PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 15 de março de 2015

SUPERTRAMPO

“As revoluções dos versos vão de encontro com uma muralha inexpugnável, na qual a forçação de barra vai ao limite, tornando-se intolerável.”

   Charles Peixoto é poeta e roteirista, e se firmou na década de 1970 como um dos expoentes da poesia marginal, e membro do coletivo Nuvem Cigana, que deu o que falar em pleno auge da ditadura no Brasil. Sua estreia como poeta se deu ao lançar o livro mimeografado “Travessa bertalha 11”, ao que se seguiu “Creme de Lua”, “Perpétuo socorro”, “Coração de cavalo” e “Marmota platônica”. Na década de 1980, Charles Peixoto começou a atuar como roteirista na Rede Globo, o que incluiu seu trabalho para a lendária série Armação Ilimitada, ícone da década de 1980, e depois com a novela teen Malhação.
   Charles Peixoto é considerado um dos fundadores da chamada “geração mimeógrafo”, grupo de poetas que trouxe à poesia, através da denominação de poesia marginal, e com a contribuição da Nuvem Cigana, a linguagem coloquial, cotidiana, tirando a poesia de seu gabinete, e levando, através de uma expressão mais coletiva do que de autor, a poesia para as ruas e a declamação.
   A linguagem pop também seria uma das marcas dos poemas de Charles Peixoto. O que, mais recentemente, o levou a ser um dos escolhidos para a conhecida coletânea “26 poetas hoje”, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, que tirou os poetas marginais do underground e os trouxe para o mainstream.
   E, por sinal, dos livros de Charles Peixoto, podemos dizer que seu primeiro lançamento comercial, de fato, foi em 1985 com “Marmota platônica”. Livro que reunia material novo e obras anteriores do poeta. E, depois de um hiato de quase três décadas sem publicar, Charles Peixoto reaparece em 2011 com o livro de poesia “Sessentopeia”. E agora, com “Supertrampo”, temos o livro que reúne a obra do poeta desde seu primeiro livro, também incluindo, até, poemas esparsos recolhidos da imprensa e outros inéditos.
   A chamada poesia marginal, nos anos 1970, teve como epicentro a zona sul do Rio de Janeiro. E os poemas de Charles Peixoto refletirão, em geral, uma poesia de concisão, objetividade, e o romantismo de Charles terá referências heterodoxas, tais como os crimes passionais, os dramas familiares, os casos de polícia, tudo num conteúdo urbano e numa forma que coloca a rapidez das expressões breves como a urgência deste ser que está, em plena década de 1970, entre o sol de Ipanema e as sombras da ditadura militar.
   A poesia marginal é engajada, e mesmo dentro do contexto do desbunde, há uma expressão política, que mescla tal contracultura com o compromisso da arte de perturbar o status quo, não só com diversão, mas também com o necessário e preciso pendor para refletir sobre a devastação do mundo político e real. Os poemas de Charles Peixoto têm este teor de urbanidade, brevidade, exigência do coloquial e do mundano, poesia de rua, feita para a rua, e que, com a Nuvem Cigana, tem no coletivo de rua, e não no autor de gabinete, o seu sentido maior. E, em Charles Peixoto, isso se traduzirá com o desregramento social e afetivo, com um artesanato das coisas cotidianas, o mundano mais fundamental do que o estrito pendor literário.
   É com o lançamento recente de Supertrampo que temos toda a poesia de Charles Peixoto reunida, o que vai do ano 1971 até 2014. Os livros do poeta são elencados cronologicamente neste livro, o que começa, então, pelo Travessa bertalha 11, e que tem versos como: “você podia sentar/acender um cigarro/conversar sobre a sorte das pessoas/sobre como elas perderam tantas coisas/sobre o que eles perderam/eles não entenderiam/ ... que moral e imoral não são deus e o diabo/que as pessoas nascem sem saber de nada” (travessa bertalha 11, pg.15, Supertrampo). Charles Peixoto, nestes versos, coloca o destino coletivo na frente, o sentimento de perder, que é comum a muitos, e além disso, o termo moral e imoral como criação humana, demasiado humana, em que Deus e o Diabo não estão em guerra, mas o Homem. E o termo deste conflito está na sensação básica, racional se citarmos Sócrates, de que o Homem nasce sem saber e morrerá sem saber. O tudo que sei é que nada sei, então, corrobora este sentimento de perda, que é ausência, e que se configura como destino, a sorte das pessoas que perdem e não sabem o porquê, todos nascem com esta fratura da incompreensão, como fator humano por excelência.
   Continuando a leitura de Travessa bertalha 11, aparecem, em seguida, versos como: “eu detestava olhar pras pessoas/sempre no mesmo lugar ... aí enchi o saco e fui ser deus” (travessa bertalha 11, pg.21, Supertrampo). Da constatação do destino inexorável, da fratura existencial que coloca o Homem como ignorante, temos agora a esfera da decisão, Charles Peixoto entra então num sentimento de inconformismo, e como poeta passa a detestar a acomodação das pessoas, “sempre no mesmo lugar”, e decide de um súbito ser Deus. O poeta escreve para alcançar a divindade, e sai assim do lugar comum das pessoas, lugar inscrito na fratura existencial de uma dimensão única: o ser igual e comum que nada apronta, como diria Waly Salomão. E a decisão de ser Deus é o entendimento de que a poesia salva, pelo menos os poetas.
   Em Creme de Lua, temos os versos: “o poeta é um atravessador de paredes/fantasma de si mesmo” (creme de lua, pg.38, Supertrampo). E agora, Charles Peixoto sai de sua divindade, a poesia é um simulacro do que os deuses veem ou uma ideação de ser deus que não livra o poeta da fratura existencial, e que se coloca como fantasma de si mesmo. O sobrenatural seria, no caso da poesia e do poeta, mais uma ilusão do que uma realidade, e quando Charles Peixoto decide ser deus na Travessa bertalha 11, agora vê que é um fantasma no livro Creme de Lua.
   Em Perpétuo socorro, a aventura de Charles Peixoto dá seguimento: “na minha cabeça não tem ideia de mofo/nem farsa modernista/ tem minhocas oportunistas/empapuçadas de terra”, e que segue, “sou mais chegado ao escracho que ao desempenho/mais chegado à música que à porrada/mais chegado ao vício que à virtude/” (perpétuo socorro, pg.43, Supertrampo). Aqui temos mais dilemas, e novas decisões. O poeta se revolta com o mofo das ideias antigas. A geração da poesia marginal terá este fastio como marca, e Charles Peixoto se afirma agora como poeta de vícios. A virtude da divindade é invertida, a música ao menos o redime da porrada, e o humor, o escracho, são maiores que qualquer deus da “grande obra”.
   O saco cheio do poeta se traduz, agora, como um ser mundano. Seu lugar é novo, diverso das pessoas que sempre ficam no mesmo lugar, mas a realidade é a mesma, a amplidão é só o cotidiano, a poesia é seu simulacro de vida, mais mundano, é a Nuvem Cigana na rua, e o poeta como deus do ordinário.
   Ao que segue, ainda em Perpétuo socorro, os versos: “nenhuma compaixão/paixão é perpétuo socorro” (perpétuo socorro, pg. 50, Supertrampo). A compaixão é vertida em paixão, o socorro do poeta sai do ideal compassivo (divino), e mais uma vez se coloca na dimensão mundana, em que a ilusão da poesia se dá bem com uma ilusão maior ainda, a paixão, e isso como seu socorro, perene, perpétuo.
   Na abertura de Coração de cavalo, pg.55 de Supertrampo, temos um dos trechos mais bonitos do livro: “a poesia alimenta revoluções/é o vira-lata esperto na mira da caça/a poesia é a criação mais barata/a situação mais delicada/o tombo mais alto/porque os palhaços pensam que têm/cabeça de borracha”. A mira da caça é o poeta, o vira-lata é o poeta, a revolução é o poeta, e isso numa criação barata, e num alçar voo inconsequente, pois do tombo, o poeta pensa que sai ileso, tem a cabeça de borracha. É palhaço, fantasma, divino, e aqui o cotidiano é delicado, o fio da navalha encarna a revolução que é mais barata que tudo, e ainda tá na mira, como caça, como provocação.
   Ainda em Coração de cavalo, temos: “cansado de tanta interferência/por um pouco de calma/eu lembro de quando tinha muito menos forçação de barra” (coração de cavalo, pg.78, Supertrampo). O poeta quer fazer seu simulacro, quer se realizar na ilusão, é um fantasma, um palhaço, consciente de que a fratura existencial das pessoas que não saem do mesmo lugar podem prejudicá-lo. Pois agora o conflito vira guerra, e a tática do homem unidimensional é a interferência. As revoluções dos versos vão de encontro com uma muralha inexpugnável, na qual a forçação de barra vai ao limite, tornando-se intolerável. E o poeta a denuncia.
   Em Coração de cavalo, a denúncia segue, mais clara que água: “abaixo a linha dura/qualquer linha/o que der na telha/deixa a gente feliz/bazta nazi manzanas” (coração de cavalo, pg.80, Supertrampo). Aqui, a ditadura militar é citada, e a interferência ou forçação de barra ganha nome e endereço: a linha dura. Aqui o nazi é a resistência do homem unidimensional que torna o político em autoridade, o grito de liberdade em afogamento, num verbo em que a palavra livre se esquiva e fala baixinho para não morrer.
   O “forçador” é máscara, e o fantasma do poeta assombra com suas revoluções o seu ser deus que tem a tarefa de denunciar a fratura ignorante que é a farsa da ordem. Denúncia da mentira como virtude que não sai do lugar, e o poeta, enquanto isso, e apesar disso, faz o que der na telha, provocação e libertação denunciam a letra unívoca da verdadeira cabeça de borracha: a ditadura militar, aonde que tem cabeça é preso.
   Já no primeiro lance comercial de Charles Peixoto, o Marmota platônica, aparecem versos desta estirpe: “mais uma vez pulei dentro da minha nave sonâmbula/intitulada marmota platônica/e fiquei julgando ouvir estrelas” (marmota platônica, pg.102, Supertrampo). A ilusão do poeta, seu simulacro, evoca um dos ases da poesia antiga, Olavo Bilac, o senso comum é derrotado pela loucura de ouvir estrelas.
   O poeta marcha na sua insensatez sensata de colocar a ilusão na ordem do dia, e aqui sai do mesmo lugar de sempre do homem unidimensional, e se realiza verdadeiramente, levando uma vida mais autêntica, em que saber do próprio talento, tê-lo como ofício, faz do simples simulacro um projeto de vida, e com a palavra verdade como diferença, afirmação.
   A marmota platônica, seu mundo de ideias, torna o mundo diferente, em que ser sonâmbulo e ouvir estrelas é normal, e mais que isso, esta ausculta se faz como lugar de senso crítico que não vê só o que se apresenta como tangível. A nova visão sonâmbula é a visão do transe, em que a verdadeira vida eclode. Enquanto o simulacro cabe mais, agora, ao homem unidimensional que ao poeta, o qual já vê a luz, as estrelas, e, veja que ousadia, ouve tudo, como se o transe fosse o átimo de sentido que falta ao mundo que não sai do lugar.
   Em Sessentopeia, livro de Charles Peixoto lançado em 2011, aparece novamente este estado alterado da mente, que é sonho, delírio e transe: “sessentopeia/sacripanta sensual a se insinuar através do tempo/sonhos selvagens/paixões suicidas/noites de loucura ... sessentopeia/sismograma de um cérebro em surto/páginas da biografia secular de um recém-nascido” (sessentopeia, pg.121, Supertrampo). Aqui, a noite de loucura em que se ouve estrelas tem a imagem firme do renascimento. O poeta, agora recém-nascido, olha o novo mundo, a loucura é a performance de uma realidade que o estreito caminho do homem unidimensional sequer suspeita, pois foi adestrado no tangível, e acha que o simulacro é a realidade.
   A marmota platônica, a alegoria da caverna, é colocada novamente em Sessentopeia, e o neologismo é criação de simulacro, só que com mais pé no real do que o senso comum dos que não saem do lugar. O cérebro em surto faz as cores do novo mundo, e nada será mais tão conforme ao que o idiota da objetividade espera, pois a poesia não se ocupa do simulacro da unidade conforme ao preestabelecido. A poesia cria a ausculta, na poesia se ouve estrelas, e o mundano tem mais cor e som do que imagina (não imagina?) o homem unidimensional.
   Já nos poemas novos de Charles Peixoto, o Supertrampo propriamente dito, temos: “assim vigora o temor febril/evidente que não fazemos parte dessa galáxia/extratelurianos são compatíveis/nada improváveis/polêmica relação entre poetas e lunáticos” (pg.187). E que finaliza o trajeto com : “poesia é bom/eleva o espírito/burila o sentimento/traduz a amplidão/e o que de tão pequeno/evapora no fim da tempestade” (pg.193). Charles Peixoto encerra seu Supertrampo com o diálogo surreal entre o poeta e o lunático. Estes são extratelurianos de outra galáxia, em que o senso comum é uma piada, e o sensato mora nas estrelas e tem ausculta nobre e diz que poesia é bom, como seu último pecado e blasfêmia contra o homem unidimensional.  

