PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

terça-feira, 27 de abril de 2021

O NOME DAS COISAS EM SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

“um canto que denuncia o torpor de uma dimensão trevosa em que se perde o conteúdo humano”

No seu livro de 1977, O nome das coisas, temos uma bela descrição de paisagem no poema Cíclades, no qual nos aparece em metáfora o poeta Fernando Pessoa, meio que colocando o tema do exílio, e o poeta que nos aparece apartado, evocando uma luminosidade que se dispersa numa luta incessante entre luz e trevas, vida e morte, e uma inflexão filosófica que prorrompe entre o esforço de tensão entre o ser e o não ser, algo que nos remete àquelas especulações pré-socráticas do início de uma reflexão pós-mitológica.

A estrutura do livro se dá em ordem cronológica, com a sua primeira parte com poemas que compõem o trabalho realizado por Sophia entre 1972 e 1973, e seus escritos que envolvem a sua produção de 1974 e 1975, sendo a segunda parte, e por fim, uma terceira parte, de 1976, finalizado um trabalho condensado e sintetizado que cobre a produção poética de Sophia durante cinco anos.

O livro tem grande lastro no tema da Revolução dos Cravos, a Revolução de 25 de abril, contra o regime salazarista, em 1974, e que derrubou este longo regime que governou Portugal. Tal revolução estabeleceu liberdades democráticas que tinham sido ceifadas no Salazarismo, e que agora, em 1974, Portugal teria novamente a promoção de transformações sociais.

Houve um golpe militar em 1926, em que se estabeleceu uma ditadura em Portugal. Antônio de Oliveira Salazar se torna primeiro-ministro das finanças e virtual ditador em 1932, em que cria um regime baseado no fascismo italiano. Neste período salazarista as liberdades de reunião, de organização e de expressão foram suprimidas com a então  Constituição de 1933.

Agora, em 1974, com o advento da Revolução dos Cravos, que libertou Portugal do Salazarismo, a poeta Sophia coloca seus poemas dentro de um serviço histórico em forma de arte poética, aqui temos as metáforas de Sophia realizando uma leitura histórica estilizada, como uma forma artística que afirma a si mesma, mas que tem em seu fundo temático o fenômeno histórico português. Aqui se dá, por fim, uma confluência entre a consciência política e a temática grega.

Sophia é animada por uma ideologia que remonta a um Humanismo cristão, e tem no centro de sua poesia toda a herança temática da civilização helênica, e todas as lições gregas que envolvem certa sabedoria, uma reflexão filosófica sofisticada, estão presentes e sendo constantemente discutidas na poesia produzida pela poeta Sophia.

Os valores perdidos que vinham desta civilização helênica são remontados e revividos na poesia de Sophia, com valores caros como a justiça, a harmonia e a verdade. Tudoo  que possa atingir a dignidade humana é combatido nesta poesia que se eleva diante da tragédia, com um canto que denuncia o torpor de uma dimensão trevosa em que se perde o conteúdo humano, daí o caráter humanista da poesia de Sophia.


DE O NOME DAS COISAS :

CÍCLADES : (evocando Fernando Pessoa) : O poema sobre o poeta que atingiu o clímax da poesia de Portugal e do mundo, se torna aqui, mais uma vez, a homenagem de Sophia : “A claridade frontal do lugar impõem-me a tua presença/O teu nome emerge como se aqui/O negativo que foste de ti se revelasse”. Sophia enumera as luminosidades, prodígios e a desdita poética de um sentimento de exílio, no que temos : “Viveste no avesso/Viajante incessante do inverso/Isento de ti próprio/Viúvo de ti próprio/Em Lisboa cenário da vida”. A cena portuguesa, e esta vida de uma cultura, no caso de Pessoa, este sentido de não-pertencimento revivido e escrito aqui neste poema : “Esquartejado pelas fúrias do não-vivido/À margem de ti dos outros e da vida/Mantiveste em dia os teus cadernos todos/Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas/Das múltiplas navegações da tua ausência”. O grande mapa de Pessoa, sua obra, seus escritos de uma busca perdida : “Nasceste depois/E alguém gastara em si toda a verdade”. À frente de seu tempo, Pessoa nasceu depois, este bardo aponta para um futuro que, em seu presente, se encontra oculto, no que temos : “Para que não sendo ninguém dissesses tudo/Viajavas no avesso no inverso no adverso”. Tudo foi dito na poesia de Pessoa, seu fardo descarregado fez o trajeto de uma obra completa, um giro pleno de suas faculdades poéticas, no que vem : “Invoco-te como se chegasses neste barco/E poisasses os teus pés nas ilhas” (...) “Chamo por ti – reúno os destroços as ruínas os pedaços – Porque o mundo estalou como pedreira”. Seu canto é ausência, a poesia não pertence ao lugar real em que o poeta habita, sua evanescência aponta para um ideal que pode apenas se refugiar numa inflexão espiritual, sem a utilidade de um  mundo concreto, e qual um Ulisses, seu mundo se torna povoado de mitos : “Porém aqui as deusas cor de trigo/Erguem a longa harpa dos seus dedos/E encantam o sol azul onde te invoco/Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência” (...) “Pudesse o instante da festa romper o teu luto/Ó viúvo de ti mesmo/E que ser e estar coincidissem/No um da boda” (...) “Como se o teu navio te esperasse em Thasos/Como se Penélope/Nos seus quartos altos/Entre seus cabelos te fiasse”.

O PALÁCIO : Aqui se descreve o palácio e a lenda do Minotauro, mais uma vez este canto de Sophia evoca este ente trágico cretense, no que temos : “Era um dos palácios do Minotauro/- O da minha infância para mim o primeiro -/Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)”. A infância de Sophia pinta novamente esta vida minoica dos confins de um mundo, ainda, completamente mitológico, no que temos : “Estátuas escadas veludo granito/Tílias o cercavam de música e murmúrio/Paixões e traições o inchavam de grito” (...) “Era um dos palácios do Minotauro/O da minha infância – para mim o vermelho”. Sua infância reluzia do mito e o brilho de prata que tilinta noite e dia : “Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro/A prata brilhava o vidro luzia/Tudo tilintava tudo estremecia/De noite e de dia”. A infância da poeta, ainda dominada pelo não-saber, tateando o mundo novo da vida, é qual a indiferença primeva de Kaos, uma tabula rasa onde tudo acabara de nascer, um tumulto cego que ainda iria adquirir uma visão : “Era um dos palácios do Minotauro/- O da minha infância para mim o primeiro -/Ali o tumulto cego confundia/O escuro da noite e o brilho do dia/Ali era a fúria o clamor o não-dito/Ali o confuso onde tudo irrompia/Ali era o Kaos onde tudo nascia”.

