PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

ELON MUSK E O TWITTER - PARTE 2

“estavam ocorrendo demissões sem o aviso prévio de 60 dias”


Por fim, Elon Musk completa seu acordo de U$44 bilhões para a compra do Twitter e dissipa os ares de incerteza que estavam no ar. Contudo, a seguir vem a demissão do então CEO da plataforma, Parag Agrawal e de dois executivos, levantando novas questões sobre o futuro da plataforma. Um dos sinais dados por Musk, por sua vez, foi a de estabelecer uma nova política de moderação de conteúdo para o Twitter, segundo um conceito mais extremo de liberdade de expressão.

Elon Musk, após o anúncio de compra do Twitter, postou na plataforma um vídeo de si mesmo entrando na sede da mesma carregando uma pia de cozinha e a legenda: "Let that sink in!". Pia em inglês é "sink", e a expressão "sink in" quer dizer algo como "cair a ficha", então, a legenda dizia algo como "Vamos fazer cair a ficha". Elon Musk também mudou a descrição do seu perfil no Twitter para "Chief Twit" ("Chefe Twit").

Após a dissolução do conselho de administração do Twitter, Elon Musk se tornou o único diretor da plataforma. A decisão, segundo Musk, foi a de reduzir a força de trabalho da plataforma, uma vez que esta estaria perdendo mais de U$4 milhões por dia. Nesses dias começaram diversos relatos de funcionários do Twitter que tinham sido demitidos, com perguntas como sobre o futuro da moderação e retirada de conteúdo nocivo na rede social.

Em meio às demissões em massa feitas, funcionários relataram terem sido desligados dos laptops de trabalho, do Slack, um sistema de mensagens, e com o quadro de cortes abrangendo, por fim, departamentos que iam do marketing à engenharia, incluindo funcionários de comunicação, desenvolvimento de produtos e curadoria de conteúdo. Por sua vez, funcionários demitidos da plataforma por Musk entraram com uma ação coletiva nos Estados Unidos em que argumentavam que estavam ocorrendo demissões sem o aviso prévio de 60 dias, violando tanto a lei federal como a do Estado da Califórnia.

Em meio à confusão de Musk, com demissão da metade de sua força de trabalho no Twitter, impacto entre anunciantes poderosos, lançamento e descontinuação de recursos de modo inconstante, causou, por fim, uma fuga de executivos sêniores, com a plataforma entrando no limite de sua operação, com Musk admitindo que era possível até a falência do Twitter.

O caso do selo azul “Oficial”, o chamado Twitter Blue, por exemplo, foi uma ideia de estabelecer contas verificadas não mais por notoriedade, mas com o pagamento de U$8, o que causou a presença de contas falsas estando como verificadas, o que levou a plataforma a retirar o selo azul para depois reintroduzi-lo, para que contas verificadas pudessem confirmar a sua identidade, ou seja, uma confusão e um domínio da imprevisibilidade, segundo uma perspectiva acionária.

Dentre as demissões e dissoluções, houve a da equipe de combate à desinformação na plataforma, grupo responsável pelo monitoramento de conteúdo da rede social, no qual se cumpria funções como a de destaque de fontes de notícias com checagem, postagens confiáveis que apareciam em sequência, sendo acessada na maior parte dos idiomas mais falados do mundo. Portanto, foram dissolvidas equipes nos Estados Unidos, em Sydney, Londres, Accra em Gana, Tóquio, São Paulo, Cidade do México e Singapura, unidades que acompanhavam postagens em inglês, espanhol, árabe, hindi, japonês e português.

Embora o Twitter não seja a rede social mais usada nesses países, ela é de rápido compartilhamento e disseminação, com desinformação que sai de lá para outras redes. Por sua vez, diferentes locais de diferentes idiomas possuem problemas diferentes também. Isto é, em lugares em que se fala o árabe o problema é a presença de spam nos trending topics. Na África, por sua vez, o escritório em Gana era o único no continente, com um desleixo enorme em relação à África Subsaariana, tendo a empresa como foco o hemisfério norte, portanto, com usuários manipulando as redes destes locais sem moderação há tempos, com muita violência e desinformação.

