PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 15 de junho de 2020

FADA VERDE

Passaram-se belos dias de verão, depois de uma vida rica e repleta em que o odor de incenso batia nas nuvens e toda a felicidade era possível, era assim que se sentia Ivan, e seu teor alcoólico variava, ele tinha sido um bom poeta, trabalhava com traduções do francês, e se fascinou com as histórias parisienses de fins do século XIX sobre absinto, e também desta bebida misturada ao láudano, um opioide. Não acreditava na loucura que muitos supostamente atribuíam à bebida, e como era conhecida por fada verde, Ivan tinha alegria e botava quem quisesse no bolso, como um bon-vivant tocando a sua flauta doce, como um fauno em torno do jardim das delícias. Ivan, de nome russo, odiava ser chamado de terrível, preferia ser tomado por manhoso do que por odiento.
Tinha conhecido há uns dois anos, numa viagem a Paris, Maria Lorena, teve um namorico, mas ficou mantendo contato com a moça, que se mudaria de Paris para o Rio de Janeiro, lugar em que, no momento, residia Ivan, os dois sabiam que agora era só amizade, pois Maria Lorena estava com um figurão da máfia, um tal de codinome “o italiano”, seu nome não importava, pois ele usava documentos falsos com o nome fantasia de Giuseppe. Ivan, por sua vez, vivia mais como um putanheiro do que como um ser de relações duradouras, mas estava feliz e queria agora experimentar os sabores do absinto, não tinha pudor em até mesmo misturá-lo com o láudano, pois era um poeta que tinha sido simbolista, mas que era um parisiense de coração e alma, e um apreciador das aventuras de Rimbaud, um consumidor de réplicas de Toulouse-Lautrec e de Van Gogh. Um francófilo, ou um parisiense ideal, por assim dizer.
Maria Lorena, por sua vez, adepta da maconha, não sentia entusiasmo por bebidas fortes, bebia esporadicamente cerveja artesanal, e olhe lá. O vinho, outra obsessão de Ivan, não apetecia Maria Lorena em nada, pois ela preferia o divertimento sob Skank nos coffee-shops de Amsterdã, seu paradeiro preferido na Europa. Ivan, de volta ao Brasil, retomara contato também com um amigo de infância de nome Miguel, e outro de adolescência de nome Conrado, e os três confabulavam pensamentos aventureiros em meio à selva dos instintos urbanos, e Ivan lhes dizia: “Temos que tomar conhecimento, e logo, da fada verde, por Deus!”. Tinha um site da internet que oferecia a opção de uma mistura que Ivan julgava a perfeita: o absinto com láudano, e que ele sabia ser como um ópio alcoólico de potência suficiente para fazê-lo delirar uma ilha solar qualquer em seu mapa mental, e que lhe daria um tesouro do prazer.
Ivan logo encomendou umas cinco garrafas de absinto, com teor alcoólico altíssimo, e uns dez frascos de láudano, sabia que tudo isso seria molhado com água e adocicado com torrões de açúcar para tornar a experiência confortável, e Miguel e Conrado, por sua vez, não entendiam nada de poesia e muito menos conheciam as lendas em torno da fada verde, só queriam saber de ficar bêbados com a tal poção mágica. Ivan recebe então um recado de Maria Lorena de que esta e o tal italiano estavam a caminho do Rio de Janeiro na próxima semana, e que não se preocupasse em guardar absinto para ela, pois ela compraria maconha prensada de um amigo em Copacabana assim que chegasse ao Brasil. Maria Lorena era de uma personalidade forte que espantava até mesmo o ladino Ivan e suas manias de tirar vantagem como um praticante renovado da velha lei de Gérson. Ivan só queria mesmo era retomar as excelentes conversas que teve com Maria Lorena na sua ida à Paris, seja no Montmartre ou no Champs-Élysées. Agora, no entanto, Ivan respirava o caos diário de Copacabana, com idas pontuais à Ipanema para sentir odor de maconha no posto nove, droga que ele não usava, mas que gostava do cheiro.
Enfim chega a encomenda no apartamento de Ivan na rua Santa Clara na altura entre a Barata Ribeiro e a Nossa Senhora de Copacabana onde morava. Cinco garrafas que vieram lacradas e frascos de láudano com desenhos psicodélicos, ele sabia que ali naquelas garrafas e frascos ele teria novas descobertas, uma nova fonte de autoconhecimento arriscado, uma experiência mística forçada por elementos que alteram a percepção, o que ele chamava de alucinação espiritual, o que os psicólogos entendem como puro delírio e não iluminação da consciência, pois todo visionário é um ótimo visitante de hospício, por suposto. E Ivan, que nunca tivera problemas mentais, não acreditava muito que uma diversão alcoólica fosse só delírio, pois para ele, Ivan, era só um modo curioso de aproveitar a vida, de encontrar e explorar as fronteiras finais da percepção da realidade, agora alterada no espaço-tempo com doses cavalares de absinto e láudano que logo invadiriam seu organismo e sobretudo seu cérebro.
Anoitece, Ivan abre a primeira garrafa de absinto, e também um dos frascos de láudano, banha a bebida com água que passa pelo torrão de açúcar que deixa a poção doce, o esverdeado suave clareia e fica castanho, Ivan dá o primeiro gole, depois vai com um conta-gotas no frasco de láudano e encharca sua taça de cristal numa mistura de absinto, água, açúcar e agora inúmeras gotas de láudano, e ele sorve aquilo como um sonho verde água e castanho quase selvagem, o fogo lhe toma as veias, o álcool logo faria efeito, o láudano vai por sua garganta e entranhas, rapidamente se hospeda no seu cérebro, ele tenta ver o horizonte numa janela que dá para outras janelas, como todo apartamento de Copacabana que não seja na Avenida Atlântica, ele então imagina “com a sua ideia” um horizonte calmo através dos prédios, dos vidros das janelas, da vida hitchcockiana de janela indiscreta, eventualmente com alguém pelado ou falando alto no celular numa janela acima da dele no prédio em frente, e ele agora fumando um charuto Cohiba cubano, junto com a sua mistura fada verde, láudano, numa espécie de regressão ao século XIX, contemplando as suas réplicas de Toulouse-Lautrec e de Van Gogh, com o ouro fulvo do louco holandês pulando expressionistamente da tela a cada trago de charuto e a cada gole de absinto com láudano, uma experiência mística com pinturas falsas, uma experiência alcoólica e de opioide com açúcar em telas revolucionárias de um tempo distorcido, tempo expressionista com nostalgia parisiense, o tempo próprio de Ivan, que então liga para Miguel e Conrado, e chama os dois para seu apartamento para ele dividir as suas novas sensações com seus amiguinhos de chapação.
Chegam então Miguel e Conrado já completamente estropiados, pois tinham ficado num bar desde o meio-dia enchendo suas cabeças de cerveja barata, os dois eram duros e viviam na aba generosa do tradutor de poesia Ivan, os dois precisavam arrumar emprego, faziam parte da massa desempregada atual do Brasil, com Miguel ganhando só um pouco de grana do aluguel de um conjugado que ele herdara, o que era o dinheiro de sua cerveja barata e choca da sexta e do sábado, com raros saltos numa segunda-feira qualquer. Miguel tinha um pouco, Ivan tinha o suficiente, e Conrado, coitado, era uma anta disfuncional, repetente das cadeiras escolares que havia abandonado no ensino médio, trabalhando apenas como office-boy e sendo invariavelmente demitido por indisciplina, pois se perdia nos caça-níqueis dos bares ao invés de trabalhar, era um disperso, um dissipado, certamente por limitação intelectual e volitiva.
