PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

MUSEU NACIONAL


“muito trabalho árduo foi perdido junto com a História”

Este museu mora na minha memória afetiva. Lembro de ter uns nove anos, e depois de uma excursão de minha escola num museu no interior do Espírito Santo, acho que um lugar com pássaros, se não me engano, cheguei nas férias de verão no Rio de Janeiro, e falei com meu pai que queria conhecer museus do Rio. Dentre idas a vários museus, lembro bem da Casa de Rui Barbosa, do Palácio do Catete e, claro, do Museu Nacional.
Fui ao Museu Nacional com meu pai e vi todo seu acervo, e eu era uma criança curiosa e devo ter, realmente, visto tudo que tinha no museu, passando pelos ossos montados de dinossauros logo na entrada, muita coisa de história natural, passando pelo setor do Egito Antigo, objetos históricos da família imperial, acho que foi no museu nacional que vi uma múmia de uma mulher sem nariz, e quando eu contei a história na minha escola já em Vitória, uma menina achou que era mentira, a múmia, se não me engano, era de uma esquimó.
Lembro que já na saída do museu, no parque da Quinta da Boa Vista, na porta do museu, começou uma briga homérica de um casal, daquelas brigas bem baixaria, e todos ali ficaram assistindo, e eu e meu pai também, uma coisa escandalosa da qual me lembro que encerrou a nossa visita naquele museu maravilhoso, o ano provavelmente deve ter sido 1991, e foi a fase em que eu comecei a ler a série de livros Conhecer Atual, no que um dia levei o livro 1 que tinha reprodução humana para a minha sala na escola, e os meninos puderam ver uma cena científica de sexo no contexto do conhecimento reprodutivo.
Bom, voltando ao tema aqui, claro, me refiro a tragédia do incêndio que destruiu o Museu Nacional e que é fruto do descaso do Brasil com a cultura, um país que vive só de momentos e que ignora a História, a memória e a cultura, e que nutre um desprezo pelo conhecimento que pude sentir dando aula para algumas turmas (não todas) de adolescentes, e que é reflexo tanto do momento que vive o país, como de uma certa alienação pela tecnologia, a qual poderia ser uma ferramenta do conhecimento, mas que também pode ser nociva ao se ter alunos tirando selfies no meio da aula.
A questão da verba pública logo foi levantada, a falta de recursos para os museus no Brasil, aqui tomando o exemplo trágico do Museu Nacional, num cenário, agora falando do Rio de Janeiro, em que temos um esqueleto do MIS (Museu da Imagem e do Som) em Copacabana, o qual sempre contemplo nas minhas caminhadas pela praia, e um investimento poderoso que houve no Museu do Amanhã.
Há todo o questionamento de se a UFRJ tem mesmo capacidade de financiar o Museu Nacional, muito se falou da verba que viria do BNDES, e se a iniciativa privada não poderia ter solucionado um problema de orçamento que vinha desde 2014, ou ainda se a UFRJ não deu prioridade ao museu, o que é inviável falar em prioridade em qualquer coisa num orçamento engessado que vai todo para pagar servidores, e que aumentou nos últimos anos da UFRJ. Se o MinC não teria sido também tolhido, como sempre, das prioridades da União, etc, etc.
Não culpo a UFRJ pelo acontecido, mesmo com todo o cenário de abandono que também inclui aqui a casa de shows Canecão, que está parada sem ter nada há anos. O problema eu julgo de prioridades de uma forma geral, o problema de uma postura cultural que não dá valor mesmo ao que se tem de patrimônio histórico e natural no país, e que vive de obras superfaturadas ou de iniciativas que acabam sem terminar e ficam em compasso de espera, como o caso que falei do MIS (Museu da Imagem e do Som).
E vemos então este fenômeno comum de comoção (justificada e legítima) mas que vem sempre depois da tragédia, tendo manifestações impostadas, de outro lado, por políticos em campanha que logo querem se promover como súbitos arautos da cultura nacional, e que agora virou cinzas naquela noite trágica da Quinta da Boa Vista, em que o abandono que já vinha sendo alertado há alguns anos não foi devidamente combatido com iniciativas que solucionassem o problema de financiamento para  a manutenção e incremento de eventos do museu, cujo último presidente da República a pisar lá foi Juscelino Kubitschek, e agora temos os tais paladinos da cultura depois do que foi consumido pelo fogo.
Todo um repertório de pesquisas científicas e antropológicas virou cinzas, tudo foi embora, alguns poucos setores se salvaram, como o herbário, o meteorito Bendegó, como símbolo de resistência, em meio a devastação feita pelo fogo, todo um trabalho de várias pessoas que não guardavam apenas um passado, não apenas um lugar que completa 200 anos de História, mas que tinha um compromisso com o futuro, muito foi perdido, coisas únicas, temas, arquivos, objetos, natureza, todo um trabalho voltado para o futuro, o registro que existia só ali, seja de história natural, seja de antropologia social, muito trabalho árduo foi perdido junto com a História do próprio lugar, e de sua potência simbólica, que agora grita como tragédia cultural.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/museu-nacional 





segunda-feira, 10 de setembro de 2018

JORGE LUIS BORGES, OS CAMINHOS DA METÁFORA


“os modelos metafóricos, embora limitados, ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo”

INTRODUÇÃO

Temos aqui, neste texto, partes resenhadas de uma palestra borgiana que veio a se tornar livro, Esse Ofício do Verso, e se trata de palestras proferidas em inglês por Jorge Luis Borges nos anos de 1967 e 1968 na Universidade de Harvard, e aqui temos a digressão do escritor sobre questões que tocam ao estudo linguístico e a literatura, numa riqueza de erudição própria do saber que podemos chamar sui generis da percepção intelectual borgiana.

