O vate debulha seu prato
como uma papa inca
que absorve o ar seco
que brilha no cerro,
o bardo canta tal trova
que rutila entre
as cervejas
de barris,
Quem és, poeta?
tu que vai de celeste
a capiau
como uma roda
que oscila
entre o erudito
e o pueril,
no vinho que
lhe toma.
O vate entorna o chá,
o bardo comemora com levedura,
e o poeta se embriaga
de um vinho caro
que a vinícola
lhe deu
de súbito
depois de sua
declamação.
28/02/2018 Gustavo Bastos
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
MATA RASTEIRA
Elenco de meus haustos
roufenhos,
delira a planta mágica
como um frio mármore
que da estatuária
se esmera,
oh rito sarcasmo e orgasmo,
rótulo dos sóis que
brilham nas cervejas,
labirinto de minotauro
com os livros armados
dos corpos que giram,
girândolas de fogo
que o topázio aquece,
lembra-me de que o teor do alcatrão
vai em tudo nos dias enfumaçados,
lembra-me da erva mate de coca
que tomo após um banquete
em que se mataria uma lhama
no grande imenso
semi-deserto
de capim.
28/02/2018 Gustavo Bastos
roufenhos,
delira a planta mágica
como um frio mármore
que da estatuária
se esmera,
oh rito sarcasmo e orgasmo,
rótulo dos sóis que
brilham nas cervejas,
labirinto de minotauro
com os livros armados
dos corpos que giram,
girândolas de fogo
que o topázio aquece,
lembra-me de que o teor do alcatrão
vai em tudo nos dias enfumaçados,
lembra-me da erva mate de coca
que tomo após um banquete
em que se mataria uma lhama
no grande imenso
semi-deserto
de capim.
28/02/2018 Gustavo Bastos
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Poesia
OBRAS PÓSTUMAS
Na gaveta, como um gato preto
quieto em vertigem,
mora a filosofia paupérrima
que guardei,
as chaves destes segredos
soçobram com o caos matutino
e o odor forte de café,
acendo a minha lâmpada,
vejo fotos falsas
de poetas,
poemas rotos de
fotógrafos,
e um livro que ficou
todo bolor.
Eu era o velho e o mar
e a cidade dos poetas
como um bom cavalo
nas corridas suicidas,
o poema se jogou neste mar bravio,
o poeta se matou com a dor vermelha
das flores da literatura,
na gaveta, por sua vez,
um arqueólogo achou
um livro póstumo
e sem título.
28/02/2018 Gustavo Bastos
quieto em vertigem,
mora a filosofia paupérrima
que guardei,
as chaves destes segredos
soçobram com o caos matutino
e o odor forte de café,
acendo a minha lâmpada,
vejo fotos falsas
de poetas,
poemas rotos de
fotógrafos,
e um livro que ficou
todo bolor.
Eu era o velho e o mar
e a cidade dos poetas
como um bom cavalo
nas corridas suicidas,
o poema se jogou neste mar bravio,
o poeta se matou com a dor vermelha
das flores da literatura,
na gaveta, por sua vez,
um arqueólogo achou
um livro póstumo
e sem título.
28/02/2018 Gustavo Bastos
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PROMESSAS ESTELARES
E por mais que a raiva tente,
por mais que a desdita murmure,
estou aqui, pálido e imóvel,
como me preparando
para um grito gutural
e profundo.
Este poema, como a flor da noite
ao luar do plenilúnio,
quer a si mesmo
em todo este cuidado
das horas,
a dor que sussurra antecipa
este grito primal das coisas
fundamentais,
o amor sutilíssimo das formas
harmônicas um dia sucederá
irreais platitudes utópicas,
pois no sim e no não do poema,
as estrelas caem como cometas
nas letras em que delira
a paixão.
28/02/2018 Gustavo Bastos
por mais que a desdita murmure,
estou aqui, pálido e imóvel,
como me preparando
para um grito gutural
e profundo.
Este poema, como a flor da noite
ao luar do plenilúnio,
quer a si mesmo
em todo este cuidado
das horas,
a dor que sussurra antecipa
este grito primal das coisas
fundamentais,
o amor sutilíssimo das formas
harmônicas um dia sucederá
irreais platitudes utópicas,
pois no sim e no não do poema,
as estrelas caem como cometas
nas letras em que delira
a paixão.
28/02/2018 Gustavo Bastos
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
SOBRE UM PESADELO
“nos meus oito ou nove anos de idade, eu tinha obsessão pelos
diferentes nomes dados ao tinhoso”
Quando eu era criança, tinha pesadelos. Uma vez bem marcante,
foi quando eu sonhei que tinha sido preso por matar o homem do cabelo branco do
Jornal Nacional (depois me disseram seu nome: era o Cid Moreira). E, no pesadelo, na cela em que eu estava
preso, lá estava a figura de Freddy Krueger, com suas unhas de aço, me
perseguindo naquele pesadelo. O filme se tornara realidade, eu estava no filme,
igual ao filme, quando Freddy vem te pegar nos sonhos, no caso, um pesadelo.
