PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 27 de março de 2024

FARIA LIMER (PARTE 1)

“As chamadas profecias autorrealizáveis, incluindo Faria Limers e Cassandras falhadas, atiraram na água”

O mercado financeiro errou a maioria das previsões sobre as estatísticas econômicas do governo Lula em seu primeiro ano. Os dados de 2023, em geral, apontam para um cenário de recuperação e crescimento, com indicadores bem superiores às estimativas feitas pelos ditos especialistas da economia financeira. 

As chamadas profecias autorrealizáveis, incluindo Faria Limers e Cassandras falhadas, atiraram na água nesta pretensa batalha naval. As estimativas que subestimaram a capacidade da equipe econômica do governo Lula foram coletadas pelo Banco Central (BC) no Boletim Focus, que consiste num boletim que vem da consulta semanal do Banco Central a economistas de bancos. 

A fonte de desconfiança de economistas sobre a indicação de Fernando Haddad ao Ministério da Fazenda, e também sobre a própria concepção de políticas econômicas de Lula, junto com a PEC da Transição, que ainda mantinha um passivo orçamentário de legislaturas anteriores, diminuíram as expectativas do mercado e as estimativas foram mais pessimistas.

A Emenda Constitucional, chamada de PEC da Transição, expandiu despesas fora do teto de gastos de R$198 bilhões, e contribuíram, portanto, para este açodamento quanto às expectativas negativas de agentes do mercado financeiro. O discurso expansionista adotado por Lula na campanha eleitoral também contribuiu para que os agentes fizessem estimativas mais pessimistas.

Os resultados, digamos, contra-intuitivos, entretanto, para as Cassandras falhadas, Faria Limers, sapatênis de Partido Novo, camisas polo lacoste, pequenos-burgueses leite com pêra e quetais, com notebooks de Bistrô, coworking de shopping, e por aí vai, se deram sobretudo pelos resultados da Petrobras e do agronegócio brasileiro, que puxaram o crescimento econômico brasileiro. 

Dentre as Cassandras falhadas, aqui destaco o delírio de Paulo Guedes, que profetizou que o Brasil viraria uma Argentina em poucos meses, e em um ano viraria uma Venezuela. Foi este mesmo ex-ministro que prometeu um superávit delirante para 2019, no governo Bolsonaro, e que ficou perdido, que nem um louco de hospício, quando a sua planilha foi pelos ares na pandemia. Portanto, Paulo Guedes aqui ganha o troféu abacaxi de Cassandra falhada. Primeiro colocado, com sobras. Um verdadeiro atleta da cretinice.

Nos resultados positivos do governo Lula para 2023, houve ainda dados socioeconômicos importantes, como a revisão do Cadastro Único para a distribuição do Bolsa Família, e sua articulação com os CRAS (Centros de Referência de Assistência Social), que tinham virado um show do “Topa Tudo Por Dinheiro” no último ano do governo Bolsonaro, em uma ação eleitoreira que falhou miseravelmente. 

O fato é que o Bolsa Família se reorganizou, cortando endereços irregulares e incluindo quem precisava receber e não estava cadastrado, num valor de recibo consolidado em R$ 600,00, além do aumento real do salário mínimo, reaquecendo o consumo e também impulsionando os resultados do PIB (Produto Interno Bruto).

Economistas de bancos e corretoras de investimentos, quando chegou o final de 2022, fizeram estimativas de crescimento econômico para o Brasil em 2023 que culminaram no índice de 0,8%. A diferença com a realidade foi brutal, pois o resultado parcial de janeiro a setembro de 2023, com um corte estatístico comparativo ao mesmo período para 2022, já entrega o número de crescimento econômico de 3,2% do PIB (Produto Interno Bruto). Os dados são do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Agora os economistas de mercado esperam um crescimento para o ano de 2023 em 2,9%.

No quesito inflação, o tiro dos economistas liberais ou liberaloides de mercado também atingiu a água, numa batalha naval canhestra e açodada. Eles esperavam uma inflação em 5,31% ao final de 2023, acima do teto da meta para o índice, que é de 4,75% ao ano. Contudo, o IPCA (Índice de Preço ao Consumidor Amplo), encerrou em novembro deste ano em um acumulado de 4,68%, segundo o IBGE. A estimativa dos economistas agora é de um fechamento para o final de 2023 de 4,46%, ou seja, dentro da meta, o que não ocorre desde 2020. 