Em meio às demissões, também houve funcionários que pediram demissão, sobretudo depois do tal ultimato feito por Musk, via e-mail, para que a equipe se comprometesse a “longas jornadas de alta intensidade” ou deixar a empresa. Musk dizia que os funcionários teriam que trabalhar por longas horas e ser “extremamente hardcore” ou se demitirem. Por fim, os que recusassem a proposta receberiam uma indenização de três meses. 

Então, dentre os funcionários que pediram demissão, alguns tuitaram usando a hashtag #LoveWhereYouWorked (que pode ser traduzida como "ame onde você trabalhou") e um emoji de saudação para mostrar que estavam saindo da empresa. Sem considerar os funcionários que ficaram, aqueles que pediram demissão demonstraram uma relutância em permanecer em uma empresa onde Elon Musk demitiu metade de sua força de trabalho com rapidez, incluindo a alta administração, em um processo de mudança radical da cultura da empresa para enfatizar longas horas de trabalho de alta intensidade.

Quanto à publicidade, com as polêmicas das demissões, da falta de moderação de conteúdo e, por fim, da restauração de contas de usuários que estavam banidos da plataforma, como Donald Trump, por exemplo, a plataforma está com menos anunciantes de grande marcas, com queda da receita de publicidade. Elon Musk, contudo, não se importa, e já manifestou o desejo de que a plataforma se sustente através das assinaturas de seus usuários, e não mais através da publicidade.

O Twitter, até antes da sua aquisição por Elon Musk, foi uma plataforma que se esforçava em transformar a sua influência cultural, política e na mídia, em receitas de publicidade. Agora, com a  atuação disruptiva de Musk, parece que não depender de anunciantes abre caminho para que o novo CEO utilize a plataforma como um veículo da liberdade de expressão segundo critérios absolutistas, de queda de qualquer controle ou moderação de conteúdo, se tornando o Twitter uma rede social de desinformação e de extremismos. 

Antes de Elon Musk comprar o Twitter, a plataforma já tinha um negócio de publicidade menor que o do Facebook, por exemplo, pois não oferecia o mesmo nível de segmentação de usuários. Se Elon Musk consegue efetivar o serviço de assinaturas, seria algo que outras mídias não conseguiram, ou seja, tal objetivo se trata de um modelo improvável de sustentação de uma plataforma, de uma rede social. 

A amplitude dessas assinaturas no X, ex-Twitter, por seu turno, também é questionada, pois é uma rede social de nicho, utilizada sobretudo por membros da mídia, políticos e acadêmicos, e que agora está sendo povoada por haters, negacionistas, extremistas e agentes de desinformação. 

Por exemplo, mesmo que todos os 217 milhões de usuários diários do X, ex-Twitter, assinassem por U$8 dólares por mês na plataforma de Elon Musk, isto geraria uma receita anual ainda bastante inferior a de uma Meta, por exemplo. Musk pode até contornar estas limitações, mas terá de reverter uma receita publicitária que ele mesmo destruiu, manter seus sistemas funcionando, e algo que está em questão, que seria evitar a violação de leis sobre direitos autorais e discursos de ódio. 

E, para que o X, ex-Twitter, continue operando, a plataforma terá que manter uma boa relação com a Apple e Google, pois estas empresas controlam as lojas de aplicativos em que o X, ex-Twitter, está disponível para download e instalação em smartphones, portanto, com a plataforma dependendo bastante de tais lojas para se sustentar como negócio.

(continua)  


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/elon-musk-e-o-twitter-parte-ii/

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

ELON MUSK E O TWITTER - PARTE 1

“Musk comprou o Twitter por US$ 44 bilhões”


Elon Musk progrediu como empresário com um volume de trabalho imenso, incansável, típica de um workaholic. Depois de sair da África do Sul e estudar no Canadá, abandonou os estudos, já nos Estados Unidos, para empreender, primeiro com uma plataforma online de jornais, vendida para a Compaq por R$300 milhões. 

