PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 1 de abril de 2021

AS LEIS EUROPEIAS ANTITRUSTE

“a Lei de Mercados Digitais (Digital Markets Act) incide sobre os chamados gatekeepers”

No combate contra o domínio econômico das big techs, temos a iniciativa da Comissão Europeia, que apresentou duas propostas que tratam de serviços e mercados digitais, que envolvem punições pecuniárias que pode ir até bilhões, e ainda, num caso extremo, o desmembramento dos negócios.

A Lei de Serviços Digitais (Digital Services Act) terá o papel de criar regras que terão que ser cumpridas pelas plataformas de modo que haja uma conexão entre consumidores e os bens, serviços e conteúdos.

Tais regras estão, também, relacionadas com a obrigação de remoção de conteúdos considerados ilegais, e também de bens e serviços com esta mesma ilegalidade. Ainda haverá uma salvaguarda para a supressão de conteúdos de usuários, uma transparência em relação ao funcionamento dos algoritmos, e a facilitação para a ação de investigadores para estes terem acesso à rastreabilidade de ofertas de bens e serviços ilegais, e aos dados em geral.

A supervisão direta da Comissão Europeia incidirá sobre as plataformas chamadas de sistêmicas, ou seja, aquelas que cobrem mais de 10% da população da União Europeia (UE), estas plataformas poderão sofrer sanções, multas, podendo estas atingir até 6% do faturamento global em casos mais extremos de infrações.

Por sua vez, a Lei de Mercados Digitais (Digital Markets Act) incide sobre os chamados gatekeepers, estas que são plataformas digitais que realizam uma ponte entre os consumidores e as empresas.

Por exemplo, neste escopo se inclui lojas de aplicativos da Apple e do Google, aonde se encontram produtos feitos por desenvolvedores que são oferecidos aos donos de smartphones iOS e Android. Também temos neste meio a lei enquadrando redes sociais, serviços de buscas e apps de mensagens e marketplaces.

Outras normas envolvem a proibição de impedimento de remoção de softwares pré-instalados e de criar barreiras a produtos de concorrentes, e as sanções desta Lei de Mercados Digitais são mais graves, pois neste caso as multas podem chegar a 10% do faturamento global das empresas.

Nos casos de infrações sistemáticas, podem ocorrer soluções estruturais que obrigam um gatekeeper a vender uma empresa ou uma parte desta. Os debates em torno das duas propostas são intensos e geram atritos entre as empresas, ainda se terá a necessidade de aprovação pelo Parlamento Europeu e pelos Estados-membros.

No início de novembro de 2020, a Comissão Europeia anunciou as conclusões preliminares de seu relatório sobre a ação antitruste contra a Amazon, acusada de violar leis de concorrência.

O comunicado de Margrethe Vestager, a comissária de concorrência do bloco, afirmou que há suspeitas de que a Amazon favoreceu a venda de seus próprios produtos com dados de fornecedores externos que usam a sua plataforma. A multa da investigação, que começou em julho de 2020, pode chegar a US$ 19 bilhões, caso a Amazon seja condenada.

Na Austrália, por sua vez, em fevereiro de 2021 temos uma medida nova antitruste que obriga Google e Facebook a pagarem por notícias exibidas em suas páginas. As gigantes de tecnologia e os produtores de conteúdo deverão acordar entre si a remuneração pela veiculação de notícias. O Facebook reagiu mal, retirou notícias de sua plataforma por uma semana, para recuar logo em seguida, e o Google ameaçou deixar o país.

O movimento de acordos com veículos de comunicação, por parte do Google e do Facebook, não foi espontâneo, mas fruto da pressão que se inicia com a lei australiana, e que pode se estender a outros países, pois estes podem se espelhar na ação legiferante australiana.

O Google, por exemplo, criou o programa Google News Showcase, como um meio para fazer seus acordos com os veículos de mídia, numa pretensa boa vizinhança para justificar o uso de notícias no seu buscador.

Este programa do Google foi anunciado em 2020, primeiro com foco na Austrália, Alemanha e Brasil. Aqui no nosso país tivemos a Lei das Fake News e também um inquérito aberto pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que envolve o não pagamento aos produtores de conteúdos por parte do Google na exibição destes conteúdos em seu buscador.

Em relação ao alcance do News Showcase da Google, temos a adesão da NewsCorp, que inclui o jornal “The Wall Street Journal” e o inglês “The Times”, propriedades do empresário australiano Rudolph Murdoch.

Os planos de expansão deste programa do Google agora prevê investimento de US$ 1 bilhão nos próximos três anos e o Google afirma que já aderiram mais de 450 publicações em uma dúzia de países, que inclui tanto o Brasil e a Alemanha, como Reino Unido, Canadá, Japão e Argentina.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/as-leis-europeias-antitruste 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

SOPHIA DE MELO BREYNER ANDRESEN E SEU LIVRO GEOGRAFIA

“neste seu livro Geografia temos uma abordagem sobre o Brasil em alguns poemas”

Sophia de Mello Breyner Andresen tem uma espécie de relação suspensa com o espaço e o tempo, pois estas categorias se fundem na entidade do nada, um tipo de vacuidade abarcando a existência que atinge diretamente a reflexão poética.

A poeta Sophia se irmana e entra numa fusão com o cosmos, temos um tipo de pensamento que simula um movimento da alma que se mistura ao cosmos, enfim, uma paixão cosmológica domina um dos anelos da poesia de Sophia.

O olhar de Sophia possui uma dupla dimensão que pode pender às pequenas coisas e, num dado momento, à uma paisagem que se une ao todo, e tal relação define uma vivacidade dos instantes.

Sophia usa palavras como instante, solidão e silêncio como um meio em que sua poesia se instala na relação com os espaços e a realidade, seja esta material ou espiritual, transitando entre História e Mito, e colocando o eu-lírico nesta inflexão que flui entre pequenos espaços e uma paisagem totalizante.

Por sua vez, Sophia de Mello Breyner Andresen dá continuidade ao seu trabalho poético no livro Geografia, de 1967, que funciona como um prolongamento de Livro Sexto, sobretudo, as características formais, que envolvem concisão, poemas que se encerram, em geral, com brevidade, sintéticos e diretos, uma riqueza melódica que se alia a contraposições rítmicas.

