PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

ANA MARTINS MARQUES NA POESIA CONTEMPORÂNEA


“uma consciência poética bem trabalhada e madura”

Ana Martins Marques é uma poeta brasileira da cepa atual, e que vem de publicações bem sucedidas como A Vida Submarina de 2009, e aí veio Da Arte das Armadilhas de 2011, livro que venceu o prêmio Biblioteca Nacional de Literatura na categoria de poesia. E aqui venho falar de O Livro das Semelhanças, este livro que, por sua vez, foi lançado em 2015.
O seu livro de estreia A Vida Submarina tem um volume um pouco maior de poemas, pois soma um total de cento e dez poemas, todos de curta duração, uma lauda na média, livro este dividido em sete seções : Barcos de Papel, Arquitetura de Interiores, A Outra Noite, Episteme & Epiderme, Exercícios para a noite e o dia, Caderno de caligrafia, e a última seção, A vida submarina.
As temáticas de Ana aqui em A Vida Submarina já nos aparecem, que são a viagem e os mapas, a casa, o cotidiano, e o tema da própria poesia, que vai produzir um conteúdo de metapoesia. E, em um retorno ao lirismo de certa poesia contemporânea, depois de um distanciamento a partir da geração marginal dos anos 1970, temos este lirismo também presente na produção poética de Ana Martins Marques. Aqui, no entanto, já temos um lirismo herdado dos anos 1980 em diante, uma versão mais sóbria, a lírica entendida aqui como a manifestação subjetiva, depois de um desaparecimento deste sujeito durante boa parte da poesia do século XX.
Por sua vez, o estatuto do eu poético sofreu mutações diversas desde sua versão arrebatada e extática vinda do Romantismo, este sujeito exaltado que desaparece no Simbolismo e depois nas Vanguardas. E as versões aguadas, de uma subjetivação nauseante do Romantismo se tornou algo deslocado e datado. E na versão do sujeito na poesia contemporânea, por sua vez, neste retorno ao eu lírico, aqui se trata de uma versão que não cai em tentações melodramáticas ou de aflições de um sujeito sentimental no sentido de um transbordamento adjetivado ou exclamativo.
Portanto, a lírica contemporânea não é dada aos arroubos sentimentais de afetação romântica, aqui temos uma sobriedade de um sujeito que atua de modo discreto, a experiência do sujeito com o mundo, nesta versão de um lirismo contemporâneo, portanto, tem um modus operandi muito mais sutil do que as obviedades de um sujeito exaltado que parece o tempo todo colapsar através de sentimentos excessivos.
O lirismo contemporâneo usa uma subjetividade que mal se identifica, o eu lírico aqui tem um diálogo com o mundo com termos sóbrios de um observador atento, que conhece a vida cotidiana em suas exigências, e que, por conseguinte, se coloca em um lugar de entendimento direto, a subjetividade do poeta aqui tem uma certa veia mundana, observa, e quando sente, não cai em afetação ou numa versão forçada de aflições. O lirismo contemporâneo, por fim, ganha uma plasticidade comum que se aproxima da realidade vivida pelo leitor.
A dicção poética de Ana Martins Marques mantém este lirismo novo em seus livros posteriores. No livro Da Arte das Armadilhas temos um livro menor que seu debut, e que nos apresenta duas partes denominadas, a primeira, Interiores, e a outra, da arte das armadilhas, a primeira parte com dezessete poemas e a segunda parte com trinta e nove poemas. Aqui os temas de contraste entre o dentro e o fora são, por sua vez, os temas da casa e da viagem. E neste contraste, na jornada de Odisseu, temos Penélope, como o lugar familiar da casa, e Circe, a feiticeira, no tema da distância e da viagem.
Já em O Livro das Semelhanças temos um exercício bem interessante de metapoesia, e que dialoga e até introjeta várias influências poéticas, com a permanência dos temas do dentro e do fora. Aqui o tema de contraste é da própria estrutura do livro, portanto, a experiência metapoética aqui vai mais longe, temos sobretudo, em O Livro das Semelhanças, a experiência do livro.
Posso dizer, sem ter dúvidas, que como poeta, quando li este livro, tive a sensação de ter lido um dos livros de poemas mais bem pensados e organizados que já li, um leitmotiv de uma premeditação que juntou fragmentos em uma lógica única, como um grande bloco monolítico, a minha sensação é de ter feito um trajeto coerente, e que não se trata de uma premeditação estudada, no sentido pejorativo do termo, mas sim do produto acabado de uma consciência poética bem trabalhada e madura, e que aqui se chama tanto O Livro das Semelhanças, como a própria poeta Ana Martins Marques.
A temática do livro já começa em O Livro das Semelhanças, num sentido literal, com elementos tipográficos, com poemas com títulos como capa, título, dedicatória, e logo em seguida um poema intitulado “Ideias para um livro”, reforçando esta experiência do livro, para além da metapoética em si, um metalivro, se assim posso dizer, soando meio ridículo. E logo temos, depois desta introdução insólita, a primeira parte do livro, seção denominada “Livro”, que tem vinte poemas. E temos, em seguida, mais três seções, intituladas “Cartografias”, “Visitas ao lugar-comum” e o “O Livro das Semelhanças”. Partes estas que somam mais quarenta e nove poemas. E os temas-valise da poesia de Ana Martins Marques também aparecem em O Livro das Semelhanças, que são o mar, o mapa, com temas gregos e mitológicos também.

