PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA, O BARROCO E A HISTÓRIA


“O Barroco, quando surgiu, era uma reação ao domínio da linguagem clássica que caracterizava o Renascimento”

Temos o movimento Barroco como um estilo que se propagou intensamente no Brasil, sendo hoje até uma forma pejorativa de discernir certas heranças e características que permanecem até hoje na nossa cultura e na própria expressão geral de nosso país. Por outro lado, originalmente, temos tal movimento como evento próprio que se deu entre o fim do século XVI e início do século XVII.
O Barroco, quando surgiu, era uma reação ao domínio da linguagem clássica que caracterizava o Renascimento, este que, por sua vez, vinha ideologicamente sob o influxo de um antropocentrismo que revivia em base própria as venturas da cultura clássica greco-romana da Antiguidade.
Com a palavra “barrueco” sendo traduzido por “pérola irregular”, temos mais uma vez patente que se trata de um movimento artístico e literário que coloca a arte barroca como oposta à proporção, regularidade e equilíbrio renascentistas. E temos aqui o contexto da expansão do Absolutismo na Europa, a reação da contrarreforma católica em face da Reforma Protestante (aqui com a publicação das 95 teses de Martinho Lutero, em 1517).
Ou seja, foi na convocação da Igreja Católica para o Concílio de Trento, que se iniciou em 1545, que teríamos o movimento dos jesuítas e o Tribunal do Santo Ofício, além do fim das indulgências e o apoio total às artes sacras, cujo influxo se deu no Barroco, estilo este que era detalhista e rebuscado, sem a ordem pretensamente racional do Renascimento.
No final do século XVI, em Portugal, temos a morte ou desaparecimento de Dom Sebastião em Alcácer-Quibir, norte da África, em 1578, numa batalha. Resultado : Portugal teve uma crise pela sucessão do trono, e então o país perdeu a sua independência, pois Filipe II instituiu a União Ibérica, marco histórico para o surgimento, por conseguinte, do Barroco de Portugal, cuja presença dos jesuítas foi marcante.
Por fim, o Barroco brasileiro terá a influência dos portugueses e os recursos estilísticos do Barroco espanhol, cujo estro gongórico e quevedista serão tratados novamente no último texto desta série sobre Gregório de Matos Guerra, que será o próximo. Aqui temos a penúltima parte da série.

POEMAS :

EXPOEM ESTA DOUTRINA COM MIUDEZA, E ENTENDIMENTO CLARO, E SE RESOLVE A SEGUIR SEU ANTIGO DICTAME. : O poema segue esta velha arte de se fazer de tolo, no que o poeta Gregório granjeia bem o que quer, no que vem :“Que néscio, que era eu então,/quando o cuidava, o não era,/mas o tempo, a idade, a era/puderam mais que a razão :”. E o tempo, aqui no poema, e na vida, sempre tem mais poder e luz para o entendimento do que a própria razão tomada em si mesma, no que temos : “vim no cabo a entender,/que o tempo veio a fazer,/o que a razão nunca fez./O tempo me tem mostrado,/que por me não conformar/com o tempo, e co lugar/estou de todo arruinado :”. O poema segue, e o paradoxo é que a hipocrisia tem uma sorte maior do que humildes honestos e na verdade arruinados, a doce fortuna sendo uma luz que se dá no disparate, e o poeta Gregório aqui sendo comparado a um trapo, no que vem : “Muitos por vias erradas/têm acertos mui perfeitos,/muitos por meios direitos,/não dão sem erro as passadas :/cousas tão disparatadas/obra-as a sorte importuna,” (...) “tá, que sou pessoa honrada,/e um homem de entendimento;/qual honrado, ou qual talento?/foram-me pondo num trapo,/vi-me tornado um farrapo,/porque um tolo fará cento.”. E aqui a Bahia aparece em seu esplendor e corrupção, no que temos : “Eia, estamos na Bahia,/onde agrada a adulação,/onde a verdade é baldão,/e a virtude hipocrisia :”. E o poeta, adrede, faz o papel de besta para se dar bem, no que temos : “não sou eu de todo besta,/pois tratei de o parecer :/assim vim a merecer/favores, e aplausos tantos/pelos meus néscios encantos,/que enfim, e por derradeiro/fui galo de seu poleiro,/e lhes dava os dias santos./Já sou na terra bem visto,/louvado, e engrandecido,/já passei de aborrecido/ao auge de ser benquisto :/já entre os grandes me alisto,/e amigos são, quando topo,/estou fábula de Esopo/vendo falar animais,/e falando eu que eles mais,/bebemos todos num copo./Seja pois a conclusão,/que eu me pus aqui a escrever,/o que devia fazer,/mas que tal faça, isso não :/decrete a divina mão,/influam malignos fados,/seja eu entre os desgraçados/exemplo de desventura :/não culpem minha cordura,/que eu sei, que são meus pecados.”. Mas aqui a ideia hipócrita do poeta é, por fim, debelada, e o poeta se coloca em suas desventuras que são seus pecados, mas é a vida de verdade, e não a simulação que lhe daria galardão imerecido, próprio de uma conduta degenerada, o que o poeta, para sua crítica, se mantém na sua integridade de observador dos costumes, portanto, sem se corromper pelos mesmos.

