PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE VII

“Hemingway tem um estilo seco, sem exageros ou paramentos”

HEMINGWAY E NÓS

Temos em Hemingway uma crueza que tem a direção literária realista de uma narrativa que se estende como um tipo de atitude de escritor que revela um empenho prático, que tem sentido tanto técnico como moral, e que, nas palavras de Calvino, eram também uma “limpidez de olhar, de recusa a contemplar-se e lamentar-se, de presteza em captar um ensinamento de vida”.
Hemingway tem um estilo seco, sem exageros ou paramentos, não faz enxertos no texto, diz direto, ligado junto às coisas mesmas que se nos apresenta, e que, para Calvino “O herói de Hemingway quer identificar-se com as ações que executa, ser ele mesmo na soma de seus gestos, na adesão a uma técnica manual ou pelo menos prática, trata de não ter outro problema, outro empenho além de saber fazer bem uma coisa”.  
Tal empenho prático dos heróis hemingwaianos também acusa algo lateral, que é o fato de que o derredor que inclui o existencial e questões como a morte, por exemplo, são objetos de fuga da reflexão de tal personagem tão ligado direto às coisas, no seu labor, como um mundo mecânico que gira na obrigação de ser a força, e a fuga é também desta inutilidade de tudo, e das imagens estáticas do desespero e da derrota.
Logo, tal herói se lança à prática da vida e do trabalho, ao movimento, sem criar o limo que é a lástima e a lamúria dos que se fincam no desvio da contemplação. O que para Calvino é nada mais que o fato do herói em Hemingway ser este que “Concentra-se na estrita observância de seu código, daquelas regras desportivas que em todos os lugares ele sente necessidade de impor a si com o empenho de regras morais”. E que, por fim, Calvino acusa, “Aferra-se àquilo, pois fora daquilo existe o vácuo, a morte”.
Hemingway não tem o temperamento filosófico, ele não faz filosofia, se muito, se mete com a filosofia pragmática norte-americana, ligada à concepção de estrutura, que lida com o ambiente humano comum das atividades e do mundo prático, e que assim como o neopositivismo apresenta um sistema fechado de regras para cumprir, tais que refletem a orientação do pensamento, e temos, igualmente, do lado de Hemingway,  seus heróis e a obediência destes a um código bem definido de ética desportiva, que é o lugar seguro para um mundo que é, na verdade, misterioso, tal mistério que é evitado por tais sistemas fechados de vida e de pensamento.  
Contudo, em Hemingway temos uma espécie de vacuidade do diálogo, e que nele é um caráter pausado e divagante da fala, que lembra os desvios dos diálogos que estavam presentes em Tchekhov, por exemplo, e temos assim a insensatez do mundo convulsionado presentes em tais autores, o desespero da vida contemporânea de Hemingway já nos aparece em seu Fiesta de 1926, que é o desfile de turistas, erotômanos e beberrões.
Por sua vez, enquanto os pequeno-burgueses de Tchekhov sucumbem na prática, mas conseguem manter uma ideia de dignidade, ainda almejando um mundo reformado e ideal, cheio de esperança, os americanos sem raízes de Hemingway, por sua vez, se lançam sem proteção num mundo cruel e feito de massacres, mas tais personagens têm o interesse em dominar uma habilidade qualquer, em fazer bem uma coisa, em ser eficientes, virtudes que dão satisfação pessoal, mas que estão diante de um mundo em que reina a desolação, a morte e a guerra.  Mas este é o fato crucial, Hemingway marca território numa moral antifascista, e para Calvino “porém aceita o massacre como cenário natural do homem contemporâneo”.
Para Calvino, portanto, o ponto nevrálgico da obra deste escritor é condensada na seguinte afirmação: “Ter sentido a guerra como a imagem mais verdadeira, como a realidade normal do mundo burguês na idade imperialista, foi a intuição fundamental de Hemingway”. E Calvino nos descreve a origem de tudo em Hemingway: “Aos dezoito anos, antes ainda da intervenção americana, só pelo gosto de ver como era a guerra, conseguiu atingir o front italiano, de início como motorista de ambulância, depois como diretor de uma cantina, fazendo a ligação de bicicleta entre as trincheiras do Piave (E quanto da Itália ele entendeu, e como já na Itália de 1917 soube ver o rosto “fascista” e o rosto popular contrapostos e os representou, em 1929, no mais belo de seus romances, A farewell to arms)”.
Muito se especula se tal atração pelo cenário de guerra tenha sido influência de Tolstoi, mas a descrição que Hemingway faz da guerra já não tem nada mais a ver com a de Tolstoi, pois, para Calvino, “Hemingway antecipa aquilo que será o espírito do soldado americano na Europa”. Por fim, Calvino conclui que “Hemingway compreendeu alguma coisa sobre como se está no mundo de olhos abertos e enxutos, sem ilusões nem misticismos, elaborou um estilo que exprime de forma completa a sua concepção da vida”.

JORGE LUIS BORGES

Temos em Borges o resgate de um mundo governado pelo intelecto, e este atua como a ideia literária da obra borgiana, contra o domínio da exploração do inconsciente na massa caótica do mundo da literatura mundial do século XX, num acúmulo progressivo de uma linguagem que já nos aparecia em saturação psicológica. Borges que acompanha neste privilégio do intelecto uma minoria que incluía Paul Valéry, num movimento que Calvino vai chamar de “revanche da ordem mental sobre o caos do mundo”.
Em Borges se descobre, em toda a sua obra, a potência que nos leva ao esforço deste escritor em criar e dar forma a um mundo igual ao que é o intelecto, com um conjunto de signos em que reine uma geometria rigorosa de temas, ações e direções, numa narrativa que tenha uma métrica concatenada que leve a este mundo estável que é o espaço de elaboração que faz todo intelecto.
E chegando ao ato de escrita em si, em Borges temos toda uma economia de expressão, pois Borges ficará bem conhecido como um dos mestres da escrita breve, sobretudo como contista sui generis que foi. Em seus textos breves ele condensa um manancial de sugestões, caminhos, com fatos narrados e outros aventados, portas de entrada e de saída para vários lados que se entrecruzam numa geometria e com a perícia deste escritor que se comporta como um poliedro, e que nos leva, nas palavras de Calvino, para “aberturas vertiginosas para o infinito”.  
Borges realiza tal texto de uma densidade que não implode, não sucumbe, não sofre congestão, com o domínio de clareza necessário, embora em um espaço narrativo exíguo, com texto sóbrio e com espaços de movimento, e que demonstram, para Calvino “como o narrar sinteticamente e enviesado conduz a uma linguagem toda precisão e concretude, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, dos adjetivos sempre inesperados e surpreendentes, isso é um milagre estilístico, sem igual na língua espanhola, de que só Borges tem o segredo”.
E Calvino nos descreve como e quando se deu o insight mais importante da obra borgiana, no que temos: “Para escrever breve, a invenção fundamental de Borges, que foi também a invenção de si mesmo como narrador, o ovo de Colombo que lhe permitiu superar o bloqueio que o impedia, até cerca de quarenta anos, de passar da prosa ensaística para prosa narrativa, fingiu que o livro que desejava escrever já estivesse escrito, escrito por um outro, por um hipotético autor desconhecido, um autor de uma outra língua, de uma outra cultura, e descreveu, resumiu, resenhou esse livro hipotético”.
Borges tem a faculdade de duplicar e multiplicar cada texto seu, e isso na imagem de uma biblioteca imaginária e real ao mesmo tempo, em que figuram obras clássicas, eruditas e outras simplesmente inventadas, Borges eleva a sua literatura ao quadrado, literatura potencial, em que muito se guarda em crisálida, uma literatura de conteúdo sugestivo, que abre um mundo e um abismo, que se multiplica com gestos que colocam a narrativa como um sinal de sinais, como um conto que é uma resenha, como um texto que abre outros conteúdos imaginários ou eruditos, mas sem fazer distinção de ambos, jogando-os no mesmo caldeirão em que a plena geometria borgiana ganha vida literária. E que Calvino nos diz que “cujos prenúncios podem ser encontrados em Ficciones, nos estímulos e formas daquelas que poderiam ter sido as obras de um hipotético Herbert Quain”.
E Calvino encerra aqui o périplo borgiano, quando nos diz: “Esses núcleos míticos ou arquetípicos, que provavelmente podem ser reduzidos a um número finito, se destacam contra o fundo desmesurado dos temas metafísicos mais caros a Borges. Em cada texto, por todos os meios, Borges fala do infinito, do inumerável, do tempo, da eternidade ou da presença simultânea ou da dimensão cíclica dos tempos. E aqui retomo o que dizia antes sobre a máxima concentração dos significados na brevidade dos seus textos. Concepção do tempo múltiplo é cara a Borges porque é aquela que reina na literatura, ou melhor, é a condição que torna a literatura possível”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35022/17/por-que-ler-os-classicos-italo-calvino01
 
