PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ÁLCOOIS DE APOLLINAIRE

"Apollinaire é o criador da palavra surréalisme (surrealismo), e, contudo, em sua poesia, mantém suas raízes simbolistas"

   Saiu no fim do ano passado (2013), aqui no Brasil, uma edição nova, bilíngue, pela editora Hedra, da obra intitulada Álcoois, livro de poesia de Guillaume Apollinaire que, neste mesmo ano de 2013, fez 100 anos de seu primeiro lançamento, em 1913.
   Apollinaire, escritor e crítico de arte, naturalizado francês em 1916, se destacou nos movimentos de vanguarda do início do século XX, e seu livro Álcoois reúne sua produção de poesia que vai de 1898 até 1913.
   Tomando como ponto de partida o poeta francês Charles Baudelaire, Apollinaire faz seu salto de modernidade na poesia. Se instaurando nas fontes simbolistas, vai além delas, e se coloca na vanguarda de novas experimentações, o que o leva à uma poesia sem pontuação, e à radicalização de uma poesia gráfica, o que se verá em sua outra obra poética famosa, Calligrammes.
    Apollinaire é o criador da palavra surréalisme (surrealismo), e, contudo, em sua poesia, mantém suas raízes simbolistas. Sob o impacto de Picasso, intenta a experiência de um poema cubista, "Zona" (Zone), o qual abre o livro Álcoois de 1913. A paisagem do novo século, os movimentos de vanguarda, toda a inovação do futurismo, do cubismo, e de seu plano do surrealismo, levam Apollinaire ao conjunto de imagens que remetem ao desenvolvimento da tecnologia, da ciência e do contexto nascente das cidades modernas. Estes objetos da modernidade serão saudados pela poesia de Apollinaire que, numa exaltação das novidades deste mundo que surge, mantém, também, expressões da tradição poética, como sua fonte simbolista, a qual ele ainda terá como um dos pilares de sua obra poética. Portanto, Apollinaire tem uma postura de equilíbrio entre tradição e experimentação em sua poesia, sem a ruptura radical com o passado que se verá em Marinetti, por exemplo.
   Álcoois é um bom resumo das experiências poéticas de Apollinaire, sua inovação lírica, sem pontuação, exercendo a potência natural do verso livre, e colocando o personagem principal da modernidade, a cidade, como ponto de reflexão desta nova poesia, é daí que as experimentações posteriores de relações entre diferentes artes, tais como entre a pintura e a literatura, portanto, nascerão como a inflexão necessária da arte moderna, que se verá em Calligrammes, por exemplo. Nesta outra obra de Apollinaire teremos a fusão entre a forma pictórica e a expressão verbal.
   Os métodos poéticos de Álcoois, por sua vez, são menos radicais do que a fusão que se verá em Calligrammes. Neste livro de 1913, Apollinaire, que abole a pontuação na poesia, se verá perante o fluxo de consciência, algo que será a marca registrada do surrealismo, fluxo que será desenvolvido por vários outros poetas e escritores, o que se pode ver na prosa contemporânea dos poetas "beats" americanos, por exemplo, e que terá como uma de suas ramificações, a prosa espontânea de Jack Kerouac. Em Álcoois, portanto, o fluxo de consciência se torna um método de escrita, o verso livre é filho direto deste fluxo, e nele Apollinaire pratica o jogo pronominal, e coloca  a narração em função da escrita livre e experimental de uma nova poesia surrealista que surge pelo e no verso livre.
