PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 14 de janeiro de 2017

CHARLES BAUDELAIRE E AS FLORES DO MAL – PARTE IV

“As Flores do Mal, seu único livro de poesia, possui apenas 166 poemas”

CHARLES BAUDELAIRE

SENTIDO MODERNO DE AS FLORES DO MAL

CONTEXTO HISTÓRICO E CRÍTICO

Baudelaire tinha cerca de 20 anos quando começou a escrever os primeiros poemas de As Flores do Mal, só que o poeta não teve pressa em publicar seus poemas, os quais passaram por um processo exigente de escrita e reescrita, com poemas provavelmente destruídos, fundidos, refundidos, e sobretudo esmerilhados. Tudo isso num espaço de tempo de 27 anos, no qual Baudelaire fez sua concepção estética amadurecer, tornando-se um artista com alto grau de lucidez e consciência poética. Tal era a entrega e a exigência de seu trabalho, que Baudelaire, de suas cartas, no entanto, podia inferir a ideia de que sua obra não seria reconhecida rapidamente, pois Baudelaire se via num contexto de uma sociedade e de uma época que tinha apego por certos juízos oficiais e que tinha nas palavras de Victor Hugo uma lei, este que, consagrado, reconheceu de pronto o gênio de Baudelaire, pois sabia das coisas.
No entanto, como poderia a França de sua época e tal espírito francês da primeira metade do século XIX tolerar o que deles dizia Baudelaire? Num contexto histórico de uma época contaminada pela agonia do romantismo, como As Flores do Mal seriam bem recebidas pelo austero e discricionário regime de Napoleão III, levando até mesmo a entidade que era Victor Hugo ao exílio? Baudelaire poderia ser encarado então como um poeta já escolhido pela posteridade, aonde de fato morava, pois não estava inserido na hipocrisia e no irrespirável prosaísmo do espírito francês de sua época.
Contudo, é com As Flores do Mal que Baudelaire antecipa tanto os temas como também todo o processo estético da poesia moderna. Baudelaire seguia com certa fidelidade as ideias expostas por Poe no Poetic principle, no que se via que Baudelaire, à exceção de uma meia dúzia de composições, expurgou o poema longo, que era um tipo de afetação cara ao gosto dos românticos. Mas, para além do Poetic principle de Poe, o verso baudelairiano tem outras fontes de inspiração e reflexão como nos textos dos escritores latinos, nas propostas estéticas da Pléiade, na Ars poetica de Boileau e, sobretudo, na obra de Racine, este que tem por uma das bases o mesmo citado Boileau. Mesmo sendo um poeta que antecipou a poesia moderna e como contemporâneo da febre romântica, Baudelaire, contudo, é um escritor de linhagem clássica, pois tem uma lucidez na expressão, com sua sintaxe sem floreios e um estilo conciso que são reflexo do que há de melhor nas tradições da língua francesa, revelando no poeta um diálogo criativo frutífero com muito do que houve no século XVII, daí advindo sua negação estética dos transbordamentos retóricos e do desleixo de estilo visto nos românticos.
E podemos ter uma medida da exigência baudelairiana se vermos que o poeta cuidou com afinco até da própria extensão de seu cânon poético: As Flores do Mal, seu único livro de poesia, possui apenas 166 poemas, aos quais se poderiam ajuntar, se quiser, o legado talvez irrelevante dos primeiros versos, ou ainda das Amoenitates Belgicae, que reúnem a poesia epigramática e os versos de circunstância que nos deixou o autor. E vem a questão de se de fato Baudelaire escreveu pouco, já que isso seria uma insinuação, por exemplo, de Jean-Paul Sartre, que em sua súmula idiossincrática e irritada sobre o poeta levanta tal polêmica. Mas se Baudelaire foi exigente com o próprio trabalho, pode-se inferir também o contrário, de que escreveu muito, já que uma obra do quilate de As Flores do Mal não nasce da noite para o dia, lembrando aqui os 27 anos que o poeta maturou para vir à luz, podendo então ter como objeto o fato de que os poemas de Baudelaire são produto de alguém que escreveu e reescreveu incontáveis vezes esses 166 poemas da arte final, obra que lhe custou sua vida inteira de poeta e como escritor. Então, ao contrário da visão sartreana, pode-se ver que Baudelaire escreveu muitíssimo, mas somente publicou o que lhe parecia digno de seu gênio. E então acertou em cheio, independente, e muito!, da crítica reducionista de que era um escritor breve.
O verso baudelairiano revela tal exigência de uma vida inteira no que se pode ver em seu alexandrino impecável e infinito, numa senda ondulante de duração que rompe até mesmo os limites físicos da palavra, num jogo verbal que tem no mistério do processo criativo a sua fonte original. E tal sortilégio resultante das tensões que se polarizam em seu verso seria produto de uma imaginação na qual o significado das palavras não seria o bastante, pois era produto de uma intuição poderosa animada por entidades como as “opérations magiques” e a “sorcellerie évocatoire”, como o próprio Baudelaire sugere em suas notas, com o fito de explorar os sons, as formas e as cores.
