PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

continuação

DEFINIÇÃO E CÂNTICO




O amor é o que permanece depois do amor

como fonte de reinício constante.



(Eu te direi que te amo, porque reconheço

em ti a mulher sonhada e não a mulher

que ainda há pouco tive nos braços.

Tu não te repetes para mim:

És sempre a aguardada, a que faz com que

meus olhos perscrutem o fim do caminho,

para onde seguirei à procura do bem

do amor,

que és tu.)

VERBO AMAR

A REINVENÇÃO DO AMOR



A noite tem os pés macios.

(Teu corpo, de um moreno pálido,

é, como a noite, brando e cálido.)



A noite escorre nas montanhas.

(Teu corpo é carne fugidia,

que some logo chega o dia.)



A noite deita-se no vale.

(Teu corpo deita-se comigo,

que amar, na vida, é nosso abrigo.)



A noite abraça os edifícios.

(Teu corpo, treva e luz, tremendo,

faz-se um com o meu, enquanto o prendo.)



A noite entra pela janela.

(Teu corpo, aberto ao meu desejo,

é mar convulso em que velejo.)



A noite invade as tuas carnes.

(Teu corpo, que é noturno e ardente,

é carne que a minha alma sente.)



A noite esvai-se num mistério.

(E enfim teu corpo, sossegado,

dorme, depois de tanto amado.)



Assim, por sermos quem nós somos,

sabendo dar-se o que nos damos,

noite após noite um só nos pomos

e o amor nós dois reinventamos.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

MEMÓRIA DO AGUILHÃO

Numa pintura rupestre tempestades corriam,

Eu via de um tear amarelo ouro

As fuligens dos torpores,

Era a guilhotina mais perto da ciência

Que eu pude ver,

No verde paraíso que secava

Ao sol de novembro,

Perto das cálidas feiticeiras

Dos salões de fumo,

Pasmos os céus da viga universal

Das cadeias alimentares,

Versos puros de almas puras

Nos horizontes de cobre,

Memória infinita

Sem perdão aos autores brutos

De poemas liquidados.



Corvo de fogo fóssil,

Abutre da fome canibal

Dos ossos de além para o vinho.

Bêbado e risonho

O frasco da uva alcoólica,

Peste berrando no ídolo de madeira

Dos antepassados.



Touro de fumaça no ódio da tela preta.



Pincéis de escárnio na virgem

Que olha o seu filho divino.



Três mil anos

Mais sangrentos

Que a guerra dos holofotes.



Três mil olhos

Mais sangrentos

Que a noite dos cantores.



Um alvo toda a noite

Espumando delirante

A própria noite

Do fim.



Córregos de agonia

Na paz duradoura

Dos homens pensantes

Com a coragem esquecida

Nos pórticos queimando.



Viagem das viagens

No ópio que tinha

A mão da névoa.



Loucura da terra quente

Corrida dos sentidos.



Serpente da memória

Que lembra

Dos bichos que nasceram

Como enforcados.



Desde o telescópio

Não se viu invenção dantesca

Para os olhos das galáxias.



Desde a invenção da alegria

Não se viu ninguém

Abraçar a tristeza.



Tenho um verme por dentro

Como a mansão dos deuses livres

De andar na dimensão do fogo.



Mais três mil anos sangrentos

Como uma barbárie do coração

E do vulto das coisas que se veem.



Mais um livro que se rói

Com os cupins do tempo.



E lá, de novo, a caverna escura

Dos mistérios eróticos

Do selvagem das cidades.



Mais tempo para os concertos

Dos tigres e dos leões

Que pulam na ferocidade

Da lama.



Um tempero cáustico

Para a fruta do pecado,

A maçã do átomo.