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 


segunda-feira, 9 de março de 2015

A FÁBRICA DE MONSTROS

   Bob Gil, Ricardo e Lúcio eram três amigos, todos na faixa dos dezoito e dezenove anos. Nas noites, gostavam de sair para pichar muros, todos no subúrbio, eles tinham nesta atividade lúdica seu passatempo, identidade e afirmação. Logo, depois de uma noitada em que Bob Gil, o líder dos três, subiu um paredão enorme de um prédio para deixar a sua marca, piche que era Commando em letras estilizadas, e com a sigla do grupo abaixo, T.T. (Tormenta Total), ele foi pego pela polícia, foi levado no camburão.
   Os outros dois, Ricardo e Lúcio, tentaram avisá-lo que havia chegado a viatura, mas, vendo que não daria tempo, correram embora. Ricardo e Lúcio resolveram então ir ao outro quarteirão e deixar suas marcas nos muros de uma casa: Ricardo era “Esnobe” e Lúcio tinha um nome sem sentido “Clacks”.
   Eles ficaram de ir atrás de Bob Gil mais tarde, quando amanhecesse. Foram a uma boate e pegaram a mesma mulher, a qual já conheciam, Norma, mais conhecida como Norminha, que já tinha passado na mão de todos os pichadores do bairro. E para os dois era satisfação garantida, até porque eles não tinham muito tesão por mulheres que ficam dificultando muito, pegavam as piranhas que davam para todos, pois dava menos trabalho.
   Norminha chamou os dois para a casa dela, ela tinha 32 anos e era viciadaça em cocaína. Lúcio tirou no palitinho com Ricardo quem seria o primeiro a comê-la naquela madrugada. Lúcio venceu, durou dez minutos, saiu do quarto dela todo suado, Ricardo então desistiu de comer Norminha, tinha dado um teco e ficou paranoico achando que Norminha que tinha mandado prender Bob Gil. Os dois saíram sendo estapeados por Norminha logo após, e deram no pé. Norminha era imprevisível, e como os dois não gostavam de dificuldades, viram que o preço da piranhagem tinha acabado de ficar alto para eles, que foram dormir numa sacada abandonada, para de manhã saírem atrás de Bob Gil.
   Naquela manhã, Bob Gil passou por um interrogatório surreal: “Quem é você? Um intruso do submundo? Vou mandá-lo para o inferno, conhece o inferno? Você fez pacto de sangue com o diabo? Como você achou este muro? Por que você sobe prédios? Qual é o nome do artista que disse que pichar é legal? Você gosta de comer sal? Vou enfiar um saco de sal na tua boca!”
   E, então, Bob Gil foi torturado por dois jovenzinhos aspirantes da delegacia, a tortura do sal. Ele engoliu um saco inteiro, e depois os jovenzinhos ficaram com garrafões de água na frente de Bob Gil, sem deixá-lo pegar a água. Deram um banho de gordura de porco em seu corpo, obrigaram-no a comer comida do chão, podre, depois que Bob Gil já estava com a cara preta da noite anterior por causa do piche como punição. Logo após, os dois aspirantes, já cansados da diversão, deram chutes em Bob Gil, que saiu a pontapés da delegacia, e então Bob Gil estava livre, na rua novamente.
   Bob Gil voltou à sacada em que Lúcio e Ricardo dormiam, eles tinham brigado com os pais e ficavam zanzando pelas ruas, só Bob Gil tinha uma condição abastada, morava de frente para a praia, mas sempre preferiu se aventurar no subúrbio, aonde seu pai lhe alugou um quitinete, mais para se livrar de Bob Gil do que para prestigiá-lo.
   Bob Gil tinha trabalhado de office-boy uns meses, mas foi mandado embora depois de chegar chapado de maconha no trabalho e de ter cuspido na cara do chefe. Enfim, já na manhã, Lúcio e Ricardo procuravam Bob Gil que procurava Lúcio e Ricardo. Os três se trombaram na praça principal do bairro pobre em que moravam, já ao meio-dia. Bob Gil pediu aos outros dois um banho na cara para tirar o piche, Norminha passou na praça e decidiu dar mais uma chance para Ricardo e Lúcio, pois ela queria mais uma sessão de sexo com Lúcio, mais do que os dez minutos daquela correria da madrugada anterior. Norminha levou Bob Gil para sua casa e lhe deu um banho até tirar o piche, depois de um boquete e tudo resolvido. Mas, Bob Gil não achou seu trabalho bom e saiu sem agradecer, ela ficou puta.
   Depois daquele dia, Norminha sabia que Lúcio, Ricardo e Bob Gil não prestavam um níquel e arrumou um pobretão caidinho que vivia bêbado pelas ruas como seu iniciado do sexo. Enquanto isso, Bob Gil queria se vingar dos dois aspirantes que tinham lhe torturado, falou do ocorrido na delegacia com Lúcio e Ricardo. Os três conheciam um mestre de jiu-jitsu com uma suástica tatuada no braço direito, que quebrava todo mundo que se metia com ele no bairro, foram lá fazer a caveira dos aspirantes que, por acaso, eram conhecidos do mestre, o faixa preta de jiu-jitsu tinha o codinome de Brutal, o que tinha herdado de seus tempos de pichador e queimador de erva, isso antes de se dedicar à luta para ser alguém na vida e ter ficado careta só comendo vegetais, e além do jiu-jitsu, praticar ioga e meditação. A suástica no seu braço era um exibicionismo de seu tempo de muros pichados, ele agora era budista e descobrira que tal símbolo também era budista, o que amainou a sua consciência.
   Brutal, que como iogue, era teoricamente um cara pacífico, contudo com qualquer coisa errada ele partia pro pau, era um bipolar que beirava à demência quando deixava a cartilha budista e virava o lutador da suástica no braço. Tanto que, depois de dois anos morando no bairro, ninguém mais mexia com ele, pois sabia que era perda total. Já havia, então, um ano que ele não brigava mais por causa própria, só quando algum amigo tinha sido humilhado ou coisa parecida. Seu senso de justiça era torto, ele era um monge até estourar, e aí, já sabendo disso, Bob Gil já tinha pensado nele desde que estava de manhã comendo sal com os dois aspirantes metidos a valentes quando as coisas estão fáceis.
  Depois de uma conversa com um tal de “Velhinho”, cara que conhecia cada palmo e pessoa do bairro, Brutal já sabia os endereços dos dois aspirantes que, por sinal, moravam perto de sua academia. Bob Gil ficou com um sorriso perverso de canto de boca, seria sua surpresa para os dois valentes quando Brutal fizesse o serviço. Bob Gil queria a forra logo, mas Brutal disse para esperar três dias, para sacar o movimento dos caras. “Nada se faz com raiva” disse Brutal, (olha quem dizia), mas tinha sentido, Brutal sempre foi calmo mesmo estourado, o que era um paradoxo, mas ele tinha tanta força que, quando brigava, parecia que estava fazendo um movimento de sua rotina, como quem almoça ou toma banho, portanto, sua agressividade era calculada, como quem tem um bisturi e sabe o que está fazendo.
   Passaram os três dias. O primeiro da lista era o que morava na quadra seguinte da academia de Brutal, aspirante que, Brutal descobrira, tinha sido seu aluno de jiu-jitsu há poucos meses antes de virar polícia, sabia seu nome, Everaldo. O outro era o Matias, que era um valentão do bairro, também conhecido de Brutal, e que, um ano antes, tinha levado uma garrafada do tal “Velhinho”, que não brincava em serviço, o que deu a Matias uma cicatriz na testa.