LAGOS I : (Un jour à Lagos ouverte sur la mer comme L`autre Lagos (Senghor)) : O filósofo africano de grande amplitude reflexiva é aqui homenageado, no que segue : “Em Lagos/Virada para o mar como a outra Lagos/Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor :/A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza/É uma arte poética e uma forma de honestidade/Acorda em mim a nostalgia de um projecto/Racional limpo e poético”. Senghor tem a clareza racional e a plenitude dos sentimentos num mesmo prisma, seu brilho combate o arbítrio, e sua vida em Lagos reflete o conflito de uma alma grande e nobre, no que temos : “Os ditadores – é sabido – não olham para os mapas/Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões/O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos”. As ditaduras só praticam a coleção de corpos, o talento tanatológico mata o pensamento e o senso crítico e de justiça, no que temos : “Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil/Aceitar o confuso o disforme a ocultação”. E a clareza de Lagos remete à poeta Sophia este conflito com a escuridão e os descaminhos da insciência, no que vem : “Na nitidez de Lagos onde é visível/Tem o recorte simples e claro de um projecto/O meu amor da geometria e do concreto/Rejeita o balofo oco da degradação/Na luz de Lagos matinal e aberta/Na praça quadrada tão concisa e grega/Na brancura da cal tão veemente e directa/O meu país se invoca e se projecta” (Lagos, 20 de Abril de 1974). A poeta pensa em um mundo esclarecido, o poema, aqui, se volta para esta ideia e, digamos, cosmovisão.

NESTA HORA : O poema traça o caminho da verdade, indômita, implacável com seus inimigos, e se impõe, como fato consumado, no que temos : “Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda/Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se/invoca o povo/Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio/E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade”. O combate à demagogia que vem desde a fundação democrática, sendo o demagogo a decadência de uma democracia infantil e doente, temos : “O demagogo diz da verdade a metade/E o resto joga com habilidade/Porque pensa que o povo só pensa metade/Porque pensa que o povo não percebe nem sabe”. A manipulação do povo pode se render à bestialidade destes demagogos, a meia verdade, ou a escamoteação, de uma fala dominada por sofismas falaciosos, e que funda este discurso hipócrita, que pode sepultar a verdade nesta sanha mistificadora, no que temos : “A verdade não é uma especialidade/Para especializados clérigos letrados/Não basta gritar povo é preciso expor”. A verdade, para ser restituída, não será pela via do discurso, no entanto, pois o seu poder supremo reside na sua demonstração, o mundo real e concreto precisa ser sacudido, e a verdade, neste abalo sísmico, restitui o seu próprio mundo, o poema de Sophia assim bem o sabe, e o mundo da verdade é a iluminação que fala diretamente, sem intermediários, no que vem : “Como quem parte do sol do mar do ar/Como quem parte da terra onde os homens estão/Para construir o canto do terrestre/-Sob o ausente olhar silente de atenção” (...) “Para construir a festa do terrestre/Na nudez de alegria que nos veste”.

COM FÚRIA E RAIVA : Aqui continua o périplo da poeta Sophia contra os demagogos, no que temos : “Com fúria e raiva acuso o demagogo/E o seu capitalismo das palavras”. A palavra e seu dom são conspurcados por esta falsa arte da prestidigitação, no que segue : “Pois é preciso saber que a palavra é sagrada/Que de longe muito longe um povo a trouxe/E nela pôs sua alma confiada”. A nomeação do mundo veio antes de nomes falsos que disfarçam as suas intenções, a falácia aqui ainda não havia nascido, nesta inauguração da linguagem diante de seu mundo extralinguístico : “De longe muito longe desde o início/O homem soube de si pela palavra/E nomeou a pedra a flor a água/E tudo emergiu porque ele disse”. Diante da demagogia e sua prática nefasta, a poeta Sophia, como uma das detentoras do dom da palavra, denuncia este barbarismo discursivo, no que temos : “Com fúria e raiva acuso o demagogo/Que se promove à sombra da palavra/E da palavra faz poder e jogo/E transforma as palavras em moeda/Como se fez com o trigo e com a terra”.

LIBERDADE : A poeta Sophia canta a liberdade do poema e, por conseguinte, a sua própria liberdade, e a estrutura do poema, que se tece com um pensamento determinado, no entanto, é um ente do inaudito, residindo aí o seu paradoxo, na hora de sua criação : “O poema é/A liberdade” (...) “Um poema não se programa/Porém a disciplina/-Sílaba por sílaba -/O acompanha” (...) “Sílaba por sílaba/O poema emerge/- Como se os deuses o dessem/O fazemos”. Algo do dom é como uma pequena dádiva dada ao poeta, um vislumbre de uma ambrosia dos deuses.

A CASA TÉRREA : A arte, para ser plena, não deve funcionar como o preenchimento de um vazio espiritual, sua plenitude deve estar aliada, necessariamente, a uma vida que também seja plena, no que temos : “Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo/que não soubeste ser”. A alma não deve se refugiar em sua arte, em meio a uma vida lamuriosa, pois a poeta Sophia tenta aliar o projeto literário ao projeto de vida, como se se tratasse de um único e universal projeto, no que vem : “Que não seja transferência nem refúgio/Nem deixes que o poema te adie ou divida : mas que seja/A verdade do teu inteiro estar terrestre”. Um poema inteiro, sólido, deve vir de um corpo e alma inteiros, sólidos, com toda a sua dignidade e integridade sustentadas em sua força : “Então construirás a tua casa na planície costeira/A meia distância entre montanha e mar/Construirás – como se diz – a casa térrea -/Construirás a partir do fundamento”. O fundamento é o alicerce, a coluna master, a arte se ergue com os pés na terra, uma visão forte e sólida, como uma grande pedra angular.