   Os poemas contidos em Álcoois fazem jus ao programa definido pelas vanguardas, que se tornou o conjunto de preceitos das novas artes do século XX, na conferência "L`Esprit nouveau et les poètes". A obra de Apollinaire, neste ínterim, representa um documento importantíssimo para a história da lírica moderna, e é um retrato fiel da evolução da poesia de Apollinaire neste contexto de mudanças profundas da literatura e artes do século XX.
   Apollinaire atua na poesia como o deus Jano, de duas faces, uma voltada para o futuro, e a outra voltada para o passado. A organização da obra Álcoois, aparentemente arbitrária, não é tal, pois, na sua consumação.  Álcoois revela uma simetria de um trabalho que tomou 15 anos da produção poética de Apollinaire, e nestes poemas podemos ver temáticas caras ao poeta, tais como: amores, a morte, a natureza e a imagem do outono como ideal poético que dialoga com a tradição simbolista, e aponta, por outro lado, ao futuro, com o surrealismo de verso livre e fluxo de consciência.
   O longo poema inaugural de Álcoois, "Zona" (Zone- 156 versos), objeto de muitos estudos, é considerado o comentário da escrita poética e, ao mesmo tempo, poema lírico de excelência, que abre a obra com o verso: "No fim estás lasso deste mundo antigo" (A la fin tu es las de ce monde ancien). A nova beleza da cidade surge. Neste poema temos Paris, a Torre Eiffel e os automóveis, todos os objetos das ruas industriais, o delírio poético então viaja pelo mundo, e enumera o percurso pelas cidades e seus elementos, a poesia da máquina se estabelece, a poesia da cidade moderna abre seu discurso. Numa expressão de simultaneidades e fragmentação, a nova poesia se edifica, o homem do início do século XX é reverenciado, a poesia de seu tempo se torna expressa, a vanguarda cumpre o seu papel. Homens, máquinas, cidades, a poesia os coloca como o novo conjunto de objetos da vanguarda poética, e que, em Apollinaire, será a carta-manifesto da nova poesia surrealista, tudo isto dentre as vanguardas futurista e cubista, e é a partir destes experimentos, e de um novo conjunto de elementos de exaltação e reflexão, que a poesia dita moderna surge como o reflexo deste mundo renovado do início do século XX. Esta experiência poética completou agora 100 anos, e nutriu todo um tempo que, naquele contexto, tinha uma crença de progresso tecnológico e da própria arte, que resultou, hoje, na liberdade de criação e no diálogo permanente entre as diversas artes que temos neste nosso século XXI.
   Na biografia de Apollinaire, temos alguns fatos marcantes: ele é responsável pela publicação de uma antologia de textos do Marquês de Sade, o polêmico escritor de romances libertinos que, até então, naquele ano de 1909, era praticamente desconhecido na França e no mundo. Outro episódio ficou famoso: Apollinaire é um dos acusados de cumplicidade no roubo da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci, no Museu do Louvre, incidente que também envolveu Pablo Picasso, sendo que Apollinaire fica preso, então, por uma semana, sendo libertado depois. Por fim, o poeta Apollinaire morre muito jovem, aos 38 anos, em 9 de novembro de 1918, vítima da gripe espanhola.
   Apollinaire fica para a História como o poeta inaugurador do surrealismo na literatura, e como a pessoa que reuniu em sua arte os preceitos da modernidade, tendo, com isso, avançado a partir da tradição simbolista para uma expressão do verso livre até então inédita.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/15223/14/alcoois-de-apollinaire

