PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 17 de maio de 2024

SATURNAIS - PARTE 3

O que sei, no nervo das coisas,

é um nada, um borrão de criatura,

que já se perdeu, que já se encontrou,

que já buscou, que reflete e faz.


Tanto faz o que já se fez,

pois está feito.

E do que será feito,

é preciso coragem,

a quem a tem e a cultiva,

e este é o dom da vida,

se erguer da derrota,

apreciar a vitória.


Eis que a cantoria vara a noite,

estive com estes poetas tontos,

escritores bebedores, os artistas

mercuriais, editando a piada

mais infame contra os caretas,

um agente da contracultura,

um beatnik, um cachorro louco

a fazer dos asnos vítimas

de si mesmos, fantoches

de atos cômicos, caracteres

da própria decadência.


Não lastimo quem não

lutou por um propósito,

o ridículo do mundo

das fadas, por fim,

são as viúvas

do tempo não

vivido.


17/05/2024 Gustavo Bastos 

SATURNAIS - PARTE 2

Se aquietou a ideia da viração, dos loucos anos

da inspiração dos festivais, como era a dança

nas horas de manhãs cantantes, e o balanço

em que se dava a música, no vinho e no LSD,

e se abria o mural de cores firmes.


Este novo sinal dos tempos, das batidas do coração,

abre o caminho da poesia como era nas saturnais,

a liberdade dos seres, a quebra do ritmo definido,

um sopro de vida, no vento mais que radical

da arte, de uma arte final, inaugural, intempestiva,

nestes grandes murais, em verbos intransitivos.


Faz-se toda a nave, de mar aberto, pelo esplendor

que agora vigora, tem este canto de estrela,

como a vida em um cometa, de todo

quasar que se perde em galáxias nuas,

pela Plêiade clássica, na ode que vira a noite

e veste logo a aurora de uma supernova.


Em alto grau, o sol mais luzidio, de sua

chama azul e laranja, canta seu arrebol.

Toda esta melodia, dos rios tontos 

de riso, em lagoas plenas de amor,

faz com que o riacho cante seus encantados,

em doce poema que cai da catarata,

quando vai o batismo me amar a lira

como um poeta cósmico,

no baile do mar.


17/05/2024

SATURNAIS - PARTE 1

Vezes foi que a festa tinha fim,

outrora a miserável tinta da dor

crescia como um fungo 

dentro do peito,

na máquina do caos.


Verve se tinha, o talento prateado,

de ouro o maciço doirado.

Vocação, na hora da terra seca,

o desafio era não morrer.


Desta feita, o mar avançou

na tarde, na aurora crepuscular,

no átimo da ametista que

sonava silente o poema.


A festa então começou,

com Momo todo absorto

em vinho e banquetes,

Zéfiro soprando os anos,

e as bacantes de mãos cheias,

as flores e os topázios,

e minha flor esmeralda,

com a canção in bloom,

brotada da chama vestal.


17/05/2024 Gustavo Bastos  

quinta-feira, 16 de maio de 2024

QANON - PARTE I

“o FBI considera esta teoria da conspiração como uma ameaça de terrorismo doméstico”


Quando se tematizou sobre Steve Bannon, entramos finalmente no conceito envolvendo as teorias da conspiração, o que leva esta coluna agora para falar-se sobre o QAnon, sua influência, e sua associação com a figura de Donald Trump, além da relação direta do QAnon com as versões contemporâneas das teorias da conspiração, que tem origem distante no tempo, mas que no mundo atual ganhou proporções inauditas e com um poder de persuasão também inédito, tendo consequências no mundo real.

O QAnon se estruturou, fundamentalmente, como uma teoria da conspiração em que o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estava envolvido em uma guerra oculta contra a pedofilia, associando isto aos democratas e a um Estado impregnado no sistema oficial, um Estado profundo dentro do Estado estabelecido nos Estados Unidos. Tal universo de ideias parecia tirado de um livro medieval, as condições de pensamento aqui se davam em termos pré-iluministas, num viés disruptivo de atraso e reacionarismo, contudo, afetando o mundo na prática, no chamado mundo da vida. 

Na psicologia social, a teoria da conspiração opera explicando a realidade com um viés de que sempre tem algo oculto, não revelado à maioria e, portanto, que a versão oficial do que acontece estaria sendo manipulada, de preferência por grupos poderosos economicamente e politicamente, com grandeza mundial, hábitos grotescos, pura maldade, sempre fazendo uma versão de facínoras, psicopatas etc, que estariam tomando conta dos destinos do mundo. 