A FORMA JUSTA : A poeta Sophia, mais uma vez, se volta às valorações fundantes da civilização, aqui com a forma justa, a justiça, e vem : “Sei que seria possível construir o mundo justo/As cidades poderiam ser claras e lavadas”. Toda a ideia de harmonia das formas, é nada mais que a justeza destas formas, uma arquitetura angular que, por sua vez, deve se refletir numa sociedade angular, proporcionada, harmônica, justa, em que a liberdade está consoante aos valores estabelecidos num eixo claro e determinado, no que temos : “Cada dia a cada um a liberdade e o reino/-Na concha na flor no homem e no fruto/Se nada adoecer a própria forma é justa/E no todo se integra como palavra em verso/Sei que seria possível construir a forma justa/De uma cidade humana que fosse/Fiel à perfeição do universo” (...) “Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco/E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo”. O esforço da poeta Sophia pela forma justa é, também, para além de seu poema, a prática de uma cosmovisão que ela quer ver concretizada no mundo da vida e da civilização.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

 

    

 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE VII

“Toda a cena norueguesa é baseada no Euronymous e no testemunho dele em sua loja.”

Em Lords Of Chaos, podemos ler : “Um sueco chamado Per Yngve Ohlin, codinome “Dead”, viria a se juntar ao Mayhem como seu novo vocalista, tendo sido anteriormente membro de uma banda de death metal com tema de terror, chamada Morbid.

O Dead seria o primeiro membro notável da saga do black metal nórdico ao dar um tiro em sua própria cabeça, em 1991, vivendo à altura do seu apelido ao mesmo tempo que morria com ele.”

Ainda segue em Lords Of Chaos : “Na costa oeste da Noruega se encontra a antiga cidade de Bergen, famosa por sua atitude aristocrática de independência em relação às outras áreas do país – especialmente Oslo.

Bergen era o lar de Kristian Vikernes (que posteriormente mudaria seu nome legalmente para Varg), um adolescente carismático com um entusiasmo explosivo por qualquer assunto que fosse sua fixação no momento.”

Temos o seguimento do relato em Lords Of Chaos : “Tendo tocado guitarra por anos, ele se juntou à banda de death metal Old Funeral, mas rapidamente se cansou da superficialidade e dos shows juvenis da banda.

Ao tocar com o conjunto, Vikernes teve contato com muitos dos que mais tarde se tornariam importantes para o mundo do black metal. Ele conheceu os músicos que posteriormente formariam  a banda Immortal, e também conheceu o lendário Euronymous.

Depois de sair do Old Funeral, Vikernes formou uma one-man band para poder ter controle total sobre sua obra. Originalmente chamada Uruk-hai, em uma referência à obra de J.R.R.Tolkien, ele posteriormente mudou o nome do projeto para Burzum, outro termo cunhado por Tolkien que significa “escuridão”.”

Segue Lords Of Chaos : “O Burzum não foi a única banda nova de black metal a surgir. Um conjunto de Oslo, Darkthrone, estava começando a chamar atenção e fez alguns shows nessa época.

Alguns membros da banda ainda usavam roupas de ginástica, entregando as suas origens no death metal; outros começaram a usar trajes mais alinhados com a estética do black metal que começava a se desenvolver.”

Segue Lords Of Chaos : “Outros conjuntos que logo reivindicaram o título de black metal incluíam o Immortal (que também surgiu do que sobrou do Old Funeral) e um jovem grupo do interior de Telemark, Emperor.

Essa última banda, junto de Vikernes, estava destinada a cumprir um papel importante no processo de trazer ao gênero a atenção  não só de colecionadores de discos, mas também das delegacias de polícia.”

Euronymous abriu uma loja de discos que também virou gravadora, a Helvete, e que foi ponto de encontro das figuras mais importantes do cenário black metal que evoluiria naquela época.

Metalion nos diz : “Esse foi o momento da criação de toda a cena do black metal norueguês – está tudo conectado àquela loja, à influência que o Euronymous tinha sobre os clientes mais jovens da loja, e a como ele os convencia do que era real ou não nesse mundo.

Muitos dos caras do Immortal e do Darkthrone curtiam death metal normal e o Euronymous mostrou pra eles o que o black metal era de verdade, como as coisas deviam ser, e eles o seguiram.

Olhando para o primeiro álbum do Darkthrone e comparando com o segundo, dá pra ver a influência do Euronymous no segundo, A Blaze in the Northern Sky. Esse foi o primeiro álbum de black metal norueguês depois do Deathcrush que foi realmente uma influência grande pro resto da cena.

Depois veio o Immortal, que era uma banda de death metal que virou black metal, também por influência do Euronymous. Mesmo que eles não admitam, é verdade. Mesma coisa com o Emperor – eles tinham uma banda chamada Thou Shalt Suffer, que era death metal, e virou Emperor, que era black metal. Toda a cena norueguesa é baseada no Euronymous e no testemunho dele em sua loja.

Ele convenceu eles do que era certo e do que era errado. Ele sempre dizia o que pensava; seguindo os próprios instintos sobre o que seria o black metal verdadeiro tipo usar corpse paint e spikes, idolatrar a morte e ser extremo. Era isso que ele falava pra todo mundo.”

Aqui temos, lendo o livro Lords Of Chaos, neste trecho, o que gerou e desenvolveu o cenário black metal norueguês, e as sementes do mal que logo chocariam o mundo, numa versão diabólica do rock nunca antes vista.

O black metal norueguês daquela geração noventista que surgia ultrapassou a barreira da teoria, como o perverso psicanalítico, e alguns membros do que viria a ser o inner circle foram às vias de fato para produzir a polêmica e o caos.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-vii 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

O NFT, A CRIPTOARTE E SUAS NOVIDADES – PARTE II

“temos artistas fazendo suas obras independentes ao entrar para comunidades de criptoartistas”

No mundo dos jogos virtuais, o NFT tem um espaço de grande exploração e expansão, pois já temos o caso de comércio de itens exclusivos dentro dos jogos, os chamados colecionáveis digitais, podendo incluir qualquer item escondido pelo game.

