PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A HUAWEI E OS EUA NA GUERRA DO 5G

“a Huawei fornece uma solução 5G completa”

Em relação aos equipamentos de comunicação, a Huawei tem uma larga vantagem em relação aos seus concorrentes, pois a empresa chinesa ultrapassou a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia, se tornando a maior fornecedora do mundo nesta área. Portanto, não há empresa norte-americana concorrendo nesta área, tendo os EUA que recorrer a empresas estrangeiras.

Os EUA viraram o maior mercado para a sueca Ericsson, por conseguinte, o país começou uma campanha de boicote à Huawei, com acusações de que a empresa chinesa roubou propriedades intelectuais de empresas norte-americanas, pois a Huawei é acusada de vender produtos com tecnologia norte-americana a países que sofreram embargo dos EUA, como Irã e Coreia do Norte.

Outra acusação dos EUA é que a Huawei é pressionada pelo governo chinês para espionar outros países, e muito se diz que tais acusações norte-americanas vem do medo da expansão da Huawei, sobretudo na tecnologia 5G, a nível mundial, e então aparecem estas tentativas de boicote à empresa chinesa.

Contudo, temos as empresas gigantes de celular como Telefónica e Vodafone, cujos presidentes disseram que se basearão em fatos e não em especulações para tomar suas decisões a respeito da Huawei. De outro lado, o que na verdade acabou sendo constatado foi que a NSA (Agência Nacional de Telecomunicações), segundo documentos vazados pelo Wikileaks, é que os EUA é que invadiram os sistemas da Huawei.

Os EUA, na verdade, estão preocupados com a dominação chinesa nas áreas de telecomunicações e inteligência artificial, o medo é do avanço chinês na infraestrutura das telecomunicações a nível mundial, o que é um meio dos chineses terem acesso a dados importantes, tanto para estratégias como também de mineração de dados de comportamentos das pessoas.

Os EUA, nesta guerra contra a Huawei, também tomou medidas como a negação do sistema Android à Huawei, assim como a proibição do processador ARM. Com esta guerra travada do 5G por EUA e China, isto envolve um mercado que pode chegar a 48 bilhões de dólares em 2027, gerando trilhões de dólares através da produção econômica pelas redes 5G que serão instaladas.

O 5G aumentará a velocidade da internet de modo que a lentidão que pode ocorrer em aplicativos, como videoconferência, jogos online multiplayer, serão solucionados, pois o 5G cobrirá uma área muito maior com alta velocidade e nos dispositivos móveis, que hoje são massivamente utilizados pelos consumidores.

O 5G ainda permitirá o desenvolvimento tecnológico de carros sem motorista, e a internet das coisas logo será uma realidade, em que todos os gadgets se comunicarão pela internet sem fio, aonde teremos uma facilitação e uma melhor eficiência que será o avanço para um modelo de cidades inteligentes, com sistemas de infraestrutura integrados que envolverão a eletricidade, semáforos, água e sistemas de esgoto.

Diferente do 3G e do 4G, o 5G poderá viajar por longas distâncias, sem tantos saltos através de repetidoras, células ou antenas, pois a rede 5G poderá oferecer, por exemplo, a mesma velocidade de uma rede de cabo de fibra ótica, só que sem a necessidade de um custo de cabeamento físico, atingindo regiões rurais e mais remotas, por sua vez, com internet de alta velocidade e com custos baixos.

Tendo a Huawei que mudar o sistema operacional móvel Android do Google e vários aplicativos que rodavam no topo do sistema Android na loja de aplicativos do Google (Play Store), a empresa chinesa já havia se antecipado criando seu próprio sistema operacional, o HarmonyOS, e também sua própria app store.

Por fim, nesta concorrência toda, que muitos chamam de guerra tecnológica, a Huawei fornece uma solução 5G completa, de redes a telefones celulares 5G, e tem capacidade de instalação muito mais rápida que outras empresas, e a Huawei ainda possui um mercado doméstico maior do que todos os outros mercados 5G do mundo, e com isto a expansão da empresa pode ser facilmente impulsionada a partir da concretização da tecnologia 5G no mundo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

 

 

 

 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

MATILDE CAMPILHO TEM VOZ PRÓPRIA EM JÓQUEI

“Jóquei tem norte, tem estilo, tem personalidade”

Matilde Campilho já tinha uma certa reivindicação de uma edição de seus escritos desde a sua atuação no Facebook, aonde inicialmente foi publicando os seus poemas, e os poetas brasileiros que a liam foram incitando a poeta a editar o que ela estava fazendo, mas Matilde adiava a edição destes poemas, até que decidiu fazer uma ação sistemática, o que foi seu retiro para fazer seu livro Jóquei.

Jóquei não se trata somente destes poemas que apareceram no Facebook, mas um novo material que Matilde tornou em um PDF, e acabou recebendo no dia seguinte um e-mail de Pedro Mexia, que a descobriu por indicação de um amigo. Jóquei demandou um ano inteiro de trabalho de Matilde Campilho, quando ela deixou o emprego e ficou fazendo freelance, num jeito de escrever rápido dentro de ônibus, por exemplo, e depois se debater com os poemas.

Matilde nos diz : “Foi mais de um ano assim, acordar para escrever, ir dormir depois de escrever. Claro que a vida acontecia na mesma - amigos, cervejas, mergulhos, chuva, empregos, tudo. Mas durante aquela temporada havia um eixo central (…) [que] era o livro.