O LIVRO DAS SEMELHANÇAS

POEMAS :

IDEIAS PARA UM LIVRO : Ana Martins Marques nos dá a experiência do livro, no que segue : “Uma antologia de poemas escritos/por personagens de romance”. A imagem da antologia, e que vem insólita, poemas escritos por personagens de romance, um livro feito pela ficção, de um poema aqui imaginário, e segue a poeta : “Uma antologia de poemas—epitáfios”. Metapoesia em metalivro, a experiência insólita de estar fora ou vendo a estrutura do poema e do livro do lado de fora, desdobramento radical, mas que aqui, e isto é muito doido, se trata de um poema, e o estamos lendo, no que segue : “Uma antologia de poemas que citem/o nome dos poetas que os escreveram”. Citação, os livros, antologia e livro, cabedal que se dá em um único poema, um mundo literário concentrado na imagem deste livro de antologias, de poetas citados, um mundo vasto comprimido neste poema todo, tudo em um, no que segue : “Um livro de poemas/que sejam ideias para livros de poemas”. Segue aqui o poema numa metapoética insólita, a experiência desdobrada da poeta aqui é insana, reunião de ideias para um livro, e vem a coda, nos dar o próprio livro que lemos, O Livro das Semelhanças, no que temos, por fim : “Este livro de poemas”.

PARTE I – LIVRO :

PRIMEIRO POEMA : O poema fala do poema, metapoesia, no que temos : “O primeiro verso é o mais difícil/o leitor está à porta/não sabe ainda se entra/ou só espia/se se lança ao livro/ou finalmente encara/o dia”. E aí, quando o poema convida o leitor, temos a imagem do dia, que nos leva ao cotidiano, no que vem : "o dia : contas a pagar/correspondência atrasada/congestionamentos/xícaras sujas”. E a poeta é bem simples em sua estrofe final, num estribilho que conclui sem mais, tranquilizando o leitor : “aqui ao menos não encontrarás,/leitor,/xícaras sujas”.

SEGUNDO POEMA : O segundo poema desenvolve o primeiro, no que segue : “Agora supostamente é mais fácil/o pior já passou; já começamos/basta manter a máquina girando/pregar os olhos do leitor na página”. O poema vem para manter a atenção do leitor, um certo sentido de alerta nos dá o trabalho próprio do poeta para com o leitor, no que segue : “arrastando consigo/a embarcação que é este livro/torcendo pra que ele não o deixe”. O trabalho do poeta aqui se trata, portanto, de um exercício com o estado de atenção do leitor, e poderíamos dizer também, como não, de sedução, no que temos : “pra isso só contamos com palavras/estas mesmas que usamos todo dia”. Eis o ponto, a poeta diz, são palavras, no que segue : “escada que depois deitamos fora/aqui elas são tudo o que nos resta/e só com elas contamos agora”. O poema (e também o poeta) aqui sabe que pode descartar as palavras, se deita fora coisas inúmeras sem parar neste trabalho incessante, mas é com as palavras que o poeta sempre conta.

