PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 14 de março de 2020

LORCA

Do romanceiro gitano, a cantar
na guerra civil espanhola
a sua execução, Lorca
vinha da herança de Góngora
e Jiménez, seu poema
lustroso e frutífero,
seu canto gitano
como um barroco
plácido e sonoro.

Lorca, que do popular
cantou à intempérie
de uma Espanha convulsa,
em seu teatro poético,
Lorca que morreu
no front de seu poema,
com o peito aberto
como o seu coração.

14/03/2020 Gustavo Bastos

DEGELO NO TIBET


Andei no Tibetan Freedom, e com um olho atrevido pensei em burlar a máquina de caça-níqueis que o crupiê tinha programado para roubar a cada vinte minutos um incauto que se empolgava ganhando cem dólares antes da queda. Joguete do destino, este patife que opera via seus acasos mortais, os poemas aqui não cabiam no gelo do Himalaia, maiores topázios ou ópios que sussurravam o êxtase de seus mistérios.
Na nota de um fracasso de poeta suicida, o elenco de uma filmografia morria de tifo ou gota, os senhores que produziam faziam as cenas em um plano-sequência de vertigem, nada a dever aos fantasmas mais miseráveis de um expressionista maquiado de olheiras fundas a fazer do pré-guerra suas intuições sinistras.
Em Lhasa eu conheci um monge esteta, pintava suas astúcias e as destruía em seguida. A hipnose de que fui vítima tinha um ar viciado que simulava um satori cheio de diabinhos pintados na tela de minha mente extática. Rumorejava o vento em cantos sutis que abria a vertigem para uma nova paisagem onírica, os sete candelabros que urdiam um poema sacro com brios profanos e um chá alucinógeno que fazia ouvir música celeste com os ouvidos sinestésicos que pintavam o sol do meio-dia com asas de anjo e ardis bem diabólicos, como uma face dupla que ardia meus infernos com sentimentos de céu em meio ao caos da morte que me cercava.
Quando eu lia Ginsberg depois de uma passagem por Katmandu, eu nasci de novo antes de certos passos irrisórios e febris. Já antes ainda de eu nascer de novo, na sombra de dias mortiços, o cheiro de enxofre possuía meus rituais, ouvia os delírios de minha pena com certa delícia, mas a minha alma ainda estava morta, viciada nas flores oníricas e nos germes que eclodiam as farsas e as canções ditirâmbicas de antepassados que se perderam no tempo da História.
Lhasa ainda não tinha sido invadida por chineses e nem os lamas tinham ainda fugido para a Índia. Rinpoche Tarthang dizia certos enigmas mais possessos que todos os koans elencados pelo zen, sua fusão fazia Jazz e batia tambor com sede e fome como grandes deuses irados e famélicos, Shambala me dizia em quinze centúrias todas as regras do jogo e de como quebrá-las sem violência, apenas com o uso da mente clara e decidida, o poder da decisão como o cerne da escolha, e a consequência inaudita e planejada no mesmo diapasão, como um compasso de música que metrifica um destino inteligente.
O sol ardia na manhã calma da montanha, o Himalaia amanhecia com o canto dos lamas a fazer balões coloridos voarem naquele frio marmóreo que convidava à meditação. O sol que nascia vermelho e ficava amarelo, e Tarthang que pintava logo adiante um Shambala verde e azul, simulando demônios depois da alucinação do chá de flores oníricas que tomava o espaço e que um dos lamas delirava para testar se ficaria louco depois do êxtase e da sinestesia, pois tocava tambor alucinadamente enquanto cantava coisas incompreensíveis, num frenesi próprio e enigmático.
O jogral apareceu ao fim daquela manhã, o tal lama que tinha alucinado desde que o sol nasceu acordava de seu transe e caiu num sono de Morfeu. Tarthang fazia a sua palestra debaixo de uma araucária e depois dizia sobre os diversos venenos a evitar, sua doutrina sobre a atrabílis e como a saúde era mais forte com os dons bem cuidados e não apenas dependentes da inspiração. O poema metrificado em tibetano fazia novamente um tipo de jogo mais paradoxal, uma espécie de delírio armava o raciocínio como um joguete, samsara operava ali.
Em Lhasa aparecia Shambala como a deidade irada a provar o fracasso filosófico dos projetos doutrinários que buscavam a verdade, a sapiência era fraca e exangue, a meditação apenas evidenciava a morte da alma cognoscente, Tarthang então cantava para o sol inutilmente, a sua sabedoria também não era nada, virava pó de estrela em um gesto de morte, indo para o bardo para se livrar de sua verdade e de suas mentiras.
O jogral, a esta altura, não fazia mais ninguém rir, todos meditavam, e a imagem de Shambala no fólio desafiava a imaginação, um sinal de que a quietude era um exercício contra a perturbação da loucura alucinatória dos transes oníricos, o embusteiro que se jogava hipnotizado do penhasco, achando que iria voar, e sua morte suicida como um ser de asas que nunca existiu e que se espatifou no chão duro de sua finitude. Este era o jogral, ele se matou depois de falhar em sua peça de comédia, o bobo que se cortou depois de uma queda, o fraco da desdita que se jogou, que teve a queda definitiva depois de cair, o suicida que nem poeta era, o que conheceu a sua morte e nunca mais poderá rir.
Tarthang já sabia o que poderia acontecer ao que espera agradar com salamaleques, vira um joguete de seu próprio fracasso, e o sol só brilha a quem quer a si mesmo, a quem se edifica para si, a construção de uma alma forte que desafia os olhares, pois nunca será o jogral agradável que ri para fazer cena e chora por ocultar seu vazio. Os lamas então saíram de tarde com mais balões coloridos, os poemas de fogo foram embutidos em tais balões, em Lhasa tinha uma paz imortal que nada pedia ao sol, apenas agradecia. Tarthang meditava por mais uma hora, e a certo momento de um sol vermelho, levitou e entrou em um transe em que viu Shambala novamente, a lhe ensinar sem falar novas intuições que ele nem suspeitava, um êxtase e mais um dia vívido como fogo.
Depois de uma semana, voltei para Katmandu, tive a inspiração de fazer um poema esteta e bem afetado, um rito parnaso que empolava em língua morta, a fazer uma versão aguada adrede de uma experiência mística, tentava falar do jogral e de seu fracasso triste, e de como o sucesso só se fortalece ao não atender a qualquer expectativa, mas à verdade de valores inesperados, como um soco na barriga que dobra as línguas de almas mortas e sebosas.
Katmandu teve uma festa na noite em que estive lá, ao pé do Himalaia eu vi mulheres e crianças felizes em meio de uma pobreza, nada faltava, pois as ambições ali tinham virado uma quietude que me lembrava do sol de Lhasa, e o degelo da agonia que tinha passado depois de ver Shambala dançando na nuvem, com Tarthang flutuando a dizer que nada se salvava, as poeiras sumiriam no éter, o bardo provaria que não teria mais nada pela frente, o vento nos levaria para além, e nunca se soube do infinito o que ele nos diz, o céu sempre silencia, e assim se entende tudo no silêncio.

