para deslocar/mas uma hélice pode paralisar” (...) “quando vi a hélice na semana passada/eu pensei nas nuvens de verdade/e num poema do carlos drummond de andrade”. A relação da hélice com a memória de Marília remete a um poema de Drummond, no que a poeta segue em sua reflexão poética : “naquele dia eu estava indo/para um festival em juiz de fora/e eu ia ler um poema chamado/“malaysia airlines”. O poema que Marília irá ler remete a uma notícia, aí é que começam as suas colagens e transposições, que vão dar o caráter de sua dicção neste poema vertiginoso, no que temos : “ao chegar na pista do aeroporto/vi a hélice e na mesma hora pensei :/“não posso entrar nesse avião”/eu congelei e não podia mais/me deslocar” (...) “e eu queria essa hélice em movimento/cruzando o céu e levando a gente/para a frente/mas nem sempre” (...) “então começo com um trecho do poema/que eu ia apresentar em juiz de fora/chamado “malaysia airlines””.

 2 . : Marília segue, e agora enuncia o poema que é uma notícia, no que temos : “no dia 16 de julho de 2014,/um boeing 777 da malaysia Airlines/saiu de amsterdam para kuala Lumpur/com 298 pessoas a bordo./ele estava em voo cruzeiro/quando caiu na vila de grabovo/no leste da ucrânia.”. Marília segue nesta notícia fria que irá se tornar uma ideia poética, no que vem : “os enormes pedaços do boeing 777/da malaysia Airlines/se espalharam por um campo de trigo.”. O acidente aéreo não é apenas uma notícia insular, aqui logo aparece o contexto político, e a complexidade natural de todo fato, no que temos : “o leste da ucrânia estava sob controle/de separatistas pró-rússia e desde março/o espaço aéreo sobre a ucrânia estava fechado.” (...) “suspeita-se que o boeing 777/tenha sido abatido por um míssil/quando atravessava em voo cruzeiro/o espaço aéreo ucraniano.”. E, como fato, tem consequências, no que temos : “a chanceler da alemanha disse/que era necessário um cessar-fogo/no leste da ucrânia.” . E aqui entra o concurso de sua memória, Marília finaliza a enunciação do que diz ser o começo de seu poema e se transporta para juiz de fora, e o tema da hélice que aparece neste influxo do acidente aéreo, no que vem : “esse era o começo do poema/que eu ia apresentar em juiz de fora/mas na hora em que vi a hélice do avião/na pista do aeroporto viracopos” (...) “lembrei do final do poema/que dizia assim :/“um dos comissários do voo MH 17/só estava trabalhando naquele dia/porque tinha trocado de voo com um colega./a esposa deste comissário/- também comissária da malaysia airlines –/tinha feito uma troca parecida/alguns meses antes e tinha folgado/num dia em que deveria estar voando/no voo MH370, desaparecido no oceano índico.” (...) “no momento da queda do voo MH17,/um avião levava o presidente putin/do brasil para a rússia.” (...) “a aeronave presidencial/fez uma rota semelhante/à do voo da malaysia airlines/e as duas aeronaves cruzaram/o mesmo ponto e o mesmo corredor/com menos de uma hora/de diferença.”. Os mistérios do acaso, e como ele evita uma tragédia e provoca outras, eis o enigma do acontecimento, os deslocamentos particulares de corpos e vidas neste mistério que envolve um acidente do qual uns escapam e outros morrem, o jogo real do poema.

3 . : O poema evoca a hélice, o diálogo com um amigo, e a ideia nevrálgica da impossibilidade de se deslocar, a angústia de Marília em seu poema, no que vem : “quando vi a hélice/na semana passada/me lembrei de uma pergunta/que um amigo tinha me feito/na véspera da viagem/ele se referia a um poema em que eu contava/que não tinha conseguido embarcar num voo/porque meu passaporte estava quase vencido/ele fez a seguinte pergunta :/será que eu não estaria falando na verdade/sobre a impossibilidade de deslocar?” (...) “ao escrever eu estava preocupada/com o deslocamento”. O deslocamento evoca uma geografia, no que temos : “ao escrever é possível pensar/em termos geográficos :/a gente constrói uma cartografia/e pouco a pouco/vai desenhando e/descrevendo linhas/formas curvas montanhas acidentes/caminhos e superfícies”. O deslocamento se faz na linguagem, poesia, no que temos : “o que era de fato/deslocar/na linguagem?/será que eu estava deslocando/ou só falando em deslocar?” (...) “nesse momento de superfícies abertas/como lidar com a impossibilidade/de sair do lugar?” (...) “seria mesmo o mundo/plano? ou em vez disso/uma superfície acidentada/cheia de barreiras/muros comportas fronteiras/e linhas demarcadas/que podem conter/o fluxo?”. A impossibilidade de se deslocar aqui se confronta com linhas de demarcação, fronteiras, a tentativa de movimento e suas contingências fazendo o objeto de angústia deste poema.

4 . : O poema opera novamente com deslocamentos e as obra do acaso, no que vem : “na semana passada/eu ia para um festival em juiz de fora/e tinha de me deslocar :/no aeroporto de congonhas/eu tomaria um ônibus rosa/da empresa azul/para ir até o aeroporto de campinas/em campinas eu tomaria um avião/para o aeroporto zona da/mata/que fica a uma hora de juiz de fora”. As constatações, no que segue : “antes de sair de casa olhei no mapa/para ver onde tomar o ônibus em são Paulo/cheguei lá em cima da hora/e o ônibus estava vazio/depois de dez minutos nada” (...) “fui ao guichê da empresa/dentro do aeroporto/e descobri que o lugar onde eu estava/não era o ponto de ônibus/e sim o estacionamento de ônibus/e que o ônibus que eu ia pegar já tinha/saído”. O lapso de Marília, que opera aqui como um tipo de gancho poético, no que segue : “disse para o funcionário da empresa/que o mapa do site estava/errado” (...) “o funcionário abriu o mapa no site/e me mostrou que não tinha/nada errado/eu me enganara ao ler o mapa/o ponto ficava no lugar oposto/ao que eu tinha imaginado”. A desorientação, produto de um erro de percepção cartográfica, eis o jogo de Marília e tudo o que isto implica na geografia intensa deste poema, no que vem : “ele me disse/que eu estava achando/que o leste era o oeste – ou o norte era o sul/já não fazia diferença/eu tinha perdido o ônibus” (...) “porque não soube ler o mapa” (...) “mas naquele momento/eu ainda não sabia que o avião tinha hélice”. E a pergunta obsedante sobre a hélice, como o leitmotiv deste poema imenso dividido em várias partes.

5 . : O poema, a imagem da hélice, e novamente um poema de Drummond vem à memória da poeta Marília, no que vem : “quando vi a hélice/na semana passada/lembrei de um poema/do drummond chamado/“a morte no avião””. A ideia de movimento e sua relação direta com ação, a poeta Marília coloca a sua reflexão dentro do poema, no que vem : “eu queria falar/sobre movimento e ação :/queria pensar em como o deslocamento/da linguagem/caso da colagem e da citação/poderia nos levar a ver as coisas de forma diferente”. A colagem e a citação também como deslocamentos e transposições do poema, o movimento aqui numa operação de linguagem, no que temos :  “eu queria falar aqui/sobre movimento/mas só consigo pensar na hélice que paralisa” (...) “eu queria contar/de um sonho recorrente” (...) “que era assim :/eu estava voando numa/máquina voadora/e de repente ela caía/como no poema do drummond". A queda da máquina voadora e esta imagem evocando mais uma vez um poema de Drummond, no que temos :  (...) “despencava do alto/furando as nuvens/na vertical” (...) “ a cada sonho/era capaz de uma hora/furar o chão/e provocar uma catástrofe”. A catástrofe da queda, furando em vertical o ar, eis o encerramento desta parte do poema sobre a hélice.

6 . : Marília fala de seu poema sobre a empresa de aviação novamente, e a notícia aciona de novo o leitmotiv, o deslocamento todo do poema se dando pela hélice, tema obsedante deste poema imenso, e a colagem de uma notícia de acidente aéreo e suas inúmeras relações temporais e de lugares com todos os seus enigmas, no que temos : “o poema “malaysia airlines voo MH 17”/tinha sido escrito a partir de notícias/tiradas do site G1/assim recortei o texto do site/inseri quebras de verso/excluí informações/trocando algumas coisas de lugar” (...) “durante o processo/tentava entender o acidente/a partir do tom frio das notícias” (...) “também queria ver algo/que para mim/não estava claro/queria olhar de outro lugar/mudar o foco”. As colagens da notícia, feitas por Marília, agora a levam à reflexão do próprio poema e sobre a linguagem, no que vem : “seria possível deslocar as palavras/de modo a produzir alguma coisa/que eu não estava vendo?”. Este deslocamento da linguagem como um deslocamento da própria percepção, no que temos : “eu tentava reaprender a ver :/recortar e colar selecionar/uma palavra para colar em outro ponto/como numa ilha de edição”. E a poeta Marília se debruça sobre o poema, e se coloca a escrever, no que vem : “ao escrever o poema/tentava repetir os gestos que fazemos/ao escrever nas várias telas hoje :/deslocar com a mão” (...) “e eu fiquei tentando escrever um poema/com a mão                     e eu fiquei tentando pensar/no que vai acontecer” (...) “com esses deslocamentos            de agora/entre tantas telas”. O deslocamento aparecendo em seu caráter obsedante aqui para Marília, produto de toda a sua reflexão poética.