O ENIGMA DA POESIA

Borges começa tratando da palavra enigma já dizendo que não tem nada a revelar neste sentido, que o mistério que cerca a poesia como um todo não é facultado a seu intelecto desvelar, portanto, aqui já de saída desmistifica-se a poesia e seu enigma, uma vez que o saber borgiano discorre mais etimologicamente sobre o tema do que sobre um suposto dom revelador de um adivinho das letras que Borges logo refuta.
Portanto, a postura de Borges diante da poesia é muito mais lúdica, de perplexidade, isto é, de um leitor que tem dúvidas sobretudo, do que de um conhecedor profundo de arcanos que na verdade não existem, pois o intelecto borgiano funciona aqui muito mais como um documento do que um fundamento para a análise da poesia.
E, falando da perplexidade, Borges nos convida ao próprio espanto histórico de que se fez e com a qual se edificou todo o saber filosófico, pois desde as origens do pensamento reflexivo da filosofia temos o espanto, aqui em Borges com a palavra perplexidade, a qual alimentou as especulações filosóficas desde os hindus, chineses, gregos, escolásticos, seja já na filosofia moderna com Berkeley, Hume, Schopenhauer, etc, tal sentimento de dúvida que Borges nos faz saber e compartilha como o começo de sua reflexão sobre o estro poético.
Na análise borgiana temos sobretudo a refutação da ideia ou conceito de forma e conteúdo como expressão, esta que vem da estética, e que está aqui bem citada no livro de estética de Benedetto Croce, área teórica que toma poesia e linguagem segundo o conceito de expressão, num modo de ver que Borges julga equivocado, pois se descola da coisa própria, a poesia aqui vira um fato para a teoria, mas Borges tenta situá-la em seu terreno, a vida.
Borges nos cita John Keats em seu famoso e batido soneto “On first looking into Chapman`s Homer”, o qual é, na fala de Borges, “um poema escrito a respeito da própria experiência poética”. Aqui vigora não a comunicação tomada como tal, mas uma paixão e um prazer, no qual Borges se vê impactado e impressionado não somente em seu intelecto como “com todo o meu ser, minha carne e meu sangue”.
E, fenômeno comum a um leitor, a primeira impressão ao ler um poema impactante nunca se repetirá, isto é, a primeira leitura de um poema causa ao leitor algo tão intenso em termos de deleite e paixão, que não se repetirá em leituras posteriores, já esfriadas por um conhecimento de causa. Contudo, Borges, mesmo diante desta evidência, ainda tenta nos fazer crer que a leitura de um poema se renova e que é possível termos “uma experiência nova a cada vez” com a poesia.
Borges lembra da importância da memória e do saber oral nos inícios da Antiguidade e como isto evoluiu para escritas sagradas como a Bíblia e o Alcorão, sendo aqui o sagrado como escrita do Espírito Santo, por exemplo, quando falamos das Sagradas Escrituras, e atributo do próprio Deus, quando falamos do Alcorão. E segue a leitura de Borges então sobre os clássicos, que lhe são mais caros pela beleza do que necessariamente por sua tomada imortalidade histórica.
E a experiência de beleza passa aqui por uma operação etimológica que se modifica a cada tempo e que na leitura poética tem em palavras de origens diversas uma leitura própria nestes contextos em que a poesia se exerce. A poesia ganha aqui impacto próprio, mesmo em diversas experiências de tradução pelas quais passe. Quando Borges nos diz da beleza, ele nos diz da permanência da poesia.

A METÁFORA

Borges logo nos dá o fenômeno inusual de que as combinações metafóricas se nos dão como infindáveis, mas que temos contudo o fenômeno usual de que muitos de nossos poetas se utilizam geralmente de metáforas surradas que se repetem pelos anos, no que Borges nos dá este paradoxo em que a amplitude da língua se limita, talvez, quando tratamos desta na língua poética.
Borges segue a sua análise e tem em conta que a metáfora se dá tal qual, isto é, funciona sempre para a percepção do leitor como ela é, ou seja, uma metáfora. Podemos até bem citar a análise borgiana das palavras poéticas como espécies de palavras-valise (aqui lembrando uma leitura exógena carroliana que aqui o resenhista inclui por contra própria) e temos então usos que se dão em metáforas que fluem diversamente, independentemente de condições lógicas prestabelecidas, mas do uso diverso feito pelos poetas e suas idiossincrasias simbólicas feitas pelo estro em ação, e que Borges nos dá exemplos como pela palavra noite, ampla em seu ir e vir pelas metáforas em seu sentido e uso.
Contudo, embora Borges nos dê a diversidade da palavra noite como metáfora, nos dá a entender também, por conseguinte, a limitação das metáforas surradas em palavras como lua, rio e pela manjadíssima comparação das mulheres com flores num estro romântico desavisado em língua-clichê que a poesia sempre conflui para o bem ou para o mal. Temos que a metáfora surrada dos poetas é um limite não linguístico, mas estilístico, em que o poeta é escravo de seu próprio estilo e não tem para onde ir.
E Borges segue a sua análise comparando o argumento filosófico em seu conteúdo lógico como insuficiente diante da verdade metafórica encontrada na poesia, e temos que Borges vê um discurso filosófico como o de Martin Buber, por exemplo, tendo mais valor como algo de beleza poética ou sonora como de um argumento filosófico propriamente dito, o que leva Borges a viver em Walt Whitman, por conseguinte, uma medida que ele usa para chancelar sua análise de que a poesia é mais convincente do que as ideias racionais, pois estas estão sem o brilho da beleza que a poesia proporciona.
E Borges nos dá sinais na poesia que atuam como velhos encantamentos que passam com o tempo a configurar truques de obviedade de modelos limitados de metáforas na poesia, desde afetações gongóricas do repertório barroco ou ainda imagens reiteradas de um estro romântico byroniano, por exemplo.
O que temos, por fim, dados exemplos de poetas históricos, é que os modelos metafóricos, embora limitados, ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo, “novas variações das principais tendências” em que temos o paradoxo dos modelos limitados, quase truques, com a inovação possível ainda por novos poetas históricos em correntes ou tendências ainda inauditas.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/jorge-luis-borges-os-caminhos-da-metafora








 


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

VÓ MARINHA


“o jipe voltou a funcionar e seguimos viagem”