O ENCONTRO : Este poema interessante nos convida ao encontro, no que segue : “Combinamos de nos encontrar num livro”. O Livro das Semelhanças aqui com o tema do livro, sim, este livro, o livro do livro, a experiência literária aqui como a experiência do livro, aqui em sentido desdobrado, um metalivro, para usar um termo estrambótico, mas foi o que encontrei, mas, contudo, temos uma sequência formidável, no que segue : “combinamos de nos encontrar num mapa/depois da terceira dobra/entre as manchas de umidade/e a cidade circulada de azul”. O tema do mapa, estendendo o tema do livro para a visão do mundo, e o mundo que vira carta, o tema que vai encontrar no poema a visão, enfim, do cotidiano, no que temos : “combinamos de nos encontrar/na primeira carta/entre a frase estúpida em que reclamo da falta de dinheiro/e a única palavra escrita à mão” (...) “combinamos de nos encontrar/no jornal do dia, em algum lugar/entre os acidentes de automóveis/e as taxas de câmbio”. E o poema, então, na sua coda, faz a poeta dar o ponto de chegada da jornada deste poema, nos encontramos, ao fim, neste poema : “combinamos de nos encontrar/neste poema”.

NÃO SEI FAZER POEMAS SOBRE GATOS : O poema, inspirado na gatografia de Ana Cristina César, tem o nome da poeta inscrito, no que temos : “Não sei gatografia./Ana Cristina César”. E o poema, na tentativa falha de simular a experiência de Ana C. com a sua gatografia, é um desastre, o gato, ágil, escapa do poema, e as palavras fogem, Ana Martins Marques se diz incapaz de capturar o gato, e o poema vem : “Não sei fazer poemas sobre gatos/se tento logo fogem/furtivas/as palavras” (...) “não capturam do gato”. O poema segue seu caminho em demonstrar uma experiência falha, e a poeta, toda humilde, dá a coda, eis seu poema sobre gatos : “a folha recém-impressa/página branca com manchas negras :/eis o meu poema sobre gatos”.

BOA IDEIA PARA UM POEMA : O poema em sua experiência de metapoesia, vem : “Anotei uma frase num caderno/encontrei-a algum tempo depois/pareceu-me uma boa ideia para um poema/escrevi-o rapidamente”. A ideia aqui entra em conflito com sua originalidade, a poeta não se lembra de ter anotado isto de outro poema, ela parece lembrar que é uma citação, e seu poema entra em parafuso, no que segue : “logo depois me ocorreu que a frase anotada no caderno/parecia uma citação/pensei me lembrar que a copiara de um poema”. E a poeta pensa, se a frase lhe tivesse escapado da memória de que era uma cópia então esta frase seria dela ou não, uma pergunta insólita feita num poema de complexidade e desdobramento insanos, no que segue : “pensei : se eu não tivesse me lembrado de que a/frase não era minha/ela seria minha?/pensei : se eu me lembrasse onde li todas as frases/que escrevi/alguma seria minha?”. A poeta se aprofunda nesta pergunta nuclear, e pensa em se livrar do poema, fica em dúvida, também, se o poema é bom, e segue : “pensei : é um plágio se ninguém nota?/pensei : devo livrar-me do poema?/pensei : é um poema tão bom assim?”. A coda é de uma esperteza visceral, que conclui, de modo direto : “pensei : nem era um poema tão bom assim”.

POEMAS REUNIDOS : A poeta aqui nos brinda com versos bem humorados, tudo bem interessante, no que segue : “Sempre gostei dos livros/chamados poemas reunidos/pela ideia de festa ou de quermesse/como se os poemas se encontrassem”. Os poemas se reúnem, vivos, as imagens aqui se sucedem, numa enxurrada, se tratando da reunião dos poemas, no que segue : “como ex-colegas de colégio” (...) “como combatentes/numa arena/galos de briga” (...) “como ministros de estado/numa cúpula/ou escolares em excursão/como amantes secretos/num quarto de hotel/às seis da tarde”. Sinto, contudo, que a enumeração se torna excessiva, a criatividade da poeta aqui vira uma repetição enfadonha, um poema que começa interessante cai numa tentação meio tartamuda, o resultado poderia ter sido tão interessante quanto a sua abertura sensacional, mas ao fim a dicção gagueja.