Lembro que, na noite antes de dormir, ou nas noites
anteriores, se não me engano, estava obcecado por uma figurinha que tinha o
Diabo de um velho álbum do qual eu só tinha algumas figurinhas e não o álbum em
si, de nome Impacto, que uma amiga minha tinha me passado. Lembro que, nos meus
oito ou nove anos de idade, eu tinha obsessão pelos diferentes nomes dados ao
tinhoso. Decorava todas as denominações com o signo Diabo possíveis. Cramulhão,
pé-de-bode, tinhoso, capeta, diabo, satanás, demônio, lúcifer, etc.
Sei que, antes de dormir, fiquei visualizando a figurinha do
Diabo e morria de medo, eu tinha gosto por filmes de terror, teve uma vez que
tinha acordado com terror noturno de madrugada, pois estava sendo atacado por
um lobisomem. Desta vez, na manhã seguinte, eu não me lembrava, quem me falou
foi meu padrasto. Mas, voltando, me alimentei muito dos filmes do Freddy e do
Jason, dentre outros, e até de umas revistas que vendiam na época, as histórias
reais de lobisomem e as histórias reais de vampiro.
Então, foi que Freddy me pegou, e fiquei tão fascinado com
este pesadelo, que falei para toda a minha família. Talvez, este sonho tenha
sido o mais marcante da minha vida, logo um pesadelo com as marcas de todos os
pesadelos, Freddy Krueger. E eu ainda era um assassino preso por ter matado o
âncora do Jornal Nacional. Muito curiosa, tal trama.
Como o Freddy foi parar na cela para me perseguir? Só Deus
sabe, ou todos os nomes que colecionava de diabos para me divertir. O medo é um
prazer mórbido infantil, ao menos na minha infância, pois o terror tinha um
papel importantíssimo nos meus exercícios de medo.
Penso que o medo, através do terror, e a simbologia do mal,
tudo é fascinante na cabeça infantil, flertar com o medo nos educa para lidar
com o inconsciente desde cedo. Freddy Krueger não conseguiu me pegar no sonho,
só lembro da imagem dele rindo, com as unhas de fora, numa sombra lateral da
cela em que eu estava enfurnado por ser um assassino. Tinha matado o Cid
Moreira, meu Deus!
O medo, dizem, é um tipo de demônio. Ouvi isto, uma vez, em
uma das pregações cristãs que via na TV, há uns tempos atrás. Logo, Freddy Krueger
era o demônio do medo no meu pesadelo de criança. Mas, o medo nos impede de
fazer coisas temerárias, o medo tanto educa para não nos machucarmos, como
também é o demônio, o cramulhão, o pé-de-bode, o tinhoso, o lúcifer, o Mal
metafísico da morte.
O medo é este que também nos dá a chave da sobrevivência e
nos dá a morte como ameaça. A morte foi representada por Freddy Krueger naquele
pesadelo, no filme ele representa a morte real de forma onírica, e talvez seja
a maior das fantasias oníricas : o momento da morte de cada um.
O medo como um tipo de demônio? Boa perspectiva para pensar o
medo. O pregador diz para não termos medo. Mas, como não se deliciar com o
sofrimento do medo, ainda mais quando se é criança, e uma criança que amava
filmes de terror? Então, o que eu fazia, quando era criança, ao colecionar
todos os nomes de diabo possíveis, era nada mais que uma coleção de medos. Tentar
ver a morte de perto, os medos como demônios.
Então, na minha visualização do próprio Diabo, numa reles
figurinha da Impacto, antes de dormir, para ter meu encontro com Freddy Krueger,
eu também me tornei outro demônio macabro, que tinha matado o Cid Moreira. Para saber das coisas do medo, não se pode
ter medo, agora entendi a pregação cristã de outro dia. O medo é um tipo de
demônio.
Encarando por esta linha, não podemos cair na tentação do
medo. Desafiar o medo era tentar não ter medo. Ver filmes de terror com a
imaginação fértil também é tentar vencer o medo, tentar não cair na armadilha
dos diabos que moram na gente. O medo é um tipo de demônio. Freddy Krueger?
Jung explica. Coisas de criança.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37740/14/sobre-um-pesadelo
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Crônica Século Diário
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT – PARTE II
AUGUSTO FREDERICO
SCHMIDT E SUA LÍRICA
“a lírica schmidtiana tem palavras que se repetem como o mar,
a flor, o pássaro e a noite”
Schmidt teve uma vida acidentada, abandonou a escola antes de
terminar o secundário, órfão aos 16 anos, logo entrou na vida de trabalho duro
como vendedor, caixeiro-viajante e empregado de serraria, sendo então, depois,
dono de editora, lançando autores como Graciliano Ramos e Vinícius de Moraes, e
ainda atuou como empresário e na vida política.
A obra poética de Schmidt, poeta que escreveu cerca de 700
poemas em sua vida, é um trabalho literário de tom declamatório, lírico, com
certo profetismo, num ritmo vagaroso e que envolvia o leitor, com repetições
sonoras, de palavras e de frases. Schmidt toma o tema da morte para si e produz
uma poesia grave, confessional, sentimental, e que será então a poesia do autor
aqui não apenas de uma repetição formal como também temática.