Na vivência biográfica da poeta, esta inscrição nos aparece em sua poesia, neste livro, com a sugestão do título, uma geografia, a experiência da viagem e os dados históricos e sobre a mitologia.

Temos aqui as luzes das praias do Algarve e as das ilhas gregas, revezando com temas anteriores abordados, como a política e a cultura. No panorama político, temos um tipo de cartografia que revela o cenário de Portugal nos estertores do Salazarismo, seguida da segunda parte do livro, que já é a realidade portuguesa dos anos 1960.

Depois de um trabalho de proximidade com João Cabral de Melo Neto, em O Cristo cigano, neste seu livro Geografia temos uma abordagem sobre o Brasil em alguns poemas, que são escritos bem interessantes, tais como “Manuel Bandeira” e “Brasília”, este último que nos dá versos impressionantes sobre a capital projetada do Brasil.

DE GEOGRAFIA

INGRINA : A poeta reflete e vê o grito da cigarra e vislumbra a felicidade, no que temos : “O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perca do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia – e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Ingrina.”. A onipotência do sol, e toda a riqueza da poesia de Sophia, aqui, em forma de poema em prosa, em toda a sua intensidade : “É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol.” (...) “O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo : nesta manhã eu recomeço o mundo.”. As imagens naturais, e a força metafórica com um estro clássico que desenha bem toda a potência poética.

MUNDO NOMEADO OU DESCOBERTA DAS ILHAS : A paisagem se abre em toda a sua riqueza natural e metafórica, aqui a inflexão de Sophia é tanto poesia como descrição de um cenário, no que vem : “Iam de cabo em cabo nomeando/Baías promontórios enseadas :” (...) “E as coisas mergulhadas no sem-nome/Da sua própria ausência regressadas/Uma por uma ao seu nome respondiam/Como sendo criadas”. A relação dos nomes e das coisas e sua essência inominável fundam a anfibologia deste poema, que é, mais uma vez, uma paisagem que Sophia nos oferece. A nomeação, aqui, é criada, o regresso ao fundo oco retoma o jogo, em seguida, e seu estatuto existencial, com um novo nome, criatividade e criação.

TÚMULO DE LORCA : O poema homenageia o poeta Lorca, este que foi executado, e todo o poema canta, celebra e retoma o tema da execução e da figura do próprio poeta, no que vem : “Em ti choramos os outros mortos todos/Os que foram fuzilados em vigílias sem data/Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias” (...) “Choramos sem consolação aqueles que sucumbem/Entre os cornos da raiva sob o peso da força”. A inconformidade comum e demasiado humana diante da morte e, mais ainda, diante da tragédia, vai de encontro ao instinto comum da felicidade que, quando se depara com a dureza da dor, ou se desampara, ou a enfrenta, no que temos : “Não podemos aceitar. O teu sangue não seca/Não repousamos em paz na tua morte/A hora da tua morte continua próxima e veemente/E a terra onde abriram a tua sepultura/É semelhante à ferida que não fecha”. E o poema, com o cheiro ainda do sangue, celebra Lorca : “O teu sangue não encontrou nem foz nem saída/De Norte a Sul de Leste a Oeste/Estamos vivendo afogados no teu sangue/A lisa cal de cada muro branco/Escreve que tu foste assassinado”. No fim, com todo o esforço de Sophia, o tema ainda é a inconformidade, no que vem : “Não podemos aceitar. O processo não cessa/Pois nem tu foste poupado à patada da besta/A noite não pode beber nossa tristeza/E por mais que te escondam não ficas sepultado”.

NO DESERTO : O poema abre cenários antigos e a imagem do cavalo, e seu tema sobre o deserto lhe toma o norte, no que temos : “Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino/Eu te debelo com espora e rédea” (...) “Para que não te percas nas cidades mortas/Para que não te percas/Nem nos comércios de Babilónia/Nem nos ritos sangrentos de Nínive” (...) “Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo/Para o perfume limpo do deserto/Para a sua solidão de extremo a extremo”. O combate da poeta é pelo domínio, esta energia que impulsiona o estro que aqui se abre : “Por isso te debelo te combato te domino/E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém” (...) “Para poder soltar-te livre no deserto/Onde não somos nós dois mas só um mesmo/No deserto limpo com seu perfume de astros/Na grande claridade limpa do deserto/No espaço interior de cada poema/Luz e fogo perdidos mas tão perto/Onde  não somos nós dois mas só um mesmo”. O espírito de fusão, por fim, mais uma vez, revela um dos ideais do trabalho poético de Sophia.

OS ESPELHOS : O espelho reflete a sua relação concreta e abstrata com a pupila, e aqui com a participação da poesia, no que temos : “Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia/Nunca são baços/E mesmo sob a pálpebra da treva/Sua lisa pupila cintila e fita/Como a pupila do gato/Eles nos reflectem. Nunca nos decoram”. Neste reflexo não está mais a visão, mas a vida interior, uma alma habita este espelho que reflete quem lhe olha com seu fogo frio e vítreo, a coda : “Porém é só na penumbra da hora tardia/Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio/Que à tona dos espelhos aflora/A luz que os habita e nos apaga :/Luz arrancada/Ao interior de um fogo frio e vítreo”.

NO GOLFO DE CORINTO : A paisagem habita a poesia de Sophia sempre de uma forma bela e clássica, no que temos : “No Golfo de Corinto/A respiração dos deuses é visível :/É um arco um halo uma nuvem/Em redor das montanhas e das ilhas/Como um céu mais intenso e deslumbrado”. Tal geografia aqui se carrega de  mitologia, e o poema se enriquece, tem uma simbologia que incrementa uma paisagem real : “E uma luz cor de amora no poente se espalha/É o sangue dos deuses imortal e secreto/Que se une ao nosso sangue e com ele batalha”.

