PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 12 de novembro de 2017

POETAS

Preciso o som rutila
como verve e paixão,

eu dizia aos funcionários
da peste :
"beba teu ócio com trabalho,
cês que são poetas!"

e então com os ramalhetes
e fotos de verão
uma fortuna ácida
saltava dos olhos da visão
como um grito potente
dos motores brutos
da pista,

o avião decolava com as asas
mortíferas de um azul
que explodia
nos desenhos
do sol,

beba teu ócio com trabalho,
poetas do novo
e do velho,
poetas do meio,
do início
e do fim.

12/11/2017 Gustavo Bastos

A NOVA NOITE

A nova noite que cai
não é como era a anterior,

a nova noite é toda madrugosa,
estrelada como ela é,
noite pomposa,

a nova noite já devora o crepúsculo
e vomita a aurora,

a nova noite é estrela pura
com abóbada que cintila
como num observatório
avançado,

a nova noite não é mais
como as noites dos boêmios
que apenas bebiam,

a nova noite é toda ela
um grande mistério
de que se alimenta
os delírios da madrugada.

12/11/2017 Gustavo Bastos

BELO POEMA

Belo este poema :
flora nauta de mar
se abisma,
e a pétala feliz
que sorri,

belo poema bem urdido :
freme a espada potente
que do abismo
rutila fio
com batalha,

belo este poema que de fúria
e amor pleno
sorri e grita
sonoros campos
e massas sônicas,

poema que é catártico
com este som trinado
que comanda a fauna
esbelta e rústica
das famélicas canções.

12/11/2017 Gustavo Bastos

CORPOS ESTRIADOS

Como quando Ofir deambulou
com fontes oxidadas
do ferro terroso,
burila teu berilo
em pipetas
como num caudal
da ecoquímica,

filetes de rosas marcadas de pedra,
eviscerações e autópsias
com o câncer da pele queimada,
marcas epiteliais entre
os tecidos ósseos,

mantra kármico entre os entes carnais,
vísceras acometidas de gota,
formas eidéticas
de doenças e verruga,

eis que o plantonista socorreu
de sangue e vítreo plasma
seu diáfano campo de visão,
um mesmo e trágico fim
de hemácias entre
os dentes da confusão.

12/11/2017 Gustavo Bastos

CATARSE

Silvestre o canto do fauno
mimetiza seus ditirambos
como fogos e folguedos
nos átrios e nos teatros,

emblema fulvo, a vaga cor de carne,
onda vermelha da floresta negra,
em cada caule o delírio,
e nas folhas os sonhos
da relva,

sinestesia :
o campo todo azul alvoroça o verde
como uma espuma de mar, alva
que corre no arrebol
como o canto do fauno,

beletrismo de épocas idas,
os poetas rupestres
faziam de seus bichos
elencos de sacrifício,

eu, diante da dor mais avançada
das formas estéticas,
enumerava como um diretor de teatro
os silvos dos cínicos
e os partos socráticos,
enquanto o proscênio
fazia a catarse.

12/11/2017 Gustavo Bastos

UNIVERSO

Por um tiro e um tirocínio preciso,
espouca a luz diáfana,
o rock é besta
como meu sonho.

Eis que de estro e cinza
a tez é finita,
               e como que florescem
                      sensações,
                    e como
                    minhas
                    flores
                    correm
                   vulcânicas,

agradeço a hospitalidade que na nuvem
eu pude antever, como um macrocosmo
que vai da cápsula à vertigem,
um grande que vem do pequeno,
mas que é a forma da megalomania,
também conhecida como universo.

12/11/2017 Gustavo Bastos

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A LOUCA

A louca bebia água do chafariz,
era louca com um nariz vermelho
e uma rosa nas saias,
cantava nas ruas da zona pobre
que nenúfares sonham
e vitórias-régias deliram,

a louca bebia no cálice
de seus vinte maridos,
tinha setenta filhos,
com sua prole de bárbaros
ela descia armada
e pintava de lua
suas canções lunáticas,

a louca viajava para a estrela vésper
como uma borboleta amarela
que sorvia todo o encanto
dos meditativos édens
do clímax espiritual,

a louca era esfarrapada,
mas nas noites de sexo
bradava como uma bomba
seus orgasmos múltiplos,
num prazer eclético
que a louca
chamava
de céu 
e de paraíso.

09/11/2017 Gustavo Bastos