Nesta mesma noite, Maria Lorena liga para Ivan, no seu telefone residencial, e começa a rir da voz de Ivan, que já estava pastosa, àquela altura faltando meia hora para a meia-noite, e com Miguel tossindo depois de uma baforada em um dos Cohibas de Ivan, e com Conrado cantando Los Hermanos como um maníaco apaixonado. Ivan então deixa Maria Lorena ouvir a cantoria e as tosses, e esta fica mais interessada ainda em voltar ao Brasil, para ver seu parisiense de araque, como chamava Ivan com certo humor rascante. Ele então combina que a buscaria no aeroporto, e Maria Lorena logo diz que ela e seu italiano iriam para o Copacabana Palace, pois o italiano tinha muito dinheiro em espécie da lavagem de dinheiro na Calábria aonde seu mafioso tinha negócios ilegais, e que quando ela chegasse era para Ivan e seu amigos também se hospedarem lá com o dinheiro de seu italiano, pois eles fariam uma esbórnia na piscina do hotel de luxo.
A noite, no entanto, naquele momento, prometia ser longa, os três, Ivan, Miguel e Conrado, bebem toda a garrafa de absinto e matam um dos frascos de láudano no conta-gotas, agora planejavam ir para a rua, mais exatamente para a praia de Copacabana, e assim Ivan pega seu violão, no qual ele gostava de dedilhar uns cazuzas e legião, invariavelmente, e isto quando não surtava com raulzito numa onda de sociedade alternativa e ouro de tolo, e ele dedilhava como autodidata, com certo jeito, mas num conhecimento básico dos acordes necessários, sem muitas sacadas de virtuose, pois sabia tanto de tocar como de ouvir, ou seja, rock brasil e nada mais, o que não é nada mau, mas que não abarca a cultura musical vasta que flutua por aí em todos os lugares que se vê.
Agora a meia-noite irrompe, vira uma da manhã, Ivan pega a segunda garrafa de absinto, e guardaria as outras para quando chegasse Maria Lorena e todos fossem se aventurar no Copacabana Palace. Agora era momento de um luau na praia de Copacabana, altura da Santa Clara, Ivan e seu violão, e carregando consigo absinto, láudano e charutos. O opioide, àquela altura, já dominara a percepção de Ivan, que não estava acostumado com tais ativações, pois só consumia usualmente álcool e seus charutos cubanos, já que não fumava cigarros e nem maconha. Miguel e Conrado tampouco estavam familiarizados com o láudano, e tal droga se sobrepôs à euforia comum do álcool, gerando um clima soturno e um pouco introspectivo aos três amigos que agora caminhavam em direção da praia com as luzes do trânsito e das calçadas de Copacabana ganhando cores vivas e fortes, a sensibilidade visual dos aventureiros agora contrastava com a simultânea calma interior que os dominava, o láudano era neste momento uma espécie de vírus desconhecido que lhes tomava a consciência, e que agora era uma mistura de fótons distorcidos, sons em overdub e uma paz búdica com toques de visionários em êxtase.
Eles então chegam à praia, e logo Ivan vê um cachorro com uma madame no meio da madrugada, na verdade era um cão pequeno, mas Ivan “vê” um doberman que lhe cheira as pernas e as partes e o ameaça rosnando e mostrando os dentes, a madame acha que aquele rapaz não passava de um doido e dá um grito que acaba assustando tanto Ivan como o cachorro que força a coleira até esticar, com a madame falando mais uns impropérios e indo embora com seu cão de caça. Miguel e Conrado riem da situação e veem o vestido rosa esvoaçante da madame como um grande caldo visual de rosa-shocking numa onda psicodélica meio Swinging London, mas logo passa. Ela some na maresia e no vapor do mar pelo infinito calçadão naquela madrugada fria. Os três então chegam até a areia e veem um pessoal com um som eletrônico, doze pessoas que haviam tomado ecstasy e nem percebem a chegada dos três, pois viajavam com os olhos fechados entre mandalas de terceiro olho, com banners fluorescentes cercando a cena que ali evoluía. Os três então resolvem não incomodar aquelas pessoas que se encontravam em transe, e vão ligeiramente para o lado direito da areia, para fazer a sua festinha rock brasil com o violão acústico DiGiorgio de Ivan.
Ivan agora detona seu legião com acordes rascantes de um faroeste caboclo, Conrado dá urras tomado pela energia da música, era o pouco que ele conhecia de seu repertório que só vivia de rádio sintonizado aleatoriamente com apreciação musical também aleatória, e agora Miguel cantava junto, enquanto Conrado enrolava a língua pois não sabia toda a imensa letra da tal canção. Ivan não tinha muita pena de Conrado, pois logo o obrigou a buscar sucos de laranja no quiosque mais perto, e o frio da madrugada aumentava, passa um cheiro forte de haxixe, era um vendedor ambulante, Conrado volta, Ivan pede os sucos, paga pelo suco, Miguel logo pede para ele voltar para o violão, mas Ivan quer abrir a outra garrafa de absinto e mandar bala no conta-gotas de láudano que naquele momento já o fazia viajar com o som do violão num paradeiro em que as notas eram detalhadas com a profundidade de um músico de jazz embarcando no seu horse usual. Depois de tragos homéricos no absinto e de encharcar-se com o conta-gotas do láudano, Ivan agora desanda com barão vermelho e cazuza, detona um raulzito da cartola, e ao fim descansa deitado, exausto, depois de cantar “ei Al Capone” como se fosse para si mesmo, e era.
Dá três da manhã, Ivan termina a garrafa de absinto, Miguel dorme babando verde num montinho de areia como travesseiro, Conrado, na beira do mar, molha os pés e começa a gritar que estava virando um lagarto, no que Ivan mais uma vez é ríspido e deixa Conrado constrangido com seu bullying de quem se julgava mais safo e mais esperto que os outros, principalmente de alguém tão vulnerável como era Conrado. Ele começa então a chorar e se volta contra Ivan com tacadas de areia, este ri, mas para com a importunação contra Conrado, que logo se apazigua e fica calmo, sem mais brigar e gritar, e também esquece a estória do lagarto, dizendo que tinha imaginado aquilo na combinação de areia e da água do mar nos seus pés que eram longos e finos. Ivan diz então a Miguel, depois de acordá-lo, que já era hora de eles retornarem para seu apartamento, pois esfriara mais e ameaçava chuva já nas quatro da manhã, que não daria para eles virarem a noite ali para ver o nascer do sol. Agora, Ivan era o comandante, pois estava bancando aquela noite, era o capitão de seu exército brancaleone, e o mais trash ali era certamente Conrado e seu Q.I. subnutrido e seu ânimo de lesma.
O tal exército brancaleone então marcha de volta ao Q.G. original, a rua Santa Clara e o apartamento de dois quartos alugado de Ivan, eles entram no apartamento, sem antes trazer umas cervejas long-neck que tinham comprado no caminho, pois agora o absinto estaria reservado para a chegada triunfal de Maria Lorena com suas histórias parisienses com um malandro da Calábria à tira colo, patrocinando a farra que se daria no mítico hotel de Copacabana.  Os três então se refestelam na sala de Ivan, as long-necks da Heineken e da Stella Artois descem rapidamente por suas gargantas, e invadem as sinapses já há muito embriagadas, o efeito pacificador do láudano já passara e agora a onda era de cerveja como bêbados padrão “Copacabana”. Ivan começa então a irritar novamente Conrado, este grita palavrões, Miguel entra no meio e diz para Conrado fumar um Cohiba de Ivan, este resolve parar de chamar Conrado de cagão e de detoná-lo usando a sua burrice congênita e poupa seu repertório de babaca profissional que era meio insaciável quando ele bebia álcool.
