PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 14 de outubro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA : UM POETA DE SEU TEMPO


“poeta histórico e com lugar cativo na antologia poética brasileira”

O Barroco, já com Gregório de Matos Guerra, também se faz com as banalidades cotidianas, uma vez que temos aqui também a concepção de que a vida é vã, e tal versificação de temas banais pode ainda ser mais um meio de evasão do poeta Gregório das questões graves que também lhe provocam a pena como o pecado, o mundo efêmero, quando este se volta para a sua poesia religiosa, num voltar-se ao banal que também lhe faz descansar um pouco da realidade política e social que é tema de suas sátiras.
No estilo, Gregório é um poeta que mimetiza algumas fontes, tal é a influência de Gôngora, Quevedo, Camões e Antônio Fonseca Soares. Em uma lira bilíngue, como era do feitio da moda cortesã, Gregório também cometia versos em espanhol, afetando versões copiadas de Quevedo, como também paráfrases de textos camonianos, e seguindo ainda a tradição portuguesa de escárnio e maldizer, desancando tudo em volta com ironia e senso crítico.
Gregório era um poeta que produzia uma verdadeira crônica de costumes de seu tempo, portanto, era um poeta temático circunscrito ao seu tempo histórico, logo sua poesia é mais compreensível nesta contextualização adequada, pois tais temas já não são mais familiares para gerações posteriores, com nomes e referências que se perderam no tempo, sendo uma poesia que deve ser analisada num método de revisão histórica para poder tanto ser entendida como apreciada. Seus poemas são, sobretudo, uma crônica regional e seiscentista das mazelas e vícios coloniais.
Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno, chegou à posteridade como um poeta de seu tempo, um cronista intenso e preciso de seu tempo, daí a sua dimensão de poeta histórico e com lugar cativo na antologia poética brasileira.

POEMAS :

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO. E QUERENDO EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA. : O poema segue um rumo de queda, mas flerta com uma certa loucura, que lhe será mais cara e salvadora, por sua vez, do que uma sisudez que faria o poema frio, no que temos : “Carregado de mim ando no mundo,/E o grande peso embarga-me as passadas,/Que como ando por vias desusadas,/Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.” (...) “Não é fácil viver entre os insanos,/Erra, quem presumir, que sabe tudo,” (...) “O prudente varão há de ser mudo,/Que é melhor neste mundo o mar de enganos/Ser louco cos demais, que ser sisudo.”. Aqui julgar já saber de tudo seria a destruição da perplexidade poética, esta que se alimenta de espanto, e nada mais certo que a insanidade poética para armar a loucura de arte.

NUMA ILUSTRE ACADEMIA./MOTE : O poema condena a morte tirana, e responde que esta é a ausência, o poeta logo vivifica seu estro, e nos diz, diante do problema que é suscitado no poema, que tal determinação é abrasar-se no que se ama, já citando academia ilustre presidida por um mítico Apolo, no que vem : “Perguntou-se a um discreto,/qual era a morte tirana:/respondeu, que estar ausente/daquilo, que mais se ama./Numa ilustre academia,/que com ciências infusas/fizeram as nove Musas,/onde Apolo presidia :/leu o Secretário Admeto,/um problema mui seleto” (...) “Qual era a morte tirana.” (...) “Respondeu, que estar ausente./Deixou a resposta absorto/a aquele douto congresso,/porque é já provérbio expresso,/que ausente é o mesmo que morto :/eu me persuado, e exorto,/que quem se abrasa, e inflama/de amor na contínua chama,/inda que sinta abrasar-se,/e menos mal, que ausentar-se/Daquilo que mais se ama.”. A ausência aqui é estar morto, e isto o poema recusa, e afirma o amor como um consumir-se mais certo do que a negligência fria que aqui se condena.

AO CONDE DE ERICEYRA D.LUIZ DE MENEZES PEDINDO LOUVORES AO POETA NÃO LHE ACHANDO ELLE PRESTIMO ALGUM. : Aqui temos um poema emblemático da pena gregoriana, no que se dá como um poema leve e satírico, e também criativo, uma brincadeira precisa e inteligente, no que vem : “Um soneto começo em vosso gabo;/Contemos esta regra por primeira,/Já lá vão duas, e esta é a terceira,/Já este quartetinho está no cabo./Na quinta torce agora a porca o rabo :/A sexta vá também desta maneira,/Na sétima entro já com grã canseira,/E saio dos quartetos muito brabo.” (...) “Nesta vida um soneto já ditei,/Se desta agora escapo, nunca mais;/Louvado seja Deus, que o acabei.”. A coda consuma genialmente um poema que também se abre luminoso, a troça é bem lúdica, e nos dá uma alegria comum à poesia bem posta.

DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S.GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM AVISTA DE HUMA DAMA FORMOSA, E BEM ADORNADA. : O poema nos dá uma visão passageira do poeta de uma mulher formosa em meio a uma missa, a qual ele diz não mais retornar, no que vem : “Fui à missa a São Gonçalo,/e nunca fora à tal missa,/que uma custa dous tostões,/e esta há de custar-me a vida.” (...) “quando pela igreja entrou/o sol numa serpentina./Uma mulher, uma flor,” (...) “vi uma moça divina” (...) “Desde então fui seu cativo,” (...) “Acabou-se a missa logo,/e foi a primeira missa,/que por breve me enfadou,/pois toda a vida a ouvira./Foi-se para sua casa,/e eu a segui a uma vista,/passou o rio, e cobrou-se,/cheguei ao rio, e perdi-a.” (...) “Não tornei a São Gonçalo,/nem tornarei em meus dias,/que entre beleza, e adorno/todo o home ali periga.”. O perigo que oferece a beleza pode ser um martírio quando não há garantias, e o poeta bem o sabe, e então não voltará mais ao lugar de sua contemplação inútil.

SERVIU LUÍS A ISABEL/MOTE : Aqui o poema joga com os tempos verbais do amor que é e do que seria, e faz um grande apanhado do que vale ou não vale no amor, no que temos : “Amar Luís a Maria,/amaria não é amar/logo como pode estar/num tempo amar, e amaria./Serviu Luís a Isabel/por prêmio de um favor só/mais tempo do que Jacó/serviu à bela Raquel :/e porque Isabel infiel/o enganou de dia em dia,/em pena de aleivosia/em Maria o empreguei,/e então lhe certifiquei/Amar Luís a Maria.” (...) “vi eu a Moça de jeito,/que me pus pela quietar/nesta forma a conjugar/“Amar Luís, e amaria/não está em filosofia”,/Logo como pode estar?” (...) “firme enfim ao fundamento/da minha sofisteria/diz, que a boa astronomia/tem uns pontos tão sutis,/que pode estar em Luís/Num tempo amar, e amaria.”. Aqui o amor para ser justificado, não se faz de filosofia, mas de uma sofisteria fundada em astronomia, no que o tempo verbal se torna indistinto.

A MESMA MARIANNA PEDINDO LHE FIZESSE HUNS VERSOS, ENCONTRANDO-A NO MAR INDO PARA FORA. : O poema nos cita maldades semelhantes em comportamentos estafermos qual um Labão quando Jacó pleiteia Raquel, aqui uma tia chata, no que temos : “Os versos, que me pedis,/podendo-os mandar formar,/que vós por me não mandar,/não mandareis dois ceitis :/como sem assunto os fiz,/pois vós a vosso contento,/não destes o pensamento,/os rasgues, por ser melhor/assunto do meu amor,/que o vosso contentamento./Por sete anos de Pastor/serviu Jacó a Raquel,/eu servi a uma cruel,/mais de sete anos de amor :” (...) “se me não engana um Pai,/veio a enganar-me uma Tia./Esta tão assegurada/me propôs a refestela,/que cuidei, que tinha nela/a tutia preparada :/enganou-me de malvada” (...) “esta ingratidão cruel/foi o meu triste alimento/oito anos,” (...) “Se hei de dizer-vos verdade,/e me haveis de crer a mim,/até o meu bergantim/ficou morto de saudade :”. O poeta então sucumbe, pesaroso e arrasado, no que temos : “levei do perigo a palma,/e ao porto o bergantim,/e saindo dele enfim/soube já na terra lhana,/que éreis vós a Mariana/disfarçada em serafim./Então fiquei mais absorto,/mais sentido, e pesaroso/mais amante, e mais saudoso,/enfim então fiquei morto :/nestes versos me conforto,/pois neles se queixa Amor :/e inda que o vosso favor/é coisa, que nunca espero,/digo ao menos, que vos quero,/e alivio a minha dor.”. O poema é aqui um tipo de consolo triste, sem sinal de vida, morto e saudoso, o poema é um canto exangue e em vão.

POEMAS :

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO. E QUERENDO EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA.

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.

NUMA ILUSTRE ACADEMIA.

MOTE

Perguntou-se a um discreto,
qual era a morte tirana:
respondeu, que estar ausente
daquilo, que mais se ama.

Numa ilustre academia,
que com ciências infusas
fizeram as nove Musas,
onde Apolo presidia :
leu o Secretário Admeto,
um problema mui seleto
propôs, para argumentar-se,
e havendo de perguntar-se,
Perguntou-se a um discreto.

Ele, que estava distante,
e não ouvia a proposta,
não deu por então resposta
de Surdo, e não de ignorante :
mas vendo no seu semblante
a academia Sob`rana,
que tinha a desculpa lhana,
lhe advertiram com agrado,
que lhe haviam perguntado :
Qual era a morte tirana.

Ele entonces como um raio
prontamente, e sem detença
tomando vênia, e licença
fez consigo um breve ensaio :
o mais horrível desmaio
que um peito amoroso sente,
é a falta do bem presente :
ficou-lhe a resposta lhana;
e a qual é a morte tirana,
Respondeu, que estar ausente.