Gustavo Bastos – POEMA EM PROSA – 14/03/2020



quinta-feira, 12 de março de 2020

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XXI

“temos um problema de transposição de tradições milenares, que envolvem práticas eróticas e sexuais”
O caso Ananda Joy ficou conhecido por reportagem de O Globo em janeiro de 2019, nome de um guru que tem como nome real Diógenes Mira, e na ocasião das denúncias de abuso sexual e estupro, tinha 39 anos e atuava como um tipo de mestre e sábio, condição esta comum a todo aquele que se autointitula “guru”.
Ananda Joy ministrava cerimônias tântricas em Piracicaba-SP. O guru se coloca como um estudioso do misticismo oriental e também é instrutor de yoga. Fazia vinte anos que ele ministrava o chá Ayahuasca nas suas cerimônias em Piracicaba, também conhecido como o Daime. E é em Piracicaba que ele mantém seu Instituto Tantra Shala. E as denúncias partiram de uma característica de suas cerimônias, que era a de o guru ter uma posição de poder sobre os que frequentavam tais encontros. A sua condição de guru, se colocando como mestre e sábio, lhe conferia poder de sugestão sobre os demais.
As sessões abertas ministradas por Ananda Joy não tinha ritual erótico, este ficava para as sessões fechadas, de onde vieram as denúncias de cunho sexual, em um caráter geral de coação e constrangimento. Ananda Joy avisava que tais rituais eróticos poderiam envolver relações sexuais, mas não estipulava em que limite aquilo se daria. As denúncias feitas por mulheres envolviam atos contra a vontade, no entanto, e não um ato espontâneo de contexto erótico-religioso. Limites foram ultrapassados para o que estas mulheres estavam dispostas a fazer.
A característica de atuação de Ananda Joy, segundo as denúncias, portanto, envolviam meios de força física e de discurso espiritual, e que tinham a orientação principal de fazer com que as mulheres que fizeram as denúncias fizessem sexo com o guru e outros membros do grupo. Ananda Joy negou as acusações. As denúncias de abuso reveladas por O Globo vão de 2009 a 2015.
As mulheres procuraram o MP-SP para relatar os abusos cometidos por Diógenes Mira, o Ananda Joy, e o MP afirmou que várias vítimas procuraram o órgão. Segundo as denúncias e relatos, uma das vítimas participou de uma dança em que houve carinhos e toques sensuais com o propósito de curar traumas e bloqueios. Ananda Joy a abraçou e esfregou seu órgão sexual na vítima, ele estava de roupa, e a vítima entendia tais esfregações como parte do trabalho de cura praticado pelas cerimônias tântricas.
Uma outra mulher disse que, durante uma relação sexual, Ananda fez uma prática que a vítima não concordara, mas que Ananda fez o ato mesmo assim, mesmo com a vítima pedindo para parar o ato. A posição de guru de Ananda Joy lhe colocava numa posição privilegiada e de poder, e isto operando pelo seu suposto status espiritual, o que, no contexto de suas cerimônias, se transformava imediatamente em poder de sugestão e manipulação. O argumento para qualquer prática feita em tais cerimônias tântricas é a de que se tratava de um trabalho espiritual.
Ananda Joy se defendeu das acusações nas redes sociais, e sua defesa afirma que o guru é inocente. Diante das várias denúncias, Ananda disse que acionou uma defesa técnica, por meio de um escritório de advocacia, e disse que só se manifestaria pelos advogados, tentando poupar a sua família da repercussão do caso, usando a defesa técnica como sua forma de comunicação sobre o caso.
O advogado de Ananda Joy, Luiz Auricchio, afirmou que o acusado é inocente, e um fato estranho é o de tais denúncias terem ido primeiro à imprensa e só depois para o MP-SP. Nenhuma vítima foi à delegacia, por exemplo, o que o advogado julga como num mínimo estranho. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que não teve nenhum boletim de ocorrência contra Ananda Joy no Estado de São Paulo, e que a polícia ficou sabendo do caso e de sua repercussão pela imprensa.
Embora o caso seja controverso, pois há muitas denúncias, mas os meios usados, imprensa ao invés de delegacia, num primeiro momento, temos um problema de transposição de tradições milenares, que envolvem práticas eróticas e sexuais, e que talvez, nos tempos em que estas práticas foram criadas e aperfeiçoadas, tudo fazia parte de um contexto cultural e social específico.
Pode ser que tal adaptação aos tempos modernos e contemporâneos, de tais práticas e cerimônias tântricas e eróticas, possam trazer algumas ou muitas incoerências, sendo que o erotismo do tantra, num contexto do mundo antigo hindu, tem um sentido completamente diverso do que tentam aplicar hoje em dia, e que, por último, mas não menos importante, pode ser um chamariz para aproveitadores e manipuladores.
E a aplicação de ayahuasca, ou daime, no caso de Ananda Joy, aprofunda o problema, pois é mais um fenômeno comum de práticas espirituais muito mais conhecidas pelo seu ecletismo do que por fundamentos filosóficos realmente fortes.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