Minha avó paterna, Maria da Conceição de Sampaio Bastos, faleceu recentemente, deixando este mundo com uma vida longa de 88 anos. Tive uma experiência muito próxima com ela, sobretudo nestes últimos anos, e o momento chegou, não teve o sofrimento desnecessário, mas por um destes paradoxos da vida e da morte, mesmo diante da situação difícil, tentamos com a medicina e as energias positivas conservar ao máximo as funções vitais de quem gostamos, e sim, é um paradoxo, pois a morte, dependendo do que ocorre, é um misto de dor e libertação.
A vida da minha vó foi repleta de altos e baixos, intensa, com muitos filhos, e interessante, com seu budismo e seus budas que povoavam o nosso apartamento em Copacabana, aonde vivi com ela seus últimos 12 anos, já com a viuvez do meu avô que se foi em 2001, pouco depois de meu tio que se foi em condições mais brutas, em decorrência da AIDS e de uma vida que posso chamar de dissipada.
Eu a chamava de Vó Marinha quando eu tinha uns 4 anos de idade, ela era aquela avó macia, mesmo sendo seu apelido Mãezinha ou Mariinha (daí minha corruptela infantil de marinha, como se ela vivesse no mar), ela era uma Mãezona, assumia toda a família e viveu diversas épocas, é admirável pensar que ela passou por Vargas, Juscelino, a ditadura e a redemocratização, formada advogada, enfrentando a barra quando meu pai foi torturado pela ditadura e tomado como desaparecido por um momento.
Barra pesada, mas sua coragem é eterna e terna, como avó um doce, mesmo quando eu estourava vinte bolhas de uma vez de seu papel bolha que ela estourava devagar um de cada vez. Aprendi com ela nestes últimos anos a entender a velocidade de uma pessoa que já foi muito ativa mas que encarnou a velhice logo após pelo luto que ela viveu nestes últimos 18 anos, muito agravado pela partida de mais um filho seu, meu pai Andrei.
E quando falo de velocidade diferente, falo de paciência e respeito, saber que a pessoa viveu e que talvez estivesse um tanto exausta disso tudo, pois nós que ainda não estamos velhos sentimos o peso muitas vezes, imagina alguém que já não tinha mais o brilho de outrora, pois a viuvez e o luto pelos filhos é encarado por cada um de diversas maneiras, cabe a nós respeitar as escolhas de cada um, se o luto vira luta ou se sucumbimos, não importa, cada um age e reage de um modo a certos eventos, uns aguentam mais e outros menos, e isto não implica em virtude ou vício, as coisas apenas são, assim como as pessoas.
Mas, embora no final ela já não quisesse mais brilhar, ela brilhou na nossa família por muito tempo, e a História que ela deixou foi de uma mulher com um coração gigante, que me deu um Papai Noel de pilha bem louco com seu sininho quando eu tinha 4 anos, que na casa maravilhosa do Recreio dos Bandeirantes preparava meu lanche com leite e nescau ou neston com pão e mortadela quando eu via TV de noite, e algumas vezes rolava limonada suíça.
A casa do Recreio, por sua vez, era um achado, com uma fonte que fazia papel de piscina pequena aonde eu brincava com tubarões brancos de plástico e num quintal com grama que tinha um cajueiro e do lado de fora da casa havia um bairro ainda bucólico com ruas de terra.
E falando em coisas curiosas, uma destas curiosidades, além dos budas que povoavam a casa do Recreio e que depois foram para Copacabana, lembrei do jipe que ela teve neste tempo do Recreio, e nos últimos dias de minha avó lembrei e falei para ela que uma vez o jipe pifou num túnel, estavam eu e ela, e ela disse para orarmos o mantra om mani pad-me hum, o jipe voltou a funcionar e seguimos viagem.
Neste dia, já no Hospital São Lucas, ela me olhou, me olhou por minutos, e eu vi seu filme todo passando neste fim que evitamos, mas também sabemos que precisamos.
Vó Marinha. Peguei teu Buda principal para mim, um beijo, te amo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/vo-marinha

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

ATTACK THE RADICAL


“Thomas Kid e Marlowe, os boêmios ingleses”

Tive que sonhar na blusa sedenta das paixões, sob o escrito a fada matou os lilases que escorriam na veste rubra que sangrava às setas da noite numa sirene interminável. Os cães mordiam as léguas escancaradas da desilusão, febre de montanha rugia como grito lancinante nas ruas de findo dia. Entrei pela porta de um cabaré, comi as sete putas vermelhas no calar da noite, os cães ainda mordiam os fundos de minha braguilha, mordi um esteta por riso indecente, não tolero o tom pastel de suas rútilas figuras, desci à sala, fumaça por todo lado, encontrei o fella absorto em viga de cânhamo, notei em seu semblante um ardor de fuga, era poeta na noite com os lilases ainda nascendo em suas orelhas, encarnei o silêncio de seus dentes depois de um sexo tântrico com velhos sonhos pós-estetas. Navio era seu nome, poeta das horas perdidas do calabouço, entrei nos sóis que eram a fuligem de um dia incinerado, encontrei os dias do horizonte sob auspícios de boa hora, a tela estava negra e os pincéis tinham secado, não tinha água, o esgoto fedia, tínhamos sede, e o vento era frio, vesti um bom terno, fui ao barco que morria no fim da noite, a lua estava em êxtase, não tive que morrer para ver a lua, fui até o distante lagar das secas estátuas, a praça lá fora, os meninos fundos olhos de aurora não tinham o que comer, roubei umas frutas no fim daquele sonho, corri depois que a tempestade caiu, não tive tempo de sorrir, os meninos gritaram que a noite era uma lua nua de desilusão. Tomei um vinho e fui ao mistério das sete chaves, o que era sombra dançava, ele era o inferno em céu de susto, o inferno como o mar quando cai a nuvem, o mar era meu mistério na dor estalada das horas que passaram ao meditar, voltei sob a tumba macabra que o ordeiro soldado da noite mais a brisa fundaram com o canto dos anjos, não voltei mais àquele lugar, e conheci cada inferno salgado daquele mar.
Pintavam as mãos macabras na festa das bruxas, eu vi os lamentos sob a chuva se adelgaçarem como a rima quando foge, entrei em pânico, surtei como um romântico aniquilado pela fúria, sonhei que era poeta morto no sol vermelho das mortes violentas, o ar fétido se rendia ao perfume, não sofri deste mal, o riso foi catarse na paz de haustos inda vivos, cada gesto do teatro nascia com o coro em horror, Ésquilo feneceu sob a mão pesada de Sófocles, a tragédia era honrosa como um rito bruto de espada corte e dentição, a boca cantava o verdor dos mares, as matas eram extintas dentro do peito que fervilhava nas águas da vinha marrom dos litros de vinho que a hora da asa voava, e todos os sinos tocavam na mesma hora exata, dancei o rock com o mistério em meus olhos. Encontro a paz mundial, depois os esqueletos da sociedade eram densos mas não matavam os que viviam livres, a liberdade atávica nasceu com Eurípides, o canto sepulcral era só a dose de vinho no coração grego, Dioniso renasce em cada fim que se dá no corpo da tragédia, o folguedo se consumou em Aristófanes, a veia crítica deve ao seu sonho o enredo total da flor grega. Dentro da modernidade, o mordaz se sobrepõe ao caráter, na vida os costumes se emolduram com mais radicalidade, depois dos êxtases racinianos, o clássico se demuda, a métrica se solta de vis pseudo-ritos aristotélicos, e o poema qual dança se funda novamente com o rigor da harmonia do sol em Moliére, a febre francesa era música, o viço elisabetano era a orquestra, amplidão em Shakespeare como nunca se via, Thomas Kid e Marlowe, os boêmios ingleses, uma juventude de poder, uma geração ao Globe, e a queda em Cromwell.
Cantava o último hausto, deve a poesia agora gritar na rua como fera indomada, nada de pueril boêmia, só o certo da noite como flecha que dança, catarse só em nota funda sem o vil metal, sem o fundo morto das formas estetas, sem a sombra de ligas esticadas de um verso longo, só o passo natural como ritmo de faca, só o langue sorver de luas dentro de topázios estudados, só o livre pensamento sob forma musicada, só o estar em música como fluxo de instante, só como o frio sem atavio, as memórias como o cão fundante de Eros e Tânatos, eufuísmo só como iniciação, no fim a fala natural deve estar domesticada sem estar adormecida, o rito em que se dá tal fúria é o termo lido de erudição anti-pedante, os sóis devem ser fortes, embora as tintas tóxicas fiquem mais ritmadas, e o emblema estará sob o fundamento de uma mordida seca e esclarecida, como as Iluminações de Rimbaud. Não há na estrada um fetiche de horizonte, não há totem de paisagem, só o fluxo como o calor rente ao frio se dá em tal nuvem sem susto ou rompante, tenho as estórias bem enumeradas das noites que fogem tais os poemas que escorrem de luta e sangue como em dança bem prateada, o ouro deve ser um valor, mas não há ouropéis como numa mão sem treino, o verso deve estar focado, e a prosa explodida.
Semente é o caule, o tronco é a ideia, a copa a metafísica. Metro dominado, fúria sob ternura, dentes calmos, corpo controlado, êxtase iluminado, quando os campos selvagens caem de suas cerejeiras o Nô veste sua rua de Kabuki, mascarada é o sonho da noite das tochas, vejam como a Hélade se levanta qual a fusão entre os philos que cantam na terra de ilhas soltas, o mar dentro do peito é o Homem, Licurgo se irrita, Sólon tenta dar a Atenas um sentido, os atletas correm para Maratona, os irmãos se matam, não há persa que tenha cabeça, Sócrates envenena quem não pensa, e o Organon só se vê pelas mãos de Andrônico, as edições arábes se soltam entre os ritos de um deserto de matemáticos e astrônomos. Venham os algébricos, lendo o Corão a sede do camelo é vasta, o deserto de Satã rumina a parte vasta do sonho de cálculos, Pitágoras sorri em sua confraria, os sonhos amarelos nesta altura já tinha milênios, o Tao já dava seu sorriso de escárnio, nada era ato e Aristóteles se suicidava.
Voltei à noite dos meus amigos febris, os vinhos corriam como quedas infinitas, a boêmia já não é tão sensual, o instante se torna mais matemático, eu conto e calculo os sóis, emolduro os sorrisos, os êxtases se tornam mais raros, e o prazer é todo esférico como um perfeito poema. Não vou mais capturar o som, ele vem demolido e como um triturar bem cantado, eu sonho e tudo vira o farol do mar que ao horizonte não se perde, mas ao oceano se faz sol.