Deixou a resposta absorto
a aquele douto congresso,
porque é já provérbio expresso,
que ausente é o mesmo que morto :
eu me persuado, e exorto,
que quem se abrasa, e inflama
de amor na contínua chama,
inda que sinta abrasar-se,
e menos mal, que ausentar-se
Daquilo que mais se ama.

AO CONDE DE ERICEYRA D.LUIZ DE MENEZES PEDINDO LOUVORES AO POETA NÃO LHE ACHANDO ELLE PRESTIMO ALGUM.

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo :
A sexta vá também desta maneira,
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.

DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S.GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM AVISTA DE HUMA DAMA FORMOSA, E BEM ADORNADA.

Fui à missa a São Gonçalo,
e nunca fora à tal missa,
que uma custa dous tostões,
e esta há de custar-me a vida.
Estava eu fora esperando,
que o Clérigo se revista,
quando pela igreja entrou
o sol numa serpentina.
Uma mulher, uma flor,
um Anjo, uma Paraninfa,
sol disfarçado em mulher,
e flor em Anjo mentida.
Fui ver a metamorfósis,
vi uma moça divina
ocasionada da cara,
quando arriscada de vista.
Onde tal risco se corre,
ou onde tanto se arrisca,
que menos se há de perder,
que a liberdade, e a vida.
Desde então fui seu cativo,
seu morto daquele dia,
e dentre ambos quis Amor,
que só o cativo lhe sirva.
Serve o cativo talvez,
mortos não têm serventia,
e se tiver de matar-me
vanglória, o terei por dita.
Por entre a nuvem do manto,
que a luz própria então vencia,
às claras estive vendo
aquela estrela divina :
Aquele sol soberano,
que pela elítica via
de seu rosto anda fazendo
um solstício a cada vista.
Acabou-se a missa logo,
e foi a primeira missa,
que por breve me enfadou,
pois toda a vida a ouvira.
Foi-se para sua casa,
e eu a segui a uma vista,
passou o rio, e cobrou-se,
cheguei ao rio, e perdi-a.
Vi-a no monte, e lhe fiz
co chapéu as despedidas,
e lhe inculquei meu amor
por meio da cortesia.
Não tornei a São Gonçalo,
nem tornarei em meus dias,
que entre beleza, e adorno
todo o home ali periga.

SERVIU LUÍS A ISABEL

MOTE

Amar Luís a Maria,
amaria não é amar
logo como pode estar
num tempo amar, e amaria.

Serviu Luís a Isabel
por prêmio de um favor só
mais tempo do que Jacó
serviu à bela Raquel :
e porque Isabel infiel
o enganou de dia em dia,
em pena de aleivosia
em Maria o empreguei,
e então lhe certifiquei
Amar Luís a Maria.

Deixei-a tão persuadida,
quanto ela é presuntuosa,
que o presumir de formosa
persuade o ser querida :
porém como é entendida,
e em toda a arte de amar
sabe mui bem conjugar,
disse, tomando-me a mão,
que em boa conjugação
Amaria não é amar.

Que amaria é imperfeito,
e perfeito o ter amado,
e a um presente cuidado
não serve o plus-quão-perfeito :
vi eu a Moça de jeito,
que me pus pela quietar
nesta forma a conjugar
“Amar Luís, e amaria
não está em filosofia”,
Logo como pode estar?

Este aparente argumento,
e sutil proposição
não só tirou a questão,
mas deu-lhe contentamento :
firme enfim ao fundamento
da minha sofisteria
diz, que a boa astronomia
tem uns pontos tão sutis,
que pode estar em Luís
Num tempo amar, e amaria.

A MESMA MARIANNA PEDINDO LHE FIZESSE HUNS VERSOS, ENCONTRANDO-A NO MAR INDO PARA FORA.

Os versos, que me pedis,
podendo-os mandar formar,
que vós por me não mandar,
não mandareis dois ceitis :
como sem assunto os fiz,
pois vós a vosso contento,
não destes o pensamento,
os rasgues, por ser melhor
assunto do meu amor,
que o vosso contentamento.

Por sete anos de Pastor
serviu Jacó a Raquel,
eu servi a uma cruel,
mais de sete anos de amor :
a Jacó lhe foi traidor
Labão : cuja aleivosia
por Raquel lhe entregou Lia,
e a mim não pior me vai,
se me não engana um Pai,
veio a enganar-me uma Tia.

Esta tão assegurada
me propôs a refestela,
que cuidei, que tinha nela
a tutia preparada :
enganou-me de malvada
tanto pior, que Labão,
que Lia a Jacó lhe dão,
bem que com sorte trocada,
e a mim nem Lia nem nada
me deram, dão, nem darão.

Oito anos há, que fiel,
estou servindo a um amor,
que Labão não foi pior,
porque vos sois a Raquel :
esta ingratidão cruel
foi o meu triste alimento
oito anos, e fora um cento,
porque quem chega a querer
para ajudar-se a viver
faz do Malquerer sustento.