E lembraremos:

Mais um poeta

Que tem dor

Por saber

Que não pode morrer

Sem ter deixado

Seus livramentos celestes,

Como se é na dor

A todo tempo

Que não se quer,

E que no ódio ao tempo,

Faz sangue para o palco

De todo o tempo,

De todo o espaço sidéreo,

De toda planta carnívora

Da insanidade,

Para o altar saqueado

Do amor de sua musa,

Para levantar

Os náufragos estelares,

Para fugir dos dentes

Da morte,

Para que se diga à vida

O muito que ela contém

Em sua música

De cristais.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

POEMA DE EXALTAÇÃO DA VIDA VAGABUNDA

O que tenho talvez ainda na vida

Se dá com um verso então subalterno

Da escrita, nos dias que silenciam no campo

Volta-se a si mesmo

Por vazios e encostas muros palavrazes frases



Tenho dó do horror que pode ser um não

Pois tememos sempre uma invasão

De nossas consciências,

E o vivo dentro não pode explodir

Intramuros calefação engodo peste e solidão

Porco terremoto ventre fatias,

Rocha rocha pedra rocha

Patifes vagabundos desertores de tudo e de todos

Início sem fim início sem

Arte pichação recreio



Com isso

Sem aquilo

Sem nome

Sem rumo

Com carne

Fala muito do corpo e da queda

Fala da loucura cura

Tamanhas ilusões sem esperar

Segredos feitiços cheios de armas

Fé resoluta pecados chatos



Eu tive glórias e desaforos

Somos todos iguais, somos todos diferentes

A saga do velho planeta

Sob outonos sob invernos

Precipícios internos versos

Perto de mais universo, talvez



Ali um pouco longe ali

Sem rosto sem cor sem história

Sorte rara do tamanho de um gigante

Diamante

Criativo fogo álcool e rua

Ali acolá

Até lá bem de lá do lugar estranho

Eu tive sérias raivas tive mesmo no esgoto

Estranho bem de lá qualquer lugar

Ah! Queimo tudo que passou passou como nada



Definho sem poderes de crer e não crer

Somente como humano demais humano

Cara de idiota e gênio de facínora

Uma vez mais

Tanto faz

Tanto

Faz tempo

Que não há

Tempo

Que eu criei

Tanto faz

Venha até a mim sem falar nada, cale-se



O que foi criatura anjo ou babaca

Gordo babaca mais bacaca baba

Antigo simbolista autor anacrônico

Coração de ferro transe de infernos

Meio maluco meio inteligente

Tanque do fim findo fomos tanques

Eu tive bem do sonho bem do paraíso

Fantasia fantasma

Fantasia fantástica

Fantasma suástica



Oh! Perco perigos portos anormais

Subsolo subtenente

Homem de farda elegante e educado

Homem histérico quando com arma

Eu ria: “Quá! Quaráquáquá!”

Eu xingava: “Filho de Satanás!”

Estive lendo fins sem emoção

Retratos velhos

Olhos desbotados poças de sangue mel e filme

O doido morrera queimado eu nem vi

Ai! Eu via uma enorme TRIP uns milhões de decibéis

Oh! Não se acerta na loteria dos desprezíveis

Eu ria: “Quá! Quaráquáquá! Quá! quaráquáquá! Ele morreu ...”

Tempo de sacanagem pura sacanagem da sacanagem

Canais de ofertas televisivas um encanto de modernidade sedução

Jogo de cena êxtase dia de finados



Eu subjuguei Cristo às ordens do Diabo, subornei Judas

Ainda teria que me fingir de morto e dar um belo susto no povaréu,

Feito fogo sem limite e hora marcada

Relógio do óbvio quebra na quase tragédia tragédia



Eu não disse morrer

Sem que seja fatal

Até em brincar

Brincar de apaixonado brincar de revoltado

Eu não disse morrer sem fatal

Eu não fatal disse brincar morrer

Eu não morri morri não

Eu não fatal não morri

sábado, 15 de maio de 2010

LUCIFÉRICO

“O portador da Luz” chegou:

__ Basta acampar os notívagos do chão, do subterrâneo vem o sofrer, à superfície eles querem volver ... (Falou o criador do inferno, o criador da argúcia, ele, o dono da palavra que ali roía os ossos de mais um – A Inveja!)