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

FOTO

Queixa-se o esteta, cor de âmbar laranja.
Funda-se o estetismo, tal qual:
como é linda a lua estrelada do palco,
eu rimo idiota como atavio curtido
em perfumes baratos,
finjo que estou bêbado
para você rir.

Ah! Mas o poema tem laços,
o sangue enfurece de tesão,
e o cais vem sempre,
como na fotografia.

24/01/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

ALMA TODA

Tenho alma, dizia a poetisa.
Eu tenho a mão automática,
me dá o dinheiro da loteria
como alegria sortida de risos,
canta, canta, canta!
Eis aí, vamos lá do outro lado,
temos a lua, temos o sol
na praia deserta,
como é o amor um estalo de beijo,
e a língua não gira,
oscila.

24/01/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

CULPOSO

Teu tédio animal, meu grito ancestral.
Horror, eu tinha o lado avesso
de meu torpor,
silente, soturno Netuno,
mar amanhece manhã de moda,
esqueleto na sala,
osso na parede,
olhos vidrados,
benzina.

Eu vou ao tédio, animal bruto
de poema qual amor estético
sem sombra de dúvida,
o amor poético
como chuva,
o amor matando o tédio
de culpa.

24/01/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

CARTAS ROMÂNTICAS

Registro das cartas, eu vi o envelope,
foi um selo que tirei
e colei na testa da foto,
tinha o olho de tigre,
fausto e símbolo
como num esquema
calculado.

Escrevo e anoto as ideias,
tenho que morrer para gritar.
Agradeço, eis o poeta,
desço ao passo largo
e apaixonado,
fugi com você
num tropel de lua
prata e sólida,
como é o corpo
antes de partir.

24/01/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

ATTACK THE RADICAL


   Tive que sonhar na blusa sedenta das paixões, sob o escrito a fada matou os lilases que escorriam na veste rubra que sangrava às setas da noite numa sirene interminável. Os cães mordiam as léguas escancaradas da desilusão, febre de montanha rugia como grito lancinante nas ruas de findo dia. Entrei pela porta de um cabaré, comi as sete putas vermelhas no calar da noite, os cães ainda mordiam os fundos de minha braguilha, mordi um esteta por riso indecente, não tolero o tom pastel de suas rútilas figuras, desci à sala, fumaça por todo lado, encontrei o fella absorto em viga de cânhamo, notei em seu semblante um ardor de fuga, era poeta na noite com os lilases ainda nascendo em suas orelhas, encarnei o silêncio de seus dentes depois de um sexo tântrico com velhos sonhos pós-estetas. Navio era seu nome, poeta das horas perdidas do calabouço, entrei nos sóis que eram a fuligem de um dia incinerado, encontrei os dias do horizonte sob auspícios de boa hora, a tela estava negra e os pincéis tinham secado, não tinha água, o esgoto fedia, tínhamos sede, e o vento era frio, vesti um bom terno, fui ao barco que morria no fim da noite, a lua estava em êxtase, não tive que morrer para ver a lua, fui até o distante lagar das secas estátuas, a praça lá fora, os meninos fundos olhos de aurora não tinham o que comer, roubei umas frutas no fim daquele sonho, corri depois que a tempestade caiu, não tive tempo de sorrir, os meninos gritaram que a noite era uma lua nua de desilusão. Tomei um vinho e fui ao mistério das sete chaves, o que era sombra dançava, ele era o inferno em céu de susto, o inferno como o mar quando cai a nuvem, o mar era meu mistério na dor estalada das horas que passaram ao meditar, voltei sob a tumba macabra que o ordeiro soldado da noite mais a brisa fundaram com o canto dos anjos, não voltei mais àquele lugar, e conheci cada inferno salgado daquele mar.
    Pintavam as mãos macabras na festa das bruxas, eu vi os lamentos sob a chuva se adelgaçarem como a rima quando foge, entrei em pânico, surtei como um romântico aniquilado pela fúria, sonhei que era poeta morto no sol vermelho das mortes violentas, o ar fétido se rendia ao perfume, não sofri deste mal, o riso foi catarse na paz de haustos inda vivos, cada gesto do teatro nascia com o coro em horror, Ésquilo feneceu sob a mão pesada de Sófocles, a tragédia era honrosa como um rito bruto de espada corte e dentição, a boca cantava o verdor dos mares, as matas eram extintas dentro do peito que fervilhava nas águas da vinha marrom dos litros de vinho que a hora da asa voava, e todos os sinos tocavam na mesma hora exata, dancei o rock com o mistério em meus olhos. Encontro a paz mundial, depois os esqueletos da sociedade eram densos mas não matavam os que viviam livres, a liberdade atávica nasceu com Eurípides, o canto