Assim como o verso baudelairiano não pode ser confundido com o dos românticos, este tampouco pode ser incluído entre os parnasianos e no modo como Baudelaire concebia a tão controversa teoria da “arte pela arte”, que tem em seus poemas uma operação criativa diversa da rigidez ortodoxa de um Gautier ou de um Banville, causando espanto, para quem está bem informado, esta associação que alguns críticos fazem de Baudelaire com o parnasianismo. Tal distinção entre Baudelaire e os parnasianos se dá sobretudo por ter o soneto baudelairiano se fundado nas “imperfeições” que são o caráter essencial de sua versificação e da poesia do autor, que passa ao largo de exigências formais tanto da Pléiade quanto do próprio Parnaso, com tal herança, guardadas as proporções, presentes apenas em cinco poemas. Pois toda a obra de Baudelaire será uma transgressão em relação a fôrmas, numa luta constante contra reduções paralisantes.
Quanto ao conceito da “arte pela arte”, portanto, também causa espanto que se haja tentado colocar Baudelaire como seu defensor, uma vez que as “defeituosas perfeições” da poesia baudelairiana lutavam contra escaninhos em que estavam entidades como Gautier e Banville, por exemplo. Com Baudelaire, por sua vez, fazendo uma inversão de princípios em que a feiura era também poesia, e não a ideia metafísica e da tradição filosófica da Estética que tinha no Belo com maiúscula  o fundamento exclusivo da sensação e aqui, no caso de Baudelaire, como fonte única para a inspiração poética. E foi exatamente com esta ruptura que Baudelaire abriu caminho para o que viria a ser a poesia moderna. E Baudelaire, por sua vez, foi quem conferiu todo o sentido metafísico que faltava à poesia musical e muitas vezes vazia de Poe, abrindo caminho para uma concepção de verso que seria livre de todos os elementos narrativos e didáticos que até então povoavam a poesia, lançando então os novos fundamentos da poesia moderna.
Embora o verso baudelairiano se expresse sobretudo em termos de estrita consumação sintático-verbal, este deve, contudo, muito à música,  e ainda mais à pintura. E então não é por acaso que Baudelaire tenha se destacado como o maior crítico musical e de artes plásticas de sua época. Como poeta, Baudelaire certamente tinha essa preocupação musical na sua relação às exigências do ritmo, que é, como se sabe, o elemento que faz a distinção estrutural entre a poesia e a prosa, mais do que a conhecida distinção formal. Há, pois, em Baudelaire, como se veria com Eliot bem depois, este interesse dinâmico pelo que era a “music of the poetry”, numa espécie de visão de herança pitagórica e matemática.
Baudelaire, por outro lado, não permitia que a música pudesse subverter ou adulterar os elementos discursivos do poema, pois a base do poema eram as palavras, e não as ideias, e então Baudelaire teve esta percepção de entender a ameaça da música aos fundamentos estéticos de sua poesia, mantendo-a sob controle crítico. Tal descaminho que ficaria, por sua vez, por conta de dois de seus herdeiros: Verlaine, cuja poesia se reduz a uma verdadeira orgia e embriaguez musical, e Mallarmé, com sua “musique des silences”.
Os textos baudelairianos são claros quanto a imagens, e ao contrário de Rimbaud, que iria colorir as vogais em célebre soneto, Baudelaire pretendia estabelecer uma forma de percepção como analogia entre as distintas manifestações do gênio artístico, numa sensibilidade espiritual, que era, ao fim, uma faculdade suprema da imaginação, com Baudelaire colocando a beleza para além dos elementos plásticos ou musicais que inspirava muitas vezes a sua escrita poética.
A inovação do verso baudelairiano não se dará, contudo, no nível da língua, pois a linguagem de Baudelaire segue critérios canônicos de clareza, não obstando nada para o plano da leitura, pois que tem como fonte histórica os poetas latinos e os grandes autores franceses do século XVII, principalmente Racine, mas observando-se no poeta, todavia, uma preocupação musical que faltava ao verso clássico, quase sempre comprometido com a eloquência e o afã analítico. O verso de Baudelaire é sempre lento, grave, solene, um alexandrino infindável ondulando com um ritmo próprio e original, tendo semelhanças, por vezes, com as litanias da decadência latina.
Fiel à cesura, esse alexandrino baudelairiano possui um vasto cabedal de recursos técnicos e estilísticos, como as rimas internas, o jogo habilidoso de rimas graves e agudas, típico da ordem clássica francesa, as aliterações, além das insólitas “perfeições defeituosas” das quais Baudelaire foi intenso praticante em seus versos. E mesmo quando Baudelaire recorre aos metros curtos, como as redondilhas maior e menor – o que é raríssimo -, pode-se perceber essa duração infindável, e no que tange ao octossílabo, metro muito frequente em As Flores do Mal, este é característico da língua francesa e, como no caso do alexandrino, Baudelaire o levou à perfeição.