Quanto às imagens, a lírica schmidtiana tem palavras que se
repetem como o mar, a flor, o pássaro e a noite, cujas ressonâncias são da
tradição lírica da poesia como um todo, fundando aqui o poeta uma poesia
natural e lírica, e que fará a ligação destas imagens-símbolo citadas com temas
universais como o próprio Homem, o amor, a angústia existencial, e por fim
desencadeando o tema central da poesia de Schmidt que será o da morte,
eclodindo então o tema bíblico, sob influência da poesia de Paul Claudel e
sobretudo da poesia de Charles Péguy.
POEMAS :
PÁSSARO CEGO (1930)
PÁSSARO CEGO : O poeta aqui já cai num mundo
espiritual dorido, próprio ao poeta profundamente
lírico que é, no que vem : “Sinto
clamar em mim vozes tristes, chorando./Sinto gritar em mim longos martírios/Que
não sofri.” (...) “Minha poesia é um pouco da queixa de homens errantes,/De
homens sem lar e sem repouso.”. O poeta é um errante, mais do que um flâneur,
que faz passeio e é feliz, o poeta é um errante aqui no sentido precípuo de
desorientação, de perdição e que tem fuga na poesia lírica, no que segue : “Trago
comigo a desolação da pátria abandonada/E a revolta de mil incompreensões e
injustiças sofridas./Mas há em mim um infinito desejo de pacificação :” (...) “Sou
como um pássaro cego voando na eterna escuridão./No entanto a escuridão está em
mim somente./Sei que fora de mim há um clima diferente,/Sei que há céu azul,
supremas claridades,/E que as trevas estão nos meus olhos apenas.”. O poeta
junta aqui a lírica esperançosa de um pássaro que logo se desfaz, pois é um
pássaro cego, perdido na escuridão, mas como pássaro que é, canta ainda um
certo céu azul que o poeta aqui tem por intuição e luz possível depois da
tormenta.
PROFECIA I : O poeta aqui tem em seu estro o tom
visionário próprio aos místicos, mas que ganha aqui tom religioso de
profetismo, do fim do mundo e que tais, longe de um simbolismo de Blake, mais
para um poeta religioso como Charles Péguy, no que segue : “Como o pássaro
triste que anuncia a tempestade/Quero também, Senhor, chorar o triste momento,/O
terrível momento que pressinto vir chegando!/A tempestade vem crescendo de
longe/E cairá violenta sobre as nossas cabeças.” (...) “Tivesse eu mil braços e
sacudiria todos eles,/Sacudiria os homens que estão distraídos e ausentes,/Os
homens que não escutam e não querem escutar,/Os homens perdidos e desviados,
amaldiçoados e loucos.”. Se no poema pássaro cego é o poeta que está perdido,
aqui em profecia ele quer ser o guia dos cegos, um poeta apocalíptico e que
conclama o povaréu a se prevenir do evento total que certo que vem, segundo o
poeta, no que segue : “Avisarei a todos para que se previnam/E estejam tementes
e atentos, porque grandes coisas,/Grandes e violentas, estão para chegar dentro
em pouco.” (...) “As casas tremerão nas bases, os edifícios enormes/Que se
erguem vaidosos para o céu alto/Ruirão apavorando os homens desprevenidos.”. Um
terremoto, parece, vai eclodir, e o poema segue, em seu drama espiritual e
poético, no que temos : “Nos palácios, os ricos – senhores absolutos do mundo –/Tremerão
mais do que os servos humildes achados em falta/Os homens formarão massas,
unidos para o grande fim.” (...) “O Senhor me mandou avisar, mandou porque me
feriu/Sem que eu visse como, e me fez olhar/As coisas tremendas que ainda não
se realizaram.”. As coisas grandiosas já são anunciadas, e o poeta logo ganha
este estro religioso, a ideia de falta lhe aflige os nervos, e ele como profeta
nos aponta a saída, a justiça dos eleitos, estes que logo estarão no seio
divino, no que o poema faz sua pregação final : “Escutai, pois! E orai para
serdes justos./Aos justos o Senhor abrigará no seu seio!” (...) “Rasgai como eu
todas as vossas vestes/E ajudai com as vossas vozes a minha voz,/Para que nem
um só homem fique desprevenido/Dos momentos terríveis que estão para chegar.”
PROFECIA II : Aqui mais um poema religioso, mais
do que visionário, um poema de religião e ecos bíblicos de um pastor que delira
o fim, no que temos :“É tarde para contemplares a beleza dos céus./É tarde para
sentires o perfume das flores./É tarde para te embriagares com as paisagens,/Porque
o tempo passou e toda a beleza é inútil.” (...) “Tens uma missão a cumprir e
foi o Senhor que te escolheu./Deixa, pois, bem distante de ti toda a poesia:”.