DEFENDE O POETA POR SEGURO, NECESSARIO, E RECTO SEU PRIMEYRO INTENTO SOBRE SATYRIZAR OS VICIOS. : O poeta diz a que veio, e o que já fez, no que vem : “Eu sou aquele, que os passados anos/cantei na minha lira maldizente/torpezas do Brasil, vícios, e enganos.”. E segue o poeta : “Arda Baiona, e todo o mundo arda,/Que, a quem de profissão falta à verdade,/Nunca a Dominga das verdades tarda./Nenhum tempo excetua a Cristandade/Ao pobre pegureiro do Parnaso/Para falar em sua liberdade.”. E o poeta defende mais uma vez a verdade, e tudo que se diz é sentido, mas nem sempre se diz tudo o que se sente, no que vem : “De que pode servir calar, quem cala,/Nunca se há de falar, o que se sente?/Sempre se há de sentir, o que se fala!/Qual homem pode haver tão paciente,/Que vendo o triste estado da Bahia,/Não chore, não suspire, e não lamente?”. Mais uma vez o retrato crítico da Bahia, e a descrição do néscio, que não percebe o valor das coisas, no que vem : “O néscio, o ignorante, o inexperto,/Que não elege o bom, nem mau reprova,/Por tudo passa deslumbrado, e incerto./E quando vê talvez na doce trova/Louvado o bem, e o mal vituperando,/A tudo faz focinho, e nada aprova./Diz logo prudentaço, e repousado,/Fulano é um satírico, é um louco,/De língua má, de coração danado./Néscio : se disso entendes nada, ou pouco,/Como mofas com riso, e algazarras/Musas, que estimo ter, quando as invoco?/Se souberas falar, também falaras,/Também satirizaras, se souberas,/E se foras Poeta, poetizaras.”. Portanto, o néscio só entenderia poesia e sátira se as fizesse, e o poeta segue : “Quantos há, que os telhados têm vidrosos,/E deixam de atirar sua pedrada/De sua mesma telha receosos.” (...) “Todos somos ruins, todos preversos,/Só nos distingue o vício, e a virtude,/De que uns são comensais, outros adversos./Quem maior a tiver, do que eu ter pude,/Esse só me censure, esse me note,/Calem-se os mais, chitom, e haja saúde.”. E a crítica do poeta aqui se consolida com uma coda de humor áspero e ao mesmo tempo otimista, ao fim, desejando saúde.

CONTEMPLANDO NAS COUSAS DO MUNDO DESDE O SEU RETIRO, LHE ATIRA COM O SEU APAGE, COMO QUEM A NADO ESCAPOU DA TROMENTA. : Aqui temos um poema de vileza, no bom sentido, com mordacidade e pornografia de um Gregório humorístico, no que vem : “Neste mundo é mais rico, o que mais rapa :/Quem mais limpo se faz, tem mais carepa :/Com sua língua ao nobre o vil decepa :/O Velhaco maior sempre tem capa./Mostra o patife da nobreza o mapa :/Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;/Quem menos falar pode, mais increpa :/Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.”. E pela lei do ladino, termina-se em onomatopeia num jogo de linguagem poética inteligente, e ao mesmo tempo simples, no que vem : “Para a tropa do trapo vazo a tripa,/E mais não digo, porque a Musa topa/Em apa, epa, ipa, opa, upa.”.