       


domingo, 23 de julho de 2017

CRUZ E SOUSA – BROQUÉIS E FARÓIS – PARTE I

“um dos mais conhecidos representantes da poesia simbolista brasileira”

No cenário progressivo da literatura brasileira, mais especificamente na linha do tempo da poesia brasileira, Cruz e Sousa é mais um destes escritores e poetas que teve mais a glória póstuma do que uma fortuna crítica em vida, e foi postumamente que o ilustre poeta do simbolismo ganhou a luta contra muitos dos seus detratores.
Cruz e Sousa, por sinal, teve em vida uma obra errática, que se resumia a uma parte de Tropos e Fantasias, ao volume de prosa Missal e ao volume de versos Broquéis. Após sua morte, já temos, ainda em 1898, Evocações, que não aparece com as 500 páginas prometidas no noticiário, mas 394, o que já rendia bons frutos póstumos de um poeta que teve muitas dificuldades em vida.
No contexto do movimento simbolista, estilo de poesia criticado por ser invariavelmente palavroso, mas vazio de substância, isto é, uma poesia muito escorreita na forma, mas que tinha pouca densidade de significado, pois era uma poesia sugestiva, extremamente metafórica, e de temática por vezes etérea, como forma e sentido. Cruz e Sousa, por sua vez, tem uma biografia heroica, filho de escravos, negro, e que recebe boa educação de seu ex-senhor, mesmo nascido num contexto provinciano, poeta que floresceu de forma incrível, portanto.
E na sua biografia também temos à frente um cenário de dificuldades, uma situação desesperadora, cheio de filhos para criar, com um mísero emprego de extra-numerário na Central do Brasil, escrevendo a poesia luxuriante do simbolismo em meio de uma casa paupérrima, e que ainda tinha o poeta uma esposa que era louca, para, por fim, morrer o poeta heroico de tuberculose, sina dos poetas. Ele é, no entanto, um dos mais conhecidos representantes da poesia simbolista brasileira, um mestre desta poesia de cunho sugestivo, um dos pontos culminantes da lírica brasileira.  
Por sua vez, com o empenho de seu amigo Nestor Victor, o livro Faróis vem a lume em 1900, como um volume de 184 páginas. Por fim, também foi de responsabilidade deste amigo a impressão em Paris, do livro Últimos Sonetos. Na publicação de Faróis, Nestor Victor diz que guarda “algumas peças de prosa e verso a mim confiadas pela piedosa viúva do poeta.”
No entanto, considera que não valeria a pena publicá-las, “por serem uns trabalhos modernos que, no entanto, ele retirou das coleções a que os destinava a princípio, outras produções antigas, dos primeiros tempos da formação do seu talento, completamente destoantes da obra definitiva”. Contudo, mais tarde, tais produções tiveram grande parte divulgadas numa edição popular do Instituto do Livro, organizada por Andrade Muricy, este que considerou tal material como de mesma qualidade do restante da obra de Cruz e Sousa.

POEMAS:

ANTÍFONA : O poema, sonoro, vai com a forma clara, a dança sensorial do poema tem início, e temos um Cruz e Sousa abrindo seus Broquéis com propriedade: “Ó Formas alvas, brancas, Formas claras/De luares, de neves, de neblinas! ...” (...) “Formas do Amor, constelarmente puras,/De Virgens e de Santas vaporosas ...” (...) “Indefiníveis músicas supremas,/Harmonias da Cor e do Perfume ...” (...) “Infinitos espíritos dispersos,/Inefáveis, edênicos, aéreos,/Fecundai o Mistério destes versos,/Com a chama ideal de todos os mistérios.”. O poema mergulha nos mistérios, imaginação febricitante do mundo etéreo do simbolismo, e que segue: “Que brilhe a correção dos alabastros/Sonoramente, luminosamente./Forças originais, essência, graça/De carnes de mulher, delicadezas ...” (...) “Desejos, vibrações, ânsias, alentos/Fulvas vitórias,”. E o poema com veia adjetivada, prorrompe, numa orgia sonora e de imagens: “Flores negras do tédio e flores vagas/De amores vãos, tantálicos, doentios .../Fundas vermelhidões de velhas chagas/Em sangue, abertas, escorrendo em rios .../Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,/Nos turbilhões quiméricos do Sonho,/Passe, cantando, ante o perfil medonho/ E o tropel cabalístico da Morte ...”. O poema lida o tempo todo com a faculdade misteriosa do mundo, o simbolismo que toma forma enunciando a sugestão de uma fantasmagoria como a forma sublime da poesia.

LÉSBIA : O poema tem um tom todo vermelho, selvagem, carnívoro, planta demoníaca e que em lascivo canto é também báquico: “Cróton selvagem, tinhorão lascivo,/Planta mortal, carnívora, sangrenta,/Da tua carne báquica rebenta/A vermelha explosão de um sangue vivo./Nesse lábio mordente e convulsivo,/Ri, ri risadas de expressão violenta/O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,/A morte, o espasmo gélido, aflitivo .../Lésbia nervosa, fascinante e doente,/Cruel e demoníaca serpente/Das flamejantes atrações do gozo./Dos teus seios acídulos, amargos,/Fluem capros aromas e os letargos,/Os ópios de um luar tuberculoso ...”. O luar em ópio tuberculoso e a imagem dileta do amor trágico, cume do simbolismo no caudaloso rio poético de Cruz e Sousa.

TORRE DE OURO : O poema tem todo um jogo imagético em que se desfraldam as bandeiras, leitmotiv destes versos de simbolismo puro: “Desta torre desfraldam-se altaneiras,/Por sóis de céus imensos broqueladas,/Bandeiras reais, do azul das madrugadas” (...) “São pavilhões das hostes fugitivas,/Das guerras acres, sanguinárias, vivas,/Da luta que os Espíritos ufana./Estandartes heroicos, palpitantes,/Vendo em marcha passar aniquilantes/As torvas catapultas do Nirvana!”. E tais imagens que evocam a cena de guerra e batalhas em que o poema evoca a sua potência.

A DOR : O poema se abre com tom plangente, em que o simbolismo de tais versos explodem, num rito sonoro e imagético em que a torrente é de lágrimas e de poesia na sua maior potência: “Torva Babel das lágrimas, dos gritos,/Dos soluços, dos ais, dos longos brados,/A Dor galgou os mundos ignorados,/Os mais remotos, vagos infinitos./Lembrando as religiões, lembrando os ritos,/Avassalara os povos condenados,/Pela treva, no horror, desesperados,/Na convulsão de Tântalos aflitos.” (...) “As gerações vão todas proclamando/A grande Dor aos frígidos espaços .../E assim parecem, pelos tempos mudos,/Raças de Prometeus titâneos, rudos,/Brutos e colossais, torcendo os braços!”. E a dor aqui, ao fim, é a batalha do homem com o mundo, raças de prometeus, estes que dão ao humano o poder e sucumbem diante da brutalidade dura do universo e sua nêmesis por vezes cega e incompreensível.