(POEMA EM PROSA)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

GÓNGORA E SUA POSIÇÃO HISTÓRICA


“um dos poetas mais representativos do Maneirismo europeu”

O ESTILO E OS RECURSOS LITERÁRIOS

Góngora era um poeta que escrevia através do espanhol imperial, este que então tinha uma influência latina, esta originária do latim literário, e então temos que a poesia gongórica aparecia com um estilo que evocava esta origem latina, por exemplo, nos hipérbatos, seja na anteposição dos predicados ou predicativos ao verbo de ligação, ou ainda na separação dos adjetivos de seus substantivos, na imitação gongórica de poetas e prosadores latinos.
No caso deste latinismo temos exemplos já no século XV, indo ao século XVII com Juan de Mena e desembocando em Garcilaso. Por fim, o hipérbato adere ao estilo gongórico, isto é, mais do que um latinismo, é o próprio estilo ou “maneira” de Góngora.
Por sua vez, Góngora obscurece suas orações com ablativos absolutos, saindo da pureza clássica, fazendo uma poesia de estilo elevado que fazem parecer obra em que a virtude poética transborda, e que nas correntes literárias que viriam depois virou afetação e mau gosto.

INOVAÇÃO BARROCA

As alusões mitológicas em Góngora faz palavras representativas de um sentimento ou de um fenômeno ser referida a um deus específico do panteão, tais como usar Cupido como o amor ou Marte como a guerra, dentre inúmeras formas mais em que tal estilo gongórico se expande.
No Barroco espanhol temos um tema positivo e outro negativo, e que resulta no caso de Góngora no paroxismo dos temas de beleza e teratologia, pois, por exemplo, o poeta nos apresenta a beleza de Galateia, e depois nos joga na monstruosidade de Polifemo, o ciclope, colocando este elemento nocivo ao que era somente beleza, tal como no caso originário de Petrarca. Agora, em Góngora, a imagem da beleza era contrastada com imagens de violência.
Tal contraste é o que faz, por fim, o estilo barroco, e que se torna a maneira de Góngora, aqui, por fim, quando o Barroco é também nomeado Maneirismo, e que na época era uma renovação literária em relação ao estilo clássico, purista, tendo aqui também em Góngora o paroxismo do uso de som e cor.
A poesia de Góngora, por ser abstrusa, isto é, obscura, era uma poesia para leitores ilustrados, não era uma poesia vulgar ou propriamente popular, e sua poesia é de difícil leitura até hoje, num rebuscamento que exige um preparo específico para entender os processos desta poesia.

O POETA E A HISTÓRIA

Góngora sempre foi muito combatido por outros escritores de envergadura como Quevedo e Lope de Vega, e outros um tanto menores, como Jáuregui, mas ainda assim conseguiu ter uma influência imensa sobre a literatura espanhola, indo também tal presença entrar na literatura portuguesa e brasileira, neste caso do Brasil se estendendo até meados do século XVIII, e que foi presente em poetas como Gregório de Matos, e no gongorismo inicial de Cláudio Manuel da Costa, que logo aderiu ao Neoclassicismo, com tal moda jogando o gongorismo no terreno do mau gosto, somente sendo reabilitado com a eclosão do Simbolismo.
Historicamente, afirma-se que a reabilitação do poeta Góngora começou com Verlaine e se estendeu aos modernistas, já associado a Mallarmé, e por fim ganhando corpo na geração de García Lorca. Temos que uma definição histórica mais precisa de Góngora se dá depois disso, que é o de ser um dos poetas mais representativos do Maneirismo europeu, tendo sido uma influência potente em Portugal e no Brasil até o Arcadismo.

POEMAS :

SOLEDADES (FRAGMENTOS)

CORO I : [Fragmentos do hino nupcial] : O hino nupcial vem todo empolgante, com o estro do poeta que vem iluminado ao himeneu, no que temos : “Vem, Himeneu, vem aonde te espera/Sem olhos e sem asas um Cupido,/Cujo cabelo intonso docemente/Nega a penugem que a tez lhe há vestido :/Penugem, flores de sua primavera,/Cabelo, raios de sua fronte ardente.”. O poema é todo harmônico, amoroso, o belo jovem comparado a um Cupido em charme, e a bela que é Psiquê, já em segunda idade, no que temos : “A bela, agora,/Nos de sua segunda idade escassos/Crepúsculos, vinculem-na teus laços/Ao quente anseio seu./Vem, Himeneu, ó vem; vem, Himeneu.””. O hino é todo esteta, como do estro rebuscado mestre é Góngora, pois.