POEMAS:

O CISNE : O poema do cisne é belo, mesmo vertido ao português, vem com música, em sentido de som e de fundo, como se vê: “Andrômaca, só penso em ti!” (...) “Fecundou-me de súbito a fértil memória,/Quando eu cruzava a passo o novo Carrossel./Foi-se a velha Paris”. Há um quê de nostalgia, a velha Paris se evoca, mas o poeta tem então uma visão: “Ali eu vi, certa manhã,” (...) “Um cisne que escapara enfim ao cativeiro/E, nas ásperas lajes os seus pés ferindo,/As alvas plumas arrastava ao sol grosseiro./Junto a um regato seco, a ave, o bico abrindo,/No pó banhava as asas cheias de aflição,/E dizia, a evocar o seu lago natal:/“Água, quando cairás? quando soarás, trovão?””. A visão do cisne e sua fuga do cativeiro ainda possui um misto de esperança e sofrimento, a água é sentida como fonte redentora, no que Baudelaire continua: “Paris muda! mas nada em minha nostalgia/Mudou!” (...) “Também diante do Louvre uma imagem me oprime:/Penso em meu grande cisne, quando em fúria o vi,/Qual exilado, tão ridículo e sublime,/Roído de um desejo infindo!”. Aqui a velha Paris é o cisne outrora visto, a visão nostálgica funde a beleza do animal à da cidade, e os ventos da mudança como uma dor que quer se ver extirpada: “Andrômaca, às carícias do esposo arrancada,/De Pirro a escrava, gado vil, trapo terreno,/Ao pé de ermo sepulcro em êxtase curvada,/Triste viúva de Heitor e, após, mulher de Heleno!” (..) “Assim, a alma exilada à sombra de uma faia,/Uma lembrança antiga me ressoa infinda!”. A memória, por infinda, ressoa o infinito, que pode ser esperança ou lembrança. Pode-se ver o futuro e ao mesmo tempo evocar do passado algo que da memória não se esgota. O poema é o cisne e é Paris.
A UMA PASSANTE : O poema nos aparece com a sua musa em fuga, uma musa rarefeita, uma passante: “A rua em torno era um frenético alarido./Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,/Uma mulher passou,” (...) “Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia/No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,/A doçura que envolve e o prazer que assassina.” (..) “Não mais hei de te ver senão na eternidade?/Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!/Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,/Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!”. A visão é tão fugaz quanto os passos rápidos da passante, e com a mesma velocidade o poema se encerra, como algo que tenta captar a fuga.
SONHO PARISIENSE : O poema abre com sua visão da paisagem, o sonho parisiense se abre: “Desta fantástica paisagem,/Que ninguém viu jamais um dia,/Esta manhã ainda a imagem,/Vaga e longínqua, me extasia.” (...) “E, artista cônscio do que cria,/Eu saboreava em minha tela/A pertinaz monotonia/Do metal, do óleo e da aquarela.”. O poeta diante de Paris atua aqui tal pintor, pictórica figura se delineia, o poema vê a cidade como em pinceladas, no que Baudelaire prossegue: “Demiurgo de ébrias fantasias,/Fazia eu mesmo, ao meu agrado,/Sob um túnel de pedrarias,/Correr um mar enclausurado;” (...) “E sobre tais sonhos vividos/Pairava” (...) “Uma mudez de eternidade.”. O sonho parisiense tenta abarcar então o silêncio da eternidade, este ser da totalidade que muitas vezes se dá muito mais na meditação e na oração silenciosa do que no esforço do pensamento, no que o poema segue: “Quando meus olhos eu reabri,/O horror surgiu numa visão,/E na minha alma eis que senti/O gume agudo da aflição;/Funéreo pêndulo anunciava/Em dobre atroz o meio-dia,/E o céu as trevas derramava/Sobre este mundo em agonia.”. Mas do silêncio da eternidade, alvissareiro, o poeta se vê na verdade diante de sua finitude, e o mundo real é um mundo em agonia.
A ALMA DO VINHO : Na série famosa de Baudelaire em que ele, em As Flores do Mal, ele tem como o tema o vinho, o poeta coloca toda a riqueza poética que tal imagem possui, e tenta, de saída, captar a alma do vinho: “A alma do vinho, certa tarde, nas garrafas/Cantava: “Homem, elevo a ti, que me és tão caro,/No cárcere de vidro e lacre em que me abafas,/Um cântico de luz e de fraterno amparo!”. O vinho aparece aqui como amigo do homem, e dá as suas boas-vindas, como se vê: “sinto uma alegria imensa quando desço/Pela goela de quem ao trabalho se entrega,/E seu tépido peito é a tumba onde me aqueço/E onde me agrada mais estar do que na adega.”. O vinho foi feito para o homem e não para a adega, e a alegria do vinho é alegrar o homem, vindo da labuta, e aqui o vinho nos consola com sua alma ébria: “Repousarei em ti, vegetal ambrosia,/Grão atirado pelo eterno Semeador,/Para que assim de nosso amor nasça a poesia/Que rumo a Deus há de subir qual rara flor!””. E no fim está a poesia, a alma do vinho, que em Baudelaire, portanto, desperta a poesia, a qual ruma a Deus como flor rara.
O VINHO DOS TRAPEIROS : O vinho aqui aparece como lenitivo da labuta, esta ideia corrente entre operários, camponeses e demais trabalhadores que estão na hora do ócio entregues às seduções da bebida, e o vinho como este ser mais refinado entre várias outras bebidas, no que Baudelaire segue em poesia: “Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,/Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,/Num antigo arrabalde, informe labirinto,/Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,/Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,/Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,” . O trapeiro aqui também é poeta, e o vinho sua alma de poeta, no que o poema segue: “E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,/Embriaga-se na luz de seu talento imenso.” (...) “Assim é que através da ingênua raça humana/O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;/Pela garganta do homem canta ele os seus feitos/E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.”. O vinho e seus dons depende do homem, a poesia que do vinho temos a noção vem do homem embriagado, o vinho só tem alma com esta alma que é a do homem, e os dons de ambos são um só, exatamente nesta interação de virtude, no que Baudelaire dá a coda magistral, concluindo esta invenção sagrada: “O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado!”
O VINHO DO ASSASSINO : O poema é visceral, e se abre violentamente: “Livre, afinal! ela está morta!/Posso beber o tempo inteiro.” O vinho virtuoso aparece aqui em sua face de vício, tal o assassino que bebe o tempo inteiro: “Sou tão feliz quanto é um rei;/O ar é puro, o céu adorável .../Era um verão incomparável/Quando por ela me encantei!” (...) “Atirei-a ao fundo de um poço,/E eu mesmo pus, para cobri-la,/De suas bordas toda a argila./_ Hei de esquecê-la, se é que posso!” (...) “Eu lhe implorei uma entrevista,/À noite, numa estrada escura./Ela veio! – a louca criatura!/Talvez em nós um louco exista!”. Diante da louca criatura, a loucura é descoberta pelo poeta como habitante da alma humana, e aqui possuída dos miasmas do assassínio: “Quanto eu a amava! e foi por isso/Que lhe ordenei: Sai desta vida!” (...) “_ Eis-me liberto e a sós comigo!/Serei à noite um ébrio morto;/Sem nenhum medo ou desconforto,/Farei da terra o meu abrigo,” (...) “Eu zombo de tudo, do Diabo,/De Deus ou da Ceia Sagrada!”. O assassino é um zombeteiro, que não reconhece autoridade e não deve obediência, desertou de Deus e até mesmo do Diabo.
O VINHO DOS AMANTES : O poema é um caminho, uma cavalgada de dois amantes, é um poema belo, com astral positivo, e se sucede bem como imagem de amor: “O espaço hoje esplende de vida!/Livres de esporas, freio ou brida,/Cavalguemos no vinho:”. A vida aparece aqui como afirmativa e alvissareira, no que os amantes se juntam, nesta imagem poética de Baudelaire, o poeta do vinho: “Como dois anjos que tortura/Uma implacável calentura,/No límpido azul da paisagem/Sigamos a fugaz miragem!” (...) “Chegaremos enfim, risonhos,/Ao paraíso de meus sonhos!”. O paraíso da poesia que é o do vinho e, por fim, o do amor. Fim sonhador do poema no sonho do vinho e do amor, o vinho dos amantes, poema bem semeado, poesia linda.

POEMAS:

O CISNE

                             A Victor Hugo
I
Andrômaca, só penso em ti! O fio d`água
Soturno e pobre espelho onde esplendeu outrora
De tua solidão de viúva a imensa mágoa,
Este mendaz Simeonte em que teu pranto aflora,

Fecundou-me de súbito a fértil memória,
Quando eu cruzava a passo o novo Carrossel.
Foi-se a velha Paris (de uma cidade a história
Depressa muda mais que um coração infiel);

Só na lembrança vejo esse campo de tendas,
Capitéis e cornijas de esboço indeciso,
A relva, os pedregulhos com musgo nas fendas,
E a miuçalha a brilhar nos ladrilhos do piso.