Amanhece, a rua Santa Clara clareia, os três decidem ir à padaria tomar um café com pão na chapa, resta um resquício alucinatório do láudano que Ivan tomara como uma espécie de flash-back, era a tal madame de rosa-shocking com o mesmo cão maluco da madrugada, ela olha Ivan e fica horrorizada, mais uma vez Ivan pensa que o tal cão é um doberman feroz e este novamente se atraca em suas pernas e cheira as suas partes, no que Ivan tem meio que um surto de susto, e a madame sai novamente esvoaçando seu vestido e dizendo que era rica e tal e que aqueles três miseráveis a perseguiam desde a praia na madrugada até aquela manhã na pacífica padaria às seis da matina. Ela vai embora, e Ivan continua convicto de que aquele cachorrinho era na verdade um doberman com raiva e que nunca tomara uma antirrábica, no que Ivan entra em paranoia de que estava infectado pelo cão doido da madame maluca. Ivan, no entanto, tenta esquecer aquilo, julgando que poderia ser coisa da sua cabeça, e que aquela madame na verdade nem existia, era uma entidade da noite que aparecera ali só para assustá-lo com seu cão Cérbero de três cabeças, era uma figura evanescente que viera do absinto e do láudano que ele havia bebido e que era só uma experiência da fada verde nos seus sentidos.
Não se sabe da fada verde exatamente em relação ao caso bizarro da madame de rosa-shocking, se era uma viagem particular de Ivan, mas o fato é que havia alguém com um cachorro, e Miguel e Conrado também participaram da experiência, e os bons fellas estavam alucinados também, e portanto não se sabe quem está dizendo a verdade, nem eles e nem o autor que vos fala. O caso de um cãozinho virar doberman e daí um Cérbero era também a tonteira e o estado de espírito de Ivan, medo e delírio gonzo, partituras e perdições dos sentidos, sabedores de sons e vertigens mentais e visuais as usual for addicts. Ivan sabia mesmo é que se divertiria horrores com sua cocota favorita, Maria Lorena, e conheceria o tal figura de terno e metralhadora, um mafioso Giuseppe, o italiano. As bordas da realidade estavam por se escancarar e virar loucura e desbunde, e tudo surgindo das interações do láudano com a nossa doutora em fantasmas, a fada verde.
O que surge de espanto na experiência com estupefacientes se torna relativa com o alto teor alcoólico da fada verde, e o láudano é o componente opioide e fantástico que resgata a experiência e a torna autêntica de um espectador de fato estupefato. O Copacabana Palace funcionaria então como ostentação de um refúgio alucinogênico, e com o interesse de Miguel e a burrice avantajada de Conrado tudo fluiria para as momices de um Ivan cheio de si, como sempre. Os três estariam como uma trindade do caos, juntando-se enfim ao esbanjamento corrupto de uma dama feérica como Maria Lorena e um ser do crime perfeito como Giuseppe, seu nome falso, seu documento falso, seu disfarce de senhor do caos. Um agente do caos, e seus queridos meninos agora numa brisa solta: Ivan, Miguel e Conrado. Com a aprovação risonha de Maria Lorena, a chefe do bando, de fato.
O Copacabana Palace, abrigo temporário de Janis Joplin, agora receberia em traje de gala estes senhores pervertidos, tão loucos quanto os tempos hippies, tão dementes como a eclosão da bomba atômica, de fato e de direito, meninos grandes de uma fada verde derramada com açúcar e carinho, e o doce embalo de Maria Lorena com suas espetaculares manhas de moça que já sabe das coisas mesmo antes delas acontecerem, como a pitonisa do oráculo de delfos, como a sacerdotisa e seus duendes tomando bebida mágica. Miguel e Conrado ouviam as histórias parisienses de Ivan com vivíssima curiosidade, e sua relação com Maria Lorena ganhava ares quase míticos, Montmartre explodia como um grande cabedal em que cabia todos os sonhos da poesia, com Ivan como um novo e jovem Rimbaud, ou ainda como um visitante da festa de Hemingway, mas como um bom francês, ele que tinha a língua fluente em seus lábios e na sua escrita nem sempre fácil, o francês de Ivan era perfeito, e Maria Lorena sempre elogiava as suas traduções de poesia, desde a Plêiade até os simbolistas, todo um trajeto intelectual já havia sido realizado por Ivan, que era completamente doido, mas que quando trabalhava era uma máquina, não parava nunca. E isso era resultado de uma concentração que ele cultivava com intenso exercício de leitura dinâmica o tempo todo, lia tudo e tentava, ao mesmo tempo, viver tudo, e isso para ele era bem possível e ele conseguia essas duas frentes muitas vezes antagônicas com muito vigor e força bruta.
O fato era que Maria Lorena já fazia suas profecias sobre a estadia no Copacabana Palace, que aquilo viraria uma futura autobiografia de Ivan, seu parisiense de araque, e que Ivan morreria em Paris com uma francesa perdida na fumaça do Louvre, a qual Ivan encontraria depois de uma viagem de ácido na aurora diante da pirâmide pós-moderna que agora inaugura a visão do museu, como um transe em que duas almas dispersas na visão de Paris como uma festa chegassem a termo e a paisagem do amor inundasse as telas que habitam tão propalado museu, para depois os dois se perderem por entre os campos e vales, indo ao D`Orsay e retornando triunfantes a Paris num passeio de inverno novamente pela Champs-Élysées. Esta era a profecia de Maria Lorena, e seu oráculo favorito era o Skank fortíssimo que ela importava de Amsterdã e um haxixe vermelho marroquino que depois de fumar ela abria suas cartas de Tarô de Marselha e muitas vezes suas runas vikings.
Ainda naquela manhã em que os três fellas tinham ido para a praia, Ivan resolve virar meio frasco de láudano na dose de absinto que daria para Conrado, quando dá nove da manhã sua cobaia preferida toma o veneno, pois Ivan queria saber se cinco colheres ou um encharque brutal do conta-gotas do láudano o fariam sonhar ou ter pesadelos, e resolveu usar Conrado para a sua experiência, enquanto Miguel dormia roncando alto no sofá da sala do apartamento de Ivan. Conrado ouve de Ivan que tinha mais uma dose de absinto para ele, e Ivan convence Conrado de que aquilo lhe faria dormir, já que Conrado estava numa agitação de insônia provocada pela excitação das dezenas de long-necks que ele havia tomado sem parar durante a madrugada, no que Conrado toma o veneno ou poção e Ivan fica curiosíssimo para ver os efeitos de uma grande dose de láudano num ser humano, mesmo que fosse uma anta humana como Conrado, no que ele não esperava sensações muito sofisticadas de sua cobaia, mas que seriam suficientes para ele estudar aquilo e vislumbrar como faria para tomar láudano em grandes doses, mas na segurança de seu apartamento e numa hora que não houvesse ninguém por perto, só com seu disco de vinil do Pink Floyd tocando, o clássico Dark Side Of The Moon, que ele teria que ir da onda introspectiva em On The Run e atravessar a explosão emocional de The Great Gig In The Sky incólume, como um grande guerreiro psíquico.
Conrado toma então a bebida mágica, no que esperava finalmente cair no sono, no que deita logo após a dose em cima de um puf na sala do apartamento de Ivan, em frente à TV que agora estava ligada no canal OFF, que a esta hora da manhã passava filmes de escalada, com loucos pendurados em negativas e com suas mãos brancas de magnésio. O puf ficava entre a TV e o sofá no qual Miguel dormia, roncava e babava. Enquanto isso Ivan fazia um café e preparava um misto-quente na sua sanduicheira na sua copa pequena na entrada de sua cozinha estreita em forma de uma linha reta e estreita, com geladeira, fogão, microondas e máquina de lavar ao fundo, com roupas espalhadas num quartinho em que seu gato siamês se escondia, aparecendo só de manhã para beber leite e comer ração e roçar eventualmente nas canelas e panturrilhas de Ivan, e que odiava visitas, era um gato como muitos, arredio e caseiro, com a finesse usual dos gatos.