A saga de Elon Musk foi rápida e eficiente. Com o dinheiro da venda feita à Compaq, Musk criou um banco online, batizado de X.com, que depois virou o PayPal, e que foi vendido para o eBay em 2002. Por sua vez, aos 31 anos, Elon Musk já acumulava uma fortuna de US$165 milhões. 

Musk, quando fundou a plataforma Zip2, por exemplo, dormia em seu escritório, trabalhando de 80 a 100 horas por semana, num ritmo alucinante, e que ele diz ter acelerado o seu avanço com suas empresas. Após a venda da PayPal, por sua vez, em 2002, Musk usou o dinheiro ganho para fundar três empresas, que seriam a Tesla, Space X e a Solar City. 

Depois de um começo difícil com a Tesla, num mercado ainda dominado por petróleo, com a empresa sendo produtora de carros elétricos, o jogo virou, e a empresa Tesla se tornou pioneira e referência na produção de carros elétricos, que ganharam as suas melhores versões. Em meio aos problemas iniciais da Tesla, por exemplo, Elon Musk obteve um empréstimo de US$456 milhões do governo dos Estados Unidos em 2008. Em 2010, por sua vez, a empresa se tornou a primeira montadora americana a negociar ações na bolsa desde a Ford, em 1956.

Musk, com a sua Space X, agora planeja viagens espaciais tripuladas rumo a Marte. As dificuldades ainda são enormes, o que inclui a distância e questões como radiação e de conservação física dos astronautas. A Nasa, por exemplo, tem planos para este tipo de empreendimento apenas para os anos 2030, pois ainda existem muitas limitações que devem ser superadas. 

Contudo, a Space X avança bem em seus estudos e experimentos, sendo pioneira no lançamento de foguetes reutilizáveis, ultrapassando rivais como a Nasa e a norte-americana Boeing, com oferta de voos espaciais mais baratos. Na esfera dos voos espaciais privados, a Tesla tem como concorrente a Blue Origin, do empresário Jeff Bezos, dono e fundador da Amazon. 

Elon Musk ainda teve uma outra empresa que se dedica a explorar o subsolo. Alguns anos atrás, a sua empresa Boring Company obteve a permissão do governo dos Estados Unidos de escavar um túnel de cerca de 12 quilômetros sob o Estado de Maryland. Musk tentou que este túnel servisse para a passar o seu futuro trem-bala eletromagnético, que ele batizou de Hyperloop, e que seria projetado para transportar passageiros a uma velocidade de até 1.233 km/h. O resultado foi nulo, e a startup Hyperloop One fechou.

Levantamento deste mês de setembro da revista Forbes avaliou a fortuna de Elon Musk em US$243,7 bilhões, sendo considerado, no momento, o homem mais rico do mundo, liderando o ranking da revista. Por sua vez, Elon Musk segue, então, em seu caminho de transformar a forma que se entende as indústrias do voo espacial privado, e também avança em áreas de inteligência artificial e de energia solar.

O Twitter, por sua vez, foi fundado em 21 de março de 2006 por Jack Dorsey, Christopher Isaac Stone, Noah E. Glass, Jeremy LaTrasse e Evan Williams, com sede em San Francisco, na Califórnia. O primeiro tweet foi feito pelo co-fundador do Twitter, Jack Dorsey, e que fazia parte de um sistema interno de mensagens para a Odeo, uma empresa de podcasting em que Dorsey, Stone e Williams trabalhavam na época, e que dizia o seguinte : “Estou apenas configurando meu twttr”.

A versão completa para o público do Twitter foi lançada em 15 de julho de 2006, se tornando uma empresa própria em 2007, sendo que, em outubro de 2006, Dorsey, Stone e Williams compraram a Odeo, criando a Obvious Corp, em que foi mais desenvolvida a versão final do Twitter. Em março de 2007, a empresa começou a ganhar popularidade graças a um festival interativo de nome South by Southwest (SXSW) em Austin, no Texas. O Twitter colocou grandes telas nos salões da conferência mostrando tweets ao vivo sobre o evento SXSW. 