Ali havia outrora os bichos de uma feira;
Ali eu vi, certa manhã, quando ao céu frio
E límpido o Trabalho acorda, quando a poeira
Levanta no ar silente um furacão sombrio,

Um cisne que escapara enfim ao cativeiro
E, nas ásperas lajes os seus pés ferindo,
As alvas plumas arrastava ao sol grosseiro.
Junto a um regato seco, a ave, o bico abrindo,

No pó banhava as asas cheias de aflição,
E dizia, a evocar o seu lago natal:
“Água, quando cairás? quando soarás, trovão?”
Eu vejo esse infeliz, mito estranho e fatal,

Tal qual o homem de Ovídio, às vezes num impulso,
Erguer-se para o céu cruelmente azul e irônico,
A cabeça a emergir do pescoço convulso,
Como se a Deus lançasse um desafio agônico!

II
Paris muda! mas nada em minha nostalgia
Mudou! novos palácios, andaimes, lajedos,
Velhos subúrbios, tudo em mim é alegoria,
E essas lembranças pesam mais do que rochedos.

Também diante do Louvre uma imagem me oprime:
Penso em meu grande cisne, quando em fúria o vi,
Qual exilado, tão ridículo e sublime,
Roído de um desejo infindo! e logo em ti,

Andrômaca, às carícias do esposo arrancada,
De Pirro a escrava, gado vil, trapo terreno,
Ao pé de ermo sepulcro em êxtase curvada,
Triste viúva de Heitor e, após, mulher de Heleno!

E penso nessa negra, enferma e emagrecida,
Pés sob a lama, procurando, o olhar febril,
Os velhos coqueirais de uma África esquecida
Por detrás das muralhas do nevoeiro hostil;

Em alguém que perdeu o que o tempo não traz
Nunca mais, nunca mais! nos que mamam da Dor
E das lágrimas bebem qual loba voraz!
Nos órfãos que definham mais do que uma flor!

Assim, a alma exilada à sombra de uma faia,
Uma lembrança antiga me ressoa infinda!
Penso em marujos esquecidos numa praia,
Nos párias, nos galés ... e em outros mais ainda!

(Andrômaca: em grego Andromákhë, esposa de Heitor e mãe de Astíanax. Após a tomada de Troia, tornou-se escrava de Pirro, filho de Aquiles, com quem teve três filhos e que depois a repudiou, dando-a a Heleno, irmão de Heitor/ Simeonte: em grego Simóeis, rio da Tróade no qual outrora desembocava o rio Escamandro/Pirro: em grego Pýrros, em latim, Pyrrhus (c.318-272 a.C.), rei de Epiro (295-272), célebre pela dura vitória (por isso conhecida como ‘vitória de Pirro’) que obteve sobre os romanos em Heracleia (280). Morreu em Argos, após invadir o Peloponeso, durante uma batalha/Heitor: em grego Héktör, herói troiano, filho de Príamo e Hécuba, esposo de Andrômaca e pai de Astíanax. Após realizar várias proezas militares, foi morto por Aquiles, que o arrastou ao redor das muralhas de Troia amarrado a seu carro/Heleno: em grego, Hélenos, em latim, Helenus, guerreiro e adivinho troiano, filho de Príamo e Hécuba, irmão de Heitor e esposo de Andrômaca, que lhe foi dada em casamento por Pirro).

A UMA PASSANTE
A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz ... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

SONHO PARISIENSE
                          A Constantin Guys

I
Desta fantástica paisagem,
Que ninguém viu jamais um dia,
Esta manhã ainda a imagem,
Vaga e longínqua, me extasia.

O sono engendra assombros vários!
Por um capricho singular,
Banira eu já desses cenários
O vegetal irregular,

E, artista cônscio do que cria,
Eu saboreava em minha tela
A pertinaz monotonia
Do metal, do óleo e da aquarela.

Babel de umbrais e colunatas,
Era um palácio ilimitado,
Cheio de fontes e cascatas
Sobre ouro fosco ou cinzelado;

E cataratas vagarosas,
Como cortinas de cristal,
Se despenhavam, luminosas,
Pelas muralhas de metal.

Colunas (árvores, jamais)
Os tanques quietos circundavam,
Onde náiades colossais,
Como donzelas, se miravam;

Azuis lençóis de água fluíam
Por entre os cais de tom diverso,
E por milhões de léguas iam
Rumo às origens do universo;

Havia seixos nunca olhados
E vagas mágicas havia;
Grandes espelhos deslumbrados
Pelo que ali se refletia!

Apáticas e taciturnas,
As torrentes, no azul distante,
Vertiam todo ouro das urnas
Sobre penhascos de diamante.

Demiurgo de ébrias fantasias,
Fazia eu mesmo, ao meu agrado,
Sob um túnel de pedrarias,
Correr um mar enclausurado;

E tudo, a cor mais merencória,
Era solar, claro, irisado;
A água engastava a sua glória
Num raio em si cristalizado.

Além, nem astros nem vestígios
Do sol, sequer nos céus mais baixos,
Para clarear esses prodígios
Ardendo à luz dos próprios fachos!

E sobre tais sonhos vividos
Pairava (hedionda novidade,
Não aos olhos, mas aos ouvidos!)
Uma mudez de eternidade.

II
Quando meus olhos eu reabri,
O horror surgiu numa visão,
E na minha alma eis que senti
O gume agudo da aflição;

Funéreo pêndulo anunciava
Em dobre atroz o meio-dia,
E o céu as trevas derramava
Sobre este mundo em agonia.

A ALMA DO VINHO

A alma do vinho, certa tarde, nas garrafas
Cantava: “Homem, elevo a ti, que me és tão caro,
No cárcere de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico de luz e de fraterno amparo!

Bem sei quanto custou, na tórrida montanha,
De causticante sol, de suor e de mau trato
Para forjar-me a vida e enfim a alma ter ganha.
Mas não serei jamais perverso nem ingrato,

Pois sinto uma alegria imensa quando desço
Pela goela de quem ao trabalho se entrega,
E seu tépido peito é a tumba onde me aqueço
E onde me agrada mais estar do que na adega.

Não ouves os refrãos da domingueira toada
E a esperança que me unge o seio palpitante?
Cotovelos na mesa e a manga arregaçada,
Tu me honrarás e o riso há de ter constante;

Hei de acender-te o olhar à esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e as cores,
E serei para tão tíbio atleta da vida
O óleo que os músculos enrija aos lutadores.

Repousarei em ti, vegetal ambrosia,
Grão atirado pelo eterno Semeador,
Para que assim de nosso amor nasça a poesia
Que rumo a Deus há de subir qual rara flor!”

O VINHO DOS TRAPEIROS
Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,
Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,
Num antigo arrabalde, informe labirinto,
Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,

Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,
Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,
E, alheio aos guardas e alcaguetes mais abjetos,
Abrir seu coração em gloriosos projetos.