A poesia se afasta, pois aqui temos o missionário, no que segue o poema, com
ardor : “Espalha a notícia da tempestade avassaladora/Que se levantou muito
longe e caminha segura/Para, em breve, envolver todas as coisas.”. A visão do
fim, o delírio do castigo logo vem, pois, no que segue : “Teu castigo será o maior dos castigos, porque
estás marcado/E o Senhor te confiou uma missão terrível e triste.” (...) “Tua
voz terá a nitidez dos clarins estridentes./Deves evitar que a perturbem os
sons mais suaves,/Porque vens para ferir o coração dos homens/E a música
adormece os corações pecadores.”. O pecado aqui, mais uma vez, para um
religioso, é o que deve ser combatido, no que segue o peso do mundo que tenta
guiar o destino universal de todos os humanos, no que temos o drama espiritual
aqui como poema religioso e missionário, que logo tem uma sina de deixar a
volúpia do corpo e tentar despertar os dons do Espírito, que aqui é um poema
como uma pregação religiosa de pureza e que nos diz que o mundo é inútil, no
que temos, por fim : “Sobre os teus ombros, tão fracos, pesam infinitos
destinos –/Destinos de homens que são teus irmãos.” (...) “Fortifica bem o teu
espírito atormentado,/Tira da tua fraqueza o teu grande heroísmo./Abandona toda
a poesia do mundo, que é inútil –/Pois a beleza distrai os homens e os diminui./Deixa
teu corpo fechado para todas as volúpias./Que a noite abandone o teu corpo
cansado,/Porque o teu papel é maior do que tu mesmo – e o precisas/cumprir!”
SONETOS IV : O soneto tem uma temática simples,
uma memória cara ao poeta, no que segue : “Noites, estranhas noites, doces
noites!/A grande rua, lampiões distantes,/Cães latindo bem longe, muito longe.”
(...) “Vozes falando, velhas vozes conhecidas./A grande casa; o tanque em que
uma cobra,/Enrolada na bica, um dia apareceu.”. Aqui temos um poema cotidiano,
descritivo, calmo, com sua lembrança prosaica de uma inconsciência feliz, antes
do poeta grave que se tornaria Schmidt, no que temos : “As grades do jardim. Os
canteiros, as flores./A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz./Tudo
passou. Estão mudas as vozes para sempre./A casa é outra já, são outros os
canteiros e as flores/Só eu sou o mesmo, ainda : não mudei!”. O poeta aqui não
mudou, mas sua doce descrição de uma felicidade de um mundo com frescor, como
ele nos mostra, é de um mundo que já não existe mais.
PRESSÁGIO : O poeta acorda de um pesadelo em que
tinha visto sua musa morta, e o poeta aqui acorda angustiado, atônito, no que
temos : “Sonhei que não estavas mais :/Que sonho horrível!/Sonhei que tinhas
partido,/Sonhei que estavas dormindo/O Grande Sono/E que o meu choro,/E que os
meus gritos,/Não te poderiam mais acordar./Sonhei que estavas morta!/No entanto
estavas esquecida, há muito/Estavas ausente./Estavas na minha lembrança, imóvel/Porque
a vida te separou de mim./No entanto a ilusão de que tinhas partido/Te acordou
de novo/No meu coração.”. A musa já partiu, no entanto, e o poeta aqui é um
tonto que ainda nutre esperanças vãs de retorno, no que segue : “Só porque
sonhei que não estavas mais/O meu amor voltou num instante :” (...) “No entanto
estavas perdida,/Estavas perdida no fundo do meu cansado coração./Agora/Meu
coração está cheio de presságios :/Quem partiu fui eu!/Em breve minha memória
ficará gelada/E a calma infinita me sepultará.”. E vai aqui seu coração de poeta
à sepultura, sem mais.
DESAPARIÇÃO DA AMADA
(1931)
DESAPARIÇÃO DA AMADA : O tema da morte aqui é o eco
contínuo da poesia schmidtiana, que aqui se consuma como a suprema lírica da
musa desaparecida, no que segue : “Vem a noite caindo descendo a ladeira/Da
velha cidade aonde cheguei./Meus pés tão cansados só pedem parar!/Parar! Ah,
deixar-me ficar na cidade pequena onde estou!” (...) “A noite está fria./A
amada perdida jamais acharei/E fico chorando sentado nas lajes da rua tão
escura./A amada perdida meu tédio expulsava/Minha febre acalmava, cuidava de
mim.” (...) “Que vão desamparo! Ah, voltar à floresta e vê-la outra vez!/Caminhos
fechados que nunca abrirei.” (...) “Onde está? Que destino teve ela esta noite?”
(...) “A amada está morta.” (...) “Que estranhos rumores –/É o meu coração!”
(...) “Que tédio no mundo! Que dor sem igual!/Meu Deus, um consolo que ando
perdido/Chorando minha amada que um dia fugiu!”. E o poeta segue chorando seu
infortúnio, como um perdido que sucumbiu ao próprio coração.
POEMAS :
PÁSSARO CEGO (1930)
PÁSSARO CEGO
Sinto clamar em mim vozes tristes, chorando.
Sinto gritar em mim longos martírios
Que não sofri.
Sinto que sou a forma, o lamento, a expressão
De mil tormentos mudos abafados.
De mil tormentos sem voz.
Mil tormentos sem voz!
Minha poesia é um pouco da queixa de homens errantes,
De homens sem lar e sem repouso.
De homens que foram meus avós.