CORO II : Segue mais um coro de himeneu, no que vem : “Vem, Himeneu, aonde entre arrebóis/De honesto rosicler, previne o dia/Aurora – de olhos em vencer não vãos –/Virgem tão bela, que fazer podia/Tórrida a Noruega com dóis sóis,/E alvejante a Etiópia com duas mãos.”. Beleza que inverte o clima de extremos do mundo, na linguagem alegórica e metafórica do poeta, por fim, temos : “De suas faces, sempre pudorosas,/Purpúreo são troféu./Vem, Himeneu, oh vem; vem, Himeneu.”
[A corrida] : O poema elenca a veloz corrida, no que seus corredores são homenageados, aqui, no que temos : “E premiados gradualmente,/Para si advocaram toda a gente/_ Aquilões da planície e austros da serra _/Mancebos tão velozes/Que quando Ceres mais redoura a terra/E das grutas do fundo argenta o mar/Netuno, sem fadiga/Seu vago pé de pluma/Messes sulcar pudera, ondas pisar,/Sem inclinar espiga,/Sem violar espuma./Duas vezes eram dez, e dirigidos/A dois olmos que querem, abraçados,/Ser pálios verdes, ser frondosas metas,/Saem como de torcidos/Arcos, ou bem de nervo, ou acerados,/Duas vezes dez, com igual silvo, setas.”. Tais velozes mancebos, quais setas, correm por todo o poema, e a mitologia aqui os corrobora, com estupefação.

SOLEDADE SEGUNDA

[Foz à imagem de novilho] : O mar aqui é retratado como um ente que retira a água doce do arroio que se precipita, no que temos : “Entra o mar num arroio que o recebe,/E a recebê-lo com sedento passo/De sua rocha natal se precipita,/E muito sal não só em vaso escasso,/Mas sua ruína bebe,/E seu fim, cristalina mariposa/_ Não de asas, mas undosa _/No candeeiro de Tétis solicita./Muros desmantelando, pois, de areia,/Centauro já espumoso o Oceano/_ Meio foz, meio mar _/Duas vezes por dia pisa o plano/A pretender o monte em vão galgar,/Do qual é doce veia/A tarde já torrente/Arrependida, e até retrocedente.”. A mescla aqui se faz, meio foz, meio mar, torrente de centauro espumoso, por fim.

[Pesca] : Os peixes aqui desfilam, e o apetite é despertado, um poema sui generis da pena de Góngora nos nasce aqui, numa descrição deliciosa, no que temos : “Malhas vestem de cânhamo o linguado,/Quando, na pele lúbrica fiado,/O congro que, liso, viscoso a par,/As teias quis burlar,/tecido nelas terminou burlado.” (...) “Salmão que as mesas régias glorifica,/Senão os campos de Netuno frio,/E o travesso robalo,/Guloso de idos Cônsules regalo.”. O regalo está posto, e o poema é luminoso e genial.
Sem título : Baco renasce, e o poema descreve aqui  este cenário  do deus grego, e os choupos, então, coroam o solo de lírios, no que temos : “Seis choupos, por seis heras abraçados,/Tirsos eram do grego deus, nascido/Segunda vez, que em pâmpanos desmente/Os cornos de sua frente;” (...) “Coroam eles todo o encanecido/Solo de lírios, que em flocos fragrantes/Nevou maio, os seis choupos nada obstantes.” (...) “Com as mesas, cortiças já levianas/Da árvore que à primeira idade dera/Duro alimento, porém sono brando.”. O poema báquico aqui é ao mesmo tempo delicado, numa descrição suave com carga metafórica e mitológica própria do estro gongórico.

[Saída de um grão senhor para a caça de cetraria] : A trompa ecoa, a porta alta da muralha se abre, no que segue o poema : “Chave de alta porta/O claro som – vencido o fosso breve –/Levadiça ofertou ponte não leve,/Tropa inquieta contra o ar armada,” (...) “Verde, não mudo coro/De caçadores era,/Cujo número indigna a riba austera./Ao Sol ergueu apenas a ampla frente/O veloz filho ardente/Do zéfiro lascivo/_ Cuja fecunda mãe ao genitivo/Sopro vestindo membros, Guadalete/Flórea ambrosia ao vento deu ginete _/Que a muito fumo abrindo/O fogoso nariz, em um sonoro/Relincho e outro mais saudou seus raios.”. Um coro ruidoso de caçadores, segue o filho veloz do zéfiro lascivo (o cavalo), em que o rio Guadalete, já dá a esse vento florida ambrosia, no que segue : “Entre o confuso, pois, rumor tremendo/Dos cavalos, produz rude harmonia/Quanta a bem generosa cetraria/Da Mauritânia desde, até à Noruega,/Insídia ceva alada,/Sem luz, nem sempre cega,/Não livre, mas nem sempre aprisionada,/Que a ver o dia volve/As vezes que, em custódia ao vento dada,/Sua prisão repete e o vento solve./O nebri, que, relâmpago na pluma,/Raio na garra, o ninho não sabido,/O Olimpo oculta ou nuvem é espessa/Que pisa, quando apressa,/Trás da garça argentada, o pé de espuma./Eis o sacre, as do noto asas vestido,/Sangrento cíprio, ainda que nascido/Com as pombas, ó Vênus, de teu carro.”. Segue o tropel dos cavalos, faz harmonia rude a insídia alada, os falcões,  ena arte da cetraria, que vai da Mauritânia à Noruega, temos os falcões então que voltam a ver a luz, e o poema segue em estro mitológico até o sacre nascido com as pombas do carro de Vênus.

Sem título : O príncipe aqui se engrandece com sua linhagem de sangue ilustre e augusto na pessoa, mas com sua moderação segue mais brando em relação aos paramentos e lisonjas que advém de sua posição, no que segue : “Em sangue claro e na pessoa augusto,/Se em membros não robusto,/Príncipe lhes sucede, abreviada/Em modéstia civil real grandeza./A espumosa do Bétis ligeireza/Bebeu não só, porém a desatada/Majestade em suas ondas, o luzente/Cavalo que colérico mordia/O ouro que suavemente o enfreava/Arrogante, e não já pelas que dava/Estrelas sua cerúlea pele ao dia,/Senão pelo que sente/De esclarecido, régio e sem senão/Na própria rédea que beija a alta mão,/De cetro digna.”. O poema descreve aqui o cavalo que arrogante morde o seu freio de ouro, no que, no entanto, por fim, se destaca que o soberano é reconhecido em seu esclarecimento e é digno de empunhar um cetro, pois.

POEMAS :

SOLEDADES (FRAGMENTOS)

CORO I

[Fragmentos do hino nupcial]

Vem, Himeneu, vem aonde te espera
Sem olhos e sem asas um Cupido,
Cujo cabelo intonso docemente
Nega a penugem que a tez lhe há vestido :
Penugem, flores de sua primavera,
Cabelo, raios de sua fronte ardente.
Menino amou a que ama adolescente
Aldeã Psique, ninfa lavradora
De Ceres, a tostada. A bela, agora,
Nos de sua segunda idade escassos
Crepúsculos, vinculem-na teus laços
Ao quente anseio seu.
Vem, Himeneu, ó vem; vem, Himeneu.
....................................................................

CORO II

Vem, Himeneu, aonde entre arrebóis
De honesto rosicler, previne o dia
Aurora – de olhos em vencer não vãos –
Virgem tão bela, que fazer podia
Tórrida a Noruega com dois sóis,
E alvejante a Etiópia com duas mãos.
Cravos de abril, rubis dos temporãos,
Quantos engasta o ouro do cabelo,
Quantas – de um já e de outro colo belo
Cadeias – a concórdia enlaça rosas,
De suas faces, sempre pudorosas,
Purpúreo são troféu.
Vem, Himeneu, oh vem; vem, Himeneu.