Juramentos profere e dita leis sublimes,
Derruba os maus, perdoa as vítimas dos crimes,
E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,
Embriaga-se na luz de seu talento imenso.

Toda essa gente afeita às aflições caseiras,
Derreada pela idade e farta de canseiras,
Trôpega e curva ao peso atroz do asco infinito,
Vômito escuro de um Paris enorme e aflito,

Retorna, a trescalar do vinho as escorralhas,
Junto aos comparsas fatigados das batalhas,
Os bigodes lembrando insígnias espectrais.
Os estandartes, os pendões e arcos triunfais

Erguem-se ante essa gente, ó solene magia!
E na ensurdecedora e luminosa orgia
Dos gritos, dos clarins, do sol e do tambor,
Trazem eles a glória ao povo ébrio de amor!

Assim é que através da ingênua raça humana
O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;
Pela garganta do homem canta ele os seus feitos
E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.

E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo,
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado!

(Pactolo: Em grego Paktolós, pequeno rio da Lídia, afluente do Hermo, célebre pelas pepitas de ouro que abundavam em suas águas, origem da riqueza de Midas e Creso.)

O VINHO DO ASSASSINO
Livre, afinal! ela está morta!
Posso beber o tempo inteiro.
Quando eu voltava sem dinheiro,
Se ouviam gritos logo à porta.

Sou tão feliz quanto é um rei;
O ar é puro, o céu adorável ...
Era um verão incomparável
Quando por ela me encantei!

A sede atroz que me põe louco
Para saciá-la exigiria
O que de vinho caberia
Em sua tumba. E não é pouco:

Atirei-a ao fundo de um poço,
E eu mesmo pus, para cobri-la,
De suas bordas toda a argila.
_ Hei de esquecê-la, se é que posso!

Em nome das eternas juras,
Pois nada nos pode afastar,
E para nos reconciliar
Como no tempo das venturas,

Eu lhe implorei uma entrevista,
À noite, numa estrada escura.
Ela veio! – a louca criatura!
Talvez em nós um louco exista!

Ela era então ainda garrida,
Embora exausta e já sem viço!
Quanto eu a amava! e foi por isso
Que lhe ordenei: Sai desta vida!

Ninguém me entende. Algum canalha,
Dentre esses ébrios enfadonhos,
Conceberia em seus maus sonhos
Fazer do vinho uma mortalha?

Essa devassa indiferente,
Como qualquer engenho hodierno,
Jamais, no verão ou no inverno,
Sentiu do amor o apelo ardente,

Com suas negras seduções,
Seu cortejo infernal de horrores,
Seus venenos e dissabores,
Seus timbres de ossos e grilhões!

_ Eis-me liberto e a sós comigo!
Serei à noite um ébrio morto;
Sem nenhum medo ou desconforto,
Farei da terra o meu abrigo,

E ali dormirei como um cão!
Podem as rodas da carroça,
Cheia de entulho e lama grossa,
Ou um colérico vagão

Esmagar-me a fronte culpada
Ou cortar-me ao meio, que ao cabo
Eu zombo de tudo, do Diabo,
De Deus ou da Ceia Sagrada!

O VINHO DOS AMANTES
O espaço hoje esplende de vida!
Livres de esporas, freio ou brida,
Cavalguemos no vinho: adiante
Se abre um céu puro e fulgurante!

Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura,
No límpido azul da paisagem
Sigamos a fugaz miragem!

Embalados no íntimo anelo
De um lúcido e febril afã,
Qual num delírio paralelo,

Lado a lado nadando, irmã,
Chegaremos enfim, risonhos,
Ao paraíso de meus sonhos!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/32258/17/charles-baudelaire-e-as-flores-do-mal-parte-4



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

TERRA INDÔMITA

A terra, fractal de magma, que conhece
a cor da fuligem, a grama seca,
o passo do andante mortiço,

cai feito cal em pó de vida
como todos somos,
infinito e mortal,
como um grito de estrela,
tal um sismo tremor.

A terra estupefata, que rói a corda
da subida e cai qual queda,
indômita e suicida.

Terra cor de carvão e vermelhidão,
frouxo riso, rijo choro,
mais que um murmúrio,
um sussurro no vento,
um estalar de dedos,
dentes fincados no sol,
a seca água evaporada.

Terra de labor, alma de luta.
Tu és magma do ventre
que brota vulcânico
como explosão
de vida.

02/01/2017 Gustavo Bastos

domingo, 1 de janeiro de 2017

CANÇÃO A UM PÁSSARO

Quando, de voo tu pousas,
e asas solta no ar como voa,
tua terra e teu céu são
o universo em comunhão.

Pois, tardo o farol ao mar,
que da nuvem soa a luz como som,
e do sonar a visão exalta,
teu voo encanta o homem,
este que no céu sem paradeiro
rumoreja a chuva e se
assusta com o trovão.

Pássaro, flor que aurora e bruma
escapa, voo que no hausto
coroa o coração,

tens em tuas asas forças viris,
como um cometa atravessando
rio e mar pelo céu infindo
que teu olhar abarca
como num delírio,

pássaro vestido de cores inúmeras,
pela nuvem teu sonho
de canção, pelo céu teu poema
de voar sem fim.

01/01/2017 Gustavo Bastos

domingo, 18 de dezembro de 2016

CHARLES BAUDELAIRE E AS FLORES DO MAL – PARTE III

“podemos apontar o cristianismo baudelairiano como um dos traços dominantes de As Flores do Mal.”