   Brutal disse para Bob Gil, ao meio-dia, para só aparecer depois que Everaldo tivesse com a cara vermelha, para ele ficar na esquina e não “perturbar” seu trabalho. Brutal tocou a campainha da casa de Everaldo, e quem atendeu foi sua esposa. Brutal disse que tinha um recado para dar ao seu marido. Everaldo apareceu na porta, abriu e reconheceu o antigo mestre de jiu-jitsu, nem deu para ele dar o primeiro pio e levou uma cabeçada no queixo, Everaldo viu estrelas e perdeu os sentidos. Brutal, então, não fez mais nada, e chamou Bob Gil.
   Quando Everaldo voltou a si, viu a cara de Bob Gil e tomou um susto. Brutal disse para Everaldo pedir desculpas à Bob Gil, o que mexeu com o orgulho de Everaldo, mas ele não tinha saída, pediu desculpas e garantiu à Brutal que não faria mais nada com Bob Gil, que ele poderia dar os seus rolés de pichação sem ser incomodado dali para a frente. Brutal então disse para Everaldo que tinha ficado barato, mas ele tinha conseguido o que queria, ninguém mexer com ninguém, que era o lema de Brutal.    
   Logo, Bob Gil ficou atordoado, queria ir logo na casa do outro aspirante, Matias, que era o mais insano da tortura, e desta vez Brutal prometeu a Bob Gil que o trabalho seria mais ríspido do que com Everaldo. Só que ordenou para que Bob Gil se acalmasse, e disse para Everaldo não ter contato com Matias nas próximas duas horas, pois senão levaria outra cabeçada. Everaldo nem pensou, teve um ardil, disse nada para Brutal, mas ligou para o delegado e falou um monte de abobrinhas. O delegado mandou um investigador atrás de Brutal e Bob Gil.
   Na casa de Matias a coisa ficou feia, ele subiu no telhado, Brutal e Bob Gil escalaram a telha, mas Bob Gil, apesar da experiência em subir edificações, caiu dentro da casa e quebrou a perna. Brutal decidiu suspender a sua ação e desceu junto com Matias do telhado, disse que não faria nada com ele se o mesmo levasse Bob Gil para o pronto-socorro, no que Matias pegou seu carro, e foram os três, Brutal, Matias, e Bob Gil gritando de dor para o hospital.
   Lá, Bob Gil teria de ficar de molho por uns dias, e no terceiro dia recebeu um diagnóstico de louco por um médico que não gostava de vagabundos como ele, foi enviado para uma clínica psiquiátrica, e lá encontrou Lúcio e Ricardo, que foram enviados para lá depois de uma briga de que não participaram, e foram pegos como boi de piranha. Os três agora estavam juntos novamente, no meio de um bando de alienados, e o investigador enviado por Everaldo disse a ele que “os caras já tão lá”.
   Dr. Ronaldo tinha um acordo com o delegado do bairro para pegar todos os vadios das redondezas e dar injeções para acalmá-los. Ali havia uma política velada de combate à vadiagem, coisa que só se tinha há cem anos, mas a polícia já estava de saco cheio dos pichadores que brotavam como uma hidra de lerna pelo bairro todo.  
   Não era Dr. Ronaldo que iria contestar a posição do delegado, ele tinha uma política sanitária ordenada pelo prefeito de pegar os zumbis das ruas e empilhá-los em qualquer canto. Mas, lá não era uma clínica de verdade, o que se tinha neste lugar era uma seita de combate a vagabundos, era coisa orquestrada pelo estado de polícia, não tinha medicação nem nada, era algo ilegal para combater a ilegalidade, e Dr. Ronaldo era só uma fachada para dizer que ali as pessoas estavam em tratamento.
   Brutal, que não devia nada, foi capturado por uma força-tarefa orquestrada por Everaldo e Matias, que agora estavam fazendo a vingança da vingança, o olho por olho que todos sabem vira uma bola de neve e acaba sempre mal. Everaldo e Matias, com mais dez homens, tiveram dificuldades para pegar Brutal. Três saíram com hematomas, mas conseguiram botá-lo no camburão, e ele caiu naquele lugar que era uma fachada de clínica, mas que funcionava como máquina de tortura e alienação.  
   Não havia enfermeiros, eram membros do estado de polícia que comandavam aquele lugar oculto da sociedade, o ímpeto era pegar vadios e enlouquecê-los. Só saía dali alguém, só quando este alguém estivesse em frangalhos, incapacitado de reagir. O delegado era o um dos líderes da seita que era chamada de “Purificação”. A prioridade era acabar com Brutal, que era o mais forte.
   Depois de dois meses com ardis psicológicos e físicos, o que incluiu, no caso de Brutal, sede e fome, ele finalmente saiu de lá, mas não era mais o mesmo, tinha sido doutrinado, e logo entrou para a força-tarefa para pegar vadios, foi incorporado à seita, não tinha mais livre-arbítrio, coisa que era negada pela teoria da “Purificação.”
   Brutal agora mudara de nome, seu nome era Plácido, e seu semblante abobalhado se tornou o veículo fundamental de expansão daquela limpeza social. A Purificação atuava externamente como uma igreja neopentecostal, A Igreja da Nova Luz. E os novos crentes, dentre os mais fervorosos, eram pinçados para a chamada “sala secreta”, que era a incorporação de neófitos para a força-tarefa oculta da “Purificação”.
   Dr.Ronaldo cuidava da Purificação, e seu irmão mais velho, pastor Dias, atuava exotericamente com a lavagem cerebral pseudo-bíblica de tipologias de auto-ajuda, com os crentes emocionados e caindo hipnotizados pelos passes magnéticos do novo líder da Igreja da Nova Luz. Norminha agora era uma das sacerdotisas, uma das concubinas do pastor Dias, e foi logo incorporada à força-tarefa da Purificação. Lá encontrou Lúcio e Ricardo entoando mantras sem sentido, estavam sendo doutrinados, mas não poderiam fazer parte do culto ou da força-tarefa, pois já tinham perdido o juízo completamente. Enquanto isso, Bob Gil estava num curso para virar pastor. Brutal, agora como Plácido, distribuía santinhos da Igreja da Nova Luz pelo bairro, tinha emagrecido e já não botava medo em ninguém.
   Na doutrinação, os mais alienados, como Lúcio e Ricardo, dentre outros que a Purificação chamava de “bestas”, estes ficavam entoando mantras ordenados por um guarda, o que incluía também três horas de uma sessão de cambalhotas para ficarem tontos e ouvirem a palavra “Idiota” gritada em seus ouvidos pelo mesmo guarda. A idiotia era o objetivo para com os chamados “bestas”. Lúcio e Ricardo estavam tão chapados que nem lembraram de Norminha quando a viram. Ela estava numa túnica azul e com os cabelos até os pés, como uma fanática que gritava Deus e Aleluia para os que estavam sendo encaminhados para a escola de pastores. Quanto aos “bestas”, ela gritava “Idiota” junto com o guarda às vezes. A situação clínica de Lúcio e Ricardo era indefinível, a lavagem cerebral os tinha inutilizado para a vida social, suas rotinas se resumiam a mantras, gritos de Idiota e cambalhotas, mais nada.
   A Purificação logo seria “revelada” aos crentes da Igreja da Nova Luz, como o cume da montanha, o ideal social que levava embora os bestiais, e que tinha nos chamados “bestas” a pureza dos que nunca retornarão. Os “bestas” seriam os novos anjos da Igreja, e já seriam apresentados à multidão de crentes do pastor Dias.
   A doutrinação, que havia exotericamente com a Bíblia, sobretudo o Velho Testamento, viraria uma coisa só com o esoterismo da Purificação, um plano de dominação social e psicológica idealizadas pelo Dr.Ronaldo, o delegado e o pastor Dias, que, a esta altura, depois de unidos, já começavam a olhar torto um para o outro, o que configuraria em breve numa disputa de poder insana pela liderança do capital e do nome da Igreja da Nova Luz e pela seita da Purificação.