LUA : Este poema sugere as mil faces da lua, e que a poesia, inteira, canta este sonho lunar em todas as suas nuances, e que Cruz e Sousa, o poeta, lhe aproveita tais feições inumeráveis, no que temos: “Surgindo a Lua nebulosa e leve .../Névoas e névoas frígidas ondulam ...” (...) “Vagam baladas e visões e lendas/No florido noivado das Alturas .../E fria, fluente, frouxa claridade/Flutua como as brumas de um letargo .../E erra no espaço, em toda a imensidade,/Um sonho doente, cilicioso, amargo .../Da vastidão dos páramos serenos,/Das siderais abóbadas cerúleas/Cai a luz em antífonas, em trenos,/Em misticismos, orações e dúlias ...”. As visões lunares são canções que prorrompem da pena febricitante do poeta que registra tudo na mestria de sua pena: “E a Lua vai clorótica fulgindo/Nos seus alperces etereais e brancos,/A luz gelada e pálida diluindo/Das serranias pelos largos flancos .../Ó Lua das magnólias e dos lírios!” (...) “Quando ressurges, quando brilhas e amas,/Quando de luzes a amplidão constelas,/Com os fulgores glaciais que tu derramas/Dás febre e frio, dás nevrose, gelas .../A tua dor cristalizou-se outrora/Na dor profunda mais dilacerada/E das dores estranhas, ó Astro, agora,/És a suprema Dor cristalizada! ...”. O frio e a dor se cristalizam aqui, com o poema lunar e suas febres e sonhos.

SATÃ : O poema satânico nos dá seu canto tétrico, no que temos: “Capro e revel, com os fabulosos cornos/Na fronte real de rei dos reis vetustos,/Com bizarros e lúbricos contornos,/Ei-lo Satã entre os Satãs augustos.”. A besta é bem apresentada, e segue seu périplo, e o poema conflui radiante com a pena poética que sonha: “Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,/À púrpura das glórias flamejantes .../Alarga as asas de relevos bravos .../O Sonho agita-lhe a imortal cabeça ...”.

POEMAS:

DO LIVRO “BROQUÉIS”

ANTÍFONA

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas! ...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas ...
Incensos dos turíbulos das aras ...

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas ...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dotências de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume ...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Requiem do Sol que a Dor da Luz resume ...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes ...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos,
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente ...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas ...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas ...

Cristais diluídos de clarões álacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos ...

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios ...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios ...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte ...

LÉSBIA

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo ...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso ...

TORRE DE OURO

Desta torre desfraldam-se altaneiras,
Por sóis de céus imensos broqueladas,
Bandeiras reais, do azul das madrugadas
E no íris flamejante das poncheiras.

As torres de outras regiões primeiras
No Amor, nas Glórias vãs arrebatadas,
Não elevam mais alto, desfraldadas,
Bravas, triunfantes, imortais bandeiras.

São pavilhões das hostes fugitivas,
Das guerras acres, sanguinárias, vivas,
Da luta que os Espíritos ufana.

Estandartes heroicos, palpitantes,
Vendo em marcha passar aniquilantes
As torvas catapultas do Nirvana!

A DOR

Torva Babel das lágrimas, dos gritos,
Dos soluços, dos ais, dos longos brados,
A Dor galgou os mundos ignorados,
Os mais remotos, vagos infinitos.

Lembrando as religiões, lembrando os ritos,
Avassalara os povos condenados,
Pela treva, no horror, desesperados,
Na convulsão de Tântalos aflitos.

Por buzinas e trompas assoprando
As gerações vão todas proclamando
A grande Dor aos frígidos espaços ...

E assim parecem, pelos tempos mudos,
Raças de Prometeus titâneos, rudos,
Brutos e colossais, torcendo os braços!

LUA

Clâmides frescas, de brancuras frias,
Finíssimas dalmáticas de neve
Vestem as longas árvores sombrias,
Surgindo a Lua nebulosa e leve ...

Névoas e névoas frígidas ondulam ...
Alagam lácteos e fulgentes rios
Que na enluarada refração tremulam
Dentre fosforescências, calafrios ...

E ondulam névoas cetinosas rendas
De virginais, de prônubas alvuras ...
Vagam baladas e visões e lendas
No florido noivado das Alturas ...

E fria, fluente, frouxa claridade
Flutua como as brumas de um letargo ...
E erra no espaço, em toda a imensidade,
Um sonho doente, cilicioso, amargo ...

Da vastidão dos páramos serenos,
Das siderais abóbadas cerúleas
Cai a luz em antífonas, em trenos,
Em misticismos, orações e dúlias ...

E entre os marfins e as pratas diluídas
Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,
Com grinaldas de roxas margaridas
Vagam as Virgens de cismares ermos ...

Cabelos torrenciais e dolorosos
Boiam nas ondas dos etéreos gelos.
E os corpos passam níveos, luminosos,
Nas ondas do luar e dos cabelos ...

Vagam sombras gentis de mortas, vagam
Em grandes procissões, em grandes alas,
Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
Opulências de pérolas e opalas.

E a Lua vai clorótica fulgindo
Nos seus alperces etereais e brancos,
A luz gelada e pálida diluindo
Das serranias pelos largos flancos ...

Ó Lua das magnólias e dos lírios!
Geleira sideral entre as geleiras!
Tens a tristeza mórbida dos círios
E a lividez da chama das poncheiras!

Quando ressurges, quando brilhas e amas,
Quando de luzes a amplidão constelas,
Com os fulgores glaciais que tu derramas
Dás febre e frio, dás nevrose, gelas ...

A tua dor cristalizou-se outrora
Na dor profunda mais dilacerada
E das dores estranhas, ó Astro, agora,
És a suprema Dor cristalizada! ...

SATÃ

Capro e revel, com os fabulosos cornos
Na fronte real de rei dos reis vetustos,
Com bizarros e lúbricos contornos,
Ei-lo Satã entre os Satãs augustos.

Por verdes e por báquicos adornos
Vai cr`oado de pâmpanos venustos
O deus pagão dos Vinhos acres, mornos,
Deus triunfador dos triunfadores justos.

Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,
À púrpura das glórias flamejantes ...
Alarga as asas de relevos bravos ...

O Sonho agita-lhe a imortal cabeça ...
E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa
Canta-lhe a juba dos cabelos flavos!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35012/17/cruz-e-sousa-e-mais-destes-escritores-que-teve-mais-a-gloria-postuma-do-que-fortuna-critica-em-vida


           


sábado, 22 de julho de 2017

WILLIAM BLAKE, MAIS POEMAS

“temos enfim o ingresso da poesia de William Blake em temas mais metafísicos e imaginativos”