ENCONTRO QUE TEVE COM HUMA DAMA, MUY ALTA, CORPOLENTA, E DESENGRAÇADA. : O poeta aqui faz homenagem à musa, rainha soberana, mui alta e mui poderosa, no que vem : “Mui alta, e mui poderosa/Rainha, e Senhora minha,/por poderosa Rainha,/Senhora por alterosa :/permiti, minha formosa,/que esta prosa envolta em verso/de um Poeta tão perverso/se consagre a vosso pé,/pois rendido à vossa fé/sou já Poeta converso.”. O poema segue e o poeta busca sinal amoroso neste ar de coração lastimado, no que temos : “permiti, belo luzeiro/a um coração lastimado,/que por destino, ou por fado/alcance um sinal de amor,” (...) “Fodamo-nos, minha vida,/que estes são os meus intentos,”. E o amor, que enfim encontra paz nos instintos do sexo, bem justo para um poeta sem papas na língua, no que temos : “eu sou da vossa medida,/e com proporção tão pouca/se este membro vos emboca,/creio, que a ambos nos fica/por baixo crica com crica,/por cima boca com boca.”.

POEMAS :

EXPOEM ESTA DOUTRINA COM MIUDEZA, E ENTENDIMENTO CLARO, E SE RESOLVE A SEGUIR SEU ANTIGO DICTAME.

Que néscio, que era eu então,
quando o cuidava, o não era,
mas o tempo, a idade, a era
puderam mais que a razão :
fiei-me na discrição,
e perdi-me, em que me pes,
e agora dando ao través,
vim no cabo a entender,
que o tempo veio a fazer,
o que a razão nunca fez.

O tempo me tem mostrado,
que por me não conformar
com o tempo, e co lugar
estou de todo arruinado :
na política de estado
nunca houve princípios certos,
e posto que homens espertos
alguns documentos deram,
tudo, o que nisto escreveram,
são contingentes acertos.

Muitos por vias erradas
têm acertos mui perfeitos,
muitos por meios direitos,
não dão sem erro as passadas :
cousas tão disparatadas
obra-as a sorte importuna,
que de indignos é coluna,
e se me há de ser preciso
lograr fortuna sem siso,
eu renuncio à fortuna.

Para ter por mim bons fados
escuso discretos meios,
que há muitos burros sem freios,
e mui bem afortunados :
logo os que andam bem livrados,
não é própria diligência,
é o céu, e sua influência,
são forças do fado puras,
que põem mantidas figuras
do teatro da prudência.

De diques de água cercaram
esta nossa cidadela,
todos se molharam nela,
e todos tontos ficaram :
eu, a quem os céus livraram
desta água fonte de asnia,
fiquei são de fantesia
por meu mal, pois nestes tratos
entre tantos insensatos
por sisudo eu só perdia.

Vinham todos em manada
um simples, outro doudete,
este me dava um moquete,
aqueloutro uma punhada :
tá, que sou pessoa honrada,
e um homem de entendimento;
qual honrado, ou qual talento?
foram-me pondo num trapo,
vi-me tornado um farrapo,
porque um tolo fará cento.

Considerei logo então
os baldões, que padecia,
vagarosamente um dia
com toda a circunspeção :
assentei por conclusão
ser duro de os corrigir,
e livrar do seu poder,
dizendo com grande mágoa :
se me não molho nesta água,
mal posso entre estes viver.

Eia, estamos na Bahia,
onde agrada a adulação,
onde a verdade é baldão,
e a virtude hipocrisia :
sigamos esta harmonia
de tão fátua consonância,
e inda que seja ingnorância
seguir erros conhecidos,
sejam-me, a mim permitidos,
se em ser besta está a ganância.