Temos, ainda, exemplos que vão além, como o do game Cryptokitties, que tem como objetivo coletar gatinhos com genomas digitais únicos que definem sua aparência e características, e os jogadores podem criar os seus próprios gatos, dando origem a um novo e exclusivo personagem dentro do game.

As raridades, por sua vez, também são um nicho a ser explorado no mercado de NFTs, como foi o caso do primeiro tuíte do Twitter, que foi o do CEO da rede social. E as vantagens do NFT, além da autenticidade garantida, é pelo fato de um NFT não poder ser falsificado, e ele ainda atua num mercado sem mediação, diretamente pela transação em blocos do Blockchain, o que garante um mercado desburocratizado, onde existe um acordo direto entre comprador e vendedor.

A venda de um NFT por um artista ou proprietário de um bem colecionável, por sua vez, ainda pode ser objeto de pagamento de royalties para o criador do NFT, pois os artistas podem adicionar royalties de forma automática aos contratos digitais firmados na venda dos ativos, fazendo com que o token, mesmo sendo revendido várias vezes depois de sua venda pelo artista, este artista ou criador continue recebendo uma parte do lucro destas revendas para sempre.

Os NFTs ainda poderão atuar na digitalização de todos os direitos de propriedade intelectual existentes, trazendo ainda fontes de renda extra para outros segmentos, por exemplo, no caso da Taco Bell, com a empresa lançando uma série de GIFs vendidos por lances que buscam incentivar a fidelização do cliente.

A criptoarte, por sua vez, um dos destaques da expansão dos NFTs, utiliza o Blockchain, tendo os artistas a possibilidade de vender sua arte digital (criptoarte) de forma segura, e virou um mercado em que este artista pode vender a sua criptoarte para qualquer colecionador do mundo, valorizando o artista.

E temos estes artistas criando galerias com essa tecnologia, e produzindo obras virtuais numeradas ou únicas, obras nas quais os artistas usam a Blockchain para assinar e autenticar as mesmas, sejam criptoarte, crypto art, ou cripto-colecionáveis.

A assinatura Blockchain é conectada a uma arte digital que pode ser uma pintura no formato PNG, uma fotografia, uma música, ou ainda uma animação gráfica abstrata, podendo também ser gráficos, vídeos ou animações.

A criptoarte pode ser vendida nos chamados marketplaces, que são sites especializados em compra e venda específicos para estes itens de NFTs. O mercado de criptoarte se expande devido a esta segurança de envolver itens que não podem ser falsificados, e que podem ser negociados usando criptomoedas que podem ser convertidas em dinheiro normal de qualquer país.

Neste mercado de criptoarte que se expande, por sua vez, temos artistas fazendo suas obras independentes ao entrar para comunidades de criptoartistas, eles se reúnem em plataformas como o Telegram, o Discord, o Minds, o Crowdcast e outras plataformas. Estas plataformas de criptoarte são, em sua maioria, de caráter colaborativo, como o site dada.art, no qual estes artistas derrubam conceitos tradicionais da economia de arte.

Com este caráter colaborativo, a valorização destas obras de arte digital são feitas, uma vez que os negócios são feitos sem intermediários, com artistas que podem variar as as suas atividades criativas entre arte digital, gifs e vídeos, tornando estas plataformas um ambiente de experimentação artística, e com bastante troca de informações. As plataformas de criptoarte, por fim, servem para democratizar a produção de arte e valorizar os artistas.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-nft-a-criptoarte-e-suas-novidades-parte-ii 

 

 

 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

O NFT, A CRIPTOARTE E SUAS NOVIDADES – PARTE I

“A base do NFT está no Blockchain”

O NFT aparece como o grande movimento dentro da internet, isto desde a transformação provocada pelo Blockchain e pela criptomoeda Bitcoin. E o NFT é um cripto-colecionável, isto é, uma tecnologia que envolve transações de ativos digitais.

Os NFTs podem ser vídeos, criptoarte, jogos e itens colecionáveis. Os casos de vendas de NFT que repercutiram, recentemente, foram o meme Nyan Cat, peças de arte da cantora Grimes e o primeiro tuíte do CEO do Twitter.

A grande transformação do NFT, contudo, é sim na arte digital ou criptoarte. A sigla significa non-fungible token (em tradução livre, token não fungível) e se trata de um tipo de chave eletrônica criptográfica usada de forma única.

A pessoa que compra um NFT se torna proprietário de uma espécie de certificado de propriedade intelectual, com autenticidade e unicidade garantidas por esta chave criptográfica, o que lhe garante o caráter de um bem original, e não uma cópia.

O conceito de não-fungível é dizer que algo não pode ser cambiável por outro semelhante, como uma nota de cem pode ser trocada por duas de cinquenta, por exemplo. O NFT, então, é diferente de bens digitais ou criptoativos fungíveis como Bitcoin, Ethereum e a maioria das criptomoedas. Um bem não-fungível tem o caráter de ser único e original.

O NFT, envolvendo um bem não-fungível e digital, portanto, quando falamos da criptoarte, este se refere a um mercado que se torna semelhante ao das obras de arte físicas, o ambiente virtual toma emprestado conceitos que vem deste mercado e aplica às transações de criptoarte.

O NFT surgiu em 2012 com a apresentação da Coloured Coins, também conhecida como Bitcoin 2.x, uma criptomoeda que não vingou. O NFT mais comum, hoje em dia, é o padrão ERC-721, que opera na rede Ethereum, tendo NFTs de outros padrões, também, como o ERC-1155, da Enjin, que tem foco em videogames.

O Ethereum é a segunda criptomoeda mais famosa do mundo, atrás somente do Bitcoin, e, no caso do NFT, o Ethereum é fundamental, pois a chave criptográfica é armazenada no Blockchain Ethereum (ETH), que suporta a gravação de informações extras que diferenciam uma ETH (moeda virtual) de um NFT (ativo único).

A base do NFT está no Blockchain, pois este pode rastrear a troca de certas informações pela internet, criando uma rede de blocos entre os envolvidos nessa troca. Todas as vendas de NFT, portanto, estão registradas em detalhes no Blockchain.