AS MUDANÇAS NA POESIA DE WILLIAM BLAKE

William Blake tem em suas obras posteriores uma mudança de orientação em relação à composição de seus poemas, a esperança revolucionária concreta de seus primeiros trabalhos, como podemos ver em Revolução Francesa e Canção de Liberdade, dá lugar a um clima mais dominado pela imaginação do que pela luta direta de ideais políticos, este mundo com demandas concretas e reais sai de cena, e temos enfim o ingresso da poesia de William Blake em temas mais metafísicos e imaginativos como a visão profética e o perdão, como uma nova utopia mais profunda que a dos temas políticos, renovação visionária da poesia de William Blake que seria direcionada a abrir as portas da percepção, o leitmotiv mais conhecido de seu legado poético e literário.
Essa nova orientação poética e temática estará já presente em seus poemas-profecia como América e Europa. Pois, depois de suas primeiras obras, Blake realiza a confecção de dois grandes ciclos que recebem pela crítica os títulos de Poemas Continentais e Livros de Urizen. Temos no primeiro ciclo poemas como América, uma profecia, seguido de Europa, uma profecia e A Canção de Los, poema este que, por sua vez, se divide em duas partes, que são África e Ásia. Se em América temos um Blake esbanjando otimismo, em Europa o poeta-pintor vai à dúvida e à desilusão, continuando tal estado de espírito em A canção de Los.
A mais que discutida razão do silêncio literário de William Blake a partir de 1795, que só veio a ser rompido uma década mais tarde, pode ser interpretada como efeito da aprovação naquele mesmo ano dos Dois Atos Constitucionais de William Pitt contra discursos e escritos revolucionários, o que foi de encontro às ambições revolucionárias e de propagação de ideais políticos da primeira fase da obra de Blake. E tal silêncio só acaba quando nos aparece a publicação de Milton em 1804, e neste ínterim, com Blake se dedicando antes desta publicação, durante cerca de dez anos, à composição do épico Vala ou Quatro zoas, poema este que não chegou a ser finalizado por Blake.  
Depois de uma revolução individual em Milton, o ponto final do projeto de transformação de Blake se dá em seu último poema, Jerusalém, já na fase em que a revolução social e histórica ou ainda política, presentes em sua primeira fase, é agora neste poema a consumação de um projeto espiritual, em sua manifestação poética, com a cidade ideal que daria fim às diferenças sociais, esta cidade sendo a Jerusalém mítica e utópica por excelência, muito diferente da Londres que conhecera e da Paris da qual o poeta tinha uma ideia. O projeto político termina em Blake com a cidade ideal, agora a consumação de um poeta conhecido como vidente e visionário, o poeta das portas da percepção, com a sua poesia da imaginação e que culmina como projeto espiritual.

POEMAS :

À ESTRELA VÉSPER : O poema é um tema dedicado ao vulto estelar, primeiro ser que desponta no céu noturno, Vênus bem conhecida dos poetas delirantes, no que Blake nos diz: “Tu, anjo noturno de alva cabeleira,/Agora, enquanto o sol se inclina sobre a colina, inflama/Teu reluzente lume, coloca a radiante coroa/E sorri sobre o leito da noite!”. A ação estelar sui generis desta estrela planetária ilumina a noite, e o poema segue: “Fala em silêncio com os teus luminosos olhos/Banha de prata o crepúsculo e de repente/Te retiras enquanto enfurece o lobo,”. Bate em retirada, a estrela vésper, e o poema dá enfim um tom espiritual ao tema, com a ideia cara de proteção: “Os velos de nossos rebanhos recobriram-se/Com o teu sagrado orvalho;/Protege-os com os teus sutis sortilégios.”.

AO VERÃO : O poema solar se abre com a visão de Blake da tenda dourada, eis o Verão, o sol em que as flamas se arrojam, e as narinas respiram e sopram no poema, que vem: “Ó tu, que percorres nossos vales, com/Tua força, detém teus violentos corcéis, amaina as/flamas,/Que se arrojam por suas imensas narinas! Tu, Ó Verão,/Várias vezes aqui erguestes tua tenda dourada,”. A voz do Verão ecoa, e Blake segue a sua descrição vidente: “Nas paragens mais sombrias, muitas vezes escutamos/Tua voz, quando o sol sobre seu carro abrasador,/Percorre as profundezas do céu;”. Os bardos enfim aparecem, como célebres intérpretes da canção deste verão solar, e a canção é sobretudo de prazer: “Nossos bardos, que tangem a corda de prata, são famosos” (...) “Não nos faltam canções ou instrumentos de prazer,/Nem doces ecos, nem águas claras como o céu/Nem coroas de louros frente teu calor sufocante.”.

À PRIMAVERA : A primavera nos encanta, sua imagens são as mais ricas para a poesia e fonte das delícias infinitas para o poeta, a descrição de Blake é perfeita, da estação mais poética em que o poema segue: “Ó tu com anéis úmidos de orvalho, que contemplas/Por entre os claros vitrais da manhã, volve/Teus olhos angélicos à nossa ilha ocidental,/Que repleta de coros saúda tua vinda, ó Primavera!”. O poema saúda a vinda da primavera, e o poema segue: “Descobre as colinas do Leste, e deixa nossos ventos/Beijar tuas perfumadas vestes; Deixa-nos degustar/Teu alento da manhã e da noite; esparge tuas pérolas/Sobre nossa terra carente de amor que por ti chora.”. O amor da primavera vem preencher o vazio da terra, e assim tal terra é coroada com o perfume da primavera, que aqui é alento, lenitivo, e uma suprema alegria: “espalha/Teus ternos beijos sobre seu seio; coloca/Tua coroa dourada sobre sua lânguida cabeça,/Cujos cachos modestos foram feitos para ti!”.

INTRODUÇÃO DE CANÇÕES DA EXPERIÊNCIA : O poema é curto e direto, e o bardo ecoa a sua voz, que é bem delineada neste poema, no que temos: “Ouça a voz do Bardo!/Que vislumbra as Imagens;/E cujos ouvidos têm escutado/O Verbo Sagrado/Pelas remotas paragens,”. O poema segue, e finaliza, com o romper do dia, no que vem: “O chão estrelado/A imensa costa/São seus até romper o dia.”.

CANÇÃO LOUCA : O poema é um lamento de Blake, ecoa o vento, ele quer este sopro e a agonia aparece também, no que temos: “O vento selvagem chora,/E a noite é tão fria;/Ó sono, vem sem demora,/E abraça minha agonia;”. A desventura também eclode, e o poema segue seu rumo: “Cheias de desventuras/Minhas notas são levadas:/Batem nos ouvidos das noites escuras,/Os olhos dos dias lacrimejam/Enlouquecem os ventos que rugem,/E com as tormentas pelejam.” (...) “Persigo a noite neste instante,/E com a noite vou embora;”. Enfim, o poeta, todo angustiado, segue a noite como seu instante poético, sua canção louca que se encerra aqui.

POEMAS:

À ESTRELA VÉSPER

Tu, anjo noturno de alva cabeleira,
Agora, enquanto o sol se inclina sobre a colina, inflama
Teu reluzente lume, coloca a radiante coroa
E sorri sobre o leito da noite!
Sorri sobre nossos encantos enquanto recolhes
As cortinas azuis do céu, esparge teu argênteo orvalho
Sobre cada flor que cerra ao sono seus doces olhos,
Deixa que o vento do oeste adormeça sobre o lago
Fala em silêncio com os teus luminosos olhos
Banha de prata o crepúsculo e de repente
Te retiras enquanto enfurece o lobo,
E o leão o escuro bosque espreita:
Os velos de nossos rebanhos recobriram-se
Com o teu sagrado orvalho;
Protege-os com os teus sutis sortilégios.

AO VERÃO

Ó tu, que percorres nossos vales, com
Tua força, detém teus violentos corcéis, amaina as
flamas,
Que se arrojam por suas imensas narinas! Tu, Ó Verão,
Várias vezes aqui erguestes tua tenda dourada, pois
muito
Temos dormido sob nossos carvalhos, contemplando
Com alegria teus rubros membros e tua opulenta
cabeleira.

Nas paragens mais sombrias, muitas vezes escutamos
Tua voz, quando o sol sobre seu carro abrasador,
Percorre as profundezas do céu; Na beira de nossas fontes
de um cristalino regato, despe tua túnica de
Seda e lança-te à corrente:
Nossos vales veneram o Verão em sua glória.

Nossos bardos, que tangem a corda de prata, são famosos
Nossa juventude é mais audaz que a do sul
Nossas donzelas são mais vivazes nas danças alegres
Não nos faltam canções ou instrumentos de prazer,
Nem doces ecos, nem águas claras como o céu
Nem coroas de louros frente teu calor sufocante.