EPIDAURO : A descrição do cenário cretense e sua mitologia do Minotauro, aqui, mais uma vez, a proximidade da poesia de Sophia com temas antigos e sua recriação poética, no que temos : “O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é :/trazida à luz/trazida à liberdade da luz/trazida ao espanto da luz” (...) “Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a nossa alegria do mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real.”. A poeta tenta não ser devorada por este ser mitológico, e também luta para que toda a existência não tenha este destino, o jogo imagético se torna impressionante, a citação do vaso cretense nos faz lembrar exatamente de uma foto deste vaso, o polvo, e a cidade de Cnossos, e segue : “Mas de súbito verás que é um homem que traz em si próprio a violência do toiro.” (...) “Só poderás ser liberta aqui na manhã d`Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas – portadoras limpas da serenidade”. A violência do Minotauro pode ser a violência humana, de um homem, o que resta é resgatar a voz da serenidade, que encerra o poema, após este terror mitológico de violência e devoramento.

ÍTACA : A descrição da embarcação e de sua mecânica se funde em um poema que também aponta um nascimento, um segundo nascimento, a restituição é rica e potente, no que temos : “Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas/verdes de Brindisi/Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos/remos e guindastes” (...) “Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos/Quando o barco rolar na escuridão fechada/Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar/Porque esta é a vigília de um segundo nascimento”. O poema refunda uma existência, a poeta aqui em sua inteireza descreve esta experiência de plenitude e completude, reunião, religare, retomada, restituição, a sabedoria renasce, a vida recomeça : “O sol rente ao mar te acordará no intenso azul/Subirás devagar como os ressuscitados/Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial/Emergirás confirmada e reunida/Espantada e jovem como as estátuas arcaicas/Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto”.

MANUEL BANDEIRA : O poema de Sophia homenageia o poeta brasileiro Manuel Bandeira, no que temos : “Este poeta está/Do outro lado do mar/Mas reconheço a sua voz há muitos anos/E digo ao silêncio os seus versos devagar” (...) “Eu recitava/”As três mulheres do sabonete Araxá”/E minha avó se espantava” (...) “Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó/Quando em manhãs intactas e perdidas/No quarto já então pleno de futura/Saudade/Eu lia/A canção do “Trem de ferro”/E o “Poema do beco””. A poeta cita a sua avó e a admiração desta por este poeta, e segue : “Quando/Me sentava nos bancos pintados de fresco/E no Junho inquieto e transparente/As três mulheres do sabonete Araxá/Me acompanhavam/Tão visíveis/Que um eléctrico amarelo as decepava”. Os poemas de Bandeira ecoam neste poema de Sophia, e temos : “Estes poemas caminharam comigo e com a brisa/Nos passeados campos da minha juventude/Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro/E foram parte do tempo respirado”. É tanto uma leitura, como uma lembrança, é a experiência de Sophia com a poesia de Manuel Bandeira.

BRASÍLIA : Este poema tem uma descrição impressionante de Brasília, nesta ligação de Sophia, agora não apenas com a poesia brasileira, mas agora com a paisagem brasileira, e no caso de Brasília, por conseguinte, com a arquitetura e a concepção urbana desta cidade projetada, no que temos : “Brasília/Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras/Lógica e lírica/Grega e brasileira/Ecuménica/Propondo aos homens de todas as raças/A essência universal das formas justas”. Aqui a relação das formas justas remete, para Sophia, às formas clássicas gregas, Pitágoras é evocado, depois Babilônia surge, paisagem e arquitetura viram uma fusão em que a poesia de Sophia se expande, no que vem : “Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem/Nítida como Babilónia/Esguia como um fuste de palmeira/Sobre a lisa página do planalto/A arquitectura escreveu a sua própria paisagem”. E a citação social, refletindo da riqueza arquitetônica, braços destes candangos que ergueram uma façanha, e toda a clareza racional idealizada aqui pela poeta : “No extremo da caminhada dos Candangos/No extremo da nostalgia dos Candangos/Athena ergueu a sua cidade de cimento e vidro/Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento/E há no arranha-céus uma finura delicada de coqueiro”.

DA TRANSPARÊNCIA : O jogo da realidade ganha aqui contrastes que podem confundir os sentidos, se perder se torna fácil e tentador, o poema vem : “Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência/No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios/Mas sufocado sonho/E não sabemos bem que coisa são os sonhos/Condutores silenciosos canto surdo/Que um dia subitamente emergem/No grande pátio liso dos desastres”. E dentro da vida interior, residência da alma, sonhos, que se não os colocamos nas rédeas dos objetivos, podem emergir desordenados num cenário de desastres.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/sophia-de-mello-breyner-andresen-e-seu-livro-geografia 

 

quinta-feira, 25 de março de 2021

AS BIG TECHS ESTÃO NA MIRA DA REGULAMENTAÇÃO

“O movimento nos Estados Unidos pode ter motivos antitruste, mas também envolvem  questionamentos sobre impactos na democracia”

A computação teve um grande e intenso avanço que permitiu um maior armazenamento de dados, o que fez as empresas de tecnologia crescerem e se tornarem gigantes, e algumas destas empresas desenvolveram sistemas cada vez mais sofisticados de inteligência artificial.

Este desenvolvimento tecnológico causou um controle de informações, que juntava dados pessoais, e também provocou o controle da publicidade e do conteúdo, e nos últimos dez anos surgiram verdadeiros monopólios de mercado, minando a concorrência na área de tecnologia.

A reação para regulamentar e limitar este controle das chamadas big techs veio neste contexto em que estas empresas cresceram e se tornaram gigantes do mercado mundial, contudo, com iniciativas de diferentes países e regiões do mundo, também com diferentes motivações e objetivos.

As empresas norte-americanas estão sendo questionadas na Europa e no próprio Estados Unidos, e a China, que não tem a presença do Google e do Facebook há anos, temos a tentativa de controlar os gigantes que surgiram dentro da China, como o Alibaba.

O governo norte-americano abriu uma ação federal em outubro de 2020, na direção do Google, depois de um ano de investigações antitruste da empresa, e agora dezenas de estados dentro dos Estados Unidos processam o Google, com a acusação de monopólio ilegal nos mercados de busca online e de publicidade em pesquisas, e temos também o Facebook recebendo dois processos antitruste com acusações de abuso no mercado digital.