Sejais funestos, rubra veemência,

No cárcere, eis:

“Gladiadores, os loucos férreos

Que à noite se comprazem do instinto,

Ali gritava o subterrâneo ...

Enfim a tempestade do castigo

Sobre o orgulho de Lúcifer ...”



__ Por todas as terras devastadas, o desvario ali gritava, venham mordazes! Tudo se fez para vocês, os altiplanos são sonhos, são delírios ...



A beleza do Anjo, o capital chamado solidão.

Tomaste o meu cajado? Te Deum ...



Eu sou o Belo, o Anjo, pendia de minha boca

A serpente, tive meu coração destroçado

Pelo Infinito, Deus assim o quis,

E onde fui pensando ser livre?

Senhor da decisão?

Por acaso pensei: “Eu sou livre!”

Eu quis destroçar o meu coração?



__ Ali a serpente se enfurnou, minha língua era a Blasfêmia ...



“Fallen Angel of Doom”



A lua era a sombra, a lua que não tem almas,

Ali só ficam os sem-Deus ...

Assim falou o Desgraçado



Para onde vais? Dai a César o que lhe convir,

Dai ao honrado a honra, e deixai o invejoso queimar ...



Dai o céu teu, e não direi o céu teu ...

Dai o inferno teu, e direi o inferno teu ...

Mas, uma e a mesma verdade: sou terra, sangue e veia.



Observai bem os audazes, não os cômodos,

Olhai bem e sinta o despudor

Cai o sem-céu, o sem-Deus ...



Vem um versinho de langor e lamento:

“Nas horas que correm, tudo sempre esteve,

Nas horas que correm, tudo sempre está e estará ...

Perdi o meu olho triste para um maldoso duende,

Perdi o riso e o dei ao Corcunda,

Eu o vi com os ombros e o riso infernal.”



Mas ... calai-vos, idiotas! A sangria do vinho foi um delírio?

NÊNIA

Se assevere agora do falso testemunho

Perante a necrofilia dos combates,

Se tua alma cantava nas trevas apavorada,

Se a dor de abster-se de algo

Seria um medo evitável praticando o vício,

Daí não se importar quando ou onde

Se deu um inferno de vontades subterrâneas

Que te levaram à loucura.



O feitiço daquelas orgias do passado

Se tornando delírio e vergonha,

Se os astros já não cintilam

Dentro de teus olhos,

Ladrão silvícola,

Homem de selvageria,

Ferro de assombro sob lágrimas e vento,

Teu infortúnio era cair na terra condenada

Dos prisioneiros macilentos que

Foram olvido, sacrilégio da espécie,

Homem, que entregue à embriaguez

É uma inspiração forte

Tal é a arte de Michelangelo.

domingo, 9 de maio de 2010

NECESSIDADE DO OCASO DOS CORPOS

Há tempos que eu pensei em um fim de minha vida,

Eu que tive sonhos de encontrar a matemática dos astros

E a mecânica perfeita sob o caos dos átomos,

Eu que anunciei aos transeuntes da rua ao lado

A perdição de um dia sem sol,

Eu que bebi a tempestade e que delirava

Por um doce lar na estação do verão,

Eu que observei com olhos de cientista

Os menores espasmos da natureza,

Eu que olhei para o nada ao ver o horizonte

E ter nele o mundo que nunca verei,

Eu que estive com febre ao olhar calendários

De mulheres gostosas seminuas,

Eu que não me preocupei com o que me bastasse

Porque nada nunca me bastou,

Eu que montei nos cavalos selvagens

E que enfrentei o leão da montanha,

Eu que cavei areia nos desertos

Para montar castelos tão vulneráveis

Quanto o corpo humano,

Eu que nunca aprendi um instrumento musical

Por já querer ser músico

Sem notar as notas,

Eu que nunca parei para olhar o tempo

Porque ele nunca para,

Eu que, num instante de desejo,

Tive que sentir arder a minha alma

Nos meandros da libertinagem,

Eu que me descobri agora

Um homem digno da terra que me engolirá.