Ontem vos topei no mar
em uma barca tão breve,
quem nem por ligeira, e leve
os pôde a vista alcançar :
pus-me logo a duvidar,
vendo-vos ir sobre a popa,
se seríeis vós Europa
sobre a vaca fabulosa,
mas vós íreis mais formosa,
do que Europa, e toda Europa.

Se hei de dizer-vos verdade,
e me haveis de crer a mim,
até o meu bergantim
ficou morto de saudade :
ficou de tal qualidade
a barquinha entorpecida,
que nem do vento impelida,
nem do remo forcejada
se moveu, antes pasmada,
que a vi por vós perdida.

Com trabalho em tanta calma,
(que o trabalho havia eu tido,
por não haver conhecido;
o que tinha dentro n`alma)
levei do perigo a palma,
e ao porto o bergantim,
e saindo dele enfim
soube já na terra lhana,
que éreis vós a Mariana
disfarçada em serafim.

Então fiquei mais absorto,
mais sentido, e pesaroso
mais amante, e mais saudoso,
enfim então fiquei morto :
nestes versos me conforto,
pois neles se queixa Amor :
e inda que o vosso favor
é coisa, que nunca espero,
digo ao menos, que vos quero,
e alivio a minha dor.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

#BOLSONARONÃO


“O que eu descrevo é o que chamo de febre”

Estou aqui para descrever um fenômeno da política contemporânea, uma verdadeira operação que edificou um mito, tão oco quanto seus admiradores. Venho por meio desta, numa espécie de carta aos navegantes, para que não se afoguem neste caminho que se quer ousado, mas na verdade é autoritário, vive-se do dizer duro para evocar um “falou e disse” que no fim se alimenta do mais grosseiro ódio.
Fundo atávico de nossas perversões, de nossas violências mais primais, de armar a alma para então, voilá, armar toda a sociedade, num mundo distópico hobbesiano da guerra de todos contra todos, aqui polarização, com dois canastrões desastrosos, um fantoche de um líder carismático, outro se tornando o novo líder carismático de extrema direita, com fantoches úteis via redes sociais. O que eu descrevo é o que chamo de febre, e contagiosa.
O mito que tomou esta proporção era um microcosmo pouco tempo atrás, e depois das jornadas de junho de 2013, que começou com alvíssaras de movimento libertário, de mobilização social e política nunca vista, na verdade chocava, sorrateiramente, o ovo da serpente, com reações de direita em seu bojo, e este projeto de deputado, ex-capitão, cheio de bravata e apologia à tortura, foi saindo de seu casulo.
Nunca se viu nada de concreto em anos de sua atuação parlamentar, mas daí o capitão histriônico deu para frequentar programas populares, como um personagem exótico e inofensivo, muitos viam como uma piada, (o que hoje fazem com um tal cabo que pensa que é profeta, todo cuidado é pouco), e este capitão agora tenta envergar a faixa presidencial, e com chances bem concretas, num crescendo que eu chamo novamente de febre, e contagiosa.
Pois bem, o que parecia no início um chiste, uma mofa, uma troça, um pastiche, ganha ares agora de tragédia, de distopia, em meio a um país dividido, rachado, com todas as alternativas de equilíbrio e ponderação fazendo água. Temos diante de nós o cenário desastroso de uma escolha fatal, um louco, um demente, que é levado como novo guia infame, que fala infâmias, tem uma coleção delas, e a cada vez que se manifesta pelo pior, ganha mais admiradores.
Estamos diante de uma febre religiosa tão ridícula como o lulopetismo, a outra face desta eleição carismática, de reunião de fiéis de igreja, de carolas rezando a carta de seu salvador, de seu novo Dom Sebastião. Nada mais atávico e medonho. Temos estes caminhos tortuosos de uma nação que precisa ser tutelada, e teremos, portanto, a eleição de um pai, de um tutor, e isto quer dizer autoridade.
Quer dizer, portanto, que muitos desejam esta liderança autoritária, um retrocesso que pode custar caro, um regresso à estaca zero de todo o esforço de redemocratização e edificação de nossa Constituição, o pior momento desde este retorno da democracia em nosso país. Um momento em que a ponderação virou um papo cabeça para iniciados, em que se ignora solenemente a discussão civilizada de pontos de vista. Vivemos um tempo de intolerância em um país intolerante, a rede social só reverbera o que já existia, só precisava de voz.
A baba escorre da boca do monstro, o ovo da serpente foi chocado e já eclodiu, o que resta é o trabalho de formigas para recriar este enfrentamento político que caiu no abismo de escolhas radicais, uma renovação que se tornará uma batalha, e que será difícil, poderá levar uma ou duas gerações, tudo pode ruir no meio do caminho, este caminho de um país carnavalesco mas que no seu cotidiano é um país conservador, preconceituoso, homofóbico, misógino e machista, e o ex-capitão é o espelho perfeito desta parte de nossa sociedade.
O novo mito é o eleito, o predestinado, este que é a serpente que saiu do ovo do reacionarismo e que subverteu as expectativas racionais da política formal, algo que se espalha no mundo, com os EUA que sucumbiram à Trump, um Duterte maluco nas Filipinas, Orban na Hungria, e toda uma gama de reacionários que buscam sempre, portanto, este líder carismático, este que sempre fica cambiando entre um populismo de esquerda, que também possui seus tiques autoritários, vide a ideia estapafúrdia de Haddad pela constituinte, e o populismo conservador da extrema direita, que é uma cadela brechtiana no cio, que adora porrada no mais fraco e decisões unilaterais para problemas multifacetados, voluntarismo simplório para conjunturas complexas.
O fato mais evidente no momento político brasileiro, portanto, é que todo o discurso de centro, centro-direita e centro-esquerda virou coisa de fracote frente à conjuntura sócio-econômica, a população partiu para o tudo ou nada, e seus sinônimos “tudo ou nada” são “extremismo” e “voluntarismo”, ficamos reféns de um pensamento mágico em que um pode solucionar a violência através de mais violência, e outro lado que faz uma política de gasto público que rompe com o pacto fiscal sem ao menos fazer a devida auditoria da dívida pública, esta que vem repleta de operações compromissadas nunca investigadas a fundo, e o resultado vem como dívida pública, um problema mundial, já com alertas recentes do FMI.
Voltando à crise dos candidatos de centro, estes se desidrataram, viraram fumaça, e a fogueira está acesa entre rejeição e apoio, com o #elenão e com antipetismo, que virando a moeda são bolsonarismo e lulismo, os líderes carismáticos dando a receita de votos, enquanto a retórica de centro já está na fase do desespero ou da anemia, com um resultado em que a pesquisa eleitoral conduz do meio para frente os votos úteis e os votos válidos, o paradoxo entre o voto pela ideia e o voto pela circunstância, se é correto votar por causa da pesquisa ou por causa do candidato em si. Pois então, num cenário de polarização, verdade verdadeira, vota-se contra o inimigo e num mito, “em uma ideia” (como disse Lula de si mesmo), o que muitas vezes pode ser votar num mal menor ou no seu ícone, no seu mito, seja ele Lula ou Bolsonaro.
Por fim, já temos o ovo da serpente chocado e forte, como um tipo de movimento raivoso que pensa que atitude radical é panaceia para todos os males, que com a maldade e o ódio poderemos construir uma sociedade de “cidadãos de bem”. Pode cair ou ainda vingar a pretensa virtude do bem da esquerda que tenta monopolizá-la de um lado (com Lula montando sua operação de vingança política contra o impeachment de Dilma, com capachos alucinados como Gleisi Hoffmann), ou estourar na cadeira presidencial este movimento autoritário em que o grande mal, a violência, só se resolve com uma pretensa benfeitoria na base do cacete.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/bolsonaronao 