O movimento nos Estados Unidos pode ter motivos antitruste, mas também envolvem  questionamentos sobre impactos na democracia e no fluxo de informações online, pois tivemos uma onda de desinformação e parcialidade como uma preocupação nas recentes eleições norte-americanas.

O questionamento passa por quem tem o controle de informações, e o acesso ao eleitorado, e os Estados Unidos passam pelo cálculo nas medidas antitruste no sentido de não perder o controle do fluxo de informações em outras partes do mundo.

Este fluxo de informações tem seu controle exercido justamente pelo grande poder destas big techs na Europa e em outros lugares do mundo. A resistência é evidente, a vantagem que os Estados Unidos possuem deverá ser conservada nestes movimentos.

Na Europa estas iniciativas antitruste e de um controle maior na expansão de poder das big techs já tem mais tempo, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia, que foi um divisor de águas nas leis de privacidade, foi promulgado em 2018, e proporcionou às pessoas um maior controle sobre seus próprios dados pessoais.

Em 2020 a Europa anunciou ter intenções de tornar o RGPD mais rígido, e a Comissão Europeia divulgou um conjunto de políticas preliminares que daria aos reguladores mais poderes de combate às big techs.

Tais iniciativas e planos receberam forte apoio político em toda a Europa, o limite está no fato de que tais empresas estão sediadas nos Estados Unidos, o que impede um maior controle europeu sobre as ações destas empresas, pois deverá haver um balanceamento entre interesses europeus e o que não atingiria interesses norte-americanos.

Na China, por sua vez, que trilha um caminho paralelo na indústria de tecnologia, o governo quer ações regulatórias, e aqui temos atores internos, pois Google e Facebook já forma há tempos banidos do país, o que permitiu a expansão de empresas nacionais chinesas como Alibaba (BABA), Tencent (TCEHY) e outras.

Em uma reunião de 11 de dezembro, o Politburo do Partido Comunista Chinês (o principal órgão de tomada de decisões do país) prometeu promover reformas e fortalecer o antitruste, prevenindo a expansão desordenada do capital. Mas ainda é cedo até onde irá o poder de Pequim contra estas empresas nativas, provavelmente o foco será a proteção do consumidor.

O principal regulador de mercado da China convocou representantes do Alibaba, da  Tencent, da JD.com e outras grandes empresas de tecnologia, e lançou um alerta contra dumping de bens a preços artificialmente muito baixos, que teriam o objetivo de criar monopólios, e com um abuso sobre dados de consumidores visando o lucro, e a investigação também teria foco no comportamento monopolista do Alibaba.

O governo chinês também tem outros meios de combate além da lei sobre concorrência, um exemplo foi a sua ação no IPO do Ant Group de Jack Ma, que foi suspensa depois que o bilionário chinês se reuniu com autoridades do governo, e agora enfrenta a possibilidade de uma reformulação gigantesca.

As opções de controle por parte do governo chinês são infinitas, e o objetivo não passa necessariamente por aumentar a concorrência, mas garantir que o Partido Comunista Chinês continue no poder.

As normas divulgadas pela Administração Estatal de Regulação do Mercado da China visam impedir que estas grandes empresas de tecnologia vendam produtos causando prejuízo a concorrentes, e o uso ilegal de dados de consumidores, evitando também sobre estes vínculos a cláusulas de permanência.

A maneira usual de fazer negócio dos grandes conglomerados do país, que incluem  Alibaba, Ant Group, Tencent ou a plataforma de entrega de comida Meituan, seriam bastante limitadas com este novo marco. E depois desta ação sobre o IPO do Ant Group, estes estão agora na mira do governo chinês.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/as-big-techs-na-mira-da-regulamentacao   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 21 de março de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE V

“o Bathory conseguiu criar o rascunho para o black metal escandinavo em todas as suas diversas facetas”

As bandas Venom, Mercyful Fate e Bathory foram as pioneiras no que deu inspiração e sustento para o som que caracterizaria as bandas de black metal dos anos 1990, estas bandas, ainda nos anos 1980, plasmaram a temática e a sonoridade que, depois, seria desenvolvida pelas bandas norueguesas, por exemplo. Podemos, mais arbitrariamente, incluir também bandas como Hellhammer, Slayer e Sodom.

O Venom surgiu entre 1979 e 1980, em Newcastle, na Inglaterra, e os membros da banda adquiriram pseudônimos, o que seria uma prática de muitas bandas de black metal, depois, nos anos 1990. A banda então se formou como trio, com os músicos Cronos, Mantas e Abaddon. Uma música exagerada e anormal logo surge, com Abaddon dizendo que as fontes do som vieram de bandas como Black Sabbath e Deep Purple.

No livro Lords Of Chaos, podemos ler : “Além de serem os pioneiros de um som mais sujo do que qualquer outra banda de rock ou punk da Europa da época, a notoriedade do Venom era duplamente assegurada pelo seu elaborado endosso do satanismo a um grau que causaria sonhos molhados em inquisidores medievais”.

E segue o livro : “Tais polêmicas reverberam com seus fãs, e os antigos álbuns do Venom, Welcome to Hell (1981), Black Metal (1982) e At War with Satan (1983) chegaram a vender centenas de milhares de cópias ao longo dos anos. Com o título de seu segundo álbum, Black Metal, um estilo futuro de música satânica havia encontrado seu nome.

O disco também talhou em pedra alguns dos aspectos essenciais do gênero. O principal seria uma política declarada de oposição violenta ao judaico-cristianismo, uma blasfêmia interminável, e o abandono de qualquer sutileza em benefício de uma teatralidade grandiosa que balançava na beira de um abismo kitsch e caricatura própria”.

O Mercyful Fate, também uma banda que se desenvolveu na década de 1980, tinha em seu vocalista King Diamond um leitor de LaVey, a banda que teve seu som influenciado por bandas clássicas como o Black Sabbath e o Deep Purple, combinado com um vocal operístico de Diamond, com dois álbuns principais em seu bojo, o Melissa, de 1983, e o Don`t Break the Oath, de 1984, com histórias de ritos mágicos, pactos quebrados e suas consequências e declarações de credo satânico.