O interesse pelo Twitter cresceu com esta estratégia de marketing e no final desta semana o seu uso diário triplicou. Após o sucesso no SXSW, foi criado o Twitter Inc., que era uma entidade corporativa e Dorsey virou o primeiro CEO do Twitter. Dorsey foi demitido da empresa em 2008 e retornou ao cargo de CEO em 2015, ocupando este cargo até novembro de 2021. 

Elon Musk, tuiteiro prolífico, anunciou em 4 de abril de 2022 a compra de 9,2 % das ações da empresa, tornando-se o maior acionista individual da empresa. A seguir o Twitter anunciou em abril do mesmo ano a entrada de Elon Musk para o Conselho de Administração da empresa. 

Esta era uma tentativa de impedir Musk de adquirir mais ações da empresa, pois sua nomeação como conselheiro da empresa seria um entrave para isto. A Comissão de Valores Mobiliários (Security Exchange Commission) dos Estados Unidos, segundo documentos oficiais apresentados, dizia que Musk não poderia, como conselheiro da empresa, ultrapassar a sua participação em mais de 14,9 % das ações até a reunião anual dos acionistas em 2024.

O então CEO do Twitter, Parag Agrawal chegou a anunciar em um tweet a entrada de Musk no Conselho. Contudo, na semana seguinte Musk declinou da proposta. Com este movimento, Musk ficou livre para adquirir mais ações da empresa. Em 4 de abril de 2022 ele compra mais 9,2 % das ações do Twitter e se torna o maior acionista da empresa. 

Por fim, em 25 de abril de 2022, o Twitter aceita a proposta de compra da empresa por Elon Musk. Depois de uma pílula de veneno, o conselho do Twitter achou por bem recuar e aceitar a oferta chamada de “cavaleiro branco”, pois tal possibilidade para uma empresa que nestes anos de atividade nunca foi rentável como outras redes sociais poderia não se repetir. Musk investiu U$33,5 bilhões para financiar a transação. 

Elon Musk se autointitula um absolutista da liberdade de expressão (uma versão controversa deste conceito, mais parecida com a prática legal norte-americana). Por fim, Musk comprou o Twitter por US$ 44 bilhões em 25/04/2022. Musk, ao comprar a empresa, prometeu mudar a característica da rede social como algo de nicho e ampliar os usuários dos Estados Unidos, por exemplo. 

Depois de suspender a sua oferta para a compra do Twitter, com alegações como a de que ao menos 5% das contas era de perfis fake e que havia muitos spams na rede social, Musk então traça a prioridade de remover os bots de spam da plataforma. Por sua vez, diante da polêmica, o então CEO do Twitter, Parag Agrawal, afirmava que as contas de spam na rede social estavam “bem abaixo de 5%, numa estimativa que permanecia a mesma desde 2013.

Parag Agrawal disse que não se podia reproduzir tais dados externamente, pois teria que se usar informações públicas e privadas para determinar se uma conta é spam, ao que Musk deu como resposta para a defesa de Agrawal desta metodologia um emoji de cocô.

(continua) 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/elon-musk-e-o-twitter-parte-i

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

HISTORICIDADE

Versos que campeiam o gráfico, puro malte esteta,

na verve mordida dos haustos metafísicos.

A parte um, um cabedal dos horrores,

os fantasmas e seus contistas.


Na babel, em roto canto de um rapsodo louco,

sapientia se maravilha em hexâmetro espondeu.

Lota de elfos, fadas, uns marfins, fumo,

fuzis e cartuchos. O poeta é um que faz

fantasia com o cano fumegante e a bala.


Na parte dois, este mesmeriza a astúcia

em sua própria garra, faz do veneno

que prova de seu veneno um antídoto.

O mundo mau é apenas uma súcia

de idiotas indo à pique.


Nas festas de sangue, o patíbulo estalava.

Um parque de cabeças mortas,

pelas espadas e pelos canhões,

os ossos decorando a tomada

do poder, um demagogo

derruba um déspota,

o mundo mau feito piche

envenena o solo, é o montante

famigerado da História

e de seus tiranos que morrem

de surra ou de bala.


Capítulo final,

a bomba.


29/08/2024 Monster - Gustavo Bastos  

O ELO DA VIDA

Ir à forra é uma desforra,

ir embora é uma revolta.