domingo, 30 de setembro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA, O POETA DA SÁTIRA DIANTE DA RELIGIÃO


“Gregório é um religioso real, distante de figuras impostadas e renunciantes dos prazeres”

Gregório de Matos Guerra, uma vez inserido num mundo dividido entre profano e religioso, temos que estas duas dimensões do homem tipicamente barroco estão interligadas, não são duas faculdades poéticas estanques, pois Gregório leva de seus pecados justamente o móvel para a religião, como uma forma de contrição, de seu desvario ele se volta logo após a seu espírito, uma vez no gozo pleno da existência carnal, ele tem exatamente a partir deste ponto sua inflexão espiritual, como num ir e vir que busca equilibrar-se entre demandas que poderiam ser contraditórias, mas que em Gregório se complementam e fazem a dicotomia de sua poesia, mesmo que duas frentes, a imagem de um homem complexamente integrado, inteiro, pois ele precisa tanto do profano como do aspecto religioso para construir-se como poeta e como humano.
A sátira aparece então em Gregório como um dos impulsos em que a religiosidade conventual, por exemplo, aparece em perspectiva caricatural, a crítica mordaz também faz parte, portanto, da complexa religiosidade de que a poesia de Gregório se alimenta, o que não constitui heresia, contudo, mas uma poesia que lê com fidelidade a catequese mas que não se furta de apontar e pintar costumes que podem se degenerar e se tornar um pastiche.
Na figura do campesino, por sua vez, temos uma poesia de fuga em que Gregório se afasta de um mundo atribulado de injustiças e tiranias, em que o mundano é deixado para trás e temos uma pequena morte simbólica em que o idílio pode ser um simulacro da eternidade, e que no prazer que suscita pode ser a verdadeira vida, a beleza de que sempre fala toda poesia.
Seguindo na análise dos temas da poesia de Gregório, temos, adiante, a sua poesia amorosa, parte de sua poesia profana, carnal, em que desponta um poeta muitas vezes pornográfico, bem distante da imagem cristalizada do poeta romântico que surgirá no século XIX, da mulher ideal, etérea e, portanto, irreal, até mesmo sem nome, abstrata, mitológica e vazia. O que temos na poesia de Gregório é o amor carnal e bem real, mais afeito ao corpo e seus encantos do que a um estro evanescente e dorido de poetas imaginosos e de pouca sedução carnal, o amor em Gregório tem carga biográfica e se nutre de nomes reais, em que importa a conquista e em que a lírica é pragmática e não melosa, temos um Gregório que cita Custódia, Brites, Martha de Jesus, Babu, Moralva, Joana Gafeira, etc.
É a partir de um estro amoroso carnal que temos a produção contrita, de outro lado, de sua poesia religiosa. Gregório é um religioso real, distante de figuras impostadas e renunciantes dos prazeres, ele é humano, portanto, une em um único espírito o profano e o religioso e assim é um ser inteiro, autêntico e mais real do que se ficasse num extremo ou no outro, como um ser incompleto. A lírica entre estes dois mundos produz angústia também no poeta, mas é a isto que eu chamo de uma experiência poética e vivencial completa e plena, o destino de um poeta que sempre se quis amplo, sem amarras.