A atuação teatral de King Diamond nos palcos vinha com uma pintura facial preta e branca, e como lemos em Lords of Chaos : “Diamond é um dos únicos artistas do metal satânico dos anos 1980 que era mais do que um poser usando uma imagem demoníaca para chocar. Entre sua abertura para falar sobre seu engajamento pessoal e o teatro mascarado da sua persona de palco, sua influência seria óbvia na ressurreição do black metal com sangue novo entre 1990 e 1991”.

Em Lords of Chaos, temos então o livro descrevendo as origens da banda Bathory, no que temos : “O grupo sueco Bathory, junto do Venom, foi inaugural na evolução do black metal moderno. O Bathory tirou seu nome da “Condessa de Sangue” Erzebet Bathory, uma nobre húngara do século XVIII que foi julgada pelo assassinato de centenas de garotas jovens, em cujo sangue ela supostamente se banhava para manter sua beleza juvenil.

É muito provável que uma canção antiga do Venom, “Countess Bathory”, do álbum Black Metal, tenha sido a inspiração direta para o nome, já que o Bathory deve muito da sua sonoridade e aparência inicial aos ingleses fundadores do black metal. O motor por detrás do grupo é um homem que usa o nome artístico Quorthon (curiosamente, o Bathory nunca em sua carreira tocou um show ao vivo para o público)”.

O Bathory surgiu com um som ainda mais potente do que era o Venom, uma música que veio como um arsenal de distorção, no livro podemos ler “a seção rítmica hipermovimentada fica borrada até se transformar em um turbilhão rodopiante de frequências – o pano de fundo perfeito para os vocais vociferados de natureza indecifrável”.

Em Lords of Chaos, podemos ler em seguida : “Conforme o Bathory amadureceu ao longo dos seus álbuns seguintes, The Return ... (1985) e Under the Sign of the Black Mark (1987), a música desacelerou notavelmente, as canções ficaram mais elaboradas, e os assuntos começaram a comunicar um grau de sutileza e ambiguidade que estava a quilômetros de distância dos primeiros singles. A essa altura, ocorreu uma notável mudança de foco que, da mesma forma que o primitivismo do primeiro álbum, também influenciaria profundamente a cena black metal do futuro”.

Em 1988, o Bathory lança o álbum Blood Fire Death, com uma sonoridade ainda potente e barulhenta, mas saindo da temática de um satanismo infantilizado, e entrando na seara do paganismo com foco nos antepassados escandinavos, sendo que esta exploração de arquétipos ancestrais seria  um dos eixos centrais que inspirariam bandas de black metal que surgiriam anos depois, se tornando um componente essencial do gênero.

Em 1990 sai o álbum Hammerheart, que coloca foco na exploração da mentalidade de um praticante da religião Ásatrú na Era Viking. Ásatrú que é traduzido por “lealdade ao AEsir (o panteão de deuses nórdicos pré-cristãos), segundo o livro Lords of Chaos, “é a palavra moderna para o ressurgimento  e a reconstrução das crenças religiosas dos europeus nórdicos e teutônicos do norte do continente.

Ela é frequentemente acompanhada por um forte ódio ao cristianismo, considerado uma religião estrangeira que foi imposta aos antepassados sob ameaça de morte”. Em Hammerheart temos músicas mais longas e um vocal mais claro, com cantos corais.

Segue a narrativa de Lords of Chaos : “O último lançamento da “trilogia Ásatrú” do Bathory veio em 1991, com Twilight of the Gods, que enfatiza ainda mais os elementos musicais de composição clássica europeia.

Os temas das letras eram inspirados pelos terríveis alertas de Nietzsche sobre a doença espiritual que afetava a humanidade contemporânea. Além disso, elas continham também referências veladas às divisões da SS da Alemanha na Segunda Guerra Mundial na canção “Under the Runes”, que Quorthon admite ser uma provocação deliberada”.

E podemos encerrar a análise sobre o Bathory, aqui, com mais um trecho de Lords of Chaos : “Apesar de não estar consciente de sua própria influência, o Bathory conseguiu criar o rascunho para o black metal escandinavo em todas as suas diversas facetas :

Da cacofonia alucinada à grandiloquência melódica orquestrada : da farra nos excessos da adoração medieval ao Diabo à explorações profundas do paganismo viking : das inspirações das tradições europeias ao flerte deliberado com a iconografia fascista e nacional-socialista. Os primeiros seis álbuns do Bathory resumiriam os temas que causariam uma erupção sem precedentes na juventude da Escandinávia e de outros lugares do mundo”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/lords-of-chaos-a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-v 

 

quinta-feira, 18 de março de 2021

O COMITÊ ANTITRUSTE CONTRA AS BIG TECHS

“Mark Zuckerberg, do Facebook, Jeff Bezos, da Amazon, Sundar Pichai, do Google, e Tim Cook, da Apple, todos negaram praticar monopólio”

As big techs, incluindo aí as empresas de tecnologia norte-americanas Facebook, Apple, Amazon e Google, sofreram críticas do Congresso dos EUA, na conhecida acusação de monopólio do mercado mundial e de concentrarem muito poder econômico e comercial, desde a posse de informações, como o controle da vida das pessoas através tanto da publicidade como da previsão de comportamento de seus usuários.

Há cerca de um ano a sub-comissão da Concorrência do Congresso dos Estados Unidos da América começou sua investigação oficial das quatro big techs e de como exercem este domínio de mercado, podendo configurar ações de truste. O presidente da comissão começou as sessões de interrogatório com a acusação de que estas empresas prejudicam a democracia e impedem a concorrência de mercado.

Os CEOs destas empresas foram questionados e interrogados. Mark Zuckerberg, do Facebook, Jeff Bezos, da Amazon, Sundar Pichai, do Google, e Tim Cook, da Apple, todos negaram praticar monopólio e mercado e de anular a concorrência. Pichai e Zuckerberg foram os mais questionados pelo comitê antitruste.

O Google devido ao alcance em diversos setores, foi fortemente pressionado a se explicar, e o Facebook, com escândalos políticos, como o da Cambridge Analytica, também sofreu pressão dos interrogadores.