   Os três, Dr.Ronaldo, o delegado e o pastor Dias tinham um projeto, quando da união de Igreja da Nova Luz e da seita da Purificação, o nome da nova organização seria Último Dia, e todos deveriam estar em túnicas ao entrar no novo templo, tudo com temática e estética do Velho Testamento. Era a ideia de recriar o Templo de Salomão, que era a verdadeira obsessão do pastor Dias, e que ordenou uma força-tarefa para sumirem com o delegado e o Dr.Ronaldo, mas Brutal (Plácido) ficou sabendo e disse ao seu mestre e mentor Dr.Ronaldo para ele fugir.
   Só o delegado foi pego, e levado para o estado de polícia da Purificação que ele mesmo tinha tramado. Lá, Norminha começou a gritar Idiota junto com o guarda, a intenção do pastor Dias era eliminar o delegado através da alienação por mantras e hipnose, na qual ele era mestre.
   O pastor Dias era o mais ambicioso dos três líderes, Dr.Ronaldo queria se vingar do irmão, e foi direto ao ponto, deu uma ordem para Brutal (Plácido) matar o pastor Dias, lhe deu um revólver e mandou acabar logo com aquilo, o Templo de Salomão seria agora ou do pastor Dias ou do Dr.Ronaldo.
   O delegado, depois de uma sessão ininterrupta de hipnose de alienação, já estava catatônico, e não oferecia mais perigo aos planos do pastor Dias, o delegado havia recebido um passe magnético do pastor Dias e agora imaginava que era um cachorro, mijando e cagando no chão no pátio da seita da Purificação, lugar que seria demolido quando da revelação da Purificação aos crentes emocionados da Igreja da Nova Luz.   
   Pelos planos do pastor Dias, Lúcio e Ricardo seriam as primeiras “bestas” apresentadas aos crentes da igreja, como uma introdução sutil ao mundo alienado que era o mundo puro e que deveria ser o ideal dos crentes dali para a frente. Claro, com um toque de hipocrisia, na igreja não seria escutada a palavra secreta “Idiota”, mas a idiotia era o plano de dominação social, financeira e psicológica do pastor Dias. O comando magnético já tinha mudado para “Puro” quando da entrada de Lúcio e Ricardo à Igreja da Nova Luz.
   Então, chegou o dia das “bestas” ou “puros” (na linguagem exotérica) serem apresentados aos crentes emocionados da igreja. A Igreja da Nova Luz teria, só naquela semana, e já divulgado pela publicidade da igreja, 57 puros que tinham, segundo o relato fictício do pastor Dias, passado pelo batismo nas águas do Rio Jordão, como os novos anjos, ideal de pureza, “bestas” (na linguagem esotérica). “Puros” (na linguagem exotérica).
   Aquela semana foi de festa, Lúcio e Ricardo repetiam a palavra “Puro” e “Anjo” o tempo todo. As “bestas” logo foram apresentadas naquela semana turbulenta, e os crentes emocionados se jogavam no chão, falavam em línguas e gritavam “Glória Deus” e “Aleluia”, num rito hipnótico em que havia desde sessões de descarrego até pregações doutrinárias calcadas sobretudo no Pentateuco, com Levíticos e Deuteronômio sendo citados pelo pastor Dias entre gritos de “Puro” e “Anjo” dos chamados “bestas” (linguagem esotérica).
   Os 57 “bestas” ou “puros” então são banhados numa grande bacia com “águas do Rio Jordão” para então gritarem, sob novo comando magnético: “Purificação!” E os crentes emocionados caíam aos montes, numa orgia magnética em que seria anunciada a construção do novo Templo de Salomão e a mudança do nome da igreja para Último Dia.
   Os anjos, como eram chamados os bestas pelos crentes, receberam uma verdadeira procissão, o pastor Dias disse aos crentes que quem tocasse nos “anjos” ou “puros” teriam a cura e a vitória, pois ali haviam almas abençoadas pelas águas do Rio Jordão, e que eram tão puros que de suas bocas só saíam agora a palavra “Purificação”.
   Entrementes, Plácido (Brutal) já estava à paisana para cumprir a ordem do Dr. Ronaldo para matar seu irmão, o pastor Dias. Só que o tiro saiu pela culatra, Norminha tinha ouvido a história de Plácido e avisou o pastor Dias da trama de Dr.Ronaldo. O pastor Dias avisou ao guarda da Purificação para prender o Dr.Ronaldo, e que, mesmo sendo subalterno do mesmo, quem mandava de verdade na Purificação era o pastor, e ele, o pastor Dias, seria o ungido do Templo de Salomão da nova igreja Último Dia.
   O guarda capturou o Dr.Ronaldo, enquanto Plácido era hipnotizado e imobilizado pelo pastor Dias. No dia seguinte o pastor Dias, junto com o guarda e Norminha, fizeram os passes de alienação em Plácido e Dr. Ronaldo e os transformaram em novas “bestas”. Logo apresentados à igreja como mais dois “puros”.
   E agora todos os crentes emocionados queriam também ser puros, e o agora pastor Bob Gil, de tão doutrinado na escola de pastores, já era considerado o sucessor natural do pastor Dias. Bob Gil era agora um dos que passaram a trabalhar na inauguração do Templo de Salomão, enquanto o pastor Dias lançava outro pastor candidato a prefeito da cidade.
   Só que havia um delator, um dos funcionários da Purificação, que agora seria demolida, e tinha perdido o emprego, denunciou as barbaridades cometidas naquele lugar à Justiça. E a Polícia Federal foi acionada e chegou a tempo de ver cerca de 150 bestas dentro da Purificação, antes da demolição.
   Um jornalista ficou sabendo e publicou uma denúncia de que o pastor Dias tinha esquemas de lavagem de dinheiro e lavagem cerebral. Logo, o nome do pastor estava envolvido num escândalo de proporções gigantes, mas, mesmo assim, com a denúncia vindo à luz do dia, os crentes saíram em passeatas em volta do novo Templo de Salomão contra a prisão do pastor Dias.
   O pastor, então, vem com uma plêiade de advogados, e deixa o Templo de Salomão ao cargo de Bob Gil, neste ínterim. Norminha vai junto com o pastor Dias para protegê-lo dos fotógrafos. Bob Gil agora já vislumbrava o pastor Dias fora de seu caminho, ele não tinha escrúpulos, e sua pose de sucessor era para fascinar o pastor Dias até que a casa caísse para o mesmo.
   Com o escândalo público, as chamadas bestas foram encaminhadas por assistentes sociais para uma escola de ressocialização, o que foi um trabalho brutal, e que duraria uns cinco anos, sem resultados efetivos. Lúcio e Ricardo, por exemplo, deixaram de falar “Puro” e “Anjo” para “Eu sou idiota”, como uma ressonância dos gritos dentro da Purificação.
   E, enfim, a demolição da Purificação foi feita, mas pelo Corpo de Bombeiros, engenheiros, e com a vigilância da Polícia Federal, para que nenhum crente emocionado entrasse lá. Os bens do pastor Dias foram confiscados, e o Templo de Salomão, agora com o julgamento do pastor Dias, que levaria a uma condenação de oito anos de reclusão, estava nas mãos de Bob Gil que, apesar de pastor, parecia que tinha recobrado a consciência, e resolveu acabar com aquilo tudo, queria vender o Templo de Salomão, faturou uma grana com isso, e então, ao encontrar velhos amigos da pichação, viram que estes agora estavam envolvidos no grafite, e então tornou o Templo num centro cultural, o local foi então chamado de Povo da Rua, e ele largou a Bíblia para virar grafiteiro.