À PRIMAVERA

Ó tu com anéis úmidos de orvalho, que contemplas
Por entre os claros vitrais da manhã, volve
Teus olhos angélicos à nossa ilha ocidental,
Que repleta de coros saúda tua vinda, ó Primavera!

As colinas contam umas às outras, os atentos
Vales escutam, nossos olhos ardentes elevam-se
A teus resplandecentes pavilhões: Vem,
Deixa teus pés sagrados percorrerem nossa terra.

Descobre as colinas do Leste, e deixa nossos ventos
Beijar tuas perfumadas vestes; Deixa-nos degustar
Teu alento da manhã e da noite; esparge tuas pérolas
Sobre nossa terra carente de amor que por ti chora.

Ó, veste-a com teus dedos encantados; espalha
Teus ternos beijos sobre seu seio; coloca
Tua coroa dourada sobre sua lânguida cabeça,
Cujos cachos modestos foram feitos para ti!

INTRODUÇÃO DE CANÇÕES DA EXPERIÊNCIA

(fragmento)

Ouça a voz do Bardo!
Que vislumbra as Imagens;
E cujos ouvidos têm escutado
O Verbo Sagrado
Pelas remotas paragens,

“Não mais se afasta;
E por que se afastaria?
O chão estrelado
A imensa costa
São seus até romper o dia.”

CANÇÃO LOUCA

O vento selvagem chora,
E a noite é tão fria;
Ó sono, vem sem demora,
E abraça minha agonia;
Mas olha! Chega a manhã
Ao leste sobre a montanha,
E os pássaros cantores da aurora
A terra desdenham agora.

Olha! Pelas alturas
Do céu azuladas,
Cheias de desventuras
Minhas notas são levadas:
Batem nos ouvidos das noites escuras,
Os olhos dos dias lacrimejam
Enlouquecem os ventos que rugem,
E com as tormentas pelejam.

Qual demônio esvoaçante
Que na nuvem, uiva e chora,
Persigo a noite neste instante,
E com a noite vou embora;
Darei as costas ao nascente,
Onde o consolo é crescente;
Pois a luz agarra minha mente
Com uma dor lancinante.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/34931/17/william-blake-mais-poemas




domingo, 9 de julho de 2017

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE VI

“Conrad logo entra para a marinha mercante inglesa”

HENRY JAMES, “DAISY MILLER”

Daisy Miller saiu em revista em 1878 e, como livro, em 1879. E esta narrativa é uma das poucas ou a única de Henry James que conquistou logo um sucesso popular, uma vez que a obra deste escritor tem uma característica de ser evasiva, em que muito do que se diz guarda também uma parcela do não-dito, e que em Daisy Miller isso se quebra um pouco, pois este texto tem uma clareza em que se apresenta a personagem título como uma moça cheia de vida, representando os ideais da jovem América, e com uma estória que se passa na Europa, tal que é o velho continente como o lugar em que se confronta esta América nas personagens que nos aparecem como turistas na Suíça e em Roma.
Tais personagens americanos estão imersos numa Europa que pende entre sugestões de cultura e uma certa nobreza e ao mesmo tempo com uma sujeira imoral de um mundo promíscuo, e aqui tudo nos aparece com tais personagens que também estão numa distância das razões práticas que orientam o comportamento, e o resultado moral é nada mais que tais personagens se fundam num mundo de conveniências, num cuidado puritano fruto da insegurança da situação em que se encontram.
E como nos diz Calvino, já sobre a trama: “O rigorismo – americano ou europeu – é representado pela tia de Winterbourne que não por acaso decidiu morar na Genebra calvinista e por mrs. Walker, que é um pouco a contrapartida da tia, imersa na mais indolente atmosfera romana. Os emancipados são a família Miller, expeditamente à deriva numa peregrinação europeia imposta a eles como dever cultural inerente ao seu status: uma América provinciana, talvez de novos milionários de origem plebeia,” e temos, por fim, Daisy, como vai pontuar Calvino, “a única que consegue realizar-se como personalidade moral autônoma.”  
Por fim, o mundo do mal que é apontado em James aparece em Daisy como uma disputa de sua alma, primeiro pelo mordomo Eugenio, depois pelo romano Giovanelli, que aparece como um caçador de dotes, e temos enfim o fantasma da malária que estava arrebatando meio mundo, e em Roma era o miasma que cerca a estória de Henry James. E Calvino, ao fim, faz a sua análise sintética da trama de James, quando nos diz: “O pior veneno das intrigas com que os americanos da Europa castigam a família Miller é uma alusão contínua e obscura ao mordomo que viaja com eles e que – na ausência de mr. Miller – exerce uma autoridade não bem definida sobre mãe e filha.”
E segue Calvino : “Os leitores de A outra volta do parafuso sabem quanto o mundo dos empregados domésticos pode encarnar para James a presença informe do “mal”.” Temos que, ao fim da estória, a malária é a estranha entidade mediterrânea que vai ceifar a vida de Daisy Miller, num sacrifício de uma personagem que não havia se submetido nem ao puritanismo de seus compatriotas, e nem tampouco ao paganismo nativo. Há então o holocausto no Coliseu, e os miasmas são tão etéreos quanto o espírito narrativo que se esfumaça na escrita de Henry James que, como dito, guarda muito do não-dito como algo que está ainda assim quase à superfície, e isto numa narrativa em que temos mais clareza do que a narrativa habitual do autor.

