PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

JANELA

A janela que olha
para fora
me olha
aqui dentro.

A janela de minha visão,
meus olhos,
janelas da alma,
teus olhos,
as janelas que olho.

O beija-flor
veio à minha janela,
a flor que ele beija
não sei aonde está,
aqui é o nono andar
de um prédio
e não tem flores.

28/11/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

domingo, 25 de novembro de 2012

AS VIAGENS DE LOBSANG RAMPA

   Lobsang Rampa era o pseudônimo de Cyrill Hoskins, ou melhor, o corpo do inglês Cyrill havia dado lugar ao lama tibetano Lobsang. A história ou estória é bem polêmica, há muito ceticismo de um lado e muita credulidade do outro, ou melhor, o importante em relação aos escritos de Lobsang é manter a mente aberta, ou seja, nem numa mistificação e nem numa recusa cética sem saber o que se diz em tais livros.
   Na leitura que fiz sobre o autor, o que inclui três obras: A Terceira Visão, O Médico de Lhasa e Entre os Monges do Tibete, leitura que recomendo fazer nesta ordem dos fatores para uma iniciação correta aos escritos de Lobsang Rampa, encontrei muita coisa curiosa do ponto de vista místico, o que faço em relação a esta leitura que tive é que se trata de uma visão esclarecedora quanto a alguns segredos do lamaísmo tibetano, não cabendo aqui definir se é verdade ou invenção o que está nestes livros relatado, então fico com o que deles eu possa tirar.
   O ponto mais polêmico é o que se chama esta Transmigração, ou seja, como pode ser possível uma substituição de uma alma por outra num corpo, pois isto é relatado em Entre os Monges do Tibete, e então se entende como tal feito se deu, Cyrill Hoskins deixa seu corpo e dá lugar ao lama Lobsang, pois o corpo original do lama tibetano já estava muito mal tratado e beirava o colapso, e o inglês que cedeu seu corpo ao lama já estava desacreditado da vida e queria partir para o mundo astral. Bom, este é o ponto principal que busquei entender e que consegui neste terceiro livro que li, depois de um trajeto pela fase tibetana do lama em A Terceira Visão e os males da guerra e da incompreensão em O Médico de Lhasa. 
   É bom lembrar que nos confins do Oriente há muitas coisas que pouco entendemos, portanto, temos que ter uma abordagem desarmada de ceticismo e sem ficar refém de mistificações, o que não representa uma posição ambígua, mas uma abertura que eu julgo filosófica para a leitura correta de Lobsang Rampa. O que ocorre em A Terceira Visão, por exemplo, fenômenos como a abertura do terceiro olho do menino Lobsang aos 7 anos e sua faculdade paranormal de enxergar a aura das pessoas e por esta faculdade saber se a pessoa está saudável e definir até o caráter ou intenções da mesma pela leitura da aura é de deixar ocidentais céticos bem incomodados, mas afirmo que não há conhecimento e sabedoria sem incômodos.
   No livro mais importante da obra de Lobsang Rampa, o sucesso editorial A Terceira Visão, vemos o início da saga deste lama tibetano, desde seu nascimento em berço de ouro, porém sem nenhuma regalia dos pais, pois a vida de Lobsang será repleta de sofrimentos, até sua entrada no mosteiro Chakpori, o qual ensinará a Lobsang uma disciplina rígida que servirá depois para ele como meio de sobrevivência no que vemos ser relatado em O Médico de Lhasa, quando Lobsang passa por torturas de japoneses por estar servindo como aviador pelo exército chinês. Lobsang no mosteiro também aprende muito sobre a medicina tibetana e passa a se tornar grande conhecedor das ervas do Tibete, e junto com este conhecimento médico é introduzido em ocultismo, conhecimentos metafísicos e esotéricos que serão ministrados pelo seu guia espiritual, o velho lama Mingyar Dondup, com o qual terá acesso a coisas desconhecidas até por grande parte dos monges comuns, nesta incursão pelos segredos tibetanos, Lobsang terá oportunidade, por exemplo, de desenvolver a faculdade de viagem astral e também de telepatia, fará uma viagem cataléptica às cavernas dos antepassados tibetanos e verá no topo das terras altas de Chang Tang uma cidade antiquíssima num vale, conservada pelo frio da altitude tibetana, onde também verá alguns dos segredos de velhas civilizações.