Conrado começa a delirar em frente à TV, e Ivan percebe que o láudano começava a fazer efeito na mente obtusa de Conrado que, vendo as escaladas do canal OFF, começa a gritar que iria cair de um platô, Ivan ri e incentiva o delírio de Conrado, em meio da gritaria, Miguel acorda e pula do sofá assustado e pergunta à Ivan o que estava acontecendo, e Ivan, gargalhando, diz que Conrado tinha tomado uma hiperdose de láudano, Miguel fica puto e sabia que tinha sido coisa de Ivan, que era um amigo generoso, mas, ao mesmo tempo, um tipo de babaca presumido e impiedoso. Miguel pega Conrado pelo braço e lhe dá um banho gelado no box do apartamento de Ivan, logo após Ivan convence Miguel que fora apenas uma experiência imprudente o que tinha feito com Conrado, e que aquilo não se repetiria, Conrado dorme agora no sofá até uma da tarde, as duas da tarde o telefone fixo de Ivan toca, e era Maria Lorena informando que chegara ao Rio com seu mafioso calabrês e que era para todos se encontrarem às cinco no Copacabana Palace, e que todas as reservas, de uma semana, já estavam feitas, Maria Lorena queria fazer arruaça na piscina do Palace e sabia que Ivan seria a sua companhia perfeita para isto, tudo com o olhar divertido de seu mafioso, que tinha um tipo de humor ácido e estava louco para conhecer Ivan.
Ivan, Conrado e Miguel saem da Santa Clara e caminham até o Copacabana Palace, lá Ivan reconhece Maria Lorena, à porta do hotel, com óculos escuros e um vestido azul caribe e saltos altos, com aquela cara imponente que ela tinha, meio que fazendo esgares de desdém e superioridade diante daquilo tudo, pois a modéstia não era um dos fortes de Maria Lorena, ainda mais agora com um mafioso à tira colo, este que estava de terno e ostentava uma barba meio doida, meio calvo, ao mesmo tempo, e com um rolex de gosto duvidoso no pulso direito. Ivan é logo reconhecido por Maria Lorena, que fica eufórica, ia encontrar seu francês de araque, um tipo de companhia para fazer merda, e que o mafioso queria ver isto lá no Copacabana Palace, pois queria ficar na praia e no hotel, alternando isto até seu retorno à Calábria para cuidar de seus negócios ilegais.
O grupo então entra no saguão do hotel, o italiano, com o nome falso de Giuseppe, Maria Lorena, Ivan, Miguel e Conrado. Eles são atendidos no guichê, Giuseppe sabia falar português, pois Maria Lorena o obrigara a aprender a língua, e ela e Giuseppe iriam para uma suíte presidencial, com três quartos executivos, um para cada um, distribuídos para Ivan, Miguel e Conrado, com direito a consumo ilimitado do frigobar, pedidos de bebidas e comidas, tudo patrocinado pelo mafioso calabrês. Naquela primeira noite, todos ficariam em seus quartos, pois a bagunça seria no dia seguinte, na piscina, agora na noite Maria Lorena e Giuseppe iriam para a suíte descansar e acordar cedo para o café do Copacabana Palace, pois Maria Lorena queria devorar uns croissants de hotel.
Ivan vai para seu quarto, se joga na cama macia, começa a ver TV, mas decide tomar um de seus vidros de láudano misturado à absinto, ele toma a poção às sete da noite, logo em seguida coloca seu LP do Pink Floyd para tocar na vitrola que tinha trazido em sua pequena maleta, começa a tocar a obra-prima da banda, Ivan começa a sentir os efeitos do láudano, sua audição vira um som sinestésico, ele olha a janela do quarto e vê uma noite estrelada com céu limpo e uma lua cheia que nem queijo, num amarelo ocre fortíssimo, começa On The Run, os delírios de Ivan agora começam a ficar muito vivos, ele estava sozinho no quarto, se põe de pé sobre a cama e começa a se imaginar como um rockstar, fazendo gestos estilizados, que, somente quem está só sem ninguém vendo é capaz de fazer, ele se diverte, entra The Great Gig In The Sky tempos depois e Ivan está eufórico, fazendo seu show imaginário de pé sobre sua imensa cama macia do Copacabana Palace, seu delírio avança por todo o disco, em Brain Damage ele já se encontra exausto, o disco termina e ele vai tomar banho no box, coloca água quente e fica uma hora inteira tomando água quente na nuca e gozando o delírio de láudano que ainda fazia bastante efeito.
Todos acordam pela manhã e vão para a sala grande do café da manhã, Maria Lorena, que havia fumado Skank na suíte, devora três croissants com um prazer monumental, Giuseppe, que agora só bebia leite e água, se diverte com o apetite de Maria Lorena, e chama os três, Ivan, Miguel e Conrado, para se sentarem à mesa com ele e Maria Lorena, Conrado come melão, Miguel mistura café com leite e come um iogurte natural, e Ivan come croissants, se divertindo fazendo caretas, assim como Maria Lorena também fazia caretas e zombava de Conrado junto com seu louco Ivan. Conrado comia melão, indiferente ao bullying que recebia daquela dupla infernal. Giuseppe sai da sala do café da manhã, vai ao restaurante e pede uma dose de uísque Jack Daniels caubói e manda para dentro, vai para a piscina tomar sol, chama Maria Lorena, que põe um biquíni verde fluorescente de gosto duvidoso, que ela sabia que era cafona, mas gostava de usar. Conrado pula na piscina com uma bermuda vermelha, Miguel fica na sauna por meia hora, e Ivan dá um pulo também na água da piscina, com uma sunga amarela ridícula que ele usava para fazer papel de maluco.
Ivan está nadando despreocupadamente na piscina do Copacabana Palace, quando uma dúzia de ovos brancos caem do céu, um deles atingindo em cheio a cabeça de uma senhora que tomava sol à beira da piscina, dois ovos caindo na água da piscina, e o resto se espatifando no chão que cercava a piscina, Ivan olha para cima e pensa que aquilo tinha vindo do prédio vizinho, que ficava com suas janelas viradas para a piscina do Copacabana Palace, Ivan acha engraçado e pensa tirar uma foto com sua câmera Canon, tira foto da gema amarela que escorria na beira da piscina e publica em sua rede social, como “viagem ao ovo alquímico”, Maria Lorena mergulha na piscina e começa a rir quando Ivan, depois, mostra a sua foto com legenda, Giuseppe bebe mais uísque e decide sair para dar um mergulho no mar da praia de Copacabana, chama Maria Lorena, que vai com ele, enquanto os três rapazes ficam na piscina do Copacabana Palace, morgando durante todo o dia naquele sol de céu limpo que reinava soberano naquele dia.
Maria Lorena volta da praia, enquanto Giuseppe fica na barraca para beber uma água de coco, ele volta logo depois, e os dois mergulham na piscina, Ivan fica sabendo que teria uma festa de gala no salão de festas do Copacabana Palace naquela noite, ele pede autorização do gerente do hotel para que ele e seu grupo pudessem participar da festa, a festa seria a partir de dez da noite, Ivan e Maria Lorena saem para comprar as roupas adequadas para a festa, eles saem do shopping com sacolas e param num bar para beber três garrafas de cerveja, voltam às sete da noite para o Copacabana Palace, os dois então chamam Giuseppe, este tira um baralho do bolso e começa a jogar buraco com Maria Lorena e Ivan, Giuseppe vence o jogo, acende um Cohiba e dá um outro charuto da mesma marca para Ivan, os dois fumam, Maria Lorena sobe para a suíte para fumar um Skank, volta chapada e com o riso frouxo, bebe um uísque Jack Daniels junto com Giuseppe, Ivan bebe mais cerveja, ele ainda tinha dois vidros de láudano e uma garrafa fechada de absinto, ele queria beber aquilo na festa de gala, Ivan tinha o plano de se divertir até o amanhecer naquela noite do Copacabana Palace.
A festa de gala começa, todos a caráter, Ivan tinha tomado um vidro de láudano inteiro e bebido metade de sua garrafa de absinto, ele queria sentir os eflúvios da fada verde naquela noite em meio dos ricaços no Copacabana Palace, Giuseppe acha a expressão de Ivan engraçada ao vê-lo chegar na festa, cutuca Maria Lorena que olha para Ivan e faz um hang-loose meio alucinado, Ivan sorri com aquele sorriso pateta de quem está profundamente chapado, em outra dimensão, Miguel e Conrado chegam logo em seguida, Conrado não se sente muito à vontade em seu smoking, pega cerveja e bebe junto com Miguel, Ivan não bebe mais nada, vê uma senhora de rosa-shocking e começa a delirar que era a tal madame do cachorro novamente, uma espécie de alucinação que lhe acossou nos últimos dias, senhora moradora de Copacabana ou apenas uma alucinação com corpo e voz, um tipo social que ele designava como madame rica de Copacabana com cachorrinho.