Quando comecei essa temporada nem tinha a total consciência de que ia ser assim tão firme, tão constante. Mas foi. Foi uma prática diária, e quase tudo o que se pratica diariamente se afina e ganha as suas próprias regras. E ao mesmo tempo acaba dando uma regra à vida. Foi um tempo muito bom, ganhei uma cadência e um sossego que contaminou quase todos os meus gestos. É como um ginásio, sabes? Como fazer jogging todas as manhãs. Fica no corpo e muda o corpo. Fazer este livro foi muito isso”.

E Jóquei foi ganhando este corpo imenso de uma polifonia de poetas e cantores, muitas vozes ecoando nestes poemas, e Matilde fazendo desta mistura seu próprio estilo, que tem um tributo especial aos norte-americanos como Frank O'Hara, Allen Ginsberg, Ferlinghetti, John Ashberry, Kenneth Koch, Wallace Stevens e william carlos williams.

Matilde leu bastante, e também traduziu muito. Matilde, falando destes norte-americanos, ela fala que o mais marcante talvez tenham sido “aqueles norte-americanos todos”. Ela diz : “Acho que foi com os norte-americanos que aprendi o ritmo, aquela coisa quase de canção que muitos deles têm”. E Matilde também faz tributo a figuras como Octavio Paz e Antonio Cisneros, e seus conterrâneos como Ruy Belo, Daniel Filipe ou Fernando Assis Pacheco.

Por fim, com a sua vinda ao Brasil Matilde Campilho teve também a influência dos textos que Caetano Veloso escrevia no jornal e nas costas dos discos, que também tem ecos eventuais em Jóquei. O Brasil é um evento de gratidão para esta poesia que Matilde produziu em Jóquei, com este seu lado virado também para Portugal, como disse em meus outros textos sobre este livro e sobre Matilde.

Matilde consegue criar um caleidoscópio de cosmopolitismo mais do que de ecletismo, a mistura que temos em Jóquei tem norte, tem estilo, tem personalidade, sua polifonia, sua babel, portanto, não tem nada de um ecletismo pejorativo que não resulta em um material coerente.

Em Jóquei, muito pelo contrário, a mistura de ingredientes que Matilde realiza e dos quais se apropria é muito mais para dar ao seu ritmo um caminho próprio na poesia, na SUA poesia, e Matilde Campilho alcança este seu objetivo, Jóquei é um livro que lhe pertence, tem a sua assinatura inconfundível.

POEMAS :

BADLAND : O poema começa com uma dúvida sobre o gênero sexual da voz poética, lembrando, que em algumas partes de Jóquei, Matilde gosta de brincar com esta ambiguidade, assumindo, às vezes, em seus poemas, uma voz masculina fictícia, esta mania de Matilde também de se dirigir a um interlocutor percorre obsessivamente os versos de Jóquei, no que temos : “Não sei se sou homem/já não sei se sou/homem/se sou besta/se tenho olhos azuis/ou mesmo se visto/camisa azul.”. O poema evoca uma dúvida, Matilde desperta aqui um questionamento e fundamentalmente uma interrogação, no que vem : “Não sei se sobre meu ventre/foi depositada uma concha, há uns./1.000 dias atrás. Não sei se sou automático, se devo/trabalhar, pagar o revólver a prestações,/fazer remo, correr na calçada, usar/camisa esquadrinhada, escrever em/cedro esquadrinhado.”. Matilde não tem uma memória plena, se esquece dos nomes de poetas, e segue em seu poema do que ela não sabe : “Eu não sei os nomes/dos poetas todos mas sei que os poetas/todos são os novos roqueiros.”. Evoca o amor, que promete ser intenso e segue seu curso normal, logo após, com os pés na realidade, e que tem muito a nos ensinar, no que vem : “Aquele amor/aquele que eu pensei/que se despedaçaria como/um meteorito no Minnesota” (...) “afinal caiu silencioso/como um aviãozinho de papel/passeando em Itaparica/em dia de apanha dos morangos.”. Matilde finaliza, aqui, com esta dúvida de gênero sexual, a ambiguidade da voz poética de Matilde dando a cara mais uma vez neste poema simpático : “Não sei se sou homem,/se sou mulher. Mas este/é o caminho do estio/e por perto passam os bois.”.

GNOMON : O poema tem um desejo intenso, a faculdade do querer em toda a sua potência, no que temos : “Eu queria tudo como/no livro monogramado/A musa/As crianças/A discussão à chuva/que nos obrigaria a perceber/a circularidade mística/de algumas árvores”. Matilde quer tudo, no que vem : “Queria tudo como/no lenço das aparições/O gengibre assustando-nos/de vez em quando os pratos/O morro da Lopes Quintas/que você nunca chegaria a ver/Mas que certamente verá/Só não mais por meus olhos”. O querer que, normalmente, vem de um desejo de mudança, e mais radicalmente, de transformação, no que temos : “Queria tudo em jeito de promessa/de um acontecimento que mudaria/a percepção da sombra humana/Mas você insistiu em morrer/Você sempre insistia em morrer/e finalmente conseguiu”. No entanto, em meio a estes quereres, eventualmente, existem adversidades, e até mesmo tragédias, é a vida como ela é, e este poema a conhece, a vida, também, e narra de forma natural o curso dos acontecimentos, no que temos :  “Acontece que agora/Mil anos depois/do enterro de sua bandeira/Depois do choro/Depois da impressionante mudança/nas ocorrências diárias do mundo/Você fica se queixando/Sobre a queda da musa/Sobre a saudade das crianças/Sobre a reprodução profícua/de certas árvores no jardim.”. Matilde então segue a narrativa da sensação que vem após completar 30 anos de idade, no que temos : “As coisas que a gente aprende/depois dos 30 anos : sempre achei/que os mortos fossem mudos/E afinal os mortos se descontrolam/no exercício alto da sintaxe.”. A ideia de morte e da voz dos mortos, aqui nesta coda, fecha o raciocínio com uma naturalidade que podemos chamar de poética.