   Em O Médico de Lhasa vemos muitas das predições dos astrólogos tibetanos em relação à vida de Lobsang feitas em A Terceira Visão confirmadas, pois as predições eram de que Lobsang iria sofrer muito, e o que vemos no livro O Médico de Lhasa é uma sucessão de absurdos que levarão o corpo torturado e seviciado de Lobsang quase à morte, com fuga em relação aos japoneses, viagens depauperadas pelos horrores da guerra (era o contexto histórico da invasão e bombardeio da China pelos japoneses e depois a Segunda Guerra Mundial que culminará com as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasáki no Japão soltadas pelos americanos). E neste trajeto sofrido que vemos no livro O Médico de Lhasa aprendemos um bom manual de sobrevivência e de resistência ao sofrimento que será nada mais que consequência dos ensinamentos rígidos e profundos recebidos por Lobsang no mosteiro Chakpori. Sem o que passara no mosteiro, Lobsang afirma sem dúvida que não teria passado por tudo o que passou na mão de autoridades agressivas que se deliciavam em matar e fazer sofrer outros seres humanos, e no meio disso Lobsang chegou a parar em prisões e chegou a tratar de pessoas em estado agonizante totalmente de improviso, seus conhecimentos médicos foram também postos à prova, e Lobsang se saiu muito bem, salvou a vida de algumas pessoas, mesmo em meio à completa devastação de um cenário de guerra e morte por toda a parte que se via.
   No livro Entre os Monges do Tibete vemos a fase da vida de Lobsang em que ele vai estudar medicina ocidental na Universidade de Chungking e depois vai para Xangai servir aos chineses, e aí acaba parando na Rússia, onde terá alguma sorte passageira, logo passando por novas dificuldades, passa por Nova York, e volta ao Tibete, depois indo para a Inglaterra fazer a Transmigração, passando por uma fase feliz na Irlanda já com seu novo corpo e vai ao Canadá.
   Neste livro já temos um entrecruzamento das histórias relatadas em A Terceira Visão e O Médico de Lhasa, e que terminará em novas revelações dos segredos tibetanos; por exemplo, o chamado Registro Akáshico, no qual se poderia ver toda a História humana psiquicamente, e a complexa operação de Transmigração que foi citada acima entre o inglês Cyrill e o lama Lobsang, além de relatos de viagens astrais bem curiosas durante todos estes acontecimentos. Lembrando que a esta altura seu guia Mingyar Dondup já morrera e se comunicava em espírito por telepatia e viagens astrais com Lobsang Rampa, Dondup já se encontrava, neste ínterim, na Terra da Luz Dourada, um plano bem superior que Lobsang ia algumas vezes por viagens astrais.
   O que podemos, enfim, tirar da leitura destes 3 livros de Lobsang Rampa é, sobretudo, uma lição de sobrevivência às adversidades, o lama tibetano passou por situações extremas, o que nos leva a questões esprituais profundas e também a questões sobre o quanto o ser humano pode ser cruel e, de outro lado, evoluído espritualmente, o que vemos na leitura de Lobsang é uma mistura entre fatos históricos dolorosos e uma espiritualidade sui generis que vemos no lamaísmo tibetano. Se é verdade ou mentira o que Lobsang diz, não importa, há conhecimento e sabedoria em tais livros, e isso é que é importante.