Um NFT é único, por sua vez, pois comporta um valor específico e, também, tem propriedades próprias de seu token, pois este possui um hash digital, um tipo de função que converte letras e números em criptografia, que é diferente em cada padrão adotado, garantindo a originalidade de um NFT, e impedindo a sua falsificação.

O NFT de uma obra de arte, por exemplo, pode ser comprado como um tipo de investimento para uma possível venda futura se esta peça se valorizar no mercado. No caso do meme do Nyan Cat, o GIF foi leiloado por Chris Torres e arrecadou 300 ETH, o que equivale a cerca de US$ 600 mil e, a não ser que esteja especificado em contrato, o novo dono pode até explorar comercialmente o meme, lucrando com este NFT que agora lhe pertence.

E a indústria fonográfica também começa a explorar o mercado de NFTs, a banda Kings of Leon, por exemplo, lançou um novo álbum que incluía versões em NFT com certos benefícios exclusivos para o comprador.

Pode se dizer que a tecnologia não vai acabar com a pirataria, mas pode recriar e recuperar um mercado que entrou em crise com o surgimento do MP3, e depois, com uma pequena melhora, mas ainda ínfima, com as reduzidas compensações do streaming.

Com o NFT, então, podemos ter o caso de verdadeiros fãs desembolsando dinheiro para angariar reconhecimento de seu artista escolhido ou favorito e dar um apoio às iniciativas deste artista.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-nft-a-criptoarte-e-suas-novidades-parte-i 

 

 

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN E SEU LIVRO DUAL

“a poeta Sophia coloca Pessoa como tema e como forma poética”

A poesia de Sophia se estende mais ainda, agora, em seu livro Dual, em que a poeta se lança numa imersão na poesia produzida por Fernando Pessoa, este cânone incontornável da poesia moderna portuguesa.

Com eixos formais já usados e aperfeiçoados por Sophia, aqui com linhas temáticas que persistem na obra de Sophia, a participação da poesia de Fernando Pessoa se dá por meio de um confronto de uma poeta que, em sua essência, ainda é uma poeta de dicção mais clássica.

Este belo desafio de encontrar um elo entre esta sua poesia e a de Pessoa produziu bons frutos neste livro Dual, sobretudo o poema de título “Em Hydra, evocando Fernando Pessoa”, sendo feito um livro em que a poeta Sophia coloca Pessoa como tema e como forma poética, e a amplidão de sua voz ganha o reforço de uma voz que não lhe pertencia, realizando uma experiência poética que lhe engrandeceu.

As temáticas de ausências e sombras ainda estão como eixos da poesia de Sophia, Dual possui, ainda, um certo luto do coração da vida, uma visão de unidade ou fusão natural, e a sua poética da perda, como seu cânon temático, quando não estamos falando do mar, o centro de tudo em sua poesia.

O título Dual, por sua vez, que dá a cara deste livro, é fruto deste confronto bicéfalo de Sophia, que tem um tipo de dicção, com a poesia canônica de Pessoa, um diálogo que se iniciara no Livro sexto, no poema “Fernando Pessoa”.

Tal confronto ganha uma força descomunal no poema que falei, que é o potente poema “Em Hydra, evocando Fernando Pessoa”, que sempre será citado como o grande confronto realizado por Sophia com este cânon inquebrantável da poesia de Pessoa.

O fato que persiste, ainda, diante deste confronto, é a presença anterior de uma poesia de Sophia que se fundia à natureza, meio que habitando filosoficamente a dita “casa do ser”, um tipo de mundo desconhecido e exterior à poesia de Pessoa.

O poeta dos heterônimos produziu para si um mundo solitário de uma falta de lar ou paradeiro, uma dispersão absoluta que se perdeu no caos dos heterônimos, o melhor sintoma de escritos que se destinaram a ficarem dispersos, colhidos por bibliófilos avidamente até os dias atuais.

DE DUAL :

POEMAS :

EURYDICE : Numa poesia órfica, o lamento é nostálgico, e cheira o sal do mar, num canto mais antigo que os navios, e a fusão tectônica como coda : “O teu rosto era mais antigo do que todos os navios/No gesto branco das tuas mãos de pedra/Ondas erguiam seu quebrar de pulso/Em ti eu celebrei minha união com a terra”.

EM NOME : A poética da perda aqui aparece em Sophia, e sua poesia faz este breve lamento choroso : “Em nome da tua ausência/Construí com loucura uma grande casa branca/E ao longo das paredes te chorei”.

DELPHICA : II : A narrativa fala da queda de Apolo diante de Python, e a justa medida que evoca o deus grego, em sua imagem da harmonia, tem do humano este caráter personificado que dá aos deuses estes embates comuns também ao ser humano, no que temos : “Esse que humano foi como um deus grego/Que harmonia dos cosmos manifesta” (...) “Àquele amor inteiro e nunca cego/Que emergia da praia e da floresta”. A queda de uma arquitetura, de uma ideia, de um projeto, e o poema segue : “Agora jaz sem fonte e sem projeto/Quebrou-se o templo actual antigo e puro/De que ele foi medida e arquitecto” (...) “Python venceu Apolo num frontão obscuro/Quebrada foi desde seu eixo recto/A construção possível do futuro”. Se encerra aqui o primeiro bloco do poema e logo temos o seguinte, no que vem : VI (Antinoos de Delphos) : “Tua face taurina tua testa baixa/Teus cabelos em anel que sacudias como crina”. A descrição enaltece as virtudes do deus, e segue : “Tua pesada beleza/Teu meio-dia nocturno/Tua herança dos deuses que no Nilo afogaste/Tua unidade inteira em teu corpo/Num silêncio de sol obstinado/Agora são de pedra no museu de Delphos/Onde montanhas te rodeiam como incenso/Entre o austero Auriga e a arquitrave quebrada”. Sobra ao mito agora um destino de ruína e antiquário, objeto do museu, em que algo se quebrou, um mito que se tornou longínquo.