Ações do Facebook para anular possíveis concorrentes também foi levantado, por exemplo, na compra do Instagram pela empresa de Zuckerberg, este disse que a plataforma fundada por Kevin Systrom e Mike Krieger era um concorrente na área da fotografia, e não se via o Instagram como uma rede social.

Zuckerberg também foi questionado por ter feito ameaças a Systrom, por e-mail, dizendo que o Facebook criaria um recurso semelhante caso o executivo não aceitasse o acordo, nada muito diferente da ação destrutiva contra o Snapchat, que não fez acordo com o Facebook e sofreu as consequências. No caso do Instagram, este foi vendido para o Facebook.

Tim Cook foi questionado na posição da Apple alegar tratamento igual aos desenvolvedores e, no entanto, em um e-mail enviado por Eddy Cue, SVP de Internet, Software e Serviços da Apple, a Jeff Bezos, é discutido termos mais brandos para a inclusão do Amazon Prime Video no iOS em 2017.

Tim Cook também foi inquirido no fato da App Store ter domínio absoluto nos dispositivos Apple, pois não existe possibilidade de aquisição de um aplicativo fora desta loja oficial, ou acesso a outras lojas, e ainda temos a prática de remoção de apps que tiveram suas funções incorporadas, posteriormente, ao sistema iOS de forma nativa, quando estas funções passam a ser implementadas pelo sistema operacional.

Tal como Zuckerberg, Jeff Bezos foi pressionado por também ter feito práticas predatórias na aquisição da concorrência, como no caso da Quidsi Inc., administradora da Diapers.com e da Soap.com, empresas varejistas de vendas e entregas online.

Sendo que a Diapers.com foi fundada em 2005, e vendia fraldas e lenços umedecidos, leite em pó e outros produtos para bebês, fazendo entrega em todo o território norte-americano, e teve a sua matriz comprada pela Amazon em 2010, e suas marcas descontinuadas em 2017, com toda a sua operação absorvida pela gigante do varejo criada por Jeff Bezos.

Sundar Pichai, do Google, também foi inquirido pelo comitê antitruste, pelo domínio absoluto nos anúncios online, remoção ou redução de alcance de conteúdos em seu algoritmo de busca, e ainda temos critérios arbitrários para o que um leitor pode ler ou não ou se um site merece ser encontrado ou não.

Contudo, o maior problema que o Google enfrentou foi ter saído do Project Maven, que era um plano da empresa junto com o Pentágono, que visava o desenvolvimento de IA integrados a drones de vigilância, para uso civil de monitoramento da população e para uso militar visando a atualização dos algoritmos usados no MQ-1 Predator e outros drones.

Depois da pressão de funcionários que fizeram um abaixo-assinado, o Google abandonou o projeto. E perguntas da relação do Google com a China, por exemplo, Pichai acusou de serem acusações absolutamente falsas. O fato é que o Google continua banido da China.

No comitê antitruste temos alguns congressistas que atuaram em processos anteriores, como a da Microsoft, da quebra do Bell System, e a da antiga AT&T que foi desmembrada. Tal comitê atuou de modo a pressionar e “fritar” as big techs que entraram no radar que investiga práticas predatórias no mercado de tecnologia.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-comite-anatitruste-contra-as-big-techs 

 

 

 

 

 

 

domingo, 14 de março de 2021

O LIVRO SEXTO DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

“Com ampla temática, “Livro Sexto” tem uma dimensão formal bem desenvolvida”

O chamado “Livro Sexto” da poeta reforça este caráter descentrado, uma vez que “O Cristo Cigano” tem uma posição não-oficial na obra de Sophia, não é exatamente o sexto livro que Sophia considera na sua obra. Tal livro foi excluído da edição de “Obra poética”, de 1991, que reuniu todos os livros de Sophia.

Sophia coloca “O Cristo Cigano” numa ideia paradoxal do sagrado e sua manifestação na arte partir de uma assassinato por um escultor obcecado, a lenda aqui tenta, aparentemente, legitimar a ignomínia para a realização de um bem maior, uma obra de arte.

A poesia de Sophia, por sua vez, possui um ambiente em que a mitologia grega se projeta, criando um tipo de sentimento pagão, o mundo antigo, com seus mitos e sua geografia, ganha corpo em sua poesia.

A poesia de Sophia também é uma poesia que afirma e canta a natureza, e também avança para temas cristãos, a religiosidade aqui é um sentimento de pertencimento e não um artifício, contudo, o expurgo de “O Cristo Cigano” de sua obra oficial tem uma justificativa tíbia de motivação estritamente literária.

A construção poética de eixo cabralino que aparece em “O Cristo Cigano” é desenvolvida mais ainda para a confecção de “Livro Sexto”, e a dicção de Sophia vai se apropriando desta poética de João Cabral de Melo Neto, e o despojamento que daí advém reflete no título do livro, algo objetivo e dado, um estágio numérico da obra que estava sendo realizada pela poeta Sophia.

“Livro Sexto” intensifica, desde esta sua titulação pragmática, o eixo moderno e contemporâneo da poesia de Sophia, colocando a dicção clássica da poeta num diálogo frutífero com uma voz moderna e com a fluência contemporânea.

O título impessoal e frio de “Livro Sexto” reflete, portanto, um vocabulário espesso historicamente, e tem a riqueza simbólica reafirmada numa poética que, agora, abre um campo fértil de fluência contemporânea, com este fundo de dicção clássica que é o tom dominante do que se pode falar da poesia de Sophia.

Com ampla temática, “Livro Sexto” tem uma dimensão formal bem desenvolvida, e apresenta temas que podem contrastar entre si, a dinâmica temática do livro sempre avança e amplia seu escopo, sua abertura coloca visões e contrastes em atividade, com tempos históricos ou suspensos convivendo no mesmo livro, com regiões luminosas e de sombras se alternando nesta dinâmica da amplitude.