POEMAS :

IDEIAS PARA UM LIVRO

I

Uma antologia de poemas escritos
por personagens de romance

II

Uma antologia de poemas-
-epitáfios

III

Uma antologia de poemas que citem
o nome dos poetas que os escreveram

IV

Uma antologia de poemas
que atendam às condições II e III

V

Um livro de poemas
que sejam ideias para livros de poemas

VI

Este livro
de poemas

PARTE I – LIVRO

PRIMEIRO POEMA

O primeiro verso é o mais difícil
o leitor está à porta
não sabe ainda se entra
ou só espia
se se lança ao livro
ou finalmente encara
o dia

o dia : contas a pagar
correspondência atrasada
congestionamentos
xícaras sujas

aqui ao menos não encontrarás,
leitor,
xícaras sujas

SEGUNDO POEMA

Para Paulo Henriques Britto
Agora supostamente é mais fácil
o pior já passou; já começamos
basta manter a máquina girando
pregar os olhos do leitor na página

como botões numa camisa ou um peixe
preso ao anzol, arrastando consigo
a embarcação que é este livro
torcendo pra que ele não o deixe

pra isso só contamos com palavras
estas mesmas que usamos todo dia
como uma mesa um prego uma bacia

escada que depois deitamos fora
aqui elas são tudo o que nos resta
e só com elas contamos agora

O ENCONTRO

Combinamos de nos encontrar num livro
na página 20, linhas 12 e 13, ali onde se diz que
privar-se de alguma coisa
também tem seu perfume e sua energia

combinamos de nos encontrar num mapa
depois da terceira dobra
entre as manchas de umidade
e a cidade circulada de azul

combinamos de nos encontrar
na primeira carta
entre a frase estúpida em que reclamo da falta de dinheiro

e a única palavra escrita à mão

combinamos de nos encontrar
no jornal do dia, em algum lugar
entre os acidentes de automóveis
e as taxas de câmbio

combinamos de nos encontrar
neste poema, na última palavra
da segunda linha
da segunda estrofe de baixo para cima

NÃO SEI FAZER POEMAS SOBRE GATOS

Não sei gatografia.
Ana Cristina César

Não sei fazer poemas sobre gatos
se tento logo fogem
furtivas
as palavras
soltam-se ou
saltam
não capturam do gato
nem a cauda
sobre a mesa
quieta e quente
a folha recém-impressa
página branca com manchas negras :
eis o meu poema sobre gatos

BOA IDEIA PARA UM POEMA

Anotei uma frase num caderno
encontrei-a algum tempo depois
pareceu-me uma boa ideia para um poema
escrevi-o rapidamente
o que é raro
logo depois me ocorreu que a frase anotada no caderno

parecia uma citação
pensei me lembrar que a copiara de um poema
pensei me lembrar que lera o poema numa revista
procurei em todas as revistas
são muitas
não encontrei
pensei : se eu não tivesse me lembrado de que a
frase não era minha

ela seria minha?
pensei : se eu me lembrasse onde li todas as frases
que escrevi

alguma seria minha?
pensei : é um plágio se ninguém nota?
pensei : devo livrar-me do poema?
pensei : é um poema tão bom assim?
pensei : palavras trocam de pele, tanto roubei por
[amor, em quantos e quantos livros já li
histórias sobre nós dois
pensei : nem era um poema tão bom assim

POEMAS REUNIDOS

Sempre gostei dos livros
chamados poemas reunidos
pela ideia de festa ou de quermesse
como se os poemas se encontrassem
como parentes distantes
um pouco entediados
em volta de uma mesa
como ex-colegas de colégio
como amigas antigas para jogar cartas
como combatentes
numa arena
galos de briga
cavalos de corrida ou
boxeadores num ringue
como ministros de estado
numa cúpula
ou escolares em excursão
como amantes secretos
num quarto de hotel
às seis da tarde
enquanto sem alegria apagam-se as flores do papel
de parede

Link recomendado : Prêmio Oceanos: 'O livro das semelhanças', de Ana Martins Marques : https://www.youtube.com/watch?v=MReAm-i-hlA

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

  


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XV


“a sabedoria universal rechaça qualquer plano fechado de futuro”