Uma teoria da conspiração passa pela ideia de que um grupo nefasto conspira para um objetivo vil e malicioso, operando com interpretações delirantes, seja por ilações a partir de mensagens subliminares, por exemplo, na publicidade, seja com o uso da internet para criar discursos enviesados com interpretações baseadas em simbolismos imaginários, tudo de propósito e feito para um público desinformado, suscetível, impressionável e açodado.

Além dessa narrativa em que o mal, sempre oculto, escondido, camuflado, conspira contra o bem comum, a estabilidade civilizatória etc, temos também, na teoria da conspiração, a figura do herói, de capacidades redentoras e messiânicas, que seria o agente de combate e de derrota dessas forças obscuras e sombrias. 

Estas narrativas ganharam corpo, sobretudo, através do antijudaísmo medieval, em que os judeus estariam “conspirando para a retomada da Terra Santa através de um pacto com Satanás, em que crianças cristãs eram sacrificadas todos os anos, no período da Páscoa, até que Satanás devolvesse Jerusalém aos judeus”.

Dentre as teorias da conspiração notórias temos a do rei Filipe, o Belo, ou Filipe 4 º da França, que reinou de 1268 até 1314, e que levantou a narrativa sobre os Cavaleiros Templários, uma ordem baseada em Jerusalém, que viviam em comunidade, renunciando à propriedade e à família, lutando como guerreiros e vivendo como monges, arrecadando doações, construindo igrejas pela Europa, chegando a administrar as contas bancárias dos reis da França. 

Filipe, o Belo, em 1307, querendo se livrar da Ordem Templária, inventou a teoria da conspiração de que estes guerreiros e monges estariam envolvidos em sodomia, adoração do Diabo, pederastia, além de feitiçaria. Com o envio das guardas por toda a França, todos os Templários foram presos. Tal teoria da conspiração foi a mais bem-sucedida da Idade Média.

Retomando aqui o contexto da teoria da conspiração do QAnon, um escândalo se deu no chamado “Pizzagate”, em que Edgar Welch invadiu uma pizzaria nos arredores de Washington e abriu fogo, sendo que o autor do ataque se iludiu com a narrativa falsa de que a candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, estaria ligada a uma suposta rede de prostituição infantil, que era um conjunto de fake news que circulavam na época para minar a sua campanha.

Seguindo a base comum das teorias da conspiração, a de um grupo oculto atuando nos bastidores, um grupo do mal etc, o QAnon associou os democratas a um deep state (Estado profundo), adoradores de Satanás, que tinham montado redes de pedofilia, bebiam sangue de bebês para obter a eterna juventude, ligando isto a nomes como os de Hillary Clinton, Barack Obama, astros de Hollywood, Bill Gates, George Soros etc. E ainda tinha a ideia do salvador dos Estados Unidos, que destruiria este Estado profundo, e que seria Donald Trump.

O QAnon, teoria da conspiração da extrema direita, revela um fenômeno mundial em que figuras exóticas no cenário político e narrativas surreais deixaram de ser objeto de escárnio e deboche por parte de quem está mais bem informado e se tornaram problemas sérios e, no caso do QAnon, o FBI considera esta teoria da conspiração como “uma ameaça de terrorismo doméstico”. 

A invasão do Capitólio (Congresso norte-americano), em 6 de janeiro de 2021, por sua vez, foi a epítome deste movimento do QAnon, revelando como tais teorias da conspiração, atualmente, têm poder de destruição e de abalo do mundo real, do mundo da vida, e não mais estão no setor de piadas de salão, de personagens caricatos e patéticos.

Para exemplificar bem do que se trata esta mudança de paradigma em relação às figuras outsiders da política e a sua base em teorias da conspiração, podemos citar o autor da Crítica de la Razón Paranoide (ainda sem tradução no Brasil), Alejandro M. Gallo, que afirma que as teorias da conspiração estão longe de ser algo inócuo, inconsistente como discurso, mas que se tornam uma ideologia de Estado que influencia terroristas, fanáticos, dentre religiosos e nacionalistas (chauvinistas), provocando massacres, genocídio, e na versão de seitas, culminando em suicídios coletivos.