7 . : A poeta Marília evoca agora um livro sobre a poesia, e este coloca o tema da fala-aventura, aqui, para Marília, mais um mote dela para seu grande poema sobre o deslocamento, sobre a hélice e o movimento, encarado aqui no mundo real e no mundo da linguagem, isto é, como tema poético, no que temos : “lendo um livro da silvina rodrigues Lopes/anotei uma citação que dizia o seguinte : “para a poesia continuar/é preciso construir falas-aventuras/que abram caminho através do desconhecido”. Tais modos da fala-aventura serve para abrir caminhos, a respiração aqui se dá como poesia e ação, no que vem : “um dia fui falar este texto que vocês estão lendo/em um evento chamado/poesia e ação/depois fui falar este mesmo texto/em um evento chamado/cinema-ao-vivo/e depois em outro evento chamado/em obras”. Os eventos se sucedem e seus temas estão interligados numa mesma ideia, a ideia de Marília para o seu grande poema, no que segue : “e eu não sabia como desenvolver a tópica da aventura/esqueci de dizer que quando apresento/este texto ao vivo vou projetando/várias imagens enquanto leio” (...) “vocês podem pensar na imagem que quiserem/enquanto prosseguimos/mais ou menos assim :/cada pedaço de texto como este/deve ter uma ou mais imagens número/correspondentes”. E a notícia do acidente aéreo, aqui como proposta de tema para a poesia, ideia da poeta Marília, no que temos : “para o acidente/da malaysia Airlines/basta digitar no google o número do voo/e pegar alguma imagem” (...) “de todo modo/depois dessas apresentações/encontrei enfim o texto da silvina rodrigues Lopes/e voltarei a ele na parte 14”.

8 . : Marília reflete então se esta notícia sobre um acidente aéreo tinha produzido de fato um poema, no que temos : “quando enviei o poema da malaysia airlines/para uma revista que tinha me encomendado/um texto não consegui chamá-lo de “poema”/expliquei aos editores que era/uma “aventura”/o tema da revista era o amor fati/amor que se tem ao fado           ao destino/e a pergunta que eu queria fazer sobre o acidente era :/como aceitar na vida o imponderável?”. O poema era, na verdade, uma aventura, e o amor fati tem seu confronto com o imponderável, o senhor das situações, no que temos : “de um jeito ou de outro/eu estava tentando explicar e justificar/o que estava fazendo/sentia um desconforto duplo :/um pouco pelo texto            um pouco pela expectativa/que temos do que é um poema”. A expectativa de um poema nem sempre dá em um poema, e a pergunta que aparece, enfim, é do que se trata um poema : “afinal/do que falamos quando falamos de poesia?/ela me perguntou/e eu paralisei”.

9 . : Marília apresenta publicamente o poema sobre o acidente aéreo, e uma pessoa presente no público confunde seu nome por duas vezes, no que temos : “apresentei este texto pela primeira vez/em 2014 depois que terminei a leitura/uma pessoa levantou da plateia e veio me fazer/uma pergunta” (...) “ele foi até o microfone/que ficava em frente ao palco/e perguntou :/qual é o seu nome?/e eu disse/marília/e ele disse como?/e eu repeti/e ele falou/maria” (...) “mas                   voltando à pergunta/mesmo sem poder se dirigir a mim pelo nome/ele seguiu no microfone/e falou :”. O questionamento se dá então em torno da hélice, no que vem : ““você disse que quando vê uma hélice/sente medo/queria saber o que você sente/quando vê uma turbina””. O poema de Drummond aparece, e segue : “eu olhei para ele e fiquei sem ar/eu pensei na hélice do drummond e paralisei” (...) “depois me contaram/que aquele era o ernesto neto um artista plástico/do rio que gosta de pendurar bolas de chumbo/em tules de lycra” (...) “na saída/encontrei a veronica stigger/e ela me disse :/mas a turbina é uma hélice coberta” (...) “e eu fiquei me perguntando/se não ver a hélice fazia alguma diferença”. O que era uma hélice, afinal, encerra o questionamento desta parte do poema.

10 . : O poema segue agora um périplo histórico e o que isto implica na ideia motora do poema de Marília, no que segue : “Em 1912 o artista francês/marcel duchamp foi ao salão de tecnologia aeronáutica/na frança e ficou deslumbrado/quando viu uma hélice contam que ele chegou no salão/olhou para o objeto e disse :” (...) ““a pintura acabou/quem poderia fazer uma hélice assim com mais perfeição?”” (...) “no ano seguinte ele fez o seu/primeiro ready made roda de bicicleta”. O ready made e seu mote, de novo, que se volta para a hélice, no que vem : “e eu fiquei imaginando/como deveria ser a hélice que o marcel duchamp/viu no salão de aeronáutica” (...) “e então eu mesma fui ao salão de aeronáutica/de paris que existe até hoje/e passei um dia andando/entre hélices e drones e máquinas voadoras/e enquanto olhava para os dispositivos de/deslocamento fiquei tentando imaginar/como seria a hélice do duchamp/teria sido uma hélice como aquelas do salão?/uma hélice natural como a da wikipedia?/ou uma estrutura helicoidal como a dos dnas?”. O salão de aeronáutica e a especulação insana em torno da hélice de Duchamp encerram esta parte do poema.

11 . : Segue Marília em suas descrições históricas, agora com o clássico helicóptero do renascentista Leonardo Da Vinci, no que segue : “Em 1480 leonardo da vinci/começou a fazer uma série de desenhos/para máquinas voadoras/uma delas era um protótipo de helicóptero/feito de madeira e tela/ele tinha uma hélice que deveria ser impulsionada/por duas pessoas pedalando juntas”. O questionamento em torno da hélice ganha uma proporção épica, este grande poema é um percurso imenso, e aqui se torna uma vertigem histórica, no que temos : “os helicópteros não têm hélice/o que gira neles se chama rotor/mas a máquina voadora de da vinci/era um helicóptero de hélice/e se chamava “la hélice””. Marília segue, aqui, agora como uma espécie de poeta-historiadora, no que segue : “os helicópteros ainda levariam séculos/para sair do papel e só nos anos 1940/alcançariam a estabilidade/com fins militares” (...) “de todo modo/o primeiro voo de helicóptero bem-sucedido/ocorreu nos anos 1910 na frança/e foi na mesma época/em que marcel duchamp/viu aquela outra hélice/no salão da aeronáutica”. E a coda desta parte faz um arremate histórico retomando Duchamp e o salão de aeronáutica.

12 . : Aqui, nesta parte do poema, Marília opera com o acaso um mistério cheio de significado, uma lógica desconhecida que provoca e evita desastres, dividindo a fronteira entre a vida e a morte, e a poeta Marília se torna, aqui, uma agente deste deslocamento de corpos, e de conservação da vida, no que vem : “Em 2009 eu estava na frança/e minha mãe foi me visitar/meu padrasto comprou a passagem para ela ir/no voo 447 da air france” (...) “ele me ligou/para confirmar os dados do voo :/minha mãe sairia do rio de janeiro/no domingo 31 de maio/e chegaria em paris na segunda-feira 1° de junho”. Eis uma ação pontual, aparentemente banal, mas que opera um deslocamento de sobrevivência e de salvamento, no que segue : “mas eu preferia que ela chegasse/no domingo e não segunda/para ir ao aeroporto buscá-la/então perguntei ao meu padrasto/se ele poderia trocar a passagem por outra/que saísse na véspera” (...) “meu padrasto trocou a passagem/que tinha comprado pra ela no voo 447 da air france/por uma passagem pela TAM saindo do/rio de janeiro na véspera” (...) “minha mãe saiu do rio de janeiro no sábado 30 de maio/e chegou no aeroporto charles de gaulle/no domingo 31 de maio” (...) “o voo 447 da air france/saiu do rio de janeiro como previsto/no domingo 31 de maio/e caiu no meio do oceano atlântico/na madrugada do dia 1° de junho”. O acidente aéreo acontece, e um pequeno milagre do deslocamento coloca o acaso de uma ação na sua misteriosa confluência com forças desconhecidas, a imagem poética aqui coloca o deslocamento, também, como agente de ações milagrosas, no que segue : “dia 1° de junho era feriado na frança/e eu não tive compromissos de trabalho/como imaginei que teria quando pedi/ao meu padrasto para trocar a passagem/da minha mãe”. Uma ação simples da poeta Marília operando na linha demarcatória entre a vida e a morte.