A vidência sempre veio como um fenômeno controverso, que atravessou milênios, e sem generalizar, temos o seu aspecto negativo, de charlatanismo, no qual aparecem um cabedal de truques, geralmente, no plano da linguagem, podemos inferir tais truques, sempre lidando com a generalidade da linguagem, a fonte predileta para os videntes mal intencionados jogarem a sua isca, como se diz no ditado popular “jogar um verde para colher maduro”.
O vidente charlatão consegue “descobrir” toda a sua vida de modo surpreendente, mas a vítima não sabe estar sendo engambelada por um farsante, caindo em truques baratos que qualquer pessoa com o mínimo de manejo da linguagem já percebe de antemão a cascata. Os poderes sobrenaturais do charlatão têm uma característica comum, alimenta clichês e obviedades e as carrega de sentido, para que sua presa fique realmente impressionada.
Umas das técnicas utilizadas é a sondagem visual, muito do olhar e da linguagem corporal do consulente, que muitas vezes entrega o ouro pela respiração, por um certo jogo de olhar ou por hesitações que o charlatão já “pesca” instantaneamente. Isso vale para a aparência do consulente também, seu modo de se vestir, que diz muito de seu gosto e origem social ou estamento específico. E seu estilo ao falar, seu comportamento, também são chaves de sinalização para o charlatão.
E temos também um truque aparentemente sofisticado, mas que, no terreno da linguagem, é de um acinte que seria hilário se não se tratasse de um golpe, que é o chamado Efeito Forer. Características psicológicas e de personalidade, todas estas genéricas, óbvio, são enumeradas ao consulente, normalmente mexendo com seu ego e vaidade, ou ainda com sua credulidade já com uma escuta predisposta que, a cada esgar do suposto vidente, os olhos do consulente brilham de uma certeza absoluta própria dos alucinados que se arrebentam na próxima esquina.
A intimidade de tais generalidades é que elas são continuidades previsíveis para descrever personalidades das mais diversas, mas sempre numa zona segura em que muito do que é dito pesca uma especificidade que esteja mergulhada nesta lista universal feita para enganar otários. Este é o Efeito Forer. É o que vemos muitas vezes no horóscopo, e também em consultas com médiuns, e adoramos.
Outra coisa típica de videntes charlatães é fazer uma investigação com o consulente, mas sempre com um viés de confirmação, são perguntas genéricas, mas já induzindo o consulente a “entregar o ouro”, mais uma vez do ditado popular “jogando um verde para colher maduro”, no qual o gancho discursivo leva o consulente a dizer, sem perceber, o que logo em seguida o charlatão “descobre”.
E falando de ego e vaidade, muitas vezes o charlatão usa o truque da excepcionalidade, colocando o consulente num lugar privilegiado, e por se tratar de alguém que veio se consultar para buscar algo, o vidente joga com o clichê do talento “não reconhecido”, o consulente se sente um eleito, mas que não tem o seu valor reconhecido, mas claro que o vidente sabe que ali na sua frente ele tem uma pessoa, digamos, “avant-garde”.
E nos truques de “visões” o vidente vai por tentativa e erro, até que o próprio consulente dá a deixa e o vidente nada de braçada. Ali é o momento supremo da “adivinhação”, dali para a frente o vidente toca de ouvido e o consulente se emociona. Outro truque próprio para pegar otários é a apropriação do que está sendo dito pelo consulente, a “mágica” é simples, o consulente faz uma afirmação, e o vidente termina esta afirmação já abrindo uma resposta na qual o consulente cai que nem um pato, aqui mais uma vez o viés de confirmação ganha ares de perversidade psicológica. Aqui a técnica do charlatão é bem conhecida em Filosofia, a dedução lógica.
E o truque principal, para evitar denúncias de consulentes desiludidos, é que as mensagens recebidas do “astral” têm um valor diferente para cada pessoa, então a exegese final das mensagens deve ser feita pelo próprio consulente, no decorrer dos acontecimentos, e caso se decepcione, não é culpa do vidente que, a esta altura, já consumiu a sua cervejinha de sexta-feira sossegado, com o dinheiro do consulente incauto.
E temos um truque sofisticado, mas de fácil desmascaramento, que é o registro de previsões feitas por videntes em cartório. Quando temos uma tragédia, sempre aparece um vidente de plantão afirmando que fez tal “previsão”, e que tem o documento comprobatório. Uma carta registrada em cartório se torna a prova material da previsão do vidente, mas é um truque.
O primeiro aspecto hilário da situação é que o tal “vidente” só divulga a sua “profecia” após a tragédia, nunca antes. Mas, peraí, ele não tem a prova em cartório? Como assim? Simples, sempre que o vidente registra as suas previsões em cartório, nos documentos que ele forja sempre têm espaços em branco para preenchimento posterior, que são (jura?) as informações principais.
Para um esclarecimento sério, sobre a cultura oracular, que tem muitas pessoas responsáveis e gabaritadas, e que não podem ser confundidas com a banda podre, temos que a vidência não tem o papel de prever o futuro, pois isto seria uma interferência no livre-arbítrio, portanto, o que temos são direções, indicações, orientações, o vidente sério deve estar consciente de seu verdadeiro propósito, que é de preparar o consulente para seus eventos futuros, mas não de prevê-los.
Preparar, portanto, significa dar a melhor direção possível para que o consulente tenha êxito, e não olhar para uma bola de cristal e dizer tudo que irá ocorrer em sua vida, os eventos aqui são vislumbrados de modo simbólico, nunca como uma certeza cega própria daqueles que acham que são visionários, mas que na verdade estão participando de uma alucinação própria da convicção divinatória dos farsantes. O saber oracular verdadeiro aqui tem mais caráter operacional do que de desvelar exatamente o que vai acontecer.
O vidente cônscio de sua missão verdadeira, nunca é um profeta, no sentido pejorativo do termo, ele preserva a livre determinação do consulente intacta para que ele faça as suas escolhas, pois a sabedoria universal rechaça qualquer plano fechado de futuro.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