Outros dados também superaram as estimativas como o câmbio do dólar, que baixou, e também a balança comercial, que foi bem maior que as expectativas de mercado. Por sua vez, o governo não foi bem na geração de empregos, com um crescimento menor para os empregos formais, com dados inferiores aos alcançados na pós-pandemia e em 2022. Contudo, o nível de desemprego recuou ao menor nível desde 2015, graças ao crescimento do trabalho informal, o que denota que a curva estatística de emprego, em geral, é ascendente. 

O problema, contudo, está agora na qualidade de empregos gerados, com salários menores, subcontratação, num processo ainda de desindustrialização, no que o governo lançou agora um plano para reverter a queda da indústria brasileira, pois os empregos gerados na área de serviços, em geral de baixa qualidade, não impulsiona a renda para outros setores e, portanto, não contribui para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).

A demanda para o país, culturalmente e socioeconomicamente, é por uma melhor qualificação da força de trabalho, com incremento de políticas públicas para a educação técnica e acadêmica, e isto também para o setor de serviços, com regulamentações para racionalizar as relações contratuais e formalizar estas no sistema previdenciário, pois a subcontratação, sem garantias e respaldos, lembra regimes de trabalho que só não têm paralelo com os da Primeira Revolução Industrial, das fábricas de carvão de Manchester e Birmingham, em que luditas se revoltaram e quebraram as máquinas industriais.

Os desafios do governo Lula são vários, e que teve um começo turbulento, com a invasão dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, em Brasília, com mentores perigosos que orquestraram tudo, contudo, com executores que fazem parte do grande compêndio de anedotários do bolsonarismo raiz e que zurra a todo momento. Tal déficit intelectual notório, por sua vez,  produziu fatos dantescos como cultos religiosos a pneus, comunicação de contatos imediatos com alienígenas através de smartphones que ainda não possuem tal tecnologia, além dos episódios delirantes produzidos por pegadinhas de fake news, tais como a prisão do Xandão e o Estado de Sítio, coisas que nunca aconteceram.

Um dado importante do governo, por sua vez, foi a aprovação da reforma tributária pelo Congresso Nacional, em dezembro de 2023, depois de anos de debates infrutíferos e mini-reformas pontuais. A promulgação da Emenda Constitucional da reforma tributária dos impostos sobre o consumo, após três décadas de discussão, teve por objetivo simplificar o sistema tributário, eliminando distorções setoriais e federativas, acabando com a acumulação tributária nas cadeias de produção, armazenamento, distribuição e consumo de alimentos, produtos, bens etc. E um outro efeito da reforma tributária incidiu sobre a redução no volume de contenciosos jurídicos e administrativos, o que contribui para arejar a burocracia institucional.

(CONTINUA) 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/faria-limer-parte-1

quinta-feira, 21 de março de 2024

O ANARCO-CAPITALISMO DE MILEI

Milei se projetou como um personagem histriônico e excêntrico”

Javier Milei foi eleito presidente da Argentina num movimento eleitoral que rompeu com a política recente e tradicional do país, o que inclui o peronismo, sua versão kirchnerista e a última versão liberal de governo realizada no governo Macri. 

Milei apareceu no cenário político argentino eleito deputado, como um outsider, mais exatamente como um anarco-capitalista, o que pode ser entendido como mais uma liderança populista de extrema direita latino-americana, em versão ultraliberal. Foi eleito, por fim, como presidente, pelo partido A Liberdade Avança, vencendo o peronista Sergio Massa, ministro da Economia do governo anterior de Alberto Fernández.

O peronismo, que representa um amplo espectro da política argentina, vem dos anos 1940, e defende o estado de bem-estar social, incluindo bandeiras de justiça social e do trabalhismo. No século XXI tivemos a versão kirchnerista do peronismo nas figuras de Néstor e Cristina Kirchner, produzindo subgrupos como o La Cámpora, organização política juvenil de apoio ao kirchnerismo, e depois a Alberto Fernández, que governaram a Argentina de 2003 até 2015, numa reação à crise liberal do “corralito”. 