O AMOR FAZ-ME FOME : Aqui temos um dos poemas em prosa de caráter fluido de Matilde Campilho, no que vem : “Tropecei numa ementa de vendas de comida ready-made/E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas/em vouchers de correio ou publicidade não endereçada/Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem/cafés da manhã para entregar ao domicílio”. O poema segue sobre o tema da entrega a domicílio e logo divaga sobre Rimbaud, saltimbancos, e depois retorna à comida, e o tema da paixão, no que temos : “No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem/mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud/Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias” (...) “A comida não era de todo o que mais nos interessava/se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente/para rebentar-nos o estômago até o nível da alegria”. Mais uma vez, como Matilde fez em outros poemas de Jóquei, ela se refere a esta sua idade que acaba de passar dos 30 anos, no que temos : “Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver/os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev/Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas/se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan”. Um tour rápido por Kiev, um sniper, as ruas venezuelanas, enriquecendo o poema em prosa que reforça a sua fluidez nestas imagens, e segue : “Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso/mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas/e entre os galhos de fogo de um gigante inverno”. E temos o amor, tema poético par excellence, em uma chave cool e contemporânea, no que vem : “O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras/A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas/Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos/Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal/Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei/Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio/Seja como for o amor ainda me faz bastante fome/e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda revolução/Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos/tomar café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.”. E Matilde e seu miúdo, enfim, corrompem a chave de prata do poema e vão à rua, fora do domicílio, a chave de ouro ou coda formam a surpresa de uma decisão nova da poeta.

PAZ, PALAVRA ÚTIL : O poema lembra mais uma vez Whitman, um dos poetas-fetiche de Matilde, podemos compará-lo somente à presença de T.S.Eliot nesta citação de poetas que Matilde faz em seu livro Jóquei, no que temos : “Estava lendo Whitman/e lembrei de você/Isso para começo dos trabalhos/já é mais ou menos bom sinal”. E Matilde faz esta colagem em que produz seu poema próprio de Whitman, no que temos : “Quando descobri o tal poema curto/que lá para o meio do corpo diz/“the pay is certain one way or another”/Não foi exatamente por isso/que lembrei de você/Até porque esse é um poema/que fala daqueles amores assim/longos, assustados, algumas vezes/raivosos e geralmente/de correspondência difícil”. E o poema vem com o tema do amor, esta âncora comum dos versos clássicos, mas que aqui aparece junto com outros sentimentos como o espanto, no que vem : “Um amor daqueles semieternos/que faz escrever um livro/ou um punhado de versos” (...) “O que aconteceu foi que/por causa do espanto/precisei coçar o queixo/levar as duas mãos à cara”. E o evento do poema explica o fato da memória que o poema evoca, no que temos : “O que aconteceu foi que/por causa  do gesto indecifrável/ou da estocada da memória/o livro caiu no chão do trem/E então a queda ferroviária/fez voar o marcador das páginas/Veja só : era o cartãozinho/do bar dos pescadores”. E aqui temos o esclarecimento de todo o tema do poema, no que temos : “caindo a meus pés/Foi por causa do nome da rua/que vinha escrito no cartão/O endereço do boteco/do sol & das fainas/Que lembrei de você” (...) “E daquele mês/de ouro na cidade-norte/Quando tudo ia bem/hiper mega bem/com as 4 vidas/transatlânticas.”.

TENHO PLANOS PARA UMA CONFISSÃO : O poema segue em seu imprevisto e o que se  espera, e se abre nesta tensão da razão desafiada, no que temos : “Foi em novembro de dois mil e tal/em Ipanema/Fazia frio e não devia/Chovia como era previsto/E algumas dessas coisas/nos confundiam/Eu era demasiado novo para o desterro/Um pouco velho já para certas aventuras”. E o poema ganha um tom reflexivo, no que temos : “Meu rosto não se transformava/mas a paisagem sim” (...) “Maria meu velho tesouro/não me acompanhava mais/Os canaviais, as abóbadas do Arkansas,/as feridas no rosto e os recibos de pensões/iam caindo no caminho como balas de açúcar”. O poema fala do pensamento, da reflexão do tempo, da memória, no que temos : “Era nisso que eu pensava/quando não pensava em nada/Foi no novembro de Ipanema/quando me acertei com a meditação” (...) “A vida nunca foi tão pacífica/Desistira facilmente dos troféus”. E as consequências do tempo, em toda a sua densidade existencial, no que vem : “Meus amigos iam se retirando como lascas/Eu ia aproximando o rosto das orquídeas/atadas nas árvores pelos porteiros de Ipanema” (...) “As manhãs eram todas de ouro/E à passagem de cada uma delas/eu atava uma nova pulseira em meu braço/Foi um poeta quem me disse/Que os gêmeos se distinguem pelas cores/das fitas amarradas em seus pulsos/Eu queria distinguir-me de mim mesmo/Como um urso que fareja as moedas/entre os cachos de erva”. O poema segue seu curso, e temos : “Certa manhã, entre as colunas/de fogo que de vez em quando/se levantavam no terror das esquinas,/apareceu o rosto doce de Antonio/Fotografei-o com minha câmera descartável/E essa imagem desfocada é a pagela/que trago dobrada em meu bolso até hoje”. A voz poética, depois de todo este trajeto, faz uma bela descoberta, foi feliz, coda magistral de Matilde : “Aqueles foram meus pleitos literários/entre o mar e a cidade/E, como disse o santo da fotografia,/na verdade fui feliz.”.