OS CAPITÃES DE CONRAD

Joseph Conrad morreu em 3 de agosto de 1924 com 66 anos, vinte dos quais passou navegando e outros trinta escrevendo, e teve sucesso literário ainda em vida, mas a crítica europeia lhe deu um grau maior justamente após a sua morte, quando, por exemplo, saiu em dezembro de 1924 um número da Nouvelle Revue Française dedicado inteiramente a ele, com textos de Gide e Valéry.
E temos então a imagem de um homem que reunia um aspecto duplo e ao mesmo tempo de duas profissões que vão se revelar complementares, indissociáveis no quesito que lhe faz ter sentido, pois Joseph Conrad é um contraste no qual se tinha a experiência de vida prática e movimentada da marinha mercante, de um lado, e o talento inconteste de romancista popular, aqui juntando a herança de Flaubert, com a sofisticação da forma, e também ecos da dinastia decadentista da literatura mundial.
O caráter do escritor Joseph Conrad será o de um autor de aventuras, e que nos diz numa literatura renovada a trama que envolve lugares extraordinários, e que coloca Calvino, por exemplo, em relação à arrumação de sua biblioteca particular, num dilema que diz muito da situação da crítica literária diante do autor, e temos Calvino se digladiando na sua estante, quando nos diz: “Na minha estante ideal, Conrad tem lugar garantido junto com o aéreo Stevenson, que é quase o seu oposto, como vida e estilo. Contudo, mais de uma vez estive tentado a deslocá-lo para outra prateleira – com acesso mais difícil para mim -, a dos romancistas analíticos, psicológicos, dos James, dos Proust, dos recuperadores incansáveis de cada migalha de sensações vividas; ou até na dos estetas mais ou menos malditos, à maneira de Poe, tomados de amores transpostos; quando também as suas obscuras inquietudes de um universo absurdo não o remetam para a divisória – ainda não bem-ordenada e selecionada – dos “escritores da crise”.”
E Calvino, enfim, se decide: “Porém, conservei-o sempre lá, ao alcance da mão, com Stendhal que com ele se parece tão pouco, com Nievo que não tem nada a ver com ele. Porque, mesmo sem acreditar em muitas coisas dele, sempre acreditei que fosse um grande capitão e que inserisse em seus contos aquela coisa que é tão difícil de escrever: o sentido de uma integração com o mundo conquistada na vida prática, o senso do homem que se realiza nas coisas que faz, na moral implícita no trabalho, no ideal de saber estar à altura da situação, tanto na coberta dos veleiros quanto numa página.”
Temos no trabalho detalhado o espírito da narrativa de Conrad, pois O espelho do mar, por exemplo, é uma coletânea de prosas sobre temas de marinhagem, no qual se reúne a técnica dos desembarques e das partidas, as âncoras, os velames, o peso da carga, e mais coisas da navegação, num apuro técnico em que a narrativa ganha em correção e objetividade e evita o esteticismo ou a afetação retórica, que só aparece ao fim quando Conrad exalta a tão famosa superioridade naval inglesa, mas que ainda assim mantém o fundo no qual se faz a narrativa conradiana, que é o reflexo fiel de um mundo objetivo, prático, mundo que Conrad conheceu e trabalhou, que é o do mar e dos navios.  
Por sua vez, Conrad era inglês por escolha, e na história literária é um hóspede ilustre da literatura inglesa, pois nasceu polonês, mas Conrad logo entra para a marinha mercante inglesa, para depois despontar na literatura inglesa como escritor aventureiro, e na sociedade inglesa ele não se inseriu por crença religiosa e nem assimilou suas tradições familiares, mas sim fez sua entrada pelo mundo do trabalho feito no mar, como um capitão-gentleman.
Com Lord Jim, que de capitão passa a comerciante, temos a galeria das personagens conradianas em que figuram traficantes europeus imersos nos trópicos que vão povoar os romances de Conrad, mundo real no qual o autor travou conhecimento prático quando, por exemplo, fez a sua experiência naval no arquipélago malaio, e na narrativa que ele ergue temos esta tensão na qual temos, de um lado, a etiqueta aristocrática do oficial de marinha, e de outro, a degradação dos aventureiros falidos.
Conrad, por sua vez, tem revelada esta tensão, pois o escritor viveu num período de transição do capitalismo e do colonialismo britânico: a passagem da navegação a vela para a era do vapor. Portanto, seu mundo real e literário era o da civilização, como nos diz Calvino, “dos veleiros dos pequenos armadores, um mundo de clareza racional, de disciplina no trabalho, de coragem e dever contrapostos ao mesquinho espírito de lucro”. Então, para Conrad, o novo mundo dos navios a vapor das grandes companhias levava suas personagens aos dilemas entre se trair ou lutar contra o avanço do capital, sonhando quixotescamente ou sendo empurrado para um lugar despersonalizado de burocratas coloniais, tais como as sobras humanas da Europa, retratadas pela narrativa conradiana, que passaram a se reunir nas colônias, figuras decadentes às quais Conrad contrapõe os aventureiros românticos como Tom Lingard.
Temos na narrativa conradiana a confiança na força humana, e sem qualquer veia de rigor filosófico, pois o ambiente de cosmovisão era este em que se confrontavam a queda de um mundo de otimismo racional burguês diante de uma espécie de limbo no qual tínhamos terreno fértil para a eclosão do irracionalismo e do misticismo. E como nos diz Calvino, por fim: “Conrad via o universo como algo obscuro e inimigo, mas a ele contrapunha as forças do homem, sua ordem moral e coragem. Perante uma avalanche negra e caótica que lhe vinha em cima, uma concepção do mundo repleta de mistérios e desesperos, o humanismo ateu de Conrad resiste e finca os pés.”

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/34846/17/italo-calvino-por-que-ler-os-classicos-3



WILLIAM BLAKE, AMÉRICA E MILTON

“A poesia de William Blake tem este caráter duplo histórico e mítico”

A poesia de William Blake, sobretudo a que se inicia na década de 1790, nos apresenta sua ideia de revolução, e que consiste primeiramente numa descrição histórica e social que vai retratar uma insurreição política, tal como vemos no poema Revolução Francesa. E a partir do poema Uma canção de liberdade tal tendência se altera por se orientar agora por uma alegoria mítica, e então, quando Blake compõe poemas como América e Europa, o poeta já está numa configuração ambivalente de construção e elaboração de seu conteúdo poético que transita, portanto, entre uma noção positiva e negativa desta tendência revolucionária.  
De modo diverso de seu despótico personagem Urizen, William Blake se via diante de pensadores radicais, estes que viviam a reação à revolução francesa, e que mesmo Blake sendo bem conhecido (ou vulgarmente conhecido) como aquele poeta-pintor místico, retratado por alguns biógrafos como o poeta das visões de anjos, demônios e profetas do velho testamento, Blake era um poeta plenamente consciente dos confrontos pelos quais passava a sociedade europeia e inglesa, e das vicissitudes decorrentes da revolução industrial em curso.  
Um equívoco comum, portanto, decorrente desta visão de Willliam Blake como uma espécie de místico como foi um de seus mestres, Swedenborg, o objetivo do poeta-pintor não era uma renúncia do mundo, como sugeriram alguns de seus críticos mais desavisados, abordando temas clichês da poesia de Blake como a sua loucura, seu pendor visionário, ou seu misticismo, mas sim Blake tinha um verdadeiro programa de reforma do mundo, num plano tanto social como poético. E tal plano só foi modificado para um sentido mais mental do que social após a frustração do poeta com os caminhos da revolução pelas mãos de Danton e de Robespierre, fase nova em que aparecem poemas épicos como Milton e Jerusalém.  
Portanto, neste abandono da referência histórica direta, Blake ganha força poética, e se dedica a criar um grande sistema mítico de complexidade simbólica e artisticamente potente, e entre 1794 e 1795, por exemplo, Blake comporia dois ciclos de livros na forma de dramas ou pequenos épicos, estes que seriam veículos nos quais o poeta-pintor elabora suas figuras divinas que recriam antigos mitos cosmogônicos, assim como estados dicotômicos da mentalidade humana.  
William Blake passa, então, a erigir um sistema, com suas personagens míticas, num processo de revelação de estruturas de ascensão e queda dos meios de dominação política ou religiosa, num esforço de mapear a revolução numa complexa rede de mitologia com caráter simbólico e alegórico, colocando no mesmo esquema divindades obscuras e personagens históricos, estes últimos que, por sua vez, traçavam linhas constantes de ação, e que eram uma repetição histórica como espécies de arquétipos sociais específicos.  
A poesia de William Blake tem este caráter duplo histórico e mítico, e que exige de seu intérprete uma visão primeiro alegórica, e depois contextualizada historicamente, e no extremo deste exercício de exegese teríamos então o sentido simbólico da poesia de Blake, sobretudo quando se trata de suas obras posteriores como Vala ou Jerusalém, onde podemos ver temas como o binômio queda/ascensão ou a relação entre o homem e o cosmos que vai nortear o último Blake destes trabalhos finais.

POEMAS:

AMÉRICA (fragmentos) : O poema se abre no contexto das figuras históricas, e a imagem do fogo irrompe, sob a forma de flamas, no que temos: “Washington, Franklin, Paine & Warren, Allen,/Gates & Lee,/Envoltos pelas ardentes flamas vislumbraram as/terríveis hordas que dos céus surgiam./Escutaram o brado retroante do Anjo de Albion,/E a peste sob as suas ordens emergiu das nuvens,/Precipitando-se sobre a América como uma/tenebrosa tormenta.”. Albion e a América, e a tormenta que tudo envolve, eis: “Sombrio estava o céu & inóspita a terra;” (...) “A Fúria! A Ira! A Loucura, como um furacão/assolaram a América./E as rubras flamas de Orc rugiram feéricas entre/as praias, e a multidão tumultuada./Os cidadãos de Nova York fecharam seus livros/& trancaram seus cofres;/Os marinheiros de Boston ancoraram seus/barcos e os descarregaram./O escrivão da Pensilvânia arrojou sua pena ao/chão/E o pedreiro da Virgínia, apavorado, atirou ao/longe seu martelo.”. O povo das cidades se retrai diante do feérico Orc, com suas rubras flamas, e a América está sucumbida, e a imagem poética agora é clara: “A América já sem esperanças foi bruscamente/tragada pelo Atlântico,” (...) “Contra os Anjos de Albion: Logo a Pestilência/alastrou suas rubras estrias,/Nos membros dos Guardiões de Albion. A/praga atingiu o Espírito de Bristol/E a lepra o Espírito de Londres deixando caídas/suas legiões.” (...) “O Guardião de Albion contorcia-se nos céus”. Albion também sofre, e o poema não pede clemência, apenas descreve a sua visão infernal, no que temos, como um documento alegórico de um mundo real: “Jaziam sobre a neve o Guardião de Londres e o/venerável Mitrado de York,” (...) “A peste alastrava-se velozmente pelas ígneas/correntezas conduzidas pelas flamas de Orc/E pelas hordas de ferozes americanos que/corriam impetuosamente pela noite,/Até os Guardiões da Irlanda, Escócia & Gales.”. O Bardo diante do inferno total de Orc, se esconde na gruta, quando se vê: “Nos recônditos meandros de suas grutas, tomado/pela peste, escondia-se o Bardo de Albion.” (...) “Pelas cidades, vales e montes, ardiam as rubras/flamas:/Derretiam-se os céus de norte a sul; e Urizen,/sentado/Entre trovões, pairando sobre os céus, erguia/sua cabeça coberta/Pelas chagas da lepra,/De sua sagrada ermida. E suas lágrimas/precipitavam-se torrenciais,/Sobre os vórtices do sublime abismo,” (...) “Contra as hordas derrotadas, plenas de/lágrimas & trêmulas de frio.”. E Urizen, reinando soberano, sobre as hordas derrotadas.

MILTON : O poema é um esquema complexo de lógica mitológica, ao livre sabor poético de William Blake, que neste poema cria um sistema do mundo, com todos os seus vórtices, é uma espécie engenhosa de cosmologia embebida na mitologia que, por sua vez, vira poesia nas visões puras do poeta-pintor, no que temos: “Esta é a Natureza do infinito:/Todas as coisas possuem seus próprios Vórtices,/e quando um navegante da Eternidade/Passa este Vórtice, percebe que ele turbilhonante/gira para trás/E torna-se uma esfera que se engloba a si mesma/como o sol, a lua, ou como um firmamento de/constelada magnitude”. Temos quase uma gênese das esferas, mito de criação, cosmogonia, pois, e o poema com grandes proporções, uma enormidade megalomaníaca nas ideias que contém, no que segue: “A terra é uma planura infindável, e não como/aparece/Ao ignóbil transeunte confinado às sombras da/lua./O céu é um Vórtice já há muito transpassado;/A terra, um Vórtice ainda intocado pelos/navegantes da Eternidade.”. E o Homem, com suas dimensões, também nos aparece neste poema que sonha abarcar a totalidade do mundo: “E os quatro estados da tranquila Humanidade/em seu Repouso/Foram-lhe então mostrados. Primeiro o de/Beulah, o gostoso Sono” (...) “O Segundo Estado é Alla & o terceiro Al-Ulro./Mas o quarto, o fantástico, é denominado Or-/Ulro./O Primeiro localiza-se na Cabeça, o Segundo/no Coração/O Terceiro nos vasos seminais e o Quarto,/No Estômago e Intestinos, terrível, letal e/indescritível./E aquele, cujos Portais se abrem nessas regiões/do Corpo,/Pode nestes Portais vislumbrar estas/deslumbrantes Imaginações.”. O corpo, num mapeamento místico, meio parecido com um mapa de chacras, tem aqui a imagem do Homem, que em seu próprio corpo tem chaves cósmicas e portais para este infinito que abre o poema como chave mestra, no que o poema segue: “Outros Filhos de Los engendram Momentos &/Minutos & Horas/E Dias & Meses & Anos & Eras,” (...) “E cada Momento possui um Leito de ouro/destinado ao suave repouso,” (...) “Cada minuto detém uma tenda de sedosos Véus/azuis:/E em cada Hora estende-se um Portal de ouro” (...) “Cada Dia & Noite possui brônzeas Muralhas &/Umbrais de diamante” (...) “Em cada Mês ergue-se um alto Terraço de pisos/de prata.” (...) “Em cada Ano, imponentes Muralhas de gigantescas/Torres/Cada Era rodeia um profundo Poço com pontes/de prata & ouro;/E cada período de Sete Eras é circundado por/Iridescentes Flamas./Sete Eras equivalem a Duzentos anos./Tudo tem seu Guardião, cada Momento, Minuto,/Hora, Dia, Mês & Ano;/São criações das Mágicas mãos dos quatro/elementos;/Os Guardiões são Anjos da Providência em/perpétuo dever./Toda fração de Tempo menor que um pulsar de/artéria/Equivale a Seis Mil Anos./Pois neste Ciclo é criada a obra do Poeta, e nele/os Grandes/Eventos do Tempo se iniciam e são concebidos/No fulcro de um instante, Pulsação arterial./O céu é uma Tenda Eterna erguida pelos Filhos/de Los;”. Por fim, William Blake retrata as divindades do tempo, e os ciclos e eras entram no jogo, mais simbólico que isso, impossível, pois o reino das alegorias adora a imagem das eras, no que o tempo se torna largo e bem estruturado, suas divisões são dadas pelas divindades, o reino da terra aqui é dos deuses, e o infinito é o portal da percepção aberto, este desiderato da poesia de William Blake.

POEMAS:

AMÉRICA

(1793)

Fragmentos

O Poema “América”, que retrata a Guerra de Independência americana, cuja descrição apocalíptica poderá hoje parecer-nos a antevisão profética de uma explosão nuclear, pertence ao ciclo de poemas revolucionários escritos por Blake. Deste ciclo fazem parte outros poemas como “Europa” e “A Revolução Francesa”.
O Espírito visionário e rebelde de Blake o identificará sempre às forças libertárias, esta energia poderosa & solene que, como um turbilhão de fogo, assolará eternamente a opressão. Esta força transmutadora é no poema “América” representada por Orc, o Guardião do Eterno Fluxo, cujos fogos alastrar-se-ão através da América e Inglaterra.

AMÉRICA

(fragmentos)