Alto pois com planta presta
me vou ao Dique botar,
e ou me hei de nele afogar,
ou também hei de ser besta :
do bico do pé à testa
lavei as carnes, e os ossos :
ei-los vêm com alvoroços
todos para mim correndo,
ei-los me abraçam, dizendo,
agora sim, que é dos nossos.

Dei por besta em mais valer,
um me serve, outro me presta;
não sou eu de todo besta,
pois tratei de o parecer :
assim vim a merecer
favores, e aplausos tantos
pelos meus néscios encantos,
que enfim, e por derradeiro
fui galo de seu poleiro,
e lhes dava os dias santos.

Já sou na terra bem visto,
louvado, e engrandecido,
já passei de aborrecido
ao auge de ser benquisto :
já entre os grandes me alisto,
e amigos são, quando topo,
estou fábula de Esopo
vendo falar animais,
e falando eu que eles mais,
bebemos todos num copo.

Seja pois a conclusão,
que eu me pus aqui a escrever,
o que devia fazer,
mas que tal faça, isso não :
decrete a divina mão,
influam malignos fados,
seja eu entre os desgraçados
exemplo de desventura :
não culpem minha cordura,
que eu sei, que são meus pecados.

DEFENDE O POETA POR SEGURO, NECESSARIO, E RECTO SEU PRIMEYRO INTENTO SOBRE SATYRIZAR OS VICIOS.

Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios, e enganos.

E bem que os decantei bastantemente,
canto segunda vez na mesma lira
o mesmo assunto em plectro diferente.

Já sinto, que me inflama, ou que me inspira
Talia, que Anjo é da minha guarda,
Dês que Apolo mandou, que me assistira.

Arda Baiona, e todo o mundo arda,
Que, a quem de profissão falta à verdade,
Nunca a Dominga das verdades tarda.

Nenhum tempo excetua a Cristandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para falar em sua liberdade.

A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.

De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!

Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?

Isto faz a discreta fantesia :
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.

O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.

E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperando,
A tudo faz focinho, e nada aprova.

Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.

Néscio : se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?

Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.

A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.

Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.

Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.

Uma só natureza nos foi dada :
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.

Todos somos ruins, todos preversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais, chitom, e haja saúde.

CONTEMPLANDO NAS COUSAS DO MUNDO DESDE O SEU RETIRO, LHE ATIRA COM O SEU APAGE, COMO QUEM A NADO ESCAPOU DA TROMENTA.

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa :
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa :
Com sua língua ao nobre o vil decepa :
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa :
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa :
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa :
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

ENCONTRO QUE TEVE COM HUMA DAMA, MUY ALTA, CORPOLENTA, E DESENGRAÇADA.

Mui alta, e mui poderosa
Rainha, e Senhora minha,
por poderosa Rainha,
Senhora por alterosa :
permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou já Poeta converso.

Fui ver-vos, vim de admirar-vos,
e tanto essa luz me embaça,
que aos raios da vossa graça
me converti a adorar-vos :
servi-vos de apiedar-vos,
ídolo d ´alma adorado,
de um mísero, de um coitado,
a quem só consente Amor
por galardão um rigor,
por alimento um cuidado.

Dai-me por favor primeiro
ver-vos uma hora na vida,
que pela vossa medida
virá a ser um ano inteiro :
permiti, belo luzeiro
a um coração lastimado,
que por destino, ou por fado
alcance um sinal de amor,
que sendo vosso o favor
será por força estirado.

Fodamo-nos, minha vida,
que estes são os meus intentos,
e deixemos cumprimentos,
que arto tendes de comprida :
eu sou da vossa medida,
e com proporção tão pouca
se este membro vos emboca,
creio, que a ambos nos fica
por baixo crica com crica,
por cima boca com boca.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :   https://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-o-barroco-e-a-historia      

domingo, 16 de dezembro de 2018

OBSERVATÓRIO

A rua está doida,
uma briga de gatos
no cio, mendigos
abatendo sobras
de um açougue,
maviosas faces
da praia,
um senhor jogando
sueca com outro senhor,
bêbados em plena
tarde de terça-feira,
relógio apontando
quarenta graus,

ah, oh, eu sou um poeta
da urbe que se admira
facilmente com banalidades,
sou um documentarista
das coisas ínfimas,
dos gauches que
circulam sem eira
nem beira.