Partir é partir um coração.

Esvair-se é morrer.


Cair em si é voltar

à realidade.

Doer é crescer.

Sofrer é sucumbir.

Alegria prova dos nove.


Feliz é quem canta,

que tristezas viveu,

e valoriza o elã

quando o sol brilha.


29/08/2024 Gustavo Bastos - Vibe

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Crowdstrike - Final

“o erro decorreu de um software que serve para defender redes e não prejudicá-las”


Ainda persistindo esta utopia do impossível, de um mundo fora do regime de informação, o que se restringe a comunidades de subsistência originárias ou neo-hippies, temos a realidade inextricável, da qual não se pode escapar, que é ter a vida ligada de modo indelével a este regime de informação.

Falando em regime de informação, podemos seguir indicações da obra Infocracia, de Byung-Chul Han, que diz : “chamamos regime de informação a forma de dominação na qual informações e seu processamento por algoritmos e inteligência artificial determinam decisivamente processos sociais, econômicos e políticos. Em oposição ao regime disciplinar, não são corpos e energias que são explorados, mas informações e dados”, em que Byung-Chul Han diagnostica que a digitalização situa-se atualmente como um dos pilares da crise da democracia.

O exemplo dos aeroportos, no caso da CrowdStrike, é emblemático sobre este caráter de dominação, pois todos os envolvidos tiveram que esperar, paralisados, a “volta do sistema”. Ou seja, é uma “evolução” do que veio a ser tematizado por Foucault em Vigiar e Punir, sobre as técnicas de isolamento espacial e de adestramento do corpo, que era o sistema de domínio do panóptico, um observatório de vigilância permanente e, guardadas as proporções, onisciente no que se propôs. 

Esta “evolução” do conceito dos corpos dóceis da inflexão conceitual foucaltiana vira agora esta dominação através dos dados, a verdadeira localização que importa não é a do corpo, mas a dos dados, aqui podendo ir de Byung-Chul Han até Shoshana Zuboff, que defendeu a tese do capitalismo de informação, em que na obra A Era do capitalismo de vigilância, estabelece a arquitetura em que se dá este regime que impacta o nosso modo de vida.

A tragédia da concentração do sistema é que a entrega total de tudo a poucas empresas expõe este controle, esta dominação, à sua face invertida, que é seu colapso, sua fina camada que ao menor impacto rompe e, por conseguinte, rompe o sistema e testa os limites do tecido social, este que entregou as chaves da própria casa, ou seja, grande parte ou a totalidade de seus dados, a este sistema concentrado e centralizado. 

Por sua vez, empresas que deveriam estar sob vigilância a escrutínio do Estado, das instituições públicas, ganham a forma de uma arquitetura digital onipresente, com bastante poder, em que falhas globais são mais um custo debitado à democracia e à liberdade, com mecanismos frouxos de controle desta concentração das big techs.

A fé inabalável no sistema, na sua mágica, na sua aceleração, contudo, implica nesta alienação da própria autonomia para remeter falhas ao sistema e responsabilidades ao sistema, como uma criança que paralisa se há erro e os dados ficam em stand-by, devido “a uma falha global do sistema”. O aprendizado artificial da Falcon Discovery, por sua vez, é nada mais que para a sua função de monitorar e verificar aplicações não autorizadas.

Temos aqui uma máquina que aprende (machine learning), que agora pode atuar em conjunto com uma inteligência artificial, somente através de banco de dados, ou seja, literalmente, em matéria de habilidade cognitiva, com o passado, mas sem questionamento, sem capacidade de reflexão e de comoção, por exemplo, com o caos humano que a falha da CrowdStrike provocou. Ou seja, isso quer dizer que a Falcon Discovery “não viu” as milhões de vítimas da falha de seu sistema. O limite cognitivo da máquina se dá pelo fato da inteligência artificial fazer correlações a partir de um banco de dados, alimentando-se de seu big data, em que tudo é previsível e calculado, mas incapaz de lidar com fatos novos, com demandas imprevisíveis e ligadas ao imponderável.

