PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

LEVANTE DA REDENÇÃO

Descansando na manjedoura,
as luzes de meu sonho
dormiram e acordaram
no corpo lento do poema.

Já ditava nas horas perdidas,
canções inexatas
da salvação das almas.
Poemas socorristas
das noites desvairadas.
Odes ametistas de sepulcros
na solidão das casas.
Risos sentimentais
nos corações que viravam pó.

Acordei e tomei meu café quente.
Levantei às sete horas da manhã
com um gosto de mel na boca
e com os vinhos derramados
em minha cabeça.
Olhei para fora de minha janela
e um anjo vestido de preto
me deu também
uma pomba preta
com os dizeres
de um papel vermelho:
"Já tens o sangue de poeta
e o poema em teu olho."

Resgatei as almas dançantes
da morte certa
em gritos na madrugada
acalentada.
Sorri ao tempo perdido
como minutos de relógios
esquecidos no fundo
de uma mansão abandonada.

A dança frenética
delirava com a eternidade.

Os ossos brigavam
dentro da alma,
a carne queimava
evocando
o espírito
da totalidade.

E eu descansei,
com a paz de uma criança
que despertava
de pesadelos
infernais,
com a força de um homem
que nada mais temia
e que com versos polidos,
renunciava de toda perfídia
e se rendia à virtude da vida.

12/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

NOITE E SOMBRA

Entre os detritos,
era a sombra
que eu buscava.

Como um corcel negro,
tateava
nos segredos
da sombra,
ela era a sombra
que se instalara
no fundo da noite,
no canto do quarto
sem velas,
ao som
do silêncio
e do mormaço,
que como névoa
tomava
o meu corpo
alucinado.

A sombra, então,
como se fosse nada,
de súbito,
me deixou para trás.

Eu, corpo e destroços
da noite calada,
contemplava a dália negra
que em minha mesa
silenciara.