16/12/2018 Gustavo Bastos

NOITES PRETAS

O vulto das coisas evanescentes
saem de uma metafísica árida,
o meu bom conceito busca
debalde a firmeza de um chão,

meus olhos lacrimejam ardendo,
a poeira, a fuligem,
uma tempestade d´areia
me invade o coração,

se eu me lembro das dores,
como posso tê-las em ordem?

o vulto some qual fantasma
nas paredes, sombra mórbida
que sulca o horror da febre,

meu senso de tempo e espaço
se esboroa no ar,
o vulto me traz
o pavor do poema,

um vulto sem nome
e sem história,
me assombrando
nas noites pretas.

16/12/2018 Gustavo Bastos

sábado, 15 de dezembro de 2018

PEQUENA HISTORIETA DE ARTISTAS

A febre recita todo o caudal
marmóreo das esculturas,
o cinzel eterniza
o sulco da musculatura,
tez e vísceras,
desenho de geômetra espacial
sob a espada de rodin,
um fídias alquebrado
por bustos imperiais,
a veia pré-socrática
e os sonhos cretenses
de olhos vazados,
os segredos de elêusis
e as fruteiras dos encômios,
uma nau delgada
de literatura,
corpos de bronze
e de prata,
peças de armadura,
os peripatéticos,
o busto de sócrates,
vênus de milo,
samotrácia,
a ilha de lesbos
como um inferninho,
os mestres antigos
em relicários
e os novos standards
megalomaníacos.

15/12/2018 Gustavo Bastos

ALMA E CORPO

Sem que o meu corpo perceba,
gesso, cal, mármore,
estes ossos povoam
as minhas entranhas,

com o sol eu componho
a esmeralda, o cinza
da cidade faz, no entanto,
a água do verso ficar salobra.

Sem que eu tenha vestígio de alma,
a pele que idolatro tem tez
de vulcão e delírio,
com carvão e berilo.

com a lua posta em seu trono de gelo,
os líquens das tundras
cantam segredos
da aurora,

os povos nômades que habitam
meus elencos de fábulas,
todos estes morrem
no cinza e na loucura,

ignoro o destino do meu corpo,
tenho por certo a sina
da minha alma.

15/12/2018 Gustavo Bastos

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

WHITE RABBIT

“Algumas pílulas te fazem crescer, outras te fazem encolher”

INSPIRAÇÃO EM ALICE E MILES DAVIS

Quando Grace Slick teve a concepção da música White Rabbit, esta, reza a lenda, veio de uma viagem de ácido ao som de Sketches of Spain do Miles Davis, este que por sua vez vem de influência do Concerto de Aranjuez e também podemos associar o hino psicodélico da banda Jefferson Airplane ainda ao Bolero de Ravel.
“Algumas pílulas te fazem crescer, outras te fazem encolher. E as que a sua mãe te dá não fazem efeito algum”. A abertura da letra e da música são já impactantes e já dizem que a mensagem é a consolidação de todo o movimento hippie que estava surgindo nos EUA, mais exatamente na San Francisco da Califórnia.
“White Rabbit” alcançou a oitava posição nas paradas e vendeu mais de 1 milhão de cópias, e isto com a censura banindo a música das rádios, pois com uma letra que fazia menção direta ao ácido lisérgico, tal não foi bem recebida pelo meio mais conservador. A música é um dos clássicos do álbum também clássico Surrealistic Pillow, um retrato perfeito dos anos 1960 e um dos discos mais importantes do rock.
Inspirada no clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, a canção falava de drogas de maneira escancarada. “White Rabbit" é uma canção de rock psicodélico lançada em 1967, foi o segundo single do álbum Surrealistic Pillow, este que foi, por sua vez, o segundo disco do Jefferson Airplane.
"White Rabbit" faz uma associação dos efeitos alucinógenos do LSD ao mundo imaginário de Lewis Carroll, podendo aqui fazer esta ligação direta a obras como Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice através do Espelho (1871).
A música “White Rabbit” tem um crescendo que se liga muito ao que ouvimos no Bolero de Ravel, com influência da música espanhola, com uma linha de baixo fortíssima, “White Rabbit”, como dito, também teve inspiração no álbum de Miles Davis, o Sketches of Spain.