WE NEVER DID TOO MUCH TALKING ANYWAY : O poema descreve ambiguamente Coney Island, e contradiz apontando para um outro lado, no que temos : “Por exemplo/esqueça Coney Island/e as trezentas peças/de metal que compõem/o jogo mágico de Coney/Island no mês de agosto”. Evoca a lembrança, no que temos : “Lembre de meu fascínio/profundo por desportistas/noturnos que sincronizam/a respiração com o batimento/dos dedos da amante morta” (...) “Lembre do quanto me iluminam/os animais talhados no marfim”. O poema faz este jogo entre lembrança e esquecimento, mais uma vez Matilde coloca o tema aqui da memória, no que temos : “Esqueça talvez/a manobra repetida/de lamber envelopes/no silêncio de um quarto” (...) “Lembre que por vezes/você tem muita razão/e que outras vezes não/Esqueça vá esqueça/o inverno em Ipanema” (...) “Lembre de meu desejo/muitas vezes certo/muitas vezes não” (...) “E se puder não esqueça/o rosto calmo do tigre/que está parado na porta/esperando para entrar/e para depois nos atravessar.”. A riqueza de imagens do poema conversa bem com os motes ambivalentes da memória, que são a lembrança e o esquecimento.

POEMAS :

BADLAND

Não sei se sou homem

já não sei se sou

homem

se sou besta

se tenho olhos azuis

ou mesmo se visto

camisa azul.

Também já não sei

se seguro um toco

meio ardido, aqui sentado

na esplanada desta cidade

cujo nome é Tavizkam.

Não sei se sobre meu ventre

foi depositada uma concha, há uns.

1.000 dias atrás.       

Não sei se sou automático, se devo

trabalhar, pagar o revólver a prestações,

fazer remo, correr na calçada, usar

camisa esquadrinhada, escrever em

cedro esquadrinhado. Eu não sei

se possuo uma barca, se possuo

ossos que podem apodrecer

a qualquer hora. Eu não sei os nomes

dos poetas todos mas sei que os poetas

todos são os novos roqueiros. Eu não

sei, só sei que antes julguei que

os poetas eram escavadores.

Aquele amor

aquele que eu pensei

que se despedaçaria como

um meteorito no Minnesota

(uma coisa assim

estrondosa abusiva

gritante maravilhosa

estilhaço prolongado

cheio de uivos)

afinal caiu silencioso

como um aviãozinho de papel

passeando em Itaparica

em dia de apanha dos morangos.

 

Não sei se sou homem,

se sou mulher. Mas este

é o caminho do estio

e por perto passam os bois.

 

GNOMON

Eu queria tudo como

no livro monogramado

A musa

As crianças

A discussão à chuva

que nos obrigaria a perceber

a circularidade mística

de algumas árvores

O choro

O recado escondido de Chillida

Queria tudo como

no lenço das aparições

O gengibre assustando-nos

de vez em quando os pratos

O morro da Lopes Quintas

que você nunca chegaria a ver

Mas que certamente verá

Só não mais por meus olhos

(como você ainda disse :

o caleidoscópio através

do qual sucedia o mundo)

Queria tudo sobre o pano

de um chapéu de tirolês

Tudo tão importante quanto

a descoberta grega

do ângulo de noventa graus

Queria tudo em jeito de promessa

de um acontecimento que mudaria

a percepção da sombra humana

Mas você insistiu em morrer

Você sempre insistia em morrer

e finalmente conseguiu

Acontece que agora

Mil anos depois

do enterro de sua bandeira

Depois do choro

Depois da impressionante mudança

nas ocorrências diárias do mundo

Você fica se queixando

Sobre a queda da musa

Sobre a saudade das crianças

Sobre a reprodução profícua

de certas árvores no jardim.

As coisas que a gente aprende

depois dos 30 anos : sempre achei

que os mortos fossem mudos

E afinal os mortos se descontrolam

no exercício alto da sintaxe.