A senhora de rosa-shocking olha para Ivan, neste segundo Ivan começa a ter uma alucinação, a cabeça desta senhora começa a derreter, ele procura o tal doberman, mas desta vez ele não acha nenhum cachorro com a tal senhora, a cabeça derretida da senhora desce até o chão e Ivan gargalha como se estivesse doido de ácido bicicletinha, o absinto ou fada verde começa a lhe dar delírios bem específicos, ele vê um dos garçons com cabeça de cavalo e Giuseppe lhe parecia um tipo de rei gordo, cuja barba ficou parecendo a barba de um marajá, Maria Lorena cutuca Ivan, ele olha para Maria Lorena e diz que a cabeça da senhora de rosa-shocking havia derretido, Maria Lorena, que tinha fumado mais um Skank, gargalha alucinadamente, conta a piada para Giuseppe, que também não se aguenta, e Giuseppe decide pegar uma garrafa de Jack Daniels para se divertir.
Giuseppe bebe toda a sua garrafa de Jack Daniels e chama Ivan para conversar desbragadamente perto da piscina, Ivan beberica agora uma vodka, e sua chapação de láudano com fada verde agora era uma espécie de eflúvio mental leve, já tendo passado seus delírios e alucinações que ele tivera no salão de festas. Maria Lorena fica na pista dançando com Conrado, Miguel fica sentado em uma mesa bebendo cerveja, Giuseppe pergunta da vida de Ivan e sobre a sua francofilia, ele que era um mafioso italiano completamente ignorante da literatura francesa e que admirava todas as histórias que Maria Lorena havia lhe contado sobre seu amigo carioca metido a francês literato, Giuseppe estava finalmente conhecendo Ivan e sua fascinação aumentou depois de conhecer este maluco pessoalmente, e Giuseppe entendeu esta estranha ligação de Maria Lorena com Ivan, nada de almas gêmeas, era um tipo de conexão despojada e baseada num humor que combinava com seu humor ácido de mafioso calabrês, Giuseppe começa a fazer perguntas para Ivan, ele fala da poesia francesa para Giuseppe, ele só conhecia Lampedusa, lia muito pouco, mas prometeu para Ivan que leria suas traduções, pois já sabia bem o português. Ivan fica lisonjeado com tanto interesse genuíno de Giuseppe sobre este maluco que Maria Lorena não parava de falar, e Ivan disse que não iria se mudar para Paris, seu sonho, sem antes que Maria Lorena abrisse suas cartas de Tarô para ele, e Giuseppe sabia desta mania de Maria Lorena de fazer jogos de cartas para orientar os próximos passos das pessoas, na Calábria, volta e meia, Maria Lorena fazia isto para suas amigas italianas.
A festa de gala termina pontualmente às cinco da manhã, segundo a programação definida pela gerência do Copacabana Palace, e Giuseppe vai com Maria Lorena para a suíte presidencial, Conrado e Miguel vão para seus respectivos quartos, Ivan vai para seu quarto já pensando em seu trabalho que ele estava arrumando em Paris como professor de português, pois tinha um contato de um amigo na França que conseguiu que Ivan fosse indicado para trabalhar numa escola que ensinava a língua e a gramática portuguesa para os franceses, pois Ivan, que era um profundo conhecedor da cultura e língua francesas, reunia esta mesma habilidade com a língua e a gramática da Língua Portuguesa, e era a pessoa perfeita para preencher a vaga de mediador cultural e professor naquela escola de Paris. Ivan viajaria dali a um mês, e pretendia ficar em Paris para o resto de sua vida, morando em Montmartre e bebendo vinho tinto seco como um bon-vivant, seria um flâneur lendo Paris é Uma Festa de Hemingway enquanto não estivesse em seu prazeroso trabalho de mediador cultural. Era o trabalho de seus sonhos na cidade de seus sonhos, Ivan não tinha dúvidas que dali para a frente seu futuro seria brilhante, como bom literato que era, não lhe faltaria recursos para aplicar em seu trabalho na tal escola e em sua vivência na capital francesa.
O grupo passa o resto da semana entre a piscina do Copacabana Palace e a praia de Copacabana, Ivan toma a sua última garrafa de absinto, com Maria Lorena fumando seu Skank, no último dia de estadia. Maria Lorena iria em seguida para um apartamento que ela tinha na Barra da Tijuca, comprado pelo mafioso calabrês, que voltaria na manhã seguinte para a Calábria, o plano de Maria Lorena era ficar uns dois meses no Rio de Janeiro e depois voltar para a Itália, ela tinha acesso a uma conta secreta de Giuseppe que ficava em Luxemburgo, usava o nome fantasia de Francesca Carmen, e a conta era alimentada mensalmente pela máfia calabresa. Só que os planos de Maria Lorena mudam na manhã seguinte, pois Giuseppe é preso pela Polícia Federal na porta do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, é extraditado e preso na Itália, e Maria Lorena, para não dar bandeira, decide morar no Rio de Janeiro, pois Giuseppe, que tinha o nome verdadeiro de Vittorio Mancini Battisti, pega uma cana de doze anos sem direito a atenuação da pena, ficaria preso em Roma, sob vigília do Estado italiano. Maria Lorena não entra em contato com Giuseppe, na verdade Vittorio, a mando da máfia, pois ela seria protegida financeiramente pela organização, a ‘Ndrangheta cuidaria para garantir um salário mensal para Maria Lorena, que nunca mais teria preocupações financeiras, esta conta em Luxemburgo seria sempre acessada por ela com o nome falso de Francesca Carmen Mantovani Ferrara.
Maria Lorena passa a trabalhar de cartomante e quiromante, e se veste de cigana para fazer as suas consultas para seus clientes, Ivan iria embora para Paris, e logo antes ele pede a Maria Lorena para abrir as cartas de Tarô para ele, antes de ele partir para seu destino de francófilo com cátedra de mediador cultural. Maria Lorena abre as cartas do Tarô para o seu amigo de loucuras, ela faz para ele o Jogo da Estrela, a primeira carta, indicando a raiz do problema, é a carta da Sacerdotisa, que Maria Lorena lhe resume como uma busca por novos conhecimentos que Ivan iria empreender, novos potenciais ainda ocultos deveriam ser descobertos por ele, a segunda carta, das emoções e relacionamentos, é a carta de O Louco, que indicava um salto no desconhecido, com possíveis novidades para Ivan, que era uma pessoa que sempre mergulhou em novidades, e seu salto para Paris poderia ser este novo desconhecido com novas pessoas em seu caminho, a terceira carta, Intelecto e carreira, é A Temperança, indicando um período de harmonia no trabalho, em que Ivan ajudaria muitas pessoas com o seu conhecimento já acumulado e com as novas habilidades que ele iria adquirir pela frente, a quarta carta, Os Enamorados, envolvia escolhas no amor ou no trabalho, sem uma indicação peremptória, a quinta carta, A Roda da Fortuna, revelando a influência inconsciente, indicando um novo ciclo na vida de Ivan, possivelmente sua mudança para Paris, a sexta carta, A Lua, com influências e desejos conscientes, indicando que Ivan deveria levar a sério suas intuições, pois, com pensamentos vindo à superfície consciente, ficaria mais fácil para Ivan agir e tomar decisões, a sétima e última carta, o topo do problema, é a carta O Julgamento, indicando o fim de um ciclo e uma colheita de coisas já plantadas no passado, possivelmente a oferta de trabalho que ele terá agora em Paris, fruto de seu conhecimento e de suas habilidades, realizando a transição de um ciclo para outro novo, mas um ciclo anterior propiciando o seguinte. Ivan fica feliz com as orientações de Maria Lorena, se despede de sua conexão louca e inexplicável, e pega seu avião com destino à Paris.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Contos Psicodélicos – Volume I – conto pronto em 16/06/2020.