13 . : Marília coloca em dúvida, de novo, o estatuto de poema, este que foi escrito sobre o acidente aéreo, no que vem : “quando enviei para uma revista o poema/sobre o acidente da malaysia airlines/senti um desconforto/porque havia um desencontro entre o que era o texto/e a ideia que a gente tem do que é um poema”. Ela descreve como fez este poema, dá detalhes, no que temos : “durante a escrita/tinha tentado justapor as cenas/de acaso e engano/me fazendo algumas perguntas : engano/será que o avião tinha sido mesmo abatido/por engano? como lidar com o/acaso/como nesta história do comissário que decide voar/num dia em que deveria folgar?/seria possível escrever sobre isso?”. A questão do acaso como uma questão filosófica nevrálgica aparece aqui no poema como um marcador de toda a sua reflexão, junto com esta ideia obsedante sobre o deslocamento, e o fetiche deste grande poema, a hélice, no que temos : “ao ver a hélice no avião que ia para juiz de fora/não podia deixar de pensar/na explosão do avião da malaysia airlines/e no acidente da air france/do qual minha mãe tinha escapado”. Marília propaga suas ideias fixas, e as coloca numa oficina, dando isto ao mundo, no que temos :  “dois meses depois de fazer esse poema/dei uma oficina em salvador e pedi como exercício/um poema feito a partir do recorte/das mesmas notícias tiradas do site do G1”. O exemplo do poema de um aluno de sua oficina literária opera aqui mais um looping, o deslocamento se aprofunda aqui, criando uma nova camada, aqui, em um poema dentro de outro poema, no que temos : “o saulo moreira fez um poema/misturando essas notícias com a morte da carol/prima dele que tinha sofrido um acidente/de carro na semana anterior :/para carol”. Este poema, contudo, é sobre o mesmo tema dominante, mas opera dentro de seu próprio entorno, misturando fatos, no que temos : “carol caiu na ucrânia perto da fronteira com a Rússia/carol ficou sozinha durante quase 17 horas quase 24 horas/numa estrada próxima da casa da minha mãe/minha mãe mora em Itapetinga” (...) “carol amava minha mãe/carol voava normalmente,/sem registros de problemas, até desaparecer do radar/carol não morava em Itapetinga/minha mãe mora em Itapetinga”. A descrição se torna chocante, ao fim : “carol quebrou/o pescoço/ninguém ouviu o barulho dos ossos” (...) “há fatos difíceis de analisar/154 holandeses 43 malaios incluindo tripulantes e 2/Crianças 27 australianos 12 indonésios incluindo uma/Criança 9 britânicos 4 belgas 3 filipinos 1 canadense e/carol”.

14 . : Marília retorna a seu habitat e evoca a hélice em toda a sua intensidade, que é o tema do poema, para além da ideia de deslocamento, no que temos : “apresentei este texto uma vez/em guarulhos cidade ao lado de são paulo/onde fica o maior aeroporto do país” (...) “deve ser um dos lugares com mais hélices e turbinas/do continente essas hélices todas/servem para fazer a gente se deslocar/e esse lugar serve para receber/as pessoas que se deslocam”. O aeroporto de Guarulhos e sua profusão de hélices, lugar que opera deslocamentos brutos e intensos, tanto dos grandes aviões como do som ensurdecedor de suas turbinas, no que temos : “estou querendo falar de guarulhos/para lembrar que há cinco anos eu mesma/cheguei naquele aeroporto para morar/em são paulo e nessa época nunca tinha visto/um avião de hélice”. O enigma do fio invisível que conduz todas as coisas e o deslocamento feito pelas hélices, tudo interligado, e temos : “eu queria falar da hélice quando gira/e produz ação e eu queria falar do caminhão/se deslocando com a mudança/e eu queria falar do poema/caminhando junto com esse fio invisível/que faz mover as coisas”. A ação faz mover as coisas, atuar neste deslocamento é a participação e a ação direta da poeta e de sua poesia, de sua vida, a poeta Marília avança, se movimenta, e reflete sobre estes movimentos brutais de um aeroporto, no que vem : “e do céu repleto de zepelins/em movimento                  e das ondas sonoras/que atravessam o ar”. E retoma a ideia poética da fala-aventura, no que temos : “buscando diferenciar as falas-aventuras/das outras falas/a silvina rodrigues lopes escreve :” (...) ““se aceitarmos que há na vida das pessoas/e na cultura dos povos/aquilo de que não se pode falar/e aceitando que o poemático é uma das manifestações disso/devemos admitir que há uma fala que não fala de” (...) “eu queria que fosse uma fala que fala com/talvez uma fala de aproximação e de encontro”. A fala-aventura encontra e se encontra, o poema se faz como uma coda final deste deslocamento que chega ao seu destino, feito de ação, movimento e hélice.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/marilia-garcia-em-seu-deslocamento-poetico-1

                       

  

 

 

  

 

  

       

 

 

     

 

domingo, 29 de novembro de 2020

REVOLUÇÃO AMERICANA – PARTE II

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Realizada no Dia : 29/11/2020 - domingo - 22 h

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Guerra e Paz

Os confrontos militares entre as tropas inglesas e os colonos britânicos tiveram início em abril de 1775, com a batalha de Lexington. Começa então a Guerra de Independência contra a Inglaterra que irá durar até 1782.

Em 1775, por sua vez, tivemos também a sessão contínua do segundo Congresso Continental, que em abril de 1776, portanto, tomou a decisão de abrir os portos norte-americanos ao mundo, e culminou na proclamação da independência dos Estados Unidos da América.

Na Guerra de Independência os Estados Unidos tiveram o apoio decisivo da França na política externa. Talvez, naquele momento, não tivesse sido possível a independência norte-americana sem este apoio francês. A França tinha interesses nesta aproximação das colônias britânicas, indo além de questões comerciais e econômicas, mas levantando a rivalidade histórica entre França e Inglaterra. Reforçado pela derrota francesa de 1763. E os Estados Unidos utilizou este contexto para conseguir dinheiro e armas para esta Guerra de Independência.

Em setembro de 1776, o segundo Congresso Continental nomeou uma comissão enviada à França para obter auxílio militar e financeiro dos franceses, tendo também os norte-americanos buscado apoio espanhol e holandês para reforçar a sua Guerra de Independência. Houve, por conseguinte, o reconhecimento desta independência norte-americana pelos franceses, o que implicou num estado de guerra imediato com a Inglaterra.

Temos a vitória militar norte-americana em Saratoga, em outubro de 1777, em que a Inglaterra negocia, pela primeira vez, com os insurgentes. O fato é que os franceses não queriam um acordo diplomático bilateral entre os norte-americanos e os ingleses. Os Estados Unidos e a França, por sua vez, assinam dois tratados, um de comércio e amizade, centrado em relações econômicas, e outro, que marca a entrada dos franceses na Guerra de Independência norte-americana.

No caso dos espanhóis, e apoio foi mais difícil, pois o rei Carlos III não tinha pressa em levantar armas contra os ingleses, pois a Espanha tinha interesse no domínio de Gibraltar. E o fato da Espanha possuir grandes extensões coloniais, certamente não pensava em provocar eclosões de revoluções, uma vez que era um país colonizador, com a independência norte-americana podendo ser um incentivo a novos movimentos libertadores.

Com o Tratado de Aranjuez, assinado em 12 de abril de 1779, a Espanha aceitou entrar em guerra com a Inglaterra e, contudo, esta aliança foi feita com os franceses e não diretamente com os norte-americanos. Esta aliança entre França e Espanha foi fundamental para a vitória norte-americana, que culminou na abertura de negociações diretas com os norte-americanos, e estes, por sua vez, desrespeitando uma cláusula com os franceses, negociaram separadamente com os ingleses. O Tratado de Paz foi assinado, por fim, em novembro de 1782.

A Inglaterra agora tinha como objetivo afastar os norte-americanos de sua aliança com os franceses, e estabelecer relações privilegiadas com a sua ex-colônia. As negociações de paz entre Estados Unidos, a Inglaterra, a França e a Espanha, contudo, demoraram vários meses. Só em 3 de setembro de 1783 foi assinado, em Paris, o tratado de paz final, e os Estados Unidos eram, agora, independentes.

A Construção de uma Nação

Cabia agora às colônias norte-americanas empreender a construção de uma nação, mas começou o conflito e debate em torno de uma unidade federativa, ou seja, da construção de um Estado único, ou manter a fórmula de 1781, que era uma confederação de estados independentes. Aqui começa o debate entre federalistas e antifederalistas.

Havia uma diferença de projetos políticos e econômicos entre as colônias após a independência, pois as colônias do Nordeste, junto ao Atlântico, voltadas ao exterior, queriam restabelecer o velho sistema de trocas com a Inglaterra, defendendo então a autonomia das colônias, ou seja, antifederalistas que pensavam numa confederação de estados independentes.

Por sua vez, as colônias do Sul e do Oeste queriam a expansão territorial para o Oeste, pois havia um interesse para avançar com suas plantações de algodão e tabaco, tendo a necessidade de um governo centralizado, tanto para fazer frente às tropas inglesas, que ainda se encontravam acantonadas no Canadá, como às tribos nativas, então havia o interesse e a necessidade de abrir caminhos e vias de comunicação com o Oeste.

Neste momento, as ex-colônias eram regulamentadas politicamente pelos Artigos da Confederação, aprovado em 1781, estes que estabeleciam a soberania de cada ex-colônia, em que os poderes, jurisdições e direitos não eram delegados aos “estados unidos” reunidos em Congresso. Portanto, para os habitantes dos diversos estados norte-americanos, a sua nação continuava a ser o respectivo estado.

Para os anti-federalistas, o estabelecimento de um governo central poderia conduzir à tirania ou à monarquia, e tentavam preservar a diversidade dos interesses sociais e econômicos dos vários estados. Contudo, havia um avanço na unificação com estes Artigos da Confederação, mas, ao mesmo tempo, estes artigos tinham suas fraquezas em alguns pontos fundamentais.