25/11/2012 Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário: http://www.seculodiario.com.br/exibir.php?id=3672&secao=14

  
  
   
         
   

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

REVOLUÇÕES

Eu matei Hitler e salvei a Alemanha.
Aniquilei a fúria dos
fascistas,
prendi os corruptos
e assassinos,
demoli o inferno
da injustiça,
colhi os mortos da guerra,
dei voltas na procissão
depois de ver Cristo
nas minhas costas,
disse para Stálin
morrer de frio
num Gulag na Sibéria,
matei todos os ditadores
e revivi o século de Péricles,
vi Sócrates desafiando
os homens de certezas,
derrotei Lúcifer
depois do céu cair
no Apocalipse,
enterrei Bin-Laden
e tomei o petróleo
de Saddam Hussein,
e deixei que pedófilos
e estupradores
fossem queimados
na Ilha de Lesbos,
com mulheres guerreiras
gritando suas
independências financeiras.

15/11/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

ERNESTO, O HONESTO

Ernesto é um homem honesto.
Devolve o troco que
vem a mais,
conta a verdade
mesmo quando
ela dói,
não falta ao trabalho,
não reclama dos dramas
e das tragédias.

Ernesto é um homem honesto
e repleto de compaixão.
Ama a vida, ama a sua
única mulher,
nunca teve outra,
ama seus filhos,
ensina-os a honestidade,
o caráter,
a ética,
a humildade,
a coragem,
tem os pés no chão,
reza a favor do mundo,
dá esmola,
ajuda um cego
a atravessar a rua,
ele sorri ao se deitar,
não chora à toa,
todos gostam dele,
Ernesto é o homem
mais amado do mundo.

15/11/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

DO MANIFESTO

Não esqueço a palavra,
mesmo quando está encantada,
quando custa à pena
desempená-la.

Ai, que de tudo tenho
dito com esta palavra,
com estas palavras!
E outras, aquelas que
vêm de acolá,
de um sei lá,
talvez de um
não-lugar.

Eu encontro a palavra súbita
no poema,
monto o quadro
que ela
me dá,
palavra sucinta,
breve e prolixa,
palavra composta
no verbo
que afirma
e confirma
no verso
o mistério
de seu uso
manifesto.

15/11/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

BATIMENTO DA MÁQUINA

Quando o tempo se abriu,
eu vi claro o sonho vítreo.
Passou em mim a totalidade
como uma certeza de ser absoluto.

Cada instante como engrenagem
de uma grande máquina
pensante chamada universo.

Os livros que li formando
mapas infindáveis
na minha cabeça,
ouvindo o meu próprio ser
com o sentido fundante
que nunca se pega
senão no sopro do vento,
os significados e sons
conjugando
um grande sistema
onde
estou acompanhado
de fantasmas e pessoas
no imenso entorno
do meu corpo
onde eu estou e sou,
e a vida pulsando
austera como um relógio
ritmado com
a batida
do meu coração.