 

O AMOR FAZ-ME FOME

 

Tropecei numa ementa de vendas de comida ready-made

E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas

em vouchers de correio ou publicidade não endereçada

Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem

cafés da manhã para entregar ao domicílio

Perdão queria dizer pequenos-almoços

deixemos o café e as manhãs para outras dinastias

No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem

mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud

Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias

Também cruzávamos os dedos mas isso agora não importa

Dois rapazolas roubando meio croissant e três goles de suco

às mesas impecavelmente postas dos hotéis mais bonitos da cidade

A comida não era de todo o que mais nos interessava

se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente

para rebentar-nos o estômago até o nível da alegria

Havia sempre alguém disposto a pagar-nos refeições

assim como nós estávamos sempre prontos a pular o fogo mágico

Acostumamo-nos desde muito cedo a sair das celebrações

de joelhos chamuscados e com as roupas mais ou menos rasgadas

Isso era motivo suficiente para que um de nós pegasse a moto

e então os dois acelerávamos até a praia mais deserta do país

Nem por isso deixamos de nos escapar aos acontecimentos

mas aqueles foram indubitavelmente os mergulhos de ouro

Agora as fogueiras levantam-se muito mais altas do que as magias

às quais dedicamos quase toda nossa juventude igualitária

Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver

os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev

Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas

se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan

Daqui dá para cheirar a ameaça de pólvora semi-invisível saindo

do documento que declara o estado de exceção no sul da Bahia

Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso

mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas

e entre os galhos de fogo de um gigante inverno

No nosso tempo eu acreditava muito nas notícias e na televisão

Hoje eu acredito nas experiências que me contam os homens

Ontem éramos os filhos dos netos da revolução

E explicaram-nos que a tabuada e a paixão alucinante eram tudo

o que precisávamos e precisaríamos para o exercício da construção

Hoje somos pais de algumas crianças e pais de nós mesmos

e já vamos sabendo algumas coisas sobre a palavra desconstrução

O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras

A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas

Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos

Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal

Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei

Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio

Seja como for o amor ainda me faz bastante fome

e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda revolução

Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos

tomar café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.

 

PAZ, PALAVRA ÚTIL

                                                              poema alegre para o capitão

 

Estava lendo Whitman

e lembrei de você

Isso para começo dos trabalhos

já é mais ou menos bom sinal

Foi imediatamente depois do espanto

da página 108

Quando descobri o tal poema curto

que lá para o meio do corpo diz

“the pay is certain one way or another”

Não foi exatamente por isso

que lembrei de você

Até porque esse é um poema

que fala daqueles amores assim

longos, assustados, algumas vezes

raivosos e geralmente

de correspondência difícil

(repare que difícil é bastante

o contrário de impossível)

Um amor daqueles semieternos

que faz escrever um livro

ou um punhado de versos

Sendo essa a correspondência

mais honesta

Portanto não foi aí que lembrei

de você Não

O que aconteceu foi que

por causa do espanto

precisei coçar o queixo

levar as duas mãos à cara

e respirar entre os 20 dedos

O que aconteceu foi que

por causa  do gesto indecifrável

ou da estocada da memória

o livro caiu no chão do trem

E então a queda ferroviária

fez voar o marcador das páginas

Veja só : era o cartãozinho

do bar dos pescadores

(ele que pelos vistos tem servido

de marca-compasso

para a canção  de Whitman

desde o último verão)

caindo a meus pés

Foi por causa do nome da rua

que vinha escrito no cartão

O endereço do boteco

do sol & das fainas

Que lembrei de você

De sua primeira aparição

De sua primeira gargalhada

E daquele mês

de ouro na cidade-norte

Quando tudo ia bem

hiper mega bem

com as 4 vidas

transatlânticas.

 

TENHO PLANOS PARA UMA CONFISSÃO

 

Foi em novembro de dois mil e tal

em Ipanema

Fazia frio e não devia

Chovia como era previsto

E algumas dessas coisas

nos confundiam

Eu era demasiado novo para o desterro

Um pouco velho já para certas aventuras

Dormia algumas horas por noite

num quartinho de esquina

Onde guardava os 7 livros, uma hamaca

vermelha & branca e a pequena caixa

de madeira onde ia depositando a diário

as lascas que sobravam da escultura

Eu ia esculpindo um novo genoma

Com mãos encharcadas de água de coco

 

Meu rosto não se transformava

mas a paisagem sim

Uma vez por semana cruzava a rua

de saquinho plástico pendurado no braço

e levava a roupa na lavanderia

Maria meu velho tesouro

não me acompanhava mais

Os canaviais, as abóbadas do Arkansas,

as feridas no rosto e os recibos de pensões

iam caindo no caminho como balas de açúcar

O desenho daquele rastro no chão

apontaria certamente ao palácio lunar

Era nisso que eu pensava

quando não pensava em nada

Foi no novembro de Ipanema

quando me acertei com a meditação

 

Comia duas bananas por dia

Um suco de acerola

E de vez em quando um sanduíche

A vida nunca foi tão pacífica

Desistira facilmente dos troféus

Guardando para mim apenas a bandeirola

Da Federación Uruguaya de Esgrima

Porque sempre suspeitei

que aprenderíamos muito

fixando os espaços

entre as listras azuis e brancas

 

Meus amigos iam se retirando como lascas

Eu ia aproximando o rosto das orquídeas

atadas nas árvores pelos porteiros de Ipanema

Tomava o café da manhã no mercado

enquanto lia o jornal da cidade

Havia um forte cheiro de mar sujo

que subia sempre a 3 quadras

até chegar na avenida

As manhãs eram todas de ouro

E à passagem de cada uma delas

eu atava uma nova pulseira em meu braço

Foi um poeta quem me disse

Que os gêmeos se distinguem pelas cores

das fitas amarradas em seus pulsos

Eu queria distinguir-me de mim mesmo

Como um urso que fareja as moedas

entre os cachos de erva

 

Havia uma artéria que ligava todas as coisas

desde a Praia de Botafogo até o Centro da Cidade

O atravessamento do Aterro

nas cavalitas de um ônibus bêbado

foi durante muito tempo

a única salvação possível

 

Certa manhã, entre as colunas

de fogo que de vez em quando

se levantavam no terror das esquinas,

apareceu o rosto doce de Antonio

Fotografei-o com minha câmera descartável

E essa imagem desfocada é a pagela

que trago dobrada em meu bolso até hoje

 

Aqueles foram meus pleitos literários

entre o mar e a cidade

E, como disse o santo da fotografia,

na verdade fui feliz.