quinta-feira, 3 de outubro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XIV

“O proselitismo católico é a maior deformação do trabalho realizado pelo Padre Quevedo na parapsicologia”

O jesuíta espanhol Oscar González Quevedo, mais conhecido como Padre Quevedo, foi um dos mais destacados parapsicólogos do Brasil, figura midiática, contestador e também contestado, pois ao mesmo tempo que desbaratava inúmeras mistificações, com destaque às fraudes espíritas, também foi questionado em suas teses, sobretudo na sua associação de uma pseudociência como a parapsicologia, a inserindo no campo doutrinário católico, pois Quevedo, ao mesmo tempo em que refutava diversos fenômenos espirituais, referendava os milagres reconhecidos pela Igreja Católica oficialmente.
Lembre-se que a parapsicologia estuda fenômenos de cunho supostamente sobrenatural como a telepatia, a telecinese, a precognição e a clarividência. Contudo, a pretensão da parapsicologia em se afirmar cientificamente esbarra em ceticismo, sobretudo dos físicos, estes que possuem conhecimento dos fenômenos da natureza e contestam invariavelmente as interpretações da parapsicologia e suas bases que os físicos dizem não ter relação com o método e os experimentos científicos, para muitos dos físicos não há comprovação material dos fenômenos descritos pela pseudociência da parapsicologia.
Foi durante o século XIX que surgiu a parapsicologia, que teve como precursora a metapsíquica, mas a parapsicologia se consolidou mesmo no início do século XX, com contribuições do botânico Joseph Banks Rhine e do psicólogo William McDougall, a colocando num campo de conhecimento psíquico, ou seja, como uma nova linha da psicologia. As pesquisas e os métodos empregados para interpretação e comprovação de fenômenos extra-sensoriais não demoraram para serem contestados pela comunidade científica.
Dentro deste campo de tentativas de comprovação de fenômenos sobrenaturais não podemos nos esquecer da conhecida tentativa da CIA em plena Guerra Fria de empreender um grande esforço e utilizar estes conhecimentos a serviço de suas espionagens, por exemplo, no intuito fantástico de criar um grupo de espiões paranormais, para se antecipar aos movimentos e estratégias da União Soviética. Depois de quase duas décadas tal programa foi cancelado, pois não teve resultados.
Uma parte considerável da comunidade científica se incomoda com a utilização, por parte de parapsicólogos, de conceitos e conhecimentos científicos para explicar fenômenos sobrenaturais, esta relação entre ciência e parapsicologia, portanto, teria, na verdade, um caráter de pseudociência. Como nos afirma a professora e pós-doutora do Instituto de Física da USP, Marina Nielsen : “Essas pessoas citam um monte de gente com livros sem nenhuma equação, o que é errado. A física usa a matemática como linguagem para interpretar qualquer fenômeno, e não por palavras”.
Como exemplo de tal apropriação sem fundamentos temos a obra A Física da Alma, livro do físico e ex-professor da Universidade de Oregon, Amit Goswani, considerado um místico pela comunidade científica, em que o autor faz um desfile extenso de fenômenos parapsicológicos, mas sem usar, em nenhum momento, equações ou fórmulas, apenas um conjunto de reflexões e desenhos descritivos.
Por sua vez, os escritos e o trabalho de Padre Quevedo são bem divulgados e conhecidos na Espanha e na América Latina. Sua obra sempre reuniu um grande conjunto de reflexões, apoiada por uma vasta documentação, sempre com o fito de desfazer confusões e esclarecer sobre diversos pontos dos fenômenos paranormais. Contudo, muito de sua documentação para a feitura de suas obras, apresentam, muitas vezes, distorções, apropriações e às vezes até falácias.
Somente no livro "As Forças Físicas da Mente" vemos contradições sobre o médium Guzik, e ao passo que afirma que as irmãs Fox são uma fraude, mais na frente referenda a veracidade do que elas produziam ao concordar com o cientista Crooks, quando este se refere aos fenômenos de tiptologia. Quanto à ectoplasmia, Padre Quevedo afirma que tal substância chamada de ectoplasma só tem a capacidade de formar figuras rudimentares e parciais.
Padre Quevedo afirma que os componentes do Círculo Minerva, grupo de cientistas que se reuniam para fazer experimentos com a médium italiana Eusapia Palladino, eram todos espíritas declarados. Mas temos que o professor Porro e o cientista Morselli não eram espíritas, inclusive Morselli é atacado como anti-espírita por Sir Lombroso, e outros dos membros do Círculo Minerva só se converteram ao Espiritismo após estas sessões, e não antes.
Quanto à afirmação de que Crooks abandonara o Espiritismo rapidamente em seus estudos, é conhecido o fato de que Crooks morreu acreditando na doutrina e nos fenômenos do Espiritismo. E temos na obra do Padre Quevedo, apesar das inúmeras incoerências e contradições de versões, uma obra que apresenta um vasto conhecimento da História da Parapsicologia, mas a distorção documental de Quevedo compromete, mas o mais grave em sua obra é um tipo de distorção ideológica, fazendo do pretenso cientificismo da Parapsicologia, já ferozmente acusado de pseudo-científico, um panegírico de tintas católicas.
O proselitismo católico é a maior deformação do trabalho realizado pelo Padre Quevedo na parapsicologia, e sua forma categórica de afirmações ainda ganha a vestimenta de uma argumentação autoritária, fundada em certezas inabaláveis, o que resulta numa intolerância à divergência, transformando uma pseudo-ciência como a parapsicologia em afirmação católica de um padre jesuíta, mais do que de um pesquisador dos fenômenos paranormais.