HOMENAGEM A RICARDO REIS : I : Novamente Sophia empreende um confronto formal com a poesia de Fernando Pessoa, e este diálogo se torna intenso neste seu livro Dual, no que temos : “Não creias Lídia, que nenhum estio/Por nós perdido possa regressar/Oferecendo a flor/Que adíamos colher.”. E o tema se concentra no tempo, e no seu caráter irrepetível, em que o dardo é lançado somente uma vez, no que temos uma visão de uma temporalidade impiedosa, impassível, no que vem : “Cada dia te é dado uma só vez/E no redondo círculo da noite/Não existe piedade/Para aquele que hesita.” O pecado mortal da hesitação é a maior fatalidade que existe neste tempo contínuo e sem piedade, a marcha que aqui se empreende é cega ao murmúrio do arrependimento ou do alvo que se foi, o não-vivido aqui aparece como a tragédia existencial do tempo perdido, no que temos : “Mais tarde será tarde e já é tarde./O tempo apaga tudo menos esse/Longo indelével rasto/Que o não-vivido deixa.” (...) “Não creias na demora em que te medes./Jamais se detém Kronos cujo passo/Vai sempre mais à frente/Do que o teu próprio passo.”. O tempo em Kronos aqui ultrapassa os passos humanos, que cambaleiam diante dos golpes do destino.

DUAL : A condução aqui é dual, os cavalos se guiam e a poeta entra em fissura, seu espírito, ao fim, se desagrega : “Dois cavalos a par eu conduzia/Não me guiava a mim mas meus cavalos” (...) “E no país de espanto e de tumulto/Em mim se desuniu o que eu unia”.

INICIAL : O poema canta o regresso da poeta à sua senda original, possível destino de sua poesia, e sua alma é lavada, um rito que lhe restitui a praia inicial de sua vida : “O mar azul e branco e as luzidias/Pedras – O arfado espaço/Onde o que está lavado se relava/Para o rito do espanto e do começo/Onde sou a mim mesma devolvida/Em sal espuma e concha regressada/À praia inicial da minha vida”.

EM HYDRA, EVOCANDO FERNANDO PESSOA : A poeta se vê no porto de Hydra, e se debruça diante desta sua visão, um mundo se abre, no que temos : “Quando na manhã de Junho o navio ancorou em Hydra” (...) “Saí da cabine e debrucei-me ávida/Sobre o rosto do real – mais preciso e mais novo do que o imaginado” (...) “Ante a meticulosa limpidez dessa manhã num porto”. E, então, ela invoca o espírito da Odisseia, neste porto ela desperta para Odysseu, no que vem : “Murmurei o teu nome/O teu ambíguo nome” (...) “Porque a tua alma foi visual até aos ossos/Impessoal até aos ossos/Segundo a lei de máscara do teu nome”. Uma persona pode ser um heterônimo, e Odysseu, como o poema e a máscara, empreende uma longa viagem, desafiado até pelo canto das sereias, como em sua cena amarrado ao mastro, no que vem : “Odysseus – Persona/Pois de ilha em ilha todo te percorreste/Desde a praia onde se erguia uma palmeira chamada Nausikaa/Até às rochas negras onde reina o cantar estridente das sereias”. E o cenário de Hydra é descrito no poema, no que temos : “O casario de Hydra vê-se nas águas/A tua ausência emerge de repente a meu lado no deck deste barco” (...) “Imagino que viajasses neste barco/Alheio ao rumor secundário dos turistas/Atento à rápida alegria dos golfinhos”. E o culto da navegação, e todo o seu sentido marítimo, aqui emerge diante de nossa vista, no que vem : “Por entre o desdobrado azul dos arquipélagos/Estendido à popa sob o voo incrível/Das gaivotas de que o sol espalha impetuosas pétalas”. A poesia épica e mitológica de origem grega aqui é sintetizada por versos que homenageiam Fernando Pessoa, no que segue : “Nas ruínas de Epheso na avenida que desce até onde/esteve o mar/Ele estava à esquerda entre colunas imperiais quebradas/Disse-me que tinha conhecido todos os deuses”. A poeta sabe do grande conhecimento sobrenatural destas paragens, mas se reconforta ao seu retorno a um lar humano, sem o dom da imortalidade, no que temos : “Odysseus/Mesmo que me prometas a imortalidade voltarei para casa/Onde estão as coisas que plantei e fiz crescer/Onde estão as paredes que pintei de branco”. Ela deixa a Odysseu esta clarividência espiritual que é cara a este, e que atravessa a essência que torna tudo intensamente presente, este deus que sempre olha aquilo que é, no que temos : “Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua/Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua/Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é/olhado por um deus/Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente” (...) “O teu destino deveria ter passado neste porto/Onde tudo se torna impessoal e livre/Onde tudo é divino como convém ao real”. O porto de Hydra, ao fim, retoma à poeta a vida humana, mas o caráter divino aqui se enuncia como o dom da própria realidade.

O MINOTAURO : Aqui a poeta evoca o mito fundante da cultura minoica ou cretense, no que temos : “Em Creta/Onde o Minotauro reina/Banhei-me no mar” (...) “Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro/Na antiquíssima juventude do dia”. A poeta aqui dança como numa festa cretense, enfeitada de flores, no que segue : “De Creta/Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas/Para inteiramente acordada comungar a terra/De Creta/Beijei o chão como Ulisses/Caminhei na luz nua”. Esta poeta que, diante da ruína de uma civilização perdida, ainda mantém intacta a sua fúria, e segue : “Devastada era eu própria como a cidade em ruína/Que ninguém reconstruiu/Mas no sol dos meus pátios vazios/A fúria reina intacta”. Ela, então, se volta ao mar azul de Creta, e o celebra : “E o mar de Creta por dentro é todo azul/Oferenda incrível de primordial alegria/Onde o sombrio Minotauro navega”. Ali navega o Minotauro, este que habitará o labirinto de Dédalo, no que vem : “Em Creta/Inteiramente acordada atravessei o dia/E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos” (...) “Caminhei no palácio dual de combate e confronto/Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais”. Aqui se descreve tanto a vida como os objetos e muradas do cotidiano minoico, no que temos : “Em Creta/Os muros de tijolo da cidade minoica/São feitos de barro amassado com algas”. Qual um Teseu, segurando o seu fio de Ariadne, a poeta Sophia consegue atravessar o seu próprio labirinto do Minotauro, e se vê diante de uma saída proporcionada pelo fio de seus versos, no que temos : “Em Creta onde o Minotauro reina atravessei a vaga/De olhos abertos inteiramente acordada/Sem drogas e sem filtro/Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas -/Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto/Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”.