 

DE LIVRO SEXTO

BARCOS : O poema levanta a dimensão de nomes mortos que são renomeados, a sensação de ressurreição perpassa esta passagem destes barcos no poema : “Um por um para o mar passam os barcos/Passam em frente de promontórios e terraços/Cortando as águas lisas como um chão” (...) “E todos os deuses são de novo nomeados/Para além das ruínas dos seus templos”. De toda a ruína que ali havia, esta passagem dos barcos reaviva a memória destes templos, esta memória viva retoma o seu pertencimento, seu estatuto existencial e histórico.

MUSA : O poema evoca e invoca a musa que tem do canto antigo um ensinamento, no que temos : “Musa ensina-me o canto/Venerável e antigo/O canto para todos/Por todos entendido”. Este canto que deve ser do entendimento de todos, objeto de uma consciência comum e coletiva, no que segue : “Musa ensina-me o canto/Em que eu mesma regresso/Sem demora e sem pressa/Tornada planta ou pedra”. E a mutação em casa primitiva logo é feita, a poeta então, mais uma vez, se volta ao mar, sua dominância e culminância temática, o eixo principal de sua poética, no que temos : “Ou tornada parede/Da casa primitiva/Ou tornada o murmúrio/Do mar que a cercava” (...) “Musa ensina-me o canto/Onde o mar respira/Coberto de brilhos”. E o tempo, como um eixo existencial impassível, corta e divide a poeta, lhe atravessa, e lhe retira da casa primitiva, e a poeta se volta, novamente, à musa, pedindo que lhe ensine o canto que lhe corta a garganta. A poética de Sophia tenta, no meu ver, captar e entender este canto, a busca de sua obra se destina a isto, no que temos : “Pois o tempo me corta/O tempo me divide/O tempo me atravessa/E me separa viva/Do chão e da parede/Da casa primitiva” (...) “Musa ensina-me o canto/Que me corta a garganta”.

AS GRUTAS : O equilíbrio da justa medida é instável, a imagem da balança em que o poema se reflete, coloca o homem neste jogo em que o esplendor pousa sobre o mar, no que temos : “O esplendor poisava solene sobre o mar. E – entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido – quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente.”. E um tipo de mito da criação eclode no poema, e é a visão da poeta que aflora, no que temos :  “De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado.”. Este mito de criação, na verdade, é um movimento de renovação e recriação do mundo, e a poesia pode ser um destes agentes de transformação, no que vem : “É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.” E a poeta é atravessada por estas imagens que recriam o mundo, no que temos :  “As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim.”. O mundo se encanta de si mesmo, as coisas estão deslumbradas de serem elas mesmas, tudo brilha neste poema, e logo vem a imagem de gruta, no que temos : “Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.”. As imagens do poema são riquíssimas, podemos sentir o cheiro de maresia nestes versos e sua eloquência marítima que nos remete a uma paisagem idílica, no que vem : “Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento.”. A gruta logo se torna o mundo interior da poeta, e o poema segue : “E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu queria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.” E a poeta se volta para fora, ali o mar lhe dá o sentido todo desta balança, e a poeta chora de gratidão, como que possuída da verdade do mundo : “Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu queria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.”.

A ESTRELA : O poema tem a estrela-guia como imagem clássica, no que vem : “Eu caminhei na noite/Entre silêncio e frio/Só uma estrela secreta me guiava” (...) “Grandes perigos na noite me apareceram/Da minha estrela julguei que eu a julgara/Verdadeira sendo ela só reflexo/De uma cidade a néon enfeitada”. E as indagações e conflitos da poeta afloram nesta sua alma que se perturba, no que temos : “Do frio das montanhas eu pensei/”Minha pureza me cerca e me rodeia”” (...) “E a fraqueza da carne e a miragem do espírito/Em monstruosa voz se transformaram/Disse às pedras do monte que falassem/Mas elas como pedras se calaram/Sozinha me vi delirante e perdida/E uma estrela serena me espantava”. Entre seus conflitos e dilemas, o ponto nevrálgico do delírio, e o espanto diante da estrela, no que segue : “Então eu vi chegar ao meu encontro/Aqueles que uma estrela iluminava” (...) “E assim eles disseram : “Vem connosco/Se também vens seguindo aquela estrela”/Então soube que a estrela que eu seguia/Era real e não imaginada”. Mas a visão da poeta era real, e lhe chamaram ao caminho, no que vem :  “Grandes noites redondas nos cercaram/Grandes brumas miragens nos mostraram/Grandes silêncios de ecos vagabundos/Em direcções distantes nos chamaram”. E um mundo de novidades se abriu, as visões da poeta se fascinam, e segue : “E eu espantada vi que aquela estrela/Para a cidade dos homens nos guiava” (...) “E a estrela do céu parou em cima/De uma rua sem cor e sem beleza” (...) “Ali não vi as coisas que eu amava/Nem o brilho do sol nem o da água” (...) “Ao lado do hospital e da prisão/Entre o agiota e o templo profanado/Onde a rua é mais triste e mais sozinha/E onde tudo parece abandonado/Um lugar pela estrela foi marcado” (...) “Nesse lugar pensei : “Quanto deserto/Atravessei para encontrar aquilo/Que morava entre os homens e tão perto”. E tudo o que ela imaginava estar bem longe, como a miragem de um delírio, era o próprio mundo dos homens, na proximidade de toda vivência.

NO POEMA : O poema transfere uma vista de uma cena para dentro de seu universo, o tema simples ganha vida na limpidez do poema, no que segue : “Transferir o quadro o muro a brisa/A flor o copo o brilho da madeira/E a fria e virgem liquidez da água/Para o mundo do poema limpo e rigoroso”. O poema tenta, então, preservar esta vida iluminada da decadência e da ruína, eis o desejo expresso no poema : “Preservar de decadência morte e ruína/O instante real de aparição e de surpresa/Guardar num mundo claro/O gesto claro da mão tocando a mesa”.

FERNANDO PESSOA : O poema homenageia o prolífico e multiforme poeta português, no que temos : “Teu canto justo que desdenha as sombras/Limpo de vida viúvo de pessoa/Teu corajoso ousar não ser ninguém/Tua navegação com bússola e sem astros/No mar indefinido”. E a descrição faz do poeta o sentido que Sophia vê em seus poemas, e a homenagem reafirma a dimensão gigantesca que Fernando Pessoa ganhou na poesia mundial, no que temos : “Criaram teu poema arquitectura/E és semelhante a um deus de quatro rostos/E és semelhante a um deus de muitos nomes” (...) “Invocando a presença já perdida/E dizendo sobre a fuga dos caminhos/Que foste como as ervas não colhidas”.