O QAnon reúne pessoas, as que são massa de manobra, que estão num estado de desconexão com a realidade, num movimento que se alimenta do ódio à esquerda política, com o culto de um líder redentor, no caso, Donald Trump, em que esta narrativa falsa funciona como elo de identificação social de grupos, de um certo tribalismo, aglutinando pessoas em torno de ideias comuns, formando um coletivo ou comunidade. 

A forma de retroalimentação comunitária, por sua vez, se dá pela lógica de formação de bolhas de opiniões e informações, em que são compartilhadas sempre as mesmas orientações ideológicas, polarizando o grupo e seus indivíduos, seja na forma de ver o mundo como nas ações desta comunidade e/ou indivíduo.

Por fim, é na queda da fronteira que separava o mundo online do que acontece offline que as teorias da conspiração e, por sua vez, o QAnon, ganharam força e dimensão relevantes e perigosas, como mecanismos paranoides. 

O viés paranoide das teorias da conspiração e, por exemplo, do QAnon, como técnica de seus mentores, opera um fenômeno em que, ao invés de ser uma alienação produzida por substância narcótica ou um estado psicótico, o produto que advém no mundo contemporâneo se dá na mistura da realidade com as fake news, do mundo online e offline.

Com a influência das teorias da conspiração e das fake news o que ocorre é a modificação da própria visão da realidade, tendo a razão cartesiana e a herança iluminista de pensamento esclarecido e de bases científicas um papel precípuo na luta contra a distorção da própria realidade e de sua captura ou sequestro por versões do mundo alucinadas e narrativas delirantes vindas de fóruns digitais, e que podem provocar massacres, golpes, suicídios, terrorismo etc.


(Adendo : Stephen Bannon está condenado por um júri federal por desacato ao Congresso Americano. Isso se deve ao fato de Bannon ter ignorado duas convocações parlamentares para depor na comissão que investigou o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio).


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/qanon-parte-i



quinta-feira, 9 de maio de 2024

STEPHEN BANNON E O NEOFASCISMO - FINAL

“Bannon traçou a estratégia política agressiva de destruição do Estado administrativo”


Com o Breitbart, através da atuação de Stephen Bannon, o radicalismo político, um paroxismo do que a deformidade de debates enviesados podem causar, ganhou uma escala industrial. O uso das mídias sociais, por sua vez, deu novo campo de entrada para ideologias extremas. O que se herdou historicamente de movimentos extremistas e radicais, em eras analógicas, como a do rádio, agora se expandia com muito mais velocidade e capilaridade com o advento da internet e do leito em que começou a correr tais orquestrações de política radical, as redes sociais. 

Por sua vez, Stephen Bannon, com a sua atuação na Cambridge Analytica, foi um dos responsáveis principais do ganho de escala do radicalismo político no mundo, com uma capacidade de persuasão e manipulação que levou a fenômenos políticos como a eleição de Trump e a aprovação do Brexit. Outro ponto agravante da influência que teve a Cambridge Analytica na política mundial foi o fato de que havia com ela dados de cerca de 187 milhões de contas do Facebook. 

A guerra política também era uma guerra mental, isto é, uma guerra de ocupação das mentes vulneráveis para o diapasão dos interesses de organizações extremistas. Os escritórios de Londres da empresa eram tomados por russos entrando, com políticos e empresários, e os que tinham associação também com os chamados oligarcas russos, o que representava transações financeiras e alocação de dinheiro em lugares incógnitos. 

Neste jogo de influências político-financeiras também havia uma atuação de escudo para o SCL Group (Strategic Communication Laboratories), empreiteira militar britânica, e assim era uma das formas de operação da Cambridge Analytica, com a guerra mental citada, usando mentes desavisadas, mal informadas e suscetíveis, para a popularização cada vez maior do radicalismo político.

As eleições dos EUA, por sua vez, tinham a atuação de Robert Mercer, usando o fato da Cambridge Analytica ser uma empresa privada, para quebrar qualquer restrição de financiamento de campanha, favorecendo os interesses particulares deste grupo de políticos e empresários próximos do radicalismo político, e que fomentavam de diversas formas, sobretudo no período eleitoral, esta sanha radical e fanática.