Segundo estes artigos, não havia a figura de um Presidente, este que poderia implementar as decisões do Congresso nos vários estados que compunham a Nação. Também os artigos colocavam o Congresso como representando os Estados e não os próprios cidadãos diretamente.

O Congresso também tinha poderes limitados, pois não podia, por exemplo, regulamentar o comércio, tanto entre os diversos estados, como com os países estrangeiros. Portanto, tínhamos as atividades comerciais, mercantis e industriais dependendo dos governos estaduais e das imposições dos países estrangeiros. As resoluções do Congresso, por fim, eram recomendações cuja execução dependiam da decisão dos estados. Os Artigos da Confederação ainda se referiam aos Estados Unidos como “estados unidos”, ou seja, com letras minúsculas, enfatizando a soberania dos diversos estados.

Os federalistas, por sua vez, pretendiam a edificação de um estado federal, pois viam perigo de uma ditadura de órgãos legislativos locais, que poderiam ruir com a independência conquistada, então se começou a exigir uma profunda reforma dos Artigos da Confederação. Este processo de luta federalista foi liderado pelos setores da manufatura e da indústria, pois estes pretendiam impor taxas aduaneiras para produtos importados de países estrangeiros, sobretudo a Inglaterra, defendendo uma política protecionista, demandando um poder central para tal objetivo.

Problemas de endividamento das ex-colônias, devido ao avanço inglês sobre o comércio, tiveram consequências como uma profunda depressão econômica que teve seu ápice em 1784, e tivemos eventos como, por exemplo, quando alguns proprietários do estado de Massachusetts, liderados por Daniel Shays, iniciaram uma revolta em 1786 que quase derruba o governo estadual, o que levou os estados a uma nova Convenção para discutirem a reforma dos Artigos da Confederação.

A luta pela criação de uma federação e pela aprovação de uma nova constituição federal que substituísse os velhos Artigos da Confederação foi então liderada por James Madison, federalista convicto, George Washington, futuro primeiro presidente americano, e o ultra-federalista Alexander Hamilton. Tal luta resultaria na aprovação da Constituição Americana de 1787.

Os federalistas, por sua vez, não queriam uma reforma dos Artigos da Confederação, mas o estabelecimento de um sistema novo, de uma Federação por oposição a uma Confederação de repúblicas independentes. Tal seria o ato final da Revolução Americana, a Constituição representaria, no dizer do historiador Bernard Bailyn, "a expressão final e culminante da ideologia da Revolução Americana”.

 

James Madison tinha estudado as antigas e modernas confederações e federações, em modo intensivo, durante os anos de 1785 e 1786, tentando compreender o que ele chamou de “a ciência do governo federal”. Tais estudos foram, posteriormente, publicados no jornal The Federalist, em que Madison apontava a fraqueza de uma confederação de estados independentes, que poderia ser ameaçado constantemente por dentro e por fora. O objetivo de Madison era, então, a constituição de um estado federal cujo poder sobrepusesse o poder e a autoridade dos estados.

O debate culminou com a realização da chamada Convenção de Filadélfia, em 1787, e com a aprovação da Constituição federal americana nesse mesmo ano. Nesta Convenção, que durou de maio a setembro, houve intenso e profundo debate entre os defensores do novo sistema de governo e os que defendiam a continuidade da confederação.

Os anti-federalistas defendiam a simples revisão dos Artigos da Confederação, continuando com a existência de uma confederação de estados independentes, mas, a tendência federalista venceu o debate e acabou por ser feito um novo contrato social: a Constituição dos Estados Unidos da América. Os Estados Unidos tinham agora uma administração federal, que obedecia ao princípio da separação de poderes (executivo, legislativo e judicial). Havia um governo presidencialista, dirigido por um Presidente, um Congresso que legislava e um tribunal federal para a administração da justiça. Abaixo desta ordem federal existiam ordens estaduais, reguladas de maneira idêntica e dotadas ainda de poderes consideráveis.

Para conciliar os diversos interesses dos estados, o Congresso tinha mais poder do que os poderes do executivo, é no Congresso que os estados estavam diretamente representados. O Congresso foi dividido em duas Câmaras : a Câmara dos Representantes e o Senado. A Câmara dos Representantes tinha uma representação proporcional ao número de habitantes de cada estado, conferindo por isso mais poder aos estados mais numerosos e mais povoados. O Senado, ao invés, garantia um equilíbrio entre todos os Estados porque nele tinham assento dois representantes de cada Estado, o Senado era um meio de impedir a preponderância dos estados maiores nas decisões. Por fim, todas as leis tinham que ser aprovadas pelas duas câmaras.

A Constituição Americana estabelecia um pacto social que assegurava as liberdades individuais e defendia os interesses dos estados e da União em relação aos estrangeiros e aos outros países. Não haveria um poder absoluto do governo federal, pois, segundo Madison, com o sistema de "checks and balances" que a Constituição estabelecia, os estados mantinham a sua autoridade para se contrapor ao governo federal, e os três poderes deste governo federal se controlavam mutuamente, também se vigiando mutuamente as duas Câmaras do Congresso.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com  

 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

RACISMO E ANTIRRACISMO – PARTE II

 “O racismo estrutural, tese de Silvio Almeida, tem mais uma prova material com o caso de Beto”

O caso João Alberto Silveira Freitas envolve uma coincidência trágica, pois foi o assassinato de um homem negro por dois seguranças brancos na noite anterior à comemoração do dia da Consciência Negra. João Alberto, o Beto, foi espancado até a morte por um policial militar e por um segurança em uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na noite desta quinta-feira, dia 19 de novembro de 2020.

As agressões começaram após uma discussão entre Beto e uma funcionária do Carrefour, e os seguranças o seguiram e o conduziram para fora da loja, quando Beto desferiu um soco em um dos seguranças, ocasionando a reação desproporcional que culminou em seu assassinato por asfixia.

Os dois agressores, Magno Borges Braz e Giovane Gaspar da Silva, foram presos em flagrante e são investigados por homicídio qualificado. Segundo a polícia, os seguranças ficaram sobre Beto por cerca de 5 minutos. Agora, corre uma gravação obtida pelo site GauchaZH, que mostra um terceiro homem que diz "Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez", enquanto João é imobilizado. A funcionária que tenta impedir a gravação do flagrante se chama Adriana Alves Dutra.

O Grupo Vector, ao qual pertenciam os seguranças, teve seu contrato rompido pelo Carrefour. A empresa francesa disse que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações, a delegada responsável pelo caso, Roberta Bertoldo, disse que a reação dos seguranças foi desproporcional. Os investigadores seguem ouvindo várias testemunhas e analisando imagens de câmeras de segurança.

O Carrefour, embora agora se manifeste dizendo que fará rigorosa apuração interna do caso e que "nenhum tipo de violência e intolerância é admissível", possui um histórico terrível de diversas formas de violência, sendo o mais recente em agosto deste ano, que foi o caso de um promotor de vendas do Carrefour que morreu durante o trabalho em uma unidade de Recife, Pernambuco.

Moisés Santos, de 53 anos, foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas, enquanto a loja seguiu funcionando como se nada tivesse acontecido. Seu corpo permaneceu no local entre 8h e 12h, até ser retirado pelo Instituto Médico Legal (IML). Outros casos de racismo, violações trabalhistas e agressões contra animais também são episódios ligados ao supermercado.

Vários protestos foram registrados em todo o país, sobretudo do movimento negro, no influxo do dia da Consciência Negra, e vão continuar, tivemos manifestações na avenida Paulista, no Rio de Janeiro, em Goiânia, e a mobilização se estende pelas capitais do país.

O caso e as manifestações levantam debates e ações antirracistas, trazendo à baila o racismo estrutural tematizado academicamente por Silvio Almeida, e com o governo federal tendo uma postura negacionista. Tanto o presidente da República, Jair Bolsonaro, como o vice, Hamilton Mourão, tiveram posturas negacionistas, e o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, disse que os casos de racismo no país são circunstanciais e não estruturais, tomando o efeito pela causa.

Num país de abolição tardia, feita sem respaldo social aos novos libertos, com casos de injúria racial recorrentes, com diferenças enormes de oportunidades, com sistemas de cotas muito bem-vindas, mas que nem todos os negros e negras do Brasil têm condições de aproveitar, dependendo de suas condições de partida e mobilidade social, o racismo estrutural é uma realidade incontestável.

As políticas públicas, produtos de uma má vontade institucional, não avançam no combate a estas desigualdades. As poucas formas de promover a mobilidade social da população negra, a concentração populacional negra nos grandes bolsões de pobreza de comunidades (favelas) dominadas por uma vida áspera de subjugação pela violência armada, seja de facções criminosas ou milícias armadas, escancara na nossa cara branca um problema secular, histórico, uma ferida aberta herdada de um país que um dia escravizou os antepassados desta população que hoje protesta nas ruas.

O Dia da Consciência Negra no Brasil não é o produto gratuito de uma circunstância, mas de um problema estrutural, a luta antirracista é uma consequência direta desta realidade persistente e acintosa de humilhação de homens negros e mulheres negras diante da falta de oportunidades, da realidade de injúrias raciais, de suspeitas açodadas de forças de segurança e quejandos, etc.