09/03/2015 Contos Psicodélicos
(Gustavo Bastos)    


    

segunda-feira, 2 de março de 2015

VELHO COMO A GUERRA

Mas, agora que o tempo urge
urdidura urze bambuzal,
com velhos dilemas
de posso não posso.

Mas, antes e depois,
e o susto?
Ora, pernoita a insânia
em teores pútridos.

Mas, contudo,
enerva o olho
com a condolência,
o lamento.

Eis que: o néscio
vira o dia qual idiota,
energúmeno econômico,
valete e rei
de damas ludibriadas,
público e notório
idiota que se levanta
como bote de serpente,
e faz filmografia
como quem caga!

02/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

CLOACA

Versos repartidos à sensaboria,
cloaca vendida
aos templos.

Se de cor enuncia o sagrado,
o poeta desperto
conclama o clamor,
figura do templo.

Versos repaginados de bruto calor,
mesmeriza o código da fonte,
abre a fórceps o dia.

Vai-te cloaca da moda!
Regurgita seu pecado,
hei pecado!

Vai-te mormaço, intempérie,
guerra!

Vai daqui ao inferno
com suas cartas de morte!

02/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

DUNDUN

As balas dunduns são feias,
correm com seus asseclas
o ódio e o torpor do nada.

Caio, levanto, me mato!

Se o dia corrói como uma
poça de sangue?
Sim, e não há nau que cure!

As balas bonitas do doce sabor,
morango, hortelã,
onde estão?

As balas dunduns
saem do cu do mundo.

02/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

ÂNIMO

Recobrar o ânimo, vindo da festa
que agora dorme.

Andei no pântano, com as sandálias
carcomidas, os pés inchados.
Levei o ócio da terapia
com uma febre de relva.

Oh, das horas malditas
do coração?
Eis: tudo ou nada.

Selva do coração, que o hausto
sufocado não perdoa!

Lá, com um alto de monte
a saudade,
por onde mais o libelo
desafoga.

Por estreitos caminhos,
extremas veredas,
caminhei.

02/03/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

domingo, 1 de março de 2015

HELL`S ANGELS

“a força dos Angels é o grupo, e neste ponto eles são imbatíveis”