OS GREGOS : A poeta aqui descreve a cosmovisão dos gregos, no que temos : “Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante/Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz” (...) “O meandro do rio o fogo solene da montanha/E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre/Emergiam em consciência que se vê/Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia -/Esta existência desejávamos para nós próprios homens/Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem/O estar-ser-inteiro inicial das coisas -/Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece/E também à treva interior por que somos habitados/E dentro da qual navega indicível o brilho”. Esta casa do ser habitada por filósofos, antes cintilava numa clarividência sobrenatural habitada por deuses, e o grego sempre diante deste seu olhar que busca a origem, uma arqué.

CATARINA EUFÉMIA : A reflexão grega aqui é reconstituída pela poeta Sophia em seu eixo temático sobre a justiça, no que temos : “O primeiro tema da reflexão grega é a justiça/E eu penso nesse instante em que ficaste exposta” (...) “Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres/Nem usaste de manobra ou de calúnia/E não serviste apenas para chorar os mortos”. Esta entidade da justa medida não recua e estabelece o seu reino, no que temos : “Tinha chegado o tempo/Em que era preciso que alguém não recuasse/E a terra bebeu um sangue duas vezes puro” (...) “Porque eras a mulher e não somente a fêmea/Eras a inocência frontal que não recua/Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante/em que morreste/E a busca da justiça continua”. Esta busca da justiça continua, qual a luta de Antígona ou qualquer confronto que ameace este dom grego e de vida humana, a justiça e seu reino.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/sophia-de-mello-breyner-e-seu-livro-dual 

 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE VI

“Você não ouviria nada tão extremo quanto o Mayhem naquela época”

No final dos anos 1980, no cenário de rock, temos a ascensão do thrash metal, em que figuravam bandas como Metallica e Anthrax, estas dos Estados Unidos, e temos na Europa bandas como Sodom e Kreator, bandas alemãs, e uma banda suíça de nome Celtic Frost, que começara seu som com o nome de Hellhammer.

Tivemos a investida das gravadoras sobre o cenário thrash metal, e o mainstream tornou este som mais autoindulgente e uma exibição de habilidades técnicas esvaziadas, ao passo que temos o surgimento, em paralelo, das bandas de death metal, que tem como um dos possíveis marcos iniciais do gênero o álbum “Seven Churches” da banda Possessed, este que foi lançado em 1985.

O death metal inovava num cenário em que dominava os vocais agudos e os falsetes do metal mainstream da época, com vocais guturais e guitarras em afinações graves, o death metal rompia isto, e vinha com temáticas de letras gore e slasher (gênero de filmes sangrentos dos anos 1970 e 1980), que resultaram em canções de assassinatos, desmembramentos, estupros e torturas.

Temos como um gênero vizinho do death metal, por sua vez, o grindcore, este, segundo o livro Lords Of Chaos : “descendente mais direto da política dos pioneiros do anarquismo inglês e do “peace punk” como Crass e Rudimentary Peni, produziu seus próprios grupos extremamente populares, como Extreme Noise Terror, Napalm Death e Carcass.”

E segue o relato do livro Lords Of Chaos : “As duas inesperadas capitais mundiais do death metal foram a cidade de Tampa, na Flórida, e Estocolmo, na Suécia. Desses extremos de fogo e gelo, o gênero produziu seus artistas mais influentes : Entombed, Hypocrisy, Dismember e Unleashed, da Suécia; Morbid Angel, Death, Obituary e Deicide, do submundo pantanoso da Flórida.

Outras áreas dos EUA também produziram bandas notórias – os misóginos fãs de gore do Cannibal Corpse do norte do estado de Nova Iorque, o igualmente rude e hostil Autopsy da Califórnia.”

No cenário thrash metal, por sua vez, uma banda que ainda impunha respeito era o Slayer, que ainda tinha uma massa sônica insubmissa, antes de seu flerte com o metal mais moderno a partir de meados dos anos 1990.

O death metal, por sua vez, ganhou o mainstream entre 1989 e 1993, o que se subentende é que, neste bojo, surgiram bandas ruins, aproveitando o influxo das bandas pioneiras. Aqui temos o fenômeno clássico do underground sendo subsumido pelo mainstream para fins comerciais.

Na Noruega, que seria o centro da segunda e mais importante geração do black metal, ainda tínhamos, inicialmente, o som death metal sendo praticado por bandas como Mayhem, Old Funeral e Darkthrone. Logo estas bandas iriam um passo além, recebendo inspiração do Venom e do Bathory, criando um cenário de extremismos sem precedentes na música e no noticiário, seria algo impiedoso e inaudito.

O black metal norueguês envolve, além da sonoridade, a questão da crença e do visual dos músicos. Por sua vez, o papel que teve o Venom como banda fundadora do black metal mundial, temos o Mayhem com este papel pioneiro dentro da Noruega.

Álbuns que escuto desde adolescente, como Deathcrush, para mim, ainda é um som de splatter, com temas gore, evoluindo para o black metal, por fim, no álbum De Mysteriis Dom Sathanas, este de 1994.

No relato de Lords Of Chaos, temos : “Embora o Venom tivesse seguidores fiéis na Europa, o black metal ainda estava para desenvolver seu próprio estilo. Nesse período, Metalion (crítico musical, grifo meu) descobriu a existência do Mayhem, na época uma banda extremamente crua e primitiva de death metal, quando ele os conheceu do lado de fora de um show do Motörhead.”

Metalion, por sua vez, descreve o fato : “Eu conheci eles no show e eles me contaram tudo sobre a banda. Eu estava vendendo minha revista, então eu pude conhecer eles. Depois de alguns meses a gente teve um contato mais próximo.

Na época eles não tinham nem fita demo. Eles gravaram a primeira no verão de 86 – a demo Pure Fucking Armageddon. Era muito mais extremo que todo o resto; o som era muito, muito primitivo e muito mais brutal. Você não ouviria nada tão extremo quanto o Mayhem naquela época.”