[A corrida]

E premiados gradualmente,
Para si advocaram toda a gente
_ Aquilões da planície e austros da serra _
Mancebos tão velozes
Que quando Ceres mais redoura a terra
E das grutas do fundo argenta o mar
Netuno, sem fadiga
Seu vago pé de pluma
Messes sulcar pudera, ondas pisar,
Sem inclinar espiga,
Sem violar espuma.
Duas vezes eram dez, e dirigidos
A dois olmos que querem, abraçados,
Ser pálios verdes, ser frondosas metas,
Saem como de torcidos
Arcos, ou bem de nervo, ou acerados,
Duas vezes dez, com igual silvo, setas.

SOLEDADE SEGUNDA

[Foz à imagem de novilho]

Entra o mar num arroio que o recebe,
E a recebê-lo com sedento passo
De sua rocha natal se precipita,
E muito sal não só em vaso escasso,
Mas sua ruína bebe,
E seu fim, cristalina mariposa
_ Não de asas, mas undosa _
No candeeiro de Tétis solicita.
Muros desmantelando, pois, de areia,
Centauro já espumoso o Oceano
_ Meio foz, meio mar _
Duas vezes por dia pisa o plano
A pretender o monte em vão galgar,
Do qual é doce veia
A tarde já torrente
Arrependida, e até retrocedente.

[Pesca]

Malhas vestem de cânhamo o linguado,
Quando, na pele lúbrica fiado,
O congro que, liso, viscoso a par,
As teias quis burlar,
tecido nelas terminou burlado.
As redes menos grossas qualifica
Sem romper nenhum fio,
Salmão que as mesas régias glorifica,
Senão os campos de Netuno frio,
E o travesso robalo,
Guloso de idos Cônsules regalo.
...........................................................

Seis choupos, por seis heras abraçados,
Tirsos eram do grego deus, nascido
Segunda vez, que em pâmpanos desmente
Os cornos de sua frente;
E qual mancebos tecem, mãos ligadas
Festivas rodas e lugar despido,
Coroam eles todo o encanecido
Solo de lírios, que em flocos fragrantes
Nevou maio, os seis choupos nada obstantes.
Este lugar as seis formosas manas
Escolhem, agravando
Em breve espaço muita primavera
Com as mesas, cortiças já levianas
Da árvore que à primeira idade dera
Duro alimento, porém sono brando.

[Saída de um grão senhor para a caça de cetraria]

Chave de alta porta
O claro som – vencido o fosso breve –
Levadiça ofertou ponte não leve,
Tropa inquieta contra o ar armada,
Lisonja – se confusa, regulada –
Sua ordem, da vista, e assim do ouvido
Seu agradável ruído.
Verde, não mudo coro
De caçadores era,
Cujo número indigna a riba austera.
Ao Sol ergueu apenas a ampla frente
O veloz filho ardente
Do zéfiro lascivo
_ Cuja fecunda mãe ao genitivo
Sopro vestindo membros, Guadalete
Flórea ambrosia ao vento deu ginete _
Que a muito fumo abrindo
O fogoso nariz, em um sonoro
Relincho e outro mais saudou seus raios.
Os malhados, se não esplendores baios
Que conduzem o dia
Lhes respondem, na eclíptica ascendendo.
Entre o confuso, pois, rumor tremendo
Dos cavalos, produz rude harmonia
Quanta a bem generosa cetraria
Da Mauritânia desde, até à Noruega,
Insídia ceva alada,
Sem luz, nem sempre cega,
Não livre, mas nem sempre aprisionada,
Que a ver o dia volve
As vezes que, em custódia ao vento dada,
Sua prisão repete e o vento solve.
O nebri, que, relâmpago na pluma,
Raio na garra, o ninho não sabido,
O Olimpo oculta ou nuvem é espessa
Que pisa, quando apressa,
Trás da garça argentada, o pé de espuma.
Eis o sacre, as do noto asas vestido,
Sangrento cíprio, ainda que nascido
Com as pombas, ó Vênus, de teu carro.
........................................................................

Em sangue claro e na pessoa augusto,
Se em membros não robusto,
Príncipe lhes sucede, abreviada
Em modéstia civil real grandeza.
A espumosa do Bétis ligeireza
Bebeu não só, porém a desatada
Majestade em suas ondas, o luzente
Cavalo que colérico mordia
O ouro que suavemente o enfreava
Arrogante, e não já pelas que dava
Estrelas sua cerúlea pele ao dia,
Senão pelo que sente
De esclarecido, régio e sem senão
Na própria rédea que beija a alta mão,
De cetro digna.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

OS RATOS – PARTE III


“As cozinheiras diziam que aquilo era bruxaria, e tentam jogar água quente nos ratos”