Bannon traçou a estratégia política agressiva de destruição do Estado administrativo, e uma figura outsider e disruptiva como a de Donald Trump servia a este objetivo, o que demonstrou capacidade de avanço com o primeiro passo de manietar as lideranças tradicionais do Partido Republicano, e colocá-lo de joelhos para o apoio da campanha de Trump. Stephen Bannon pretendia, segundo as suas palavras, “inundar a zona de merda”.

A ideologia disruptiva via Trump, Bannon, Mercer etc, com a atuação da Cambridge Analytica e da  Breitbart, por sua vez, era o viés norte-americano de uma direita republicana mais extrema, e que tinha também estrangeiros interessados, sobretudo quando se levantava as fontes de financiamento que vinha de atores geopolíticos como a China, a Rússia, além de Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, o que representava um cartel financeiro de interesse global. 

O fenômeno de aceleração do radicalismo político, do autoritarismo global, tanto demandava muito dinheiro como se conseguia tal dinheiro, com parcerias, dentre outras, de uma monarquia do Golfo ou de oligarcas russos. Com uma miríade de técnicas de lavagem cerebral, através do uso das redes sociais, a atuação destes bandoleiros virtuais ganhou corpo e popularidade, com o mundo inventado das fake news e das teorias de conspiração interferindo tanto na compreensão do mundo real como infringindo consequências neste mesmo mundo real. 

A chamada massa de manobra, que formava um exército voluntário do radicalismo político, favorecia os interesses desses políticos e empresários, e a ideologia disruptiva, este elemento destruidor da democracia liberal, dos valores iluministas consagrados com o avanço da ciência e da razão conceitual e crítica, estavam sendo abalados por este viés medievo e de tons pré-iluministas.

Com o radicalismo político renovado pelas redes sociais, por sua vez, se buscava a demolição do edifício moderno em que se edificou o republicanismo, o esclarecimento civil, e toda uma gama de valores que tinham superado as trevas da crendice. Com o uso das redes sociais pelo radicalismo político, estas obscuridades agora voltavam, como uma espécie de refluxo histórico, com as mistificações de grupos como os de Stephen Bannon e cia, operando esta radicalização que tentava realizar a descontinuação da Modernidade. Por fim, o que se entende por Bannon, sobretudo, é esta sua atuação política nefasta, como uma arma de destruição em massa.


(fim)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/stephen-bannon-e-o-neofascismo-final



quinta-feira, 25 de abril de 2024

STEPHEN BANNON E O NEOFASCISMO (PARTE 2)

“Bannon viu grande perspectiva nas comunidades de jogos online”


Em relação a Stephen Bannon, o fundador do Breitbart, Andrew Breitbart, se referia a ele como a “Leni Riefenstahl do movimento Tea Party”. Este movimento político, de direita e conservador, atuou junto ao parasitismo de Bannon na democracia norte-americana, em que o dito cujo assumiu a direção do Breitbart, depois da morte por infarto de Andrew em 2012. Neste contexto, o ex-editor do Breitbart, Ben Shapiro, chamou Bannon de valentão, e que pegou o legado de Andrew e transformou em apoio político a outro valentão de ginásio, Donald Trump.

Antes de Bannon se aproximar de Trump, ele investiu nas lideranças mais tradicionais do Partido Republicano, apoiando figuras como Ted Cruz, Ben Carson e Rand Paul. Bannon foi financiado por Robert Mercer, um bilionário que tinha relações com a Rússia, e que tinha investido no Breitbart e na Cambridge Analytica, e entrou com um financiamento de guerra de informação para atacar Hillary Clinton.

Trump entrou para o programa de propaganda do Breitbart. Bannon, por sua vez, recebeu apoio de Mercer para se tornar o CEO da campanha de Trump em agosto de 2016 para a presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, que acabou sendo tomado por uma candidatura fora da curva, um outsider, que cresceu nas prévias do partido, e deixou lideranças bem cotadas como Ted Cruz, para trás. 

Bannon ocupou um cargo inventado para ele no governo Trump, e depois rompeu com o mesmo, depois de comentários feitos por Trump no livro de Michael Wolff, Fogo e Fúria. “Sloppy Steve” passou a ser a alcunha dada por Trump para Bannon depois de eles romperem.

Stephen Bannon, depois de passar quatro anos na Marinha, recebeu um MBA em Harvard, teve passagens pelo Goldman Sachs, na mídia de entretenimento, auxiliando na produção da série Seinfeld, e depois seguiu produzindo documentários que faziam propaganda do Tea Party e de Sarah Palin. Depois de sua passagem pelo entretenimento, Bannon viu grande perspectiva nas  comunidades de jogos online.