10/11/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

domingo, 11 de novembro de 2012

SADE E A LIBERTINAGEM

   Marquês de Sade, aristocrata e escritor francês que viveu entre os séculos XVIII e XIX, teve sua obra literária sempre marcada pelo que se chama de libertinagem. Tal ideia de vida tinha cunho filosófico e sempre foi eivada de muita polêmica, Sade usou este artifício para construir as suas estórias, seja no apelo ao grotesco, como aparece na sua forma mais exagerada na obra Os 120 Dias de Sodoma, ou como tese filosófica, na obra A Filosofia na Alcova, ou como as vicissitudes ou desditas da virtude, na figura de mulheres virtuosas humilhadas, tais como nas obras Justine ou na engenhosa A Divina Marquesa.
   Sade passou muito tempo preso na Prisão da Bastilha, e foi perseguido tanto pelo Antigo Regime, como pelos revolucionários iluministas de 1789, e também por Napoleão Bonaparte, tendo terminado seus dias no Hospício de Charenton, período que foi romantizado pelo filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, onde o mesmo é idealizado em cenas como escrever na própria roupa com sangue por não ter pena e nem papel para escrever as suas obras. Outros filmes foram também inspirados em Sade e nas suas obras como a polêmica película Saló ou os 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasolini.
   Sua obra mais polêmica, Os 120 Dias de Sodoma, objeto de muita estima pelo próprio autor, foi julgada perdida por Sade, pois o rolo em que fora escrita havia sumido após a retirada de Sade da Bastilha às pressas, logo antes da Revolução de 1789, obra que foi recuperada e então publicada no início do século XX, uma espécie de Decamerão da libertinagem, citando Boccaccio. O sumiço do rolo fez Sade se desesperar e verter lágrimas de sangue segundo o próprio, Sade que então tentou pelo resto da sua vida imprimir o espírito de tal obra em seus outros escritos por esta perda inconsolável, a qual foi sanada muito depois de sua morte e se tornou na História o seu escrito mais polêmico, “a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe.”
   Sade faz nesta obra uma enumeração exaustiva de inúmeras paixões da libertinagem, um elenco da filosofia lúbrica que vai nortear todo este escrito, em seus excessos, sua justiça um tanto egoísta que cerca os quatro cavalheiros libertinos Durcet, o Presidente de Curval, além dos irmãos Duque de Blangis e Bispo de .... (o nome aparece assim no início e depois será apenas denominado Bispo). O total são seiscentas paixões em 120 dias, o que são 4 meses de libertinagem com 4 classes de vícios (as paixões simples, duplas, criminosas e assassinas).
   Os quatro cavalheiros aristocratas citados acima vão organizar uma orgia jamais vista, talvez, em toda a literatura, ou na sua forma radical e apelativa ao grotesco como se vê nesta obra de Sade. Pois tais cavalheiros vão realizar todas as suas devassidões e licenciosidades, as chamadas paixões libertinas, tudo justificado filosoficamente (tal filosofia muito mais presente em A Filosofia na Alcova, aqui em Os 120 Dias de Sodoma como um paroxismo do que esta representa e é capaz de realizar) na sua forma a mais grotesca e iníqua possível. Os personagens da obra são reunidos num castelo de luxo, são vários personagens que são divididos em diversas classes e que numa matemática exaustiva segundo um regulamento rígido com sanções também rígidas, organiza as sessões orgiásticas de que a obra é repleta, ou melhor, do que unicamente Os 120 Dias de Sodoma é composto.
   Crianças e jovens, sejam do sexo masculino ou feminino, são raptados de suas famílias e levados para um castelo de difícil acesso do qual ninguém tinha como fugir, putas já com idade avançada fazem o papel de narradoras, incidentes do castelo são intercalados com suas histórias, principalmente na primeira parte, as das paixões simples, em que a prostituta Duclos narra as suas aventuras de quando mais jovem, o que excita e inspira as fantasias dos quatro libertinos comandantes das orgias do castelo, as outras partes são mais resumidas, algumas pontuações de Sade revelam que a obra não estava completa, mas Os 120 Dias de Sodoma, se a contar das paixões simples, já rende uma estória extremamente bem escrita, uma forma escorreita num conteúdo grotesco, esta é a fórmula que compõe esta obra de Sade, pois todos os seus escritos tem uma forma bela de expressão, com o paradoxo de exibir com esta bela forma as paixões libertinas que são em sua substância, elementos de fealdade para uma moral conservadora.
   Pois a impressão que vem da leitura de Os 120 Dias de Sodoma, é a de que Sade leva ao paroxismo sua intenção de chocar a sociedade, o que em sua época pode ter sido necessário e muito importante, num mundo que ainda tentava se libertar da moral rígida do Cristianismo, por exemplo, e talvez apoiada por uma emancipação de um pensamento ateísta e materialista, e de uma obediência aos impulsos da natureza que são a grande filosofia libertina de Sade, mas que hoje podem ser confundidas com um pastiche, pois o humor negro de Sade, que era contestatório na sua época, pode ser entendido hoje não como choque e enfrentamento, mas como pura piada. O que se vê em Os 120 Dias de Sodoma, também, é uma manipulação dos personagens da obra ao bel prazer por Sade, como se grande parte dos personagens que ali aparecem não tivessem autonomia ou poder de reação, as manipulações sexuais parecem se compor de objetos e não também de pessoas, Durcet, o Duque, Curval e o Bispo parecem os únicos personagens vivos da estória, junto com Duclos; todos os outros se tornam entes quase mortos e manipuláveis ao gosto do freguês como objetos sexuais inanimados, talvez seja esta a grande crítica para a obra Os 120 Dias de Sodoma do Marquês de Sade, além de personagens demais, são personagens em sua maioria muito pobres de personalidade ou autonomia, pouco definidos para o que se quer de um romance de fôlego, sem falar nas repetições de ideias e situações, tais como nos enfadonhos trechos sobre cropofagia, e o apelo do grotesco hoje já não tem mais a sua função de contestação, restando do humor negro e dos exageros de Sade, em tal livro, o riso do pastiche, claro que não para corações e estômagos fracos, pois a leitura desta obra requer um estômago e um coração fortes.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
 
  
Link da Século Diário: http://www.seculodiario.com.br/exibir.php?id=1882&secao=14