 

WE NEVER DID TOO MUCH TALKING ANYWAY

 

Por exemplo

esqueça Coney Island

e as trezentas peças

de metal que compõem

o jogo mágico de Coney

Island no mês de agosto

Lembre da palavra sushi

sendo gritada no metrô

quando tudo o que alguém

queria gritar era sua devoção

por pedacinhos de prata

Lembre de meu fascínio

profundo por desportistas

noturnos que sincronizam

a respiração com o batimento

dos dedos da amante morta

Esqueça o comprimido

composto de estearato

de magnésio e macrogol

receitado por doutor Roberto

quando o pobre doutor Roberto

não sabia mais o que tentar

ou então tinha mais o que fazer

naquela tarde de quarta-feira

na emergência de São Vicente

Lembre que quarta-feira

é dia de jogo de pebolim

e sobre isso não tem discussão

Lembre do quanto me iluminam

os animais talhados no marfim

principalmente aquela baleia

de oito centímetros e meio

minha única esperança

Esqueça talvez

a manobra repetida

de lamber envelopes

no silêncio de um quarto

quando já faz sol nas praças

Somos feitos para o relento

Lembre que por vezes

você tem muita razão

e que outras vezes não

Esqueça vá esqueça

o inverno em Ipanema

e o tubarão nadando

nas veias da besta

de Ipanema gelada

Lembre de meu desejo

muitas vezes certo

muitas vezes não

Lembre a descoberta

daquele excerto que dizia

nós subimos os degraus

a correr e saímos do frio

brilhante para o frio escuro

E se puder não esqueça

o rosto calmo do tigre

que está parado na porta

esperando para entrar

e para depois nos atravessar.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com                                      

                                  

 

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A DISPUTA TECNOLÓGICA DO 5G

“representa a chamada quarta revolução industrial”

A guerra deflagrada entre EUA e China, atualmente, vem com a característica de um fenômeno que definirá o futuro do mundo, uma guerra tecnológica que envolve o desenvolvimento e expansão da tecnologia 5G pelo mundo. Uma guerra que, por ser tecnológica, tem implicações econômicas e movimenta toda uma energia de pressão política internacional.

A China joga pesado, oferecendo recursos financeiros para outros países, enquanto os EUA pressionam alguns países com bravatas diplomáticas, mas que em termos de economia, não funciona muito, pelo visto, a estratégia chinesa se mostra mais eficiente, neste primeiro momento.

A tecnologia 5G irá transformar toda a vida humana, desde os modos de viver, como as formas de organização da produção, do consumo, vai mudar as formas de lazer, transformar os serviços públicos, os transportes, as finanças e até as formas de governar e exercer o poder, também influenciando na arte militar.

Temos como característica principal da tecnologia 5G uma forma de interconexão geral de tudo com tudo, isto é, uma manifestação integrada de comunicação, informação, e uso tecnológico, que é a internet das coisas, um mundo organizado do que representa a chamada quarta revolução industrial, em que se verão máquinas prevendo problemas, analisando situações e tomando decisões em microssegundos.

O 5G pode ser caracterizado como um grande projeto tecnológico de infraestrutura, e apenas poucas empresas dominam esta tecnologia, que são quatro empresas, duas chinesas, a Huawei e a ZTE, uma finlandesa, a Nokia, e uma sueca, a Ericsson. E temos a Huawei disparada na frente por esta corrida pelo domínio da tecnologia do 5G.

Os questionamentos de tal competição tecnológica pelo 5G, por sua vez, coloca o tema como preocupação política e disputa territorial pela distribuição desta tecnologia, com implicações dos efeitos colaterais deste novo domínio tecnológico, com problemas como espionagem.

Tal domínio da Huawei, por sua vez, fez com que o presidente dos EUA, Donald Trump, por exemplo, colocasse em suspeita o governo chinês e esta mesma empresa Huawei, com acusações de que estes poderão usar a principal infraestrutura do mundo do futuro, uma vez submetida a um poder ditatorial do Partido Comunista da China, entregando todas as informações dos países que terão a tecnologia da Huawei, portanto, a uma espionagem do governo chinês, isto tendo consequências como chantagem e outras manipulações de big data que esta ligação com o governo chinês pode acarretar.

Tal corrida pelo 5G virou, de fato, uma guerra tecnológica, e os EUA, então, fizeram ações de boicote à Huawei e a ZTE, de um lado, e houve a oferta barata do serviço desta tecnologia para partes do planeta, por parte dos chineses, de outro lado. A competição tem a larga vantagem da Huawei, uma vez que empresas como Ericsson e Nokia, e poucas empresas norte-americanas, não têm preços competitivos e volume suficiente de oferta.

Portanto, os EUA e a China fazem uma disputa por quem dominará o mundo conectado à internet do futuro próximo, este que terá, por exemplo, de carros autônomos a drones. O valor econômico dos dados aumentarão, pois será uma forma de poder sobre outros países. Contudo, os EUA enfrentam o grande problema de que quem já tem domínio na área 5G é justamente a empresa chinesa Huawei, que é a líder mundial em equipamentos de telecomunicação.