sepulcral era só a dose de vinho no coração grego, Dioniso renasce em cada fim que se dá no corpo da tragédia, o folguedo se consumou em Aristófanes, a veia crítica deve ao seu sonho o enredo total da flor grega. Dentro da modernidade, o mordaz se sobrepõe ao caráter, na vida os costumes se emolduram com mais radicalidade, depois dos êxtases racinianos, o clássico se demuda, a métrica se solta de vis pseudo-ritos aristotélicos, e o poema qual dança se funda novamente com o rigor da harmonia do sol em Moliére, a febre francesa era música, o viço elisabetano era a orquestra, amplidão em Shakespeare como nunca se via, Thomas Kid e Marlowe, os boêmios ingleses, uma juventude de poder, uma geração ao Globe, e a queda em Cromwell.
   Cantava o último hausto, deve a poesia agora gritar na rua como fera indomada, nada de pueril boêmia, só o certo da noite como flecha que dança, catarse só em nota funda sem o vil metal, sem o fundo morto das formas estetas, sem a sombra de ligas esticadas de um verso longo, só o passo natural como ritmo de faca, só o langue sorver de luas dentro de topázios estudados, só o livre pensamento sob forma musicada, só o estar em música como fluxo de instante, só como o frio sem atavio, as memórias como o cão fundante de Eros e Tânatos, eufuísmo só como iniciação, no fim a fala natural deve estar domesticada sem estar adormecida, o rito em que se dá tal fúria é o termo lido de erudição anti-pedante, os sóis devem ser fortes, embora as tintas tóxicas fiquem mais ritmadas, e o emblema estará sob o fundamento de uma mordida seca e esclarecida, como as Iluminações de Rimbaud. Não há na estrada um fetiche de horizonte, não há totem de paisagem, só o fluxo como o calor rente ao frio se dá em tal nuvem sem susto ou rompante, tenho as estórias bem enumeradas das noites que fogem tais os poemas que escorrem de luta e sangue como em dança bem prateada, o ouro deve ser um valor, mas não há ouropéis como numa mão sem treino, o verso deve estar focado, e a prosa explodida.
   Semente é o caule, o tronco é a ideia, a copa a metafísica. Metro dominado, fúria sob ternura, dentes calmos, corpo controlado, êxtase iluminado, quando os campos selvagens caem de suas cerejeiras o Nô veste sua rua de Kabuki, mascarada é o sonho da noite das tochas, vejam como a Hélade se levanta qual a fusão entre os philos que cantam na terra de ilhas soltas, o mar dentro do peito é o Homem, Licurgo se irrita, Sólon tenta dar a Atenas um sentido, os atletas correm para Maratona, os irmãos se matam, não há persa que tenha cabeça, Sócrates envenena quem não pensa, e o Organon só se vê pelas mãos de Andrônico, as edições arábes se soltam entre os ritos de um deserto de matemáticos e astrônomos. Venham os algébricos, lendo o Corão a sede do camelo é vasta, o deserto de Satã rumina a parte vasta do sonho de cálculos, Pitágoras sorri em sua confraria, os sonhos amarelos nesta altura já tinha milênios, o Tao já dava seu sorriso de escárnio, nada era ato e Aristóteles se suicidava.
   Voltei à noite dos meus amigos febris, os vinhos corriam como quedas infinitas, a boêmia já não é tão sensual, o instante se torna mais matemático, eu conto e calculo os sóis, emolduro os sorrisos, os êxtases se tornam mais raros, e o prazer é todo esférico como um perfeito poema. Não vou mais capturar o som, ele vem demolido e como um triturar bem cantado, eu sonho e tudo vira o farol do mar que ao horizonte não se perde, mas ao oceano se faz sol.

24/01/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos) 

DEFRONTE AOS ROUXINÓIS

Defronte aos rouxinóis o terror do canto,
fuligem de sonho nas águas que deliram.
Flecha e tempo no sol aos vis feridos,
corte de carne rente ao dente,
fígado demudado, víscera envenenada.

Os corpos sucumbiram,
os escudos romperam,
os cavalos partiram.

Na lua densa o atavio da noite,
bruma e estrelas pálidas
nas águas turvas da tempestade.

O corpo reluz, defronte aos rouxinóis.
Na lua escarlate a proteção dos olhos,
fuligem no tempo frio com os risos icônicos,
fumos dançam na mão dos santos,
pálido é o fervor da náusea na noite finda,
eu vou ao poema como a faca à fatia,
e o piso seco dorme sob meus pés.

Defronte aos rouxinóis
os sonhos fazem giros
no sol que desmonta
nas mãos da trova,
era o céu em minha nuvem
que secou de temporal.

Veleja o temor do desastre,
tragédia iconoclasta
é o poema
quando a dança
é uma morte encantada.

24/01/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)