O Mayhem lançou uma segunda demo e depois um miniálbum Deathcrush de 1987, a banda fez poucos shows neste período, mas foram shows antológicos, e a lentidão de Aarseth (Euronymous) em lançar material novo vinha de seu controle extremo sobre a banda e por problemas financeiros. Em seguida Aarseth adotou para  o Mayhem o visual que marcaria as bandas de black metal daquela geração noventista, o “corpse paint”.

O corpse paint tem origens difusas, não propriamente um marco inicial, mas pinturas faciais estilizadas já vinham de bandas como Kiss, King Diamond, Alice Cooper, Glen Danzig nos Misfits e a banda Celtic Frost. E Metalion, o crítico musical, coloca a origem na banda brasileira Sarcófago. Uma banda que veio ao conhecimento de Aarseth, que adorou o som e o visual da banda.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-vi 

 

 

 

O SOLID DE TIM BERNERS-LEE

“a plataforma visa se tornar um projeto de código aberto com amplitude mundial”

Tim Berners-Lee, o pioneiro criador do protocolo http e, em resumo, da internet, luta agora, através do projeto Solid (Social Linked Data), para recuperar a liberdade que houve um dia na internet, antes do domínio massivo das big techs, com uso indiscriminado de dados pessoais dos seus usuários, indo de encontro a este abuso, com o Solid, que consiste em criar uma web descentralizada, na qual os usuários terão, novamente, o controle sobre os próprios dados.

Tim Berners-Lee havia entrado em conflito com a sua criação, pois quando viabilizou a internet, em 1989, imaginou um ambiente livre e acessível para todos os seus usuários,  ele lança o Solid, então, que ainda é algo incipiente, e a apresentação oficial desta sua plataforma, veio acompanhada de sua empresa Inrupt Inc., esta ficando encarregada de cuidar da Solid.

A insatisfação de Berners-Lee com o que a sua criação, a World Wide Web, se havia tornado, levou ele a tentar retomar protagonismo nos rumos futuros deste mundo virtual, pois este domínio das big techs incomoda tanto os pioneiros da liberdade na internet, como governos e demais instituições, que já reagem fortemente com medidas anti-truste.

Seu trabalho conjunto com pessoas do MIT e de outros lugares o ajudou a desenvolver o Solid, que consiste num projeto open-source que visa restaurar a autonomia e posse de dados pessoais dos usuários da web. O projeto já tem alguns anos, veio de um paper publicado em abril de 2016, quando a plataforma foi apresentada pela primeira vez.

Berners-Lee explica : “O Solid é como vamos evoluir a web para poder restaurar o equilíbrio ao dar para cada um de nós um controle total sobre dados, pessoais ou não, de forma revolucionária. O Solid é uma plataforma, criada usando a web atual. Ela dá a cada usuário uma escolha sobre onde seus dados estão armazenados, que pessoas e grupos específicos podem acessar certos elementos, e que aplicativos você usa.”

Os objetivos da Solid são ambiciosos, pois a plataforma visa se tornar um projeto de código aberto com amplitude mundial, e o concurso da empresa Inrupt Inc. para viabilizar o alcance da plataforma é fundamental, uma empresa fundada por Berners-Lee em sociedade com John Bruce, e aqui se vê o trabalho de transformar a Solid em algo comercial, e a empresa ainda é responsável por manter a Solid no ar, como uma plataforma independente.

A Inrupt Inc., mesmo diante de não atingir a meta de criar um ecossistema que dê lucro com a comercialização de aplicativos certificados e que tenham hospedagem pelo Solid, a empresa já tem financiadores, tal como a Glasswing Ventures, que é uma empresa que aposta em tecnologias que visam desenvolver a IA (Inteligência Artificial).

Para além da ideia base do projeto, a privacidade e posse de dados pessoais pelos usuários da web, Berners-Lee acredita na Solid como um passo além na evolução da própria web, com uma internet realmente democrática e acessível para seus usuários.

E esta evolução da web será marcada por esta passar de simples biblioteca para consulta de documentos, indo para um ambiente participativo, em que os usuários poderão dar as suas próprias contribuições, para além da atual postagem ou comentários em redes sociais ou sites.

Esta ideia avançada de evolução da web antevê esta como um grande computador universal, com dados disponíveis para serem explorados globalmente, pois, segundo Berners-Lee, com a Solid, os usuários poderão “interagir e inovar, colaborar e compartilhar”.

Esta será a transição entre uma web de documentos, onde simplesmente se consulta conteúdos, para uma web de dados, onde existe uma participação ativa de seus usuários.

Berners-Lee ainda acredita na viabilidade comercial da Solid, pois a demanda para serviços confiáveis pode ser vista na experiência bem-sucedida do Dropbox, nuvem que muitos usuários pagam para acessar, pois não há controle de informações pessoais como no Google Drive. A qualidade e a segurança do Dropbox são características que a Solid deve ter, mas com ambições evolutivas para a web, como dito.

Uma crítica pode ser que algo descentralizado, como é a ideia para o Solid, implique em lentidão de processamento, pois um modelo P2P ou misto, envolvendo servidores Solid, poderia envidar um esforço de energia enorme, e tem ainda a dúvida se haverá uma massa de computadores ligados 24/7 (24 horas nos sete dias da semana) para sustentar a rede Solid.

Por sua vez, tendo, então, uma solução com servidores dedicados, haveria uma implicação das grandes corporações novamente, podendo inviabilizar o Solid. Talvez este alto consumo e o problema de processamento possam ser resolvidos por novas fontes de energia renováveis como a eólica e a solar, e ainda pelo próprio avanço tecnológico imponderável.

A ideia de um arquivo DATA que é protegido por uma chave privada, com esta gerando uma chave pública, que a conecta a um banco de dados específico, implica em que as ações do usuário ainda serão detectadas, só sendo preservados seus dados pessoais, a Solid, então, funcionará como um servidor proxy.

E esta ideia de ser uma plataforma disruptiva, pode ser questionada pelo fato da Solid ainda ter um sistema que depende de uma infraestrutura preexistente, é hospedado na AWS. O visual da plataforma ainda é incipiente, baseado em padrão bootstrap, e nem o código publicado no github parece ainda bem resolvido ou estruturado, ainda há um caminho longo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-solid-de-tim-berners-lee