CHARLES BAUDELAIRE

RELIGIOSIDADE

Um dos aspectos que também pode ser levantado da poética baudelairiana é o de sua religiosidade, e de como esta não é evidente, mostrada como uma forma complexa e ambígua muitas vezes, por isto não evidente como sentido bem discernível de qual a sua orientação, pois a poesia, esta forma diluída por excelência, é o espaço da polêmica e das contradições, sempre fruto de uma interpretação açodada que é a conhecida ignorância plena, como se diz. E tal interrogação aparece sobretudo na questão do cristianismo de Baudelaire, se ele era ou não um cristão. Enquanto para alguns o cristianismo de Baudelaire pode ser uma mera falácia, peça de ficção, para outros esse mesmo cristianismo jamais o abandonou.
Além do que nos permite concluir a própria leitura dos poemas que integram As Flores do Mal ou dos fragmentos de que se compõem as Fusées e Mon coeur mis à nu, estudos como os de Bénouville, Paul Arnold, Maurice Barrès, Victor Chrabonnel, León Daudet, Benjamin Fondane, Stanislas Fumet, Charles Du Bos, Friedrich Kemp, Pierre Emmanuel, Pierre Louis, Jean Massin, Jean Pommier, Paul Soulay e Robert Vivier, entre alguns outros, parecem não deixar nenhuma dúvida quanto à vocação cristã de Baudelaire. Só que a forma de atuação de Baudelaire é controversa, pois sua poesia oscila entre Deus e o Diabo, o que o leva amiúde à prática das mais ingênuas e primitivas formas de maniqueísmo. E também temos as blasfêmias habituais do poeta satanista, que podem ser interpretadas como um tipo de visão mística de quem se perdeu no abismo do pecado. Baudelaire nos aparece, portanto, como um poeta do Limbo, ou do Purgatório, poeta de verve espiritualista que levou às últimas consequências o pecado como condição da vida terrestre da alma.
Lúcida ao grau extremo, a poesia de Baudelaire pratica um agônico e lancinante movimento no sentido de substituir a religião perdida pelo prazer estético que lhe proporciona a consciência de seu altíssimo valor. O culto da beleza deveria assim atender às suas ávidas exigências religiosas, pois Baudelaire, na vivência das dúvidas de seu século, não era um crente de dogmas e tradições. Baudelaire era capaz, ademais, de criar uma religião particular que não tinha nenhuma relação com as formas da religião tradicional. E foi isso o que o poeta realizou, estabelecendo uma espécie de estranho gnosticismo neopagão e maniqueísta em que Lúcifer ocupa todos os altares.
O pessimismo haurido em Joseph de Maistre e sua pascalina angústia do abismo o induzem diretamente à fé no poder de Satã, que o poeta fundamenta com o dogma do pecado original. Baudelaire tem a compreensão da natureza, portanto, como essencialmente corrupta, com o poeta se rebelando contra a obra do Criador e identificando a ideia da Queda à dualidade, à multiplicidade caduca e contingente cuja miséria e decadência desfilam ao longo dos “Tableaux parisiens”, dessa Paris quase dantesca e da qual não se pode dizer que seja infernal, porque é o próprio Inferno.
Há, por fim, na poesia baudelairiana, ademais, um otimismo e um entusiasmo diante da vida, e Fumet e Du Bos, além de Massin, não deixam dúvida quanto ao cristianismo que existe no pensamento de Baudelaire, mas isto não implica em colocá-lo como um católico ortodoxo ou homem da Igreja. Pois Baudelaire, como produto genuíno do romantismo, tinha suas contradições inconciliáveis, de tensões espirituais cujos pólos antitéticos jamais lograram superar-se naquele momento superior que caracteriza a síntese hegeliana. E, por fim, neta contradição romântica, o absoluto e o infinito pelos quais tanto ansiou o poeta ao longo de sua existência lhe estiveram desde sempre interditos por sua visão da Queda. Por outro lado, podemos apontar o cristianismo baudelairiano como um dos traços dominantes de As Flores do Mal.

POEMAS:

SPLEEN – POEMA LXXVIII: O poema, em clima gótico, veia bem comum e distribuída generosamente por toda As Flores do Mal, tem este escurecimento da Esperança (em maiúscula), com o tal espírito mais uma vez como vítima dos açoites do tédio, o grande bocejo que abre a grande obra poética baudelairiana: “Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como tampa/Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,” (...) “Quando a terra se torna em calabouço horrendo,/Onde a Esperança, qual morcego espavorido,/As asas tímidas nos muros vai batendo”. E o poema segue, como um fenômeno psíquico que por fim vai consumir em vermes o cérebro do poeta, este ser fúnebre, sempre gótico, com pendor pela escuridão das formas e das imagens poéticas: “Quando a chuva, a escorrer as tranças fugidias,/Imita as grades de uma lúgubre cadeia,/E a muda multidão das aranhas sombrias/Estende em nosso cérebro uma espessa teia,/Os sinos dobram, de repente, furibundos/E lançam contra o céu um uivo horripilante,”. O uivo talvez seja um último grito contra a morte ou o tédio, que aqui, falando em Baudelaire, podem muito bem aparecer como sinônimos, no que o poeta então, também uiva, ao fim, no que chora a esperança e sofre o golpe final seu infortunado crânio: “_ Sem música ou tambor, desfila lentamente/Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;/Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,/Enterra-me no crânio uma bandeira preta.”

O GOSTO DO NADA: O poema, em tom pessimista, também tem este negror do clima gótico, em que temos a sombra já na abertura: “Espírito sombrio, outrora afeito à luta,/A Esperança, que um dia te instigou o ardor,/Não te cavalga mais!”. Tem um quê de nostalgia, se fala de um espírito que foi esperançoso e iluminado, mas algo aconteceu, mas o poema não dá motivo, apenas descreve o processo de luto como um simples fenômeno, ao qual o poema se detém, em toda a sua potência: “Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta./Espírito alquebrado! ao velho salteador/Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;”. E o rasgo de direção que é, enfim, o Tempo, este senhor de tudo e de todos, caudal da luz e da angústia: “O Tempo dia a dia os ossos me desfruta,/Como a neve que um corpo enrija de torpor;/Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,/E nem procuro mais o abrigo de uma gruta./Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?”. Ao fim tal tempo é uma avalanche, o poeta está imerso tanto na angústia como no caos. E a cara ideia da queda aparece, esta presença constante no poema baudelairiano tanto quanto o bocejo do tédio.

ALQUIMIA DA DOR:
O poema abre como uma face dupla, da mais visceral, que é a de luz e sombra: “Um te ilumina com ardor,/O outro te enluta, Natura!/O que diz a um: Sepultura!/Ao outro diz: Vida e esplendor!”. E o poeta se faz Midas, então, no que segue: “Tu me fazes igual a Midas,/O mais triste dos alquimistas;/Por ti do ouro o ferro improviso/E torno inferno o paraíso;” (...) “Um corpo querido amortalho,/E às margens do celeste estuário/Grandes sarcófagos entalho.”. Aqui temos um Midas alquimista, mas em forma invertida, não faz ouro, mas produz inferno e ao fim a morte tem aqui as imagens da mortalha e do sarcófago para corroborar a ideia funesta de uma alquimia do pessimismo ou da dor.