Em 1989, embora seja de cepa peronista, o Partido Justicialista elegeu Carlos Menem, que acabou sendo um presidente liberal, vendendo as maiores estatais argentinas. Conseguiu reerguer a economia e se reelegeu em 1995. Problemas sociais, no entanto, foram a derrocada de Menem. Javier Milei, desta vez, encarna o ultraliberalismo, no que se chama de anarco-capitalismo, que tem origem em seu fundador teórico Murray Rothbard, um seguidor de Von Mises, que nos anos 1970 escreveu o livro “A ética da liberdade”, dando origem a este movimento que prega a liberdade do capital sem a intervenção do Estado, com a sua consequente extinção.

Javier Milei, ao se colocar como um anarco-capitalista, também se posiciona como antiperonista e anti kirchnerista, que propôs em sua campanha eleitoral a extinção do peso e a dolarização da economia argentina, mesmo com o país tendo parcas reservas da moeda norte-americana. Milei também se declara admirador de Domingo Cavallo, que guiou a economia no governo Menem e foi o idealizador do corralito sob o governo Fernando De la Rúa, numa tentativa de salvar os bancos argentinos através da intervenção do Estado. 

A medida drástica do corralito adveio de uma queda contínua da economia argentina, chegando em 2001 com uma dívida externa de 144 bilhões de dólares, sofrendo sanções do FMI (Fundo Monetário Internacional), sob medo de calote argentino. O corralito foi o estabelecimento de um limite semanal de saques nos bancos argentinos, com aposentadorias sendo parceladas em até 12 vezes, gerando uma onda de saques comércios locais. 

O resultado desta corrida de saques foi a convulsão social nas ruas, o chamado estallido social, num união da classe média agora falida, com os salários derretendo, e os piqueteiros, que fazem barricadas nas ruas. Em consequência da crise, Domingo Cavallo renuncia ao ministério da Economia em dezembro de 2001 e De la Rúa renuncia e foge de helicóptero da Casa Rosada, dias depois, dando lugar a 12 dias em que a Argentina teve cinco presidentes diferentes, até que Néstor Kirchner foi eleito presidente da Argentina nas eleições de 2002.

Com a crise argentina se alternando entre governos liberais e peronistas, a última versão foi o do neoliberal Mauricio Macri (em 2018, estive em Salta, e num muro estava pichado “Macri Basura”, cheguei a fotografar a pichação), que deu lugar a Alberto Fernández, peronista. Nenhum deles deu solução ao problema argentino, e a população elegeu Milei, num voto antissistema, disruptivo.

Depois de propor a chamada “Lei Ônibus”, texto-base de um superpacote de 664 artigos, Javier Milei se deparou com derrotas em questões como as envolvendo as privatizações das empresas estatais. Depois dessas derrotas, a “Lei de Bases e Pontos de Partida para a Liberdade dos Argentinos”, apelidada de “Lei Ônibus”, foi reduzida a um conjunto de 382 artigos. A chamada “Lei Ônibus” também sofreu protestos nas ruas, com uma grande greve geral que afetou toda a Argentina, com manifestantes que tomaram a Praça do Congresso argentino. As manifestações reuniram ativistas culturais, sindicatos e trabalhadores. 

Por sua vez, o fim do imposto sindical, um dos pontos polêmicos do superpacote, que tinha sido suspenso pela Justiça Trabalhista da Argentina em 3 de janeiro, teve decisão confirmada pela Câmara Nacional de Apelações do Trabalho da Argentina em 30 de janeiro. 

Quanto a DNU (Decreto de Necessidade e Urgência), este abarca medidas de reforma da organização do Estado argentino, sobretudo na economia, mas foi fortemente criticado pela oposição, levando à judicialização de alguns temas. Para tentar acabar com as disputas jurídicas, Milei propôs a tramitação do DNU no Congresso. 