Bannon percebeu que lá havia membros de homens brancos que poderiam possibilitar a criação de um exército de sociopatas, que agora são chamados de incels, os celibatários involuntários, que remete a um ressentimento social e sexual, de homens tíbios e frustrados, que acabam indo para caminhos de misoginia, ofensas a minorias e com todo tipo de perversões, incluindo pedofilia e demais crimes virtuais. Isso, segundo Bannon, poderia favorecer a política conservadora outsider, que tinha na figura de Trump a sua versão carismática e populista, o objeto do culto de personalidade que este tipo de movimento necessita.

O Gamergate foi uma das consequências do estímulo para tais comunidades de jogos online, uma vez que resultou do fato da desenvolvedora de jogos de nome Brianna Wu ter sido vítima de ódio por parte de grupos de jogadores, com ameaças de estupro e de morte. Brianna Wu caracteriza o Gamergate como uma guerra total que se torna o 8 chan, e que, por conseguinte, chega até o surgimento do movimento QAnon, que vive de teorias conspiratórias e fake news para distorção dos fatos e da realidade e alienação de incautos. 

Bannon, já depois de sua ruptura e saída do governo Trump, funda o “The Movement”, que passa a atuar na Europa, fomentando grupos de extrema direita no continente, e reunindo interesses e figuras de proa de ideologias reacionárias de direita para juntar forças e organizar a extrema direita num nível internacional. 

Bannon, por sua vez, realizou viagens pela Europa, para fortalecer laços com lideranças de orientação extremista de direita e para expandir suas redes pelo continente europeu. Conexões novas surgiram, o que pode ser exemplificado no surgimento de Giorgia Meloni, chefe do Partido neofascista Irmãos da Itália, que veio como uma candidata outsider, e que se elegeu na Itália, desbancando lideranças de partidos mais tradicionais do país.

A parte de operações de inteligência na Europa para tais candidaturas populistas e outsiders de extrema direita passava por apoio logístico em tarefas como pesquisas, análises de big data, orientações de gestão política, dentre outras técnicas e know how, parte devido a experiência de Bannon que tinha ocorrido na agora invalidada e extinta Cambridge Analytica, da qual fora o co fundador. 

Outro meio, e que foi efetivo para a eleição de Meloni na Itália, por exemplo, foi o intenso e massivo uso das redes sociais, algo que a extrema direita saiu na frente da esquerda tradicional, que ainda ficou apegada a jargões e palavras de ordem que eram mais cacoetes e tiques do que algo que ainda tinha efeito na política real do terceiro milênio e da internet. 

Meloni afastou, de modo sutil, a sua imagem do neo fascismo, saindo do isolacionismo e voltando-se para valores da União Europeia, e com isso sacando a candidatura de Matteo Salvini, que se viu abandonado pela mídia italiana, ainda tomado por sua associação a figura de Putin e sua guerra expansionista nostálgica. 

Meloni, já como governo, manteve, por exemplo, um ultratradicionalismo, como política interna, se comparando a setores radicais do Partido Vox da Espanha e do Partido Republicano norte-americano, por exemplo. E isso tudo sendo efeito da influência de Bannon na ascensão de Meloni.

Tal dianteira da extrema direita na técnica de política eleitoral, por sua vez, se deu mundialmente, e também aqui no Brasil, sobretudo na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O uso hipnótico do termo “mito”, somada às hostes das redes sociais, teve um efeito avassalador, enquanto outras candidaturas dormiam no sono analógico dos lugares comuns de uma campanha em moldes tradicionais.


(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/stephen-bannon-e-o-neofascismo-ii

quarta-feira, 24 de abril de 2024

A VIDA MÉDIA

Reinou nas ilhas, 

perante o patíbulo

a sua cabeça rolou, 

a carcaça foi jogada

aos lobos, a doença 

e a ossada

entre as 

moscas.


O poder derruiu em conspirata.

Avante, cortaram com a espada

o ideal, a utopia.


Avante,

golpearam com dureza

a valorosa chama,

o sonho que inflama.


Neste violento regime

espartano, em que 

o sangue vigora

a pena de talião,

venal, capital,

veio a antiga guerra

do ferro e do bronze, 

atávica.


Gustavo Bastos - 24/04/2024