O IRREMEDIÁVEL: O ser de angelitude aparece no poema em sua forma inteira, ser pleno, morada do azul, no que o poema se abre: “Uma Ideia, uma Forma, um Ser/Vindo do azul e arremessado/No Estige plúmbeo e enlodaçado/Que o olho do Céu não pode ver;/Um Anjo, viajante imprudente”. Este Anjo se perdeu, é um ser imprudente, e paga o preço, é agora prisioneiro: “Um prisioneiro do bruxedo/Em suas frívolas manobras/Para evitar répteis e cobras,/Tateando a lâmpada e o segredo;/Um réu a descer sem lanterna,/Rente a um abismo cujo odor/Trai a fundura e o frio horror/De uma oscilante escada eterna,” E o poema segue: “_ Claros emblemas, traços reais/De uma fortuna atroz e vã,/Como a dizer-nos que Satã/Faz sempre bem tudo o que faz!”. O satanismo baudelairiano tem sua forma evidente neste poema, que da ideia comum da queda angélica, nos faz ver Satanás, e que é a própria consciência do Mal, aqui em forma metafísica ou absoluta, digamos espiritual: “Fonte do Ser, límpida e impura,/Onde pulsa uma estrela fria,/Farol irônico, infernal,/Archote aceso a Satanás,/Consolo e glórias sem iguais/_ A consciência dentro do Mal!”

PAISAGEM: Este belo poema nos brinda com uma suave abertura: “Quero, para compor os meus castos monólogos,/Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,/E, junto aos campanários, escutar sonhando/Solenes cânticos que o vento vai levando.”. E o clima de céu se vê também camuflado no clima urbano, a cidade também aparece neste poema como imagem poética: “Verei a fábrica em azáfama engolfada;/Torres e chaminés, os mastros da cidade,/E o vasto céu que faz sonhar a eternidade./É doce ver, em meio à bruma que nos vela,/Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,/Os rios de carvão galgar o firmamento/E a lua derramar seu suave encantamento./Verei a primavera, o estio, o outono; e quando,/Com seu lençol de neve, o inverno for chegando,/Cada postigo fecharei com férreos elos/Para na noite erguer meus mágicos castelos.” As imagens que se sucedem são bem elaboradas, num poema baudelairiano que eu gosto particularmente por não se ater demais no clima gótico, como é comum na produção do poeta, e o poema segue e fecha na luta da poesia, esta fonte de harmonia, contra o tumulto, a sempre relembrar a primavera, esta forma de plenitude que o idílio tanto canta, e que a poesia tem nela a sua graça maior: “O Tumulto, golpeando em vão minha vidraça,/Não me fará volver a fronte ao que se passa,/Pois que estarei entregue ao voluptuoso alento/De relembrar a Primavera em pensamento”

O SOL: O poema fala do sol e de seu poder: “Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros/Persianas acobertam beijos sorrateiros,/Quando o impiedoso sol arroja seus punhais/Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,/Exercerei a sós a minha estranha esgrima,/Buscando em cada canto os acasos da rima,/Tropeçando em palavras como nas calçadas,/Topando imagens desde há muito já sonhadas.”. E que inspira o poeta, no que o sol também aparece para Baudelaire como um tipo especial de poeta que ilumina tudo, no que o poema segue: “Quando às cidades ele vai, tal como um poeta,/Eis que redime até a coisa mais abjeta,/E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,/Quer os palácios, quer os tristes hospitais.”. O sol, ao fim, espanta até a tristeza dos hospitais, um poema solar em forma literal na obra baudelairiana.

A UMA MENDIGA RUIVA: O poema se dirige a uma musa infortunada, mas que é exaltada, apesar da miséria que lhe envolve: “Moça de ruivo cabelo,/Cuja roupa em desmazelo/Deixa ver tanto a pobreza/Quanto a beleza,/Para mim, poeta sem viço,/Teu jovem corpo enfermiço,/Cheio de sardas e agruras,/Tem só doçuras.” (...) “Em vez da meia em pedaços,/Que aos olhares dos devassos/Te brilhe à perna o tesouro/De um punhal de ouro;” (...) “Muito servo ébrio de amor,/Muito Ronsard e senhor/Rondariam o postigo/De teu abrigo!/Em teu leito contarias/Menos lírios do que orgias”. A exaltação aqui ganha em esplendor de forma, ébrio de amor, os servos seguem a mendiga ruiva, mas o poeta sabe qual é a realidade nua, e o poema não a esquece, a miséria total aparece aqui como a ideia de nudez: “_ Contudo vais mendigando/A sobra que foi ficando” (...) “Segue, pois, nua de tudo/_ Pérola, incenso, veludo _,/Só de teu corpo vestida,/Minha querida!”

POEMAS:

SPLEEN – POEMA LXXVIII
Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como tampa
Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,
E, ungindo toda a curva do horizonte, estampa
Um dia mais escuro e triste do que as noites;

Quando a terra se torna em calabouço horrendo,
Onde a Esperança, qual morcego espavorido,
As asas tímidas nos muros vai batendo
E a cabeça roçando o teto apodrecido;

Quando a chuva, a escorrer as tranças fugidias,
Imita as grades de uma lúgubre cadeia,
E a muda multidão das aranhas sombrias
Estende em nosso cérebro uma espessa teia,

Os sinos dobram, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um uivo horripilante,
Como os espíritos sem pátria e vagabundos
Que se põem a gemer com voz recalcitrante.

_ Sem música ou tambor, desfila lentamente
Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;
Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,
Enterra-me no crânio uma bandeira preta.

O GOSTO DO NADA

Espírito sombrio, outrora afeito à luta,
A Esperança, que um dia te instigou o ardor,
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
Cavalo que tropeça e cujo pé reluta.

Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta.

Espírito alquebrado! ao velho salteador
Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;
Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!
Prazer, dá trégua a um coração desfeito em dor!

Perdeu a doce primavera o seu odor!

O Tempo dia a dia os ossos me desfruta,
Como a neve que um corpo enrija de torpor;
Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,
E nem procuro mais o abrigo de uma gruta.

Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?

ALQUIMIA DA DOR

Um te ilumina com ardor,
O outro te enluta, Natura!
O que diz a um: Sepultura!
Ao outro diz: Vida e esplendor!

Hermes que oculto me conquistas
E para sempre me intimidas,
Tu me fazes igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas;

Por ti do ouro o ferro improviso
E torno inferno o paraíso;
Roubando às nuvens seu sudário,

Um corpo querido amortalho,
E às margens do celeste estuário
Grandes sarcófagos entalho.