Deles herdei a angústia infinita,
Deles herdei o tédio de todas as paisagens,
A inquietação de todos os momentos.
Sou a última folha de uma árvore infeliz
Que o vento rude desprendeu.
Trago comigo a desolação da pátria abandonada
E a revolta de mil incompreensões e injustiças sofridas.
Mas há em mim um infinito desejo de pacificação :
O ódio de meus avós não está comigo,
Ficou apenas a indecisão
Ficou apenas a instabilidade.
Sou como um pássaro cego voando na eterna escuridão.
No entanto a escuridão está em mim somente.
Sei que fora de mim há um clima diferente,
Sei que há céu azul, supremas claridades,
E que as trevas estão nos meus olhos apenas.
PROFECIA
I
Como o pássaro triste que anuncia a tempestade
Quero também, Senhor, chorar o triste momento,
O terrível momento que pressinto vir chegando!
A tempestade vem crescendo de longe
E cairá violenta sobre as nossas cabeças.
Tivesse eu mil vozes e gritaria com todas elas,
Gritaria para avisar que o instante tremendo não demora.
Tivesse eu mil braços e sacudiria todos eles,
Sacudiria os homens que estão distraídos e ausentes,
Os homens que não escutam e não querem escutar,
Os homens perdidos e desviados, amaldiçoados e loucos.
Chegou o momento em que deixei de ter pejo,
Em que deixei de ter vergonha do meu desespero.
Avisarei a todos, amigos e inimigos, estranhos e
indiferentes,
A todos os que a minha voz fraca e apagada alcançar.
Avisarei a todos para que se previnam
E estejam tementes e atentos, porque grandes coisas,
Grandes e violentas, estão para chegar dentro em pouco.
Eu fui o escolhido para avisar, porque em mim,
No meu pobre eu dolorido e mesquinho,
A fraqueza é maior do que em todos os seres,
Porque sou o mais fraco e sensível dos homens.
Como a árvore débil e solitária vibra ao contato,
Ao contato mais longínquo, do vento, eu vibro também
Ante o tufão que já começou na distância
E de nós se aproxima horroroso e medonho.
As casas tremerão nas bases, os edifícios enormes
Que se erguem vaidosos para o céu alto
Ruirão apavorando os homens desprevenidos.
O sol mergulhará no espaço para, sempre,
O sol deixará de brilhar, generoso e magnífico,
Obedecendo às iras do Senhor agravado.
Os gemidos apenas ressoarão dentro da noite,
Dentro da noite que todas as estrelas abandonarão :
Serão gemidos de mães separadas dos filhos pequenos.
Nos palácios, os ricos – senhores absolutos do mundo –
Tremerão mais do que os servos humildes achados em falta
Os homens formarão massas, unidos para o grande fim.
O desassossego aos poucos silenciará todas as vozes,
Todas as vozes ficarão geladas diante do horror.
Eu estou aqui para avisar. Despi minhas vestes,
Abandonei as glórias do mundo, as doçuras do tempo,
Porque a verdade como um raio aclarou os meus olhos.
Dentro em pouco todos serão iguais na desdita.
Os mais fortes se ajoelharão ante os mais fracos.
Será tarde, porém, para a vida do mundo :
Os dias estarão acabados para o sempre.
Dentro em pouco os mais sãos e formosos
Procurarão os leprosos para abraçar.
O mar rugirá com violência medonha.
Só os mortos sorrirão, no fundo dos túmulos.
Porque a eles nada mais amedronta
E porque os vivos deles se esqueceram totalmente
E não honraram as suas memórias nem cumpriram as suas
promessas.
O Senhor me mandou avisar, mandou porque me feriu
Sem que eu visse como, e me fez olhar
As coisas tremendas que ainda não se realizaram.
O Senhor me mandou avisar, porque perdi inteiramente o pejo
De parecer mais temeroso do que os outros.
O Senhor me mandou avisar, porque meu coração secou para
a alegria.
Porque perdi o sorriso fácil de todos os outros,
Porque não corri diante do riso zombeteiro dos homens
Que ouviram os meus avisos dilacerantes e sinceros.
O Senhor me mandou avisar, porque me purifiquei
E esqueci a glória fácil que a vida oferece.
Escutai, pois! E orai para serdes justos.
Aos justos o Senhor abrigará no seu seio!
Abandonai vossas esposas, concubinas e filhas.
Deixai as festas que embriagam os sentidos
E enodoam a brancura das almas,
E ouvi meus gritos que rasgam os ouvidos :
Ouvi meus gritos pejados de horror!
Rasgai como eu todas as vossas vestes
E ajudai com as vossas vozes a minha voz,
Para que nem um só homem fique desprevenido
Dos momentos terríveis que estão para chegar.
II
É tarde para contemplares a beleza dos céus.
É tarde para sentires o perfume das flores.
É tarde para te embriagares com as paisagens,
Porque o tempo passou e toda a beleza é inútil.
Caminharás apenas para espalhares as verdades,
Não mais te poderá invadir a doçura das estradas
Com cigarras cantando nas tardes lentas e preguiçosas.
Tens uma missão a cumprir e foi o Senhor que te escolheu.