O HOSPITAL E A PRAIA : A descrição fria do hospital abre este poema : “E eu caminhei no hospital/Onde o branco é desolado e sujo/Onde o branco é a cor que fica onde não há cor/E onde a luz é cinza”. E a poeta vai ao mundo, contudo, mais uma vez a natureza, praias e campos, e a imagem reinante do mar em sua poética : “E eu caminhei nas praias e nos campos/O azul do mar e o roxo da distância/Enrolei-os em redor do meu pescoço/Caminhei na praia quase livre como um deus” (...) “Não perguntei por ti à pedra meu Senhor/Nem me lembrei de ti bebendo o vento/O vento era vento e a pedra pedra/E isso inteiramente me bastava” (...) “Porém no hospital eu vi o rosto/Que não é pinheiral nem é rochedo/E vi a luz como cinza na parede/E vi a dor absurda e desmedida”. A poeta sonhava com toda a paisagem marítima, mas acorda novamente na imagem fria do hospital, o mundo da dor.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/o-livro-sexto-de-sophia-de-mello-breyner-andresen 

 

 

quarta-feira, 10 de março de 2021

OS BEATS E A CONTRACULTURA

“Os beats eram o produto de uma vivência conjunta e não de um programa de arte”

A contracultura vem a partir de uma subcultura, mas ultrapassa esta classificação, pois avança para um território de ruptura, de se tornar inconciliável com a cultura dominante. A ideia e a prática de uma contracultura estão baseadas num modelo alternativo de vivências que os modelos da tradição não são capazes de produzir e realizar.

A contracultura se molda fora do espaço institucional, por esta sua característica de oferecer algo novo, um experimento de vida e de comunidade, uma dissonância que podemos exemplificar, modernamente, na experiência norte-americana com o surgimento da geração beat, movimento que se firmou nos anos 1960.

A poesia beat se articulava diretamente com a vida, com jovens norte-americanos, a maioria concentrada em São Francisco, na Califórnia, Estados Unidos, e que cria um modelo de arte que rompe tanto com o intelectualismo como com a tecnocracia.

E na experiência de aura, no ensaio “Sobre alguns temas em Baudelaire”, de Walter Benjamin, temos uma memória involuntária, relacionada à duração de Bergson e bem exemplificada em Proust, e a aura seria quando este tipo de memória era aflorada, uma capacidade de olhar dotada a uma coisa, quando se percebe a aura. Esta experiência rica da arte com a aura se reflete também na experiência beat com a arte.

A experiência beat não se formou como vanguarda ou exatamente um movimento, pois os beats rejeitavam a ideia comum das vanguardas como movimento de arte para o progresso, uma vez que os beats refutavam este ímpeto comum das vanguardas de querer renovar o mundo inteiro.

As vanguardas foram um tipo de delírio que dominou as fantasias futuristas, surrealistas e dadaístas de programas de arte ambiciosos, e que caracterizaram a ideia mais cristalizada que temos de vanguarda, historicamente falando, estas rupturas formais que ocorreram no início do século XX, movimentos programáticos que, invariavelmente, eram insuflados por ambições mirabolantes.

Os beats, contudo, caminhavam num lugar paralelo das grandes ambições programáticas de efeito histórico transformador das vanguardas, num distanciamento em que não existia um programa pronto de arte, mas um conjunto de pessoas que viviam juntas em liberdade e que tinham gostos comuns.

Os beats eram o produto de uma vivência conjunta, e não de um programa de arte de vanguarda, daqueles tiques ingênuos que víamos nas correntes da primeira metade do século XX, o que pode ser bem exemplificado na experiência extrema do dadaísmo.

A transcendência artística é um dos objetivos dos beats, rompendo com o discurso da tradição, recusando a norma da cultura dominante, começando como uma negativa, o que vai caracterizar o que se chama de contracultura, algo bem diferente do que falamos sobre vanguardas, contracultura que se liga à vida e a uma vivência diferente da tradicional, rompendo o paradigma da vida comum e tradicional.

A contracultura não é um programa de arte, mas um conjunto de vivências que tendem a uma ideia de comunhão comunitária, de amizades comuns, de uma rede de pessoas interligadas, e a geração beat foi exatamente isto.

A contracultura rompe com todo o aparato técnico e de especialização da tecnocracia, num movimento de criação de mundos, se opondo à ordem constituída, e de todo o progresso que se baseia neste tecnicismo.

Na tecnocracia o mundo ganha subdivisões e escaninhos cada vez mais atomizados e automatizados, num movimento de repetição que é desmontado por uma criação alternativa que a contracultura oferece, e com algo além, um modelo que vai além da arte, e se liga a um novo modelo de vivência.

A contracultura também não se filia ao marxismo, tem um paradigma descentrado, desordenado, tudo é pensado por meio da ideia de comunidade, num agrupamento de afetos, fora da norma tradicional.

A contracultura vai além da luta de classes marxista, sua ruptura fundamental é com a tecnocracia, esta que é o auge e a cristalização do modelo de sociedade e de produção originado na Revolução Industrial, sendo a tecnocracia a sua forma consolidada de organização, governada por uma ideia de eficácia obsessiva que opera como um verdadeiro imperativo.

Esta ideia de comunidade dos beats, por fim, chega ao ponto da implosão e de seu fim quando, por conseguinte, no fim dos anos 1950, este movimento é subsumido pela cultura de massa, deixando para trás seu aspecto original de comunidade para se tornar uma sociedade.

E temos, contudo, o que é o caráter beat, em que o grito beat é metaforizado pelo Uivo de Ginsberg, que é o gesto, o toque, o corpo, a vida, um modelo de comportamento que é a vida beatnik, em que a geração beat ganha a sua verdadeira expressão lírica.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/os-beats-e-a-contracultura