POEMAS :

AO MESMO [SANTO ANTÔNIO] QUE LHE DERAM A GLOZAR./MOTE/Bêbado está Santo Antônio : O poema retrata um santo bêbado, e o humor de Gregório aqui desponta luminoso, no que temos : “Entrou um bêbado um dia/pelo templo sacrossanto/do nosso Português Santo,” (...) “a gente, que ali assistia,/cuidando, tinha o demônio,” (...) “gritando-lhe todos, tá,/tem mão, olha, que acolá,/Bêbado, está Santo Antônio.”. A coda genial encerra um poema direto e sem meneios, pois.

A CERTO SUGEYTO DE SUPPOSIÇÃO, QUE TENDO-SE RETIRADO DA CÔRTE E VIVIA NA SOLEDADE DE HUMA QUINTA MANDOU AO POETA A SEGUINTE DÉCIMA. : O poema faz troça da corte, e rascante canta o gozo pleno dos sentidos, no que temos : “Goze a Corte o ambicioso/de aplausos, e vaidades,/que eu cá nestas soledades/o melhor descanso gozo :” (...) “que o melhor estado, cuido,/é aquele, em que o descuido/vem a ser todo o cuidado.”. O cuidado que do ócio é pleno de prazer, aqui é poesia, sátira e existência pessoal em seu gozo.

TERCEYRA VEZ IMPACIENTE MUDA O POETA O SEU SONETO NA FORMA SEGUINTE. : O poema retrata o feminino aqui, o canto poético se volta aqui ao efêmero, em que a beleza da mocidade decai com o tempo, no que temos : “Discreta, e formosíssima Maria,/Enquanto estamos vendo claramente/Na vossa ardente vista o sol ardente,/E na rosada face a Aurora fria :”. A decadência do corpo aqui é o frio, imagem poética que vem nos lembrar do tempo do corpo, e a luta da poesia por preservar o viço, no que vem : “Gozai, gozai da flor da formosura,/Antes que o frio da madura idade/Tronco deixe despido, o que é verdura./Que passado o zenith da mocidade,/Sem a noite encontrar da sepultura,/É cada dia ocaso da beldade.”

PONDERA QUE OS DESDENS SEGUEM SEMPRE COMO SOMBRAS O SOL DA FORMOSURA. : A formosura, tema caro ao poeta Gregório, aqui aparece em Babu, e ele teme e deseja ao mesmo tempo, podendo ser um dilema poético entre desgraça e ventura, no que temos : “Cada dia vos cresce a formosura,/Babu, e tanto cresce, que me embaça,/Se cresce contra mim, alta desgraça,/Se cresce para mim, alta ventura.”. O poeta nos dá então mais uma vez esta luta poética por manter firme o que passa como brilho efêmero, no que vem : “Tal rosto se não mude, antes se faça/Mais firme do que a minha desventura./De que pode servir, seres mais bela,/Ver-vos mais soberana, e desdenhosa?/Dai ao demo a beleza, que atropela,/Bendita seja a feia, e a ranhosa,/Que roga, que suspira, e se desvela/Por dar-se toda a troco de uma prosa.”. E a fealdade, diante do desdém do que tem beleza, é a saída do poeta que não se furta a sua aventura carnal e poética, esta que se dá a troco de uma prosa, por fim.