O racismo estrutural, tese de Silvio Almeida, tem mais uma prova material com o caso de Beto. O racismo no Brasil não é uma grande coleção de circunstâncias, mas um problema de fundo que deve e pode ser resolvido.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/racismo-e-antirracismo-parte-ii

 

 

 

domingo, 15 de novembro de 2020

AS MESAS GIRANTES

Jeannie Martal e Béatrice Gounod estavam em Paris, em 1853, e já se divertiam e estudavam há dois anos na cidade. Vindas de Marselha, elas conheciam um dono de bar e de um salão de festas, de nome Gérard Poquelin, um tipo de fanfarrão que dizia ser descendente familiar do comediógrafo Moliére.

Gérard tinha contato com um grupo místico de nome Nova Luz, e o líder do grupo era um tipo de ocultista meio arrogante e cheio de histórias de charlatanismo e problemas com a polícia de nome Jean-Baptiste Pappin, e que tinha a sua esposa, um tipo de metida a feiticeira de nome Louise Pappin.

Dentro deste grupo ainda tinha mais três pessoas que se destacavam, Alice Dumas, que se dizia médium, e Danna Sharon, também um tipo de médium, e a última, Anne Séraut, que era intitulada Papisa, pois dizia que tinha o dom da levitação quando entrava em seus transes mediúnicos.

Béatrice conversava muito com Gérard, que era vinte anos mais velho que ela e a tinha como um tipo de filha filosófica, e este lhe ensinava muita coisa sobre espiritualismo, sobre a Alquimia de Nicolas Flamel.

Gérard, ainda, misturava isto a uma miríade de mistificações e experiências que ele dizia ter tido em suas viagens à Índia, aonde dizia que presenciara fenômenos fantásticos de faquires levitando e encantamentos diversos de magia ancestral. Béatrice ficava fascinada e conversava depois com sua amiga de infância e companheira de estudos Jeannie.

O grupo Nova Luz, que tinha uma casa aonde se realizavam as reuniões espiritualistas, como dito, também frequentava o bar de Gérard, e já estava realizando estudos sobre fenômenos mediúnicos sobre o que estava sendo chamado em Paris de fenômeno das mesas girantes, que começou a tomar os salões da Europa desde 1849, até este ano de 1853, quando a prática se disseminava também em Paris, como um divertimento frívolo de adivinhação.

A Papisa, Anne Séraut, logo na semana seguinte à visita ao bar de Gérard pelo grupo Nova Luz, decide visitar um dos salões em que se faziam as experiências com as tais mesas girantes, e saiu radiante da noite em que teve conhecimento direto do que se passava, e queria aplicar aquilo nas reuniões do Nova Luz, uma vez que poderia conversar com Gérard, que já estava a par dos métodos e teorias que envolviam as tais mesas girantes, ele que era um ocultista autodidata, viajado e conhecedor dos segredos do Oriente.

Gérard, então, consultou a Papisa, depois de mais uma estadia desta em uma sessão de mesas girantes, para fazer a primeira experiência em seu salão de festas, e para isto poderia convocar a médium do Nova Luz, Danna Sharon, que invocaria os espíritos batedores e de ruídos para começar a produzir o fenômeno. Os três fariam testes prévios antes, e convocar a primeira sessão oficial. Danna Sharon dizia que tinha uma entidade que lhe acompanhava que saberia manipular os tais espíritos batedores e de ruídos.

Alice Dumas ficou sabendo do teste e consultou seu tabuleiro de ouija, e segundo a sua leitura, as sessões que se passariam no salão de Gérard seriam pioneiras para uma nova doutrina que estaria por vir, e que a Papisa ficaria rica ao prever situações com as decifrações feitas com as mesas girantes.

Alice só seria convocada como líder de uma sessão, a primeira oficial, depois desta verificação que a Papisa pretendia fazer com os poderes mediúnicos de Danna Sharon, que era uma médium muito forte e intensa, pois, embora a Papisa dissesse que levitava, era Danna Sharon que tinha o dom de transfiguração e de transporte de objetos, fazendo psicometria como uma arqueóloga psíquica. Danna gostava, também, de mostrar a sua coleção de talismãs mágicos, que ela dizia que materializava, e que tinham origem em tribos antigas e extintas.

Neste teste, em que a Papisa orientaria os trabalhos, enquanto Danna Sharon se concentraria para conversar com a sua entidade de guarda para poder fazer a invocação dos espíritos batedores e de ruídos, Gérard leria um tipo de livro sagrado, que nunca havia sido vendido comercialmente, que ele dizia que era uma das poucas cópias que existia, de um bruxo que ele conhecera na Bretanha, um tipo de mago celta que herdara alguns conhecimentos xamânicos dos druidas, o livro estava num tipo de inglês antiquado, uma tradução fajuta feita por um charlatão, na verdade, e que Gérard gostava de mistificar para se fazer de grande mago.

Danna Sharon chegou, então, na noite marcada, já às dez da noite, ao salão de festas de Gérard, ele fez uma preparação do ambiente com defumadores e colocou a iluminação de infra-vermelho, com lampiões cobertos por celofane translúcido em vermelho escuro, para gerar esta iluminação de infra-vermelho, próprio à invocação e à comunicação espiritual, o que Danna faria primeiro com seu guia.

Foram colocadas, também, no meio do salão, três mesas de pequenas para médias, em formato redondo, circular, em formação parelha, as cadeiras estavam em volta, as paredes não tinham proteção acústica, os barulhos da rua entravam eventualmente, mas o local era grande, com as janelas ficando fechadas para evitar o barulho do vento e das vozes que haviam num bar que ficava ali perto, concorrente de Gérard, embora fosse de uma família que ele conhecia de infância, num tipo de concorrência saudável por clientes.

Papisa, então, chegou meia hora depois, ela então fez as orações, citou uns mantras xamânicos, e Gérard se empolgou e pegou sua tradução falsa de um livro druida, o tal livro do bruxo da Bretanha, e entoou uns cânticos que tinha na tal tradução fajuta.

Danna Sharon se concentrou e entrou em transe depois de dez minutos, Gérard cobriu a cabeça de Danna com um lençol branco, Papisa aumentou o volume de sua voz em nova sessão de orações e mantras, Gérard então leu para a tal entidade guia de Danna dois pequenos textos do bruxo da Bretanha, Danna disse que a entidade pedia silêncio, que as citações do livro não lhe importavam, Gérard finalmente se calou.

Danna Sharon, então, travou um diálogo com seu guia em voz baixíssima, quase sussurrada, e disse para a Papisa fazer a oração de abertura dos trabalhos, logo em seguida, no meio do transe mediúnico de Danna, ouvem-se batidas secas sobre uma das mesas, palmas batem nas paredes em meio ao infra-vermelho do enorme salão de festas.

Danna prepara, então, com o lençol na cabeça, uma infusão, ela derrama o líquido sobre a mesa em que se ouvira as batidas secas, começam os ruídos na madeira das mesas e das cadeiras, dura três minutos seguidos, depois vem mais uma oração de Papisa, e se segue um enorme silêncio naquele profundo infra-vermelho que dura mais três minutos intermináveis, até que Gérard desata novamente a sua ladainha com o tal livro pseudo-celta.

Logo após a saída de Danna Sharon, Papisa encerra as suas orações, as duas vão embora, e Gérard recolhe do salão de festas umas espécies de bobinas, fios e martelos, tinha ainda, em uma das paredes, mecanismos de fricção e no teto algumas roldanas que se ocultavam sobre o gesso espesso que cobria todo o teto do grande salão de festas, ele também tinha uma coleção de relíquias sobrenaturais forjadas que ele pegava de um charlatão que vendia aquelas mistificações para crédulos de toda espécie.

Béatrice e Jeannie, no dia seguinte, foram conversar com Gérard, que lhes disse que ali no seu salão começariam as sessões das mesas girantes, logo após a saída de Jeannie, ele diz sobre seus truques com Béatrice, e esta logo se empolga ao saber que médiuns sugestionados seriam manipulados na própria rede, ela adorou a ideia e disse que seria a assistente de Gérard naqueles espetáculos forjados de mágica para incautos.

Gérard, antes da primeira sessão oficial das mesas girantes em seu salão de festas, em que haveria cinco convidados da sociedade parisiense, incluindo um colunista frívolo que divulgaria o fenômeno nas edições de jornal em que trabalhava, vai à casa dos líderes do Nova Luz, o casal Pappin, e trava uma conversa longa com Jean-Baptiste e Louise, em que bebem muito vinho e comem croissants, e ficam de acordo que Gérard seria remunerado pelas sessões feitas pelo Nova Luz em seu salão de festas, e os Pappin atenderam o pedido de Gérard de levar Béatrice como assistente na organização destes trabalhos, pois esta era a pupila de confiança plena de Gérard.

Ficou marcado para um sábado de noite, a partir das sete, a primeira sessão de mesas girantes no salão de festas do bar de Gérard. A família do outro bar em frente, particularmente, o velho patriarca, Brennan, ficou curioso com toda aquela movimentação, perguntou a Gérard o que estava acontecendo e pediu que ele e sua esposa, Marianne, participassem como espectadores de tal sessão, Gérard então pediu a dois funcionários seus que terminassem de arrumar tudo, pois haveria mais dois convidados, além do colunista frívolo e dos membros da sociedade parisiense.