(obs: Midas: Rei da Frígia (c.715-676 a.C.), filho de Górdio. Rei poderoso, sua fortuna provinha das minas de ouro da Frígia e de Urartu, bem como das pepitas do rio Pactolo. Conta a lenda que Dioniso lhe deu poder de transformar em ouro tudo aquilo em que tocasse.)

O IRREMEDIÁVEL

I
Uma Ideia, uma Forma, um Ser
Vindo do azul e arremessado
No Estige plúmbeo e enlodaçado
Que o olho do Céu não pode ver;

Um Anjo, viajante imprudente
Que ousou amar o que é disforme,
Dentro de um pesadelo enorme
A debater-se na corrente

E a lutar, angústias sombrias!
Contra o refluxo mais feroz,
Que como um louco ruge a sós
E faz na treva acrobacias;

Um prisioneiro do bruxedo
Em suas frívolas manobras
Para evitar répteis e cobras,
Tateando a lâmpada e o segredo;

Um réu a descer sem lanterna,
Rente a um abismo cujo odor
Trai a fundura e o frio horror
De uma oscilante escada eterna,

Onde velam monstros horríveis
Cujos fosfóreos olhos fazem
Mais escura a noite em que jazem
E onde eles só ardem visíveis;

Um barco no pólo insulado,
Como num laço de cristal,
Buscando por que onda fatal
Foi neste cárcere atirado;

_ Claros emblemas, traços reais
De uma fortuna atroz e vã,
Como a dizer-nos que Satã
Faz sempre bem tudo o que faz!

II
Conversa a dois, clara e sombria,
Espelho que a alma em si procura!
Fonte do Ser, límpida e impura,
Onde pulsa uma estrela fria,

Farol irônico, infernal,
Archote aceso a Satanás,
Consolo e glórias sem iguais
_ A consciência dentro do Mal!

PAISAGEM

Quero, para compor os meus castos monólogos,
Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,
E, junto aos campanários, escutar sonhando
Solenes cânticos que o vento vai levando.
As mãos sob meu queixo, só, na água-furtada,
Verei a fábrica em azáfama engolfada;
Torres e chaminés, os mastros da cidade,
E o vasto céu que faz sonhar a eternidade.

É doce ver, em meio à bruma que nos vela,
Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,
Os rios de carvão galgar o firmamento
E a lua derramar seu suave encantamento.
Verei a primavera, o estio, o outono; e quando,
Com seu lençol de neve, o inverno for chegando,
Cada postigo fecharei com férreos elos
Para na noite erguer meus mágicos castelos.
Hei de sonhar então com azulados astros,
Jardins onde a água chora em meio aos alabastros,
Beijos, aves que cantam de manhã e à tarde,
E tudo o que no Idílio de infantil se guarde.
O Tumulto, golpeando em vão minha vidraça,
Não me fará volver a fronte ao que se passa,
Pois que estarei entregue ao voluptuoso alento
De relembrar a Primavera em pensamento
E um sol na alma colher, tal como quem, absorto,
Entre as ideias goza um tépido conforto.

O SOL

Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros
Persianas acobertam beijos sorrateiros,
Quando o impiedoso sol arroja seus punhais
Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,
Exercerei a sós a minha estranha esgrima,
Buscando em cada canto os acasos da rima,
Tropeçando em palavras como nas calçadas,
Topando imagens desde há muito já sonhadas.

Este pai generoso, avesso à tez morbosa,
No campo acorda tanto o verme quanto a rosa;
Ele dissolve a inquietação no azul do céu,
E cada cérebro ou colmeia enche de mel.
É ele quem remoça os que já não se movem
E os torna doces e febris qual uma jovem,
Ordenando depois que amadureça a messe
No eterno coração que sempre refloresce!

Quando às cidades ele vai, tal como um poeta,
Eis que redime até a coisa mais abjeta,
E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,
Quer os palácios, quer os tristes hospitais.

A UMA MENDIGA RUIVA

Moça de ruivo cabelo,
Cuja roupa em desmazelo
Deixa ver tanto a pobreza
Quanto a beleza,

Para mim, poeta sem viço,
Teu jovem corpo enfermiço,
Cheio de sardas e agruras,
Tem só doçuras.

Calças com pés mais ligeiros
Os teus tamancos grosseiros
Do que essas damas tão finas
Suas botinas.

Em lugar de exíguo andrajo,
Que te envolva um régio trajo
Das espáduas singulares
Aos calcanhares;

Em vez da meia em pedaços,
Que aos olhares dos devassos
Te brilhe à perna o tesouro
De um punhal de ouro;

Que laços pouco apertados
Mostrem aos nossos pecados
Teus seios por entre os folhos
Como dois olhos;

E que para desnudar-te
Teus braços, com lábia e arte,
Sustem a golpes vivazes
Dedos audazes,

Corais de oceanos secretos
E de Belleau os sonetos
Por teus amantes rendidos
Oferecidos,

Escória de rimadores
A consagrar-te louvores
E a perseguir-te as passadas
Sob as escadas,

Muito servo ébrio de amor,
Muito Ronsard e senhor
Rondariam o postigo
De teu abrigo!

Em teu leito contarias
Menos lírios do que orgias
E a teus pés mais de um Valois
Sempre haverá!

_ Contudo vais mendigando
A sobra que foi ficando
Por um Véfour atirada
À encruzilhada;

Olhas de esguelha e sem jeito
Joias de brilho suspeito
Que não posso (hás de perdoar!)
Jamais te dar.

Segue, pois, nua de tudo
_ Pérola, incenso, veludo _,
Só de teu corpo vestida,
Minha querida!

(obs: Rémy ou Remi Belleau (1528-1577), poeta francês que Ronsard reconheceu, a partir de 1554, como um dos poetas da Plêiade. Sua principal obra é Petites inventions (1556), na qual se descrevem as flores, os frutos e os insetos./ Pierre de Ronsard (1524-1585), poeta francês que, ao lado de Antoine de Baïf e de Joachim du Bellay, dispôs-se a restaurar a poesia francesa em toda a sua amplitude, tornando-se chefe da nova escola La brigade, que, em 1556, passou a chamar-se La plêiade. Suas principais obras são Amours (1552) e os Hymnes (1555-56)/ Valois: dinastia que reinou na França de 1328 a 1589.)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/31975/17/charles-baudelaire-e-as-flores-do-mal-ij-parte-iii