sábado, 7 de março de 2020

O CÉU SINISTRO

Um culto se oferece em holocausto,
em fractal não-linear
a alma e o corpo
viram o fragmento
de uma existência,

meu corpo, minha alma,
retesados e inteiros,
numa couraça espantosa
de auto-confiança,
a ignorar solenemente
os cacos, os cortes,
a podridão,

meu fractal redivivo
compondo a minha visão,
e eu só conseguia
olhar a minha meta,
uma vitória suprema.

07/03/2020 Gustavo Bastos 

O LUSCO-FUSCO DA VISÃO

De um movimento refratário
a contra-luz fez sombra,
contrafeito o poeta
abismou seu dossel
como poeta de sol
sem destino,

pronto estava o cartaz
com certos tons rosáceos,
a foto meio borrada,
parecia que a imagem
simulava uma bebedice,
o certo é que seria
um material de divulgação
açodado e sem astúcia,
uma anti-propaganda,
retratando o vício
de um ator canastrão,
em plena vida folgazã,

a imagem que viria depois,
em um lusco-fusco,
de papel fosco,
retrataria este mesmo
charlatão, agora abrindo
cartas fictícias de
um futuro incerto,
sem destino o poeta
as leu, e de lá saiu
pelo mundo,
fazendo acasos.

07/03/2020 Gustavo Bastos

FOTOGRAFIA

Na rua constitución
um flash cegou
um idiota, bruto cor
de carne, pintado
para a guerra,
sem um níquel
furado,

na hora marcada da sombra,
seu chapéu voou com o vento,
suas roupas rotas foram
roídas por ratos,
destes que portam câmeras
com olhos ardentes
que nada dizem,
apenas roubam,

ele se matou,
o idiota era
tão idiota,
que na sua morte,
também foi fotografado.

07/03/2020 Gustavo Bastos

OS CÔMICOS TRÁGICOS

De uma tragédia às sete da noite
na clavícula das luas,
a rosa nasce impura,
tonta e vertiginosa.

Eu paro e olho o sinal,
um lápis-lazúli
que prorrompe
entre as milhas
e meu violão
afinado meio
tom abaixo,

crente, a cruz crucifica
o dorso, o grito, o urro,
a dor poesia que vicia,

rente, ao claro clarão
do sol, vem de nuvem aos
guizos dos risos de um bobo,
Aristófanes ébrio,
promovendo seu holocausto
de figuras públicas,
a rir de si e de todos,

no lagar das horas risonhas,
me ponho neste lugar
de tragédia, absorto
de drama e de heroína,

o romance que era projeto
começou a ser escrito,
platitudes filosóficas
dominaram o pensamento
público, Aristófanes ri
destes ocos homens,
a fazer conceito evanescente
das profundas questões,
e o douto ignaro
na troça de um traço
agreste, seco,
que o poeta parou
de edulcorar,
ele também
seco como uma palha,
balbuciando mais
um poema pétreo
na curva do rio.

07/03/2020 Gustavo Bastos