O DNU é diferente da Lei Ônibus, pois se trata de um decreto, ou seja, vale automaticamente depois de anunciado. Contudo, tópicos relacionados à justiça do trabalho, com propostas de desregularização, acabou sendo questionado judicialmente pela CGT (Confederação Geral do Trabalho), a principal central sindical da Argentina, que derrubou seis artigos do DNU.

Milei se projetou como um personagem histriônico e excêntrico, que recebe mensagens de seu falecido cachorro Conan, e que tem clones vivos. Um louco que parecia ouvir vozes durante a campanha, usando o símbolo de um Leão, agitadíssimo, fanfarrão, mais uma figura populista, destas que ganham eleições no grito, prometendo rupturas épicas e milagres titânicos. Parece que sua Lei Ônibus, contudo, de tão exagerada, poderia não curar o doente, mas envenená-lo de vez e matá-lo, o que foi limitado pelo Congresso, que se mostrou mais realista, e deteve a sanha reformista de Milei.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : O anarco-capitalismo de Milei - Século Diário (seculodiario.com.br) 





segunda-feira, 18 de março de 2024

A VIDA DOS LOUCOS

Eu escrevi este poema bobo,

tonto de bebedice,

pois gosto de besteirol.


Faz poema desta piada,

longe da secura, da sisudez

dos acadêmicos, faz este 

poema feliz, como a ode

de um louco, de um 

mártir.


Faz este poema bem doido,

com a loucura e a febre

dos visionários.


18/03/2024 Gustavo Bastos  

O JARDIM ESTRUTURADO

 Existe esta possível solidez dos planos,

que um dia em rarefeitos sonhos

foram se condensando em ações.


Este grande futuro de anelo,

tanto mais a vontade se firma,

seu ás e seu ápice realiza.


Este poeta estava na fuligem das fábricas,

cortando com martelos, arames e esquadros

um suor de ferro soldado em fogo de fel.

Mais ainda, um pretenso canalha,

na sombra da moita, caiu qual

ferrabrás em seu tombo sem base.


Da vida magmática daquele ferro gusa,

mais para frente, pude imaginar,

já livre daquela foice em brasa,

o campo e seu éden, a contemplação

beatífica do que sonhei

como este jardim, esta flor

e o mar logo ali.


18/03/2024 Gustavo Bastos 



quinta-feira, 14 de março de 2024

O BARDO DO SOL

O bardo cantou na febre seus lagares.

Dos notáveis herdou a espada e a flor,

e seu combate se batia com guerra e amor.


O bardo, desta história vulcânica,

em que os corpos se golpeiam

em desejos e anelos, e a alma

sonha vária um cume solar,

tem na hora determinada

seu fastígio, seu hino glorioso.


O bardo canta tonto e bebum

os vinhos de um canto báquico,

pronto ao bosque e às fortunas

sátiras dos panegíricos

sobre os reis da vida.


14/03/2024 Gustavo Bastos  

CANTO DO DESTERRO

 Eis o canto do desterro, 

a palavra que sucumbiu à fera

dos mares, nas vidas 

navegadas dos abismos.


Eu escrevia o baile, 

e o vigor de uma turgidez explosiva,

os potes de ervas, de caldos, 

os unguentos, e a sorte sem viés 

dos que sabem acertar o alvo.


O canto do desterro, do poeta suicidado,

desconhece este signo de fortuna,

dos símbolos ocultos da riqueza,

dos ídolos que ascenderam ao topo.


Os versos do desterro

são uma melodia que

cai do peito dos

degredados, e a vinha

que vai ao rés-do-chão

está à flor da pele,

esperando a chuva.


O poeta do degredo

canta este desterro.

Ele se perdeu no mar

de seus delírios,

com o girassol

de seu estro

alucinado.


14/03/2024 Gustavo Bastos 

quarta-feira, 13 de março de 2024

FALANDO COM VAN GOGH

“O evento do Museu D`Orsay se chama Bonjour Vincent”


Fiz uma viagem incrível, recentemente, para o Museu D`Orsay, para ir atrás do burburinho em torno da versão de inteligência artificial que fizeram de Vincent van Gogh, um dos meus pintores preferidos, e que foi o responsável por apontar o caminho do futuro da pintura mundial, sobretudo para o movimento expressionista, que tiveram vultos como Kandinsky e Edvard Munch.