QUIZ O POETA EMBARCAR-SE PARA A CIDADE E ANTECIPANDO A NOTÍCIA À SUA SENHORA, LHE VIO HUMAS DERRETIDAS MOSTRAS DE SENTIMENTO EM VERDADEYRAS LAGRYMAS DE AMOR. : Temos o poeta aqui quente, o ardor queima, e o estro é repleto de desejo, no que temos : “Ardor em coração firme nascido!/Pranto por belos olhos derramado!” (...) “Tu, que um peito abrasas escondido,/Tu, que em um rosto corres desatado,/Quando fogo em cristais aprisionado,/Quando cristal em chamas derretido.”. A imagem poética é potente, mas tenta se equilibrar, por fim, no frio, no que vem : “Mas ai! que andou Amor em ti prudente./Pois para temperar a tirania,/Como quis, que aqui fosse a neve ardente,/Permitiu, parecesse a chama fria.”

AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO. : O poema desata e canta e vai na corrente e já vê a cor mudada, no que temos : “Corrente, que do peito desatada/Sois por dois belos olhos despedida,/E por carmim correndo desmedida/Deixais o ser, levais a cor mudada.”. Aqui agora prata e rubi enchem o poema de brilho, no que vem : “Essa enchente gentil de prata fina,/Que de rubi por conchas se dilata,/Faz troca tão diversa, e peregrina,/Que no objeto, que mostra, e que retrata,/Mesclando a cor purpúrea, e cristalina,/Não sei, quando é rubi, ou quando é prata.”

AO MESMO ASSUMPTO : O poema aqui tem o tema da formosura, que enche a poesia de Gregório, e esta se associa ao natural e à pintura, no que temos : “Debuxo singular, bela pintura,/Adonde a Arte hoje imita a Natureza,/A quem emprestou cores a Beleza,/A quem infundiu alma a Formosura.” (...) “Pois ou bem sem engano, ou bem fingida/No rigor da verdade estás pintada,/No rigor da aparência estás com vida.”. A vida que se junta à aparência, tenta dar rigor à beleza, e a arte aqui é este senso de que o poeta canta a formosura, aqui tanto o feminino como a própria poesia.

CHORA O POETA A MORTE DE HUM SEO FILHO, CUJO PEZAR DEO MOTIVO A PRIMEYRA OBRA SACRA DESTE LIVRO. : O poema pesaroso é um luto da pior monta, o poeta que lamenta a morte de seu filho, no que temos : “Querido Filho meu, ditoso esprito,/Que do corpo as prisões tens desatado,/E por viver no Céu tão descansado,/Me deixaste na terra tão aflito./Tu mais do que teu Pai és erudito,/Muito mais douto, e mais experimentado,/Pois por ser Anjo em Deus predestinado/Deixaste de homem ser talvez precito.” (...) “Que muito, ó Filho, flor de um pau tão bronco/Que acabe a flor na dócil infância,/E que acabando a flor, dure inda o tronco.”. E o poeta canta o filho que se acabou na flor da infância, mais douto que o poeta que lamenta.

MORALIZA O POETA NOS OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO MUNDO. : Aqui o poeta luta novamente contra o mundo do efêmero, num sol que não dura mais que um dia, da luz que dá lugar à noite, em que a formosura se desmancha com as agruras do tempo, no que temos : “Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,/Depois da Luz se segue a noite escura,/Em tristes sombras morre a formosura,/Em contínuas tristezas a alegria.”. Alegria e tristeza também dão nome a esta angústia do efêmero, em que a vida brilha e depois acaba, luz e sombra compondo um cenário de prazer e dor, no que vem : “Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,/Na formosura não se dê constância,/E na alegria sinta-se tristeza./Começa o mundo enfim pela ignorância,/E tem qualquer dos bens por natureza/A firmeza somente na inconstância.”

CONTINUA O POETA EM LOUVAR A SOLEDADE VITUPERANDO A CORTE. : O poema quer se desvencilhar deste mundo da corte, quer a bem-aventurança de um ditoso longe das demandas vis, em que reina o roubo, a injustiça e a tirania, no que temos : “Ditoso aquele, e bem-aventurado,/Que longe, e apartado das demandas/Não vê nos tribunais as apelandas,/Que à vida dão fastio, e dão enfado.” (...) “Se estando eu lá na Corte tão seguro/Do néscio impertinente, que porfia,/A deixei por um mal, que era futuro;/Como estaria vendo na Bahia,/Que das Cortes do mundo é vil monturo,/O roubo, a injustiça, a tirania.”. A Bahia aqui aparece ao poeta como lugar decadente, e sua sátira julga a corte em seu vil monturo, por fim.

POEMAS :

AO MESMO [SANTO ANTÔNIO] QUE LHE DERAM A GLOZAR.

MOTE

Bêbado está Santo Antônio

Entrou um bêbado um dia
pelo templo sacrossanto
do nosso Português Santo,
e para o Santo investia :
a gente, que ali assistia,
cuidando, tinha o demônio,
lhe acudiu a tempo idôneo,
gritando-lhe todos, tá,
tem mão, olha, que acolá,
Bêbado, está Santo Antônio.


A CERTO SUGEYTO DE SUPPOSIÇÃO, QUE TENDO-SE RETIRADO DA CÔRTE E VIVIA NA SOLEDADE DE HUMA QUINTA MANDOU AO POETA A SEGUINTE DÉCIMA.