Washington, Franklin, Paine & Warren, Allen,
Gates & Lee,
Envoltos pelas ardentes flamas vislumbraram as
terríveis hordas que dos céus surgiam.
Escutaram o brado retroante do Anjo de Albion,
E a peste sob as suas ordens emergiu das nuvens,
Precipitando-se sobre a América como uma
tenebrosa tormenta.
Como a peste que ceifa os milharais recém-
surgidos.
Sombrio estava o céu & inóspita a terra;
Assim como os gafanhotos que devastam os
campos,
Assim como as vagas do maremoto que varrem
as costas.
A Fúria! A Ira! A Loucura, como um furacão
assolaram a América.
E as rubras flamas de Orc rugiram feéricas entre
as praias, e a multidão tumultuada.
Os cidadãos de Nova York fecharam seus livros
& trancaram seus cofres;
Os marinheiros de Boston ancoraram seus
barcos e os descarregaram.
O escrivão da Pensilvânia arrojou sua pena ao
chão
E o pedreiro da Virgínia, apavorado, atirou ao
longe seu martelo.
*
A América já sem esperanças foi bruscamente
tragada pelo Atlântico,
E a terra perdeu mais uma porção de Infinito;
Coléricas, as hordas precipitaram-se em meio à
noite.
Enfureciam as purpúreas flamas! A peste
retrocedia para irada investir-se
Contra os Anjos de Albion: Logo a Pestilência
alastrou suas rubras estrias,
Nos membros dos Guardiões de Albion. A
praga atingiu o Espírito de Bristol
E a lepra o Espírito de Londres deixando caídas
suas legiões.
As multidões em delírio gritavam desesperadamente,
despojando-se de suas armaduras forjadas,
Desnudas, ao chão arremessavam suas espadas
& lanças.
O Guardião de Albion contorcia-se nos céus do
este,
Pálido, volvendo para cima seus luminosos
olhos, rangendo os dentes,
Trêmulo & uivante agitava as pernas fremendo
cada músculo e tendão.
Jaziam sobre a neve o Guardião de Londres e o
venerável Mitrado de York,
Suas frontes sobre os montes nevados e suas
insígnias desfaleciam aos ventos.
A peste alastrava-se velozmente pelas ígneas
correntezas conduzidas pelas flamas de Orc
E pelas hordas de ferozes americanos que
corriam impetuosamente pela noite,
Até os Guardiões da Irlanda, Escócia & Gales.
Atormentados pela Peste, abandonaram suas
fronteiras e estandartes calcinados
Pelos fogos infernais, detratavam os céus ancestrais
com vergonha & dor.
Nos recônditos meandros de suas grutas, tomado
pela peste, escondia-se o Bardo de Albion.
Um capuz carnoso cobriu-lhe o rosto & terríveis
escamas alastraram-se por suas costas;
Encobertos pelas negras escamas, seus Anjos
assolaram os céus ancestrais.
Abriram-se então os portais do casamento, e os
sacerdotes protegidos com suas crepitantes escamas,
Correm às tocas, escaparam rapidamente das
chamas de Orc,
Que em redemoinho giravam ao redor das
abóbadas douradas qual turbilhantes anéis de fogo de
desejo,
Desnudando as fêmeas, e abrasando-se com os
ardores juvenis.
*
Pois os espíritos femininos dos mortos,
languidescendo nos laços da religião,
Reanimaram-se & libertaram-se dos pesados
grilhões & suspensas em imensos arcos,
Sentiam ressurgir os ardores juvenis e os
ardores dos tempos antigos,
Nos seus lívidos membros qual videiras ao
surgir das tenras uvas.
*
Pelas cidades, vales e montes, ardiam as rubras
flamas:
Derretiam-se os céus de norte a sul; e Urizen,
sentado
Entre trovões, pairando sobre os céus, erguia
sua cabeça coberta
Pelas chagas da lepra,
De sua sagrada ermida. E suas lágrimas
precipitavam-se torrenciais,
Sobre os vórtices do sublime abismo, cobertas
por neves cinzentas
E faces trovejantes; Suas asas debatiam-se sobre
o abismo;
Uivante em prantos, arrojou-se uivante e
sombrio,
Contra as hordas derrotadas, plenas de
lágrimas & trêmulas de frio.

MILTON

(1804-1808)

Fragmentos

“Se as portas da percepção se purificassem, cada coisa
apareceria ao homem tal como é, infinita.”

                                                                 William Blake
Em “Milton”, o Espírito deste grande poeta regressa à terra para cumprir sua verdadeira missão poética, e então aproxima-se de Blake, a fim de inspirá-lo.
Neste poema, o Cosmos configura-se como um Éden central, ao redor do qual encontra-se Beulah, plano onde as almas repousam. Em seguida precipita-se o Abismo, e mais além Ulro, o tenebroso Caos.

MILTON

Esta é a Natureza do infinito:
Todas as coisas possuem seus próprios Vórtices,
e quando um navegante da Eternidade
Passa este Vórtice, percebe que ele turbilhonante
gira para trás
E torna-se uma esfera que se engloba a si mesma
como o sol, a lua, ou como um firmamento de
constelada magnitude
Entretanto prossegue em sua maravilhosa
trajetória pela terra,
Ou como forma humana, um amigo com o qual
conviveu-se benevolentemente.
O olho humano, seu Vórtice abarcando,
vislumbra o leste & o oeste
O Norte & o sul, com suas vastas legiões de estrelas
O sol surgente e a lua no fulcro do horizonte
Os seus milharais e vales de quinhentos alqueires
A terra é uma planura infindável, e não como
aparece
Ao ignóbil transeunte confinado às sombras da
lua.
O céu é um Vórtice já há muito transpassado;
A terra, um Vórtice ainda intocado pelos
navegantes da Eternidade.
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E os quatro estados da tranquila Humanidade
em seu Repouso
Foram-lhe então mostrados. Primeiro o de
Beulah, o gostoso Sono
Sobre os sedosos leitos ao suave modular das
melodias e das Flores de Beulah
Doces formas Femininas aladas ou flutuantes no
cristal do ar.
O Segundo Estado é Alla & o terceiro Al-Ulro.
Mas o quarto, o fantástico, é denominado Or-
Ulro.
O Primeiro localiza-se na Cabeça, o Segundo
no Coração
O Terceiro nos vasos seminais e o Quarto,
No Estômago e Intestinos, terrível, letal e
indescritível.
E aquele, cujos Portais se abrem nessas regiões
do Corpo,
Pode nestes Portais vislumbrar estas
deslumbrantes Imaginações.
*
Outros Filhos de Los engendram Momentos &
Minutos & Horas
E Dias & Meses & Anos & Eras, deslumbrantes
palácios;
E cada Momento possui um Leito de ouro
destinado ao suave repouso,
(Um Momento equivale à pulsação de uma
artéria)
Entre dois Momentos encontra-se uma filha de
Beulah.
Que nutre os que Dormem com cuidados
maternais.
Cada minuto detém uma tenda de sedosos Véus
azuis:
E em cada Hora estende-se um Portal de ouro
magistralmente esculpido.
Cada Dia & Noite possui brônzeas Muralhas &
Umbrais de diamante
Que cintilam qual pedras preciosas com signos
ornados.
Em cada Mês ergue-se um alto Terraço de pisos
de prata.
Em cada Ano, imponentes Muralhas de gigantescas
Torres.
Cada Era rodeia um profundo Poço com pontes
de prata & ouro;
E cada período de Sete Eras é circundado por
Iridescentes Flamas.
Sete Eras equivalem a Duzentos anos.
Tudo tem seu Guardião, cada Momento, Minuto,
Hora, Dia, Mês & Ano;
São criações das Mágicas mãos dos quatro
elementos;
Os Guardiões são Anjos da Providência em
perpétuo dever.
Toda fração de Tempo menor que um pulsar de
artéria
Equivale a Seis Mil Anos.
Pois neste Ciclo é criada a obra do Poeta, e nele
os Grandes
Eventos do Tempo se iniciam e são concebidos
No fulcro de um instante, Pulsação arterial.
O céu é uma Tenda Eterna erguida pelos Filhos
de Los;
E o vasto Espaço que o Homem contempla em
sua morada
Na cobertura ou jardim no cimo de uma colina
De vinte e cinco pés de altura, é seu Universo;
Em cujos horizontes o Sol se põe, e as Nuvens
inclinam-se
Tentando alcançar a Terra & o Mar no
clariperfeito Espaço.
Os Firmamentos não se expandem, mas se
curvam e se assentam por todos os lados.
Os Pólos abrem suas válvulas douradas;
E se ele abandona sua morada seus céus o
acompanharão
Até onde for, e sua perda, a vizinhança deplora.
Tal é o espaço denominado Terra & tal sua
dimensão
Enquanto essa falsa aparência que se apresenta
ao racionalista
Como um Globo rolando através da Vacuidade,
é uma decepção de Ulro.
E disto nem desconfiam o Telescópio ou o
Microscópio;
Alteram os parâmetros dos Órgãos do Espectador,
deixando intocados os objetos;
Pois cada Espaço maior que um Glóbulo vermelho
de sangue Humano
É visionário e foi pelo martelo de Los criado.
E cada espaço menor que um Glóbulo de
sangue estende-se
Às larguras da Eternidade, da qual esta terra
Vegetal não é senão a mera imagem.
O Glóbulo vermelho é o insondável Sol por Los
criado,
Para mensurar o Tempo & o Espaço aos Mortais
a cada manhã.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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