Link recomendado : https://www.youtube.com/watch?v=6boC3a4GVzs (Padre Quevedo X Lúcifer - Fantástico (2000))

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O CIRCO

No trapézio eu vejo
os saltos mortais
de corpos soltos,
a liberdade do salto
em seu canto
de coreografia,

entre os malabares,
a habilidade burilada
com força e afinco,

os palhaços, estes médicos
da alegria, nos brindam
em risos e sorrisos,

e temos equilibristas e
contorcionistas,
que fazem as suas
com mestria,

o mágico que nos dá
a ilusão da vida
que é o sonho
e o divertimento,

passam todos os sonhos,
o circo fica a nos dar
a alegria de viver
como um lenitivo
das dores profundas.

30/09/2019 Gustavo Bastos

CORAÇÃO BRILHOSO

Sente passar em seu coração
o ritmo de uma nuvem,
pois do azul caribe
em seu passo montês
sussurra a febre.

A moça com seus cachorros,
e um gatil infernal
que mia de madrugada
espasmos e orgias.

Leva em seu sonho
este brilho de panteão,
como uma sábia
que também
é louca.

30/09/2019 Gustavo Bastos

ARRUMAÇÃO DA POESIA

Os objetos da casa se juntam
aos montes :
comprei uma mesinha
e tenho muitos livros,
uma epopeia se insinua
defronte ao espelho,
a poesia épica briga
com um romance amarelado,

bom, e entre os discos,
vejo um hendrix pedindo
para ser ouvido mais
uma vez, again and again!

nos altares, buda se refestela
entre nossa senhora
e duendes loucos,

saio de mansinho de minha toca,
e declaro à vida das ruas
estes mistérios que guardo
em meus delírios
de poeta.

30/09/2019 Gustavo Bastos

AS COISAS ETERNAS

Sei de coisas imorredouras
que faz da campanha da luta
os girassóis do surto,
e como sóis em loucura,
ficam tontos e morrem
vivem delirantes.

Se estas coisas eternas
são enumeradas em infinito,
o sonho as derrete
e vira delírio,
este delírio vermelho
que pinta de rubro
seu debrum de sangue,
este delírio que tem
em si sua fuga
e encontro,
uma filosofia
do eterno.

30/09/2019 Gustavo Bastos