A esta altura, o Campo do Levante tinha virado um caos, uma grande montanha de ratos, metade da população já havia morrido de peste bubônica, e o hospital de West Camp não comportava mais tanta gente, já que os médicos também morriam. E Desmond tenta colocar um alerta contra a gestão de Vincent, no Campo do Levante, através de Victoria. Os moradores entendem que aquela situação era insustentável, e teriam que invadir a Câmara dos Vereadores e a prefeitura em busca de medidas para matar os ratos.
Walt se junta a Desmond, e também a Kirk e Douglas, e fazem uma frente sanitária, com alguns camponeses, que vai até o Campo do Levante com vassouras e sabão para tentar eliminar a peste de ratos de West Camp. E, nas terras, as coisas também pioravam. Mas, a emergência era no Campo do Levante, que, por seu turno, já se preparava, liderado por Peter, para primeiro invadir a Câmara dos Vereadores, e depois a prefeitura, com o fito de cercar o prefeito para Denis segurá-lo pelo gorgomilo, enquanto Peter lhe dá uns sopapos na cara até sangrar.
O povo do Campo do Levante chega até a Câmara dos Vereadores, mas são surpreendidos. Os inúmeros capangas de Vincent já cercavam tanto a prefeitura como a própria Câmara. Era iminente um confronto brutal entre estas duas formações. E, para espanto geral, começam a entrar ratos, tanto na Câmara, como na prefeitura. Os capangas dão tiros a esmo, o povo do Campo do Levante vai de encontro aos capangas de Vincent para uma verdadeira luta campal, o caos se faz em West Camp.
A luta começa, e os capangas de Vincent levam a melhor. Metade dos bravos do Campo do Levante batem em retirada, a outra metade é estraçalhada pelas forças de Vincent. Em meio disso, os ratos entravam e saíam loucamente da Câmara, alguns capangas são mordidos, os abatidos do Campo do Levante também são mordidos, e logo infectados pela peste bubônica. Vincent é denunciado por alguns sindicalistas ao Rei da Inglaterra, mas este não leva a sério o relato, e diz que era tudo era loucura e que isso não existia. West Camp estava abandonada à própria sorte, e então, quem reinava mesmo, era a anarquia.
A frente sanitária ia bem, Desmond consegue colocar os camponeses em vantagem em relação aos ratos. Nas terras, os ratos comiam todo o milho e o algodão. Os casarões de Desmond, Douglas e Kirk, estavam já com montanhas de ratos dentro. O Campo do Levante começava a ser limpo. Enquanto isso, Vincent manda metade dos capangas que tomavam conta da Câmara e da prefeitura irem ao Campo do Levante para ver o que estava acontecendo, se havia mais alguma conspiração.
Num trabalho de uma semana inteira, os homens da limpeza do Campo do Levante dão o trabalho por terminado. Mas, dois dias depois, os ratos voltam inexplicavelmente. Os capangas de Vincent, nos dias em que se deu a limpeza, resolvem aguardar de tocaia Desmond, Kirk e Douglas. Isso não havia sido planejado por Vincent, mas eles decidiram capturar os três, e os levarem até seu comandante. E, então, os ratos voltam com força descomunal. A quantidade de ratos que havia no auge anterior do Campo do Levante, triplica, com ratazanas enormes do tamanho de uma tartaruga marinha média. As cozinheiras diziam que aquilo era bruxaria, e tentam jogar água quente nos ratos, nada. Os mendigos, por sua vez, tinham uma certa resistência à  infecção, e até se divertiam ao atirar camundongos pro alto, e depois pisoteá-los, quando não brincavam de tiro ao alvo com os camundongos menores.
Denis e Peter não se demovem de fazer a vingança do sangue de Joseph, e tentam ir na surdina, só os dois, mais o mendigo Ringo, que era bem forte, apesar de mal alimentado, e vão de noite até a casa de Vincent. Os detetives entram em contato com eles, e dizem que todos estavam juntos, por ordem de Desmond e Victoria, e que teriam que matar Vincent pela ordem de West Camp. E, de outro lado, a população restante do Campo do Levante já se preparava para uma segunda investida contra a Câmara e a prefeitura, desta vez com o apoio dos camponeses, que também estavam saturados com os desmandos de Vincent. E agora, os ratos já estavam em toda parte nas fazendas, assim como no Campo do Levante.
Vincent manda os capangas voltarem do Campo do Levante imediatamente para reforçar a retaguarda da Câmara e da prefeitura, já prevendo a nova investida que viria contra ele e seus vereadores. O plano de tocaia contra Desmond, Kirk e Douglas, portanto, ficam para uma outra hora, Vincent dá ordens expressas de proteger o poder instituído de West Camp, e que iria às favas com os escrúpulos.
Victoria resolve se tornar a líder do movimento de derrubada de Vincent, e junta o povo do Campo do Levante, mais os camponeses, para um pacto de moralização política de West Camp. Desmond, Kirk e Douglas, enquanto isso, voltam para suas fazendas, e veem um cenário de caos. Os ratos haviam comido toda a plantação deles, e suas casas transbordavam de ratos. No Campo do Levante a coisa também piorava, em relação aos ratos.
Vincent então planeja o assassinato de Victoria assim que o protesto chegasse à porta da prefeitura. Autoriza os vereadores a se retirarem da Câmara, isso para ter mais um álibi para exterminar as forças de Victoria, pois a Câmara seria abandonada para deixar os camponeses e o povo do Campo do Levante achando que tomaram o poder. Vincent era ardiloso, e também planejava sua própria fuga, pois sabia que não resistiria mais muito tempo, mesmo com tantos capangas. Ele tinha a intenção de ir para a Suíça, aonde tinha suas contas bancárias, e rir dos trouxas de West Camp que, para ele, era um lugar que não valia nada, a não ser para a formação de seu patrimônio ilícito que, a esta altura, já era suficiente para não precisar mais se meter em política.
Desmond, já de volta à sua casa, vê sua filha mais velha, Linda, desesperada, dizendo que Philip tinha sido devorado por uma nuvem de ratazanas, os outros irmãos estavam no telhado da casa, amedrontados, e ela, Linda, estava que nem uma louca com uma vassoura, tentando espantar os ratos invasores da casa. Linda chora e abraça o pai, dizia que aquilo era um castigo de Deus, pois ela era carola ao paroxismo, e enxergava tudo como conspiração divina ou do Diabo. Desmond diz para Linda ficar calma que tudo iria melhorar, e que Victoria estava cuidando do fim daquele caos.
Victoria é alvejada na rua por um dos capangas de Vincent, ela é levada rápido para a emergência do hospital, mas não corria risco de morrer. Os camponeses e o povo do Campo do Levante, então, caem na isca de Vincent. Os capangas "não oferecem resistência" à invasão da Câmara dos Vereadores pela população. Neste ponto, Vincent preparava a sua fuga para a Suíça, que não poderia falhar, mas os detetives de Victoria vigiavam cada passo dele, e já sabiam deste plano. Denis e Peter, junto com o mendigo Ringo, então, pegam Vincent no quintal de sua casa e o espancam. Decidem levá-lo à Victoria que, a esta altura, ainda convalescia no hospital. Desmond vai até a cidade novamente, e fica sabendo que Victoria tinha sido ferida por um tiro, mas que já estava no hospital e passava bem. Desmond veio com Linda e os outros filhos junto, para ver Victoria. Então, Linda se prostra à beira da cama em que Victoria estava deitada convalescendo, e começa a rezar fanaticamente, aos prantos. Nisto, chegam Ringo, Peter e Denis, junto com os detetives, carregando o rebotalho que tinha se tornado Vincent. Desmond sorri.
De outro lado, os vereadores invadem a casa de Vincent, que agora não tinha ninguém tomando conta, e roubam os documentos de Vincent. Decidem descobrir as senhas bancárias de Vincent, e fugirem para a Suíça. Os capangas de Vincent, já sabendo que seu comandante se dera mal, se juntam aos vereadores, e todos fogem em um comboio, já com o plano de roubar a fortuna de Vincent, com uma identidade falsa do mesmo. Pois então, um dos vereadores acha um papel num dos bolsos de uma camisa de Vincent, e descobre as senhas bancárias. O grupo de vereadores e capangas vão à Suíça dividir o butim, e se vão para nunca mais voltar a West Camp.
Victoria volta para casa. Vincent implora o perdão de Desmond, este sorri novamente, e faz um sinal. Vincent morre espancado pelas mãos de Ringo, Peter e Denis. São realizadas novas eleições logo depois, e Kirk Seymour se elege com o apoio de Desmond Wright. A Câmara dos Vereadores é repovoada, desta vez por uma maioria que era do sindicato do Campo do Levante. O Rei da Inglaterra finalmente descobre que os rumores de West Camp era a mais pura e cristalina verdade. Este envia um exército para exterminar os ratos da região. Mas, numa semana, sem explicação alguma, os ratos somem.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

SONHOS EM BORGES, DESCRIÇÕES DO DELÍRIO


“a razão é deturpada por uma interação mental fantasmática e evanescente”