Deixa, pois, bem distante de ti toda a poesia:
Não te deixes embalar pela sua emoliente sedução,
A poesia enfraquece os corações e precisas ser forte.
Fortifica teu espírito diante das desgraças que se aproximam.
Pensa na maldição eterna que cairá sobre as cabeças,
Sobre todas as cabeças dos homens desprevenidos.
Espalha a notícia da tempestade avassaladora
Que se levantou muito longe e caminha segura
Para, em breve, envolver todas as coisas.
Faze com que todos estejam bem certos dos grandes
acontecimentos
Que se sucederão terrivelmente e que a tudo aniquilarão.
Que a verdade apenas saia dos teus lábios,
Porque não é mais tempo de cantares inutilmente
E toda a tua liberdade de viver não mais existe.
Fortifica teu espírito na austeridade das más novas.
E cuida de ti também, porque na verdade és capaz
De te distraíres com os outros e perder o temor –
Porque quem comunica o seu temor muitas vezes o perde.
É preciso usares de prudência para que teu coração
Não fique vazio como os dos homens que abandonaram o
Senhor.
O mar não foi feito para que o olhes assim :
Deixa que a lua espalhe a sua luz macia
Sobre as águas infinitas onde navios passeiam,
Deixa que as ondas solucem nas praias, desesperadas.
Tu tens a tua missão a cumprir e muito bem a conheces.
Abandona, pois, todas as seduções da beleza.
Teu castigo será o maior dos castigos, porque estás marcado
E o Senhor te confiou uma missão terrível e triste.
Vê como os cães perseguem a tua figura,
Latindo nos caminhos por onde passas apressado!
Os homens investirão mais violentos ainda contra ti,
Porque a tua missão é de terror e piedade.
Não fites com carinho as habitações perdidas
Longe das cidades, nem demores os teus olhos
Nas filhas do país – que te chamam com os olhos,
Com os olhos que prometem todas as felicidades terrenas.
Tua voz terá a nitidez dos clarins estridentes.
Deves evitar que a perturbem os sons mais suaves,
Porque vens para ferir o coração dos homens
E a música adormece os corações pecadores.
Longe de ti qualquer impureza porque foste o Escolhido.
Deixa que a brisa que agita os ramos das árvores
Te convide ao longo descanso dentro da noite calma :
Teu coração deve ser mais forte do que o aço,
Teu espírito deve abandonar todo interesse,
Teu corpo deve estar fechado para todas as fraquezas –
Porque tu és mais fraco do que todos os seres.
Em breve apenas o gelo final envolverá a face da terra
E o Senhor apenas aos justos abrigará.
Sobre os teus ombros, tão fracos, pesam infinitos destinos –
Destinos de homens que são teus irmãos.
Deixa que a noite convide o teu corpo cansado
Para a reparação justa dos sonos sem fim;
E não podes dormir mais na terra.
As horas que restam são poucas, bem poucas,
E a tua voz é mais fraca do que o canto,
Mais fraca do que a voz das aves noturnas, dos pássaros
tristes
de agouro,
Mais fraca do que o amor, tão débil, dos homens!
Se não obedeceres à escolha do Senhor, será melhor
Que os animais ferozes dividam teu corpo em pedaços,
Que o mar te atire de encontro aos rudes rochedos
E desabem sobre tua cabeça todas as desditas.
Fortifica bem o teu espírito atormentado,
Tira da tua fraqueza o teu grande heroísmo.
Abandona toda a poesia do mundo, que é inútil –
Pois a beleza distrai os homens e os diminui.
Deixa teu corpo fechado para todas as volúpias.
Que a noite abandone o teu corpo cansado,
Porque o teu papel é maior do que tu mesmo – e o precisas
cumprir!
SONETOS
IV
Noites, estranhas noites, doces noites!
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.
Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.
A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.
Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda : não mudei!
PRESSÁGIO
Sonhei que não estavas mais :
Que sonho horrível!
Sonhei que tinhas partido,
Sonhei que estavas dormindo
O Grande Sono
E que o meu choro,
E que os meus gritos,
Não te poderiam mais acordar.
Sonhei que estavas morta!
No entanto estavas esquecida, há muito
Estavas ausente.
Estavas na minha lembrança, imóvel
Porque a vida te separou de mim.
No entanto a ilusão de que tinhas partido
Te acordou de novo
No meu coração.
E viveste em mim violentamente.
Solucei a tua ausência, desesperado,
Os olhos dentro da noite sem fim :
Solucei como um náufrago na solidão das águas,
Solucei como um perdido a tua distância sem remédio.
Só porque sonhei que não estavas mais
O meu amor voltou num instante :
Lembrei teu corpo em flor, menina ainda ...
Lembrei os teus cabelos e os teus olhos ...
Chorando abracei tua imagem esquecida.
No entanto estavas perdida,
Estavas perdida no fundo do meu cansado coração.
Agora
Meu coração está cheio de presságios :
Quem partiu fui eu!
Em breve minha memória ficará gelada
E a calma infinita me sepultará.
DESAPARIÇÃO DA AMADA
(1931)
DESAPARIÇÃO DA AMADA
Vem a noite caindo descendo a ladeira
Da velha cidade aonde cheguei.