Durante a tarde, antes da noite marcada para a sessão, Gérard encontra Jeannie e Béatrice, eles conversam divertidamente numa padaria em uma mesa cheia de pães, doces e sucos, e riem de tudo, é quando Jeannie também fica sabendo dos truques que seriam praticados por Gérard, com a colaboração de Béatrice, na tal sessão espiritual de mesas girantes, Jeannie pede que numa segunda sessão pudesse participar fingindo ser uma médium, Gérard adora a ideia e treinaria os trejeitos de Jeannie para montar mais uma farsa espiritual.

Chega sete da noite, e o casal Pappin é o primeiro a chegar, eles são recebidos pelos dois funcionários de Gérard, este que sai do salão de festas e vai à recepção, junto com Béatrice, e estes fazem os elogios ao grupo Nova Luz, tecendo loas às médiuns Danna e Papisa, no que Jean-Baptiste, embora fosse um charlatão, ainda tinha para si de que seu grupo tinha verdadeiras médiuns que tinham dons especiais.

Jean-Baptiste, embora tenha cometido vários crimes de falsificações, charlatanismo e estelionato, era um entusiasta das mesas girantes e acreditava que tais fenômenos eram verdadeiros, e estas sessões no bar de Gérard lhe serviriam para atestar esta realidade espiritual e para ele documentar, no que, ele informa a Gérard, seria seu livro, um misto de autobiografia e tratado espiritualista moderno.

Às oito da noite, chegam Alice Dumas, Danna Sharon e a Papisa, às nove, os convidados, incluindo o colunista frívolo que queria enfileirar uma série sobre o sobrenatural em seus trabalhos de jornalista, seu nome é Alfred Bossuet, e ele era conhecido na sociedade parisiense como um tipo de polemista e piadista, os convidados que vieram com ele o conheciam muito bem e forneciam informações para a sua coluna de futilidades sociais de uma elite preguiçosa, frívola e acomodada.

Gérard, então, coloca seus dois funcionários para servir comidas e bebidas, não haveria álcool, pois as sessões espirituais não poderiam ter consumo de bebidas alcoólicas, naquele dia, para os participantes da sessão de mesas girantes.

Nesta janta, a Papisa já começa a ter seus tiques de vidente e fazer previsões sobre o futuro de Alfred Bossuet e sobre um dos convidados da sociedade parisiense, Béatrice olha aquilo tudo e passa a ter certeza de que se divertiria horrores com aquela credulidade irrefletida da maioria dos que ali estavam, tirando Bossuet, que também parecia se divertir e estar em meio a um número de comédia involuntária.

Bossuet tira seu caderninho clássico, um estilo que todos conheciam, pois ele era um tipo de colunista e repórter, quase uma espécie de testemunha ocular que documentava tudo o que via, e fazia isto o tempo todo, era o tipo de jornalista que sempre tinha um caderninho e canetas à mão, ele tinha uma coleção infinita de anotações, que organizava em ordem cronológica, e depois selecionava o que ele iria publicar.

Alfred Bossuet, já dez da noite, conversa animadamente com um milionário empreendedor de Paris, que ali estava, e nos últimos meses participara de várias sessões de mesas girantes em Paris, e sendo um dos maiores entusiastas do fenômeno, que, para ele, apontava para um futuro em que todos conheceriam a fundo a realidade espiritual, seu nome é Carl Morreau.

A atividade deste empresário ia do comércio até construções de residências e estabelecimentos, ele também usava seu dinheiro em filantropia e agora tentava investir em pesquisa espiritualista, pensando no grupo Nova Luz como uma experimentação promissora.

Jean-Baptiste, que sempre foi um mestre em enrolar gente endinheirada, prometia para o tal Morreau uma fonte inesgotável de fenômenos fantásticos, e que aquela história no salão de festas de Gérard era só o começo de uma grande jornada pelo mundo espiritual, da prova da existência da imortalidade da alma e da eternidade divina.

Jean-Baptiste, que, quando não podia contar com as suas médiuns de estimação, preparava ambientes de adivinhação para massagear o ego dos consulentes, que saíam acreditando em suas fortunas imaginárias, depois de Jean-Baptiste embolsar com a sua esposa, que se fazia de vidente.

O trabalho de Louise era dizer o que o consulente queria ouvir, e tudo funcionava por um tipo de poder precário de sugestão baseado numa linguagem retórica de persuasão de incautos desesperados. Ao passo que o trabalho com as três médiuns era objeto de uma credulidade pia por parte de Jean-Baptiste, que tinha certeza dos poderes mediúnicos daquelas moças intuitivas.

Dez e meia da noite, chegam Brennan e Marianne, que tinham acabado de encerrar o expediente no bar da frente, e Gérard conversa rapidamente com os dois, já orientando seus dois funcionários para terminar a organização do salão de festas e fazer a preparação com os defumadores, e fazendo com que estes, ao fim, preparassem o infra-vermelho da cobertura de celofane dos lampiões, para que os espíritos não se perturbassem com a claridade ou iluminações de coloração branca.

Desta vez, Gérard tinha mandado preparar todo um isolamento acústico, e os mecanismos ocultos para fazer os números mediúnicos, de conhecimento dos funcionários, tinha sido arrumado pelo próprio Gérard, junto com Béatrice, que estava aprendendo todas as manhas de Gérard com muita atenção, pois estava doida para fazer mistificações com médiuns sugestionados. E Gérard era um exímio conhecedor e manipulador de roldanas, pesos, mecanismos de fricção, dentre vários apetrechos de ilusionismo que aprendera com um físico mecanicista e mágico, na sua infância.

Chega a meia-noite, e as três mesas redondas estavam no meio do salão de festas, de forma parelha, com cadeiras em volta, e as médiuns tomam o centro da cena, e começam as orações da Papisa. Danna Sharon medita profundamente tentando forçar ou simular um estado de transe, Alice Dumas começa a falar em línguas estranhas, meio como se fosse uma crente também numa espécie de transe atávico e imaginário, Béatrice olha tudo com uma atenção sinistra, e no meio disso temos Gérard mandando piscadelas para a sua pupila.

Alice Dumas, finalmente, para de falar em línguas, e agora entra num tipo de transe mediúnico, em que entra em comunicação telepática com seu guia da Antiguidade, um egípcio que tivera sido um sacerdote no Templo de Karnak, e que falava com ela por imagens mentais.

Papisa diz, logo, que estava vendo o tal guia de Alice, e ele brilhava numa brancura diáfana e celeste, era um espírito muito evoluído, e que já tinha superado o ciclo das reencarnações. Papisa diz que a entidade estava ao lado de Alice fazendo a preparação para a levitação das mesas pelos espíritos batedores e de ruídos.

Gérard encosta, então, em uma das paredes do salão de festas, dali ele poderia manipular todos os seus mecanismos de fricção, roldanas para levantar pesos, e demais geringonças para usar de ilusionismo mecânico para fascinar tanto os convidados do encontro, como as próprias médiuns, que teriam a certeza de possuir poderes sobrenaturais, quando, na verdade, era uma trapaça de Gérard para um tipo de divertimento sinistro, que depois ele relataria para o colunista frívolo, este Alfred Bossuet, que adorava histórias bizarras e de vexame.

Gérard, então, observa os trejeitos das três médiuns, deixa a coisa correr solta, um show de transes e gestos estilizados, com estereotipias que se repetiam ad nauseam. Ele, então, aciona os ruídos, no que Alice Dumas logo se empolga e diz estar sentindo as vibrações pelas paredes.

Alice Dumas diz que seu guia egípcio estava colocando cinco espíritos de ruído pelas paredes, enquanto as máquinas de fricção de Gérard giravam e faziam seus barulhos bizarros, deixando Alice Dumas fascinada com seu suposto poder mediúnico, tendo uma certeza bizarra de estar manipulando entidades que faziam aqueles ruídos de forma aleatória e depois ritmada, num tipo de diversão maldosa de Gérard, que dava piscadelas para Béatrice, que tinha um tipo de sorriso sutil no rosto.

Como combinado, Béatrice segue, sutilmente, para a parede oposta em que estava Gérard, e puxa uns tipos de cordas transparentes, e uma das mesas levanta um dos pés, sobe e desce, batendo com um dos pés, Papisa diz que era um espírito de levitação. Começam umas batidas na mesa do meio. Na verdade, Gérard já tinha orientado e ensinado Béatrice a acionar as cordas transparentes por meio de ligações diretas com inúmeras roldanas que ficavam ocultas no teto, um festival newtoniano a serviço do ilusionismo espiritual.

Gérard, então, aciona uma roldana principal que suspende, de súbito, as três mesas simultaneamente, as mesas sobem muito, um metro e meio, e uma das mesas flutua pelo salão de festas, faz um tipo de passeio, Danna Sharon diz que seu guia estava comandando os tais espíritos que conduziam as mesas.

Logo, começam as tentativas de comunicação espiritual, com perguntas de sim e não, uma batida era sim, e duas era não, perguntas sobre a existência além-túmulo são feitas aos borbotões, tanto pelas médiuns, como por Jean-Baptiste e os convidados, e todas as respostas são afirmativas, e atendiam positivamente às expectativas sobrenaturais dos que estavam no salão.

Gérard se divertia com o viés de confirmação, e parecia um títere que brincava com seus fantoches embriagados. Béatrice se divertia mais ainda, ao fazer batidas com os próprios pés, também simulando ruídos com a boca num tipo de ventriloquismo, e os convidados estavam cada vez mais convictos das intervenções espirituais dentro do salão de festas.