O 5G tornará o uso da tecnologia onipresente na vida humana, equivalerá a um salto tecnológico de impacto semelhante ao que foi para a humanidade como a domesticação dos animais, a imprensa de Gutenberg, a máquina a vapor, a eletricidade e o automóvel.

A evolução das comunicações, por exemplo, seguiu da conexão dos países com cabos submarinos de telégrafo, no século XIX, depois as casas se ligaram umas às outras com a telefonia fixa e, por fim, as pessoas se conectaram entre si, tanto com o celular como com a internet móvel. Esta quarta revolução industrial representa a conexão das coisas, das indústrias e dos serviços.

O 5G permitirá downloads ágeis, com uma capacidade de transmissão de dados que passa de megabits/segundo para gigabits/segundo, algo entre 20 a 100 vezes mais rápido, e o tempo de resposta entre um aparelho e seu servidor, a chamada latência, será de um centésimo do que é hoje.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-disputa-tecnologica-do-5g

 

 

domingo, 23 de agosto de 2020

WERNER HERZOG : A CONQUISTA DO INÚTIL (PARTE FINAL)

 “a coragem de uma vida plena sempre corre o risco de dar muito errado”

Herzog segue ao final de sua saga no coração da floresta, num governo constante do caos e num misto de coragem e temeridade que fez este diretor de cinema ousar umas das realizações mais sui generis da História do cinema, ele segue seu relato : “A primeira tentativa de puxar o navio não vingou, mas pelo menos filmamos o insucesso. Depois de alguns metros, o navio ficou levemente atravessado e encalacrou-se; ouvi como o gigantesco cabo de aço estalou estranhamente na roldana e produziu sons nada agradáveis.

Por fim, rompeu-se o cabo de aço, que tinha a grossura de um braço; a pressão o fez esquentar por dentro, e ele caiu fumegando no chão. No lugar em que se rompeu, vi que os fios internos ardiam, vermelhos. O navio escorregou lentamente para trás, e até estava com uma boa aparência, mesmo que isso não ajude muito em nossa tarefa. Os atores principais de nosso drama estranho, rodeados pela floresta indiferente como nossa espectadora, já não são as pessoas, mas os cabos de aço, o Caterpillar, os cabrestantes, os troncos das árvores, o barro, o rio, a chuva, os deslizamentos de terra.”

Herzog não nos poupa das escatologias, que volta e meia aparece neste livro Conquista do Inútil, e aqui vemos mais casos curiosos e lendo este livro posso dizer que tive momentos bem felizes, com frouxos de riso, Herzog relata : “Ao arrastar para longe um cabo de aço renitente sujo de barro, um dos índios peidava em razão do esforço, e fazia-o com uma intensidade tão duradoura, que soava na vulgaridade ressonante da natureza como o início de um primeiro desejo de ordem humana a se contrapor a ela. Eu gostaria de estar em outro lugar, onde pessoas partem voando sobre torres de igrejas, torres de igrejas sobre campos arados, navios sobre montanhas e continentes sobre oceanos.”

Herzog narra, mais uma vez, as dificuldades práticas da filmagem, e nos faz perceber que para dirigir um filme, não basta somente uma boa ideia, existe uma infinidade de problemas que exigem do diretor de cinema um forte senso prático, sem isto, qualquer filmagem não passaria de uma miragem de um sonhador, e Conquista do Inútil, embora se trate de uma ideia delirante, talvez por isto mesmo tenha exigido de Herzog mais do que qualquer outra de suas filmagens, e isto tudo numa concepção de senso prático extremamente selvagem.

Herzog relata : “Filmagens. Várias tentativas com o navio; grande labuta, grandes decepções. Anéis com cabos de aço pesados e renitentes; colocação de troncos extremamente pesados sob o corpo do barco; ganchos de ferro da grossura de braços se abrem, como quando abrimos um clipe de papel, transformando-o em um fio reto. Huerequeque está com um de seus surtos de malária, que sempre voltam em ciclos.”

Herzog segue seu relato : “Quando já estava escuro, fui chamado ao posto de saúde do grande acampamento. Os lenhadores estavam derrubando árvores entre os dois rios – como sempre, todos descalços, e um foi picado por uma cobra. Jamais foram vistas cobras nem mesmo no entorno mais amplo das serras elétricas, porque elas fogem selva adentro em razão do barulho e da fumaça; mas aconteceu que de repente o homem foi picado duas vezes no pé. Ele deixou a serra cair e ainda pôde ver que a cobra, que desaparecera pela vegetação, era uma chuchupe.

Normalmente, depois de menos de um minuto a contar do ataque, a respiração e o coração param, e praticamente não se conhecem casos de alguém que tenha sobrevivido a essa picada por mais do que sete ou oito minutos sem tratamento. E nosso acampamento, com o médico e o soro antiofídico, ficava a vinte minutos de distância. O homem – assim me contou o que estava trabalhando ao lado dele – ficou totalmente imóvel por alguns segundos, mergulhado em pensamentos. Então pegou do chão a serra elétrica, que com a batida parara de funcionar, puxou a corda, que, de modo semelhante a um motor de barco, a faz funcionar, e cortou o próprio pé acima do tornozelo.”