Meus pés tão cansados só pedem parar!
Parar! Ah, deixar-me ficar na cidade pequena onde estou!
A lua redonda é um furo no céu.
Que vaga tristeza n`antigas moradas.
A velha a uma janela um instante :
Olhei longamente suas mãos engelhadas.
Passaram correndo risadas de moças –
Ficarei? Quem sabe. A noite está fria.
A amada perdida jamais acharei
E fico chorando sentado nas lajes da rua tão escura.
A amada perdida meu tédio expulsava
Minha febre acalmava, cuidava de mim.
A amada perdida minha noiva e minha irmã
Tão pura e tão quente, tão doce e louçã.
Que vão desamparo! Ah, voltar à floresta e vê-la outra vez!
Caminhos fechados que nunca abrirei.
Caminhos fechados, quem é que os descobre?
No mar infinito minha amada se perde.
Seu corpo nadando nas águas do mar
Vai aos poucos fugindo dos olhos humanos,
Só o vento de leve batendo em meu rosto
Recorda as carícias das mãos de minha amada.
Onde está? Que destino teve ela esta noite?
Estrelas fugindo, buscai-a pra mim!
Ó Tempo fugindo, buscai-a pra mim!
Ó nuvens fugindo, buscai-a pra mim!
A amada está morta.
Destino bem rude bateu-lhe na porta,
Chamou-a com um gesto e pegou-a pla mão.
A amada está morta. Quem bate em tambores?
Que estranhos rumores –
É o meu coração!
Ó velha que a morte levou,
Cuidai de minha amada
Tão rara, tão linda, que o vento da morte –
Que fero destino – de mim separou!
Que tédio no mundo! Que dor sem igual!
Meu Deus, um consolo que ando perdido
Chorando minha amada que um dia fugiu!
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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Coluna da Século Diário,
Espaço Poesia Século Diário
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
CONTO CARNAVALESCO
“Qual é o sentido do carnaval para você?”
A festa de Momo me reserva surpresas, tenho uma amiga
fissurada, vai em todos os blocos, eu como cronista e outsider, gosto de
blocos, e sou torcedor do Império Serrano, acho as escolas tradicionais mais
românticas, ganho muito com esta visão que vai do mais pobre ao mais rico num
mesmo esbaldar que une todo mundo, nem que seja por uma semana.
Desde os mascarados de Veneza, quando tudo começou, até este
desenvolvimento de mercado que vai do Rio de Janeiro, em sua versão de
marchinhas e sambas-enredo, até a Bahia, Salvador, com seus trios gigantes, e isso
também falando de Pernambuco, o Brasil tem o melhor carnaval do mundo, e como
disse, tenho uma amiga fissurada em blocos, e disse ter conhecido o seu pirata
há dois anos atrás, ele estava com sua cerveja, ela com um sacolé de vodka, eu
como documentarista, me meti a besta numa dessas, e fui num bloco em que se
misturava rock e samba.
A história eu conto : comecei meu périplo pela manhã, tinha
um desfile de crianças fantasiadas, me lembrei que quando tinha seis anos me
fantasiei de Popeye, tinha uma latinha de espinafre que era na verdade um
punhado de cartas verdes picotadas, tinha o meu muque para dizer que eu era
pequeno, mas era fortão, meu irmão pequeno tinha ido de gugu, minha irmã mais
velha de Olívia, e meu pai de Brutus, minha mãe, por sua vez, foi com uma
fantasia própria que era uma espécie sui generis de pedrita.
A família era meio louca, ainda é, e me lembro de que tenho
cinco fotos deste dia no meu álbum da época em que estudava no Santo Agostinho
no Leblon, fui criado com liberdade, e registro uns curtas deste retorno dos
blocos, também tirei novas fotos, e bebo socialmente depois de registrar foto e
vídeo do que me interessa, um de meus curtas se intitulou “cachaça filosofal”,
em que eu entrevistava os foliões que estivessem mais bêbados para registrar a
relação do álcool com a loquacidade. (Já volto ao desfile das crianças e como
terminou este dia).
Posso citar de cabeça, neste mini doc filosófico, o “cachaça
filosofal”, tiradas existenciais etílicas de um humor rascante, como esse de
2015 de Plínio, um paulista que estava nos blocos nesta ocasião : Perguntei :
“Qual é o sentido do carnaval para você? Fale tudo o que vier à cabeça, por
favor.” No que Plínio, o folião e turista desandou a falar de diversão num tom
político, no que me disse : “A beleza é que rege tudo, me vejo aqui bem louco,
mas minha percepção não está perdida, como dizia Chico Science, eu bebo antes
do almoço pra ficar pensando melhor, cato uma danadinha com toda a educação,
não sou bruto, mas não gosto de pagar de foderão, meus amigos todos me respeitam,
como dizia Jorge Ben, e sempre tô bem na foto, isso vai para o seu
documentário? Ah, registra aí que sou dentista, que amo meu trabalho, e que
existe profissão para tudo, e que tem gente que tem curiosidade por arcada
dentária, como eu, que estudei pra cacete para poder viajar no carnaval com um
bom emprego que me garante a minha tranquilidade, bebo um tanto pois hoje sou
de Momo, o deus mais camarada da folia, o deus que joga ao lado de Baco, o
carnaval é minha luz, e o Rio de Janeiro continua lindo”.