     



         



quarta-feira, 10 de junho de 2020

RACISMO E ANTIRRACISMO – PARTE I


“O caso de George Floyd não é um caso isolado”

O relato sobre George Floyd começa com uma nota falsa de US$ 20 em um supermercado, e que tem como resultado a morte de George por asfixia por policiais brancos, como se sabe, George Floyd era negro, e isso despertou, mais uma vez, a estrutura racial da nação norte-americana e o racismo policial. George tinha 46 anos, preso pela polícia em Minneapolis, Minnesota, nos Estados Unidos.
O azar da polícia de Minneapolis foi que o crime de morte por asfixia foi filmado e o vídeo viralizou, pois neste vídeo aparece um policial branco, Derek Chauvin, com o joelho sobre o pescoço de Floyd, enquanto ele está algemado e de bruços no chão. Chauvin foi finalmente preso, acusado de homicídio, e a morte de George Floyd foi o estopim de novos protestos e de uma convulsão social nos Estados Unidos.
O caso começa quando um funcionário da Cup Foods, um supermercado em Minneapolis, reportou uma nota falsa de US$ 20 à polícia, e o funcionário acreditava que o dinheiro que George Floyd tinha usado para comprar um maço de cigarros era falso. Na ligação para o 911, do serviço de emergência dos EUA, o funcionário disse que George Floyd não queria devolver o maço de cigarros, depois que o funcionário viu que a nota era falsa. Logo dois policiais foram ao local, e um dos policiais ordenou que Floyd levantasse as mãos. E Floyd estava sendo preso por usar dinheiro falso.
Floyd, segundo o relatório policial, ofereceu resistência à prisão e foi imobilizado, e neste momento, Chauvin chegou ao local, e com outros oficiais, tentou colocar Floyd na viatura, Chauvin puxou Floyd do banco do passageiro, Floyd foi colocado por ele no chão, e ainda algemado, Floyd começou a ser asfixiado e proferiu a frase que ficou conhecida no mundo inteiro : "Não consigo respirar".
Chauvin colocou o joelho esquerdo entre a cabeça e o pescoço de Floyd. "Não consigo respirar", dizia Floyd repetidamente. A cena durou quase nove minutos. Em 6 minutos desta cena abominável, Floyd já se encontrava desacordado. Depois, quando as testemunhas pedem que os policiais verifiquem seu pulso, Floyd já não tinha batimentos cardíacos, e então ele é levado de ambulância ao Centro Médico do Condado de Hennepin. Floyd é declarado morto quase uma hora depois.
Os Estados Unidos passam por uma onda de protestos das mais intensas desde as manifestações que ocorreram após o assassinato de Martin Luther King Jr., o líder negro dos direitos civis, em 1968. As manifestações provocadas pelo caso de George Floyd se estendeu por mais de 75 cidades dos Estados Unidos, destas, em mais de 40 cidades, as autoridades decretaram o toque de recolher.
O caso de George Floyd não é um caso isolado, pois nos Estados Unidos as comunidades negras estão sob constante vigilância policial. Os negros nos Estados Unidos têm 3,5 vezes mais chances de serem mortos por policiais do que brancos em situações em que não há ataque ao policial ou porte de armas.
Desde segunda-feira, dia 25 de maio, no dia em que George Floyd foi assassinado, milhares de pessoas estão indo às ruas diariamente para protestar contra a morte dele, e nos últimos dias a violência entre manifestantes e policiais aumentou e, por sua vez, o presidente Donald Trump reagiu muito mal aos protestos, dizendo sobre enviar as Forças Armadas às ruas para conter os protestos. As manifestações que se espalharam pelos Estados Unidos envolvem agora danos a edifícios públicos, saques de estabelecimentos comerciais, além do toque de recolher já citado, e alguns governadores recorreram à Guarda Nacional.
Trump pode evocar o uso das Forças Armadas para conter protestos, devido a uma Lei de Insurreição criada em 1807, a qual prevê o recurso ao Exército em casos de extrema gravidade e ameaça de ordem pública. Esta é uma lei federal que, nos últimos 200 anos, passou por mudanças e emendas. Esta lei, para ser evocada, depende de certos requisitos, e no caso do governador de um Estado, a lei é ambígua, no caso de solicitação ou não por parte deste de ajuda federal. Trump, no entanto, disse que se os governadores não controlassem os protestos, recorreria ao Exército, contudo, não emitiu um ultimato.
Em Washington, na capital dos Estados Unidos, houve protestos em frente à Casa Branca, no domingo se viu uma das noites mais violentas desta onda de manifestações pelos Estados Unidos, milhares de manifestantes se aproximaram da residência presidencial, e foram lançados gás lacrimogêneo contra os manifestantes, e por volta de meia-noite se viram incêndios a pouca quadras da Casa Branca.
Em Minneapolis (Minnesota), milhares de pessoas interrompiam a rodovia interestadual 35, neste último domingo, quando um caminhão avançou sobre as pessoas, causando tumulto e pânico. Derek Chauvin, o assassino de George Floyd, acabou sendo transferido da prisão do condado de Hennepin para a penitenciária estadual de Oak Park, pois havia um grande número de manifestantes detidos que estão na prisão de Hennepin.
Los Angeles também teve distúrbios com desdobramentos que não se viam lá desde a morte de Rodney King, em 1992, com cenas de violência e saques. Na localidade de Santa Monica, enquanto havia protestos pacíficos, de um lado, se via um grupo que invadiu lojas de um shopping dos arredores, o Santa Monica Place, aonde se quebraram vitrines, e algumas pessoas saíam com mercadorias. Houve a perseguição e a prisão dos manifestantes violentos e dos saqueadores.
Na Prefeitura local havia uma barreira de blindados militares da Guarda Nacional, numa cena histórica, e um grupo de 200 pessoas estava protestando em frente à escadaria. Os agentes foram insultados, e Monica Sinclair, de 29 anos, dizia junto ao cordão de isolamento policial que o grupo ficaria ali por toda a noite. Em Birmingham (Alabama), os manifestantes derrubaram uma estátua confederada.
Em Nova York, por sua vez, houve manifestações que passaram pela ponte do Brooklyn, com confrontos que interromperam temporariamente as pontes que dão acesso a Manhattan, houve um pequeno incêndio numa rua e incidentes como saques nas lojas do bairro do Soho. Em Atlanta, por fim, aonde manifestantes vandalizaram a entrada da sede da CNN, nova cenas ocorreram, com o lançamento de gás lacrimogêneo, e com dois agentes demitidos por uso excessivo da força.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.










domingo, 7 de junho de 2020

MATILDE CAMPILHO É UM DOS CAMINHOS DA POESIA CONTEMPORÂNEA

“Matilde chama o leitor, lhe convida, e agrada naturalmente”