A imprevisibilidade era o estado de espírito dominante de toda a filmagem, Herzog nos dá esta noção extrema de uma realidade que desliza e dá saltos, ele segue seu relato : “Último dia de filmagem em Camisea, por ora. Não consigo me lembrar de algum dia ter trabalhado sob tanta pressão em minha vida. Normalmente, o que resolvíamos era um programa para cinco dias. Kinski gritava histérico, e em seguida agia como um doente terminal que precisava se apoiar em Paul; depois, mais uma vez, novo e revigorado ataque de fúria.”

Herzog, mais uma vez, narra os ataques de fúria de Kinski, mais um fator de pressão sobre as filmagens : “Mais um ataque de fúria de Kinski, e o cacique dos ashaninka-campas e o cacique dos machiguengas de Shivankoreni me puxavam de lado, perguntando calmamente se deviam matá-lo para mim. Para ter certeza, eu perguntei, matar quem? Eles se referiam a K., e, pela forma como falavam, não havia dúvida de que realmente o fariam de pronto, naqueles próximos sessenta segundos. K. percebeu que algo estava acontecendo e rapidamente passou de ataque de fúria a doente terminal.”. Kinski começa a incomodar, e pode ser que o ator colérico tenha escapado de algo mais grave nestas filmagens.

Mais relatos de Herzog sobre o vaidoso e colérico Kinski : “De lancha no Camisea, K. veio em minha direção aos brados, espumando. Ele estava de pé na proa e balançava um machete em golpes confusos contra um inimigo visível apenas para ele. Duas curvas do rio antes de ele me alcançar eu já o ouvira, brigando com o barqueiro em francês. Ao que tudo indica, ele viu do avião, antes de pousar, que o navio estava quase na mesma posição de antes, no rio, mas não percebeu que, de modo rocambolesco, ele já estava bem inclinado para cima.

Ele berrava feito um louco, dizendo que eu era um enganador, que ele não iria filmar, que só falaria comigo em Los Angeles, no tribunal. O nível do rio baixara de forma inimaginável, tanto que em alguns pontos tivemos de descer do barco para poder passar por trechos muito rasos; ao mesmo tempo que eu prestava atenção em K., mecanicamente tirava água do barco, com um prato de lata. A floresta, assim como eu, calada, absorvia os decibéis, e fazia-o com certa leveza. Acontece que K. está desmoronando, e nada mais pode impedir isso.”

A narrativa se volta, mais uma vez, para o leitmotiv do filme, a ideia delirante e megalomaníaca de Herzog, o barco atravessando a montanha, a Conquista do Inútil propriamente dita, Herzog relata : “De fato, no início o barco tomou a direção do monte de terra ao lado da câmera, e eu vi como Raimund pulou para o outro lado, em direção à água, para salvar a câmera, enquanto os campas se mantiveram a postos para Klausmann. Tercero, porém, conseguiu virar o barco para a outra direção. Já com metade do casco na água, foi de maneira tão incrível que o barco se inclinou para o lado, contra a corrente, que parecia inevitável : vai emborcar e afundar.

Rodopiando como que em um sonho febril confuso e desordenado, ele se inclinava de um lado para outro. Perdi o Caterpillar de vista – corajoso, ele se enfiara debaixo do casco, e o navio ameaçava emborcar; eu corri, fora do foco da câmera, em torno dele. Descalço, acabei pisando nos cacos dentados de uma garrafa de cerveja quebrada – os índios a tinham deixado no barro em sua fiesta noturna; sangrando muito, vi que realmente havia muito caco por ali. Correndo aflito, eu já prestava mais atenção aos cacos no chão do que o navio, o Caterpillar já tinha agarrado, violentamente com a pá, a transversal traseira do casco; nisso, a balaustrada, inclinada e quase tocando no chão, foi esmagada, com um estrondo, e o barco, já quase inteiro na água, endireitou-se de novo.

Meu pé sangrava, e eu não sentia. Não me importava com o navio, que já não tinha valor maior do que quaisquer garrafas de cerveja quebradas no barro, do que um cabo de aço qualquer serpenteado na lama. Não houve nenhuma dor, nenhuma alegria, nenhum alívio, nenhum sentimento de felicidade, nenhum som e tampouco um suspiro profundo. Era apenas a compreensão de uma grande inutilidade, ou, mais exatamente, eu tinha apenas penetrado de maneira mais profunda em seu misterioso reino. Vi como o navio, impelido de volta ao seu elemento, endireitou-se lentamente e suspirando. Hoje, quarta-feira, 4 de novembro de 1981, pouco depois do meio-dia, conseguimos transportar o navio do rio Camisea por cima de uma montanha até o rio Urubamba. Tudo o que se tem a relatar é isto : eu participei.”

Herzog aqui finaliza a sua narrativa, a memória registrada de uma das filmagens mais insanas da História do cinema, o diretor Werner Herzog consegue seu intento, a um custo de muito perigo, mas nada do que é feito de grandes conquistas é realizado sem uma enorme dose de perigo, a coragem de uma vida plena sempre corre o risco de dar muito errado, e se deu certo, tem um gosto bem doce de olhar e admirar a própria obra, pode ser esta a sensação do diretor de cinema Werner Herzog, que depois do alívio, sente o gozo de ser um realizador de sonhos e um conquistador do inútil.

(Fim da série sobre o livro Conquista do Inútil de Werner Herzog)

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/werner-herzog-a-conquista-do-inutil-parte-final