Borges segue seu estudo ou análise do sonho e suas implicações já no texto “A alma, o sonho, a realidade”, no qual tece mais uma vez a tese espiritual, isto é, do sono e sonho como veículo de emancipação temporária da alma, esta que, por sua vez, aqui é lembrada pela visão indígena de índios do Brasil e da Guiana, por exemplo, pois temos que, nas palavras de Borges, “uma pessoa adormecida se afasta de seu corpo e visita lugares”.
Borges cita aqui histórias que vão dos bororos aos índios do Grande Chaco, todos relatando a influência dos sonhos sobre decisões cotidianas, uma vez que a crença de que o sonho é uma realidade espiritual leva a se entender que o sonho é parte do mundo real e não um epifenômeno cerebral, como sonha o materialismo em sua versão mais estrita.
Em “Sonho Parisiense – I” de Charles Baudelaire, por sua vez, temos uma descrição poética que nos guia suavemente para os recônditos de uma visão extasiada diante da cidade, o poeta francês de Flores do Mal era um grande conhecedor do fenômeno urbano e de sua contribuição para a poesia nova que Baudelaire já praticava.
Seu relato em prosa tem uma riqueza poética que nos leva a entender o sonho como descrição quase milagrosa ou alucinógena em que a paisagem é desvelada como um espetáculo de pintura, temos em Baudelaire a potência narrativa que nos leva a um spleen mágico em que Paris nos aparece iluminada e sobrenatural, a poesia aqui se associa ao sonho para revestir o texto literário de um ganho em verdade espiritual, aqui, como fundação de uma literatura avançada que celebra Paris poeticamente.
Em “O Sonho de Coleridge” temos o relato de um escrito, ou melhor, da produção inaudita de um fragmento do escritor e poeta inglês Samuel Taylor Coleridge que, segundo Borges, é o fragmento lírico Kubla Khan que era, por sua vez, produto de um sonho do poeta em um dia de verão de 1797, um fenômeno inusitado por sua circunstância e por seu efeito, e que Borges nos descreve como uma espécie bizarra de sobreposição histórica e mais ainda psíquica.
Coleridge havia lido um texto de Purchas, no qual, segundo Borges, “se narra a edificação de um palácio por Kubla Khan, o imperador que deve sua fama ocidental a Marco Polo”, no que o poeta inglês toma um hipnótico e vai dormir, e o efeito do texto se dá em sonho em uma “série de imagens visuais”, e Coleridge acorda com a certeza de ter composto ou recebido em sonho um poema completo de cerca de trezentos versos, o que então o levou a compor e terminar um fragmento que figura em sua obra, pois, interrompido por uma visita, não conseguiu lembrar-se do resto.
Segundo Borges, “Swinburne sentiu que o que fora resgatado representava o mais alto exemplo da música do inglês e que o homem capaz de analisá-lo poderia (a metáfora é de John Keats) destecer um arco-íris.” E Borges segue esta curiosa análise psicológica em que o sonho se associa à criatividade artística, seguindo o seu relato e nos apresentando outros exemplos conhecidos como o caso do violonista e compositor Giuseppe Tartini, que, nas palavras de Borges, “sonhou que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma sonata prodigiosa; o sonhador, ao despertar, deduziu de sua lembrança imperfeita o Trillo del Diavolo.”
E temos ainda casos como o do escritor Robert Louis Stevenson que, por sua vez, segundo Borges, “um sonho (segundo ele mesmo conta em Chapter on Dreams) lhe deu o argumento de Olalla e outro, em 1884, o de Dr.Jekill and Mr.Hyde.” E ainda : “Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho; Stevenson recebeu do sonho argumentos, quer dizer, formas gerais”.
E a citada sobreposição se dá quando Borges nos lembra que “mais afim à inspiração verbal de Coleridge é a que Beda o Venerável atribui a Caedmon”, o que temos então é a origem em que se concebeu Kubla Khan, pois o poeta sonhou em 1797, publicou este fragmento de relato de sonho em 1806, como glosa ou justificativa de poema inconcluso.
Então, vinte anos depois, apareceu em Paris uma versão fragmentária que é uma primeira versão ocidental de literatura persa de histórias universais que é o Compêndio de histórias de Rashid ed-Din, do século XIV, e que Borges nos fornece o trecho em que é revelado um acontecimento : “A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória”.
A sobreposição então é comprovada, pois, seguindo o texto borgiano, “Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio. Confrontadas com essa simetria, que trabalha com almas de homens e abarca continentes, parecem-me significar nada ou muito para as levitações, as ressurreições e o aparecimento dos livros religiosos.”
E aqui temos o texto borgiano, enfim, se debatendo entre a tese sobrenatural, a da ligação verdadeira entre os fenômenos, e a outra em que tudo não passaria de uma bizarra coincidência. E aqui eu lembro da sincronicidade junguiana e o legado do inconsciente coletivo, que é uma maneira racional para lidar com aventuras psíquicas que podem desatar em um certo misticismo.
No texto “Entre Sonhos” Borges nos relata a sua convivência em Salta com um comerciante nascido em Tucumán, pois Borges por um período dormiu no mesmo quarto que este homem, que tinha então a faculdade de sonhar em voz alta, padecendo de pesadelos.
E Borges segue então sua análise ao falar sobre o fenômeno sonambúlico, este sim o tipo de efeito do sono e do sonho com uma carga de mistificação ou de curiosidade quase mórbidas, chocando-se o sonambulismo muitas vezes com diversos marcos teóricos. E uma das constatações mais comuns deste fenômeno é o de que o sonhador acometido deste distúrbio sofre de amnésia, não lembra do que fez.
E Borges então analisa que “O sonho absorve uma porção considerável de nossa vida e, por outro lado, não parece duvidoso que o ato de sonhar seja uma forma intermitente de loucura, um delírio periódico mais ou menos caracterizado.”
E Borges então constata, com surpresa que “O que se denominou instabilidade mental não é um acidente, mas sim o nosso modo de ser fisiológico. Para quem estuda o corpo humano, a persistência da saúde parece um milagre de cada instante. E o que diremos do nosso aparelho cerebral, que a cada vinte e quatro horas penetra no cone de sombra de sua razão eclipsada? Não é prodigioso que cada manhã, com a boa e santa luz do sol, emerja também a inteligência intacta de suas trevas e fantasmas noturnos?”.
Portanto, temos aqui, diante do pesadelo e do sonambulismo, por exemplo, o confronto da razão com um suposto estado de privação dos sentidos, ou ainda a chamada loucura ou estado delirante, entendida aqui não como a loucura clínica do surto, mas nos aparecendo aqui e também para Borges o sonho e suas decorrências como um estado da fisiologia cerebral ou de uma suposta emancipação da alma em que a razão é deturpada por uma interação mental fantasmática e evanescente que é mais chocante por ser cotidiana e mais surpreendente por não comprometer a faculdade mental quando esta regride de sua viagem psíquica.

(Fim da análise literária do Livro dos Sonhos de Jorge Luis Borges)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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