Minha amiga, foliã profissional, se rolou de rir com este
primeiro depoimento que mostrei para ela, ela me disse que não sabia que tinha
dentista que era poeta e filósofo, ah, o nome dela é Cláudia, mora na Lapa,
vive trabalhando no circo e cuspindo fogo em eventos eletrônicos, gosta de
beber vodka com limão, conheci a Cláudia quando era criança, e ela às vezes me
indica uns points para gravar meus vídeos, ela é meio que minha olheira
particular para me apresentar figuras exóticas também para meus causos espetaculares,
o caso de Plínio, contudo, eu descobri sozinho, depois de ver que ele dançava
diferente no meio da folia, e pensei “este cara vai dar uma boa sacada,
certeza”, e não deu outra. A questão filosófica dele com Jorge Ben e Chico
Science é o resultado do encontro da cultura brasileira com o folião de rua,
que os intelectuais acham que são alienados, mas que são verdadeira matéria
antropológica e documental que eu aproveito como um maníaco nas minhas
produções fragmentárias e avant-garde.
E em 2016 a Cláudia me apresentou um figura que ela conhecia
e que este sim era filósofo e já tinha tomado birita a tarde toda, seu nome era
Omar, ele descendia de um pai libanês, vivia na pindaíba, e vendia bolo que ele
mesmo fazia por demanda, ele gostava de fazer bolo de coco e de laranja, já
tinha dado aulas particulares de filosofia, mas não se adaptou muito, pois
tinha a graduação na UERJ, mas nunca exerceu de fato nada ligado a magistério
ou na área, somente estas aulas particulares para três alunos que duraram um
único semestre.
Omar já tinha seus trinta anos, e pagava seu quitinete com
bolo que fazia com prazer, era um tanto caótico o lugar em que ele morava e
trabalhava, como me disse Cláudia, mas o cara era uma figura típica de um
documentário do Sr. Thompson, como me disse Cláudia, e fui encontrar tal figura
neste 2016 de fevereiro num bloco perto da Lapa, e me apresentei, no que ele me
disse que a Cláudia já tinha falado do “cineasta” para ela.
Entrevistei Omar rapidamente, com a mesma pergunta que fiz para
Plínio : ““Qual é o sentido do carnaval para você? Fale tudo o que vier à
cabeça, por favor.” No que ele desandou seu linguajar solto e muitas vezes
confuso, mas riquíssimo em imagens, no que ele me disse : “Cara, gosto de tudo,
liberdade, saca? Minha vitória é ter tudo sem precisar de nada, pois eu não
tenho nada, mas tenho tudo, que é liberdade. Essa história de ficar rico é pra
engravatado, porra, uma pá de doido não tem onde cair morto, saca, bicho? Eles
acham que é tudo vagabundo, mas é tudo livre, come bolo de laranja, velho, já
provou meu bolo? É bom pra tudo, e ainda acham que sou doido, eles é que tão
lutando por dinheiro, doido é eles, cara, tu é cineasta, né? A Cláudia me falou
de você, e tu é calmo, cara, eu sou nervoso, mato barata todo dia no meu
cafofo, já fiz caça a marimbondo, entoquei uma ratoeira na porta do meu cafofo,
bicho, o carnaval que você perguntou, né? Ah, só é da liberdade, muito louco,
sabe? Eu fiz filosofia achando que ia virar gênio, mas tô aqui fazendo bolo,
agora eu sou o gênio do bolo, e sim, amo carnaval, sou Mangueira doente!”.
Voltando ao desfile das crianças, este foi pela manhã, logo
ao meio-dia começou o esquenta em que tamborins soaram, e o diretor do bloco já
providenciou o carro que ficaria ali, com as caixas de som, as marchinhas
começaram, eu empunhei minha câmera de filmar, e fui buscar mais figuras para
um novo mini doc, no estilo fragmentário que não me consagrou, mas que tem
espaço nos cine clubes de camaradas que eu conheço e respeito, pois nada como
cineclubistas para cineastas libertários como eu que não são diretores de
cinema nem nada, apenas um curioso, cronista da vida urbana, e que agora
registrava tudo com uma câmera à mão e várias ideias na cabeça.
Eu certamente encontraria mais figuras exóticas e outras
normais, loucos, trabalhadores, bebedores, foliões, vendedores, carroceiros,
mulheres de diabinha, homens de pirata, um cara com um chuveiro, uma moça de
mulher-maravilha, um cara de hulk, outro cara fantasiado de bambu, uma mulher
fantasiada de trepadeira, um cara fantasiado de super-homem, uma mulher
fantasiada de fada, e eu registrando tudo, e novas histórias sendo contadas,
sem pressa, no caos potente deste nosso carnaval brasileiro.
Guilherme Thompson, cronista e outsider.
(pseudônimo periódico da coluna)
(obs : Caros leitores, a coluna retornará dia 21/02, bom
carnaval a todos, aproveitem!)
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37567/14/conto-carnavalesco
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