O saber da máquina se dá por correlações e não por conceitos, ou seja, a reflexão sobre significado e sentido passa ao largo e além das captações que uma inteligência artificial pode fazer, e qualquer coisa que se assemelhe a um senso crítico e reflexivo, produzido a partir de um prompt bem colocado, não passará de um simulacro de um sistema que é cego para eventos. Ou seja, que nunca entenderá as dimensões da falha da CrowdStrike, ou indo mais longe, do lançamento das bombas de Hiroshima e Nagasaki, por exemplo.

A indisponibilidade da CrowdStrike provocou uma interrupção massiva que danificou cerca de 8,5 milhões de computadores Windows no mundo todo, em que apareceu a espiral da Tela Azul da Morte (BSOD). Este fato é notável e se diferencia de ataques cibernéticos maliciosos que já causaram interrupções de plataforma de nuvem e outros problemas de software, pois agora o erro decorreu de um software que serve para defender redes e não prejudicá-las. 

Por fim, a resolução do problema causado teve que ser manual, com profissionais de TI tendo acesso prático a cada máquina afetada, seja fisicamente, ou com orientações de modo remoto. Em todo caso, uma pessoa teve que inicializar manualmente cada computador no Modo de Segurança do Windows e aplicar a correção. Em casos de computadores criptografados com o recurso de segurança Windows BitLocker, por sua vez, uma conhecida conta de análise de malware e notícias de segurança no X, brincou : “Se você estiver usando o BitLocker, pule de uma ponte”.

Neste caso, os usuários não conseguiam inserir as chaves do BitLocker necessárias para desbloquear os dispositivos e aplicar as correções sem recorrer a soluções alternativas mais complicadas, então a Microsoft logo lançou uma ferramenta de recuperação no sábado subsequente ao colapso que incluía uma solução para o problema. Isto também expôs o fato da falta de treinamento de funcionários de diversas empresas para casos de falhas e erros de sistema, dando mais ênfase a produzir sem criar esta resiliência.

(final) 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/crowdstrike-final ​















quinta-feira, 22 de agosto de 2024

CROWDSTRIKE - PARTE 3

“o que ocorre é uma dissolução de responsabilidades”


No Brasil, como já dito nesta coluna, o impacto da falha de segurança da CrowdStrike foi menor. Primeiro, o baixo acesso do Brasil e de outros países da América Latina aos serviços da CrowdStrike se deve a este ser caro, tendo um custo de até dez vezes do que o de um antivírus normal. Portanto, grande parte da história de atuação da CrowdStrike se deu nos Estados Unidos, com prestações de serviços ao governo norte-americano. Por sua vez, a CrowdStrike ficou conhecida por ter agido na detecção de ataques de grupos cibercriminosos da China e da Rússia.

No Brasil, o baixo impacto da falha global da CrowdStrike, então, foi devido a presença de outras empresas de segurança cibernética que atuam por aqui. O mercado brasileiro tem a presença de marcas como a IBM, ISH, Logicalis, Accenture, estas sendo as empresas mais consolidadas por aqui. Por conseguinte, o nível de digitalização do Brasil em comparação a países desenvolvidos como os Estados Unidos ainda é baixo, com grande parte dos negócios ainda fora do mercado de nuvem, por exemplo. Portanto, há uma baixa adesão a serviços de proteção para redes corporativas e provedores de nuvem aqui no Brasil, sendo esta a especialidade da CrowdStrike.

O colapso provocado pela CrowdStrike foi de tal dimensão que trabalhadores de aeroportos tiveram que recorrer a práticas analógicas de registro, tal como a emissão de bilhetes de modo manual. O grau de dependência civilizatória em relação à tecnologia traz também, em seu bojo, a discussão sobre as responsabilidades implicadas tanto nesta dependência, como em seu agravamento, que é a concentração do mercado de tecnologia, o que dificulta uma relação madura entre civilização e o sistema de internet global. 