   “Hell`s Angels” foi o primeiro livro publicado pelo jornalista gonzo Hunter S. Thompson, e diferente de algumas obras subsequentes, este relato não é romanceado, se trata de um documento de jornalismo investigativo e de reportagem 100% real, o que culminou com este lançamento de 1967, no mesmo ano do Verão do Amor, resultado de seu convívio temporário com o grupo de motociclistas Hell`s Angels, sendo o livro um clássico norte-americano, um retrato in loco da vida de foras da lei que inaugura o jornalismo gonzo.
   Califórnia, fim de semana do Dia do Trabalho. Bem cedo, motoqueiros fora da lei usando correntes, viseiras e calças Levi`s ensebadas saem em número cada vez maior vindos de São Francisco, Hollywood, Berdoo e East Oakland, seguindo rumo à península de Monterey, ao norte do Big Sur. Os Hell`s Angels correm e fazem barulho na estrada de manhã cedo “loucos para entrar em ação, cabelos compridos ao vento, barbas e bandanas balançando, brincos, sovacos, chicotes de corrente, suásticas e Harley-Davidsons depenadas refletindo o brilho cromado enquanto o trânsito da 101 dá passagem, nervoso, à formação de motos que lembra o estrondo de um trovão indecente ...” (Hunter S.Thompson)
   Os Hell`s Angels eram a elite barra pesada e fora da lei dos motociclistas da Califórnia, em breve se multiplicariam pelos Estados Unidos pelo alarde sensacionalista da imprensa. No caminho para Monterey, vinham de São Francisco, numa formação separada, os Gypsy Jokers, que era o clube fora da lei número dois da Califórnia, loucos por publicidade. E, com apenas uma divisão, os Jokers conseguiam ser superiores a grupos como os Presidents, Road Rats, Nightriders, e Question Maria, também da Bay Area, Gomorra, e o caos insano de Los Angeles, que era dos Satan`s Slaves, número três na hierarquia dos motociclistas.
   Os Satan`s podiam abusar da impunidade com outros clubes do sul: os Coffin Cheaters, Iron Horsemen, Galloping Gooses, Comancheros, Stray Satans e uma laia de sem-teto que nem os fora da lei aceitavam. “A Jornada do Dia do Trabalho é o evento mais importante do calendário dos Hell`s Angels. É o encontro anual de todo o clã dos fora da lei, um porre pesado de três dias que quase sempre acaba em orgias e em mais uma incomodação para os caretas.” (Hunter S. Thompson)
   O emblema dos Hell`s Angels, por sua vez, é denominado ‘estandarte’, e consiste em remendos bordados na forma de um crânio alado com um capacete de motociclista. Logo abaixo das asas do emblema estão as letras “MC”. Acima há uma faixa com as palavras “Hell`s Angels”. Abaixo do emblema, há um outro remendo com o nome da divisão local, que geralmente é a abreviatura da cidade ou localidade.
   Os Hell`s Angels parecem ter preferência por motocicletas americanas grandes e resistentes. (Harley-Davidsons). Em qualquer encontro dos Hell`s Angels quem manda é Ralph “Sonny” Barger, o Líder Supremo, de East Oakland. Os Angels de Oakland tinham que aparecer com tudo na Jornada do Dia do Trabalho. Qualquer coisa menor que isso iria devolver a liderança espiritual para o sul da Califórnia, para a divisão de San Bernardino (ou Berdoo), que foram os fundadores, os que começaram tudo em 1950, e deram as cartas durante quinze anos. Mas a crescente pressão da polícia do sul estava fazendo com que muitos Angels procurassem refúgio na Bay Area.
   Em 1965, Oakland estava prestes a se tornar a capital do mundo dos Hell`s Angels. Por conta de um suposto estupro, “ao seguir para Monterey naquela manhã, essa gangue de criminosos fantasiados estava prestes a estourar, como diz o pessoal do showbiz, e seu sucesso seria o resultado da curiosa obsessão por estupros que o jornalismo norte-americano traz sobre o ombro” (Hunter S. Thompson). “Quando eles se reuniram naquele sábado no Nick`s ninguém sabia que os Angels estavam prestes a se tornar, por meio do estupro, um fenômeno publicitário na mesma escala dos Beatles ou de Bob Dylan.” (Idem)
   Dizem por aí que os Hell`s Angels têm ideias nada convencionais sobre diversão e relaxamento, com formas animalescas de entretenimento. Diante dos rumores de estupro pela imprensa, “o procurador-geral Thomas C. Lynch, então novo no cargo, agiu rapidamente e levantou uma investigação medíocre ... o relatório era fantasioso, interessante, altamente tendencioso e constantemente alarmista. Exatamente o tipo de material que rende uma boa matéria sensacionalista para a imprensa.” (Hunter S. Thompson) “A maioria dos editores da Califórnia deu à história papel de destaque por um dia ou pouco mais, depois esqueceu o assunto ... Os Angels pareciam destinados à obscuridade mais uma vez, mas a maré virou graças a um correspondente do New York Times em Los Angeles, que produziu um comentário extenso e tempestuoso sobre o relatório Lynch ... A revista Time veio em seguida com um gancho de esquerda intitulado ‘Os Mais Selvagens’. A Newsweek deu um cruzado de direita, intitulado ‘Os Selvagens’. Ou seja, a mídia nacional tinha um chamariz garantido nas mãos. Era sexo, violência, crime, loucura e depravação, tudo num único pacote.”  (Idem)
   O artigo da Time, por exemplo, prosseguia num lamento exaltado e confuso. “Não havia espaço para esse tipo de coisa na Grande Sociedade, e a Time foi enfática ao dizer que isso estava prestes a chegar ao fim. Os subalternos das autoridades estabelecidas, de prontidão, iam dar uma lição nesses trogloditas.” (Hunter S. Thompson) E esses tais relatórios policiais tendem a dramatizar os Angels de forma exagerada. Havia muita disparidade na ênfase e no contexto, não era autêntico o fator manchete, em geral, na sua relação com os Angels. “Se a ‘Saga dos Hell`s Angels’ podia comprovar alguma coisa, era o poder impressionante da imprensa dominante de Nova York. Os Hell`s Angels como existem hoje foram praticamente criados pela Time, pela Newsweek e pelo New York Times.” (Idem) Tudo produto de um jornalismo negligente e emocionalmente tendencioso, uma orgia de publicidade.
   “Antes do estupro de Monterey, eles eram desordeiros medíocres conhecidos apenas pela polícia da Califórnia e por alguns milhares de fanáticos por motos ... Depois, como resultado do incidente de Monterey, eles estavam na primeira página de qualquer publicação diária da Califórnia” (Hunter S. Thompson). “Num dia eles eram uma gangue de vagabundos, batalhando por um dólar suado ... e 24 horas depois eles estavam lidando com repórteres, fotógrafos, escritores free-lance e todo tipo de oportunista do showbiz interessado em dinheiro. Na metade de 1965, eles estavam firmemente estabelecidos como os maiores bichos-papões dos Estados Unidos.” (Idem) Os Hell`s Angels chegaram, além da imprensa, a serem procurados por místicos e poetas, apoiados por estudantes rebeldes e convidados para festas dadas por liberais e intelectuais. A coisa toda era estranha e teve como efeito em alguns Angels, que ainda usavam o estandarte, um complexo de prima-dona, exigindo contribuições em dinheiro em troca de fotos e entrevistas. “Eles eram autênticas celebridades, não restava nenhum mundo a ser conquistado. Sua única queixa era que não estavam enriquecendo” (Ibidem). “Esses filhos da puta estão usando a gente e fazendo cena” (disse Barger ao repórter do Saturday Evening Post).
   “Nem todos os fora da lei estavam felizes por serem celebridades. Os Angels de São Francisco tinham ficado seriamente marcados depois da série do Chronicle e viam os repórteres como indicadores certos de desastres” (Hunter S. Thomspon).  E a publicidade também tinha um efeito negativo na situação dos Angels em relação a empregos. “No final de 1964, talvez dois terços dos fora da lei estavam trabalhando, mas um ano depois esse número tinha caído para cerca de um terço” (Idem). Os Angels são estivadores, auxiliares de armazém, motoristas de caminhão, mecânicos, balconistas e operários eventuais em qualquer emprego que pague rápido e não exija nenhuma fidelidade. Talvez um entre dez tenha um emprego fixo ou uma renda decente. A maioria dos Angels trabalha de forma esporádica no tipo de emprego que logo será dominado pelas máquinas. A maioria deles não tem experiência nem instrução, nenhuma referência social ou econômica além de uma extensa ficha na polícia e um excelente conhecimento sobre motocicletas.

   Falando das origens dos Hell`s Angels, um acontecimento é significativo, já com a gangue existente nos anos 50, que é o filme com Marlon Brando intitulado “O selvagem” de 1954. Os Angels da época se enxergaram no filme, todos eles eram o Marlon Brando. “Muitos dos Angels são diplomados em outros clubes de desordeiros ... alguns dos quais, como o Booze Fighters, eram tão numerosos e temíveis na sua época quanto os Angels são hoje. Foram os Booze Fighters, e não os Hell`s Angels, que começaram o tumulto de Hollister, que inspirou o roteiro de ‘O selvagem’. Isso foi em 1947” (Hunter S. Thompson). Este incidente de Hollister que, dentre outras coisas, incluiu garrafas de cerveja vazias e quebradas e um racha na rua principal, resultou em manchetes suficientes para chamar a atenção de um produtor desconhecido chamado Stanley Kramer e de um jovem ator chamado Brando. “A verdade é que ‘O selvagem’, apesar do tratamento reconhecidamente ficcional, era uma obra inspirada de jornalismo cinematográfico” (Idem). Este filme forneceu aos fora da lei uma imagem duradoura e romântica deles mesmos. E o conceito de “motoqueiro fora da lei” era tão norte-americano quanto o Jazz. E nos anos 60, os Hell`s Angels estavam assumindo um caráter mítico, como heróis populares, figuras de comportamento que a maioria dos jovens poderia fantasiar.