SKETCHES OF SPAIN

Em 1959, Miles tomou conhecimento do Concerto de Aranjuez de Joaquin Rodrigo, ficou fascinado com o som, e se juntou ao pianista Gil Evans para adaptar tal música ao jazz, usando esta música espanhola como leitmotiv ou tema central do álbum que viria a ser um dos mais populares do trompetista, o Sketches of Spain. Portanto, com arranjos de Gil Evans e produção de Teo Macero e Irving Towsend para a Columbia Records, temos um trabalho musical que foi realizado entre novembro de 1959 e março de 1960.

BOLERO DE RAVEL

Composta em 1928, a obra Bolero tem um ritmo invariável, com uma melodia uniforme e que se repete em torno de uma orquestração e um crescendo que revela a sua dinâmica e a sensação que a música passa ao ouvinte, e então temos uma das obras mais populares de Ravel, que fora concebida como um simples exercício ou estudo de orquestração.
Com imensa repercussão e popularidade, a obra é original, uma vez que tem por objetivo exercer a dinâmica no sentido de redesenhar e reinventar os movimentos da dança. Ravel então se surpreende que um mero exercício feito para orquestração tenha tido tanto reconhecimento e popularidade, sobretudo com a contribuição de maestros como Willem Mengelberg e Arturo Toscanini, dentre outros.

CONCERTO DE ARANJUEZ

O Concerto de Aranjuez é uma composição musical para violão clássico e orquestra do compositor espanhol Joaquín Rodrigo que foi concebida em 1939, como o trabalho mais conhecido e reconhecido do músico. Trata-se da obra musical espanhola mais interpretada em todo o mundo, com um adagio reconhecível facilmente, bem popular, e tendo sido interpretado tanto em óperas como pelos cantores populares.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/white-rabbit

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SPIRITUALS


“libertação é o nome de spirituals, este é o poema”

I – O FUNDO MITOLÓGICO

Os passarinhos do céu são longânimos:
Atitude ventral: o caboclo sete flechas retira-se da batalha campal, a tosse espirra com bruma valente, o exú sete trevas rebomba a nau mestra com galhardia. Veio meu sumário neste dia frouxo de meu poema: a lida é seca e pura, eu via igrejas pasmadas como delírios na rota de saberes moucos, surdos aviltados por barulhos, mudos gritando com as mãos, a saber navega em si o poeta que não sabe de si, louco como um assunto estorvo, mutante que revigora as pestes de que a antiguidade é farta, pois Seth revirava Bek, Osíris e a fada Ísis, pelo canto sumério um deserto se abria em Tigre e no Eufrates, pois Baal, como se via na gira, borbulha tal o elmo, pois Tamuz, Enlil, o grande Marduk face a face com Tiamat, todo este séquito sabia todas as notas do sistema sexagesimal, um outro castelo feito na rua astronômica em que dormia tal estrela, vestes de vestais com Deméter, riso e troça com miasma de tal defumação do rigor da luta, pastores e ribeirinhos falando tupi no meio do defumador, eu que lia as cartas e Pai Antônio das Almas apenas fazia fumaça.