A questão da transferência de responsabilidades em relação a este sistema veio à tona com a falha global da CrowdStrike, uma vez que a pergunta que surgiu foi a de quem era a responsabilidade pelos danos produzidos a partir de uma “falha do sistema”. Ou seja, nos acostumamos com este eixo no qual as responsabilidades individuais, pessoais, empresariais e institucionais podem ser subsumidas num todo chamado sistema, em que um erro com efeito cascata é responsabilidade do … sistema? 

Sim, estamos diante de um dilema da infantilização civilizatória da divisão do trabalho, de tarefas etc, que surgiu desde a primeira revolução industrial, quando a cadeia de produção foi dividida e o trabalho, em consequência, também, substituindo o antigo artesão, que dominava todas as etapas de uma dada produção, por especialistas que dominam fragmentos de conhecimento aplicado ao mundo do trabalho e da produção de uma dada mercadoria. Por conseguinte, isto reflete no consumo desta produção, nos bens e seus usos, e que passam por um grau de ignorância e, portanto, dependência de socorro, a cada problema surgido deste dito “sistema”. 

A necessidade de uma abordagem geoestratégica para uma avaliação da extensão e profundidade do fenômeno tecnológico da digitalização em escala planetária se torna evidente, portanto, na crítica desta vulnerabilidade como algo que expõe toda a mágica da aceleração da realidade mediante este chamado regime de informação que, se sofre qualquer falha, pode ruir numa fração de segundos, colocando o rei nu, isto é, todo o sistema da internet global.

A civilização coloca seus dados dentro deste sistema que, por outro lado, pode colapsar com qualquer vento que sopre de um lapso, falha, erro etc. Esta pulverização geográfica, isto é, o derretimento do espaço e da distância pela comunicação remota instantânea, plantou uma metacidade deslocalizada, desterritorializada, em que vira um regime de informação que domina os destinos da civilização, que é este governo concentrado por big techs.

Por conseguinte, o que ocorre é uma dissolução de responsabilidades, que leva a qualquer falha ser dada ao “sistema”, tirando a autonomia civilizatória de soluções e a infantilizando num campo em que ela, a civilização, ao invés de criar complexidade, se acostuma a este cercadinho de palha das big techs, bem vulnerável ao sopro de um lobo mau que pode ser um hacker ou um lapso acionado automaticamente. 

O fato deste cercadinho de palha, desta metacidade pretensamente mágica e acelerada, ter sido colapsada tão facilmente pela falha da CrowdStrike, coloca novamente a discussão sobre a resiliência do sistema, a desvantagem de sua simplificação, e a necessidade de novos players no mercado para a sua complexificação e robustez, uma vez que, neste caso, plataformas alternativas, da filosofia de software livre, como a Linux, por exemplo, não foram atingidas por este colapso da CrowdStrike. 

Se quisermos ir mais longe, e o diagnóstico sobre a dependência, infantilização, imbricamento, vulnerabilidade, etc, entre civilização e sistema, tiver ainda uma esperança em relação ao que pode ser uma utopia do software livre e de um sistema de internet global de nova geração resiliente e com players criativos e diversos, dando fim à concentração do sistema, seja via medidas semelhantes às anti-truste que foi aplicada à Standard Oil, por exemplo, ou combate de monopólios e duopólios, recuperando a livre concorrência como num liberalismo de laissez-faire em sua versão de iniciativas digitais e tecnológicas, temos uma perspectiva de superação desta fase do sistema para uma outra fase, se possível, do software livre, de código aberto etc. 

No entanto, se diante do diagnóstico, for preponderante o prognóstico baseado no niilismo e  no pessimismo antropológico, estaremos diante de um sistema condenado, diante do qual se possa apenas prever a sua implosão por entropia, autofagia, mega-concentração, um sistema afeito ao colapso, potencialmente autodestrutivo, tomado por hackers, bandidos e robôs, uma terra de ninguém, abandonada.

O colapso final do sistema seria a produção de cidades fantasmas em que bots falam com bots indefinidamente. Um sistema capturado e zumbificado pela deep web, por psicopatia, crimes sexuais, financeiros, de crackers virtuais, incels, ressentidos, párias, vingativos de toda espécie, de chans cheios de avatares distorcidos que cometem bizarrices, alimentados num povoado de teorias conspiratórias, de fake news, com fóruns que viram cidades virtuais tomadas pela bandidagem e por uma grande maioria de bots, na criação de um simulacro dominado por fantasmagorias tecnológicas em ruínas abandonadas e sombrias. Um fracasso civilizatório, por fim.