Goze a Corte o ambicioso
de aplausos, e vaidades,
que eu cá nestas soledades
o melhor descanso gozo :
aqui vivo cuidadoso
de descuidos, e este estado
julgo bem-aventurado,
que o melhor estado, cuido,
é aquele, em que o descuido
vem a ser todo o cuidado.

TERCEYRA VEZ IMPACIENTE MUDA O POETA O SEU SONETO NA FORMA SEGUINTE.

Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo claramente
Na vossa ardente vista o sol ardente,
E na rosada face a Aurora fria :

Enquanto pois produz, enquanto cria
Essa esfera gentil, mina excelente
No cabelo o metal mais reluzente,
E na boca a mais fina pedraria :

Gozai, gozai da flor da formosura,
Antes que o frio da madura idade
Tronco deixe despido, o que é verdura.

Que passado o zenith da mocidade,
Sem a noite encontrar da sepultura,
É cada dia ocaso da beldade.

PONDERA QUE OS DESDENS SEGUEM SEMPRE COMO SOMBRAS O SOL DA FORMOSURA.

Cada dia vos cresce a formosura,
Babu, e tanto cresce, que me embaça,
Se cresce contra mim, alta desgraça,
Se cresce para mim, alta ventura.

Se cresce por chegar-me à mor loucura,
Para seres mais dura, e mais escassa,
Tal rosto se não mude, antes se faça
Mais firme do que a minha desventura.

De que pode servir, seres mais bela,
Ver-vos mais soberana, e desdenhosa?
Dai ao demo a beleza, que atropela,

Bendita seja a feia, e a ranhosa,
Que roga, que suspira, e se desvela
Por dar-se toda a troco de uma prosa.

QUIZ O POETA EMBARCAR-SE PARA A CIDADE E ANTECIPANDO A NOTÍCIA À SUA SENHORA, LHE VIO HUMAS DERRETIDAS MOSTRAS DE SENTIMENTO EM VERDADEYRAS LAGRYMAS DE AMOR.

Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que um peito abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.

AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO.

Corrente, que do peito desatada
Sois por dois belos olhos despedida,
E por carmim correndo desmedida
Deixais o ser, levais a cor mudada.

Não sei, quando caís precipitada
As flores, que regais tão parecida,
Se sois neves por rosa derretida,
Ou se a rosa por neve desfolhada.

Essa enchente gentil de prata fina,
Que de rubi por conchas se dilata,
Faz troca tão diversa, e peregrina,

Que no objeto, que mostra, e que retrata,
Mesclando a cor purpúrea, e cristalina,
Não sei, quando é rubi, ou quando é prata.

AO MESMO ASSUMPTO

Debuxo singular, bela pintura,
Adonde a Arte hoje imita a Natureza,
A quem emprestou cores a Beleza,
A quem infundiu alma a Formosura.

Esfera breve : aonde por ventura
O Amor, com assombro, e com fineza
Reduz incompreensível gentileza,
E em pouca sombra, muita luz apura.

Que encanto é este tal, que equivocada
Deixa toda a atenção mais advertida
Nessa cópia à Beleza consagrada?

Pois ou bem sem engano, ou bem fingida
No rigor da verdade estás pintada,
No rigor da aparência estás com vida.

CHORA O POETA A MORTE DE HUM SEO FILHO, CUJO PEZAR DEO MOTIVO A PRIMEYRA OBRA SACRA DESTE LIVRO.

Querido Filho meu, ditoso esprito,
Que do corpo as prisões tens desatado,
E por viver no Céu tão descansado,
Me deixaste na terra tão aflito.

Tu mais do que teu Pai és erudito,
Muito mais douto, e mais experimentado,
Pois por ser Anjo em Deus predestinado
Deixaste de homem ser talvez precito.

Se de achaque de um Sol, do mal de um dia
Entre um doce suspiro, e brando ronco
De toda a flor acaba a louçania :

Que muito, ó Filho, flor de um pau tão bronco
Que acabe a flor na dócil infância,
E que acabando a flor, dure inda o tronco.

MORALIZA O POETA NOS OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO MUNDO.

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

CONTINUA O POETA EM LOUVAR A SOLEDADE VITUPERANDO A CORTE.

Ditoso aquele, e bem-aventurado,
Que longe, e apartado das demandas
Não vê nos tribunais as apelandas,
Que à vida dão fastio, e dão enfado.

Ditoso, quem povoa o despovoado,
E dormindo o seu sono entre as Holandas
Acorda ao doce som, e às vozes brandas
Do tenro passarinho enamorado.

Se estando eu lá na Corte tão seguro
Do néscio impertinente, que porfia,
A deixei por um mal, que era futuro;

Como estaria vendo na Bahia,
Que das Cortes do mundo é vil monturo,
O roubo, a injustiça, a tirania.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-o-poeta-da-satira-diante-da-religiao