Jóquei é um livro que se coloca como um modelo de poesia que não tem a famosa afetação de estilo, ou do que se chama de “grande estilo”, pois o livro de Matilde Campilho terá algo mais fluido como modus operandi, uma poesia em trânsito, sem algo carregado como poesia pretensiosa ou muito marcada como literatura formal e também não se estabelece, em sua poesia, algo como estilização no sentido de forma acabada ou viciada de expressão.
A dicção de Matilde possui poucas afetações ou vícios, em consonância com os caminhos da poesia contemporânea, cuja afetação, talvez, seja o fetiche do cotidiano, mas, aqui em Matilde, isto nos aparece com menos tom marcado, mais fluido, sem a pretensão de uma poesia descritiva, que disfarça no cotidiano uma falsa despretensão.
A poesia de Matilde não se enrijece num gênero de poesia, tem diversos modelos que transitam entre a dicção da carta, da conversa, da anotação, em uma poesia que não se coloca heroica ou num pedestal de gabinete. O que se dissipa, a morte e a experiência de desaparecimento, numa alteridade entre luz e escuridão, tudo flui na poesia de Matilde Campilho.
Jóquei tem um ritmo que se sobressalta, acelera, e também opera nos lapsos das perdas, registros que colocam tanto a vida como o seu fim. O poema, às vezes, se nega, dizendo que não é poema, numa operação, digamos, de metalinguagem, e que coloca o poema como material, esta tendência de alguns poetas de também colocar o poema em perspectiva, isto é, como objeto de análise do próprio poema, um poema que se desdobra em si mesmo para ser reafirmado, como diz Matilde “isto não é um poema”, no poema “Príncipe no roseiral”.
A prosa ganha uma dicção encurtada, ao passo que o alongamento desta se dá nos versos de Matilde, o caminho do meio se instaura em Jóquei, e os poemas de Matilde, a verticalidade que se coloca no fluxo da prosa coloca esta para fora de seu alongamento que seria o natural do poema em prosa, um tiro de largada que, geralmente, serve para o poeta exibir o seu fôlego e nadar de braçada, mas que em Matilde tem um ritmo quebrado, de intermitência, acusando a sua contemporaneidade própria. O inaudito produz na prosa de Matilde uma versão renovada do que é um poema em prosa.
O inaudito é um modo de escrita poética que trabalha com a quebra da expectativa, um poema não-linear e que salta como um poema que se coloca em sentidos novos e que ainda não foram experimentados, colocando a poesia de Matilde num pioneirismo de dicção que produz poesia nova e renovada.
Matilde Campilho tem algo de pop, e, além disso, se firma como poeta popular, de linguagem acessível, e ao mesmo tempo, elaborando bem, dentro desta proximidade de sua dicção com o mundo real que todos entendem, uma poesia de qualidade e de expressão consolidada, Jóquei brilha por originalidade e tem certo tom acolhedor, Matilde chama o leitor, lhe convida, e agrada naturalmente, sem forçar o leitor tentando agradar, mas agradando por saber o que faz, isto é, o poeta tem que saber escrever, Matilde sabe isto bem, e realiza seu trabalho com um ar aprazível.
Matilde adota o gerúndio brasileiro. Jóquei é um mosaico de memórias e vivências, em meio de uma invenção poética que reafirma o mundo real e cotidiano, como disse, sem o fetiche deste cotidiano que alguns poetas brasileiros contemporâneos tentam usar como moda, num fingimento de falta de pretensão, pois eu nunca soube de alguém que faça escrita sem pretensão ao publicar algo, é mentira.
Matilde é uma poeta da observação, produz um documento, seu fascínio pelo Brasil também transborda em Jóquei, ela vê lugares e os registra, coloca esta fotografia poética como um modo de tornar eterno a sua capacidade de flâneur, de vivente do transitório e do efêmero.
Matilde Campilho está em dois lugares, Portugal e Brasil, uma poeta nômade, que pode muito bem ser colocada ao lado de escritores como Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares e José Eduardo Agualusa, alguns dos renovadores da escrita em Portugal.

POEMAS :

COQUEIRAL : O poema brota da saudade, o batimento do coração se acelera, e o verso se desenvolve suave, no que temos : “A saudade é um batimento que rebenta assim/vinte e oito vezes desde/meu ombro tatuado/de desastre até à rosa pendurada em sua boca/E o amor, neste caso específico, é um mergulho/destemido que deriva quase sempre de uma nota/climática apenas para convergir no osso frontal/do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto/Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.”. A ternura para com o rosto da pessoa amada, e a cosmovisão que advém deste poema na coda, o amor condensado numa vista de mel e ouro.

ALGUÉM ME AVISOU : A poeta Matilde aqui tem um encontro intenso com seu amante, interlocutor, este que aparece no poema como figura enigmática, mas com a sua presença constante no diálogo extremo que se constitui neste poema, no que temos : “Ele falou que eu precisava voltar/porque eu era sua família/falou que os passarinhos/estavam começando de novo”. A poeta diz que este seu amante diz que ela deve voltar, acontecem coisas, e Matilde segue com esta sua sensação : “você precisa voltar ele falou/algumas acácias estão se votando/ao abandono ou ao desespero” (...) “rodando todas as estações/de rádio até achar notícia/não tem notícia de você na cidade/faça-me um favor e volte/está acontecendo uma revolução/querem retirar o primeiro-ministro/de sua cadeira empedernida”. O relato é de acontecimentos extremos, de revolução e notícias, no que segue : “ande veja se volta foi o que ele falou/você é minha família é impossível/assistir à transição do inverno/para a primavera sem família perto” (...) “você e eu sempre damos um jeito/de sincronizar nossos batimentos/eu toco quatro vezes na mesa/você acelera quatro vezes o motor/família é isso mesmo : dois caubóis/fintando a gravidade e a monotonia/vai me diga se volta ou se não volta”. A importância da família, seu amante diz à Matilde, percorrendo este poema todo, a ideia de retorno, de presença física, no que o poema segue : “ele falou que eu precisava voltar/que talvez eu devesse arrumar/minha mala largar meu emprego/arrume tudo em sua mala/não esqueça sua camisa branca/não esqueça sua flauta de osso” (...) “volte me diga que volta/repare que é a época das migrações/e que você sempre acompanhou/os colibris e os pinguins/já chega de se inscrever/nesse campeonato do desapego/você sempre perde já deveria saber/ele falou que eu deveria voltar”. A poeta diz que este seu amante queria combater este desapego dela, é preciso reparar na época das migrações, acompanhar tudo, a ideia de presença e retorno como o leitmotiv no qual o poema se estende todo, no que segue : “você precisa voltar foi o que ele falou/volte por favor meu amor volte pra casa/então eu fiz a mala e foi por isso que eu/voltei – eu voltei porque me chamaram.”. E a coda é o retorno de Matilde, uma coda simples, sem efeito de surpresa, cumprindo o que o poema inteiro se propôs.

DESCRIÇÃO DA CIDADE DE LISBOA : O poema descreve a rapariga, expressão lusitana para moça ou menina, e Matilde, uma portuguesa bem brasileira, desata aqui em prosa bem divertida, no que temos : “A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro-quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore.” (...) “rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada.”. As descrições se estendem por um universo inteiro, que vai do cotidiano a descrições naturais, no que temos : “Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê.”. A ideia de visão, e a prosa abrindo um mundo inteiro que habita e dialoga com esta rapariga imaginada por Matilde, no que segue : “rapariga debruçada na cadeira da frente do cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstêmica, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca.”. A criatividade nesta repetição que se move para vários lados, num poema em prosa que vira um caleidoscópio, no que segue : “Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.”. Este poema em prosa que encerra esta aventura da rapariga imaginada por Matilde também elenca o mundo de influências da poeta, as referências da rapariga podem ser as de Matilde, e ser ela mesma.

CONVERSA DE FIM DE TARDE

DEPOIS DE TRÊS ANOS NO EXÍLIO : O poema começa nos descrevendo já uma cena bem interessante, Matilde e seu interlocutor, amante, também aqui num diálogo bem esperto, e que funciona num toque em que o poema serve a sua ideia de amor moderno, em imagens que levam longe, no que temos : “Os garçons empilhando as cadeiras/você me olhando e me pedindo que/fale Por Favor Fale Mas Não Escreva/eu evitando o toque ruim dos ponteiros/do relógio que anuncia a já famosa fuga/de nossos corpos cada um para sua/ponta da cidade – se nosso amor fosse/revólver eu seria o cabo e você a mira”. E o poema, neste ponto, entra em enigma matemático, em divagações próprias de poeta, no que segue : “é terrível a existência de duas retas/paralelas porque elas nunca se cruzam/e elas apenas se encontram no infinito/a verdade é que nunca nos interessou/a questão do infinito mas o resto/das ideias matemáticas claro que sim/eu na verdade prefiro mais de mil vezes/sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa/enquanto você fala sobre raízes quadradas/enquanto você fala sobre ladrões de figos/enquanto você fala sobre o tropeço da baleia/subitamente eu já nem sei sobre o que você fala”. O poema fala da hora do cuco, a ideia de tempo e de momento, no que temos : “pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco/e do canto do cuco/portanto eu pego minha bicicleta/e como de costume você faz meu retrato”. Esta hora marcada, e o amor que tem seu tempo e diz neste poema a que veio, fuga, explosão, matéria escorregadia, uma ideia original e todo um clima cool e esperto que faz deste poema uma interpretação despojada dos sentimentos amorosos, no que temos : “voltará à mesma hora para o mesmo amor/a mesma mesa a mesma explosão/com toda a certeza a mesma fuga/porque você e eu a gente é feito de matéria/escorregadia, i.e., manteiga, azeite, geleia/e espanto.”.