(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/crowdstrike-parte-3

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

CROWDSTRIKE - PARTE 2

 “a internet atual é uma rede fundada em cima do risco”


O erro na plataforma Falcon, gerida pela CrowdStrike, teve origem operacional, o que implica uma complexidade maior de resolução do problema. O erro provocou um bloqueio geral, o que é mais profundo que uma simples não funcionalidade de antivírus. 

A intimidade de programas de segurança como a CrowdStrike com o hardware, uma vez que precisam levantar vários detalhes para atuar, deixou o sistema operacional Windows, por exemplo, extremamente dependente da Falcon, e este erro, portanto, demonstrou a vulnerabilidade desta relação umbilical entre sistemas de software e programas de segurança.

Mesmo que qualquer empresa do mundo lide cotidianamente com falhas de software, ataques que derrubam sistemas e erros técnicos, este problema em uma atualização de um programa de segurança cibernética teve um efeito global, uma vez que envolveu o sistema operacional Windows, de grande escala de usuários individuais, empresariais e institucionais. 

Este fato demonstra, sobretudo, algumas das consequências do alto grau de dependência de toda a cadeia de tecnologia de internet, desde a infraestrutura, hardwares e softwares, portanto, em mãos de poucas empresas, as big techs.

As reações em cascata de falhas do sistema evidenciam uma cadeia de infraestruturas diversas interdependentes, reveladas em face de uma teia de fatores em que a magia acontece, todo o sistema da internet e suas funcionalidades para a vida contemporânea, mas que se desfaz com extrema facilidade, caso alguma falha de sistema mais profunda, como a de um programa de segurança cibernética, por exemplo, cometa uma atualização equivocada.

Este foi o caso da empresa CrowdStrike e de sua plataforma Falcon e a relação destas com um sistema operacional difundido no mundo todo como o Windows, pertencente à big tech Microsoft, fechando o circuito do sistema e gerando esta reação em cadeia, o que foi um desastre cibernético, expondo a fragilidade de usuários, empresas e instituições nesta dependência de poucas empresas, as big techs.

O grau de problema gerado pelo erro de atualização da Falcon tem causa direta na assunção quase absoluta de poderes das empresas de segurança cibernética sobre os sistemas que administram, uma vez que ganham acesso irrestrito aos computadores para poderem viabilizar o escrutínio destes sistemas em função da própria segurança.

O nível de profundidade de atuação das empresas de segurança se funda em funções autorizadas pelos clientes como o de bloquear aplicações, instalar novos programas e ter prioridade sobre o comando das máquinas em que atuam. Outro ponto que se revela com isso é o seguinte : a internet atual é uma rede fundada em cima do risco.

A concentração da internet desfez a característica de seu projeto original, que era a diversidade do sistema, em que redes distintas atuariam, e caso um problema aparecesse, este seria local, garantindo a resiliência do sistema como um todo. 

A concentração da internet nas big techs se deu através da ocupação destes espaços diversos por domínios em que atuam monopólios ou, no máximo, duopólios, tornando um sistema que tinha certa resiliência numa rede vulnerável dado o aumento da interdependência de suas infraestruturas. O fim da livre concorrência dada pela concentração torna a internet uma rede de risco, sujeita a colapsos. 

A instalação da Falcon, da CrowdStrike, num dado sistema computacional, permite que esta plataforma escaneie ativamente ameaças a este sistema, o que retira a necessidade de execução manual de varreduras feitas por programas antivírus, por exemplo. 

O nível de atuação da plataforma Falcon dentro de um computador ou software como o Windows, por sua vez, inclui áreas sensíveis destes sistemas, o que implica em uma reação em cascata, isto é, um colapso, caso um erro cometido por esta plataforma da empresa de segurança, como o de atualização, tal qual ocorreu, venha sempre a acontecer. 


(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/crowdstrike-parte-ii