II – O FUNDO MUSICAL

As avezinhas do céu são libertárias:
Quando se ouvia Robert Johnson se tinha em seus dedos e palheta ou sabe-se lá o que foi teu pacto, a ver nas fazendas de algodão um martírio se ouvia os lamentos virarem arte, pois de outro modo seria apenas sofrimento e não ladainha, e não saída voilá da parte d`alma que canta, ou se tudo fosse de fato só duramente forjado, não haveria poesia, só roncos e patifes, não haveria poesia, só murros em cada passo, não haveria música, só um estrondo que rimaria desesperado. Pois, com as notas musicais se edifica o espírito da verdade, e não se rima em demasia a produção dorida, mas se faz templo de ritual com sete cortes na jugular, como um cancioneiro que ritualiza não teu dorido lamento apenas, mas teu apaziguado sonho que floreia mais a utopia geral do que o flagelo do mundo, pois, com todo o concerto, não temos apenas a dor do coração, mas a felicidade que ruma ao paraíso depois de morta, uma visão ou antevisão, um dom se assim se quer chamar, ou a violência pacífica que tem norte e sul em cantorias vertidas do sangue ruim da vida, do líquido sonhado e azul que não sangra mais, da nobreza escrava que dedilhava as mãos de blueseiros depois de um drama nas unhas fincadas em algodão.

III – O FUNDO POÉTICO

Os cucos do céu são pontuais:
A poesia métrica ou espatifada são sonoras e musicais, são discursivas e modais, são poemas com cavaletes, com vinhos, com romanceiros, vertem fúrias, sobra o espírito vulcânico, corrompe o demônio interno, fulgura como montanha e galardão. Nota a poesia com vinha retinta, bruma de banho e sol, como fia sem porfia, como tanto se faz com doses de lida, e nem se faz idiota, ou pouco inteligente, mas sim como um coro trágico desperta, e longa ou curta se esmera. Vai-te poesia de sim e de tudo! Mas quanto melisma simbólico, e frutos metafóricos! A vida se frutifica como mel e maná, otimiza sem lugar, viraliza sem notar, sem cerimônia o poema eterniza, e rima qual longo sonho ou delírio, mas, cônscia e reta, a poesia fulmina e gira, tal a sua geologia, tal a arte geodésica, a rima gravita, o verso em crosta se firma, e à atmosfera voa. A poesia é esta nau dos insensatos que nada mais faz além de cantar, pois dádiva tu és, poesia como empresa, vinho como glória, alma como mérito, corpo como guerra, vícios e virtudes como o que se é. Poesia, tua morada é de mitos, sua tez é democrática, teu legado é todo o universo, pois uma vez lida, poesia, tua fuga se encontra, e pasma o mundo sem ter te visto ou mirado quando tudo se sucedia a olhos vistos, poesia, poesia. Ah, mas que rima pouco dada, que vagabundo sem sorte! Mas não, poesia tem tudo em uma linha, tudo em dez linhas, como o fio que não faz porfia, como Ariadne que mata o cão, linha de linha e costura de armadura, poesia é linda como o verão, respeitável como o inverno, faz verso na primavera, e depois se despede no outono, com folha seca da relva vermelha, rubra seca folhagem do sangue, via de fogo fátuo que a natureza assimila sem enfado, poesia é um grau de mestria por espada e flor, por guerra e paz, poesia é contradição absolutizante, paradoxo que borbulha champanhe, vinho tinto seco que lambe a garganta dos sonhos que não são vãos, poesia farta o homem como um banquete, e quem não a entende passa fome, e o faminto morre por nada mais, sem poesia. Farta a tua seiva, a tua sebe, a tua colheita, farta do mundo cão teu verso potente como som, farta do mundo vão dos que passam fome sem saber.  Poesia é comida, é refeição sagrada da alma, poesia é esta alma canora que dá de comer ao mundo, mesmo que o mundo prefira a fome.