Alfred Bossuet anota coisas freneticamente em um bloquinho verde, Carl Morreau, por seu turno, está fascinado com as mesas que flutuavam e diz para si mesmo que a realidade espiritual era incontestável.

Danna Sharon faz orações, e a Papisa simula mais um transe, diz coisas para as mesas girantes, e se dirige ao guia de Alice Dumas, este responde telepaticamente algo, ela fala sobre isso, mas não diz para os convidados o que é, pois envolveria uma tragédia com uma das pessoas que se encontrava dentro daquele salão de festas.

Béatrice, meio maldosamente, faz a mesa responder afirmativamente a todas as especulações desvairadas de Alice Dumas, que testava obsessivamente a mesa do meio com perguntas de metafísica mais elevada que um neoplatônico que atingiu o satori e saiu voando.

Gérard observa tudo em silêncio, tinha uma experiência bizarra com roldanas e mecânica, olhava tudo com calma e ironia. Carl Morreau estava celebrando o mundo espiritual, e disse que seria o benfeitor do Nova Luz. Alfred Bossuet percebe os olhares cifrados entre Gérard e Béatrice, e parece já estar entendendo tudo.

Mais movimentos estereotipados de Danna Sharon e Papisa, Alice Dumas conversa novamente telepaticamente com o seu guia, Gérard aciona as roldanas, os convidados da sociedade parisiense estavam eufóricos, Carl Morreau se volta para Jean-Baptiste radiante de felicidade, pois agora Morreau havia confirmado a existência da eternidade e da imortalidade.

Gérard faz as batidas, aciona a fricção, batidas e ruídos se alternam, as três mesas giram e flutuam pelo salão de festas, Béatrice olha para Alfred Bossuet e vê que ele faz um esgar irônico, sabia que aquele colunista frívolo não era bobo, e já maquinava sortilégios em seu bloquinho verde.

Finalmente, já às três da manhã, se encerra a sessão das mesas girantes, Gérard tira então a cobertura de celofane vermelho dos lampiões, e o salão de festas se ilumina, todas as roldanas e cordas transparentes já estavam devidamente ocultadas, Béatrice vai ao centro do salão e confere as mesas e as cadeiras, e afirma que ali tudo estava intacto, apesar da influência que tinha acontecido de espíritos batedores, levitadores e de ruídos.

As três médiuns saem da sessão mais vaidosas de seus poderes sobrenaturais, Jean-Baptiste estava satisfeito, pois agora tinha Morreau como seu benfeitor, enquanto Alfred Bossuet se coloca num canto e espera todos irem embora para conversar com Gérard e Béatrice.

Já quatro da manhã, estavam apenas Gérard, Béatrice e Alfred Bossuet no bar de Gérard, eles abrem um vinho, e Gérard decide mostrar os mecanismos que utilizara, com a ajuda de Béatrice, para Bossuet, que anota tudo em seu caderninho, e eles combinam de que sairia uma coluna revelando os segredos e colocando o grupo Nova Luz para cair no ridículo.

Gérard disse que seria feita mais uma reunião de mesas girantes, que ele marcaria com o Nova Luz, desta vez com uma outra pupila sua, Jeannie, que iria como uma médium fajuta para iludir as três patetas do grupo Nova Luz.

Gérard combina, então, que Alfred Bossuet registrasse tudo em seu caderninho, para quando saísse a matéria, colocasse estes mistificadores numa situação constrangedora. Após esta segunda sessão, Gérard combina com Alfred Bossuet que a matéria sairia, na semana seguinte à sessão, dizendo as estultícias de que o colunista frívolo fora testemunha, com a revelação do segredo por Gérard, o ilusionista.

Gérard passa uma das publicações fajutas que colecionava para Jeannie ler tudo antes da próxima sessão, um grimório misturado a teorias ocultistas que mistura tudo numa miscelânea de ecletismo filosófico que não resulta em nada, mas que estava recheado de teses estapafúrdias sobre sexto sentido, e tinha explicações para tudo o tempo todo. Jeannie lê tudo em três dias, e assimila alguns truques que aplicaria na tal segunda sessão das mesas girantes no salão de festas do bar de Gérard.

Jeannie se junta a Béatrice para fazer uma visita ao Nova Luz, que na verdade era uma incerta de Jeannie para analisar a personalidade de Danna, Alice e a Papisa, era um modo de Jeannie sugestionar as médiuns durante a próxima sessão das mesas girantes.

Jeannie, que já tinha conversado longamente com Gérard sobre tudo aquilo, como dito, já sabia dos esquemas dele e de Béatrice para se divertirem com os patetas do Nova Luz. Para Gérard, sua ideia era esperar a primeira parcela de Morreau para Jean-Baptiste, ele que considerava a inteligência de Morreau para os negócios inversamente proporcional à sua falta de astúcia em assuntos espirituais.

Duas semanas após a primeira sessão das mesas girantes, Morreau fornece um cheque absurdamente polpudo para a casa Nova Luz. Jean-Baptiste, sorrateiramente, coloca tudo em sua conta bancária pessoal, e no fim-de-semana seguinte, viaja com Louise para temporadas na Itália, bebendo vinho e comendo massas.

Morreau continuava achando tudo incrível, um tipo de entusiasta do futuro da humanidade, de um planeta de regeneração, ele acreditava que surgiria uma nova era espiritual, e que Jean-Baptiste era um tipo de guru daquelas médiuns poderosas, capazes de manipular espíritos para levitarem mesas, uma nova física estava para ser desbravada, oculta ainda ao conhecimento natural científico conquistado até ali.

Jeannie se encontra novamente com Gérard, e lhe diz que já poderia ser marcada a próxima sessão das mesas girantes. Jeannie tinha feito intimidade com Danna, e já sabia de todos os tiques de pensamento de Alice Dumas e da Papisa, esta última, para ela, a mais previsível.

Gérard diz que sabia bem como trabalhar com a vaidade das três médiuns, e que isto tinha funcionado maravilhosamente na primeira sessão das mesas girantes no salão de festas de seu bar. Contudo, na segunda sessão isto seria testado, mas no sentido oposto, ferindo esta vaidade das médiuns em seu âmago.

Béatrice tinha lido alguns volumes sobre mágica, e estava com um sarcasmo perverso cada vez mais desenvolvido, para o deleite de Gérard, que sabia ter encontrado duas moças com inteligência acima da média, Jeannie e Béatrice, para fazer truques de prestidigitação com incautos e vaidosos de toda espécie.

Depois do retorno de Jean-Baptiste e Louise da Itália, Gérard entra em contato com Jean-Baptiste, e diz que o Nova Luz já poderia marcar a segunda sessão das mesas girantes no salão de festas de seu bar, e pede a gentileza de trazer a médium Sacerdotisa.

Gérard diz a Jean-Baptiste que a médium Sacerdotisa era muito poderosa, e que faria um trabalho primoroso de levitação de mesas, do qual afiançou ter sido testemunha há poucos dias, em que conhecera a jovem moça de dons especiais e inteligência sutil. Jean-Baptiste aquiesceu, e tudo foi combinado. Dali a cinco dias, no sábado de noite, seria realizada a segunda sessão das mesas girantes sob o comando de Gérard, o anfitrião.

Gérard tem um encontro com Alfred Bossuet na quinta-feira, antevéspera da sessão, e também chama Jeannie e Béatrice, lá eles bebem e combinam o que cada um iria fazer na nova sessão de mesas girantes com os patetas do Nova Luz.

Gérard falaria com Morreau no dia seguinte, sexta, para iludir mais ainda o ensandecido empresário, que já pagara uma viagem para Jean-Baptiste sem saber, pois Louise se esbaldou em Milão e Florença.

Gérard sabia que faria o feitiço virar contra o feiticeiro, pois toda a cena de roldanas seria revelada ridiculamente pelo colunista frívolo Alfred Bossuet em uma matéria sensacionalista e humorística, e a imagem de Jean-Baptiste ficaria marcada por sua associação com malucas que pensam flutuar mesas.

Chega o sábado, e Jeannie já estava vestida com a personagem afetada Sacerdotisa, que seria a médium mais poderosa da sessão, para ferir a vaidade e causar inveja nas três malucas do Nova Luz.

Jeannie era tão perversa quanto Béatrice, e o mestre Gérard sabia estar com duas pepitas para montar a cena perfeita para fazer as incursões do Nova Luz pelo mundo espiritual cair no ridículo, e o metido a esperto do Jean-Baptiste provar do próprio veneno, ser feito de trouxa.

Gérard queria fazer isto para também ver a ira de Morreau, um tipo de ingênuo que só trabalhou a sua inteligência para fazer empreendimentos, mas esqueceu a astúcia em outras áreas num lugar desconhecido.

Chega sábado, tudo arrumado pelos dois funcionários de Gérard, este já tinha revisto toda a mecânica e as roldanas e máquinas de fricção, ele montara um sistema de roldanas mais potente para o espetáculo da Sacerdotisa, dera uma envergada e também uma lustrada em vários dispositivos, estava tudo pronto para subverter falsamente as leis de Newton usando estas próprias leis.

Gérard era um físico mecanicista perverso, queria se divertir às custas do Nova Luz, e fazer Jean-Baptiste sentir o que é ser feito de trouxa. Ele sabia que a mais inteligente daquele salão seria, infalivelmente, Béatrice, e esta tinha um tipo de irmã de vida, Jeannie, que era mais teatral, e ficara a cargo da personagem estrambótica da médium Sacerdotisa.