   Por seu lado, estes fora da lei seguem à risca a Pena de Talião, o olho por olho, pois a regra prática era simples: em qualquer discussão, um Angel está sempre certo. Discordar de um Hell`s Angel é estar errado, e persistir no erro é uma provocação explícita. Nesse meio, o espírito esportivo é coisa de velhos liberais ou jovens idiotas. Um dos Angels explicou a lógica da gangue: “O nosso lema, cara, é ‘Todos pra Cima de Um e Um pra Cima de Todos’. Se você se meter com um Angel, você vai ter 25 deles no seu pescoço. Quer dizer, eles vão te quebrar, baby, e pra valer.” Os fora da lei levam o conceito de ‘Todos pra Cima de Um’ tão a sério que ele está registrado no estatuto como Regimento Interno Número 10: “Quando um Angel dá um soco em um não Angel, todos os outros Angels têm que participar.” “A hierarquia dos fora da lei é sempre instável, mas o espírito não é nada diferente do que era nos anos 50, quando foi formada a primeira divisão dos Hell`s Angels, à sombra imponente dos Booze Fighters. A definição original permanece a mesma : um bandido perigoso numa moto grande e veloz. E a Califórnia os vem produzindo há anos. Muitos são independentes, impossíveis de se distinguir de um Hell`s Angels a não ser pela inscrição nas costas – ‘Sem Clube’ ou ‘Lobo Solitário’, ou, às vezes, apenas ‘Foda-se’” (Hunter S. Thompson).

   De acordo com a indústria de motocicletas, havia cerca de 1.500.000 motocicletas registradas nos Estados Unidos em 1965. De acordo com a revista Cycle World e com o Los Angeles Times, “o crescimento acelerado do mercado de motocicletas está concentrado no setor de peso leve, que representa 90% do total.” O que a indústria chama de peso leve é uma coisa muito diferente de uma Harley-Davidson, ou Harley 74, e a maioria das motos pequenas, segundo a Cycle World, é usada para o lazer, no transporte escolar e por esportistas nas trilhas e nos passeios no deserto. E a Harley-Davidson, apesar do conceito de administração e tecnologia da Idade da Pedra, ainda é a única fabricante de motocicletas norte-americana.

   “A história da Harley-Davidson e do mercado doméstico de motocicletas é um dos capítulos mais tristes da história da livre iniciativa norte-americana. ... Durante os anos 50, enquanto a H-D estava consolidando seu monopólio, a venda de motos dobrou e depois triplicou. A Harley tinha uma mina de ouro nas mãos até 1962-1963, quando começou o ataque das importações. Em 1964, os registros haviam saltado para quase um milhão, e as Hondas leves vendiam na mesma velocidade com que os japoneses as traziam do outro lado do oceano. Os executivos da H-D ainda estavam refletindo sobre a concorrência oriental quando foram atingidos do outro lado pela Birmingham Small Arms Ltda., da Inglaterra. A BSA (que também fabrica Triumphs) decidiu desafiar a Harley no seu próprio quintal e na sua própria classe, apesar da desvantagem do aumento dos preços provocado por uma barreira protecionista gigantesca. Em 1965, quando os números já haviam aumentado 50% em relação ao ano anterior, o monopólio da H-D foi atacado de forma violenta em duas frentes. Os únicos compradores com os quais podiam contar eram policiais e foras da lei, enquanto os japoneses tomavam conta do filão dos preços baixos e a BSA infernizava sua vida nas pistas de corrida. Em 1966, com a continuação do crescimento do mercado das motos, a Harley tinha visto sua participação cair para menos de 10% do mercado doméstico e estava lutando até para manter isso”  (Hunter S. Thompson).

   Contudo, embora as motos pequenas fossem divertidas e práticas, os fora da lei prefeririam andar a pé a serem vistos numa Honda, Yamaha ou Suzuki. Suas máquinas são perigosas, nervosas e caras, esses fora da lei sentem desprezo pela ideia de divertimento saudável e seguro, que é um dos motivos pelos quais eles evitam até as mais básicas medidas de segurança que a maioria dos motoqueiros consideram necessárias.  Você jamais verá um Hell`s Angel usando capacete. Muito menos uma jaqueta de couro com tachas de prata estilo Brando-Dylan, normalmente associada a motoqueiros bandidos e “rituais de fetiche de couro”.

   Embora os Angels fossem bastante prestigiados no circuito sadomasoquista, as coisas levam a crer que qualquer pessoa que passe um tempo com os Angels sabe a diferença entre motoqueiros fora da lei e o culto homossexual ao couro. O que se pode ver na ligação pública mais conhecida entre motoqueiros fora da lei e a homossexualidade é um filme intitulado Scorpio Rising. Trata-se de um clássico underground medíocre criado no início dos anos 60 por um jovem cineasta de São Francisco chamado Kenneth Anger. E, diferentemente de O Selvagem, a criação de Anger não possuía nenhuma intenção jornalística ou de documentário, era nada mais que um filme de arte com uma trilha sonora de rock`n`roll, que consistia numa estranha crítica aos Estados Unidos do século XX, que usava motocicletas, suásticas e homossexualidade agressiva como uma nova trilogia cultural.

   Para um Angel, sua motocicleta é a única coisa que ele domina totalmente na vida. É o seu único símbolo válido de status. “O fato de que muitos Angels praticamente criaram as suas motos a partir de peças roubadas, trocadas ou feitas sob medida explica apenas em parte o tremendo apego que têm por elas. É preciso ver um fora da lei montar em sua moto e depois começar a pular no pedal de ignição para poder avaliar com precisão o que isso significa. É como ver um homem com sede encontrar água. Sua feição muda, toda a sua postura irradia confiança e autoridade” (Hunter S. Thompson).

   Com raras exceções, a moto fora da lei é uma Harley 74, uma motocicleta gigante que sai da fábrica de Milwaukee pesando trezentos quilos, mas que os Angels depenam até chegar a uns duzentos. No jargão do mundo das motocicletas, a Harley é uma hog (porco) e a moto do fora da lei é uma chopped hog (porco retalhado). Uma chopped hog é um pouco mais que um chassi pesado, um banco minúsculo e um potente motor de 1.200 cilindradas. Isso é quase o dobro do tamanho do motor de uma Triumph Bonneville ou da BSA Lightning Rocket, ambas com 650 cilindradas e capazes de chegar a velocidades entre 190 e 210 km/h. A Honda Super Hawk tem um motor de 305 cilindradas e uma velocidade máxima de quase 160 km/h. “Não existe nada nas estradas, com exceção de alguns carros esporte ou de corrida, que possa alcançar uma 74 fora da lei artisticamente retalhada ... Uma chopper em geral é uma obra de arte” (Hunter S. Thompson).

   Quanto aos fatos que tornam os Angels conhecidos, este pode ser ligado às incursões independentes que são as duas jornadas principais: Dia do Trabalho e Quatro de Julho. São estas duas datas do ano em que os fora da lei de todas as partes do estado se reúnem em algum lugar da Califórnia para uma farra colossal. Vendo os Angels numa jornada, os camponeses californianos provavelmente consideram este espetáculo inadequado ao seu modo de vida. Um fora da lei, cuja aparência normal do dia a dia chega a atrapalhar o trânsito, aparece numa jornada com a barba tingida de verde ou vermelho vivo, os olhos escondidos atrás de óculos de proteção laranjas e uma argola de metal no nariz. Outros usam capa e faixa de cabeça Apache, ou óculos de sol enormes e capacete prussiano pontudo, brincos, capacetes da Wehrmacht (Forças Armadas do III Reich) e a Cruz de Ferro alemã, além de uma Levi`s coberta de graxa, tatuagens e jaquetas sem manga.