IV – O FUNDO LITERÁRIO

As andorinhas do céu são veraneios:
A Literatura espiritual que conquista o coração das coisas, o literário que emana tua estrela pátria, e se expande tal o cosmos que brilha, tem no livro um maná inesgotável da aventura, pois a escrita se faz em ode e elegia, alegria e mutação, dor parida e fonte de feliz canção, o poema astúcia deste concerto é a coroa da vida, a literatura se serve de tudo o que existe na imaginação, e o mundo real é um espelho que joga com este delírio. Vamos! Toda a sorte do mundo e todo o amor do mundo neste universo literato, que nos leva além, que nos dá a luz que vem de um estalo de sol, que nos dá a noite profunda da reflexão, que nos traz estórias loucas que o mundo surpreende, tais são as aventuras letradas que sorriem para o dia auroral que nos dá tudo, e que nos livra de todo o mal. Literatura é um pássaro que vai e voa para mais longe do que o olhar ao horizonte, que nos vinga de frios eternos da morte, que nos leva ao cerne de todo o existir, pois que da sombra faz treva espiritual se demudar em luz própria, e nos dá salvamento para o Orfeu que toca o coração da música, a literatura vem de poesia e aedos rapsodos e começa a se inserir em ficção, duas frentes libertárias que é poesia e estória, música e imaginação. Vem me dar o dia à tarde a carta escrita no outono da vida, no mar que bem se quer com a flor benquista que bebe vinho, com a dor vertida que nos leva à filosofia mais bruta do mundo, para mais que tudo o sonho reverter-se do pó e virar céu azul ao infindo voo, e eis que o torpor não é mais o desejo da pena, mas a lucidez extrema que povoa o mundo real, a vida mais autêntica que conquista todo o universo com loas de suprema letícia. As minhas canções saem na rua que grita estamos aqui, rua da cidade que pula e ri, o circo que passa no vento da careta que faz a criança, o lúdico que se embrenha em meio ao caos, a cidade mais alta torre se despe pelo calor e se cobre no frio, todas as canções atingem o coração das coisas, e a literatura, deste modo, canta de si mesma o seu terreno imaginoso, de que a terra é repleta, a plenitude é o clímax que o poema, enfim, ventila, por saber-se tão preso ao chão, mas com o espírito livre que bebe e come cheio de esperança! Sim! A terra é da literatura e de seu espírito livre, uns dizem alma de poeta, outros dizem inspiração de artista, e os que fazem dizem esperança. Literatura é vida reafirmada em sol e gerações delirantes.  

V – O FUNDO FILOSÓFICO

Os anjos do céu são eternos:
A filosofia espiritual emana como a esfinge fundamental que do karma mais bruto nutre os passos de paquiderme à leveza da angelitude, passos firmes que sonham alto, passos delicados que trabalham com cuidado, esmero na arte e força no coração, leão de todas as horas é filosofia e seu corte na coisa toda, espírito aqui é analítico e sintético, espiritual é o idealismo totalizante de uma figura final, mas não tem fim, e o estro do espírito tenta ser sistema, depois tenta ser crítica, antes ainda essência, depois ainda nada disso, uma das perspectivas, a liberdade, e se está sempre diante da esfinge que é o universo, o pensamento tem força, mas a existência tem uma força descomunal diante do pobre pensador que tenta se organizar, toda a poesia que bebe em filosofia, certa se embriaga, mas continua só cantando, pois do total que se dá a todo o tempo, os pré-socráticos diziam ser algo, os contemporâneos ainda o sentem em certas cosmologias, mas tudo que brilha no olhar destes todos que vivem é a encarnação da dúvida e da origem do mal, sonhamos muito na paz, e somos sempre bélicos na estrada, se tudo fosse perfeito ruiria, pois nem poeta e nem filósofo, na sua melhor hora, será pleno ou perfeito, ondas de humor povoam a terra e seus dramas, o mal do mal gerado inverte e bem vem como utopia, o canto espiritual ainda ecoa como um pequeno oásis, já se perdeu, toda esta estória de plenitude já se perdeu, em algo ainda moramos na esperança, como uma entidade benfazeja nos dizendo que há luz no mundo, e que nem tudo é grave ou pecado, e que nem tudo a filosofia dá conta, e que nem tudo a poesia e a literatura resolvem, e que nem no mundo mais brando do coração não há conflito, a batalha espiritual busca a sabedoria, esta sim entidade dificílima, repleta das nossas contradições e repetições, a plenitude dos erros que nos dá tudo que temos, a poesia e toda a literatura, juntando-se à filosofia e ao mito, como forma de esperanças que tentam dar conta do mundo e melhorá-lo, e que do erro tenha vez este todo acerto da imperfeição total, spirituals vem de canto dorido para cantar a esperança que já está em todo coração que sonha e faz, libertação é o nome de spirituals, este é o poema.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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