Sete da noite, e chega primeiro Morreau, empolgado com mais uma observação que faria da alma imortal, de sua fé cada vez mais irrefletida numa realidade que poderia ser desvendada com facilidade pelos dons mediúnicos, pois Morreau realmente achava que a natureza oferecia esta possibilidade com a faculdade mediúnica, e que o grupo Nova Luz era um belo investimento, pois produziria um novo conhecimento e uma nova filosofia.

Morreau só não sabia do histórico de charlatanices de Jean-Baptiste, seu novo ídolo espiritual. E Gérard, primeiro, alimentou as ilusões de Morreau sobre Jean-Baptiste, para que maior fosse a sua ira, assim que saísse a matéria de Alfred Bossuet sobre o teatro de marionetes montado por Gérard, pois já estava combinado de que a matéria também revelaria os podres do casal Louise e Jean-Baptiste, que Gérard já sabia e já tinha provas materiais, incluindo a viagem à Itália às custas da benfeitoria de Morreau.

Na entrada do bar, oito da noite, estão Gérard, Alfred Bossuet, Béatrice e a paramentada Sacerdotisa, que era Jeannie, fazendo seus movimentos estereotipados de vidente e dona de dons sobrenaturais, um espetáculo que deixou Morreau fascinado e curioso para ver o que esta médium era capaz de fazer em estado de transe.

Morreau também se empolgara ao saber que o jornalista Alfred Bossuet faria uma matéria sobre o fenômeno das mesas girantes, sem saber que a tal matéria seria de escárnio e ironia, e que Alfred Bossuet era um tipo de colunista frívolo, que vivia atrás de polêmica e confusão. Gérard sabia que daria uma lição em Jean-Baptiste e daria um ensinamento importante para Morreau.

Os convidados chegam às dez da noite, meia hora depois, Jean-Baptiste, Louise e as três médiuns, Danna Sharon, de branco com um tipo de túnica, e as outras duas, Papisa, como um tipo de vestal, e Alice Dumas, num traje que lembrava uma grega de Atenas, todas com a afetação típica de quem pensava saber mais do que sabe, além de considerar suposições como um conteúdo do próprio saber.

Gérard apresenta a Sacerdotisa para as três médiuns, e diz que esta que comandaria a sessão das mesas girantes, no que estas médiuns, presumidas e gabolas, logo ficaram assustadas, pois perderiam o estrelismo daquela noite. Gérard fala com Béatrice ao pede ouvido, e esta se dirige ao salão de festas, arruma uns mecanismos, dá uma revisada em tudo, pois já sabia de tudo o que Gérard sabia acerca daquilo tudo, ela aprendera muito rápido as manhas e as técnicas de seu mestre existencial.

Onze da noite chegam todos os convidados, desta vez Alfred Bossuet vira uma espécie de guia da sociedade parisiense ali presente, e faz o número do repórter espiritualista empolgado com mais uma sessão de mesas levantadas por espíritos, ele era o responsável por divulgar aquele fenômeno na imprensa, e Gérard se coloca como um tipo de anfitrião que faz também o mesmo número de espiritualista empolgado, juntando-se a este teatro a presença maldosa e inteligente de Béatrice.

Quando começa a meia-noite, a Sacerdotisa, que era Jeannie disfarçada, começa a fazer um número de concentração e meditação, logo Béatrice aciona o novo mecanismo de roldanas e as mesas levitam de maneira fantástica, provocando a inveja das três médiuns do Nova Luz, e deixando Jean-Baptiste ávido por ter aquela médium poderosa em seu grupo espiritualista, enquanto Gérard e Béatrice trocam piscadelas manhosas.

A Sacerdotisa então chama as três médiuns para demonstrarem seus poderes, então Beátrice, de propósito, faz com que Danna Sharon se concentre para levitar uma das mesas e nisso a mesa apenas se arrasta sem flutuar, a Papisa interfere e a mesa levanta um dos pés sem levitar, ao fim, Alice Dumas simula um transe mediúnico e desta vez a mesa levita, mas logo volta ao chão, ao passo que a Sacerdotisa entra novamente em cena, e Béatrice aciona as roldanas de modo violento, fazendo com que as tais mesas levitem quase até o teto, fazendo inveja novamente nas tolas médiuns do Nova Luz, pois as patetas acharam que a Sacerdotisa tinha poderes incríveis.

Alfred Bossuet fez inúmeras anotações em seu caderninho verde, Gérard sai de uma das paredes e fala ao pé do ouvido do colunista frívolo, a Sacerdotisa, neste momento, simula um transe mediúnico em que as mesas flutuam e andam pelo salão de festas, num ensaio que Jeannie e Béatrice tinham feito para humilhar as médiuns do Nova Luz.

Neste ínterim, temos Danna Sharon olhando para a Sacerdotisa com raiva, entra no meio do espetáculo mediúnico dela, mas Beátrice, de propósito, coloca as mesas no chão, por meio das roldanas, e todos os esforços mediúnicos de Danna Sharon são em vão, as mesas não saem do lugar, então, para piorar, a Sacerdotisa volta à cena e todas as mesas dançam pelo salão de festas, no que Danna Sharon olha para a Papisa desacreditada e desiste da competição de poderes mediúnicos.

Termina a segunda sessão de mesas girantes, que fora, na verdade, um predomínio da Sacerdotisa sobre a cena, com Jean-Baptiste indo até ela para convidá-la para o Nova Luz, no que ela declina e diz já fazer parte de um grupo filantrópico muito sério que ela não poderia abandonar, e então Morreau, impressionado, tenta convencer a Sacerdotisa a continuar a frequentar as próximas sessões de mesas girantes, ela pergunta a Gérard sobre mais sessões, e ele diz, ironicamente, que seria depois das publicações da coluna de Alfred Bossuet.

Todos saem da sessão às três da manhã, e na manhã seguinte, Gérard, Jeannie, Béatrice e o colunista frívolo Alfred Boussuet se reúnem numa padaria e comem pães, doces e bebem suco, se divertem, riem desbragadamente, tudo estava nos bloquinhos de Alfred Bossuet, o espetáculo de roldanas, que seria o título de sua matéria.

Depois desta manhã animada na padaria, portanto, pelo resto da semana, Alfred Bossuet organiza suas anotações e prepara a matéria, que é publicada na semana seguinte e é uma bomba humorística fazendo o grupo Nova Luz cair no ridículo.

Alfred Bossuet também revela os podres de Jean-Baptiste, provocando a ira de Morreau, que tenta invadir a casa de Jean-Baptiste, com dois guardas de sua confiança, para espancá-lo, Jean-Baptiste foge pelo lado de trás de sua casa, encontra depois Louise, e eles fogem com o que restava do dinheiro amealhado em seus golpes e também do que tinham do próprio Morreau e se mandam novamente para a Itália, desta vez por tempo indefinido.

O grupo Nova Luz, diante do escândalo e do ridículo, acaba sendo extinto, e as três médiuns passam a ser vistas pelos leitores de colunas frívolas com escárnio e personagens de peça cômica. Alfred Bossuet consegue obter sucesso com esta desconstrução de um espiritualismo irrefletido e poroso, e Morreau deixa de acreditar nas mesas girantes, revoltado com aquele espetáculo doentio de roldanas de Gérard que ele tinha descoberto no jornal.

Depois do escândalo e do escárnio com as matérias de Alfred Bossuet, um mês depois, Gérard está cuidando de seu bar, seu salão de festas agora teria espetáculos de ilusionismo mecânico, e ele contrata Béatrice para trabalhar com ele nestes espetáculos de ilusionismo para uma plateia parisiense que já sabia das farsas das mesas girantes, mesmo que muitos ainda acreditassem e praticassem estas sessões mediúnicas pela Europa.

Numa tarde, no entanto, Gérard estava em seu bar, na recepção, Béatrice estava perto das adegas, cuidando de alguns afazeres, é quando começam movimentos estranhos por todo o bar, inclusive no salão de festas, vários objetos começam a flutuar, mesas se arrastam, tudo começa a virar um caos, era um tipo de poltergeist, Béatrice está perto das adegas, e uma prateleira cheia de objetos de vidro e cortantes desaba sobre a sua cabeça, ela se corta seriamente na cabeça e no pescoço, Gérard tenta salvá-la, ela acaba morrendo em seus braços, depois de uns vinte minutos, ele fica desesperado, o poltergeist intenso enfim cessa, ele sai desesperado pelas ruas.

O trabalho de perícia conclui que Béatrice tinha sido agredida e assassinada, e todas as suspeitas recaem sobre Gérard, que acaba pegando uma pena de reclusão de três anos, seu bar é confiscado e fechado, Jeannie chora a morte de sua irmã de fé, e acaba acreditando na tese do assassinato de Béatrice.

Gérard diz a Jeannie, na cadeia, que tinha havido algo como um poltergeist em seu bar e que tinha sido tudo um acidente, Jeannie tanto não acredita, como se revolta com aquilo tudo, e decide voltar para Marselha, os shows de Gérard que estavam marcados são cancelados. Contudo, ainda teriam muitas sessões de mesas girantes por Paris naqueles anos.

Contos Psicodélicos – Volume II

Conto pronto em 15/11/2020

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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