   A respeito dos hábitos econômicos dos Angels, apesar do fetiche por suásticas, a relação fiscal entre eles beira o comunismo puro, e por mais que eles afirmem admirar o sistema da livre iniciativa, eles não conseguem sustentá-lo entre eles mesmos. A sua ética do trabalho é mais na ordem do “aquele que tem divide”. Não existe nada verbal ou dogmático, eles só não conseguem fazer diferente.

   Falando das origens dos Hell`s Angels, eles são um fenômeno da classe baixa, mas não chegam a ser miseráveis.  A maioria dos fora da lei são filhos de pessoas que vieram à Califórnia durante a Segunda Guerra Mundial, ou um pouco antes. Pelo menos metade dos Hell´s Angels são filhos da guerra. É bem fácil localizar as origens da mística dos Hell`s Angels e até de seu nome e emblemas, na Segunda Guerra Mundial e em Hollywood. Mas seus genes e sua verdadeira história têm origens bem mais remotas. A Segunda Guerra Mundial não foi o primeiro boom econômico da Califórnia e sim de algo que teve início nos anos 30, até que a economia da guerra fez da Califórnia uma nova Valhalla. Porém, antes um milhão de Okies, Arkies e caipiras que fizeram uma longa viagem até o Estado de Ouro, descobriram que era mais um lugar onde o dinheiro era suado. Quando esse senhores chegaram, o Movimento para o Oeste já estava começando a se solidificar, e uma vez na Califórnia os recém-chegados persistiram por alguns anos reproduzindo-se de forma prolífica até que a guerra começou. E já eram californianos quando a guerra acabou. O antigo estilo de vida havia se espalhado na Rota 66, e seus filhos foram criados em um novo mundo. Os Linkhorns haviam finalmente encontrado um lar. 

   Nelson Algren escreveu sobre eles em “Um passeio pelo lado selvagem”, o livro começa como uma das melhores descrições históricas já escritas sobre a escória branca americana, ele segue a linha dos ancestrais de Linkhorn, que eram nada mais que a ralé da sociedade de todas as Ilhas Britânicas: desajustados, criminosos, endividados, arruinados de todos os tipos e descrições, todos eles dispostos a assinar contratos de trabalho opressivos com futuros empregadores em troca de uma travessia do oceano rumo ao Novo Mundo. E no caminho para o Oeste muitos ficaram pelo meio, nas Carolinas, em Kentucky, West Virginia e Tennessee. São eles os Okies, Arkies, os caipiras, todos o mesmo povo. O Texas é um monumento vivo a essa raça. Assim como o sul da Califórnia.  “Seria injusto dizer que todos os motoqueiros fora da lei carregam genes de Linkhorns, mas qualquer um que já tenha passado algum tempo entre tribos anglo-saxãs nativas de Appalachia precisaria de um pouco mais de algumas horas com os Hell`s Angels para ter uma sensação muito forte de dejà vu. Existe a mesma hostilidade e o mesmo mau humor em relação a estranhos, as mesmas atitudes e os mesmos temperamentos extremados e até os mesmos nomes, rostos rígidos e corpos de ossos longos” (Hunter S. Thompson).

   Quanto às drogas, em Bass Lake, no Quatro de Julho, os fora da lei engoliam suas rações, que era nada mais que anfetaminas com cerveja. As anfetaminas (bolinhas ou rebites) fazem parte da dieta básica dos fora da lei, assim como maconha, cerveja e vinho. Mas, quando se fala em ficar chapado, para eles é um outro nível, o que inclui o Seconal (vermelhas ou demônio vermelho), um barbitúrico que normalmente é usado como sedativo ou tranquilizante. Eles também usam Amital (céu azul), Nembutal (capa amarela) e Tunial.

   No final do verão de 1965, os Hell`s Angels haviam se tornado um fator a ser considerado na vida social, política e intelectual do norte da Califórnia. Eles eram citados quase todos os dias pela imprensa. E a única conexão realmente bem-sucedida que o escritor Hunter S. Thompson conseguiu fazer para os Angels foi com Ken Kesey, um jovem romancista (Um estranho no ninho e Uma lição para não esquecer) que vivia em um bosque perto de La Honda, ao sul de São Francisco.

   Kesey convidou a divisão de Frisco para uma festa em La Honda, o terreno de Kesey estava cheio de gente, música e luzes multicoloridas. As festas com Kesey ficavam cada vez mais intensas, e havia pouca maconha, ali era o paraíso do LSD. Os Angels então se juntaram ao bando de beatniks e tipos universitários , com luminares como o poeta Allen Ginsberg e o guru do LSD, Richard Alpert. Ginsberg, ao encontrar com os Angels, logo se tornou um aficionado. E, com o burburinho, outras divisões dos Angels foram chegando nas festas de Kesey. E no caso do LSD, a legislatura estadual da Califórnia aprovou uma lei rigorosa em junho de 1966, depois de rumores e histórias de que o ácido fazia as pessoas subirem em árvores, correrem pelas ruas gritando, incluindo, além, assassinatos, suicídios e comportamentos insanos de todo tipo, segundo o depoimento de um policial de Los Angeles.

   A publicidade maciça dos Hell`s Angels, que seguiu muito de perto a amplamente divulgada rebelião estudantil em Berkeley, foi interpretada nos círculos intelectuais, radicais, e liberais como um sinal de aliança natural. Além disso, a postura agressiva e antissocial dos Angels, sua alienação, tinha um apelo muito forte para o temperamento mais estético de Berkeley, e a reputação dos Angels de desafiar a polícia era uma imagem poderosa para os estudantes. Mas esta fascinação acabou quando os Hell`s Angels atacaram uma passeata contra a guerra do Vietnã na divisa entre Oakland e Berkeley. Os heróis existenciais que dividiram o mesmo baseado com os liberais de Berkeley nas festas de Kesey de repente se tornaram bestas perversas que partiam para cima desses mesmos liberais agitando os punhos e gritando “Traidores”, “Comunistas” e “Beatniks!” Não foi uma surpresa para quem sabia realmente quem eram os Angels, que sempre tiveram um ponto de vista coletivo fascista, o que os jovens estudantes demoraram a entender.

   Os Angels, assim como todos os motoqueiros fora da lei, são rigidamente anticomunistas, com suas visões políticas de um mesmo patriotismo retrógado que inspiram coisas como, por exemplo, a Sociedade de John Birch, a Ku Klux Klan e o Partido Nazista Americano. Durante as semanas que precederam a segunda manifestação em Oakland, Allen Ginsberg passou um tempo tentando convencer Barger e os Angels e não atacar os manifestantes. Ginsberg, Kesey, Neal Cassady, e alguns outros, junto com um grupo de Angels, na casa de Barger em Oakland, se reuniram para tomar LSD e discussões políticas tolas foram resolvidas pelas vozes gravadas de Joan Baez e Bob Dylan, e tudo acabou com o grupo todo entoando o texto do Prajnaparamita Sutra, o Sermão da Sabedoria mais Elevada e Perfeita.

   Os Angels nunca tinham conhecido ninguém como Ginsberg, eles o classificaram como alguém de outro mundo. E depois de mais alguns esforços de Ginsberg, os Angels convocaram uma entrevista coletiva e anunciaram que não iriam preparar nenhum ataque mais. E, a diferença principal entre os Angels e os idealistas de Berkeley, é que estes fora da lei não têm nenhum sonho de construir um mundo melhor.

   Uma das conclusões que se pode chegar do trabalho de Hunter S. Thompson, é que a imagem dos Hell`s Angels foi muito idealizada, tanto positiva, de um lado, e negativa, de outro, o que talvez, com este livro, fique a realidade de caras que, dito fracassados por uns e até pelo próprio Thompson, têm na motocicleta seu status e meio de expressão, pois cada um, na sociedade, quando não caem no crime literal, buscam identidade, e o caso dos Hell`s Angels é uma identidade coletiva, a força dos Angels é o grupo, e neste ponto eles são imbatíveis.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :http://www.seculodiario.com.br/21577/14/hellss-angels