10/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

domingo, 7 de julho de 2013

RUBEM BRAGA, O CRONISTA

"Rubem Braga foi o único escritor da literatura brasileira a se destacar apenas como cronista."
   Rubem Braga foi um dos maiores cronistas brasileiros, senão o maior. Começou no jornalismo profissional aos 15 anos, trabalhando em jornais como Correio do Sul, Diário da Tarde, Diário de Pernambuco, tendo fundado, em Pernambuco, o periódico Folha do Povo. Fixou residência, enfim, no Rio de Janeiro, onde atuou como cronista e crítico literário no Jornal Hoje da Rede Globo, integrando a equipe de jornalismo da TV Globo no período de 1975 a 1990. O fato curioso é que Rubem Braga foi o único escritor da literatura brasileira a se destacar apenas como cronista.
   No seu livro de crônicas Ai de ti, Copacabana, um de seus maiores clássicos, ele evidenciou sua verve de cronista do cotidiano, relatando fatos de sua infância e declarações de amor à natureza, num retrato simples da vida que virou uma característica das crônicas brasileiras e da maioria dos cronistas do Brasil. Gênero que se tornou uma particularidade de nosso país.
   Rubem Braga, em seu livro, que é uma compilação sua de algumas crônicas publicadas em periódicos por ele, desde abril de 1955 a março de 1960, neste livro ele também revela uma faceta bem conhecida sua, que é o fascínio pela natureza. O cronista tem na observação da natureza o seu objeto de celebração e contemplação, é o que podemos ver em crônicas como Terremoto, e na sua busca aflita pelo sol na crônica O Sol dos Incas, e sua aventura pelo mar em História de Pescaria.
   Rubem Braga também especula sobre as fronteiras do tempo, como na crônica Os Amigos na Praia. Explora o humor fino com Os Portugueses e o Navio, humor que também será, como um reflexo de seu trabalho de observador, uma de suas mais marcantes diversões, ao produzir suas crônicas. As mulheres, junto com seus mistérios, aparece, por exemplo, nas crônicas As Luvas, e na curiosa A Primeira Mulher do Nunes. O Padeiro e A Casa vão num trajeto pelo mundo mais objetivo, seja no anonimato do Padeiro, como no sonho do homem em sua solidão e privacidade.
   A crônica Entrevista com Machado de Assis é mais uma peça de humor que relativiza a História e a Literatura, usando um de nossos maiores escritores num jogo de encaixe de seus fragmentos numa entrevista fictícia. A nostalgia passa como uma grande celebração dos seus tempos de Cachoeiro de Itapemirim, na interessante crônica, Os Trovões de Antigamente.
   Mas, de todas as crônicas apresentadas no livro Ai de ti, Copacabana, se destacam duas principais:  o enredo seminal que dá título ao livro começa com um grito de vida e morte, e de uma paixão trágica por todas as contradições do bairro carioca de Copacabana, usando como mote, já pelo fascínio da natureza, em Rubem Braga, na ameaça iminente do mar sobre Copacabana.
   Tal é o canto visionário: "Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas." E continua, em tom profético, como a sedução do mar em ânsia destruidora sobre o bairro boêmio: "estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia". É a perdição moral de Copacabana, que leva ao apocalipse marítimo do bairro. Rubem Braga registra de forma visionária a invasão do mar sobre os prédios que fecham o bairro, a queda moral de Copacabana se torna a sua ruína física, a natureza é o agente, através do mar, para fazer justiça às contradições do bairro tão querido, numa linda poesia, que culmina: "Canta a tua última canção, Copacabana!".
   A face religiosa aparece em Na Rede, onde Rubem Braga observa as nuvens. Mais uma vez, Rubem parte da contemplação e direciona ela no viés religioso, pois nele, a relação com a natureza é a maior das religiões. Em muitas de suas crônicas, Rubem Braga é um apaixonado pela natureza, seja na pura contemplação, seja no seu amor pelas árvores e pela paisagem. Na crônica A Rede, tal contemplação remete ele às leituras de Padre Antônio Vieira, que, em seu sermão, fala do amor de Santa Teresa, a relação direta da santa com Jesus Cristo, e aí ele volta do êxtase religioso e termina novamente nas nuvens e seus segredos. Pura contemplação, e o amor do cronista por tudo que é natural, que se evidencia, mais uma vez.
   Fica claro que a veia artística do cronista Rubem Braga é raro, e mais raro ainda é um homem das letras brasileiras se destacar tanto na área da crônica. Um bom observador, que fala da natureza, de objetos comuns, do amor pelas mulheres, passa por uma poesia trágica em Ai de ti, Copacabana, pequenas peças de humor, registros banais do cotidiano que se transformam em epifanias, que são moldadas em crônicas de um senso e de um olhar bem refinados. Rubem Braga é o olho clínico que pega os fatos mais simples, e os coloca no alto como uma celebração da vida, mantendo a simplicidade que o torna o mestre da crônica brasileira.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

 Link da Século Diário: http://www.seculodiario.com/exibir.php?id=9157&secao=14   

sábado, 6 de julho de 2013

O BERRO DA PALAVRA

Cultivo o nome das coisas
e me atenho ao material
que as corrompe.
O nexo do sinal
as ilumina,
toda matéria densa
se consuma em palavra,
o verso então
a recoloca,
na dimensão paralela
dos nomes,
com a palavra aberta
e novos nomes,
a palavra retumbando
em espasmo
de luta verbal,
e do ritmo a pena
se desanca
de tanto
montar
em cima
da palavra
como
se fosse
um cavalo
tonto
de tanto
berrar.

05/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

CORES DA ALMA

As cores vistas pela retina.
Cada cor um drama diferente.
Cada drama uma dor de cor.
Se a alma em todas as cores
se compõe,
e dá paz à brancura
do céu,
e dá guerra ao vermelho
da morte.
O luto,
na noite
preta,
pranteia
com lágrimas
azuis.

05/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

REGISTRO INDECISO

Paro em frente ao silêncio.
Penso em formas-poesia
que possam definir
o tom principal
deste silêncio.

Paro ou ando?
Pois se corro, grito.
Se ando, falo.
Se paro, silencio.

05/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

VIDA DA RAIZ

Árvore da vida,
canta a nau
entorpecida.

Planalto dos faustos assassinos,
vinga-se a máquina de tudo
em todas as cores.

Vida! Plêiade da ametista,
flor vindoura
de sol intumescido,
vermelho e negro,
branco e azul!

Caule caudal na onda da luz.
Folhas voando
no tempo
da raiz.

05/07/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)