O evento do Museu D`Orsay se chama “Bonjour Vincent”, uma criação de engenheiros com o uso de inteligência artificial, e que se baseou nas cerca de 900 cartas que Vincent escreveu durante o século XIX e também as primeiras biografias sobre a vida do pintor. Portanto, a aplicação da inteligência artificial foi a criação de uma ferramenta que torna possível aos visitantes do museu uma conversa com Vincent van Gogh.

A ferramenta foi desenvolvida pela Jumbo Mana, uma startup que agora também planeja lançar o programa van Gogh A.I. para rodar nos dispositivos Alexa em 2025. A Jumbo Mana também trabalha num projeto de A.I. que se baseia na vida do poeta francês Arthur Rimbaud, viciado em ópio que experimentou alucinações e as bordas da consciência.

Pois tive esta oportunidade de conversar com Vincent e saber de suas sensações ao pintar. Perguntei de seu uso do amarelo e do azul, e ele disse que tanto gostava de pintar ao ar livre, na luz do dia, nos bosques, como também pintava a noite, com as estrelas da noite, e que tinha perturbações sociais que o levaram a tentar virar pastor, num surto exaltado, mas acabou resultando na pintura “os comedores de batatas”, uma de suas pinturas icônicas sobre as classes populares de sua época.

Não perguntei sobre a sua morte, pois além da A.I. estar com uma resposta padrão mal ajambrada, pelo que ouvi dizer, não tenho o menor interesse sobre seu suicídio, mas por sua obra que, infelizmente, foi pouco ou nada reconhecida, resultando na venda de apenas uma pintura, a “Vinha Encarnada”, que foi comprada por Anna Boch, em Bruxelas, por 400 francos.

Quando perguntei o que ele achava de seu sucesso póstumo, se aquilo o perturbava, ele admitiu que teria sido feliz caso tivesse conseguido vender as suas pinturas em vida, pois ele dependia de seu irmão Theo para ter tanto o material para seu trabalho com arte como para ter uma casa e comida para comer. Vincent não se queixou, contudo, da família, muito pelo contrário, mas acha que o cenário da época era muito conservador para o salto que ele estava dando.

Perguntei de suas preferências de cores, e ele me disse “que evoluiu de pontinhos amarelos para aquilo virar um sol, e um estudo da luz”, e sua pintura foi ganhando vivacidade, e “que o sol era o amarelo, e aquilo me levou a usar esta cor nas pinturas ao ar livre, pois eu buscava pintar a luz, a iluminação, e as pinceladas eram rápidas e robustas, dando um tom forte para o que eu estava buscando e achando”. 

Informei para Vincent que sua influência sobre os pintores que vieram depois dele foi muito importante, sobretudo o Expressionismo, e expliquei os fundamentos de pintura do movimento que se originou na Alemanha, e ele disse “sentir grande felicidade em saber que foi importante, pois em vida eu sabia que fazia uma coisa importante, mas duvidava dentro de meu espírito sobre a realidade, sobre meu destino, pois não conseguia vender o que pintava”.

A vida foi boa e ruim para Vincent. Sua pintura o levou longe, para uma experiência de beatitude a qual poucos têm acesso, mas a vida real foi ingrata, desmedida, e que o consagrou tanto depois, e que me parece uma desmesura que me causa calafrios, uma vez que os artistas gostam de flores em vida. Portanto, me parece algo terrível imaginar o espírito de Vincent, de verdade, depois disso tudo, e não a conversa que tive com um programa de computador.


Guilherme Thompson, cronista e outsider.

Guilherme Thompson é um cronista outsider, documentarista eventual, jornalista autodidata, nascido em 01/01/1974 na cidade do Rio de Janeiro, ganha a vida em jornais diversos, trabalha por demanda própria, vive nas ruas caçando pauta, meio como um antropólogo intuitivo, estuda literatura e filosofia por conta própria, gosta de se vestir com camisas de bandas de rock clássico.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor. 

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/falando-com-van-gogh