ROMA AMOR : O poema lembra de uma canção, e seu leitmotiv se abre neste diapasão, no que temos : “Seu cabelo está vermelho/você falou/seu cabelo está todo iluminado/de vermelho & luz/I never wanna be/your weekend lover/respondi certeiro/rebobinando 600 dias/Você lembra da canção?/I never wanna be/your weekend lover/suas mãos desenhando a dança”. A dança que vem da canção, que segue : “Você fazendo pouco/de tudo o que antes havia/sido chamado de baile/Purple Rain” (...) “E por falar em canções/imagine Maria Teresa/arrumando a casa/arrastando os móveis/na interminável busca/por vestígios de pó/quem sabe se na centésima partícula/não será possível achar/um pedacinho do genoma/do marido morto/Imagine Maria Teresa/de cabeça enfaixada/varrendo varrendo varrendo”. A referência musical do poema nos vem, mais uma vez : “És faxinação, amor/Seu cabelo está todo iluminado/de partículas galácticas/sua pele brota toda negra/ameaçando a primeira visão/que o centauro ofereceu/ao menino de 13 anos/quando apontou a concha de ouro”. O poema em prosa se estende e dá o exemplo de algo extraordinário, imagina um dançarino suspenso, no que temos : “Amante de final de semana não/meu bem/muito menos de quinta-feira/pense nas crianças/nos avós das crianças/no olho de couro dos tios/das crianças/Veja só/nem todo mundo/tem a possibilidade de ver/entrar em sua família/um dançarino suspenso/constantemente suspenso/entre o rochedo & a flor”. A canção retorna e enumera todas as imagens usada neste poema em prosa que este amante então desmonta e coloca tudo no lugar novamente :  (...) “I never wanna be/your weekend lover/eu falei/Então você abriu a porta/para interromper a refração/para acabar com a promessa/para fechar o desenho/para expulsar o centauro/para estilhaçar a concha/para calar o príncipe/para colocar o móvel no lugar/e empurrar Maria Teresa/você falou/vai embora/desça as escadas e suma/saia agora/tem alguém chegando aí/de hoje é só segunda-feira.”.

POEMAS :

COQUEIRAL

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

ALGUÉM ME AVISOU

Ele falou que eu precisava voltar
porque eu era sua família
falou que os passarinhos
estavam começando de novo
com aquela entoação estranha
que poderia ser vista como triste
ou como bastante maravilhosa
você precisa voltar ele falou
algumas acácias estão se votando
ao abandono ou ao desespero
e a peixaria foi atacada
por uma enorme inundação
por favor volte veja se volta
esta manhã o taxista ficou
rodando todas as estações
de rádio até achar notícia
não tem notícia de você na cidade
faça-me um favor e volte
está acontecendo uma revolução
querem retirar o primeiro-ministro
de sua cadeira empedernida
querem tocar fogo nas estradas
querem melhorar a estrutura
do sino que marca o meio-dia
na garganta de Antoninho
ande veja se volta foi o que ele falou
você é minha família é impossível
assistir à transição do inverno
para a primavera sem família perto
e como faço para comprar lollypops
se você não estiver me esperando
lá fora do lado de fora em seu carro
brincando com as rotações do motor
enquanto eu fico tamborilando meus
dedos sobre a bancada de madeira
da mercearia onde sempre compro
lollypops de laranja ou de morango
você e eu sempre damos um jeito
de sincronizar nossos batimentos
eu toco quatro vezes na mesa
você acelera quatro vezes o motor
família é isso mesmo : dois caubóis
fintando a gravidade e a monotonia
vai me diga se volta ou se não volta
na semana passada eu reparei
que as plantações de milho
estão começando a se expandir
me diga que isso não te seduz
foi o que ele falou isso mesmo
a plantação que se expande te seduz
ele falou que eu precisava voltar
que talvez eu devesse arrumar
minha mala largar meu emprego
arrume tudo em sua mala
não esqueça sua camisa branca
não esqueça sua flauta de osso
não esqueça não corte seu cabelo
coloque tudo nessa mala
e se tiver tempo me traz sete búzios
volte me diga que volta
repare que é a época das migrações
e que você sempre acompanhou
os colibris e os pinguins
já chega de se inscrever
nesse campeonato do desapego
você sempre perde já deveria saber
ele falou que eu deveria voltar
que no restaurante de dona Célia
estavam servindo um tipo de pão
diferente do habitual
que no parque das diversões
estavam montando um novo esquema
que na cova dos leões já não mora
ninguém absolutamente ninguém
que estão começando uma revolução
você precisa voltar foi o que ele falou
volte por favor meu amor volte pra casa
então eu fiz a mala e foi por isso que eu
voltei – eu voltei porque me chamaram.

DESCRIÇÃO DA CIDADE DE LISBOA

A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro-quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga dos óculos negros, rapariga em camisola de poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente do cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstêmica, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.

CONVERSA DE FIM DE TARDE

DEPOIS DE TRÊS ANOS NO EXÍLIO

Os garçons empilhando as cadeiras
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade – se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafeteria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteiga, azeite, geleia
e espanto.

ROMA AMOR

Seu cabelo está vermelho
você falou
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
I never wanna be
your weekend lover
respondi certeiro
rebobinando 600 dias
Você lembra da canção?
I never wanna be
your weekend lover
suas mãos desenhando a dança
no oxigênio daquele julho
e o pó se levantando
desde seus calcanhares
até a nuca de fogo
Você fazendo pouco
de tudo o que antes havia
sido chamado de baile
Purple Rain
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
Você se lembra daquele julho?
uau você falou
sua pele cresce no vaso
da melanina
cada ano mais
E por falar em canções
imagine Maria Teresa
arrumando a casa
arrastando os móveis
na interminável busca
por vestígios de pó
quem sabe se na centésima partícula
não será possível achar
um pedacinho do genoma
do marido morto
Imagine Maria Teresa
de cabeça enfaixada
varrendo varrendo varrendo
até ficar envolta
na nuvem de pó e genomas
que acontece brilhante
no centro da sala
És faxinação, amor
Seu cabelo está todo iluminado
de partículas galácticas
sua pele brota toda negra
ameaçando a primeira visão
que o centauro ofereceu
ao menino de 13 anos
quando apontou a concha de ouro
Gli dei che a mano
nel tempo stesso odiano
você falou
é a forma como maio
bate nas janelas
se refrata na geladeira
vai bater nos azulejos
e se aloja em seus cabelos
respondi é a época
das sementes e das explosões
Amante de final de semana não
meu bem
muito menos de quinta-feira
pense nas crianças
nos avós das crianças
no olho de couro dos tios
das crianças
Veja só
nem todo mundo
tem a possibilidade de ver
entrar em sua família
um dançarino suspenso
constantemente suspenso
entre o rochedo & a flor
Pense nas crianças
e na fé de nossas crianças
Seu cabelo está todo vermelho
você falou
tudo está muito iluminado
I never wanna be
your weekend lover
eu falei
Então você abriu a porta
para interromper a refração
para acabar com a promessa
para fechar o desenho
para expulsar o centauro
para estilhaçar a concha
para calar o príncipe
para colocar o móvel no lugar
e empurrar Maria Teresa
você falou
vai embora
desça as escadas e suma
saia agora
tem alguém chegando aí
de hoje é só segunda-feira.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.